Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Na Porta de Damasco


Amiga,
Hoje se a estrada está bifurcada,
bom sinal,
a porta foi atravessada.
Novas paisagens por vislumbrar.
Nada é fácil.
Necessário somente:
disposição para caminhar.
Nada posso te oferecer.
Entretanto,
tuas lágrimas preferidas, contagiadas,
posso te devolver.
Que ela se junte
a tantas outras que virão...
Seja por alegria
ou frustração
por simplesmente,
se permitir
viver,
se permitir
sonhar,
mesmo,
com os pés
aqui
na
Terra.

"Na Porta de Damasco
Allan K.Filho/Alexandre/Sérgio
Tom: A
A7+ D7+
(Senhor em Seu nome) BIS
Bm E A7+
Eu falava às pessoas, jogava as sementes
D7+ A7+ D7+
Plantava e colhia paz, mas sentia falta de algo mais.
Bm E A7+
Eu fazia quase tudo e hoje tudo é quase nada
D7+
Frente à obra e seu criador;
A7+ D7+
Sinto, não sabemos dar valor
Bm E A7+ Em
Faltava-me mudar / E tentar me melhorar
D7+
E tentar me conhecer, Senhor
Bm E A7+
Ser mais um em seu rebanho a caminhar REFRÃO
Em D7+
Não me cabe só falar, também cabe agir e me tornar
Bm E A7+
Um instrumento Seu a melhorar
A7+ D7+
( Senhor em Seu nome ) BIS
Bm E A7+
Eu fazia muitos planos mas os anos seguem em frente
D7+ A7+ D7+
E nos fazem ver quem somos / Cometemos mil enganos
Bm E A7+
Eu queria ser o leme mas agia como âncora
D7+ A7+ D7+
Retardando meu caminho / Sou o meu próprio espinho
(REFRÃO)"


Fonte: http://mocidadevicentedepaulo.wordpress.com/musicas/

Andorinhas



"Tristes mares de andorinhas
que voam mais do que dantes...
Batem asas, tão sozinhas,
apontando os navegantes.

Asas cinzas e dormentes,
em busca de um vôo igual...
Só tu sabes, só tu sentes,
só tu vês, ó Portugal!

Tristes mares que eram moucos
aos gritos da solidão...
Todos os versos são poucos
no vira do Minho então.

Asas cinzas e dormentes,
em busca de um vôo igual...
Só tu sabes, só tu sentes,
só tu vês, ó Portugal!

Asas plenas e secretas,
no vira do Minho em flor...
Tu - Portugal dos poetas -
tu és berço, nau e dor.

Asas cinzas e dormentes,
em busca de um vôo igual...
Só tu sabes, só tu sentes,
só tu vês, ó Portugal!

Andorinhas, andorinhas,
pelos mares foragidas...
Algumas pousam nas vinhas!
Outras dormem nas ermidas!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - metáforas da alma)
Imagem: Carla Guedes - praia Quissamã/RJ/Brasil

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Desenhos (Centreville - VA)



"Eu, poeta, que procuro
matar a sede dos outros
enquanto a morte não chega,
descuidei-me de mim mesmo;
e hoje vejo meu poço
necessitando de chuva.

Mas há nuvens indo e vindo
pelas colinas mais altas
do céu que meus olhos vêem...
Algumas delas - suponho -
cairão em minha língua
no tempo certo e propício.

Nasci no ontem mais breve
e dele não sinto falta.
Talvez a minha existência
subsista na Poesia
por causa de afinidades
infinitas. Tudo é agora!

Tudo é agora! Não me iludo!
Dentro de mim mora um anjo,
o meu melhor confidente.
E quando falo o que sinto,
o anjo me beija a boca
e adormeço em suas asas."


(Paulo Roberto de Aquino Ney - metáforas da alma)
Imagem: Gilberto Athayde

Dados Biobibliográficos: Pertence ao Instituto Campista de Literatura, à Academia Campista de Letras e à Academia Fluminense de Letras, para onde foi eleito por unanimidade e por indicação da Academia Brasileira de Letras. Por duas vezes foi presidente do Instituto Campista de Literatura.
O DR. Austregésilo de Athayde comparou-o aos poetas Padre Antônio Thomaz e Raimundo Correia, acrescentando ainda que o poeta campista formava entre os melhores sonetistas do país. A seu convite, frequentou a Academia Brasileira de Letras durante alguns anos, lugar onde fez duas conferências e apresentou inúmeros trabalhos seus.

Êta passeio bom...

Sim, senhorita, vamos visitar o 'Memorial Machadinha' sim.

Não senhora, o cumpadre deve que foi prá 'Flip' e esqueceu de avisar.
Continuo seguindo pela esquerda...


Estamos é indo é pra outras andanças.
Adepois a gente volta prá contar.

Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Nossa, senhora!

Com licenças... senhoras...viram o cumpadre...(*)

Nossa Senhora Aparecida!

Nossa, senhora... pois é certo que tô procurando o cumpadre sim.(**)

Deve que seja de outro cumpadre...(***)

Olhe, estão chamando... preciso mesmo ir... e o passeio nem começou...


(*) Bazar social - informação coletada no local.

(**) "Lustre: Feito por mulheres artesãs do município de Quissamã utilizando a fibra de palha de coqueiros - Casa de Artes Machadinha." "Quissamã, com seus artistas africanos e brasileiros, não foge à regra.
No projeto (***) "Arte de Fibra, encontra soluções harmoniosas com a natureza para produzir objetos verticalizados ou circulares com a fibra de coco, iluminados, que fazem de forma direta uma ligação entre homem e habitat, estreitando assim os laços transcendentais da terra e do céu."

Fonte: Livro "MACHADINHA: origem, história e influências"/Leonardo de Vasconcellos Silva/Organização - 1a. Edição - Quissamã - Rio de Janeiro - EDG Editora Gráfica Ltda-ME - 2009, artigo 'Influências', pág 102, "Brasileiros no Olhar; africanos no sentir, Fernandes, Raquel - Complexo Cultural Fazenda Machadinha - Quissamã - RJ - Brasil

Imagem: Carla Guedes
Texto: Josefa

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Tudo Passa - O Olhar fica/Casa de Artes Fazenda Machadinha

"Madame, a senhoraaa...O cumpadre...Nem ouviu

O jeito vai ser ir olhar...

Ohhhh...

Hummmmm...

Ehhhhhhh...

Ihhhhhhh...Tudo passa!


Imagem: Carla Guedes
Texto: Josefa

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Esperando Cumpadre

Deve que tem gente em casa...as janelas estão abertas.

O cumpadre vai perguntar? Tá bom então, esperamos aqui.

Esperando o cumpadre...eis a questão...

Já meditei por mais três gerações...



Imagem: Lis Guedes e Carla Guedes
Texto: Josefa

Domingo, 12 de Julho de 2009

Sobremesa Cultural

Bora crianças! Adepois ocês montam uma casa na árvore que o cumpadre tá convidando para um passeio e quando o cumpadre convida, é porquê o dia vai ser por demais de bom!

Caminhando a só uma hora e as paisagens não deixam de surpreender, cumpadre...

É por bonito demais...Aquela nuvem...camelo, dinossauro...tudo é possível em se tratando de nuvem.

não cansam as vistas de olhar tamanha beleza.

"Este canal foi construído desde 1844 e foi a maior obra de engenharia do Brasil em execução", cumpradre? E só "terminou definitivamente só em 1872".
O que diz, cumpadre, que "o canal só funcionou até 1875"? Ah, sim, "chegou o transporte ferroviário ligando as cidades de Campos e Macaé". Pra preservar a natureza que o canal parou de funcionar... assim tá certo por demais! E esta amizade Campos-Macaé vai ficar prá sempre eternizada, iniciada neste canal.


Agora entendi, cumpadre. Estamos em meio ao 'Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba". Andar assim no meio do ambiente é por demais de bom.

Acho melhor o cumpadre seguir como sempre pela direita que continuo pela esquerda. Que diferença, cumpadre... qualquer caminho é mesmo o da natureza...

Agora parece que estamos chegando...

Vez por outra é importante sentar e imaginar, cumpadre...mesmo sem compreender...vixi...


Fonte: Livro "Memória Visual e Afetiva de Quissamã - Museu Casa Quissamã, 2006 - Prefeitura Municipal de Quissamã", por Leonardo de Vascondellos Silva e dados do acervo "Espaço Cultural José Carlos Barcellos".
Imagens: Carla Guedes

Sábado, 11 de Julho de 2009

Anoitecência



"Se tu fosses minha,
eu te faria forte
de solidão e fuga,
e converteria em mármore
a árvore do sonho,
e ela daria frutos pelo tempo,
e eles seriam sempre!
Se tu fosses minha,
eu te ouviria o silêncio
e sopraria o breu dos olhos teus
com força de poesia,
e ela seria sangue!
Se tua fosses minha,
eu repousaria em teu corpo
à semelhança da flor
quando o sol se põe,
e além do céu mais longe
o meu olhar diria
(em voz de luz)
confissões inconfessáveis,
e elas seriam sábias!
Se tu fosses minha,
eu daria passagem
ao teu contorno morno,
e cada teu grão de pele
não faria falta
na imensidão do vôo,
e ele seria pleno!
Se tua fosses minha,
eu te ergueria um brinde
na minha anoitecência,
e, como sombra,
eu seguiria a tua,
e elas se fartariam!


(Paulo Roberto de Aquino Ney)

"Seu poema 'Anoitecência', em português e na tradução para o inglês feita por Walter Haller Jr., foi capa da revista "BRAZIL LINK" em 1990, Philadelphia.

Citado com destaque no jornal "O GLOBO" de 25.09.88 (Ibraim Sued), no "THE NEW YORK TIMES" (suplemento em espanhol e português) de fevereiro de 1990, e nas coletâneas NA TABA DOS GOYTACAZES, de Hervê Salgado Rodrigues, e RECORTES DA MEMÓRIA MUSICAL DE CAMPOS (1839-1965), de Vicente Marins Rangel Junior, foi incluído em "A NOTÍCIA" de 29.12.99 entre as "PERSONALIDADES CAMPISTAS QUE MARCARAM O SÉCULO XX"."

(Fonte: DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS de Paulo Roberto de Aquino Ney).

Era uma vez...


um menininho que gostava muito de dinossauros...
e ficou a matutar...


Imagem: mãe coruja...

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

E tenho Flip!



"Em terra de cego, quem tem um olho é flip!
Dito Flip? São outros quinhentos, cumpadre. Quem convida dá banquete!
Pois se santo de casa não faz milagre, comadre.
Olho por olho, dente por dente.
Nessa, nem água mole em pedra dura...
Deixa estar, casa de ferreiro o espeto é de pau.
Quem pode, pode, comadre, quem pode, pode..."


(Josefa)

Flip! São outros ditos, ou seriam gripes? Vale conferir!... enquanto isto, "Vou-me embora pra Pasárgada..."

Imagem: Lígia Guedes (sem óculos)

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Vitral



"A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto,
de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços
ficando buracos,
irreversíveis.
Os cacos se perdem
por aí.
Às vezes eu encontro
cacos de vida
que foram meus,
que foram vivos.
Examino-os atentamente tentando lembrar
de que resto faziam parte.
Já achei caco pequeno e amarelinho
que ressuscitou
de mentira, um velho amigo.
Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens
um beijo antigo.
Houve um caco vermelho
que muito me fez chorar,
sem que eu lembrasse
de onde me pertencera."


(Maria Antônia de Oliveira, por Rubem Alves - Transparências da eternidade)
Imagem: Carla Guedes - Praia João Francisco - Quissamã/RJ/Brasil

Sem contabilidade

"Nós. Casas. Vão-nos pintando pela vida afora até que memória não mais existe do nosso corpo original. O rosto? Perdido. Máscara de palavras. Quem somos? Não sabemos. Para saber é preciso esquecer, desaprender."

(Rubem Alves - Transparências da eternidade)



"O essencial é saber ver [...]
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender [...]

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos."


(Alberto Caieiro, por Rubem Alves - Transparências da eternidade)
Imagem: Carla Guedes - Museu Casa Quissamã - Quissamã/RJ/Brasil

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Pai-Nosso... Mãe-Nossa...


"Pai...Mãe...de olhos mansos,
Sei que estás invisível em todas as coisas.
Que o teu nome me seja doce, a alegria do meu mundo.
Traze-nos as coisas boas em que tens prazer:
o jardim, as fontes,
as crianças,
o pão e o vinho,
os gestos ternos, as mãos desarmadas,
os corpos abraçados...
Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo,
Desejo cujo nome esqueci... mas tu não esqueces nunca.
Realiza pois o teu desejo para que eu possa rir.
Que o teu desejo se realize em nosso mundo,
da mesma forma como ele pulsa em ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje:
O pão, a água, o sono...
Que sejamos livres da ansiedade.
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros
Como os teus o são para conosco.
Porque,
Se formos ferozes,
Não poderemos acolher a tua bondade.
E ajuda-nos
Para que não sejamos enganados pelos desejos maus.
E livra-nos
Daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.
Amém."


(Rubem Alves - Transparências da Eternidade)
Imagem: Lígia Guedes

Reis/Pessoa/Alves: Mestre


"Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras
E os olhos cheios
De Natureza..."


(Ricardo Reis/Fernando Pessoa, por Rubem Alves - Transparências da eternidade)
Imagem: Carla Guedes

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Como votar...

Devido ao retorno de alguns amigos da dificuldade de concluir a votação no TOP BLOG, aqui, um pequeno roteiro:

1 - Acessar o selo branco, à direita, no canto superior do blog
(veja este exemplo - não é o selo/link):

2 - No portal do Top Blog, estará visível:
- um link para entrar no blog
(não entre - pelo menos durante o processo de votação);
- um círculo lilás, à direita, escrito embaixo 'VOTAR NESTE BLOG' (acesse!);

- pronto, já estará no processo de votação;

3 - Siga as instrução (2 perguntas - nome e e.mail) e;
- receberá finalmente um e.mail onde, ao acessar, estará confirmando o voto.

Votar, parece complicado, demorado mas na verdade, não é, como todo processo democrático. Basta exercer seu direito.

Boa votação!

Bandeira do Brasil



"Verde, sai destas matas seculares
que descobriram num formoso abril...
Ergue-te, forte, em todos os lugares
por onde se ouve o nome do Brasil.

Preserva-te, amarelo, nos altares
desenhados em mágico perfil;
neles dormem teus anjos tutelares,
à sombra de uma cruz... e de um fuzil.

Regozija-te azul, ventre do branco.
A paz que geras é uma paz feliz.
Mas cuidado, estrangeiro ou saltimbanco:

aquele branco não foi feito a giz!
Os seus dizeres são de um povo franco!
Já correu sangue nesse meu País!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - metáforas da alma)
Imagem: Praça em Quissamã/RJ/Brasil

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Paulo Roberto de Aquino Ney/HOMEM

Apresentar o poeta 'Paulo Roberto de Aquino Ney', maior desafio surgido até então, neste singelo espaço.

Já dizia nosso caro Fernando Pessoa no primeiro tópico aqui inaugurado:

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.”

Aleatoreamente, abro uma página de seu livro e surge a resposta desejada: HOMEM. Acrescento: homem, simplesmente. Aquele que sabe genializar em um mundo complexo, o essencial: metáforas da alma.

