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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Lêdo Ivo

Ignoro o quinhão que me coube na partilha
de tantos bens dispersos entre a luz raiante
e a névoa que mascara a borra dos naufrágios.



Lêdo Ivo

Nasce no dia 18 de fevereiro, em Maceió - AL, faleceu em 23 de dezembro de 2012.

Mesmo tendo nascido numa família sem tradição literária, desde a infância Lêdo Ivo manifestou o desejo de ser escritor. Quando se mudou com a família para o Recife, aos 16 anos de idade, passou a colaborar com a imprensa local e participou de um grupo literário do qual fazia parte o escritor e crítico literário Willy Lewin.

domingo, 8 de julho de 2018

Rewbenio Frota - O jogador que desejava perder



Rewbenio Frota -
Que Peça eu quero ser?


Amigos dispensam apresentações, Rewbenio Frota, atua na indústria como Engenheiro e tem na escrita e no xadrez a grande paixão de vida.

Tanto que tem um endereço online: Lances Quase Inocentes

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes
fecha os olhos de dentro -
Acorda, esquecimento.

Arnaldo Antunes é poeta, músico, cantor, compositor e artista plástico. Surgiu em 1982, com o grupo de rock Titãs, no qual ficou por 10 anos - período em que lançou três livros de poemas. O primeiro CD solo, Nome, veio acompanhado de livro e vídeo, revelando as múltiplas trilhas que seguiria em sua carreira.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Salgado Maranhão

Salgado Maranhão
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto

José Salgado Santos é o caçula entre seis irmãos - sendo quatro mulheres. Quando tinha 16 anos, emigrou com a família para Teresina, onde fez o curso secundário. Um dia, na biblioteca pública, descobriu Fernando Pessoa, e a poesia entrou definitivamente em sua vida. Depois, vieram as leituras de Maiakovski, João Cabral, Drummond, Joaquim Cardozo, Cecília Meireles e Murilo Mendes, "poetas inquestionáveis em qualquer idioma".

sábado, 16 de janeiro de 2016

Convite - Lançamento do livro "Cartas e pássaros"



É com alegria que convido os amigos para o lançamento do meu primeiro livro "Cartas e pássaros", onde são apresentados 13 contos: Alça de caixão, A pescaria, Cara da avó, Cartas e pássaros, Fluxo de consciência, Homenagem, Galinho, O acidente, Pai Nosso, Papagaios, Porta de igreja, Verão, 202.



Sinopse da contra-capa:

"A autora, desde tenra idade, descobriu o prazer de brincar com as letras e apreciar o azul profundo do mar na Princesinha do Atlântico, Macaé, litoral do Estado do Rio de Janeiro.

Gosta de observar o olhar dos homens do mar, sejam eles pescadores ou trabalhadores da indústria, onde a diversidade de rostos e cultura é uma constante.
Assim transparecem os contos "A pescaria", "O acidente", "Homenagem" e "Cartas e Pássaros".

Retrata ainda a exclusão em um mundo farto de recursos nos contos "Cara da avó", "Galinho", "Pai Nosso", "Papagaios" e "Porta de igreja".

Espelhos sociais são apresentados nos contos "202", "Fluxo de consciência", "Verão" e "Alça de caixão", onde a frágil vida pode esvair-se como o sopro de uma leve brisa alçando novos rumos, como o voo de um pássaro.

Contacto para aquisição da obra: ligiajoaquim@yahoo.com.br


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Krishna Monteiro - O que não existe mais

Krishna Monteiro -
o que não existe mais

Monteiro, Krishna - O que não existe mais - São Paulo : Tordesilhas, 2015.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Euclides da Cunha


