terça-feira, 14 de agosto de 2018

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata



A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata


Ler o livro e conferir o filme é a ordem natural e desejável.  Uma obra literária quando transposta para outra arte nem sempre segue fiel ao texto original.

A curiosidade para se obter essa obra o mais breve possível fez com que o filme fosse assistido anteriormente a leitura do livro, faltando a percepção do mesmo para o caro leitor.

Quanto ao filme, surpreendente! 

Depois de "A menina que roubava livros", contar uma história em que o cenário de guerra se faz presente, se tornou um desafio pela delicadeza da obra em meio a um ambiente altamente brutal. Pois o filme A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata cumpriu o seu papel no quesito sutileza de tema.

O filme conta a história de uma escritora após receber e responder cartas de um leitor de seu livro, que se envolve com os excêntricos criadores do clube de leitura "A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata". Grupo que desafia os Nazistas com muita coragem e livros.



quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O acidente

O acidente -
Lígia Guedes Joaquim

Acostumara àquele som inquietante.

Mesmo nos momentos entre um intervalo de jornada e outro, onde rápido cochilo poderia ser feito na humilde cama naquele depósito, habituara a confiança depositada nos amigos de jornada que o despertavam para o retorno ao trabalho.

Levantara sonolento.

Naquela época do ano o trabalho aumentara consideravelmente, assim como o ritmo das máquinas.

Alcançara seu equipamento de trabalho.

Suas mãos, automaticamente, acoplavam a parte que lhe cabia naquela máquina que parecia mais acelerada que seu ritmo, naquele dia. Sabia perfeitamente que se desistisse dessa conexão seria facilmente substituído.

Procurava afastar tais pensamentos e se automatizar ao sistema.

A mão começara a tarefa com pouca agilidade mas facilmente acompanhava o ritmo, estimulado pelo forte som: straccht, vumpt, straccht, vumpt, ... à medida que o ritmo aumentava, o som era repetido com menores intervalos: straccht, vumpt, sschsss, straccht, cumppt, sschsss, straccht, vumpt, sschsss...

Os pensamentos vagavam pois o corpo já não mais o pertencia, entregue àquele equipamento. Straccht, cumpt, sschsss, straccht, cumpt, sschsss, straccht, vumppt, sschsss...

Retornar à infância.

Naquele riacho de águas claras brincavam, corriam, banhavam-se.

Straccht, vumpt, sschsss, straccht, vumpt, sschsss.

As águas por vezes amentavam o volume, especialmente se houvesse chovido em dia anterior onde a terra úmida, fresca ao redor do riacho era convite a novas brincadeiras.

Brigaram na rua, a ajuda rápida viera dos irmãos o suficiente para deixar o opositor caído ao chão. Straccht, vumpt, straccht, vumpt, sschsss, sschsss, ...

Ofegantes, novamente no riacho estavam, sem que o ponto de encontro fosse anteriormente combinado.

Straccht, vumpt, sschsss, sschsss, sschsss, ...

Sem palavras, arrancaram as camisas sujas, ensanguentadas, exatamente como visto em dias anteriores pelas lavadeiras que ali frequentavam:  straccht, lavaram as camisas, vumpt, bateram de encontro a pedra (mesmo sem saber o sentido disto), sschsss, sschsss, saíram do riacho e encontraram um local seco onde deitados o vôo de pássaros observaram, alternando com a ampla visão do céu.

Ficaram um tempo somente com o som do riacho em suas mentes: sschsss, sschsss. Aguardar... sschsss, sschsss... a secagem da roupa, sschsss, sschsss, o tempo, sschsss, sschsss, o retorno à casa, sschsss, vumpt, possivelmente pelo atalho. Sschsss, sschsss, selar o silêncio como forma de sobrevivência àquele dia.

Straccht, vumpt, sschsss, sschsss,...

Observara um pássaro fazendo voos no ar. Vumpt, vumpr, ... O pássaro se afastara sem interesse, talvez por reconhecer aqueles rostos. Como estaria aquele menino, caído ao chão, a estas horas?

STRACCHT, VUMPT!

A máquina parara.

Inúmeros colgas o observavam após ampla corrida. O som habitual fora interrompido simultaneamente ao barulho brusco por outro som não identificável: PLAAAFT!

Alguém arrancara a tomada àquela que gerava o som a que estava acostumado.

Um colorido surgira junto às engrenagens daquele que era base de seu sustento diário.

O produto não fora finalizado naquela etapa.

Ao redor, a prioridade não estava em produtos, naquele momento. Somente então percebera que sua mão fora a causa de tudo.

A partir daí, somente em casa, junto à família, poderia recordar com detalhes como tudo ocorrera.

Somente ali o choro fácil, idêntico ao daquele menino que ficara ao chão, naquela rua.



Cartas e pássaros; Lígia Guedes Joaquim, 1a. ed. - Rio de Janeiro : MDM Editora, 2015; pág. 43.



quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Cassiano Ricardo Leite


Cassiano Ricardo

Não fui quem sou, quando nasci.
Nem sei quem sou, quando amo.



1895
Nasce no dia 26 de julho, em São José dos Campos - SP

1974
Morre em 14 de janeiro, no Rio de Janeiro - RJ



Aos 10 anos, Cassiano Ricardo publicou seus primeiros versos no jornalzinho manuscrito O Ideal, que ele próprio editava na escola. E com 16 anos, lançou o primeiro livro, Dentro da noite.


Em 1923, trabalhava no jornal Correio Paulistano, quando conheceu Plínio Salgado, Menotti del Picchia e Raul Bopp, aderindo ao movimento modernista. Em 1926, lanço o livro Vamos caçar papagaios, que o incluiu entre os artífices das tendências nacionalista do Modernismo. Mas ganhou celebridade com Martim Cererê, de 1928, que, baseado em lendas indígenas, conta a origem do Brasil. Neste mesmo ano, foi nomeado para o serviço público como censor teatral e cinematográfico.

Sempre ligado à vida política do país, Cassiano Ricardo acabou sendo preso por envolvimento com a Revolução Constitucionalista, em 1932, quando era secretário do governador Pedro de Toledo. O poeta foi militante da Bandeira, grupo que lutava por "uma democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas". No ensaio "Marcha para Oeste", refere-se a Getúlio Vargas como "o homem bom governando os homens bons". Foi convidado para dirigir no Rio de Janeiro o jornal A Manhã, porta-voz do Estado Novo.

Em 1937, Cassiano Ricardo sucedeu a Paulo Setúbal na cadeira n. 31 da Academia Brasileira de Letras. A partir da publicação de Um dia depois do outro, sua poesia adquire um lirismo introspectivo, filosófico, enaltecendo a solidão e o silêncio. Manuel Bandeira viu uma renovação do poeta, "como que este, debruçando-se sobre si mesmo, tivesse descoberto as fontes mais profundas de sua inspiração". Para Péricles Eugênio da Silva Ramos, a poesia de Cassiano Ricardo chega à maturidade com A face perdida: "Reflete o estado de espírito de alguém que, já vivido, monologa na fronteira entre a vida e a morte." Homem aberto às novas idéias, o poeta acompanhou os movimentos de vanguarda dos anos 50 e 60: participou da revista Invenção e publicou dois livros na linha de pesquisas do concretismo e da poesia-práxis.

A intimidade com o poder e o fato de ter sido censor e colaborador do Estado Novo estigmatizou o poeta, criando, como observa Luíza Franco Moreira, "bons pretextos para não ler sua obra". Mas, segundo a professora, "há motivos ainda melhores para começar a leitura e fazer justiça à qualidade de sua poesia e sua prosa".




"O poema pertence a uma certa língua; a poesia, a todas as línguas."

"A palavra primitiva - não há quem o ignore - era poética por excelência, dada a origem metafórica da linguagem. Depois, já em outro estágio, passou ela a servir apenas de veículo para transmitir o conceito poético. Tornou-se descolorida, gastaa; e o que a salvava era o que o poeta tinha a dizer."

Cassiano Ricardo


"Cassiano Ricardo é um poeta intranquilo. Tem exercido a poesia como um atormentado ofício. Tem se imposto uma permanente superação de si mesmo (...). Um poeta que vestiu, com a maior humildade, todas as roupas que a emoção da vida lhe exigiu; e escolhendo um novo estilo, quase limitada a obedecer ao curso dos acontecimentos e dos ambientes, sem querer fingir de isolado ou evadido."

José Guilherme Merquior


"(Cassiano Ricardo) encontrou o seu espaço e não precisa mais refletir porque a sua própria poesia reflete para ele, reflete o mundo."

Paulo Mendes Campos


RELÓGIO

Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.



Obras do autor

POESIA: Dentro da noite, 1915; A flauta de Pã, 1917; Jardim das Hespérides, 1920; A mentirosa de olhos verdes, 1924; Vamos caçar papagaios, 1926; Borrões de verde e amarelo, 1927; Martim Cererê, 1928; Canções da minha ternura, 1930; Deixa estar, jacaré, 1931; O sangue das horas, 1943; Um dia depois do outro, 1947; Poemas murais, 1950; A face perdida, 1950; O arranha-céu de vidro, 1956; João Torto e a fábula, 1956; Poesias completas, 1957; Montanha-russa, 1960; A difícil manhã, 1960; Jeremias sem-chorar, 1964; Poemas escolhidos, 1965; Os sobreviventes, 1971.

ENSAIO: o Brasil no original, 1936; O negro da bandeira, 1938; A  Academia e a poesia moderna, 1939; Marcha para Oeste, 1940; A poesia na técnica do romance, 1953; O tratado de Petrópolis, 1954; Pequeno ensaio de bandeirologia, 1959; 22 e a poesia de hoje, 1962; Algumas reflexões sobre a poética de vanguarda, 1964; O indianismo de Gonçalves Dias, 1964; Poesia-práxis e 22, 1966.

MEMÓRIAS: Viagem no tempo e no espaço, 1970. 


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira do século XX - Volume I; Organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia



sexta-feira, 13 de julho de 2018

C. S. Lewis - As crônicas de Nárnia


C. S. Lewis - As crônicas de Nárnia 

As crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis é um livro para se ler a noite,  não somente para se criar o hábito de leitura, mas essencialmente um livro que levará os jovens a outro patamar literário.

Costumava ler uma história por noite para o meu filho na fase infantil e em determinado tempo ele passou a prosseguir sozinho com a leitura desse livro atemporal.

Parece simples mas é um livro de conteúdo aprofundado e bom para leitura adulta. Não parece ser As crônicas de Nárnia um livro infanto-juvenil tão somente.

Costumo ler a coluna "Na Estante" , de Andrea Russo Vilela, da Revista Cidade Nova e grata surpresa nesse mês de férias essa dica de leitura que transcrevo:

"Usar a imaginação para sair da realidade é uma possibilidade pulsante na infância e acredito que deva ser estimulada de todas as formas possíveis. Segundo o médico Tadeu Fernandes, membro da Associação Brasileira de Pediatria, "a imaginação estimula a criatividade, influencia o desenvolvimento cognitivo e contribui principalmente para a resolução de problemas.". Nesse sentido, a literatura infantil é um estímulo poderoso que usa a fantasia como combustível para alimentar e impulsionar o desenvolvimento do processo criativo da infância até a fase adulta.

Para este mês de férias, escolhi como bilhete de acesso ao mundo da fantasia a obra de um dos maiores escritores do gênero: Clive Staples Lewis ou C. S. Lewis (1898-1963), escritor irlandês, teólogo, professor universitário (Oxford e Cambridge), grande amigo e discípulo do memorável J.R.R. Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis). Lewis usa linguagem fácil, fluida, e uma narrativa que proporciona interação do leitor com todo o ambiente de sua obra. Seus personagens são bem construídos; alguns encantadores, outros aterrorizantes. Seus enredos reúnem criaturas fantásticas, batalhas épicas entre o bem e o mal, curiosidade, suspense, aventura, amizade e, acima de tudos, o querer bem ao outro, a integridade e a honra, ingredientes perfeitos para um bom livro juvenil. Refiro-me à saga As crônicas de Nárnia, escrita entre 1949 e 1954, obra que faz parte do cânone da literatura clássica, com mais de 120 milhões de exemplares vendidos em 68 países e traduzido em 41 idiomas. O livro apresenta as aventuras dos irmãos Pevensie: Pedro, Suzana, Edmundo e Lúcia, que, no início da Segunda Guerra Mundia são enviados pela mãe para morar na casa de um tio misterioso e solitário, com o intuito de protegê-los dos horrores da guerra.

Em um só livro, estão reunidos sete histórias: O sobrinho do Mago; O leão, a feiticeira e o guarda-roupa; O cavalo e seu menino; Príncipe Caspian; A viagem do Peregrino da Alvorada; A cadeira de prata e A última batalha. A primeira e mais conhecida delas, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, foi publicada em 1950 e se tornou um grande sucesso, incentivando o autor a criar mais seis histórias.

As crônicas são independentes; todas têm início e desfecho, mas de certo modo há uma ordem cronológica de acontecimentos. Basicamente, tudo começa quando Lúcia, a irmã caçula, descobre em um cômodo da casa de seu tio um guarda-roupa antigo que, na verdade, é um portal para o mundo de Nárnia, um exuberante país que enfrenta um terrível e prolongado inverno (quase cem anos) imposto pela falsa rainha, a Feiticeira Branca. Com a ajuda do grande e poderoso leão Aslam, os irmãos Pevensie devem derrotar a terrível feiticeira e trazer paz de volta a Nárnia e a todos os que nela habitam.

Apesar de ser dirigida ao público juvenil, a saga faz uma crítica ao mundo real, à sociedade, e leva a garotada a uma boa reflexão sobre o bem e o mal, sobre dignidade e senso de coletividade.

O tamanho sucesso dessa saga suscitou grande interesse da televisão, do rádio, do teatro e do cinema para boas adaptações. Em 2005, os Estúdios Disney lançaram O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa nos cinemas. A boa aceitação do público fez com que a sequência logo fosse encomendada: Príncipe Caspian estreou em 2008 e A Viagem do Peregrino da Alvorada saiu em 2010, pela 20th Century Fox.

As Crônicas de Nárnia nos levam a um mundo mágico, cuja luz só é perceptível enquanto somos crianças porque, à medida que crescemos, infelizmente, vamos nos dedicando cada vez menos à imaginação.

Na Estante, por Andrea Russo VilelaRevista Cidade Nova - Ano LX,  n. 7, Julho de  2018pág. 47.





domingo, 8 de julho de 2018

Rewbenio Frota - O jogador que desejava perder



Rewbenio Frota -
Que Peça eu quero ser?