Saber-se reconhecido pelo meio acadêmico, a nível regional, nacional ou internacional, desnecessário. Certamente valoriza o carinho obtido com estas homenagens, pois o que vai além disto, excesso como o mesmo já declarou:

"Não me importa a fortuna,
nem o aplauso,"


A grande rede é um espaço pouco para a grandeza deste nobre poeta que aqui recebe singela homenagem.



"Homem, seja qual for a tua sina,
acostuma-te à humana desventura,
pois não passas de simples criatura
embrionariamente pequenina.

Mal tua forma orgânica termina,
começa, às vezes presto, outra clausura;
e assim, de sepultura em sepultura,
perfazes algo na amplidão divina.

Não gastes, amiúde, os teus fosfatos!
Cede à força da lógica e dos fatos
e a evidência da tua pequenez!

Mas se acaso tudo isso ainda for pouco,
rasga os teus alfarrábios feito um louco
e faze dos meus versos tuas leis!"



Metáforas da Alma: poemas/Paulo Roberto de Aquino Ney, Campos dos Goytacazes, RJ: Editora da Academia Campista de Letras, 2004.
Capa/arte do Metáforas da Alma: Genilson Paes Soares

Outras obras do autor:
Estrelas de meu céu/1965; Reminiscências/1984; Degraus de Pedra/1985; Sargaços/1988

Imagem: Lígia Guedes - Carapebus/RJ/Brasil

Domingo, 5 de Julho de 2009

Escritório, é fogo!

Bombeiro! Alô, bombeiro!
Trote já a esta hora...Pronto, bombeiro.
Bombeiro, está pegando fogo no escritório!
Faz o seguinte: desligue e ligue novamente. Tenha um bom dia.
Não vou conseguir... O fogo está vindo! Bombeiro, não desliga!...
Então corra... Vou continuar aguardando. Passar bem!
Bombeiroooo...
Ora veja, vai trabalhar, minha filha!
Estou tentando... Alôooo....

Patrão! Patrão! Cadê o patrão?
Aqui, na calçada! Corra! Salve-se!
O bombeiro, patrão! Juro que tentei... Acho que ele não vem.
Se acalme! Nâo saia daqui. Vou ao banco verificar o seguro...
A bolsa...
Estão todos a salvo, que importa a bolsa?
A salvo estamos? Ainda teremos emprego?

Asdfg, asdfg, asdfg, ...
Acorda!
Acabara de acordar. Cabisbaixa continuava na carteira escolar, onde minhas idéias confusas estavam, especialmente naquele dia em que conseguira fato inédito: ganhara e perdera meu primeiro trabalho em escritório em um único dia.

Desta vez, literalmente, meus sonhos foram por água abaixo junto às chamas que pude vislumbrar sobre a mesa daquele escritório queimando tanto a bolsa quanto minha identidade e carteira de trabalho.

Asdfg, asdfg,...

Como explicar ao mestre que cruzara meu olhar nada satisfeito já esperando por uma longa estória que não estava interessado ouvir... Podia ler em seus olhos tanto quanto o resultado daquela contabilidade que não conseguia fechar, necessitando de interminável aperfeiçoamento.

Acordara em meio à aula...Jamais aprenderia... Repetente talvez...

Definitivamente: contabilidade é matéria difícil de se compreender!


(Maria Brasileira)

Sábado, 4 de Julho de 2009

A primeira mentira (construindo...)

"Passos no corredor...
Fora descoberta!
Interromper aquele ato prazeroso, naquela inesquecível tarde, única alternativa possível.
Poucos segundos teria para abrir a porta com a decisão que, apesar da pouca idade, já o sabia caso a escolha fosse errada: difícil seria o caminho de retorno.
Bifurcação de caminho...
Inevitável não recordar a ida àquela casa amarela, a duas quadras somente, onde um rapaz alto entonava 'boa tarde', sendo acompanhada pela jovem que residia a esquerda da nova moradia, autora da idéia de ali estar sempre às terça-feiras, quando tudo iniciara.
Só o tempo permitiria compreender porque o encanto da jovem amiga se desfazia tão logo alcançávamos a primeira esquina vencida retornando da caminhada trazendo além do eco da bela voz, uma sacola contendo precioso material, estoque imprescindível a vencer os próximos sete dias.
Conforme previra, o conteúdo a ser compartilhado cada vez mais ficara de uso exclusivo, fato que justificava não ter que dividir a surpresa encontrada naquele dia e a certeza: mero acaso, engano, diria.
'Ande logo, os clientes estão chegando', dissera a voz se distanciando, interrompendo os pensamentos.
'Hoje não posso, estou estudando', foi respondido.
Pronto, o início de um longo caminho se formara.


(Maria Brasileira)

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

100 Top! (67704 - 100 = 67604)




Você já acessou o Top Blog hoje?

Já está disponível o 100 Top.
A lista dos (67704 - 100 = 67604) blogs menos votados, em 02.09.2009
A lista dos (67935 - 100 = 67825) blogs menos votados, em 04.09.2009
A lista dos (68015 - 100 = 67915) blogs menos votados, em 05.09.2009
A lista dos (68872 - 100 = 68772) blogs menos votados, em 06.09.2009
A lista dos (69177 - 100 = 69077) blogs menos votados, em 11.09.2009
A lista dos (69342 - 100 = 69242) blogs menos votados, em 14.09.2009

Confira se o seu está lá...

(mas ainda há tempo de votar...)

Boa sorte!
Abraços!

100 saúde...
100 humor...
100 sustentabilidade...
100 política...
100 Variedades...
100 Celebridades...
100 Tecnologia...
100 Música...
100 Games...
100 Esportes...
100 Culinária...
100 Comunicação...
100 Cultura!

Lista:

100 CULTURA!
Nós Todos Lemos - presente!

Obs.: 100 patrocínio, 100 patrocinar...
Ressalva: incluído! 24h em 15.07.2009, 16.07.2009

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Tema



"Sonhar completamente é como
penetrar em castelos medievais
e vestir armaduras...
arremessar lanças...
cavalgar corcéis...
Sonhar completamente é como
pintar capelas sistinas
com mãos vazias de misturas e pincéis."


(Paulo Roberto de Aquino Ney - metáforas da alma)
Imagem: Lígia Guedes - Museu Casa de Quissamã - Quissamã/RJ/Brasil

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Se por um acaso



"Se por uma acaso
os olhos rodeassem sombras
e os corpos haurissem luzes
assim mesmo;
Se por acaso
as bocas transmitissem espanto
quando ouvidos alheios
negassem o verbo;
Se por um acaso
os seios jorrassem lágrimas
e os filhos das meretrizes
crescessem isentos;
Se por um acaso
os membros amputados
caminhassem idéias;
Se por um acaso
o homem desavisado
tivesse equilíbrio
por si só;
Se por um acaso
do mofo do pão desperdiçado
a flor tirasse o viço
e o amor o cheiro;
Se por um acaso
a corda bamba saísse do circo
para amarrar o acaso;
Se por um acaso
o dia respirasse fundo
o breu da noite próxima
sem se contaminar;
Se por um acaso
a Poesia não fosse denegrida
por mãos insuficientes
e a vida
por contornos inúteis;
Se por um acaso
tudo isso e o que resta
passassem pela fresta à vista
sem arranhões:
Eu, poeta,
gritaria a plenos pulmões,
e meu clamor ecoaria
fora da minha plenitude
e dentro de todas as coisas!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - metáforas da alma)

Não



"Vai lá e diz não.
Não.
Não?
Nãoo...
Nãoo não, não!
Não não não?
Ah, não.
Anão?
Anão não! Nãoo.
Então, nãoo.
Nãoo, não ou anão, mas não!
Mais não?
Oh, não..."


(Josefa)

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

"Para que resulte o possível deve ser tentado o impossível."
(Hermann Hesse)



Imagem: amigos, não identificado autor, até o momento

Domingo, 28 de Junho de 2009

Pastoreio



Manhã de domingo. Depois de muita chuva, o céu amanheceu azul. Céu azul, depois de muita chuva, é uma felicidade. Vou levar meu rebanho para passear. Convido Alberto Caieiro a me acompanhar. Também ele é guardador de rebanhos. Diz ele:

"Minha alma é como um pastor
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da natureza sem gente
Vem sentar-se ao meu lado."


Se alguém o chamar de mentiroso, dizendo que nunca o viu guardar rebanhos, ele logo explica que, de fato, ele não pastoreia ovelhinhas brancas de lã e berros. Suas ovelhas são as suas idéias, que ele leva a passear pelos campos.

"Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma."


(Alberto Caeiro, por Rubem Alves - A música da natureza)
Imagem: Lígia Guedes

Campos e Cerrados



"Pensei no destino das guabirobas, das flores silvestres, das abelhas... E concluí que minha alma é um cerrado, mas não é uma mata de pinus eliotis. Aconselharam-me, também, a queimar os campos para neles plantar feijão. "Feijão dá bom dinheiro", argumentaram. Mas, antes de fazer isso, tive de ter uma conversa com as florzinhas quase invisíveis, os pequenos insetos, os passarinhos, as aranhas e suas teias. E não tive coragem. Minha alma é um campo, tal como saiu do ventre da mãe-natureza, mas não é uma plantação rentosa. Fazer o que me aconselhavam era transformar uma grande e divina sinfonia na monotonia de um samba de uma nota só..."Não só de pão viverá o homem", dizem os textos sagrados. Precisamos de beleza, precisamos de mistério, precisamos do místico sentimento de harmonia com a natureza de onde nascemos e para a qual voltaremos."


(A música da natureza - Rubem Alves, SP: Papirus, 2004)
Imagem: Lígia Guedes - Carapebus - RJ/Brasil

"Creio no mundo...



"...como um mal-me-quer,
Porque o vejo. Mas não penso nele,
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..."


(Fernando Pessoa, por Rubem Alves, Música da Natureza)
Imagem: Lígia Guedes

"Não há o que fazer, só gozar...



... A cabeça é como uma taça que pode estar cheia ou vazia. Se estiver cheia com seus pensamentos, todas as maravilhas do mundo lhe serão inúteis: derramarão pela borda, como a água que se derrama pelas bordas de um copo já cheio. Para poder ver é preciso parar de pensar."

"O mundo entra na alma quando ela está vazia de pensamentos. E assim somos invadidos por sua dança, sua simetria, sua beleza, sua melodia. Sentimos alegria. Alegria é uma experiência de encaixe, bem igual àquela do encaixe de corpos apaixonados no ato de amor. Em cada um de nós mora um Vazio que espera por algo que irá enchê-lo."...

"O universo inteiro mora, adormecido, dentro dos nossos corpos."

(Rubem Alves - A Música da natureza)
Imagem: Lígia Guedes

A Música da Natureza/Rubem Alves

"Parece que a natureza ignora as distinções que fazemos entre o grande e o pequeno, pois sua arte é tão perfeita num quanto no outro. As barbas-de-bode são mechas de cabelo sobre a calva do chão árido. Crescem arbustos de troncos retorcidos e rugosos, que para nada servem. Há um verso do taoísmo que diz: "A árvore reta é a primeira a ser cortada". E é verdade. Os homens de negócios vêem as gigantescas e retas araucárias e logo pensam que poderiam ser transformadas em tábuas e dinheiro. Mas, o que fazer com troncos mirrados e tortos? Nada. Ali, no meio do mirrado e do torto, o cheiro das flores silvestres é delicioso - razão por que se ouve o zumbido das abelhas. E se os olhos forem atentos, descobrirão os ninhos dos pássaros escondidos entres as folhas. E há também os frutos silvestres, entre eles as guabirobas com gosto de saudade."



(Rubem Alves - A Música da Natureza, SP: Papirus, 2004)
Imagem: Lígia Guedes - Restinga Jurubatiba - RJ/Brasil

Sábado, 27 de Junho de 2009

"Eu tenho a poesia!"



Definitivamente, o mundo mudou...

Se mudou, "quais novos gritos necessários à obtenção da vitória aos monstros que surgem incessantemente, por todos os canais que permitimos abrir", eis a questão compartilhada entre mulheres, no propício local onde os mesmos nem precisam de aval para ressurgir: a cadeira do dentista.

Conversa de mulher em mundo moderno, mais que dividir culpas à infância não acompanhada com os filhos, relatar conquistas, tem sido antes que tudo, compreender qual linguagem tem sido lançada ao mundo para vencer os novos monstros à solta que se transmutam geneticamente, com a velocidade da luz, num espaço cada vez mais compartilhado, em um tempo cada vez mais impreciso.

Entender as mudanças da última década, passar para a juventude de uma nova era, é mais que reviver os amplos quintais infantis, onde o salutar grito de guerra nas brincadeiras, brado emitido pelos meninos em suas intermináveis lutas: "eu tenho a força!". É recordar as sábias princesas que pareciam não se importar com as intermináveis batalhas que poderiam durar séculos a solução da almejada paz pois venciam o correr infindável das horas a espera dos bravos cavaleiros que retornavam quase sem fôlego tendo tão somente a linguagem como argumento, onde sobreviveu o 'eu tenho a poesia!' apreendida nas fábulas contadas por tantas Marias que marcaram a história, de geração em geração, substituindo escudos quebrados, ou aquebrantados pela velha história.

Cientificamente sendo provado, comprovado, o poder da musicoterapia, da biblioterapia, ou quem sabe, sonhados futuros estudos da "Poiesisterapia" (*) , se faz presente na linguagem atual como alternativa a combater o monstro da solidão nas desatentas sociedades em mutação.


(*) que tal mudar o título da postagem para: "O mundo te deprime? eu tenho a poesia!"

Texto: Maria Brasileira
Imagem: Lígia Guedes - Biblioteca Municipal de Macaé - Teatro Municipal de Macaé - Lançamento livro "Palavra Expressa" - Macaé/RJ/Brasil

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

"A leitura...

...de um bom livro é um diálogo
incessante em que o livro fala e a alma responde".


(André Maurois)



"O homem de ação é antes de tudo, um poeta."

(André Maurois, 1885-1967)
Imagem: Michele de Cássia

Poema sem nome


"Não me importa a fortuna,
nem o aplauso,
nem a paz.
A primeira é daqui;
o segundo se vai
e a terceira é (in) plena.
Porém o que vejo nas coisas,
isto sim,
dou teto enquanto sou.
Arranquem de mim a língua
e o silêncio dirá por mim
o que não diria um irmão!
Não hei navegado mares alheios
e muito menos aportado
(em vão)
no meu infinito.
Deus lê nas entrelinhas,
e é por isso que o cego
vê mais do que um olho tem.
Ter dois olhos é um privilégio
e ninguém se dá conta;
e todos percebem pouco e continuam.
De tudo, nada se leva ou quase,
e a frase que podia dar formas aos sons,
morre na areia e desaparece.
Eu navego sem medo,
mas morro de medo da sombra que fica
fingindo que ouve e mouca sabe que é!
Estes versos não me pertencem:
não se possui o sonho
antes que Deus acorde
e nos permita o impossível.
É inútil negar isso!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - poesia - metáforas da alma)
Imagem: Carla Guedes

Ponto & Desaponto



"Eis um poema que faço
por uma questão de gosto
Não troco por um abraço,
nem por um beijo no rosto.
Este poema imperfeito
saiu de dentro do peito
na horinha do sol-posto.

Eis um poema tristonho,
que canta por ser poema.
Deveria, no meu sonho,
chorar dia... diadema...
diamante...diabice...
ou, quem sabe, de tolice,
tirar o teto do tema.

Então chovia - sem teto,
no chão frio de minh´alma,
transformando num completo
fuzuê a pobre palma
da mão direita, espalmada,
para recolher, do nada,
uma migalha de afeto.