Euclides da Cunha


CRONOLOGIA

1866 - Nasce Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro.
1869 - Morre sua mãe.
1871 - Inicia os estudos em São Fidélis, no Rio de Janeiro.
1877 - Vai morar com os avós paternos, em Salvador, no Bahia.
1883 - Publica seus primeiros artigos no jornal estudantil O Democrata, do Colégio Aquino, do Rio de Janeiro.
188- Cursa o primeiro ano de Engenharia na Escola Politécnica.
1886 - Transfere-se para a Escola Militar da Praia Vermelha.
1888 - Após um incidente com o ministro da Guerra, dá baixa no Exército e muda-se para São Paulo, onde começa a colaborar no jornal A Província de S. Paulo.
1889 - Retorna à Escola Politécnica no Rio.
           Proclama a República, é reintegrado no Exército.
1890 - Casa-se com Ana Sólon Ribeiro.
1891 - Diploma-se em Matemática e em Ciências Físicas e Naturais.
1894 - É enviado para a cidade de Campanha, em Minas Gerais.
1896 - Desliga-se do Exército e passa a trabalhar na Superintendência de Obras de São Paulo.
1897 - Volta a colaborar no jornal O Estado de S. Paulo, antigo A Província de S. Paulo, que o envia a Canudos para cobrir os acontecimentos.
1899 - De volta de Canudos, escreve grande parte do livro Os Sertões em São José do Rio Pardo, SP.
1902 - Em dezembro é publicada a primeira edição de Os Sertões (*).
1903 - Em julho, é publicada a segunda edição de Os Sertões.
            É eleito para a Academia Brasileira de Letras.
            É nomeado membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
1904 - Ocupa o cargo de chefe da Comissão de Saneamento de Santos.
            É nomeado chefe da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus.
1905 - Passa todo o ano no Amazonas.
1906 - Trabalha como adido ao gabinete do barão do Rio Branco.
1907 - Publica Contrastes e Confrontos e Peru Versus Bolívia.
1909 - Termina de escrever À Margem da História.
            É nomeado para o cargo de professor de Lógica no Ginásio Nacional.
            Morre em 15 de agosto, assassinado pelo amante de sua mulher.


(*) Os Sertões
Em 1897 o jornal O Estado de S. Paulo enviou o jornalista e engenheiro Euclides da Cunha ao sertão da Bahia para cobrir a rebelião de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro. A descrição do que presenciou transformou-se num clássico da literatura brasileira, hoje publicado em onze idiomas em dezenas de países. A obra trata da natureza e da estrutura social do mundo sertanejo nordestino. De estilo bem-elaborado e prolixo, Os Sertões constitui a primeira análise sociológica sobre as populações camponesas carentes do Brasil.


À época do Império, na segunda metade do século XIX, o Brasil vive sérias questões políticas externas, como o rompimento de relações diplomáticas em 1863 com o Reino Unido e a intervenção brasileira no Uruguai em 1864. Um dos efeitos dessa intervenção resultaria no maior conflito armado já ocorrido no continente americano: a Guerra do Paraguai, que duraria cinco anos.

No auge do conflito, em 20 de dezembro de 1866, nasce no município de Cantagalo, então Província do Rio de Janeiro, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e de Eudóxia Rodrigues Pimenta da Cunha. Euclides e a irmã, Adélia, mal chegam a conhecer a mãe, que morre de tuberculose quando Euclides está com apenas três anos de idade.

Órfão de mãe, Euclides passa a infância e a adolescência na casa de parentes. Primeiro mora com duas tias, em Teresópolis e São Fidélis, onde inicia seus estudos. Depois, antes de se mudar para a casa de um tio que mora no Rio de Janeiro, passa dois anos em Salvador, com os avós paternos.

Ainda jovem, Euclides e alguns colegas fundam o jornal estudantil O Democrata, no qual publica suas primeiras produções literárias. As 84 poesias escritas nessa época trazem a forte influência de Castro Alves, Gonçalves Dias e Fagundes Varela.

Aos dezenove anos, Euclides decide seguir a carreira de engenheiro civil. Contudo, depois de cursar por um ano a Escola Politécnica, forçado talvez por motivos econômicos, transfere-se para a Escola Militar da Praia Vermelha. A revista da escola - A Família Acadêmica - tem nele um assíduo colaborador. Defensor extremado dos ideais republicanos, Euclides envolve-se, em seu primeiro no como militar, num incidente que seria comentado nos jornais antimonarquistas e chega a repercutir até nas tribunas do Senado Federal.

