quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A riqueza do mundo - Lya Luft



O que não é banal

O lixo na praia
a mulher parindo na calçada,
as multidões enlouquecidas,
as ilhas dos amantes.
Por um instante
a gente desliga os aparelhos
e vive.

Na luz que se filtra na mata,
poeirinhas, polens, saliva de fada
que ri à toa,
ou caspa de duende armando suas artes.
A ventania chega atropelando tudo:
recolhem-se crianças e coisas
e se olha a tempestade atrás da janela.

Logo ali o grande mundo mói a vida
com suas engrenagens cruéis:
mas aquele momento, naquela redoma
de vidro simples na chuva cotidiana,
ali é o castelo da Bela Adormecida
ou a casa dos sete anões.

(Nada é banal.
A gente é que esquece.)


"escrevo sobre o que nao sei direito", "escrevo para entender melhor e para dividir meus assombramentos com meu leitor" costuma dizer a autora do livro A riqueza do mundo, Lya Luft.

A riqueza do mundo, de Lya Luft é um livro áspero e poético, sempre questionador. Uma coletânea de ensaios breves, crônicas, artigos, não acadêmicos onde são abordados temas como o drama existencial humano, perplexidades, família, autoridade, guerras, miséria, política, entre outros. Como é vista a riqueza do mundo, seja natural, intelectual ou artísitca, afetiva ou econômica é tema indiscutível do livro.

Lya Luft é formada em Letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, foi educadora, atua como tradutora de alemão e inglês desde os 20 anos e já verteu para o português obras de autores consagrados como Virginia Woolf (ver aqui postagem de Entre os Atos), Gunter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 para Lete: Arte e crítica do esquecimento, de Harald Weinrich. É autora de uma infinidade de livros: As pareiras (1980), A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), Mulher no palco (1984), O quarto fechado (1984), Exílio (1987), O lado fatal (1988), A sentinela (1994), O rio do meio (1996 - Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes), Secreta irada (1997), O ponto cego (1999), Histórias do tempo (2000), Mar de dentro (2002), Perdas - Ganhos (2003), Pensar é transgredir (2004), Histórias de Bruxa Boa (2004), A volta da Bruxa Boa (2007), literatura infantil, Para não dizer adeus (2006), poesia, Em outras palavras (2006, crônicas, O silêncio dos amantes (2008), contos, Criança Pensa (2009), literatura infantil, parceria com Eduardo Luft, Múltipla Escolha (2010), Ensaios.

"E quando tudo me aborrecer de
verdade, quando eu ficar cansada
de minhas neuroses e manias,
quando as pessoas estiverem
demais distraídas, a paisagem
perder a graça, a mediocridade
instalar seu reinado e anunciarem
o coroamento da burrice - vou
espiar o letreiro que fala de uma
riqueza disponível para qualquer
um, e que botei como descanso de
tela no meu eternamente ligado
computador:
Escute a canção da vida."

Lyft, Lya,1938 - A riqueza do mundo - Rio de Janeiro: Record, 2011.

2 comentários:

  1. É verdade que nada é banal, a gente é qu esquece. Boa postagem. Bjs,

    ResponderExcluir

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails