segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Raul Pompéia

Raul Pompéia

1863 - Em 12 de abril nasce Raul d´Ávila Pompéia, em Jacuecanga, município de Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro.
1873 - A família transfere-se para a cidade do Rio de Janeiro, Raul é matriculado como interno no Colégio Abilio, do dr. Abílio César Borges, barão de Macaúbas.
1879 - Ingressa no Imperial Colégio D. Pedro II, onde conclui os estudos secundários.
1880 - Publica seu primeiro romance, Uma Tragédia no Amazonas.
1881 - Publica os contos Microscópios no jornal estudantil A Comédia, de São Paulo. Matricula-se na Faculdade de Direito de Largo de São Francisco, em São Paulo. Luta pela abolição da escravatura, ao lado do poeta, jornalista e advogado Luís Gama.
1882 - A Gazeta de Notícias começa a publicar em folhetins o segundo romance de Raul, As Jóias da Coroa.
1883 - Inicia as Canções sem Metro, publicando-as no Jornal do Comércio, de São Paulo.
A campanha abolicionista absorve grande parte de sua atividade.
1885 - Com 94 colegas, transfere-se para a Faculdade de Direito de Recife, onde conclui o curso.
1888 - Publica em folhetim, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, o romance O Ateneu. Inicia nesse mesmo jornal, a seção "Pandora", sobre a crítica de arte. Trabalha como correspondente do Diário de Minas. Deixa inacabado o romance Agonia.
1889 - Colaboração em A Rua, de Pardal Mallet, e no Jornal do Comércio.
1890 - Intensa atividade artística, que o faz discutir os problemas coletivos de seu tempo.
1891 - É nomeado professor de mitologia da Escola Nacional de Belas-Artes.
1892 - Ofendido por Olavo Bilac, desafia-o para um duelo à espada.
1893 - Publica um de seus melhores desenhos políticos: "O Brasil crucificado entre dois ladrões", na linha nacionalista dos adeptos radicais de Floriano Peixoto.
1894 - É nomeado diretor da Biblioteca Nacional.
1895 - Acusado de desacatar Prudente de Moraes, Presidente da República, é demitido do cargo de diretor da Biblioteca Nacional. Em 25 de dezembro põe fim à vida com um tiro no coração.
1900 - Publicação póstuma, em livro de Canções sem Metro.


O Ateneu
Um dos mais inteligentes romances da literatura brasileira e obra mais conhecida de Raul Pompéia, O Ateneu narra a história de Sérgio, um garoto que com onze anos é levado pelo pai para um internato. 
Em uma recriação autobiográfica,o autor conseguiu como poucos captar os conflitos, constrangimentos e angústias do dia-a-dia no colégio interno.


Jornalista e escritor, Raul Pompéia, nasceu em Jacuecanga, Angra dos Reis, Rio de Janeiro em 12 de Abril de 1863, segundo filho do próspero advogado Antônio d´Ávila Pompéia, homem carrancudo, de aspecto austero, e de Rosa d´Ávila Pompéia, mulher de rara beleza.

O pai descendia de uma família mineira, que, envolvida na Inconfidência Mineira, fugiu de Minas e fixou-se em Resende, Estado do Rio de Janeiro. Dona Rosa provinha de portugueses que, atraídos pela cana e pelo comércio, se estabeleceram em Angra dos Reis.

Depois de liquidar os negócios da fazenda, em 1873 o doutor Antônio transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família, onde comprou casas e abriu banca de advogado.

Nessa época as ricas famílias da Inglaterra mandavam os filhos para o Eaton, quando lhes queriam dar uma educação coerente com a posição social. À burguesia brasileira o Colégio Abílio, bem como o Imperial Colégio D. Pedro II, pareciam corresponder. Em 1973 "O menino Raul Pompéia entra para o colégio dos homens que sustentam e pagam a educação dos seus filhos com o trabalho escravo", escreveria José Lins do Rego. Em O Ateneu, obra publicada em 188, o professor Aristarco personaliza o modelo da educação moral e cívica.