Eis um poema perdido
no meio do próprio meio.
Talvez não tenha podido
libertar-me do receio
que sempre tive da morte.
Eis um poema de sorte:
veio poema, mas veio!

Veio rolando qual seixo
no fundo de um riachão,
sabendo que não me queixo
das coisas do coração...
E nem podia! São elas
que saem pelas janelas,
nas horas de solidão.

Eis um poema bem-vindo
(mesmo triste, arteiro e torto)
ao crepúsculo mais lindo
deste inusitado porto.
Eu o fiz feliz por tudo:
desde o proprio conteúdo
às quintessências do horto!

Eis um poema parado
no meu próprio desaponto:
é que parece pecado
por poesia num ponto,
ou mesmo contar ao mundo
o que se tira do fundo...
É por isso que eu não conto!

Conto apenas a metade,
que a outra é tudo de meu.
Mas quando bate a saudade
nas noites feitas de espanto,
as metades choram tanto
que quem mais sofre sou eu!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - poesia - metáforas da alma)
Imagem: Lígia Guedes

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Casa, museu ou "Espaço Cultural José Carlos de Barcellos"/Quissamã/RJ













Residir em uma biblioteca, sonho de muitos, em um museu, realização do casal José Carlos de Barcellos e Helianna Barcellos...

Contruída para ser residência, o "Espaço Cultural José Carlos de Barcellos" contém parte da memória de Quissamã, RJ: fotografias, arquivos de jornais, objetos, mapas, pinturas, fragmentos da arquitetura do século XVIII e XIX, depoimentos orais, biblioteca com histórias sobre a usina e os trabalhadores da região.

Nos fundos da residência (ou museu), um jardim com exemplares da vegetação original da restinga da região, identificados e classificados.

Sonho realizado pelo casal, compartilhado com o mundo...

Imagens: Carla Guedes - Espaço Cultural José Carlos de Barcellos - Quissamã/RJ/Brasil

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Soneto da Intuição



"Deveríamos ser, porém não somos!
Deveríamos ver, porém não vemos!
É que os mistérios não estão nos tomos
das obras filosóficas que lemos.

Se todos os porquês, todos os comos,
atassem seus recônditos extremos,
o eterno movimento que supomos,
nos daria as respostas que não temos.

Porque não somos e não vemos, Vida,
lavamos nossas mãos feito Pilatos
e fechamos a única saída

capaz de nos livrar da insensatez:
a intuição, a casa dos substratos,
e onde moram os comos e os porquês."


(Paulo Roberto de Aquino Ney - poesia - metáforas da alma)
Imagem: Lígia Guedes - Carapebus - RJ/Brasil

O Espetáculo



"Vinde, senhores,
assistir ao grito surdo das bocas:
das bocas dos amantes aflitos;
das bocas dos que sonham em vão;
das bocas dos que esperam claridade;
das bocas dos deserdados da sorte;
das bocas dos que vivem nos becos
e se confundem com fantasmas em fuga.
Vinde, senhores,
assistir ao enterro das flores
antes que seja tarde.
A tarde é propícia; vinde, senhores!
A hora é propícia; vinde, senhores!

As flores vos esperam com ânsia e dignidade.
Vinde, senhores,
assistir ao poema quebrado ao meio.
Ele veio vagando nas veias
deste poeta que vos fala.
Vinde, senhores! Vinde, senhores!
Vinde, enquanto podeis vir!
Amanhã, ou depois de amanhã,
a intuição mudará de rumo
e irá ao encontro de outras coisas,
de muitas outras coisas.
Amanhã, ou depois de amanhã,
a intuição deixará de intuir em vossos cérebros,
e todos os pensamentos quedarão petrificados
no chão do absurdo.
Vinde, senhores,
assistir ao grito surdo das bocas,
ao enterro das flores
e ao poema quebrado ao meio.
Vinde, senhores,
ao espetáculo da Poesia do amanhã.
Vinde, senhores,
ao espetáculo da Poesia em transe torto.
Vinde, senhores,
ao porto de onde partireis
como tatuagens ambulantes,
feitas a ferro e fogo
na pele do predestino."


(Paulo Roberto de Aquino Ney - poesia - metáforas da alma)
Imagem: Lígia Guedes - Carapebus/RJ/Brasil

Amanhã de Manhã



"Amanhã de manhã,
buscarei as tatuagens
que o ontem deixou em mim,
e roçarei seus pontos e cores.
E por amor de Deus,
conversaremos longamente.
As tatuagens falam quando habitam
a pele dos poetas,
e eles respondem a elas.
Hoje,
dormirei e sonharei
o sono que o vento leva
quando o sol amanhece em meu corpo
através da vidraça.
Tenho certeza destas coisas
porque o espírito sonâmbulo me conta,
e eu creio nele!
Amanhã de manhã,
recordarei que fiz amor colorido
e acordarei feliz
com olhos de arco-íris!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - Poesia - metáforas da alma)
Imagem: Lígia Guedes

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A Noite



A noite enlouqueceu
e bebeu, uma por uma,
as nuvens que cobriam
o brilho das estrelas,
e pelas frestas da janela antiga
penetrou
bêbada e vadia.
Deixou cair o corpo
morto de cansaço
no primeiro regaço acolhedor.
A noite se impregnou de amor
e sucumbiu de poesia.


(Paulo Roberto de Aquino Ney - Poesia - metáforas da alma)

Eu gosto...



Retribuindo o carinho recebido, Eu gosto... das artes amigas!

Mania: Livros, livros e livros.

Pecado Capital: Livros, livros e livros.

Melhor cheiro do mundo: Criança sendo amamentada.

Se dinheiro não fosse problema: Uma biblioteca em casa, na cidade...

Casos de infância:
Tombo de bicicleta em morro, carregando uma amiga... (duas cirurgias)
Pedrada disputando espaço em rua (supercílio aberto...venceu ratinho e sua pipa)...


Foi assim:
Pedra
Supercílio
Sangue
Pipa
Colorida bola
Foge ratinho
Perde vazia rua
Silêncio


Aprendi a cair cedo...

Habilidades como dona-de-casa: Arrumar a estante de livros.

O que não gosto de fazer em casa: Saber que sou a 'dona de casa' especialmente quando tem louças, roupas, etc... esperando pela 'dona da casa'...

Desabilidade como dona-de-casa: Nunca cozinhei uma panela de feijão... (não sei como consegui isto...)

Frase: (amanhã escrevo) -> não é a frase

Passeio para alma: Ver o pôr-do-sol.

Passeio para corpo: Ver a lua.

O que me irrita: Tentarem me fazer mentir...

Frase ou palavra que fala muito: Silêncio...

Palavra mais usada: Não (segundo os filhos...)

Desce do salto e sobe o morro quando: Subo de salto mesmo...

Perfume que usa no momento: De gente (meu cheiro)

Elogio favorito: Mãe, Mãeee..., Manhê; Mãe!

Talento oculto: Percepção

Não importa que seja moda, não usaria nem no meu enterro:
Roxo (uso em vida)

Queria ter nascido sabendo: Que sou pior do que penso ser...

Eu sou extremamente:
difícil (pelo olhar do outro);
persistente (pelo meu olhar).


Imagem: Lígia Guedes

Domingo, 21 de Junho de 2009

Soneto à arte/Iniciação à História da Arte

"Quando persigo Dante, Homero, Lamartine,
Camões, Rousseau, Platão, Machado ou Alencar,
é porque o estro impõe que a semente germine
e se transforme em flor. Crescer é melhorar!

Senhora, eu vos dedico as musas de Racine!...
Demóstenes vos dou num seixo à beira-mar!...
A vida é mar, Senhora, e a praia predefine
o que o próprio Pessoa achou de navegar.

Juntemos, pois, vogais, sinais e consoantes,
e falemos a língua em qualquer língua ou parte.
Estes versos, Senhora, apenas são bastantes,

quando o homem se avista em si, e se reparte
entre o breu dos carvões e o fulgor dos brilhantes.
Este soneto é vosso e vosso nome é Arte!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - Poesia)

(Iniciação à História da Arte - H.W.Janson e Anthony F. Janson, SP:Martins Fontes, 1996)

Poesia/metáforas da alma

Melhor

"Melhor abrir janelas ao sonho
que sonhar e não abrir uma fresta,
Melhor manter uma vela acesa
que dez candelabros apagados.
Melhor ouvir os olhos
que a boca.
Melhor guardar um grão de areia na mão
que perder a praia de vista.
Melhor confiar na fidelidade da sombra
que na imagem refletida no espelho.
Melhor deixar acontecer
que fazer planos.
Melhor grafar o número seis uma só vez
que em companhia de mais dois seis.
Melhor dar asas à imaginação
que ser um ícaro entre o céu e a terra.
E, sobretudo,
melhor navegar nas entrelinhas
que naufragar nas linhas
e afogar-se na inexorabilidade do poema."




Asas

"Nascem...renascem...
(todos os dias)
tantos poemas
entretecidos
dentro de mim,
que sempre e sempre,
sempre os navego,
do ponto cego
ao próprio ponto
que vê os idos
tempos sem fim.
E tu, Poeta,
sempre navegas
o teu poema?
E, se navegas,
acaso pregas
nas linhas cegas
os teus sinais?
Se não o fazes,
serão capazes
as tuas frases
originais?
E, quando escreves,
acaso dizes
as cicatrizes
do teu porão?
Se, tudo isso,
tu não consegues,
melhor que ancores
os teus escritos
(mesmo bonitos)
no porto-morto
da tua palma:
versos sem alma
não voam não!"


(Paulo Roberto de Aquino Ney - Metáforas da Alma - Ed. da Academia Campista de Letras, 2004)

Sede/béééé



Doutor, vim aqui a mode quê resolver o problema da sede de pretinha.
Béééé
Meu senhor, acho mesmo que teu carneiro tem sede e precisa de água mas informo que está no lugar errado. Sugiro um veterinário. Cuidamos é de negócios.
Mas se é de negócio que vim falar.
Mas o Sr. é insistente e ainda veio trazendo a pretinha...
Bééééé
Já vi que o Dr. vai ter que ser chamado pois se falo com a pessoa errada, pretinha.
Béééééé
Pois não vou chamar ninguém não, senhor. A não ser que haja uma explicação muito bem detalhada do que tem a sede da pretinha com os negócios...
Bééééééé
Carece mais não, senhor, carece mais não. Pretinha, vamos indo, senão você chega na nascente depois do pôr-do-sol.
Bééééééé
E o riachinho que matava tua sede tá ocupado igual aos donos do negócio que pegaram ele emprestado!
Meu senhor...
E pelo tempo que eles não aparecem por lá, nem os filhotes dos filhotes há de beber nele, pretinha.
Bééééééééé
Meu senhor, espera!
Vamos indo, pretinha, a estrada é longa e já é quase noite...
Bééééééééééééééé


(Josefa)
Imagem: Lígia Guedes

Som da vida



A vida sem cor, na solidão
Não tem som nem razão.
No vazio ela está,
E no caminho escuro, ela ficará
Sem ter visão.

O som, a melodia e a harmonia,
Dão amor, carinho e alegria
A sua vida.
Basta amar e se alegrar,
Que sua vida,
Uma bela canção cantará.


(Carla Guedes - Imaginária Flor - 1998)
Imagem: Lígia Guedes

Sábado, 20 de Junho de 2009

Pela rua da igualdade



Foi-se o passado
joguei a derradeira pá de cal.
E por entre sepulcros alvos
contemplo os epitáfios solenes:
a pomba mestiça na praia,
a onda que modula a margem,
a brancura cadavérica dos muros.
Foi-se o passado.
Sem flores, homenagens ou malsoléus.
Retiro-me de onde ele jaz,
tranquilo.
Repousando na complacência de ter sido,
e agora, não mais.


Texto: Carla Guedes
imagem: Carla Guedes - Museu Machadinha - Quissamã/RJ/Brasil

A Bexiga, a palha e o sapato



"Uma bexiga, uma palha e um sapato foram catar lenha na floresta. Chegaram à margem de um rio e não sabiam o que fazer para atravessá-lo. O sapato disse à bexiga:
"Bexiga, deixe-nos ir nadando até o outro lado em cima de você".
A bexiga respondeu:
"Não, sapato, o melhor é a palha se esticar de uma margem do rio até a outra e nós atravessarmos em cima dela."
A palha esticou-se sobre a água; o sapato foi atravessar por ela e a palha quebrou. O sapato caiu na água e a bexiga riu tanto que explodiu."


(Contos de Fadas Russos, org. Aleksandr Afanas´ev, Landy ed., SP:2003)
Imagem: Carla Guedes - Praia São Francisco - Quissamã/RJ/Brasil

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Este é o meu corpo/Filipa Melo

Cap. 1: "Quando o homem se aproximou da ponte, já o cão rodeava o corpo.
Cheirava-o, roçando o focinho nas carnes, veias e ossos que pareciam triturados. Conservavam os contornos intactos. Estendiam-se em duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça de borco entre o passeio e o alcatrão. Não havia nem olhos, nem cara, nem roupas. No meio da carne rosácea, os tendões desenhavam linhas brancas, cruzadas por músculos finos, tensos e escuros. A pele parecia ter sido sugada por um violento remoinho que a puxara para dentro, retorcida como um trapo velho, seca como um pergaminho."


Cap. 2: "Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam.
Morre-se e recomeça tudo. Fecha-se um ciclo, abre-se outro.
Há quinze anos que lido com mortos.
(...)A carne tornou-se banal. A minha e a dos mortos. E nessa banalidade habituei-me a distinguir com as pinças da ciência as marcas do desvio, da anormalidade, da falha. Hoje, olho para os meus mortos. É só. E olho o meu corpo como um caminho que se estreita até eles. Cada vez mais. Devagarinho. Ao ritmo do relógio que, em cima da cama, me embala os sonhos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. A vida a esvair-se em compassos binários.
(...)Não há duas histórias iguais. Tal como não exitem duas ramificações sanguíneas diferentes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. Morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso à nossa odiosa singularidade.
Morremos todos do coração, acreditem."

Cap. 5: "Lembra-me as manhãs da minha infância. Gosto do aconhego do açúcar e da macieza da massa a dissolver-se na boca. Prefiro manter quase secreto o meu hábito. Tão clandestino como as minhas viagens à cozinha na hora da sesta, noutros tempos e com outra idade.
Temo que alguém me destrua este farrapo de memória com um comentário despropositado. Eu sei que as memórias são cristais frágeis que mantemos durante toda a vida em equilíbrio instável. Como se suspeitássemos o deslize final, quando tropeçamos nelas e somos obrigados a apanhar os cacos.
Guardamos as verdadeiras memórias de uma situação, de um rosto, de um corpo, de um tique, de uma expressão, de um gesto, de um sabor, de uma frase. Por quanto tempo? O que ainda lembramos mistura-se lentamente com aquilo que supomos lembrar. Transformamos as memórias em ficções. Deformamo-las, limando com cuidado os seus contornos. Fica só um rasto da realidade que completamos com a imaginação. E sentimo-nos satisfeitos, felizes, pacificados.
Até ao momento em que, por um acaso, somos obrigados a abrir as gavetas que supúnhamos arrumadas com zelo. A desempoeirar as prateleiras. E nada está onde julgávamos ir encontrá-lo. Que inocência! Acreditávamos mesmo ter guardado ali um sentimento, aqui uma sensação, ali uma impressão. E nada está no seu sítio.
É por isso que acarinho o meu gosto pela argola polvilhada de açúcar que como quase todas as manhãs. Porque o seu sabor é um valor seguro, uma cotação da verdade de minha história. E isso não tem preço.
Acharão com certeza ridículo que um homem feito mantenha gestos de criança. Pois seja. Há muito que aprendi que é em pequenos gestos repartidos por cada dia que permanecemos inteiros. Que evitamos desfazer-nos em pedaço, estraçalhar-nos, dissolver-nos em enganos. E aprendemos a amar os vivos.