Inconformado com a proibição do diretor de impedir as manifestações dos estudantes no desembarque de Lopes Trovão - republicano que passara um período na Europa pro pressão do governo monárquico -, Euclides sai do alinhamento quando o ministro da Guerra passa a tropa em revista, atira-lhe aos pés o espadim e, diante dos oficiais boquiabertos, grita um viva à República.

Recolhido á enfermaria como insubordinado e afetado das faculdades mentais, seu desligamento dos quadros do Exército por incapacidade física sem maiores consequências, é conseguido graças à intervenção de alguns amigos seus junto ao imperador. Euclides transfere-se para a cidade paulista de Descalvado, onde seu pai é proprietário de uma pequena fazenda. Encontra boa acolhida entre os membros do Partido Republicano Paulista, que lhe franqueiam as páginas do jornal A Província de S. Paulo, para o qual escreve artigos de natureza política, assinando-se Proudhon.

Em 15 de novembro de 1889 o Brasil acorda sob um novo regime de governo. Cai o império, a monarquia já não dirige o destino do país. Um governo provisório é empossado: o marechal Deodoro da Fonseca exerceria o poder até novembro de 1891. Sem conseguir superar os obstáculos iniciais do regime republicano, Deodoro renuncia. É sucedido por seu vice, o também marechal Floriano Peixoto, mas levantes, revoltas e tentativas de golpe vão minando seu governo.

Euclides volta para o Rio de Janeiro e é reintegrado no Exército. Promovido a alferes-aluno, matricula-se na Escola Superior de Guerra, de onde sai em 1892 como primeiro-tenente da arma de artilharia e coadjuvante de ensino teórico na Escola Militar. Em 1893 irrompe a Revolução Federalista; a guerra civil se estenderia até 1895, já no governo de Prudente de Morais, empossado em novembro de 1894. Nessa época já está casado com Ana Sólon Ribeiro, de apenas dezesseis anos, filha do major Frederico Sólon Ribeiro, que fora o encarregado de entregar ao imperador deposto a ordem de abandonar o país no dia seguinte ao da Proclamação da República. A comprovada lealdade ao novo regime, porém, não impede Euclides de protestar, pelas páginas da Gazeta de Notícias, contra a proposta de um senador cearense de executar sumariamente todos os presos políticos recolhidos na ilha das Cobras, e em outros presídios, em represália à colocação de uma bomba, que não chegara a explodir, na escadaria da redação do jornal O Tempo. Entre os presos está seu sogro, então elevado à patente de general.

Em virtude desse protesto, é enviado para a cidade de Campanha como auxiliar da Diretoria de Obras Militares de Minas Gerais. Encarregado da construção de um quartel, recebe dos campanhenses uma inusitada homenagem para um jovem de 28 anos: a inauguração de uma praça com seu nome, em reconhecimento pelos serviços prestados.

Desiludido com a República, cujos ideais, porém, continua a defender, e decidido a abandonar a carreira militar, passa a dedicar a maior parte do tempo ao estudo de problemas brasileiros e de teorias socialistas, pelas quais já vinha se interessando havia algum tempo.

Desligado do Exército em julho de 1896, Euclides é nomeado engenheiro-ajudante de primeira classe na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo, a princípio em São Carlos do Pinhal.

Nesse período de transição e consolidação do novo regime, destacam-se os movimentos de cunho político e religioso que levam à Campanha de Canudos, no sertão da Bahia.

Euclides reinicia sua colaboração nos jornais com dois artigos sob o título único de A Nossa Vendéia, publicados em março e julho de 1897 em O Estado de S. Paulo. E é dando vivas à República que Euclides segue rumo a Canudos em agosto desse mesmo ano, como repórter do jornal e como adido ao Estado-Maior do Ministério da Guerra. Contudo, testemunha ocular das atrocidades cometidas, antes mesmo de deixar Canudos já tem em mente o plano de escrever uma obra de ataque às expedições enviadas para massacrar os sertanejos revoltosos.

De volta a seu emprego na Superintendência de Obras Públicas, Euclides logo é transferido de São Carlos do Pinhal para a cidade de São José do Rio Pardo, onde, entre 1898 e 1901, cuida da reconstrução de uma ponte sobre o rio Pardo.

