segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A. A. Parada - Coisas e Gente da Velha Macaé

Antônio Alvarez Parada -
 Coisas e Gente da Velha Macaé
(Crônicas Históricas)

"Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha..."

 Tenho em mãos um livro raro. Raro por ser "um livro escrito por um macaense para os macaenses, sejam êles os que aqui residem na felicidade de sua paz e de sua beleza invejáveis, sejam aquêles que por contingência da vida, daqui se afastaram, ganhando o pão de cada dia no labor ingente de outros centros, sempre saudosos de um mergulho nas águas da Imbetiba ou de um bate-papo amigo nos cafés da rua Direita.

Não é um livro definitivo e, o que mais importa, não pretende sê-lo.

É mais a consequência de um desejo irresistível e incontrolável, qual seja o de levar para o papel, em letras impressas, algo daquilo de curioso e interessante que o autor viu ou soube a respeito do passado de sua terra, onde nasceram, para cada um dos macaenses, tantas alegrias e tantas tristezas.
É, também, um preito de amor à terra natal a que está ligado por tão grandes laços, à terra para a qual não encontrou e, está certo, não encontrará rival em todo o mundo."
Vista Praia Campista - Macaé (RJ)
Macaense, confirmo a fala nada exagerada do caro A.A. Parada (Antônio Alvarez Parada) no prefácio de seu nobre livro "Coisas e Gente da Velha Macaé". Declara ainda, alegando ser "uma obra modesta com a qual pretende o autor iniciar um ciclo de livros sôbre as coisas macaenses, sempre com um único objetivo: "Conhece-te a ti mesmo" . Dedicatória do livro: à memória de meu pai e de minha irmã Pilar. A minha mãe. A minha espôsa. Este é o autor, carinhosamente conhecido como professor Tonito.


Farol - Macaé (RJ)

Minha Terra

   (Alcindo Brito)

A terra em que eu nasci é uma cidade linda!
É a cidade mais linda que há no mundo!
Cidade maravilhosa, cheia de pescadores,
parece que emergiu por encanto das profundezas do mar,
e ficou na praia quente
a se espreguiçar…
a se espreguiçar…


Cidade cheia de riquezas,
és pobre porque és consciente e conformada.
Os teus filhos não são ambiciosos
porque, acostumados a fitar a imensidão do mar,
aprenderam, vendo a imensidade,
que a riqueza material de uma cidade
é coisa pequena demais
para ser coisa que se deva ambicionar!


Minha terra, és rica porque não tens ambição!
Vives no teu sossêgo sem alarde do que és,
sem atraires para elas essa gente sem coração
capaz de abandonar-te sem saudade
depois de ter fartado de gozar-te,
minha cidade!
Gente incapaz de sentir
a tua profunda espiritualidade!


Há quantos anos não te vejo,
pátria da minha infância!
A tua lembrança é uma tela de cinema,
a casinha pensativa que o vovô deixou para minha mãe,
o gradil quebrado do jardim em que eu brinquei,
a maleta de meus livros pendurada atrás da porta da sala de jantar
e a escola no fim da rua;

E a rua muito comprida de paralelepípedos mal dispostos
em que eu soltava papagaios para as bandas do mar
e dois burros resignados arrastavam um bonde barulhento sôbre os trilhos estreitos…


E a cabra cega na praia…
(Tôda vez que eu passava na Alfândega indo p´ra Imbetiba,
o guarda, um soldado, armado de carabina,
gritava como se eu fôsse um contrabandista:
- Quem vem lá? – e eu respondia como a mamãe me ensinara:
- É de paz!
- Passe de largo!
(Eu dava uma corridazinha…)


A praia… Velas de pescadores…
Aves marinhas escrevendo negras reticências minúsculas na
[ tarde azul e grande...
O horizonte longe… O céu azul… O mar sem fim…


Homens rudes que chegam com os barcos transbordando de
[peixes
e a gente pobre que aguarda a chegada dos barcos…
Eu faço estes versos cheio de saudade
de ti, minha cidade!
Eu ainda vejo o teu sol vermelho tomando banho muito cêdo
[em alto mar!


Dentro de minha sensibilidade
tu me apareces cada vez mais linda,
Macaé, minha terra, pátria da minha infância,
Neste momento eu te vejo colorida,
minha suavíssima cidade!
Tôda vestida com as lindas côres de um arco-ris
num cair de tarde!


Antiga Praia das Pedrinhas - Macaé (RJ)

Certamente AA Parada acompanha a vida de Macaé e surpreso não está com as mudanças na terra natal, tantos as boas quantos as nem tanto pois que grande conhecedor do espírito humano sabe que estes privilégios da terra não atingiram somente a beleza natural desta terra que aberta está as milhares de migrações sempre acolhidas com carinho, independente dos interesses que aqui se façam.