Amigos dispensam apresentações, Rewbenio Frota, atua na indústria como Engenheiro e tem na escrita e no xadrez a grande paixão de vida.

Tanto que tem um endereço online: Lances Quase Inocentes


Rewbenio é autor dos livros  Que Peça eu quero ser? e O jogador que desejava perder.

O livro online O jogador que desejava perder tem venda no seguinte endereço:
https://www.amazon.com.br/jogador-que-desejava-perder-hist%C3%B3rias-ebook/dp/B07DVS1VXF/


Estou aguardando a edição impressa, de minha preferência e já coloco parecer por aqui.

É só conferir!

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Gabriel Garcia Márquez - Amor nos tempos do cólera

Amor nos tempos do cólera -
Gabriel Garcia Márquez

Um romance real com uma poesia densa e crua como só Gabriel Garcia Márquez é capaz de contar: Amor nos tempos do cólera (...). De maneira excepcional, Gabo (apelido carinhoso do autor) usa o realismo fantástico para falar sobre as relações humanas e o amor. Este colombiano que estaria com 91 anos se estivesse vivo (1927-2014) foi escritor, jornalista, roteirista, editor, ativista e político (sempre de esquerda). Tornou-se conhecido aos 40 anos, conquistou prêmios de grande relevância ao longo de sua vida, entre eles o Nobel de literatura de 1982 pelo conjunto de sua obra. Com mais de 50 milhões de livros vendidos em 36 idiomas, Gabo é mais que um grande autor, é um dos fundadores da literatura latino-americana, um ícone literário do século 20.

Amor nos tempos do cólera foi lançado em 1985 e considerado pelo autor como "a menina dos seu s olhos", talvez por ter como inspiração a história de amor proibido dos seus pais que enfrentaram e venceram a resistência da família da noiva e da distância. O romance narra o amor platônico levado ao extremo, uma paixão febril e solitária que arrastará e consumirá Florentina Ariza por mais de 50 anos. O cenário é uma cidade fictícia em algum ponto do Caribe, que em muito se assemelha à situação que a própria Colômbia enfrentou entre o final do século 19 e inicio do século 20 (guerras civis, política frágil e volátil, miséria, disseminação de várias doenças, como por exemplo, um surto de cólera que deixou milhares de mortos). Florentino é um telégrfo que, ao entregar uma carta na casa de Lorenzo Daza, encontra sua filha Fermina e se apaixona perdidamente por ela. Ao longo de dois anos estes dois jovens se correspondem por meio de inúmeras cartas de amor. Em uma delas, Florentino chega a escrever 70 páginas, até que toma coragem e pede Fermina em casamento. Os dois estão apaixonados, porém o pai dela não aceita o namoro dela com um simples mensageiro. Então, a moça é mandada para a casa de uma prima distante e, ao retornar, percebe que o que nutria por Florentino não era amot, mas uma ilusão e, sem muitas explicações, recusa ao pedido de casamento. A essa altura, o pai de Fermina, procupado com o futuro da filha a encoraja a se casar com Juvenal Urbino, um médico extremamente bem-sucedido, principalmente na época em que a doença do cólera levava boa parte da população à reclusão e à morte. Fermina se casa com Juvenal, é feliz com ele, tem filhos até seu marido falecer...

Gabo nos engana e usa a sedução de sua narrativa para nos capturar, nos arrebatar sem pressa. Ele nos deleita com sua maestria literária. Seu estilo de capítulos longos, descritivos e com poucos diálogos não é cansativo, é apaixonante. Eles nos faz odiar Florentino e, no final do livor, nos apaixonarmos por ele. Gabo nos mostra que o amor tem várias nuances: pode ser paciente, bondoso, servil, inocente, mas quando falamos de amor humanos, amor real, que, apesar do lado altruísta, também pode ser obstinado, defeituoso, covarde, invejoso, mau, louco, rancoroso, solitário, colérico.

Em 2007, Amor nos tempos do cólera foi adaptado para o cinema sob a direção de Mike Newell. O produtor do filme, Scott Steindorff, fico três anos tentando convencer Márquez a liberar os direitos do livro. Steindorff dizia a Márquez ser o próprio Florentino e não desistiria enquanto não conseguisse esses direitos. As canções do filme foram escritas pelo compositor brasileiro Antônio Pinto. Foi também o primeiro filme em língua inglesa da atriz Fernanda Montenegro.


Fonte: Revista Cidade Nova, Abril 2018, pág. 47 - Na Estante, por Andréa Russo Vilela.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Mário Quintana

Mário Quintana
Jamais compreendereis a terrível simplicidade das minhas palavras porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves...



"Descobri outro dia que o Quintana é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora." Assim Érico Veríssimo descreveu o poeta que, com apenas 13 anos, publicou seus primeiros versos na revista literária Hyloea, do Colégio Militar de Porto Alegre.