Hic locus est ubi mors gaudet succurrere vitae
(Este é o lugar onde a morte se regozija de ensinar aqueles que vivem)


INSCRIÇÃO PATENTE NUMA SALA DE AUTÓPSIAS

"Este é o meu corpo" proporciona uma belíssima leitura, abrangente como a vida: trata da natureza e suas linguagens, convivência, pobreza, carência, amor e suas formas de amar, busca humana por individualização em um mundo globalizado. Um canto de amor à vida, onde até o 'entregar-se à morte" é relatado com leveza singular, em um meio onde a solidão humana prevaleceu, tendo a violência física e outras facetas sociais expostas (hipocrisia, indiferença, ausência de amor, basicamente), neste emocionante e primeiro livro, relato feito pela Angolana erradicada em Portugal, Felipa Melo.

Poetisando a vida através da história daquele corpo-enigma, vida violentada, ceifada, que deixou se vencer pelas dificuldades, ilusões, entregando seu 'santuário utilizado pelo homem para transitar entre o início e o fim de sua jornada' como relata a autora, onde se morre a cada instante pela falta de vida almejada, sonhada. Morte como momento de transição natural da vida que se levou ou se permitiu levar.

A autora vai além da imagem de corpo como necessidade, ferramenta de trabalho, mas como 'santuário sagrado onde a vida guarda seus segredos a serem desvendados', onde o corpo fala pela linguagem corporal mesmo pós-vida, sem entonar palavras expressas, parte biológica natural da vida. O livro prende a atenção do leitor por todo seu percurso , iniciado em uma linguagem forte, entretanto, mostrando sua leveza a medida que é desvendada sua história, trajetória revelada por aquelas sagradas mãos que a fazem descobrir, assim como a vida se revela à medida que vamos trilhando os caminhos.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Imaginária Flor


Flor, quem dera...

Talvez, misturar os mais belos
Perfumes de margaridas, rosas,
Lírios, jasmins.

Talvez, misturar as mais belas
Cores como pérolas, lilás, roxos, tons.

Talvez, misturar as pétalas das orquídeas,
Da cor suave das violetas.

Flor, quem dera...


(Carla Guedes - Imaginária Flor, 1999)
Imagem: Eduardo P.

"Pretendo que a poesia...


...tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus mas que nasce das mãos e do espírito dos homens."

(Ferreira Gullar - TODA POESIA, José Olympio ed. 2008)
Imagem: Eduardo P.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

O Bibliófilo


Ó ambições!... Como eu quisera ser
Um pobre bibliófilo parado
Sobre o eterno fólio desdobrado
E sem mais na consciência de viver.

Podia a primavera enverdecer
E eu sempre sobre o livro recurvado
Servia a um arcaico passado
De uma medieval moça e qualquer.

A vida não perdia nem ganhava
Nada por mim, nenhum gesto meu dava
Com gesto mais ao seu Amor profundo.

E eu lia, a testa contra a luz acesa,
Sem nada querer ser como a beleza
E sem nada ter sido como o mundo.


(Fernando Pessoa - POESIA - 1902-1917)

Mais sobre o especial homem que viveu "No Mundo dos Livros" no "Mundo de K", ou de lá...


Imagem: Carla Guedes - Museu da Língua Portuguesa - São Paulo/SP/Brasil

"CANSADO DO UNIVERSO

"e seriedade
Da abstracção que não finda e que é o fundo
Do meu fatal pôr-olhos sobre o mundo,
Pobre de amor e rico de ansiedade,
Já nada me seduz nem me persuade."


(Fernando Pessoa - POESIA - 1902-1917)

"A LUZ DA TARDE

está calma,
Sobre o silêncio do lago.
Paira-me à tona d´alma
Um sentimento vago -
Nem alegria nem dor -
Como fanada flor...

Uma esperança caída
Do caule do passado
Uma lembrança esquecida
No olhar resignado
Quasi submersa jaz
Na água onde a luz é paz"


(Fernando Pessoa - POESIA - 1902-1917)

"Meu jardim

"e pomar hoje apenas consistem
Em memórias fatais,
Mas a minha alma ao ver, nas tristezas que a assistem,
Que os seres imortais
Em parte alguma - céu ou terra em sonho existem
Ainda os amou mais."


(Fernando Pessoa - POESIA - 1902-1917)

"A Maldade

"juncou de apodrecidos frutos
O chão do meu pomar
Mas meu ser não vestiu nem rancores nem lutos
Ao ver o desolar.
Só ama mais ainda os seres impolutos
Que não têm acabar."


(Fernando Pessoa - POESIA - 1902-1917)

"A TRISTEZA JUNCOU


de pétalas de rosa
O chão do meu jardim
E a [ ] a alma que em mim goza
A dor que passa em mim
Só ficou mais inquieta, ansiada e sequiosa
Do que nunca teve fim."


(Fernando Pessoa - POESIA - 1902-1917)
Imagem: Carla Guedes - Museu da Língua Portuguesa - São Paulo/SP/Brasil

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Descartes e o computador


"Você pensa que pensa
ou sou eu quem pensa
que você pensa?

Você pensa o que eu penso
ou eu é que penso
o que você pensa?

Bem vamos deixar a questão em suspenso
enquanto você pensa se já pensa
e eu penso se ainda penso."



(José Paulo Paes - Poesia Completa, SP: Companhia das Letras, 2008)
Imagem: Lígia Guedes

Bulas Miraculosas


Primeira semana, pura descoberta: espelhos, vidros, cores. Sensação de iluminado palco em coadjuvante papel a ser exercido na arte de encantar clientes pautada na eficiência da linguagem proferida. Pura perfumaria...

Dias seguem, e são necessários plantões em meio a caixas coloridas estimulando a imaginação em forma de nomes de castelos, lugarejos distantes onde príncipes jamais encontraram suas princesas que não chegaram a frequentar os bailes reais.

As pastilhas avulsas, naquelas caixas de vidros, expostas, lembravam os inacessíveis coloridos confetes em almejadas mesas de infantis festas. Expostos, quem os poderia resistir, como balas em caixas de supermercados a lembrar o troco que o cofrinho jamais obteria.

Rosa, o tom preferido. Mas o jaleco ganhou um brilho desbotado na rotina fatigada junto aos clientes e suas intermináveis dores, à procura de miraculosos remédios que os devolvessem sãos às famílias naqueles domingos e feriados.

Vasculhar o conteúdo daquelas caixinhas almejadas pelos assíduos clientes, mais que curiosidade inicial por conhecer quais efeitos colaterais estariam sujeitos ante às fórmulas que traziam alternativas. Eram possibilidades, talvez raiz à questão sem promessa de cura à causa ao mal que os afligia. Era talvez compreender parte da interminável rotina a que estava exposta sem acesso a dosagem diária de esperança.

Como vacina que tem a cura pelo mal adquirido, as 1660 horas, naqueles intermináveis 166 dias de 10 horas diárias de trabalho foram vencidas tendo as bulas indicando a necessidade de ir além. Ponto de partida a novas leituras...

Miraculosas bulas!


(Maria Brasileira)
Imagem: Lígia Guedes - Macaé/RJ/Brasil

Domingo, 14 de Junho de 2009

Acima de qualquer suspeita


"a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos
drummond de andrade manuel bandeira murilo mendes
vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto paul
éluard oswald de andrade guillaume apollinaire sosíge-
nes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou incer
to) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada de
ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece nun-
ca ter existido

nem eu"


(José Paulo Paes - Poesia Completa, Companhia das Letras, SP:2008)
Imagem: Gilberto Athayde

O Poeta e seu Mestre


"Tiro da sua cartola
repleta de astros,
mil sobrenaturais
paisagens de infância.

Sua bengalinha
queima os ditadores,
destrói as muralhas
libertando os anjos.

Calço seu sapato
e eis que percorro
a branca anatomia
de pássaros e flores.

Repito seus gestos
de amor e renúncia,
de música ou luta,
de solidariedade.

Carlitos!

Teu bigode é a ponte
que nos liga ao sonho
e ao jardim tão perto."


(Paulo Paes - Poesia Completa, SP: Companhia das Letras, 2008)
Imagem: Gilberto Athayde

O Corvo e a Lagosta


"Um corvo estava voando sobre o mar e, ao olhar para baixo, viu uma lagosta. Pegou-a e levou-a para a floresta com a intenção de se empoleirar num galho e comer uma boa refeição. A lagosta viu que sua hora estava chegando e disse ao corvo:
"Ei, corvo, corvo, conheci seu pai e sua mãe, eram gente fina!"
"Unrum", respondeu o corvo, sem abrir a boca.
"E também conheço seus irmãos e irmãs; que gente fina eles são!"
"Unrum!"
"Mas, embora sejam todos gente fina, não estão à sua altura. Acho que no mundo inteiro não há ninguém mais sábio que você".
"Ah!", grasnou o corvo, abrindo bem a boca, e com isso deixou a lagosta cair no mar."


(Contos de Fadas Russos, por Aleksandr Afanas´ev, Landy, 2003)
Imagem: Cristiano Fernandes - Lagoa de Carapebus - RJ/Brasil

Sábado, 13 de Junho de 2009

Távola Redonda: o que foi, o que será!

"Galvão perguntou-lhe então como poderia obter o freio.
- Poderás saber exatamente, disse ele; mas antes que passe de meio-dia terás tal excesso de batalhas que não terás vontade de gabar-te. Terás de combater dois leões que vivem aqui acorrentados. O freio não é deixado abandonado; pelo contrário, está sob guarda perversa. Maus fogos, más chamas me queimem! Se deixassem vir dez cavaleiros para combater os dois leões, eu os reputo tão ferozes que nenhum homem escaparia deles - mas aqui estarei a teu serviço. Convém que comas um pouco antes de ires à luta, para que teu coração não desfaleça nem te sintas alquebrado.
- De nada adianta comer, falou Galvão, de maneira nenhuma; mas procura uma armadura de que me possa equipar.
- Aqui há, falou ele, um bom corcel que há meses ninguém tem cavalgado. Além disso, há arneses suficientes que te emprestarei com prazer. Mas, antes que estejas armado, vou mostrar-te as feras; vamos ver se desanimas de combater com os leões.
- Ajude-me, São Pantaleão, falou Galvão, não os verei até que os enfrente. Arma-me de uma vez!
E o outro o armou de imediato com boas armas, da cabeça aos pés, como sabia fazer com perfeição, e levou-lhe um corcel. Galvão, que de nada receava, montou-o pelo estribo. O vilão trouxe sete escudos que lhe iriam ser de enorme utilidade. Em seguida, o vilão foi desprender um dos leões e o fez vir até o cavaleiro. Tal arrogância demonstrava o leão, tão grande furor e raiva, que arrancava terra com as patas e roía a corrente com os dentes. Quando saiu fora e avistou o cavaleiro, começou logo a eriçar-se e fustigar com a cauda. Certamente, a quem combatesse com ele, conviria saber esgrimir e não ter coração de cabra nem de lesma."



Perseverança! Palavra internalizada pelos que arriscavam vidas à busca de almejado 'freio' de chorosa dama ou à defesa de direitos solicitados por muitos ou quem sabe, novas conquistas. Superando expectativas, as "Estórias do Rei Artur e seus Cavaleiros", vivenciadas no entorno da mesa da 'Távola Redonda' conta como cada nobre cavaleiro tinha o olhar que não se acentuava na voltava ao passado, mas as qualidades de bons guerreiros e primordialmente no valor que cada batalha poderia trazer como superação aos limites individuais, coletivos. Inimigos surgiam em forma de feras alucinantes (leões, serpentes, monstros), vales profundos ou castelos intransponíveis, tombados para que a trilha aberta ficasse aos que surgissem tendo o AMOR por guia.

Reinos conquistados, por Artur, na confiança dos seus leais combatentes, heróis do séc. XII e XIII, adentravam florestas encantadas, seja na busca do Santo Graal ou na construção de estórias que chegam às gerações modernas contadas pelo povo, verdadeiras lendas se formando.

Traído pelo primo e ferido mortalmente em combate, Artur é levado para as terras de Avalon, onde permanece. Os bravos cavaleiros de Artur, sob a mesa da 'Távola Redonda', estariam aguardando o retorno de seu valente rei, tantos desejam saber... Novos caminhos para Avalon surgem para aqueles que desejam conhecer a estória do Rei contada por outras vozes... por aquelas que cuidam do sono do nobre cavaleiro, e permanecem em outras 'Brumas de 'Avalon'...

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Jornada


Como pássaro
em mar de nuvens,
o limite de fôlego alterna.
Subida,
descida,
condição única ao pouso
Seguro
Sigo
na difícil
jornada.


(Maria Brasileira)

João Esperto

ONDE ESTÁ INDO, JOÃO? - pergunta sua mãe.
- Ver a Maria - responde o menino.
- Comporte-se bem, João.
- Sim, mamãe. Até logo.
- Até logo, João.
João chega à casa de Maria.
- Bom-dia, Maria.
- Bom-dia, João. Que foi que você me trouxe?
- Não trouxe nada para você, mas quero um presente.
Maria lhe dá uma agulha. João pega a agulha, espeta-a em uma carga de feno e volta para a casa a pé, acompanhando a carroça.
- Boa-noite, mamãe.
- Boa-noite, João. Onde esteve?
- Na casa de Maria.
- Que foi que deu a ela?
- Não dei nada, mas ela me deu um presente.
- Que foi que ela lhe deu?
- Ela me deu uma agulha.
- Que fez com a agulha?
- Espetei-a na carroça de feno.
- Que bobagem, João. Devia tê-la espetado em sua manga.
- Não se aborreça, mamãe. Farei melhor da próxima vez.
- Aonde é que você vai, João?
- Vera a Maria, mamãe.
- Comporte-se bem.
- Sim, mamãe. Até logo.
- Até logo, João.
João chega à casa de Maria.
- Bom-dia, Maria.
- Bom-dia, João. Que foi que você me trouxe?
- Não trouxe nada. Mas quero um presente.
Maria lhe dá um canivete.
- Até logo, Maria.
- Até logo, João.
João pega o canivete, espeta-o na manga e volta para casa.
- Boa noite, mamãe.
- Boa-noite, João. Onde esteve?
- Fui ver a Maria.
- Que foi que ela lhe deu?
- Ela me deu um canivete.
- Onde está o canivete, João?
- Eu o espetei na manga.
- Que bobagem, João. Você devia ter guardado o canivete no bolso.
- Não se aborreça, mamãe; farei melhor da próxima vez.
- Aonde está indo, João?
- Ver a Maria, mamãe.
- Então, comporte-se bem.
- Sim, mamãe. Até logo.
- Até logo, João.
João chega à casa de Maria.
- Bom-dia, Maria.
- Bom-dia, João. Trouxe alguma coisa boa para mim?
- Não trouxe nada. Que é que você tem para me dar?
Maria lhe dá um cabritinho.
- Até logo, Maria.
- Até logo, João.
João apanha o cabritinho, amarra as pernas do bicho e o guarda no bolso.
Quando chegou em casa o bicho tinha sufocado.

- Boa-noite, mamãe.
- Boa-noite, João. Onde esteve?
- Fui ver a Maria, mamãe.
- Que foi que deu a ela?
- Não dei nada. Mas trouxe uma coisa.
- Que foi que Maria lhe deu?
- Ela me deu um cabritinho.
- Que fez com o cabritinho?
- Eu o guardei no bolso, mamãe.
- Que grande bobagem. Devia tê-lo trazido amarrado na ponta de uma corda.
- Não se aborreça, mamãe; farei melhor da próxima vez.
- Aonde está indo, João?
- Ver a Maria, mãe.
- Então, comporte-se bem.
- Sim, mãe. Até logo.
- Até logo, João.
João chega à casa de Maria.
- Bom-dia, Maria.
- Bom-dia, João. Que foi que você me trouxe?
- Não trouxe nada. Que é que você tem para me dar?
Maria lhe dá um pedaço de toucinho.
- Até logo, Maria.
- Até logo, João.
João pega o toucinho, amarra-o a uma corda e sai arrastando-o. Os cães vão atrás dele e comem tudo. Quando chegou em casa, levava a corda na mão, mas não havia nada na ponta.
- Boa-noite, mamãe.
- Boa-noite, João. Onde esteve?
- Fui ver Maria, mamãe.
- Que levou para ela?
- Não levei nada, mas trouxe uma coisa.
- Que foi que ela lhe deu?
- Ela me deu um pedaço de toucinho.
- Que é que você fez com o toucinho, João?
- Amarrei-o a uma corda e vim arrastando-o para casa, mas os cães o comeram.
- Fez uma grande bobagem, João. Você devia tê-lo carregado na cabeça.
- Não se aborreça, mamãe; farei melhor da próxima vez.
- Aonde está indo, João?
- Ver a Maria, mamãe.
- Então comporte-se bem.
- Sim, mamãe. Até logo.
- Até logo, João.
João chega à casa de Maria.
- Bom-dia, Maria.
- Bom-dia, João. Que foi que me trouxe?
- Não trouxe nada. Que é que você tem para mim?
Maria lhe dá um bezerro.
- Até logo, Maria.
- Até logo, João.
João apanha o bezerro e o equilibra na cabeça. O bicho escoiceia seu rosto.
- Boa-noite, mamãe.
- Boa-noite, João. Onde esteve?
- Fui ver a Maria, mamãe.
- Que foi que levou para ela?
- Não levei nada, mamãe. Ela me deu uma coisa.
- Que foi que Maria lhe deu?
- Me deu um bezerro.
- Que fez com o bezerro?
- Eu o equilibrei na cabeça, mamãe, e ele me escoiceou a cara.
- Que grande bobagem, João. Devia tê-lo trazido na ponta de uma corda e o deixado no cural.
- Não se aborreça, mamãe; farei melhro da próxima vez.
- Aonde está indo, João?
- Vera a Maria, mamãe.
- Veja lá como se comporta, João.
- Sim, mamãe. Até logo.
João chega à casa de Maria.
- Bom-dia, Maria.
- Bom-dia, João. Que foi que você me trouxe?
- Não trouxe nada, mas quero levar alguma coisa.
- Eu vou com você, João.
João amarra na ponta de uma corda, leva-a para casa, deixa-a presa no curral. Por fim entra em casa e cumprimenta a mãe.
- Boa-noite, mamãe.
- Boa-noite, João. Onde esteve?
- Fui ver a Maria, mamãe.
- Que foi que levou para ela?
- Eu não levei nada.
- Que foi que Maria lhe deu?
- Não me deu nada. Veio comigo.
- Onde você deixou a Maria?
- Amarrada no curral.
- Que bobagem. Você devia ter lhe lançado olhares de bezerro apaixonado.
- Não se aborreça; farei melhor da próxima vez.
João foi ao curral, arrancou os olhos das vacas e dos bezerros e lançou-os no rosto de Maria.
Maria se zangou, soltou-se da corda e fugiu.
Mas acabou se casando com João.


(Contos dos IRMÃOS GRIMM - Dra. Clarissa Pinkola Estés, Rocco, 2005)

Imagem: Lígia Guedes

Verso e Prosa/Delineo

"Só sei falar de amor:
Ele me move, comove, envolve
Só sei sentir amor
Amor sem dor, sem pudor
Só penso, respiro, transpiro amor
Amor com calor
Como beija-flor
Entrego-me, envolvo-me...
Dispo-me sem constrangimento
Sem contratempo
O amor é sublime
Eterniza, acalma
Pra descrevê-lo só quem já amou
O amor tem que ter história
Contada em verso e prosa."


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)


"O que nos une dura mais
Do que o doce beijo fugaz
Tocar de lábios, tato na alma
Tanto aqui dentro, você em mim.

Passar dos dias, correr de horas
O que era forte, agora, mais forte
E o elo que nos coroa, mais vivo
Flores em profusão perfumam nossos passos.

E a concepção de viver vazio não mais existe
Insisto em te trazer sempre ao peito
Passam-se horas, depois dias, séculos inteiros:
O que nos une dura mais do que nós mesmos."


(Carla Guedes - Verso in´verso)
Imagem: Lígia Guedes

Não te amo/Te amo


"Saberás que não te amo e que te amo
porquanto de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade fria.

Eu te amo para começar a te amar,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de te amar nunca:
por isso mesmo é que ainda não te amo.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos a chave da ventura
e um incerto destino desditado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo."


(Pablo Neruda - 'De Cien sonetos de amor')
Imagem: Lígia Guedes

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

A Poesia/bis


"A poesia é sempre um ato de paz.
O poeta nasce da paz como o pão
nasce da farinha."


(Pablo Neruda, 'De Confieso que he vivido')
Imagem: Lígia Guedes

O Nome da Musa


(para Adalgisa Néri)

"Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida,
nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de sibila, nem de terras,
nem de astros, nem de flores.
Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés
e influir nas coisas oscilantes.
Quando vejo os enormes campos de verbena agitando as corolas,
sei que não é o vento que bole, mas tu que passas com os cabelos soltos.
Amo contemplar-te nos cardumes das medusas que vão para os mares boreais,
ou no bando das gaivotas e dos pássaros dos pólos revoando
sobre as terras geladas.
Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida.
O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos,
nos areais movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar,
no ar lavado que sucede as grandes borrascas,
na palavra dos anacoretas que te viram sonhando
e morreram quando despertaram,
no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu.
Em todos esses movimentos há apenas sílabas do teu nome secular
que coisas primitivas escutaram e não transmitiram às gerações.
Esperemos, amigo, que searas gratuitas nasçam de novo,
e os animais da criação se reconciliem sob o mesmo arco-íris;
então ouvireis o nome da que não chamo Eva
nem lhe dou nenhum nome de mulher nascida."


(Jorge de Lima - 100 Anos de Poesia)
Imagem: Julius Mack

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

"Não fui quem sou, quando nasci.


Nem sei quem sou, quando amo."

(Cassiano Ricardo - 1805/1974)
Imagem: Lígia Guedes

A Poesia


"A poesia é sempre um ato de paz.
O poeta nasce da paz como o pão
nasce da farinha."


(Pablo Neruda, 'De Confieso que he vivido')
Imagem: Lígia Guedes

Estático


O silêncio é tudo de que mais quero e de que preciso
nessa derradeira hora.
A solidão é tudo no presente instante
Clamo por um pedaço do nada
Deixar ensurdecer meus ouvidos.
Que o tempo não dê o ar da graça
Que não passe nem despercebido.
Nenhum som ouse se manifestar.

O vento tem permissão para uma passagem lenta sem o menor ruído.
Ninguém por perto minh´alma anseia
isolamento meu terno desejo estimado companheiro.
Sonho que o relógio quebre que a vitrola perca a agulha,
Que a eletricidade e a gasolina se extingam até que tudo no mundo
Paralise que as pessoas virem estátuas amordaçadas...

Lacrar a tampa do velho piano, cortar as cordas do pequeno
violino, esconder todos os instrumentos, destruir tudo que for
eletrônico.
Fugir do caos do mundo de balas perdidas de gritos aflitos,
Choro de fome, sentir a distância dos infames.

Não deixar que nada quebre o silêncio da paz,
O silêncio que engrandece o viver
E que não permita enlouquecer.
Abrir a janela, deixar o pássaro ir embora...
E desfrutar a solidão que desejo agora.


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)
Imagem: Lígia Guedes

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

"...Estou sozinho


nas selvas natais,
na profunda
e negra Araucania.
Asas
cortam com tesouras o silêncio,
uma gota que cai
pesada e fria como
uma ferradura.
Soa e se cala o bosque:
se cala quando escuto,
soa quando adormeço,
enterro
os fatigados pés
no detritos
de velhas flores, nas defunções
de aves, folhas e frutos,
cego, desesperado,
até que brilha um ponto:
é uma casa.
Estou vivo de novo.
Contudo, só de então,
dos passos perdidos,
da confusa solidão,
do medo,
das trepadeiras,
do cataclismo verde, sem saída,
voltei com o segredo:
somente então ali pude saber,
lá na escarpada margem da febre,
ali, na luz sombria,
se decidiu meu pacto
com a terra."


(Pablo Neruda - Presente de um Poeta)
Imagem: Lígia Guedes

Corte/Homenagem a Nita


Faca,
facão,
canivete,
machada.
Corte
em vida...
Falta
sapato.
Desbrava
seca.
Gente
sem terno,
gravata,
esperança,
pão
diário,
salário.
Mata
a fome.
Vida...
Pés
descalços,
retorno
à terra
sem vida.

(Josefa)
Imagem: Lígia Guedes

Domingo, 7 de Junho de 2009

Lais de Maria de França: mistérios e vozes femininas

"Quem recebeu de Deus o conhecimento e o dom de falar com eloquência não se deve calar nem se esconder; pelo contrário, deve estar pronto a aparecer. Quando um grande bem se faz ouvir, começa primeiro a brotar e, quando é elogiado por muitos, é então que se abre em flores."

"Em honra a vós, nobre rei, que tanto sois bravo e cortês, favorecido por toda alegria e em cujo coração todo bem deita raízes, dediquei-me a coletar lais e a recontá-los em versos rimados. Em meu coração pensei, senhor, e disse a mim mesma que os presentearia a vós. Se vos agrada recebê-los, muito grande júbilo me darás, para sempre isso me deixará contante. Não me tomeis por presunçosa se vos ouso entregar este presente. Agora escutai como começa."

Mistérios e vozes femininas, palavras sinônimas, perguntariam aqueles distantes do tempo histórico Medieval, íntimos à idade Moderna, onde a similaridade pelo retorno à oralidade se faz presente como também a descoberta das vivências humanas na busca do amor são componentes suficientes para se adentrar as páginas relatadas pelos "Lais de Maria de França", com tradução de Antônio L. Furtado.

Mulher, visionária, Maria (envolta em mistérios até os presentes dias), primeira escritora francesa, já em época Medieval (séc. XII),percebia o poder dos relatos orais folclóricos, presenteando-os às gerações futuras através dos encantos da arte de escrita, incomum à cultura popular e Europa, tendo como porta de entrada a realeza que ávida não somente ao brilho do ouro conquistado, por cavaleiros em sangrentas batalhas mas a luz, leveza que os lais proporcionavam, reavivando momentos àqueles que tinham a alma sedenta por amor cortêz, magia, mistérios: vida a aquecer não somente corpos...

Tatuagem


"A poesia
foi tatuada
em minha
imaculada pele.
Antes,
porém,
já percorria,
como seiva,
artérias,
máquina cerebral,
retornando
ao coração.
Hoje,
como orvalho,
a cada
manhã,
ressurge,
sustentando
meus passos
na incerta
caminhada."


(Maria Brasileira)
Imagem: Lígia Guedes

Sábado, 6 de Junho de 2009

"O cágado"


"Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.

O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.

O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. Quando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.

O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.

Então foi buscar auxílio a ..."
releituras...

Imagem: Lígia Guedes

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Traduzir-se


"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"



(Ferreira Gullar - Toda Poesia)
Imagem: Lígia Guedes

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Minha medida


"Meu espaço é o dia
de braços abertos
tocando a fímbria de uma e outra noite
o dia
que gira
colado ao planeta
e que sustenta numa das mãos a aurora
e na outra
um crepúsculo de Buenos Aires

Meu espaço, cara,
é o dia terrestre
quer o conduzam os pássaros do mar
ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil
o dia
medido mais pelo meu pulso
do que
pelo meu relógio de pulso
Meu espaço - desmedido -
é o pessoal aí, é nossa
gente,
de braços abertos tocando a fímbria
de uma e outra fome,
o povo, cara,
que numa das mãos sustenta a festa
e na outra
uma bomba de tempo."


(Ferreira Gullar - Toda Poesia)
Imagem: Julius Mack

Elogio da memória


"O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem."


(José Paulo Paes)
Imagem: Carla Guedes - Praia Quissamã/RJ/Brasil

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Janelas: Nício


"Livre era a vida então
Destino na sua bruma
A liberdade barganhada
Pela prisão que minimiza
O futuro do ir e vir
As asas ceifadas, consequência
Da delinquência rebelde
Por querer ser espelho
De algo até por si desconhecido
A vaidade falsa, o ter fácil.
Desmorona a vida infantil
Muitos alguéns choram seco.
Os olhos recusam ver tamanha
Derrota que não é solitária
Os braços que embalaram
O seio que alimentou
Em lamento se transformou
A criança que sorria, corria,
Trancada ficou
O tempo se esvai
Feito sangue que mancha
Jorra na honra, na memória
No peito, na cara
Dor e medo compartilhado dentro e fora
Da cela.
Distância faz amenizar o sofrer
Mas não o esquecer
Na inocência de ser homem
Faz o menino o abismo conhecer
Conhecer coisas impróprias que se tornam
Familiares num espaço confinado
Cercado por grades e noites solitárias
Furtando a infância perdendo a liberdade."


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)


Imagens: Lígia e Carla Guedes

Olá, Guardador de Rebanhos


"Olá, guardador de rebanhos
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?

Que é vento,e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?

Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.

Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."


(Alberto Caieiro - heterônimo de Fernando Pessoa)
Fonte: Domínio Público

Sol


"O sol que faz germinar é o sol que extermina
Seca
E racha a terra,
Faz a pele suar, arder, rachar como a terra
Que queima rostos e corpos cansados
Exaustos
O sol que faz florescer
É o mesmo que traz o flagelo
Faz o verde ficar cinza
Apagado, sem vida
O sol que mata a fome
É o mesmo
Que mata de fome o pobre sertanejo que
Com um sorriso desdentado
Cava a terra com a enxada.
Um prêmio:
uma sombra bem fresquinha
um copo de água
Ou, quem sabe?
Um refresco
Pra aliviar a garganta seca e empoeirada
Pobre sertanejo
Sofrido e fadigado
De mãos calejadas
Num lugar de fome e sofrimento, calor e dor
Esperança de chuva
Colheita farta
E um casebre acolhedor."


Poema: Silvana Teixeira - Verso in´verso
Imagem: Lígia Guedes

"Que a terra...


...me floresça nas ações
como no ouro suculento das vinhas,
que perfume a dor de minhas canções
como um fruto esquecido na campina.

Que me transcenda a carne a semeadura
ávida de brotar por toda parte,
que minhas artérias levem água pura,
água que canta quando se reparte!

Desnudo quero estar sobre sarmentos,
pisado pelos cascos inimigos,
quero me abrir e repartir sementes
de pão, eu quero ser de terra e trigo!