O livro tem crônicas interessantes como a origem através de "Jean de Léry a primeira referência ao nome de Macaé" , "Gondomar e a Fundação de Macaé", "Os Sete Capitães", "A Fortificação da Cidade" e até a descoberta por Saint-Hilaire, a 14 de setembro de 1817, junto "a um grande lago de água salgada chamado Lagoa da Sica ou de Boassica, apenas separada do oceano por estreita faixa de terra arenosa e margeada de grandes florestas".

"Logo no início do capítulo e em que se ocupa de nossa terra, Saint-Hilaire faz uma referência à origem do nome de Macaé, escrevendo textualmente: "ainda em nossos dias, os habitantes do Paraguai chamam "macaé", em língua guarani, a uma espécie de arara, inteiramente verde, existente em seus campos". E, em nota a parte, acrescenta: "não posso ter a menor dúvida sôbre a etimologia a que refiro aqui, porquanto me foi indicada nas Missões do Uruguai por um homem competente, que vivera muito tempo no Paraguai e que conhecia perfeitamente a língua guarani".

Entra, assim, Saint-Hilaire no rol dos que interpretaram erradamente a etimologia de "Macaé", preferindo dá-la como "arara verde", da mesma forma que Batista Caetano, citado por Teixeira de Mello, a traduz por "céu enxuto" e outros por "rio dos bagres", quando hoje, todos os tupinólogos estão acordes em que Macaé significa "a macaba dôce" ou "Côco-dôce".

Parece que Saint-Hilaire andou comendo Côco-dôce e se fartou.

Ah, Macaé sendo 'arara-verde' ou 'côco-dôce', que importa, importa que ela é linda com suas serras, rios, mares, entardecer, nascer de sol, ventos, mares e belezas mil onde o macaense, seja ele da terra ou apenas por ela peregrino, vive um paraíso encantado, perfeição divina.

Fonte: Parada, Antônio Alvarez – Coisas e Gente da Velha Macaé (Crônicas Históricas, Edigraf – São Paulo – 1958)
Croquis da capa de JoãoPaulo Cantuária - Texto ilustrado pelo autor

8 comentários:

  1. É verdade Lígia. Mas lembre-se que uma verdade não anula a outra :) Mulheres com filhos não são melhores nem piores que mulheres que escolhem não ter filhos. E todas elas encaram contra-tempos, diferentes tipos de contra-tempo, é bem verdade, mais ainda assim: contra-tempos.

    A intenção desse blog não é dividir, classificar ou segregar as mulheres. Mas sim espalhar a compreensão e a aceitação de mulheres que escolhem uma vida menos típica, menos tradicional :)

    Obrigada por visitar o Útero Vazio e por deixar a sua opinião registrada por lá :)

    Parabéns pelo seu blog -- que belo espaço! Tantos links e textos preciosos... voltarei a visitá-la, com certeza.

    :-)

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  2. Nicole,
    Bem-vinda ao espaço que se torna mais precioso com tua presença.
    Sugiro o filme "Amor Além da Vida".
    Beijos!

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  3. Oh Macaé
    Onde passei muitos bons anos de minha vida, fiz amigos que até hoje fico feliz ao encontrá-los nos jantares com colegas do ginásio, o caldo de cana com pastel no Lar de Maria na volta das aulas, na tranquilidade da porta apenas encostada na volta das festas.
    Saudades....Muitas saudades............
    Luiana Pimentel

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  4. Querida Luiana,

    Macaé certamente é a terra do encontro de almas que se tornam afins quando se relacionam. Do próximo, levamos sempre o melhor, independente se as possibilidades físicas não se fizerem mais possíveis.

    Lígia Guedes - beijos.

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  5. Onde posso comprar esse livro?
    Meu e-mail é juliacmbs@gmail.com
    Obrigada
    Júlia

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  6. Macaé é uma cidade linda e tem muito mais historias e lendas contadas por alguns antigos moradores. Infelizmente essa memória está se apagando e tirando algumas ações como este blog e pesquisas individuais de alguns abnegados que conheço, a linda história dessa maravilhosa cidade vai se perdendo. Lamento que iniciativas do poder publico não sejam tomadas em favor da preservação da memória. Lugares que não existem mais: Colégio Macaense, Ginásio Macaé, Redondo, Choupana... Saudades. Parabens Ligia pelo blog!

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  7. Obrigada, lindas imagens e textos. Bom mesmo é relembrar, como eu, o vozeirão e a LINDA figura do Tonito, sua delicada irmã Anita (onde andará ?), aquela família elegante, nos bons tempos da cidade ainda não infestada pelo TER, pela corrupção deslavada tirando dos mais pobres direitos mínimos, poluição comendo praias e lagoas, valores básicos sendo corroídos pela politiquice irresponsável, insegurança nas casas e ruas que agora... alagam, im-pu-ne-men-te. Os royalties do petróleo, aqui, vão para os bolsos deles e dos seus conchavos.

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  8. Júlia Santos,
    Obrigada pela visita.
    Comprei este livro em sebo online.
    Saudações cordiais.

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