Cap. 1: "Quando o homem se aproximou da ponte, já o cão rodeava o corpo.
Cheirava-o, roçando o focinho nas carnes, veias e ossos que pareciam triturados. Conservavam os contornos intactos. Estendiam-se em duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça de borco entre o passeio e o alcatrão. Não havia nem olhos, nem cara, nem roupas. No meio da carne rosácea, os tendões desenhavam linhas brancas, cruzadas por músculos finos, tensos e escuros. A pele parecia ter sido sugada por um violento remoinho que a puxara para dentro, retorcida como um trapo velho, seca como um pergaminho."Cap. 2: "Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam.
Morre-se e recomeça tudo. Fecha-se um ciclo, abre-se outro.
Há quinze anos que lido com mortos.
(...)A carne tornou-se banal. A minha e a dos mortos. E nessa banalidade habituei-me a distinguir com as pinças da ciência as marcas do desvio, da anormalidade, da falha. Hoje, olho para os meus mortos. É só. E olho o meu corpo como um caminho que se estreita até eles. Cada vez mais. Devagarinho. Ao ritmo do relógio que, em cima da cama, me embala os sonhos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. A vida a esvair-se em compassos binários.
(...)Não há duas histórias iguais. Tal como não exitem duas ramificações sanguíneas diferentes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. Morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso à nossa odiosa singularidade.
Morremos todos do coração, acreditem."
Cap. 5: "Lembra-me as manhãs da minha infância. Gosto do aconhego do açúcar e da macieza da massa a dissolver-se na boca. Prefiro manter quase secreto o meu hábito. Tão clandestino como as minhas viagens à cozinha na hora da sesta, noutros tempos e com outra idade.
Temo que alguém me destrua este farrapo de memória com um comentário despropositado. Eu sei que as memórias são cristais frágeis que mantemos durante toda a vida em equilíbrio instável. Como se suspeitássemos o deslize final, quando tropeçamos nelas e somos obrigados a apanhar os cacos.
Guardamos as verdadeiras memórias de uma situação, de um rosto, de um corpo, de um tique, de uma expressão, de um gesto, de um sabor, de uma frase. Por quanto tempo? O que ainda lembramos mistura-se lentamente com aquilo que supomos lembrar. Transformamos as memórias em ficções. Deformamo-las, limando com cuidado os seus contornos. Fica só um rasto da realidade que completamos com a imaginação. E sentimo-nos satisfeitos, felizes, pacificados.
Até ao momento em que, por um acaso, somos obrigados a abrir as gavetas que supúnhamos arrumadas com zelo. A desempoeirar as prateleiras. E nada está onde julgávamos ir encontrá-lo. Que inocência! Acreditávamos mesmo ter guardado ali um sentimento, aqui uma sensação, ali uma impressão. E nada está no seu sítio.
É por isso que acarinho o meu gosto pela argola polvilhada de açúcar que como quase todas as manhãs. Porque o seu sabor é um valor seguro, uma cotação da verdade de minha história. E isso não tem preço.
Acharão com certeza ridículo que um homem feito mantenha gestos de criança. Pois seja. Há muito que aprendi que é em pequenos gestos repartidos por cada dia que permanecemos inteiros. Que evitamos desfazer-nos em pedaço, estraçalhar-nos, dissolver-nos em enganos. E aprendemos a amar os vivos.
Hic locus est ubi mors gaudet succurrere vitae
(Este é o lugar onde a morte se regozija de ensinar aqueles que vivem)INSCRIÇÃO PATENTE NUMA SALA DE AUTÓPSIAS
"Este é o meu corpo" proporciona uma belíssima leitura, abrangente como a vida: trata da natureza e suas linguagens, convivência, pobreza, carência, amor e suas formas de amar, busca humana por individualização em um mundo globalizado. Um canto de amor à vida, onde até o 'entregar-se à morte" é relatado com leveza singular, em um meio onde a solidão humana prevaleceu, tendo a violência física e outras facetas sociais expostas (hipocrisia, indiferença, ausência de amor, basicamente), neste emocionante e primeiro livro, relato feito pela Angolana erradicada em Portugal, Felipa Melo.
Poetisando a vida através da história daquele corpo-enigma, vida violentada, ceifada, que deixou se vencer pelas dificuldades, ilusões, entregando seu 'santuário utilizado pelo homem para transitar entre o início e o fim de sua jornada' como relata a autora, onde se morre a cada instante pela falta de vida almejada, sonhada. Morte como momento de transição natural da vida que se levou ou se permitiu levar.
A autora vai além da imagem de corpo como necessidade, ferramenta de trabalho, mas como 'santuário sagrado onde a vida guarda seus segredos a serem desvendados', onde o corpo fala pela linguagem corporal mesmo pós-vida, sem entonar palavras expressas, parte biológica natural da vida. O livro prende a atenção do leitor por todo seu percurso , iniciado em uma linguagem forte, entretanto, mostrando sua leveza a medida que é desvendada sua história, trajetória revelada por aquelas sagradas mãos que a fazem descobrir, assim como a vida se revela à medida que vamos trilhando os caminhos.