(Pablo Neruda - De Crepusculario)
Imagem: Lígia Guedes

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

"Ser artista significa:

não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem, apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda amplidão e serenidade, sem preocupação alguma."
(Rainer Maria Rilke)


Sobre as "Cartas a um Jovem Poeta" ...

Imagem: Gladstone Peixoto - BR 101 - RJ/Brasil

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Visão Distante


Mesmo que meus olhos nunca mais o vejam,
Mesmo que não sinta a sua pele outra vez,
Mesmo que meus ouvidos não ouçam o som da sua voz novamente
Estará em mim.

Mesmo que não tenha mais sua presença,
Assim mesmo viverá em mim, de forma intensa
Viverá em cada segundo em que eu respirar,
Viverá em cada momento em que eu existir.

Estará em cada batida do meu coração
Estará em minha essência,
Eu o sentirei no vento, na brisa fria, nas gotas de lágrimas e chuvas
Estará em mim.

As iniciais do seu nome fixaram-se em cada célula do meu corpo.
Terei sua presença gravada em cada gota de sangue que percorre meu corpo.
Do abrir meus olhos ao acordar pelas manhãs até o cerrá-los no cair das
noites
Estará em mim.

Em meus sonhos caminhará tranquilo.
É pérola rara negra que achei no fundo do oceano,
Onde as conchas formam tapetes na forma do seu rosto
E eu, ajoelhada, contemplo tamanha beleza.

Se por alguns segundos a minha mente, por ventura o cansaço esquecer o
Seu rosto
Até poderá acontecer.
Mas a alma não, minh´alma não esquece;

É alma de memória fiel.


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)
Imagem: Lígia Guedes - Lagoa de Carapebus - RJ/Brasil

Janelas...

Sábado, 30 de Maio de 2009

Esperando na Janela


"Debruçada na janela
Espero-te sempre bela
Sei que virá
Ver sua cor de canela

Debruçada na janela
Canto margaridas no jardim
Bem-me-quer, mal-me-quer
Sei que bem me quer

Debruçada na janela
Avisto-te lá de longe
Brejeiro ao meu encontro

...E eu sapeca
Pulo a janela
Corro ao seu encontro
Em um abraço furtado
Sou feliz como criança."


Poesia - Silvana Teixeira - Verso in´verso
Imagem - Carla Guedes - Museu Fazenda Machadinha - Quissamã/RJ/Brasil

O cão e o cavalo

"Zadig reconheceu que o primeiro mês do casamento é de fato, como está escrito no Zend-Avesta, a lua-de-mel, e que o segundo é a lua-de-fel. Em pouco tempo viu-se forçado a repudiar Azora, que havia se tornado muito difícil de lidar, e procurou refúgio no estudo da natureza.
- Ninguém pode ser mais feliz - dizia ele - do que um filósofo que lê nesse grande livro colocado por Deus diante dos nossos olhos. É dono das verdades que descobre; alimenta e eleva a alma; vive sossegado; nada receia dos homens, e a sua dedicada esposa não vem cortar seu nariz.
Imbuído dessas idéias, retirou-se para uma casa de campo na margem do Eufrates. Ali, ele não se preocupava em calcular quantas polegadas de água corriam por segundo embaixo de uma ponte, ou se caía mais uma linha cúbica de chuva no mês do tato do que no mês do carneiro. Não programava fabricar seda com teias de aranha, nem porcelana com cacos de garrafa; mas se dedicou sobretudo ao estudo dos animais e das plantas, adquirindo em pouco tempo uma perspicácia que lhe permitia divisar mil diferenças onde os outros não viam mais que uniformidade.
Estando um dia Zadig passeando nas proximidades de um bosque, encontrou um eunuco da rainha, seguido de vários oficiais que demonstravam a maior inquietação e vagavam de um lado para outro, como pessoas desorientadas que tivessem perdido o mairo vem deste mundo.
- Jovem - perguntou-lhe o primeiro-eunuco -, você não viu o cão da rainha?
- É uma cadela, e não um cão - retrucou Zadig com discrição.
- Tem razão - tornou o primeiro-eunuco.
- É caçadora, e também muito pequena - acrescentou Zadig. - Deu cria faz pouco tempo; é manca da pata dianteira esquerda e tem orelhas muito compridas.
- Então você a viu? - indagou o primeiro-eunuco, ofegante.
- Não - respondeu Zadig. - Jamais a vi na minha vida, nem nunca soube se a rainha possuía ou não uma cadela.
Nesse momento, por um capricho do destino, aconteceu escapar das mãos de um cavalariço o mais velo exemplar das cavalariças do rei, extraviando-se nos campos de Babilônia. O monteiro-mor e todos os outros oficiais correram em sua busca com mais excitação do que o primeiro-eunuco à procura da cadela. O monteiro-mor dirigiu-se a Zadig e perguntou-lhe se porventura não havia visto o cavalo do rei.
- Ele é - respondeu Zadig - o cavalo de melhor galope; tem cinco pés de altura e os cascos pequenos; o rabo mede três pés e meio de comprimento; o freio é de ouro de 23 quilates; e as ferraduras de prata de onze denários.
- Para onde ele se dirigiu? Onde se encontra? - indagou o monteiro-mor.
- Não o vi - respondeu Zadig -, nem jamais ouvi falar nele.
O monteiro-mor e o primeiro-eunuco não tiveram mais dúvidas de que Zadig roubara o cavalo do rei e a cadela da rainha; levaram-no diante da assembléia do grande desterham, que o condenou ao cnute e a passar o resto da vida na Sibéria. Logo depois que o julgamento terminou, foram encontrados o cavalo e a cadela. Viram-se os juízes na penosa obrigação de reformar sua sentença; mas condenaram Zadig a desembolsar 400 onças de ouro por haver dito que não vira o que havia visto. Primeiro ele precisou pagar a multa; depois concederam-lhe licença para se defender diante do conselho do grande desterham. Zadig expressou-se da seguinte maneira:

- Estrela de justiça, abismos de ciência, espelhos da verdade, ó vós que possuís o peso do chumbo, a dureza do ferro, o fulgor do diamente e tante afinidade com o ouro! Já que me é concedido falar diante desta augusta assembléia, juro-vos por Orosmade que nunca via a respeitável cadela da rainha, nmem o sagrado cavalo do rei dos reis. Eis o que me sucedeu. Estava eu passeando pelos arredores do bosque onde encontrei o venerável eunuco e o ilustríssimo monteiro-mor, quando divisei na areia as pegadas de um animal. Descobri facilmente que pertenciam a um cão pequeno. Sulcos e longos, impressos nos montículos de areia, por entre os traços das patas, mostraram-me que se tratava de uma cadela cujas tetas estavam pendente, e que, por conseguinte, não fazia muito tempo que dera cria. Outras marcas em sentido diferente, que sempre apareciam no solo ao lado das patas dianteiras, davam mostra de que o animal possuía orelhas bastante compridas; e, como percebi que o chão era sempre menos amassado por uma das patas do que pelas outras três, concluí que a cadela da nossa venerada rainha mancava um pouco, se assim me é permitido me exprimir. Quanto ao cavalo do rei dos reis, sabeis vós que, estando eu passeando pelos caminhos do citado bosque, vi marcas de ferraduras que se encontravam todas de igual distância. "Aqui está", pensei, "um cavalo com um galope perfeito." A poeira dos troncos, num estreito caminho de sete pés e meio do centro do caminho. "Esse cavalo", eu disse para mim mesmo, "possui um rabo de três pés e meio, o qual, movendo-se de um lado para outro, varreu dess forma a poeira dos troncos." Debaixo das árvores, que formavem um dossel de cinco pés de altura, eu vi algumas folhas recém-caídas, e concluí que o cavalo as havia tocado com a cabeça, e que tinha, por conseguinte, cinco pés de altura. Quanto ao freio, deve ser de ouro de 23 quilates: pois ele lhe esfregou a parte externa contra certa pedra que eu identifiquei como sendo uma pedra de toque. E, por fim, pelas marcas que as ferraduras deixaram em pedras de outra espécie, descobri que se tratava de prata de onze denários.
Todos os juízes ficaram pasmos diante do profundo e sutil raciocínio de Zadig, e isos chegou rapidamente aos ouvidos do rei e da rainha. Só se falava em Zadig nas antecâmaras, na câmara e no gabinete; e, apesar de que vários magos expressassem a opinião de que o deviam queimar como feiticeiro, o rei ordenou que lhe restituíssem as 400 onças de ouro em que havia sido multado. O escrivão, os meirinhos, os procuradores compareceram em grande pompa à presença de Zadig, para lhe entregar as suas 400 onças; retiveram somente 398 para as custas do processo, e os seus ajudantes reclamaram gratificação.
Zadig compreendeu como era às vezes perigoso ser por demais sábio, e jurou para si mesmo que, na próxima oportunidade, nada diria do que porventura tivesse testemunhado.
Essa oportunidade não se fez esperar. Um prisioneiro de Estado, que havia fugido, passou pelas janelas de sua casa. Zadig, ao ser interrogado, nada respondeu; mas lhe provaram que ele tinha olhado pela janela. Foi multado, por esse crime, em 500 onças de ouro, e Zadig agradeceu a indulgência dos juízes, de acordo com o costume de Babilônia. "Como é lamentável, meu Deus", pensava ele, "irmos passear num bosque por onde passaram a cadela da rainha e o cavalo do rei! Que perigoso chegar à janela! E como é difícil ser feliz nesta vida!".


(Voltaire - Contos)

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Emergência/O poeta começa o dia

"Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que está numa cela
Abafada,
Esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas, enfim, profundidade respirar.
Quem faz um poema salva um afogado."

(Mario Quintana)

"Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha
[alma ao meio da rua.
Como Harun-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz
[de desperdício...
Me espera o ônibus, o horário, a morte - que
[importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
- em meio aos ruídos da rua
alheios aos risos da rua -
todas as jubas do Sol
por uma trança da Lua!"


(Mário Quintana)
Imagem: Caral Guedes - Fazenda Machadinha - Quissamã - RJ/Brasil

Alucinações Musicais/Homenagem a Tardelli


"Cai um raio.
Largado corpo,
ao chão.
Real
ou
Imaginário...
Quem afirma?
Realidade iluminada,
desafio ao tempo.
Um raio,
cai.
As retinas não retem
sua luz.
Realidade segura,
árdua tarefa
à imaginação.
Melhor caminhar entre mendigos
que cantam, encantam,
te proclamam filha,
em meio aos transeuntes,
ao chão,
na 'direita rua'.
Suplicante olhar,
carinho tardio.
Os loucos habitam
o mundo.
Real
ou
Imaginário.
Você decide!


(Maria Brasileira)

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Sexta ou Sábado


"Na boemia
Das noites escuras
Escondo...
Meus desencontros
Em que ofusco doces reminiscências
Da velha infância

Na boemia
Lanço-me na orgia
E esqueço que
Ninguém me espera
Esqueço que te quero
Esqueço meus equívocos,
As escolhas incertas
Do preço que pago por elas."


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)

Celebridade


"eu sou o poeta mais importante
da minha rua.

(Mesmo porque a minha rua
é curta.)"


(José Paulo Paes - Poesia Completa)

Ode


"Uma palavra esquecida
À beira do precipício
Onde o suicida hesitou.
Uma palavra tranquila
Em meio ao pânico, voz
Sem equívoco, harmonia
De harpas antecipadas.
Uma palavra roubada
A outro alfabeto, onde o lobo
Já não uive, onde o revólver
Desobedeça ao gatilho.
Uma palavra mais forte
Que todo gesto de raiva,
Que todo grito de morte.
Uma palavra ofertada
Ao homem que, do presente,
Dialoga com seu futuro.
Uma palavra que traz
Em si muitas outras: PAZ."


(José Paulo Paes - Poesia Completa).

Ode Pacífica


"Levei comigo um punhal,
Com mãos firmes, cautelosas,
Como se leva um segredo,
Como se leva uma rosa.

Assim armado, enfrentei
As emboscadas e os crimes.
Nos corredores do ódio,
Combati, gritei, perdi-me.

O punhal me dominava,
Fascinava-me a revolta.
(Vivemos presos à chave
Que em sigilo nos solta.)

Mas um dia uma verdade,
Que nega todo punhal,
Pôs brisas na minha face,
Furtou-me às vozes do mal.

Agora, Dora, a teu lado,
Estou sempre a recompor
Essa verdade tão simples,
De que me torno senhor.

Simples verdade de amor."


(José Paulo Paes - Poesia Completa)

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Tempos que passam


Tarde que cai
Já posso ver o brilho das estrelas
Paro pra pensar onde se escondia toda esta beleza
Que antes não notei
O que estava ali

Que antes não notei
Perto de mim

Na correria do meu dia a dia
Anoiteceu menos um dia de vida
E quando amanhecer irei atrás de minhas conquistas

Na correria do meu dia a dia
Anoiteceu menos um dia de vida
E quando amanhecer irei atrás de minhas conquistas

No que é suficiente
Sempre procuramos mais
Buscando a tal felicidade
Esquecemos da nossa paz

No que é suficiente
Sempre procuramos mais
Buscando a tal felicidade
Esquecemos da nossa paz

Tarde que cai
Já posso ver o brilho das estrelas
Paro pra pensar onde se escondia toda esta beleza
Que antes não notei
E que estava ali

Que antes não notei
Perto de mim

Na correria do meu dia a dia
Anoiteceu menos um dia de vida
E quando amanhecer irei atrás de minhas conquistas

Na correria do meu dia a dia
Anoiteceu menos um dia de vida
E quando amanhecer irei atrás de minhas conquistas

No que é suficiente
Sempre procuramos mais
Buscando a tal felicidade
Esquecemos da nossa paz

No que é suficiente
Sempre procuramos mais
Buscando a tal felicidade
Esquecemos da nossa paz

Hoje posso perceber
Que o dia já não tem mais volta
O que viemos fazer
Qual o real objetivo de viver

Hoje posso perceber
Que o dia já não tem mais volta
O que viemos fazer
Qual o real objetivo de viver


http://www.youtube.com/watch?v=Szub93EEbWU&feature=related

(Jonathan Moreira)

Som do Coração


É necessário acreditar
É necessário deixar fluir
O som do coração
É necessário acreditar
Que você pode moldar e mudar
Os caminhos e sua direção

Vou viver meus sonhos
Acreditar que sou capaz de ir além
Vou seguir meus instintos
Realizar o que tanto desejei

Vou viver meus sonhos
Acreditar que sou capaz de ir além
Vou seguir meus instintos
Realizar o que tanto desejei

Vou libertar minha voz
O som do coração
E deixar fluir
O que invade o meu ser
Sentir meu corpo estremecer
E a melodia me envolver
E então brotar nova canção

Vou libertar minha voz
O som do coração
E deixar fluir
O que invade o meu ser
Sentir meu corpo estremecer
E a melodia me envolver
E então brotar nova canção


Letra e Música: Jonathan Moreira

http://www.youtube.com/watch?v=qC8GuQCN41M

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Engrenagem


No tanque dois braços resistentes
Esfregam a calça jeans
Num vai-e-vem que mais parece
A engrenagem de um trem a vapor
A criatura de carne dá a impressão de ser máquina
Num ritual exaustivo
O som que vem do tanque,
Lembra um motor em movimento:
Forte, mas fatigado pelo tempo;
As mãos pesadas, ásperas,
herança da luta diária, do trabalho árduo.
O suor escorre pelo rosto, molhando grande parte
Dos cabelos desalinhados daquela mulher
Cuja juventude a deixou cedo demais.
O corpo frio, encharcado
Pela água que respinga do tanque
Deixava aquela mulher silenciosamente vulnerável.
Uma pausa, um suspiro de alívio...
E a certeza da tarefa cumprida,
E amanhã fará tudo de novo
O seu fardo é contínuo, constante...