Em 1926, Mário Quintana começou a trabalhar no setor de literatura estrangeira da Editora Globo. Naquele mesmo ano, ganhou um concurso de contos do Diário de Notícias com "A sétima personagem". A partir da década de 30, passou a colaborar com o jornal O Estado do Rio Grande e a traduzir autores como Papini, Maupassant, Proust, Charles Morgan, Voltaire e Virginia Woolf.

Quintana estreou como poeta, em 1940, ao editar A rua dos cataventos, obra formada por 35 sonetos. O livro obteve boa aceitação de público e crítica no Rio Grande do Sul. Mas o poeta só ganharia repercussão nacional com seu quarto livro, O aprendiz de feiticeiro, pelo qual recebeu elogios de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e outros.

Em 1943, começou a escrever crônicas poéticas, intituladas Caderno H, na revista Província de São Pedro, que viriam a ser publicadas também no Correio do Povo, a partir de 1953, e depois reunidas em livro. "Caderno H porque todas as coisas acabam sendo escritas na última hora, na hora H, na hora final", explica Quintana.

De acordo com Gilberto Mendonça Teles, "a leitura da obra de Mário Quintana constitui um excelente modelo para um estudo desse tipo de metalinguagem interna, em que o sujeito da enunciação se volta para o próprio discurso, contemplando-o ou "contemplando" teoricamente as causas e os fatores de sua produção".

A obra multifacetada de Quintana não está vinculada a escolas literárias. O escritor utilizou as formas clássicas da poesia, como o soneto, mas também lançou mão do verso e da prosa.

Sem nunca ter se casado, o poeta morou grande parte da vida em hotéis, como o Majestic, onde viveu de 1968 a 1980, que foi tombado pelo patrimônio histórico, passando a chamar-se Casa de Cultura Mário Quintana. Humilde e avesso a entrevistas e homenagens, o poeta manteve suas atividades de tradutor e jornalista até pouco antes de morrer, aos 87 anos. A cidade de Porto Alegre parou para prestar a última homenagem ao seu poeta mais querido. Por onde passava, o cortejo com o corpo de Mário Quintana era saudado pelo povo com chuvas de papel picado, palmas e lenços brancos.


"O verdadeiro poeta faz poesia com as coisas mais simples e coriqueiras deste e dos outros mundos."

"Creio que um verdadeiro poeta, ainda que soubesse ser o único sobrevivente humano na face da terra, ainda assim escreveria poemas. Indagar para quê ou para quem? Isso aprofundaria o mistério da criação poética."

"Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas."

(Mário Quintana).


"Eis aí um poeta dito menor que sempre foi um elemento de perturbação na minha vida: Mário Quintana. Concluí um longo e pretensioso ensaio sobre o onírico com uma citação de Sapato. (...) Tudo o que dissera com abundância de autores e teorias, o poeta simplificaria numa pequena imagem de salgueiro."
                                                                                                                                            Fausto Cunha


"A poesia de Mário Quintana é decorrência da atitude autêntica de um poeta que sobrevive ao formalismo da poética vanguardista."
                                                                                                                                    Herculano Moraes


"Alguns de teus versos não precisam estar impressos em tinta e papel: eu os carrego de cor, e às vezes eles brotam de mim como se fossem meus. De certo modo, eles são meus, e hás de convir comigo que a glória de um poeta é conceder essas parcerias anônimas pelo mundo..."
                                                                                                                             Paulo Mendes Campos



A Oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.



O Auto-Retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!


Obras do autor

POESIA: A Rua dos cataventos, 1940; Canções, 1946; Sapato Florido, 1948; O aprendiz de feiticeiro, 1950; Espelho mágico, 1951; Inédiots e esparsos, 1953; Apontamentos de hist´rias sobrenatural, 1976; A vaca e o hipogrifo, 1977; Na volta da esquina, 1979; Esconderijos do tempo, 1980; Diário poético; 1985; Baú de espantos, 1985; Porta giratória, 1988; A cor do invisível, 1989; Velório sem defunto, 1990.

ANTOLOGIAS E OBRAS COMPLETAS: Poesias, 1962; Prosa e verso, 1978; Nova antologia poética, 1981. Os melhores poemas, 1983; 80 anos de poesia, 1986.

LITERATURA INFANTIL: Batalhão das letras, 1948; Pé de pilão, 1975.

CRÔNICAS E OUTROS: Caderno H, 1973; Lili inventa o mundo, 1983; Nariz de vidro, 1984; Sapato Amarelo, 1984; Da preguiça como método de trabalho, 1987; Preparativos de viagem, 1987; Sapato furado, 1994.




terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Renata Pallottini

Renata Pallottini
Renata Pallottini começou a publicar seus poemas na revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, na qual ingressou aos 17 anos. Fez também o curso de Filosofia, formando-se em 1951. Um ano depois, lançou seu primeiro livro, Acalanto. Desde muito cedo, a poesia foi, para Renata Pallottini, sua "maneira peculiar de colocar-se no mundo, de interpretá-lo, de comunicar-se com ele".

