quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Orhan Pamuk - A maleta do meu pai


A maleta do meu pai, de Orhan Pamuk; tradução Sérgio Flaksman. - São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

"Acredito que a literatura seja o tesouro mais valioso que a humanidade acumulou em sua busca de compreender a si mesma."

Orhan Pamuk em A maleta do meu pai escreve um hino de amor à literatura  através da semeadura das palavras deixada em seus textos, dos sete romances escritos ao longo dos mais de trinta anos dedicados às letras.

O livro é composto por três ensaios do autor: a maleta do meu pai, discurso da cerimônia de entrega do prêmio nobel de literatura de 2007; em kars e frankfurt, discurso da cerimônia de entrega do friedenspreis de 2005 e o autor implícito, conferência pyterbaugh  sobre literatura mundial

"Todos os escritores que dedicaram a vida à literatura conhecem essa realidade: qualquer que seja o nosso objetivo inicial, o universo que acabamos criando depois de anos e anos escrevendo cheios de esperança, vai dar, no final, em um lugar muito diferente. Ele nos levará para longe da mesa em que trabalhamos com tristeza ou indignação, para o outro lado dessa tristeza e dessa indignação, para um outro mundo. Será que meu pai não poderia ter chegado ele também a esse outro mundo?"

Orhan Pamuk discorre na construção do texto, de uma linguagem acessível a todo e qualquer indivíduo, com a simpliscidade de quem está em um grande diálogo humanitário. Conta histórias, essencialmente de passagens de sua vida, que estão intimamente ligada à literatura. Começa tendo seu pai  como protagonista quando este lhe entrega uma maleta com seus escritos e pede que seja lido somente após sua morte.

"Já me referi aos dois sentimentos essenciais que me dominaram quando fechei a maleta do meu pai e a pus de lado: a sensação de ser um náufrago perdido na província e o medo de não ser autêntico."

"Mas com se podia intuir pela maleta do meu pai e pelas cores desbotadas da nossa vida em Istambul, o mundo tinha um centro, que ficava muito longe de nós."

Lógico que ele ultrapassa os conflitos internos que é conhecer o texto paterno e descobrir no pai um verdadeiro escritor, alguém que ele não enxergou ao longo de sua caminhada não por culpa própria, mas pelo próprio pai ter negado este lado em sua trajetória, deixando-se levar pela vida comum, não se prendendo à literatura como trilha única do caminhar. Fato extremamente oposto à sua trajetória de vida totalmente ligada à literatura.

"Para mim, ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura."

Sobre o ato de escrever interessante ver o autor utilizar de toda a sinceridade chegando a dizer que escreve porque tem raiva das pessoas, escreve porque não consegue fazer um trabalho normal : "Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever! Escrevo porque sou incapaz de fazer um trabalho normal, como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros como os que eu escrEvo. Escrevo porque sinto raiva de todos vocês, sinto raiva de todo mundo. Escrevo porque adoro passar o dia sentado à mesa escrevendo. Escrevo porque só consigo participar da vida real quando a modifico."

"Todos conhecemos a alegria da leitura de um romance: todos já experimentamos a emoção de enveredar pelo caminho que leva ao mundo de outra pessoa, ingressar naquele mundo de corpo e alma e sentir o desejo de mudá-lo à medida que vamos nos impregnando da cultura do herói, da relação que ele mantém com os objetivos que compõem o seu mundo, das palavras que o autor usa, das decisões que torna e das coisas que resolve assinalar à medida que a história se desenrola."

"É na leitura dos romances que as sociedades modernas, as tribos e nações pensam mais profundamente acerca de si mesmas."

"Na maior parte das vezes, a nossa felicidade ou infelicidade não deriva da vida propriamente dita, mas do significado que lhe damos."

"O segredo é encontrar esperança suficiente para chegar ao fim do dia e, se o livro ou o trecho que está lendo for bom, encontrar nele alguma alegria, e felicidade, ainda que só por um dia."

"Se estou me sentindo pessimista, posso pensar sobre o quanto aquilo tudo me entedia. De qualquer maneira, uma voz dentro de mim vai surgir, dizendo-me para voltar para minha sala e me sentar diante da mesa. Não tenho idéia do que a maioria das pessoas faz nessas circunstâncias, mas é isso que transforma as pessoas em escritores."
  

Um autor transparente como seus escritos. Fantástico!

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