Nesse período conclui a redação do livro que o consagraria como um dos maiores escritores da língua portuguesa, Os Sertões, que viria a ser publicado em dezembro de 1902, quando Euclides já estava residindo em Lorena. Com o sucesso imediato da obra vem consagração nacional, traduzida em sua eleição para a Academia Brasileira de Letras e em sua indicação para sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Essas distinções, contudo, não resultam em algo mais prático: um trabalho condizente, ao menos, com sua folha de serviços. Nem mesmo o sucesso de seu livro, com duas edições em menos de sete meses, lhe abre novas perspectivas de um emprego estável. Ao contrário, tendo seus vencimentos reduzidos, deixa o cargo na Superintendência de Obras e volta a colaborar na imprensa, como solução provisória para a sobrevivência da família. Provisória também é sua mudança para Guarujá, como chefe da seção da Comissão de Saneamento de Santos. Em 1904, de volta ao Rio, a iniciativa do barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, de nomeá-lo para chefiar a Missão de Reconhecimento do Alto Purus faz crer que seu valor começa, afinal, a ser reconhecido. Mas é justamente essa missão - levada a cabo com o escrúpulo e a seriedade com que Euclides se desincumbe de todas as tarefas que lhe são confiadas - que cria a série de circunstância que culminariam com sua morte.

Euclides se ausenta de casa durante mais de um ano: parte para o Amazonas em dezembro de 1904 e permanece lá durante todo o ano de 1905. Ao voltar, no início do 1906, encontra a mulher grávida de alguns meses e sua casa frequentada pelos irmãos Dilermando e Dinorá, amigos de Sólon, seu filho mais velho.

A primeira reação de Euclides ante a situação inesperada é a de fechar os olhos diante da evidência. Registra como seu filho, que morre pouco depois de nascer, não dá importância aos comentários que apontam o jovem Dilermando Cândido de Assis como seu rival e mergulha mais do que nunca nos trabalhos de que o incumbe o Itamarati, como adido sem função fixa ao gabinete de Rio Branco. Sua vontade, revelada mais de uma vez aos amigos, que nada sabem do que se passa, é voltar para o Amazonas, como fiscal das obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ou ir para a Venezuela, a fim de cuidar d demarcação de fronteiras em litígio. Mas esses projetos de fuga não se concretizam. Por insistência do escritor Coelho Neto, Euclides concorda em se inscrever no concurso para professor de Lógica no Ginásio Nacional. Tira o segundo lugar, mas assim mesmo é nomeado para o cargo. Catedrático, dá apenas dez aulas, a última no dia 13 de agosto de 1909. De personalidade contraditória, "misto de celta, de tapuia e grego", como se define em uns versos escritos a um amigo, a resolução de medir forças com um rival vinte anos mais moço, e além disso campeão de tiro, é mais do que um gesto desesperado, capaz de lavar sua honra: é um verdadeiro suicídio. Euclides não se sente mais com forças para viver. Além da situação familiar insustentável, os primeiros sintomas da tuberculose, que já vitimara sua mãe, começam a se manifestar.

Sem forças físicas e emocionais para adotar a linha de conduta otimista que ele próprio transmite em Uma Comédia Histórica - "levar as coisas a rir mesmo quando elas são de fazer-nos chorar" - e decidido a pôr termo a uma situação que já se prolonga por mais de três anos, Euclides cai morto numa troca de tiros com o amante de sua mulher numa casa da Estrada de Santa Cruz, junto à estação da Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, no dia 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade. O rigor científico, as preocupações humanísticas e a extraordinária habilidade poética são as características mais marcantes na produção literária de Euclides da Cunha. Sua obra-prima, Os Sertões, não é um frio relatório ou um conjunto de artigos jornalísticos neutros, mas a denúncia apaixonada da miséria e do isolamento da população do sertão nordestino e da ignorância, descaso e desumanidade com o que o governo central tratou o levante popular de Canudos.

Traduzido para mais de dez idiomas, Os Sertões assegurou ao seu autor projeção mundial e o reconhecimento como um dos grandes clássicos da literatura brasileira.