Ao se formar em Direito em 1953, abriu um escritório de advocacia, mas só exerceu a profissão por alguns anos. Na mesma época, publicou O monólogo vivo, com o dinheiro ganho em um concurso de poesia do jornal A Gazeta.

Em 1957, Renata Pallottini foi à Europa, onde conheceu Gloria Fuertes, poetisa espanhola, que muito a influenciou. Um ano depois, já na cidade portuguesa de Tavira, publicou Nós, Portugal, seu primeiro livro editado fora do Brasil. Voltou à Europa em 1959, como bolsista. Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Madri, quando se aproximou dos poetas espanhóis Gabriel Celaya, Angel Crespo e Carlos Bousono, e dos portugueses António Ramos Rosa e Egito Gonçalves.

De volta ao Brasil, matriculou-se na Escola de Arte Dramática de São Paulo. Desde então, passou a exercer atividades profissionais diversas, atuando no magistério, no teatro e na teledramaturgia. Começou a lecionar na Escola de Arte Dramática em 1964. No ano seguinte, com a comédia O crime da cabra, ganhou os prêmios Molière e Governador do Estado. Em seguida foi para a USP, onde defendeu tese de doutorado. Desses estudos teóricos resultou a publicação de Introdução à dramaturgia e Dramaturgia: construção do personagem. Renata também deu curso e aulas na Itália, no Peru e em Cuba (para onde viaja quase todo ano, desde 1988). Tradutora e roteirista de TV, participou ainda de diversas atividades na área da política cultural.

Os textos de Renata Pallottini revelam uma reflexão sobre a condição do homem e do mundo, captada com sutileza e comunicada com a força da síntese lírica. O reconhecimento de público e crítica veio com a publicação da antologia Chão de palavras, de 1977. A partir de então, a poetisa começou a participar de recitais, feitos na rua, passando a dizer seus poemas onde fosse possível. Obra poética, de 1995, omite seus dois primeiros livros, considerados imaturos pela autora.

Em todas as atividades a que se dedica, Renata Pallottini se diz "fundamentalmente, visceralmente poeta", por encontrar na poesia seu "chão mais rico e fecundo onde se fincam suas raízes artísticas".



A PALAVRA AMOR

A palavra amor
honesta e escassa
sem outros afagos
sem outros adornos

simples e amarga
que não impelida
que não justaposta
justa e arrancada

da terra da carne
da carne da alma
terra silenciosa
que se esfarelasse

seca e despojada
a palavra exata
amor sem mais nada
amor imesclado

amor mais amado
e feito palavra.
A palavra amor.
Dita e sepultada.


Obras da autora
POESIA: Acalanto, 1952; O cais da serenidade, 1953; O monólogo vivo, 1956; A casa, 1958; Nós, Portugal, 1958; Livro de sonetos, 1961; A faca e a pedra, 1965; Antologia poética, 1968; Os arcos da memória, 1971; Coração americano, 1976; Chão de palavras (antologia), 1977; Noite afora, 1978; Cantar meu povo, 1980; Cerejas, meu amor, 1982; Ao inventor das aves, 1988; Esse vinho vadio, 1985; Praça maior, 1988; Obra poética, 1995; Os loucos de antes, 2000.

PROSA: Mate é a cor da viuvez (contos), 1975; Nosotros (romance), 1995; Ofícios & amargura (romance), 1998.

ENSAIOS: Introdução à dramaturgia, 1983; Dramaturgia: construção do personagem, 1989; Cacilda Becker (biografia), 1997;  Dramaturgia de televisão, 1998.

OUTRAS: Escorpião de Numância (teatro), 1969; Pequeno teatro (teatro), 1970; Tita, a poeta (infantil), 1984; O mistério do esqueleto (infantil), 1985; Colônia Cecília (teatro), 1987; Café com leite (poesia - infantil), 1988; Do tamanho do mundo (infantil), 1993; Anja (poesia - infantil), 1997; Sempre é tempo (infantil), 1998.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - Volume II, pág. 119.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta

"Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las."

Anderson Braga Horta começou a conviver com a poesia ainda na infância, pois seus pais eram poetas. Entretanto, só desenvolveu o gosto pela literatura depois que se mudou para a casa dos aós, em Manhumirim, cidade próxima de Laginha, onde ficara sua família. O entusiasmo pela poesia foi despertado pelo "estonteante mergulho na poesia de Castro Alves, especialmente no Navio Negreiro". Posteriormente, a leitura das obras de Olavo Bilac, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimaraens e Augusto dos Anjos ampliou seu horizonte literário. Outros integrantes de sua "salada de versos": Camões, Guerra Junqueiro, Pessoa e Drummond.

O poeta vê três fases distintas em sua poesia: A primeira, "ancorada na tradição, do clássico ao romântico, do parnasiano ao simbolista"; a segunda, "a do descobrimento da poesia contemporânea (modernistas e pós ou neomodernistas), fase em que se manifestaram explosivamente as inquietações filosóficas, religiosas e sociais"; e a terceira, "atual, a fase pública, inciiada com a edição do primeiro livro solo, em 1971", onde aparecem ainda resquícios das anteriores.

