domingo, 15 de janeiro de 2012

deonísio da silva - contos reunidos

contos reunidos - Deonísio da Silva.
 - São Paulo: Leya, 2010. 608p.

Farta a prosa de Deonísio da Silva onde em 86 contos extravasa todo seu extrato da palavra. Surpreendente a variedade de vozes que habitam os contos do catarinense, vencedor do Prêmio Literário Casa de las Américas com o romance Avante, soldados: para trás.

Magníficos contos ora líricos, dramáticos, hilariantes ou irônicos o autor ultrapassa as formas tradicionais de narração comprovando o pleno domínio da técnica da narrativa curta. Um merecido premiado escritor.
É só conferir:

A antiga vida vadia de Brandina

Era difícil acreditar na sua beleza antiga, quando o que se podia notar eram uns seios murchos, penduricalhos incompetentes na barriga fofa. O vestido comprido não mais mostrava as coxas famosas. Apenas se podia vislumbrar, sob a saia, uns ossos encardido e rangedores, cobertos por pele de pouca tintura.
Parecia a Marta de um desses quadros das histórias sagradas ilustradas, que apresentam Nosso Senhor e Maria. Marta sempre aparece trabalhando.
Impregnara-se do vício santo de cuidar de crianças: criara muito mais netos do que filhos propriamente.
No rodízio feito da casa de um genro para a casa de uma nora, justificava a sua filosofia de velha, proferida na boca murcha pela falta de dentes. Contava-lhes então inúmeras histórias acerca das particularidades do nascimento e da criação de cada um dos dezessete filhos, enfatizando as peripécias que haviam conspirado contra a existência do ser humano no mundo. Escutavam as histórias fantásticas, sem acreditar. Julgavam-na caduca já. Se insistia, resmungavam que, pelo jeito, tinha passado o seu tempo de nova no Inferno. Doía-lhe a incredulidade, mas calava. Antigamente brigara, embrabecera os braços. Agora não mais. Seus gestos eram semrpe de ternura.
Filhos da contestação juvenil - que já começava a apontar também na roça -, os netos iam aos poucos se recusando a aceitar sua super-realidade antiga.
Eram poucos os velhos que a rodeavam - os mais estavam no cemitério - quando ela também foi. Acalentava o nenê da filha, em cuja casa estava hospedada por força de seu histórico rodízio, quando caiu no fogo do chão, por sobre o qual estavam dependuradas em correntes as panelas de ferro, cozinhando a oia para os da roça. Não encontrou forças para escapulir, mas conseguiu jogar a criança a salvo. No esperneio, derrubou a comida quante por cima de si mesma. Os gritos decerto foram muitos, mas a roça era longe e os vizinhos mais ainda. Quando o pessoal chegou, o pequeno chorava num canto. No meio do fogo, a velha, muiro mais assada do que São Lourenço, seu santo de mair devoção.
Então, pouco a pouco, suas histórias tornaram-se fantásticas na boca daqueles que as haviam negado. Erigiram-lhe um oratório, o que levou um velho remanescente a recordar a vida vadia que ela levava antes de juntar-se a um fecundo fazendeiro. Talvez o velho assim procedesse apenas para valorizar ainda mais o seu perdão. Disseram que o velho era caduco, Brandina...

Deonísio da Silva diz-se jardineiro e botânico das palavras. Publicou sete romances, diversos livros de ensaios e infantojuvenis, totalizando 33 obras. Seu livro de estreia, Exposição de motivos, foi levado à televisão por Antunes Filho, em teleteatro, e recebeu do Ministério da Educação o prêmio de melhor livro do ano (1976). Desde então, o reconhecimento pela importância de sua obra só têm expandido fronteiras: além do Prêmio Internacional Casa de las Américas pelo romance Avante, soldados: para trás (1992), foi também laureado pela Biblioteca Nacional por outro romance referencial, Tereza D´Ávila: namorada de Jesus (1997), já adaptado para o teatro. É ademais autor de obras de referência, como A língua nossa de cada dia e De onde vêm as palavras. Doutor em Letras pela USP, é professor titular e pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

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