Leia mais sobre Euclides da Cunha na postagem Caravanas Euclidianas: Euclides da Cunha - Os Sertões - O Enigma dos Sertões, feita aqui no Blog "Nós Todos Lemos".


sábado, 21 de janeiro de 2012

avante, soldados: para trás - deonísio da silva

avante, soldados: para trás -
deonísio da silva
São Paulo: Leya,
2010, 168p.
"O romance consegue recontar os pequenos grandes dramas do viver cotidiano, criando personagens complexos e contraditórios, através dos quais consegue enfatizar o absurdo desta e de toda guerra" - José Saramago.

Continuo com a prosa de Deonísio da Silva no livro Avante soldados: para trás. A curiosidade de ler um romance de Deonísio me fez interromper a leitura do livro A sombra do vento e adentrar nas letras do autor, que flui facilmente. O tema do romance que era para ser de difícil acesso é colocado levemente, apesar das descrições presentes dos horrores da guerra, mais especificamente a Guerra do Paraguai - a retirada da Laguna, um dos episódios mais dramáticos da história brasileira, relatado neste livro, vencedor do Prêmio Inernacional Casa de las Américas.
A fome, as táticas de guerrilha da cavalaria inimiga e os efeitos devastadores do cólera são vivamente traçados neste romance que por vezes tem certa ironia nos seus relatos. O autor entremeia com personagens hilários as histórias que remontam além do campo de batalha onde é desvendado um Brasil do século XIX, primitivo e rude, onde as relações sociais, econômicas e culturais são detalhadamente descortinadas.

"Cronistas e historiadores de encomenda não foram senão os escribas dos regimes de dominação cuja imagem ideológica, aliás, lhes cabia construir, mascarando-a na exlatação cívica. A revolução a realidade ou a sua impugnação dá-se, então, pela literatura. Por isso, a verdadeira identidade das nações latino-americanas deve ser mais facilmente encontrada nos personagens fictícios dos narradores que nos docmentos historicametne maliciosamente distorcidos." anuncia o prefácio de Flávio Loureiro Chaves, professor da UFRGS, um dos melhroes intérpretes da literatura brasileira.

O autor cumpriu seu papel recriando, sem maniqueísmos ou ranços nacionalistas, os horrores da guerra: a presença silenciosa do inimigo, os ataques de surpresa, as torturas físicas e psíquicas de um exército despreprado, os gestos de loucura e a permanente tensão. Tudo isto através de uma linguagem que os olhos correm rapidamente através das páginas chegando ao término do livro com a sensação de quem estava a ouvir uma história relatada em um fim de tarde, à beira de uma sombra. O sentido da vida, através do relato dos soldados quase filósofos, seres que não abdicam de sua humanidade, seja romântico, corajoso, ético, lírico, cético, simples, enfim, uma série de caraterísticas afloradas em seus personagens: o coronel Camisão, Agripino, o cabo Argemiro, Mercedes, o paraguaio, a professora Lili e Yolanda, personagens cativantes, ternos, inspiradores.

"- As cabeças são dos nosso - explica o chefe do pelotão interceprado -, as xongas são do inimigo.
Respira um pouco e completa:
- Braços e pernas não fui eu quem quis trazer. Não pude impedir alguns excessos dos meus homens, e eles esquartejaram algumas residentas, essas mulheres que acompanham os soldados paraguaios. Estruparam as pobres próximas antes. Também isso não pude impedir.
O comandante dá um berro no meio da noite:
- Mas para que um espetáculo desses?
- Ainda não terminou - diz o cabo Argemiro.
Com efeito, chega outro soldado com mais um saco muito sujo de sangue. Há movimentos dentro dele. O coronel Camisão, um pouco perplexo, interrompe sua fala exasperada e seus conselhos e admoestações sobre "a arte de bem guerrear, sem exageros" e aguarda a surpresa. O soldado levanta a volsa à altura dos ombros e despeja uma porção de sapos que, ainda mais espantados que os militares ali reunidos, saem pulando em todas as direções. Os soldados, assustados, começam a atirar nos sapos. Outros disparam a si mesmos, fugindo apavorados. Está desfeita a preleção, desmanchada a avaliação do ataque, instalada a anarquia geral, ainda que momentânea.
Logo estão todos reunidos outra vez. Riem. Uns debocham dos outros, proclamam o medo alheio. Em meio ao burburinho geral, o comandante quer saber de quem foi a "ideia malsã" de trazer as cabeças dos nosso e não as dos inimigos. Entreolham-se todos. Há um tom de vacilação na autoridade do coronel em muitos dos olhares. O subcomandante Juvêncio dá um passo à frente, pigarreia e explica:
- Foi uma forma que encontrei de verificar quem morreu de fato, para saber ao certo quem desertou."