Apesar de ter publicado poucos livros ao longo das duas últimas décadas, no ano 2000 o poeta colocou no mercado três obras poéticas: Quarteto arcaico, Pulso e Fragmentos da paixão, com o qual disputaria o prêmio Jabuti. E é cheio de esperanças que Anderson Braga Horta chega ao século XXI: "Direi o que desejo ver florir: uma poesia livre e desassombrada, isenta de preconceitos rançosos ou supostamente progressistas; capaz de tocar com virtuosismo todos os instrumentos, desde os tradicionais até os de recente criação, sem reacionarismo e sem a novidadeirice de soit disant vanguardistas; uma poesia em que a palavra seja vista em todas as suas faces, utilizada em todas as suas potencialidades, fônicas, visuais e sinestésicas, denotativas e conotativas, significativas e musicais."


ÓRFICA

I

Que ser é esse de que o céu se espanta?

O corpo esquartejado
levam-no os rios, bebem-no os mares,
vai com o vento nos ares.
Faz-se terra na terra.
Torna-se nada em todos os quadrantes.

Mas a cabeça canta.


II

Que corpo é esse
                               arcaico
animado de um fogo
               entre o sagrado e o laico?
Corpo que se destroça,
fogo que se levanta.


III

Ai, o corpo se esfaz em limo, em lama.
As pernas, extintas, erram por seiva.
As mãos, arrancadas, crispam-se por frutos.

Mas a cebeça
                      canta!


Obras do autor
POESIA: Altiplano e outros poemas, 1971; Marvário, 1976; Incomunicação, 1977; Exercícios de homem, 1978; Cronoscópio, 1983; O cordeiro e a nuvem (antologia poética), 1984; O pássaro no aquário, 1990; Auto das trevas, 1997; Dos sonetos na corda de sol, 1999; Fragmentos da paixão, 2000; Quarteto arcaico, 2000.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ribeirão Preto - SP


Ribeirão Preto (SP)

Ribeirão Preto (SP)

Ribeirão Preto (SP)
Estive em Ribeirão Preto (SP) nas férias de inverno.

Encantada com a organização, o profissionalismo e o senso de respeito nas relações interpessoais de atendimento ao cliente seja em estabelecimento de pequeno ou grande porte, seja em uma fila de museu ou em um shopping.

Linda cidade!

sábado, 23 de setembro de 2017

Jorge Luis Borges

200 años de poesía argentina -
Jorge Monteleone

Jorge Luis Borges nació en Buenos Aires en 1899. Obra poética: Fervor de Buenos Aires, 1923; Luna de enfrente, 1925; Cuaderno San Martín, 1929; El hacedor, 1960; El otro, el mismo, 1964; Para las seis cuerdas, 1965; Elogio de la sombra, 1969; El oro de los tigres, 1972; Obras completas, 1974; La rosa profunda, 1975; La moneda de hierro, 1976; Historia de la noche, 1977; La cifra, 1981; Los conjurados, 1985. Cuentista y ensyista de vasta influencia en la literatura occidental del siglo XX. Falleció em Ginebra, Suiza, en 1986.


FUNDACIÓN MÍTICA DE BUENOS AIRES

 Y fue por este río de sueñera y de barro
que las proas vinieron a fundarme la patria?
Irían a los tumbos los barquitos pintados
entre los camalotes de la corriente zaina.

Pensando bien la cosa, supondremos qeu el río
era azulejo entonces como oriundo del cielo
con su estrellita roja para marcar el sitio
en que ayunó Juan Díaz y los indios comieron.

Lo cierto es que mil hombres y otros mil arribaron
por un mar que tenía cinco lunas de anchura
y aún estaba poblado de sirenas y endriagos
y de piedras imanes que enloquecen la brújula.

Prendieron unos ranchos trémulos en la costa,
durmieron extrañados. Dicen que en el Riachuelo,
pero son embelecos fraguados en la Boca.
Fue una manzana entera y en mi barrio: en Palermo.

Una manzana entera pero en mitá del campo
expuesta a las auroras y lluvias y suestadas.
La manzana pareja que persiste en mi barrio:
Guatemala, Serrano, Paraguay, Gurruchaga.

Un almacén rosado como revés de naipe
brilló y en la trastienda conversaron un truco;
el almacén rosado floreció en un compadr,
ya patrón de la esquina, ya resentido duro.

El primer organito salvaba el horizonte
con su achacoso porte, su habanera y su gringo.
El corralón seguro ya opinaba YRIGOYEN,
algún piano mandaba tangos de Saborido.

Una cigarrería sahumó como una rosa
el desíerto. La tarde se había ahondado en ayeres,
los hombres compartieron un pasado ilusorio.
Sólo faltó una cosa: la vereda de enfrente.

A mí se me hace cuento que empézo Buenos Aires:
la juzgo tan eterna como el agua y el aire.


