sábado, 12 de dezembro de 2009

Sidarta/Hermann Hesse

"Olhou o mundo a seu redor, como se o enxergasse pela primeira vez. Belo era o mundo! Era variado, era surpreendente e enigmático! Lá, o azul; acolá, o amarelo! O céu a flutuar e o rio a correr, o mato a eriçar-se e a serra também! Tudo lindo, tudo misterioso e mágico! E no centro de tudo isso achava-se ele, Sidarta, a caminho de si próprio. Todas essas coisas, esses azuis, amarelos, rios, matos, penetravam nele pela primeira vez, através de seus olhos."


"A cada passo da sua jornada, Sidarta aprendia coisas que antes desconhecera. O mundo parecia-lhe diferente. Seu coração batia como que enfeitiçado. E ele mirava o sol, sempre que este se levantava acima das montanhas cobertas de florestas ou se punha atrás da longínqua praia orlada de palmeiras. Contemplava a ordem dos astros no firmamento noturno e o crescente da lua, a singrar, feito barco, pelo espaço azul. Olhava árvores, estrelas, animais, nuvens, arco-íris, rochedos, ervas, flores, arroios e rios. Percebia o orvalho da madrugada, a cintilar nos galhos dos arbustos, e também o gris esmaecido de serras distantes. Cantavam os pássaros, zumbiam as abelhas. Nos arrozais ressoava o argentino zunir da aragem. Tudo aquilo, esse sem-número de formas e cores, existiam sempre. Em todos os tempos houvera o murmúrio de regatos e o zumbir de abelhas, mas outrora esses fenômenos tinham-se aligurado a Sidarta como um véu falaz, passageiro, estendido diante de seus olhos e que apenas merecesse desconfiança; um véu cujo destino fosse ser penetrado e destruído pelo pensamento, já que nada disso era essencial e a realidade se encontrava além dos objetos visíveis. Agora, porém, seu olhar libertado atinha-se a este lado das coisas, acolhendo e identificando o que se lhe deparava. Procurava radicar-se neste mundo. Já não ia em busca do essencial. Já não visava o além. Como era belo o mundo, para quem o olhasse assim, ingenuamente, simplesmente, sem nada procurar nele!"



"Sidarta caminhava pela floresta, já muito longe da cidade. Tinha certeza de uma única coisa: que nunca mais poderia voltar atrás, que essa vida que levara por longos anos pertencia ao passado, definitivamente, que a saboreara, chupando até a última gota, até enjoar."





Sidarta / Hermann Hesse; tradução Herbert Caro, prefácio de Luiz Carlos Maciel. - 51a. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
Imagem: RJ - Brasil (Lígia)

Um comentário:

  1. Mais um que volta e meia retorno . A minha edição é de uma velha coleção " Prêmio Nobel de Literactura " .

    Já leu o "Lobo da Estepe" ?

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