Bom livro, não somente aos que se interessam por história, mas aos que gostam de uma boa prosa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bernardo Carvalho - O sol se põe em São Paulo




"Lembro de um jantar especialmente desconcertante em que alguém na mesa gritava que, se não fosse pelo nazismo, o mundo não teria entendido e reconhecido os textos de Kafka, ou de quando alguém citou o exemplo de William Blake - autor do 'Casamento do Céu e do Inferno', que tínhamos estudado naquela mesma tarde, no curso de literatura inglesa -, reconhecido só depois de um século da sua morte, como lema da nossa fantasia de incompreendidos: "O que espanta é a incapacidade de ver, avaliar e fazer justiça no presente". Era uma boa fantasia." (...)

O sol se põe em São Paulo, Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 2007, surpreende, leitura cativante ao leitor desavisado. O livro abre em devaneios (chega a ser engraçado quando o autor sugere fazer um suicídio, ao professor, para provar sua tese literária, o que , lógico, não foi aceito) ao sugerir que toda literatura poderia ser um ensaio futurista da vida do autor entrelaçada à trama escrita.

" É lógico que não falei da minha tese à velha japonesa. Só um louco como o professor, podia me levar a sério. Eu tinha estudado a biografia dos escritores em busca de fatos que dessem sustentação aos meus argumentos, e me servi de um amálgama de todas essas vidas para contar a ela um pouco da minha. Eu me fazia passar pelo sujeito cujos livros de alguma forma anunciariam o meu futuro. Mas o que ela não sabia era que, como eu não tinha escrito livro nenhum, também não podia antecipar o meu destino e que, por isso, sem outra motivação, terminei por abandonar a própria tese."

O protagonista de O sol se põe em São Paulo, cliente, desempregado, separado, morador se São Paulo recebe a pergunta à queima-roupa "Você é escritor?" da idosa dona de um restaurante japonês, a que frequenta desde os tempos da faculdade e que vai mudar sua rotina e rota de vida ao se permitir adentrar nos obscuros caminhos das letras e daquele pacto em se tornar o escritor de uma história de vida.

"No segundo encontro, depois de me perguntar sobre escritores japoneses que eu não conhecia (foi a deixa, porque o pouco que eu sabia era nomes, e mesmo assim os confundia, já não podia dizer quem era quem e quem tinha escrito o quê) e de me deixar com a sensação de que tinha posto tudo a perder, ela me disse que da próxima vez nos veríamos na sua casa. Estava pronta. Eu devia ter desconfiado desde o início que, ao contrário das expectativas mais plausíveis, tudo dependia da minha ignorância e não do meu conhecimento. Ela contava com a minha ignorância. Quanto menos eu soubesse sobre a literatura e os escritores japoneses, melhor para ela, mais à vontade ficaria para me contar a história. Eu era a pessoa que ela procurava, um mentiroso, alguém que só podia ser o que era não sendo. O que me abriu as portas foi provavelmente dizer que não conhecia o escritor de quem ela queria falar, fosse ele quem fosse. E foi preciso que ela desaparecesse, dois meses depois do nosso primeiro encontro, para que eu me visse obrigado a apelar a outras fontes e, passando por acaso pelo nome de um entre os vários escritores japoneses de uma lista de livros que eu nunca lera, acabasse ouvindo de um ex-colega de mestrado, que havia se especializado na obra daquele autor, que a minha história mais parecia um dos seus romances."

Neste cenário que envolve a história do Japão e do Brasil, o triângulo amoroso relatado pela idosa japonesa traz a história de Michiyo, Jokici e Masukichi, que envolve um pária, um primo do imperador e o escritor Junichiro Tanizaki, é igualmente a sua própria história de exílio e humilhação. Seu empenho em narrá-la até o final, em salvá-la do esquecimento a todo custo, é também a única chance de redenção que lhe resta. 