POEMA DE LOS DONES

Nadie redaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que cedem

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esa alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente.
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

 Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
 Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.


LA LLUVIA

Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerre venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto

patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.


LÍMITES

Hay una línea de Verlaine que no volveré a recordar.
Hay una calle próxima que está vedada a mis pasos,
hay un espejo que me ha visto por última vez,
hay una puerta que he cerrado hasta el fin del mundo.
Entre los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano cumpliré cincuenta años;
la muerte me desgasta, incesante.

De Inscripciones, de Julio Platero Haedo (Montevideo, 1923)


POEMA CONJETURAL

El doctor Francisco Laprida, asesinado el dia 22 de setiembre de 1829 por los montoneros de Aldao, piensa antes de morir:


Zumban las balas en la tarde última.
Hay viento y hay cenizas en el viento,
se dispersan el día y la batalha

deforme, y la victoria es de los otros.
Vencen los bárbaros, los gauchos vencen.
Yo, que estudié las leyes y los cánones,
yo, Francisco Narciso de Laprida,
cuya voz declaró la independencia
de estas crueles provincias, derrotado,
de sangre y de sudor manchado el rostro,
sin esperanza ni temor, perdido,
huyo hacia el Sur por arrabales últimos.
Como aquel capitán del Purgatorio
que, huyendo a pie y ensangrentando el llano,
fue cegado y tumbado por la muerte
donde un oscuro río pierde el nombre,
así habré de caer. Hoy es el término.
La noche lateral de los pantanos
me acecha y me demora. Oigo los cascos
de mi caliente muerte que me busca
con jinetes, con belfos y con lazas.
Yo que anhelé ser otro, ser un hombre
de sentencias, de libros, de dictámenes,
a cielo abierto yaceré entre ciénagas;
pero me endiosa el pecho inexplicable
un júbilo secreto. Al fin me encuentro
con mi destino sudamericano.
A esta ruinosa tarde me llevaba
el laberinto múltiple de pasos
que mis días tejieeron desde un día
de la niñez. Al fin he descubierto
la recóndita clave de mis años,
la suerte de Francisco de Laprida,
la letra que faltaba, la perfecta
forma que supo Dios desde el principio.
En el espejo de esta novhe alcanzo
mi insospechado rostro eterno. El círculo
se va a cerrar. Yo aguardo que así sea.

Pisan mis pies la sombra de las lanzas
que me bucan. Las befas de mi muerte,
los jinetes, las crines, los caballos,
se ciernen sobre mí... Ya el primer golpe,
ya el duro hierro que me raja el pecho,
el íntimo cuchillo en la garganta.


BUENOS AIRES

Y la cuidad, ahora, es como un plano
de mis humillaciones y fracassos;
desde esa puerta he visto los acasos
y ante ese mármol he aguardado en vano.
Aquí el incierto ayer y el hoy distinto
me han deparado los comunes casos
de toda suerte humana; aquí mis pasos
urden su incalculable laberinto.
Aquí la tarde cenicienta espera
el fruto que le debe la mañana;
aquí mi sombra en la no menos vana
sombra final se perderá, ligera.
No nos une el amor sino el espanto;
será por eso que la quiero tanto.



JUAN LÓPEZ Y JOHN WARD

Les tocó en suerte una época extraña.
El planeta había sido parcelado en distintos países, cada uno provisto de lealtades, de queridas memorias, de un pasado sin duda heroico, de derechos, de agravios, de una mitología peculiar, de próceres de bronce, de aniversarios, de demagogos y de símbolos. Esa división, cara a los cartógrafos, auspiciaba las guerras.
López había nacido en la ciudade junto al río inmóvil; Ward, en las afueras de la cuidad por la que caminó Father Brown. Había estudiado castellano para ller el Quijote.
El otro profesaba el amor de Conrad, que le había sido revelado en una aula de la calle Viamonte.
Hubieran sido amigos, pero se vieron uns sola vez cara a cara, en unas islas demasiado famosas, u cada uno de los dos fue Caín, y cada uno, Abel.
Los enterraron juntos. La nieve y la corrupción los conocen.
El hecho que refiero pasó en un tiempo que no podemos entender.




Fonte

200 años de poesía argentinaedición literaria a cargo de Jorge Monteleone. - 1a ed. - Buenos Aires: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 2010. 1008 p. ; 24 x 15cm, antologia poética argentina, pura poesia; pássaro a cantar o amor revelado através da diversidade cultural de seus autores na argentina.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Macaé - RJ - Brasil













Praia dos Cavaleiros e praia Campista na cidade de Macaé (RJ), Brasil.

Cidade conhecida como a "Princesinha do Atlântico" de belezas sem fim: mar, serra, rios, cachoeiras.

Na década de 70 chegou a indústria do petróleo e na Bacia de Campos passou a produzir 80 porcento de produção nacional.

Ao fundo a minha imagem preferida de minha terra natal que tento imortalizar em minha mente porque em meu coração já o está: as ilhas de Sant' Anna, Papagaio e Francês.


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