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)
Imagem: Julius Mack

Domingo, 24 de Maio de 2009

Realidade


Sonhei com alguém
Que me segurasse
Que andasse comigo de mãos dadas
Que me ensinasse a caminhar,
Que no escuro da noite fosse minha luz
Na solidão da noite meu amigo e companheiro.
Alguém,
Forte, sábio como as palavras, destemido,
Que tivesse sempre comigo
Que me tirasse do perigo
Que me livrasse do medo
Com um abraço terno e encorajador.
Alguém,
Que me sorrisse com os olhos
Que fosse uma reserva de amor
Que brilhasse mais do que o sol
Alguém
Como um bálsamo em minha vida
Como árvore florida no outono
Como um entardecer calmo de inverno
E
Hoje acordei me sentindo abençoada.
Pois você é mais que o sonho que sonhei
Não é mentira és realidade.


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)
Imagem: Carla Guedes - Praça em Quissamã/RJ/Brasil

Sem espinho


Rosas que beijo
Rosas vermelhas,
Feito morango fresco
Rosas amarelas, rosas...
Somente rosas.
Rosas que cheiro
Rosas de odores delirantes, refrescantes
Rosas, muitas rosas
Rosas inteiras
Em botões
Debulhadas em pétalas
Mas...não mais que rosas
Rosas que as quero
De presente
Como forma de amor
Como gesto de carinho
Rosas, muitas rosas,
Pelo caminho.
Rosas sem espinhos
...Espinhos que o jardineiro tirou
...Deixou só as rosas
Para não ferir as mãos de quem as ofertou.

Meio Fora de Hora


Na minha idade
Não é muito comum,
Mas dizem que isso não tem idade
Apaixonada estou

Nunca imaginei nesta altura
Quando meu sono já era tranquilo
Fosse surgir alguém com aquelas lindas rosas
Que nem rubras eram,
Sim amarelas
E cá apaixonada estou

Surge no meio do caminho
Um belo cavalheiro
Com uma farta maçã na mão
Ofertando-me
Com um sorriso sem medo

Tímida aceito
Seguro firme com minhas mãos trêmulas
Furto do teu fruto uma mordida suculenta
O veneno se espalha por todo meu corpo
Permitindo que minh´alma se entregue
Mesmo fora de hora.


Imagem: Quissamã/RJ/Brasil

"O que fazeis de especial?"


"Olhe para suas mãos, que marcas elas levam...
O que vai em seu coração, que lembranças tu carrega?
O que tem feito com sua vida?

Note as pegadas que você deixou, por onde elas seguiram,
Lembre do que você mudou durante este caminho...
E pense em como escreverá as novas páginas da sua vida.

O que a gente faz, fala muito mais do que só falar
Pense muito bem, no que aprendeu e o que fazeis de especial

Olhe para suas mãos
Lembre das marcas que deixou
Pense em como escreverá
O que escreveu?


Texto: Jonathan Moreira
Imagem: Julius Mack

Sábado, 23 de Maio de 2009

O Lobisomem Manco

Madrugada.
Na última casa da rua, duas indefesas senhoras.
Calçado pé, forçada a porta.
Acesas as luzes.
Facão! Ousou uma.
Não, o facão não! Apelou a outra.
Ai, ui, ui, ai,...
Foi-se!
Testemunha somente a lua naquela longa noite.
Amanhece.
Seguem dias.
Brilho da cheia lua, atração maior àquelas atentas crianças, naquele vazio terreno, palco aceso.
Surgir ou não surgir, nada a favor daquele pobre lobisomem.
Concreto, somente a espera... da próxima lua, trazendo um lobisomem, manco talvez.


(Maria Brasileira)

A Bala


A bala na boca
Rola de um lado para o outro
O pensamento flutua
Olho fixo no desenho do piso
O doce da bala é a melhor sensação naquele momento.
E o pensamento continua no nada
O olhar continua fixo na cerâmica
Vejo as formas, as cores e o brilho que se reflete
Na sala de espera, quatro bancos;
E em um deles me encontro
Encosto a cabeça na parede
Penso novamente no nada, no simples, no comum.
Nenhuma conclusão é tomada
Nada é acrescentado.
A bala brinca na boca de um lado para o outro.
A bala acabou,
Levanto-me e vou-me embora.


(Silvana Teixeira)
Imagem (reeditada...): Julius Mack

Ao amanhecer


Não nasci
Não fui sorteada
Não fui escolhida
Pra encontrar a felicidade
...Que até me ronda,
Mas...
Foge veloz pra vem longe
De tempos em tempos aparece...
Até insinua querer ficar
Vem medrosa
Me estende a mão
Chega a tocar meus dedos
Mas,
Como num vendaval, foge feroz,
Distanciando-se, distancidando-se, ficando longe
E eu lastimosa, a observo indo, indo, indo, indo...
Com os olhos lacrimejando
Com os braços estendidos
Suplicando que a felicidade volte junto à aurora.


(Silvana Teixeira)

Ícaro


Nasci pássaro
Sinto decepcionar
Sou pura revoada
Não paro no chão
Não adianta me aprisionar
Sou livre e vou voar
Não pode me segurar
Podem até me atar, acorrentar-me
Pés e mãos.
Mas nada tirará a liberdade
Do meu coração
Da minha mente
Da minha alma
Não finco raiz
Nasci pássaro
Podem até me engaiolar
Que sempre acharei um modo
De estar livre, de voar
De ser livre.


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Um tempo para mim

Imagem: Julius Mack

"Às vezes necessito ficar só,
Num silêncio total.
Conversar com Deus;
Refletir sobre coisas, pensar na vida.

Às vezes necessito ficar só,
Sem frustação, sem televisão,
Só necessito de um pouco de silêncio,
De calma, de purificação
Ficar só, sem solidão.

Às vezes necessito ficar só,
Flutuar sem mágica, voar sem asas,
Ir longe no pensamento;
Alcançar a quietude,
A plenitude, a lucidez.

Há momentos em que preciso de mim, só de mim;
Da minha companhia, do meu único eu,
Do meu abraço, envolvendo meu corpo
Do meu afeto.
Falar francamente de mim para mim
Ficar a sós comigo,
ir de encontro a mim
Sem nenhum,
Sem um único ruído.

Às vezes necessito ficar só."


(Silvana Teixeira)

Silêncio


Não devo expressar meus sentimentos
Devo contê-lo secretamente em mim
Mesmo que minha alma grite, sofra.
Mesmo que o sangue me fuja das veias
Devo permanecer imóvel, quieta, calada.

Num choro sufocado pelo silêncio
Alguém implora por socorro.
Numa cela solitária grita sem resposta.

Sou meu próprio carcereiro
Zelar pelo sigilo, pelo silêncio
Sou responsável por impedir que qualquer som
Chegue a ouvidos proibidos.
Tenho que ocultar meus impulsos à flor da pele.
Preciso esconder a fadiga que habita um rubro pulsante elemento
Que, como lar, tem o meu peito.

As lágrimas rolam em forma de pequeninas gotas preciosas e
brilhantes
Numa face em chamas ofuscada por falsos sorrisos.
Os músculos se contraem dando a miragem de sorrir.
Mas, por trás da máscara de ferro existe um rosto.
Inexpressivo, sem forma, sem cor...
Uma face cheia de dor.


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)

Habitat


"Na imensidão do universo
Na imensidade da escuridão
Na profundidade do oceano
Mistérios e segredos
Circulam por entre os espaços de
Ar, gotas, pontos
Imperceptíveis a olhos distraídos
Opacos, turvos envoltos por
Inúmeras metamorfoses que sofremos
Ao longo da vida que por não ser absoluta
Passou a ser partícula de vida
Repletas de interrogações nada convencionais
Sobre um ser pensante.
(Às vezes nem tão pensante assim)
Sobre as incoerências irreconhecíveis
Do tal pensante, imprevisível, intrigante
Da própria mente e a do próximo,
A respeito de amar, odiar, criar e pensar
Chegando-se à sólida conclusão de que todos
Sem exceção somos desertos sem a miragem
De oásis sem nenhum néctar dos deuses e sim
Contaminações de um espaço físico
Completamente desconhecido.
Mutantes em repetidas mutações.
Perdidos no seu habitat,
Solidificando resultados de
uma existência aparentemente controlável
Acobertando uma covardia nata chegando
À conclusão mais sensata de que não somos
Artes.
Que somos desertos, caricaturas disformes
Em algum lugar de cada nós
Existe um deserto composto por
Mistérios, segredos e incógnitas
intransponíveis.


(Silvana Teixeira - Verso in´verso, 2008)
Imagem: Carla Guedes - Lagoa de Cima - Campos/RJ/Brasil

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Talvez


Talvez
Se tivéssemos
Permitido inautensidade das pessoas.
Se ao invés de não dormirmos
Noites inteiras contagiadas pelo orgulho
Tivéssemos sentado na cama
Conversado, refletido sobre os fatos, atos,
Talvez
Buscando a felicidade em nós mesmos
Deixando que as felicidades lá de fora
Seguissem sem nós
Se não permitíssemos que as divergências
As iniquidades alheias nos perturbassem
Nos envolvessem
Poderíamos ter lutado contra a inveja, a cobiça
Que pairava, espiava...
Na nossa certeza incerta nos julgávamos imunes
Distraídos, despreocupados,
Fomos consumidos.
Talvez
Se os carinhos fossem mais constantes,
A compreensão, a cumplicidade teria se fortalecido.
Deveríamos ter sido mais caretas e menos modernos
Tomado atitudes menos insensatas
Deixado fluir um sentimento lustroso
Sem dúvidas da veracidade que nele habita
Que nosso sentir jamais seria efêmero
Porém por pura ingenuidade nos deixamos enrustir.
Talvez
Se o perdão que calamos
As desculpas que ocultamos
Tivessem sido ditos
Hoje ainda seríamos nós
Unicamente nós.
E não sós.


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)
Imagem: Gabriela ou Rafaela Barros (Sorry)

Antes do Verso...

"A dignidade do homem tem suas primeiras manifestações através do seu trabalho."

(Silvana Teixeira)


"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?!"
(Carlos Drummond de Andrade)

"O essencial é invisível aos olhos"
(Antoine de Saint-Exupéry)


Imagem: Lígia Guedes

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Gaia (Coisas da Terra)/Romãzeira em Flor

"Lá no fundo do quintal à beira do velho rio
Um pé de jabuticaba antigo, carregado, pesado de flores e frutos
A jabuticabeira com o seu brilho negro contrasta com o colorido das
flores que florescem livres e triunfais
Abarrotado de pérolas negras reluzentes
O velho descansa à beira do rio.
O peso dos frutos é tanto que algumas de vez em quando vão de
encontro ao chão
Ah! Quem me dera carregar tal peso
Peso de frutos adocicados e flores de ingenuos perfumes
E ainda desfrutar o frescor da brisa fresca do velho rio."


(Silvana Teixeira, Verso in´verso. 2008)

"De teus frutos
Volúpia cor de carne
E sangue,
Sabor profundo
E solene.
Romãzeira em flor
É promessa de desejo
O mundo inteiro
À espera de teu fruto.
Flor é promessa
E beleza.
E meu desejo quer ver
Crescer
Teus rebentos.
Frutos de sangue
De tua seiva,
De tuas mãos que cavam
Com cautela e afinco
A Gaia.
Tua paixão.
Busca vital incessante.
Vida em verdes folhas
E flores.
Galhos em verdes folhas
E flores,
Galhos em busca do azul,
E frutos;
Sementes descarnadas.
Flores são beleza:
Esperança de outras
Romãzeiras em flor."


(Carla Guedes - Verso in´verso, 2008)

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Saudade que não dói


Foto: Julius Mack

"A saudade não me dói
Nem me consome
Podem passar muitas luas
Mas a saudade não me cansa
Tua figura refletida nas pupilas dos meus olhos
Energiza-me, fortalece
Pois tua lembrança está grudada, gravada em mim
Por isso a saudade não me consome
A saudade é a lembrança distante de momentos que eternizei em mim
Que vibro e revivo a cada instante em que penso em ti
A saudade não me amedronta
Não me consome
Fecho os olhos e te encontro."


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)

Quem de Nós/Miragem



"Amar é privilégio de poucos...
Muitos só a ilusão de amar...
Tornando-se eterna miragem."


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)

"Se alguém...


...te perguntar o que quiseste dizer com um poema,
pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..."


(Mário Quintana)

Acordes/Partitura

"Silvana que é de
Silvia
Que é de
Silvânia
Que é de
Silvéria
Que por sinal é de
Carla
Que certamente é de
Adriana
Que por escolha adotaram
Dorcelina
Que nasceram de Aparecida
Que naturalmente é de todas
E, sem sombra de dúvidas, uma das outras,
Umas pelas outras,
Uma por todas e todas por uma
Uma só pessoa
Única essência
Um amor indivisível, inquestionável
Unidas por um sentimento divino,
Somos irmãs, mãe e filhas, família.
Somos melodias
De variadas notas musicais,
Acordes num só compasso."


Foto: Julius Mack

"Não toco violão, nem viola
Mas toco palavras, como acordes
Tiro belo som
Encantador, sagrado
Faço melodias, em forma de poesias
O som das palavras é tão sublime
Quanto o ton que faz o violão
Só preciso de vocação
E conter na essência
Inspiração e emoção...
Faço das palavras que escrevo
Um lindo som
Que retiro do coração."


(Silvana Teixeira - Verso in´verso)

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Metamorfose (Silvia)


"Hoje em dia
Aprendi a escutar coisas que me machucam, me magoam
Que me fazem explodir por dentro
E ficam ali como um hematoma
Não quero mais olhar para os lados
Quero ver sempre o que está a minha frente
Aprendi a escutar
Calada, a não dar opinião sobre nada
Não posso achar, não tenho direito
Me invadiram de uma forma tão bruta
Me sepultaram viva
O tempo levou de mim.
A alegria, a ilusão, a privacidade, a saúde
A temporada é nebulosa,
Sinto isso nos meus olhos...
Porém, também, sinto que tudo isso
Vai passar...vai sim. Ah! se vai..."


(Silvana Teixeira, Verso in´verso, 2008)
Imagem: Lígia Guedes

A Alma/A Dor na Carne/Nudez

"A dor me cala a boca
Cega a alma
Escurece o claro
Horroriza o belo
Desaba sonhos
Destrói castelos

O sofrimento profundo
Dói lá no fundo...
O espírito abandona a carne.

...E a deixa:
Órfã
Oca
Sem garra
Falta coragem!

Não há como continuar
...E a luta se torna
Perdida, numa guerra desigual."


(Silvana Teixeira, Verso in´verso)


Foto: Julius Mack

"Realidade despida.
Nunca vivi de sonho
A vida sempre veio na maior
Realidade
Realidade nua e crua
A vida não chegou a ser madrasta
Mas...
Mãe também não
Foi uma tia, distante
Que, por ironia, de vez em quando
Cedia um pouco.
Mas não me fez acalento
Nem cantou cantigas
Não houve espaços para sonhos.
Ilusões...
Foi simplesmente vida.
Vida vestida de vida
Jamais usou fantasia."


(Silvana Teixeira, Verso in´verso)

"A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe."