Bernardo Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. É escritor e jornalista. Seus livros foram traduzidos para mais de dez idiomas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Luiz Ruffato - estive em Lisboa e lembrei de você

Luiz Ruffato -
 estive em Lisboa e lembrei de você
Companhia das Letras, 2009


estive em Lisboa e lembrei de você não foi presente. Comprei depois de uma conversa com um amigo que me relatou a maneira especial com que conheceu o autor Luiz Ruffato - em um voo, ao acaso -, com que trocamos sobre como anda a literatura no Brasil, novos e antigos autores, com que me fez pesquisar na rede o autor, suas entrevistas, e finalmente o livro "estive em Lisboa e lembrei de você". Não, também não estive em Lisboa mas ele esteve recentemente e certamente ainda não leu o livro (e nem contei que o adquiri) mas eu estou aqui, com o caro livro carinhosamente informado, adentrando nesta história que já se fez antes que dele, minha pois se um amigo encontra Luiz Ruffato e alegremente vem contar como foi esta história, sei que a literatura já faz parte de nossa caminhada e isto é compartilhar antes que livro, amizade.

Leitura leve, aprofundada no 'chão da fábrica', ou seria 'da vida'?!

O autor tece uma narrativa subjetiva entrelaçando os ambientes e personagens onde se constrói rapidamente a condição sócio-econômica do ambiente e seus vícios inerentes, oriundos de uma sociedade estagnada, que muitas vezes ama essa condição de estagnação por puro 'deixar-se ficar', assim como o passar de uma tarde de domingo, sem proposta concreta, sem perspectiva, visto a certeza da segunda-feira.

"Acendi um cigarro, ele trouxe uma garrafa de cerveja, dois copos, não podia ver ninguém bebendo sozinho, "Me dá aflição", brindamos, sumiu atrás da mulher, "Vou pedir pra ela fazer um tiragosto especial, 'xa com migo". Deste dia, rcordo borrões, a cheirosa maçã-de-peito acebolada, um esfomeado viralata desavergonhadamente submisso, o entra-e-sai de meninos e meninas magros e esfarrapados, "Seu Pimenta, me dá um litro de água-sanitária", "Seu Pimenta, a mãe mandou perguntar se o senhor pode vender uma garrafa de Coca-ola pra pagar no sábado", "Seu Pimenta, o senhor tem bomba-de-flit?". "Seu Pimenta, o pai pediu pra colocar isso na vaca"!Seu Pimenta, me dá uma caixa-de-fósforo" - seu Pimenta, o Chacon, levantava, entregava a mercadoria, anotava o fiado num bloquinho com papel-carbono, sentava, reavivava o colóquio, "Que nem o Flamengo de oitenta-e-um, nem o Santos de Pelé", nem o Santos!". No final da trde, o pessoal que labutava do outro lado da rua, virando areia e dimento, empurrando carrinho-de-mão lotado de massa pra uma construção no alto do barranco, apreceu, tomaram pinga, comeram jiló cozido e linguiça frita, jogaram conversa fora, e levei um baita susto quando acordei, o sol queimando a minha cara, terça-feira, no meu quarto na Taquara Preta, a cabeça latejando."


O livro relata a história de Serginho, em forma depoimento, nascido em Cataguases (MG), gravado em quatro sessões, sendo uma parte feita no Brasil, quando tinha vida de modesto operário da Seção de Pagadoria da Companhia Industrial Cataguases, quando tenta mudar de vida, parando de fumar. Namora 'amadoristicamente' e por azar do destino, engravida a visinha, Noemi, moça de idéia fraca que foi 'pega pelada em frente à Prefeitura' e que vendo ir para o brejo o casamento com Noemi, a exemplo do emprego, Serginho, de posse de umas raspas de herança deixada pela mãe, contempla o projeto de se bandear para Portugal, onde sacos de dinheiro estão supostamente à espera de quem não foge de trabalho duro.

