sábado, 11 de fevereiro de 2012

Manoel de Barros

Manoel de Barros
"Tudo que não invento é falso."

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.

Manoel de Barros nasceu no dia 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá, MT. Na primeira infância, Manoel de Barros foi criado numa fazenda, no Pantanal mato-grossense. Aos oito anos, porém, o pai o mandou para o Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro, internato onde permaneceu até completar o curso secundário. Manoel tinha saudades de casa, não conseguia se concentrar nos estudos, e era considerado um mau aluno. Aos poucos, começou a se interessar pelos livros. Leu Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e padre Antônio Vieria. "Só aos 13 anos descobri a forma de escrever. E foi lendo o padre Vieira. Descobri a sintaxe que produz o equilíbrio sonoro das palavras."
Após o internato, Manoel de Barros mudou-se para uma pensão no bairro do Catete e ingressou na Faculdade de Direito, onde participou ativamente da militância política de esquerda. Nesta época, tornou-se membro do Partido Comunista, que só viria a abandonar anos mais tarde. Na faculdade, experimentou o desregramento dos sentidos proposto por Rimbaud e identificou-se com a obra de Oswald de Andrade - uma vez que, para ambos, a poesia estava justamente nos desvios das normas da linguagem.
Depois de formado, Manoel de Barros voltou para o pantanal. Em seguida, fez longas viagens pela América do Sul e conheceu Nova York, onde ingressou em cursos de cinema e de história da arte. O primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, de 1937, produzido artesanalmente pelo autor e alguns amigos, teve apenas 21 exemplares impressos.
Com a morte do pai, em 1949, Manoel de Barros herdou as terras de Cuiabá. Tornou-se fazendeiro, mas não abandonou o verso: fundiu seu interesse pelo estudo da filologia do universo telúrico do pantanal, abolindo tanto as fronteiras entre os reinos vegetal, mineral e animal, quanto as que existem entre as categorias gramaticias.
O poeta só alcançou o reconhecimento na década de 80, pelas mãos de Millôr Fernandes e Antônio Houaiss, e teve seus poemas reunidos sob o título Gramática expositiva do chão. "A evolução de meu trbalho em relação ao primeiro livro é linguística. Também me tornei mais fragmentado, o que é consequência do mundo moderno, sem ideologias. Com o tempo, a gente perde a unidade divina", explica o próprio poeta.
Em 1996, com seu Livro sobre nada, Manoel de Barros ganhou o prêmio Nestlé e passou a viajar pelo Brasil por conta de um reconhecimento cada vez maior. Nos últimos anos, vem publicando vários livros infantis num reencontro do "alquimista do verso" com o menino pantaneiro. Surpreendendo a cada livro, Manoel ressalta sua identificação com a obra do romancista mineiro Guimarães Rosa, a quem disse uma vez: "Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."

"Gosto de fazer remontamentos de imagens. E oralidades remontadas. Faço colagem. Tentei uma gramática do êxtase, mas não encontrei."

"Não conto nada na reta, escrevo sempre nas linhas tortas, como digo aliás num poema. Na minha poesia parece que tem muita coisa de fora, mas é tudo de dentro. Sou muito preparado de conflitos."
'Não acredito em inspiração. Primeiro anoto tudo em meu pequeno caderinho, juntando minhas experiências existenciais e linguísticas. Quando termina esta fase, que dura dois, três, quatro anos, vou aos cadernos para catar os poemas e dar-lhe a forma definitiva."
(Manoel de Barros)

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