(Mário Quintana)

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

"Uma vida...

...não basta ser vivida,
precisa ser sonhada."


(Mário Quintana)

"Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia."


(Mário Quintana).

Foto: E. Augusto

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

"O Segredo


é não correr atrás das borboletas...
É cuidar do jardim para que elas venham até você."


(Mário Quintana)

Imagem: Julius Mack

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

"No mistério


do Sem-Fim,
equilibra-se
um planeta.
E, no planeta,
um jardim,
e, no jardim,
um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta."


(Cecília Meireles)

Foto: Julius Mack

Domingo, 10 de Maio de 2009

Cartão de: "Ser mãe..."


Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração
Ser mãe é ter no alheio lábio que suga, o pedestal seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que libra sobre um berço
[dormindo!
É ser anseio, é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra.

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que põe os olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto


"Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor,
pois isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe -
que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem,
e vivas muito tempo sobre a terra. E vós, pais,
não provoqueis à ira à vossos filhos, mas cria-os na
disciplina e instrução do Senhor." Efésios 6:1-4

Imagem: Lígia Guedes - Quissamã/RJ/Brasil

Sábado, 9 de Maio de 2009

Soneto as Musas

"Divina rainha

De contornos fortes e sutis
Suas mãos frágeis e belas
Conduzem à aurora e a vida.

Seus carinhos, pétalas e cheiros
São da minha alma alento;
Causa e medida única
Desse meu uno amor.

E eu, o que faço?
Não mereço de seus braços dispêndios...
Ou velar constante, varando noites.

De seu puro sentimento, sacrifícios
E instantes inteiros, acolho
Pra eternidade seu olhar doce e materno."



"A mãe é um sol.
Um sol que brilha no amanhecer.
O amanhecer é tão lindo,
Com seus raios pra valer.

Os seus raios iluminam o mundo
E nos faz crescer.
O sol nos faz viver.
O sol nos faz nascer.

A mãe é o sol,
Que nos faz nascer e viver."


"Luz que ilumina meu ser
Luz que me faz viver

Essa luz que me faz sonhar
Essa luz que me faz amar

Essa luz é conhecida no meu coração
Pois é ela que sempre me dá perdão

Essa luz é alguém que ama:

Mãe!!!"


(Carla Guedes - "Soneto à minha Musa/Dia das Mães/Luz -
Imaginária Flor,1999/Verso in´verso,2008;)
Imagem - Lígia Guedes - Carapebus/RJ/Brasil

A Teoria do Tempo


Cada tempo tem sempre um tempo
Para ser feliz um tempão.

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Pré-fácil/Prefácio


"Virar a página, adentrar na real história..."

(Josefa)

Imagem: Lígia Guedes

Domingo, 3 de Maio de 2009

Onomatopeia

"Vem. Vem preta. Vem.
Vem preta."

"Eh, eh, eh, eh, eh."

Poim, poim, poim, poim, ...
Chuam, chuam, chuam, chuam, ...
Tuem, tuem, tuem, tuem, tuem,...
Tuam, tuam, tuam,..., tuam, tuam, tuam, ...
Taiaum, taiaum, taiaum, ...

"Ui, ai."
"Oitai! Vem prá cá.
Vai mama vai."

"Oiêêêê."


(Josefa)

Olhos, cães, botas, mãos.


Abertos olhos,
água,
rosto,
biscoito.
Café anterior dia,
tato,
banana d´água.
Dois cães,
quatro botas.
"Tão fácil e não vejo".
Rosa e azul, riscado céu.
Maria fumaça dos céus.
Dalva estrela,
pássaros em bando,
aurora de muitos.
Pernas cansadas,
firmes passos.
Mãos.
Porteira.
Recomeço.


(Outono de um novo século, Josefa)

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Medo/Jurássimo


A lua, se esconde atrás das nuvens,
A chuva, cai no meu guarda-chuva,
A árvore, se dobra quando bate o vento,
A flor se fecha quando a noite chega,
A escuridão se esconde quando a luz reluz.

Tudo tem um papel na vida.
Tudo que acontece tem que acontecer,
Enfim, tudo tem que ser assim.


Poesia: Carla Guedes - "Imaginária Flor", 1998
Arte: Davi Guedes - "Jurássimo"

Etimologia/Concretização/Trabalhador

"No suor do rosto
o gosto
do nosso pão diário
sal: salário."


(Paes, José Paulo, 1926 - Os Melhores Poemas de José Paulo Paes/seleção Davi Arrigucci Jr. - 5a. ed. - São Paulo: Global, 2.003.pág. 156)



Concretização

Lá vai João
Atravessa rua
E prédios
E Tudo em volta
E Tudo na vida
É Tudo Concreto
É Nada Abstrato
E Nada abstraído

Fome
Concreta
Dói
Frio
Concreto
Corta
Rua
Reta
Segue
E Espera
E Cansa
Ventre
Rijo
Fome
Dura

João pára
Pensa
Pensar, nada
Concreto
Pensar, nada
Alimento
Pensar
Alimenta
Sómente

João estendido
No meio fio
João entendido
Da meia hipótese
"Mais Concreta que a vida,"
E de um último suspiro,
"É a morte"

Prédio
Frio
Meio fio
Fome
É Tudo Concreto.


(Carla Guedes - Verso in´verso, 2008)


Trabalhador

Gente que luta
Gente que faz
Gente sem dor

É o trabalhador.

Pessoa de responsabilidade
Pessoa de personalidade
Pessoa que luta sem rancor
Pessoa que semeia o amor.


(Carla Guedes - Imaginária Flor, 1999)
Imagem: Lígia Guedes

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Quintana´s Bar/Drummond

Aos 73 anos de idade, Mario, valeu a pena ser poeta?
Valeu e vale.
(Mário Quintana - 1904-1994 - Viver & Escrever/Edla van Steen, VOL. 1, L&PM Pocket).

No Quintana's Bar,
sou assíduo cliente.
É um bar que não é bar,
é um bar diferente.
Nele bebo sequer
copo-d'água gelada.
Meu whisky é a noite escura,
meu gin, a madrugada.
No entanto me embriago
até as raias da loucura.
É então que me atraiçoa
a canhestra ternura
(o goche sentimento
que me expõe e envergonha,
tão inadequado
ao mundo e sua ronha).
A atração do bar
é o proprietário.
O seu rosto descerra
o auge do Calvário.
Prestidigitador
cria noite de prata,
oceano irreal
e barroca fragata...
Induz-nos à catarse
dos apetites tortos,
ao invocar a mística
de Mil Meninos Mortos.
Enquanto as horas fluem
na insólita vigília,
vai-se criando entre nós
certo ar de família
E em esferas rolando
pela noite e seus véus,
com fé aguardamos
a alvorada de Deus!


Num bar fechado há muitos, muitos anos, e cujas portas de aço bruscamente se descerram, encontro, quem eu nunca vira, o poeta Mário Quintana.
Carlos Drummond de Andrade, "Quintana's Bar"

Fonte:
http://www.estado.rs.gov.br/marioquintana/principal.php?menu=32&idPersonalidade=2

Imagem: Lígia Guedes

Relva, Prado, Campo [Ode aos Árcades]


Circunda-te de rosas.
Neste pasto manso
Vem e cinja estes belos campos;
Transpassa o verde manto.

Eu pastor; guio estes rebanhos
Verde gramado;
Florescente prado; por estes pastos
Meus montados hão passado.

Paraíso em terra encarnado
Nosso lar regozija; paz complacente
E destes arvoredos havemos desfrutado
Vida, sombra, pasto e prado florescente.

Tu com as flores a tez enfeitado
Aos pés do arbusto verdejante
Cabelos em boninas hão transformado
Como com a relva o campo há coberto exultante.


Poema/Imagem: Carla Guedes

Domingo, 26 de Abril de 2009

O outro


Metamorfoseando-me
Sinto-me sendo
O que antes tinha sido.
Um ser esquecido,
No fundo d´alma,
Clamando:
Seja-me!

Então serei!
Serei o que haveria de ser
De esse ser no fundo de mim
Esquecido
Que é tão outro
E ao mesmo
Tão meu...

E por ele vivendo,
E por mim sendo
Haveríamos de ser
De dois distintos
Um único,
Um pouco.
Um todo.

E esse ser esquecido,
Que por um instante dormita,
Nada mais vem a ser
Que eu - outro;
Minha [in] consciência;
Meu outro
Que às vezes se mostra
Mas que sou tão eu
Quanto é de mim mesmo.


Carla Guedes - Verso in´verso
Foto: Lígia Guedes

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Declaração (particular) a nós dois


Amo tua fragilidade,
E tua fortaleza.
Tua gargalhada
E teu silêncio, lados de mim
Guardo teus olhares,
Coleciono teus gestos e falas.
A fechadura de minha cela
É a chave de liberdade
Que me prende aos teus braços
E às pétalas de tua face.
E a palavra mais doce que pronuncio
É o veludo de teu nome.


Poesia: Carla Guedes
Imagem: Julius Mack

Antropo[morfossintaxe]


Na análise desta vida
[Semântica]
No profundo encontro
[Vocálico]
Sente-se apenas
Mais um
[Vocábulo]
Neste período
[Composto],
Complexo,
Fundo.

Ser humano, ser
[Hiato]
Ao renunciar-se
[Adjunto]
Ao desfazer-se
[Predicado]
Ao descobrir-se
[Sujeito]
Tece a
[Oração]
Cada dia
[Substantivos]
Rogos.
[Verbos].

E continua
Sua vida
[Primitiva,
comum,
concreta].


Poesia: Carla Guedes
Imagem: Lígia Guedes

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Palavra virtual, palavra honrada.

Compadre, bom dia!
Bom dia, comadre.
Voltei para a questão da parceria.
A comadre anda falando difícil, moderno.
Verdade, compadre, até o 'msn' aprendi a modo de que prosear com o compadre.
Comadre é persistente, duas semanas de prosa...
Se o compadre cansou, resolvemos assim: uma semana de atraso e trago as escritas da menina para o meu cantinho.
Agora que ela está pegando o jeito de escrita...fez uma beleza de artigo de BDM tão lindo, mas que não entendi muito. Mas a comadre explica, por nossa amizade.
Amizade e esperar é assunto que tenho entendido e que o compadre vai ter que compartilhar.
Está certo por demais, comadre. Autorizo então com única condição: levar junto das letras um 'selo' para identificar. Vai ficar moderno.
Identificar, sei... O dia que o compadre visitar o cantinho aqui, avise e traga o selo.
Comadre é que resolve, mas muita escrita repetida não serve muito. Mas acordo bom é o de palavra dita.
Acordado, mas a BDM a comadre explica. Pela palavra!
Palavra expressa, sempre a melhor, compadre, seja onde for.





O aventureiro que trilha a grande rede nesta contemporânea sociedade, na busca da grande viagem do conhecimento, já encontra o 'x' indicado no mapa do tesouro, por tão somente um link. Caminho marcado por uns, visto por outros e como certeza, somente a persistência como chave para que tanto o resultado da micro imagem de um microscópio quanto da grandiosa dimensão de um telescópio ao infinito sejam antes que descobertas, partilhadas, patrimônio cultural.

Muitas destas parcerias tem sido firmadas pela palavra virtualmente empenhada tendo somente o ambiente online como testemunha, onde os internautas não se conhecem fisicamente mas já travam novos valores sociais.

Disponibilizando o link para a matéria publicada sobre o lançamento da 'Biblioteca Digital Mundial' no conceituado site "MakaehCult", acessando a página de literatura:

http://makaehcult.com/colunas/literatura/

Acordo virtual funciona assim: falta aperto de mão entre as partes, mas não falta a 'palavra virtual, palavra honrada".

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Fuga


Quando fujo
Chego mais perto
Do ponto de partida
Eterno retornar:
Tocar na ferida
Tudo o que me lembra
Prende-se ao ciclo.
E sigo
Sempre indo,
Sempre voltando;
Que a vida está presa
Ao eterno retorno
Já sei
(me contara o filósofo).
Mas não quero estar condenada
A retornar sempre
À casa repartida
- construção demolida
De bases mal erguidas
Por minhas mãos desatentas.
Reviver o velho;
Não!
Reinventar o novo.
Recomeço.
Reconstruir-me;
Libertação.
Quero fugir de vez
E desaprender o caminho de volta.


Poema: Carla Guedes
Imagem: Davi Guedes

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Desventura


Ah! os amores; que a um instante
Estão a nos matar de sofreres
E a outros nos enternecem de afagos.
O dolorir infinito das chagas de saudade!

Poderá assim um coração viver
De espasmo e regozijo, pranto e agonia
E um peito assim dilacerado a bater
E logo após exultar de alegrias?

Eis a sina dos amantes que hão de eternamente
Carregar n´alma o amor que sentem
E o sofrível fardo de viver e duvidar;

Qual veneno que sacia, e assim, reciprocamente,
Há de extinguir a vida de quem lho sorver
Sem que a pobre alma que o bebe em nada possa obstar.


Poema: Carla Guedes
Imagem: Lígia Guedes

Indefinição


Ser poeta é ser dor
Dor no peito do outro que sente.
Entrar perfurante verborrágico de versos.
Pulsar hemorrágico de ferida latente.

Ser poeta é ser canto
Canto mudo que no peito do outro ecoa.
Voz rouca que arranha a alma,
Gemido oco e surdo que de dentro soa.

Ser poeta é ser nada
Nada por não ser definido ou distinto.
Sua alma confunde-se com tantas outras,
Funde-se por completo, sentimentos infindos.

Ser poeta é ser sofrimento
Sofrimento de sentir um pouco de toda dor cantada,
um todo de cada canto dolorido.
É ser o outro que sangra e chora
E ser autor do próprio golpe desferido.


Poema: Carla Guedes
Imagem: Lígia Guedes

Sábado, 18 de Abril de 2009

"Um país se faz com homens e livros - Monteiro Lobato"

As cartas vão acabar.
Sim...
As que seguem para o Pólo Norte.
Talvez sim, especialmente não.
Seria inútil, tanto gelo derretendo.
Desistir é a certeza da não resposta.
Mesmo sem nunca ter recebido uma?
Exatamente por isto. A beleza aos dias do náufrago depende da mensagem da garrafa.


Texto: Lígia Guedes


Postal

Escrevo cartas.
A mim.
Quem me entrega?
Quem me as entrego
Quando as remeto?
Remorso.
As leio antes de enviar.
Remeto cartas
Que nas entrelinhas endereçam:
A mim.
Como farei para enviá-las?
Como lê-las?
Finjo que escrevo aos outros
Remeto cartas ao mundo.
Só assim um dia irei vê-las.


Poesia e foto: Carla Guedes

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Firmamento


Queria a vida inteira assim ser.
Arrebol azul de risonho laranja,
Faces púrpuras suaves nuvens
Que te eternecem.

Já não se fora o fulgoroso astro reinante
E a singela noiva dos céus
Timidamente retira seu véu;
Manto negro: censura de tua alva fronde madrepérola.

Queria ter estanque por minhas mãos o tempo
E contemplar, por horas sem fim, teu matiz mórfico
Desflorado em mistérios e cor.
Nenhum crepúsculo ao outro se assemelha
Assim como jamais os dias nos parecerão iguais.

A primeira estrela da noite
Já se perdura no céu infinito
E os serenos olhos do manto
Já fitam com ternura o firmamento.

A noite já vai alta.
Monocromático azul.
É teu o dom de me fazer saudade.


Foto: Julius Mack
Texto: Carla Guedes