"Resolvi explorar a experiência do seu Oliveira, que ultimamente, de dois em dois anos, viajava pra lá, encostei no balcão, pedi uma cerveja, um pratinho de azeitona, e desembainhei um questionário, "Como é que um sujeito chega em Portugal?", "De avião, ora pois", "Como é que é um avião por dentro?", "Apertado", "De onde sai o avião?", "Do Rio de Janeiro", "Quanto tempo demora a ida?", "Umas nove horas", "E a volta?", "Mesma coisa, ora pois", "Tem banheiro?", "Evidentemente", "Dá pra dormir?", "Até ronco", "Tem comida?", "A da TAP é boa", "E o país?", "O melhor lugar do mundo", "Onde um sujeito, que quiser ir, compra a passagem?", "Em Juiz de Fora", "Quando custa mais ou menos?", "Uns mil dólares, dependendo da época", "Mil dólares?", "Dependendo da época", "Que mais um sujeito, que quiser ir, precisa saber?", "Tem que tirar passaporte..", "Passaporte?", "Um documento universal", "Hum...", "E tem que trocar o dinheiro", "Onde o sujeito arruma o tal passaporte?", "Na Polícia Fedral, em Juiz de Fora", "E o quê que o senhor falou de dinheiro?", "Tem que trocar, levar euro", "E se o sujeito nem nunca viu um euro de perto?" "Guardo comigo umas notas, posso mostrar", e incentivou, com a minha cultura, a minha desenvoltura, a minha sáude, "Vá, Sérgio, empenhe-se, economize", pra, investindo em imóveis em Cataguases, garantir uma velhice tranquila, de papo-pro-ar, ..."

Que prosa!

Luiz Ruffato é autor do livro Leituras de Escritor (veja aqui postagem anterior).

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. De acordo com ele mesmo, já foi "pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista". Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a série Inferno provisório e o aclamado Eles eram muito cavalos, traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA e Machado de Assis.

sábado, 31 de julho de 2010

Paulo Roberto de Aquino Ney -
metáforas da alma - poesia



Ontem fui dormir bêbada de poesia e acordei zonza de Aquino. Não há como falar em poesia sem falar em Paulo. Um poeta "que ainda vai morrer de Poesia!". É exatamente esta a sensação quando se lê suas poesias e aquela de "use e abuse". Paulo de Aquino foi descoberto por duas gerações de minha família sem que ainda tenhamos a oportunidade de olharmos nos olhos. Não há como escapar de suas poesias. Vou tentar me conter e não dissecar seu livro neste espaço. Vou tentar não relatar as merecidas homenagens, nacionais e internacionais, nem dizer que Paulo Ney é filho dos Goytacazes (RJ) pois tudo isto já foi dito no Instituto Campista de Literatura, na Academia Fluminense de Letras, no Instituto Campista de Literatura e o Dr. Austregésilo de Athayde já bem o declarou entre os melhores sonetistas do país. Para João Rodrigues, 'O PONTO', quem o escreveu "tem gabarito bastante para a imortalidade". Bom, vamos ao que interessa:

"O PONTO

Era uma vez um ponto, um ponto pequenino,
que queria ser mais que um ponto... e um dia, então,
Deus lhe deu, na aparência, o mágico destino
do belo e singular ponto de exclamação.

Feliz, a carregar aquele traço fino,
igual, na vertical, ao traço de união,
nem percebeu na hora o grande desatino
que haveria de vir daquela interjeição.

O tempo foi passando, e o ponto, sob o peso
do traço, foi perdendo o seu aspecto coeso,
e curvou-se, afinal, numa interrogação:

- O que será de mim nas mãos do analfabeto?
Quisera ser, de novo, um ponto irrequieto,
singelo em qualquer língua, exato em qualquer mão!


Ney, Paulo Roberto de Aquino,
Metáforas da alma : poemas / Paulo Roberto de Aquino Ney. Campos dos Goytacazes, RJ: Editora da Academia Campista de Letas, 2004.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Elvis/Mito e Realidade



Tem livros que nunca serão terminados, como um sonho sem possibilidade de retorno ao ponto interrompido.

Arte-imagem reeditada (o livro original é azul claro/prata): Lígia Guedes
Elvis - Mito e Realidade, Maurício Camargo Brito (macbrito@bol.com.br), American Graffiti, 2a. edição - 1992

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