Mas não se pode tomar ao pé da letra que o Ateneu tivesse sido inspirado mesmo no Colégio Abílio. Na vida de Raul Pompéia, o diretor Abílio César Borges, barão de Macaúbas, gozou de uma lembrança bem contrária àquele ódio que Aristarco despertava em Sérgio, narrador e protagonista. Em 1891, quando morreu o famoso barão, Pompéia dedicou-lhe verdadeira homenagem.

No Colégio Abílio, Raul Pompéia revelara suas inclinações intelectuais e artísticas. Dona Rosa e o doutor Antônio sonhavam para o filho um lugar de relevo, a nata da sociedade.

Os d´Ávila Pompéia, especialmente as mulheres (a mãe e as três irmãs) concentravam todo o carinho e confiança no jovem Raul. Seus escritos e desenhos foram guardados amarrados em fitas. A família continuava distante do burburinho d Corte. Praticamente não recebiam visitas. Raul não tinha amigos íntimos, mas era vibrante nos ataques aos professores injustos e ao favorecimento escolar de que gozava o neto do imperador. Não se acomodou. Embora aprovado, várias vezes repetiu o exame de grego, até conseguir a nota com distinção. Concluiu o ensino médio e desdenhou o diploma que tanto estudo lhe custara. Publicou Uma Tragédia no Amazonas, escrito na época do Abílio, que alcançou algum sucesso e lhe valeu crítica esperançosa de Capistrano de Abreu, literato de fama.

Quando Pompéia desembarcou em São Paulo, onde foi fazer o curso de Direito, falava-se na construção do Viaduto do Chá. Naquele ano de 1881 a cidade era pequena, a vida era tranquila. Animavam-na os estudantes, com suas repúblicas, suas festas. A garoa umedecia a paisagem. As casas baixas abrigavam famílias de passado rural; brasileiros, italianos, portugueses, um ou outro espanhol; algum alemão, foragido de inúmeras perseguições; o russo que se encontrava com o turco e falavam da guerra entre seus países; alguns judeus iam à sinagoga. Nos bairros, negros livres procuravam organizar seus núcleos familiares, apesar do ambiente escravocrata. Havia os mestiços passeando na vida boêmia. Nos cafés a intelectualidade paulistana discutia a República, a escravidão, a literatura. Os poetas iam à praça.

Em São Paulo Raul Pompéia logo se engajou na campanha abolicionista. Embora violentos, não foram os escritos de "Rapp" (um dentre os seus vários apelidos) que atraíram o ódio aberto dos escravocratas paulistas. Foi uma charge contra o Diário de Campinas, órgão dos proprietários rurais. O desenho ousado ferira a suscetibilidade religiosa dos donos de escravos. COm isso o estudante Raul Pompéia passou a ser perseguido pelos conservadores. A Faculdade de Direito refletia a crise política; os estudantes abolicionistas e republicanos entravam em choque com a direção retrógrada de alguns de seus professores.

Em 1884, jornalista consagrado, autor de mais um romance (As Jóias da Coroa), a banca o reprovou nos exames finais: "injustamente", disseram testemunhos da época. Na sequência de uma greve, Raul Pompéia emigrou para o Recife com mais 94 colegas, onde concluiria o curso de Direito.

Não foi só no jornalismo.

Raul Pompéia também participou apaixonadamente dos dois principais movimentos de oposição da época; intransigente, não rimava República com escravidão. Além de escritor, Pompéia foi também desenhista e escultor, demonstrando temperamento sensível, às vezes angustiado, mórbido e instável, características que o levaram a se envolver em contínuas polêmicas.


Suas ligações com Luís Gama e depois com Antônio Bento, líderes insurrecionais inatos, fixaram no poeta de Canções sem Metro uma ideia de prática política. As rebeliões nas senzalas queimavam pós de café, os escravos fugiam.

Em Recife Pompéia viveu mais isolado. O bairro onde ele e os colegas criaram uma casa de estudantes era distante. Pompéia concentrou-se nas provas finais e nos trabalhos literários. Talvez datem dessa época os esboços de O Ateneu.

A situação menos escravocrata do Nordeste descansou-o um pouco da campanha abolicionista. Levou, enfim, o seu diploma para o Rio de Janeiro e a lembrança de alguns colegas mortos pela febre amarela.

Começou a atuar como o que hoje se chama de jornalista cultural. Sua vocação de artista plástico era saciada com a cobertura de exposições e com sua escrita ficcional, marcada por descrições muito vívidas e cromáticas.

A temperatura política do Império media-se na rua do Ouvidor. Ministros, deputados, jornalistas, poetas e cocheiros comentavam e previam acontecimentos; de palpite, compunham-se e derrubavam-se os ministérios. Segredos do Paço escapavam; faziam-se promessas de empregos públicos. Uma mulher bonita suspendia olhares, provocava a fantasia dos homens. Raul Pompéia era dos habitués. Mas não bebia, não fumava, não tinha aventuras eróticas para contar. Ouvia com desagrado os comentários vulgares. Fugia disso. Era contra sua índole, delicada e fina.

No entanto, se estivesse em discussão um assunto político ou literário, mostrava-se polêmico, defendia com ardor suas posições. Os inimigos apareciam; uns discutiam honestamente, outros armavam boatos, calúnias. Enfim, Pompéia fazia parte do ambiente intelectual de Coelho Neto, Aluísio de Azevedo, Artur Azevedo, Olavo Bilac, Valetim Magalhães, Capistrano de Abreu, Luís Murat, Machado de Assis, Araripe Júnior e Pardal Mallet.

Em 1887 lá está ele em meio a intensa atividade, colaborando em jornais de diversas províncias, polemizando, fazendo comícios pela República e pela abolição; vai à rua do Ouvidor. O artista prolongava as noites de trabalho debruçado sobre as Canções sem Metro (cuja publicação se iniciara em 1883 no Jornal do Comércio, de São Paulo), desenhando ilustrações para elas.

Sua sensibilidade recolhe ao mesmo tempo imagens do passado, sons, sofrimentos, decepções que se fundem às mesmas emoções doloridas do presente. Esse trabalho vai consumindo tinta e papel e dando vazão a um requintado artista do romance brasileiro. O resultado é a publicação, em 1888, de O Ateneu, segundo seu autor uma "crônica de saudades", cujo lançamento foi assim comentado pela Gazeta de notícias: "Não há no livro propriamente personagens reais, copiados in totum de um modelo único; mas não há fato nem cenários de fantasia".

Nesse ano Pompéia escreveu uma defesa do livro diante de seus críticos, que, numa prática brasileira que dura até hoje, insistiam em julgar o autor em vez da obra. Melancólico como Machado, Pompéia não teve a capacidade de reserva e ironia dele; seu bordão de autodefesa era: "É mau, mas é meu".

É placentária a relação de Pompéia com sua origem, diria se pudesse o menino Sérgio, personagem-narrador de O Ateneu. As relações não se quebravam nunca; a família como que amarrava um nó no coração. Raul Pompéia não desatou todos os pontos. As quatro mulheres da família projetavam nele todo um carinho não manifestado ao pai, por sua austeridade e hipocondria; transmitiam ao medas menino da casa as emoções provocadas pela atuação, ao que tudo indica, de respeitável autoritarismo do pai, o homem da casa.

O autoritarismo do doutor Antônio era resultado do sistema patriarcal que assegurava a instituição da família como privilégio dos proprietários e homens livres. Raul Pompéia não conheceu outra vida familiar. Na intimidade, o seu mundo foi exclusivo da família, dividido entre o afeto maternal e a força paterna. O conflito íntimo entre essas imagens contrárias de prazer e repressão, conduzido pela inibição moral dos costumes, ele soube sublimar na arte de O Ateneu. "O seu romance nos parece uma criação que vencera o suicida", afirmaria José Lins do Rego.

A partir de 1891 ele não escreveria mais para a literatura. Sua personalidade voltara-se inteiramente para a política. Sucedem-se comícios, artigos, polêmicas, ensaios com o estilo inconfundível do homem de letras. Violentos, radicais... Mas radicais em relação a quê?

Não era mais possível o clima de união de que Pompéia gozara no movimento abolicionista à época da São Francisco. A guerra civil animava polêmicas, dividia jornalistas: defendiam-se interesses diversos, quando não se tratava de proteger a própria pele. Alguns colegas de Pompéia haviam sido presos e torturados pela polícia de Floriano. Sob constante estado de sítio e perseguições, os florianistas agitavam o Rio de Janeiro com manifestações radicais.

Pompéia sofre ofensas de Olavo Bilac no jornal O Combate. Num artigo, Bilac criticava severamente Pompéia, acusando-o de estar sendo cooptado pelo governo florianista ao aceitar o emprego de professor num momento de muitas incertezas políticas. A reação violenta de Pompéia ao que considerou uma infâmia veio no desafio feito a Bilac, depois de se esbofetearem um dia, sob juras de vingança; para resolver a questão duelariam à espada.

Há no episódio do duelo, moda recente entre os frequentadores dos cafés da rua do Ouvidor, algo de grotesco. Socialmente, talvez expressasse intenção de auto-extermínio de uma camada sem perspectiva histórica no processo que se desenrolava. Os espadachins não entraram em ação, a ofensa fora retirada, graças à interferência dos padrinhos. Era a frase que, na vida de Pompéia, seus biógrafos chamam de "intoxicação pública".

Pompéia continuou florianista mesmo após a morte do presidente. No governo de Floriano, fora nomeado professor de mitologia da Escola de Belas-Artes e depois diretor da Biblioteca Nacional. A posse de Prudente de Moraes criaria pânico e paranóia entre os florianistas; os mais exaltados continuavam o clima de guerra civil.

Meses após os funerais do marechal Floriano - quando, segundo fontes do governo, que estivera no cemitério prestando as últimas homenagens ao antecessor -, um jornal publicou violento panfleto assinado por Luís Murat. O artigo se referia às cenas nos funerais. O título da matéria era "Um Louco no Cemitério", Além da crítica política à conduta de Pompéia e de aplaudir sua demissão do cargo na Biblioteca Nacional, Murat, ex-companheiro de classe de Pompéia, tocou na honra deste, insinuando "covardia" no desfecho do duelo com Bilac.

O doutor Antônio falecera alguns anos antes. Pompéia, com suas crises de depressão, preocupava a
mãe e as irmãs. Após a leitura do artigo de Murat, vivia alarmando as mulheres com projeto de suicídio. "Estou desonrado!" Com os nervos despedaçados, resolveu papéis e tomou o revólver. Ainda escreveu um bilhete ao jornal, pelo qual se sentira desprestigiado, e ao país: "À Notícia e ao Brasil declarou que sou homem de honra", Datou "25 de dezembro de 1895" e assinou "Raul Pompéia". Estirou-se numa poltrona. A mão do artista foi certeira; desembaraçou-se de si mesmo com um tiro no coração. A mãe, dona Rosa, e as irmãs foram acudir. Antes de pedir água e morrer, o desgraçado artista notara o estado da irmã. Disse à mãe: "Vá ver a Alice".

Raul Pompéia é o patrono da cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Domício da Gama.

Abolicionismo, nacionalismo e condições sociais foram alguns dos temas que Raul Pompéia, além de tratar em suas obras e discussões, procurou mostrar desenhando. Seus desenhos revelam uma sensibilidade artística que vai além dos limites do escritor preocupado com os problemas do seu tempo. Quando escreveu O Ateneu, Raul Pompéia quis dar mais vida ao texto, acompanhando-o de ilustrações feitas por ele mesmo, a bico-de-pena. São mais de quarenta desenhos que mostram personagens, situações, detalhes da vida no Ateneu; enfim, todo o clima que envolve Sérgio, o personagem-narrador do romance.

Um dos mais inteligentes romances da literatura brasileira, O Ateneu é o ápice da carreira de Raul Pompéia. É o romance da desilusão. O escritor escolheu para a fábula sentimental o estilo mais significativo de sua época: Gustave Flaubert. Dele tomou emprestado o nome de um personagem para construir uma das figuras femininas mais platonicamente sensuais - Ema.

Sérgio e Ema constituem a história de amor no romance.

A história do internato fala da educação sexual e intelectual do adolescente como reflexo da sociedade e, mais precisamente, de sua elite no contexto de falência do regime monárquico, de base escravista. Os sintomas de decadência percorrem as experiências narradas por Sérgio no contato com os companheiros de classe - Rebelo, Sanches, Bento Alves, Franco, Egbert -, mostrando-se nas relações a ausência de perspectiva histórica.

Em artigos e prefácios, Pompéia se revela um combatente decidido contra o escravismo e a monarquia. Em seus livros, ainda que timidamente, já são colocadas questões que só cem anos depois viriam a ser debatidas abertamente, como a homossexualidade e os internatos para meninos.

Do ponto de vista literário não há unanimidade entre os críticos: alguns, com ressalvas, o classificam como realista; outros, também com ressalvas, o enquadram entre os naturalistas; e há também aqueles que até insinuam que sua obra é precursora do Modernismo. Por todas essas razões, a obra desse home que tirou a própria vida é um dos marcos na história da nossa literatura, capaz de propiciar o prazer e a reflexão ainda hoje.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Francisca Júlia da Silva


Francisca Júlia

"Mergulha o teu olhar de fino colorista
No azul: medita um pouco, e escreve; um nada quase"
(Francisca Júlia)

Francisca Júlia, a única mulher no Brasil a se destacar no Parnasianismo, uma escola de estilo sóbrio e conservador, foi incentivada  a ler pelo pai, advogado, e pela mãe, professora. Aos oito anos, mudou-se com a família para São Paulo. Aos 20 começou a escrever para o Correio Paulistano, o Diário Popular e o Estado de S. Paulo - no qual publicou seus primeiros poemas -, e também para a imprensa carioca, destacando-se as revistas O Álbum, editada por Arthur Azevedo, e A Semana.

O livro de estréia de Francisca Júlia reuniu os sonetos publicados durante três anos na imprensa. Segundo Manuel Bandeira, "o seu livro Mármores (...) foi entusiasticamente saudado pelos mestres parnasianos, e com razão, pois talvez em nenhuns outros versos se encontre como nos da poetisa paulista mais extremamente realizado o ideal de impassível beleza, que era a aspiração da escola."
Apesar do sucesso, Francisca Júlia só lançou outro livro de poemas, Esfinges, oito anos depois. Nesse período, editou em colaboração com o irmão, o também escritor Júlio César da Silva, o Livro da infância, adotado pelas escolas de 1. grau do estado de São Paulo. De acordo com Benjamin de Abdala Júnior, Esfinges  "mostrou seu encaminhamento para a tendência religiosa do Simbolismo". Pode-se observar que sua obra tem duas fases distintas: parnasiana, em Mármores; e simbolista, em Esfinges. Deste último, disse o crítico Aristeu Seixas: "Nenhuma pena manejada por mão feminina, seja qual for o período a que remontemos, jamis esculpiu, em nossa língua, versos que atinjam a perfeição em par e a beleza estonteante dos concebidos pelo raro gênio da peregrina artista."

Em 1909, a poetisa casou-se com o telegrafista Edmundo Munster, deixando a vida liter´ria para dedicar-se ao lar. Só publicou mais um livro, o infanto-juvenil Alma infantil, também em parceria com o irmão. Conhecida como a "musa impassível", sua morte veio a demonstrar que, na vida particular, Francisca Júlia não era nada impassível: inconformada e bastante abalada com a morte do  marido tuberculoso, a poetisa ingeriu uma dose letal de narcóticos e morreu no dia seguinte, em pleno velório do esposo, sendo sepultada no feriado de finados.

Curiosidade
Sua estréia na revista A Semana, uma das mais conceituadas da então capital federal, causou grande alvoroço. Seus redatores, escritores famosos da época, a princípio não acreditaram que aqueles versos tão perfeitos tivessem sido escritos por uma mulher. João Ribeiro chegou a comentar: "Isto não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo Correia!"

"Em Francisca Júlia, surpreendeu-me o respeito da língua portuguesa, (...) que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura."
(Olavo Bilac)


"Nem aqui,nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhes são positivamente inferiores na estrofe, na composição e fatura do verso, nenhum possui e tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa fria severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa."
(João Ribeiro)

"Muito pouco se escrevem sobre o maior vulto feminino do Parnasianismo brasileiro. Num universo inteiramente dominado por poetas do chamado sexo forte, Francisca Júlia provou que mulher também sabia fazer poesia de qualidade."
(Roberto Flores)


À noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra;
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois, a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, em réquiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite adentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite escura assim, de repouso e de calam,
É que a alma vive a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor tão cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.


Nasce no dia 31 de agosto, em Xiririca (atual Eldorado) - SP
Morre em 1. de novembro, em São Paulo - SP

Obras da autora
POESIA: Mármores, 1895; Esfinges, 1903.
INFANTO-JUVENIL: Livro da infância (com Júlio César da Silva), 1899; Alma infantil (com Júlio César da Silva), 1912.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vicente de Carvalho

"O mar é para  mim como o céu para um crente."

Vicente Augusto de Carvalho, nascido em Santos, litoral paulista, o "poeta do mar" - como viria a ser chamado - terminou os estudos longe de sua fonte de inspiração. Formou-se em Direito na Faculdade de São Paulo, em 1891.
Seus dois primeiros livros, Ardentias e Relicário, apresentavam um lirismo mais próximo do arrebatamento romântico do que da frieza descritiva do estetismo parnasiano, escola literária com a qual viria a ser associado. "A visão do oceano, da mata e da montanha e o encanto pela beleza da mulher são traços comuns do romântico e do parnasiano", aponta Alfredo Bosi, concordando com Euclides da Cunha, que prefaciou Poemas e canções. Para o escritor, Palavras ao mar é "... um dos mais breves e maiores poemas que ainda se escreveram na língua portuguesa".
Jornalista combativo, Vicente de Carvalho envolveu-se com a campanha republicana, tendo como princípio as idéias positivistas então em voga, chegando a ser eleito membro do Diretório Republicano de Santos. Nesta cidade, fundou o Diário da Manhã e O Jornal, e colaborava com A Tribuna e O Estado de S. Paulo.
Com o fim das suas atividades políticas - foi deputado do Congresso Constituinte do Estado -, mudou-se para Franca, no interior paulista, tornando-se fazendeiro. Retornaria a Santos, onde foi nomeado juiz em 1907 e, sete anos depois, ministro do Tribunal de Justiça. Em seu período positivista, Vicente de Carvalho parou de escrever poemas. Por isso seu nome não figura entre os parnasianos de ponta: Raimundo Correia, Olavo Bilac e Alberto de Oliveira. Mas a publicação de seus livros, no início do século XX, revelou, segundo Manuel Bandeira, "um quarto mestre, nada inferior aos outros, e em certos aspectos mesmo superior - mais vário, mais completo, mais natural, mais comovido". Para a professora e crítica Sônia Brayner, o poeta "jamais renegou os sentimentos líricos iniciais, assumindo uma posição independente frente às tendências formalistas".
Em 1909, foi eleito para a cadeira número 29 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Artur Azevedo. Depois de se aposentar, deixou também o jornalismo, resumindo a sua participação na imprensa à publicação esparsa de versos na revista  A Cigarra, e passou a dedicar-se com mais frequência ao seu passatempo favorito: a pescaria. Conta Amaury Ribeiro que "o poeta provocava a lenda de homem do mar que o circundava (...), sempre longe dos salões e da vida social, testando-se na praia, dormindo nos barcos, à espera das manhãs de pescaria". O "poeta do mar" faleceu vítima de uma pneumonia, adquirida durante um passeio de barco.

"Só explica tão forte empenho posto em granjear tão modesto resultado, como é um livro de versos, aquele fortíssimo instinto, profundamente humano, que se rebela contra a morte, sonhando, para depois dela, uma continuação, ainda que modificada, da vida."
(Vicente de Carvalho)


"O autor de Poemas e canções não é legítimo parnasiano. Apenas soube aproveitar da escola poética de Bilac os grandes benefícios que trouxe, no Brasil, para a construção do verso."
(Mário de Andrade)


"Em matéria de linguagem e de regras em geral, Vicente de Carvalho foi, na mocidade, um revolucionário entusiasta, como o comum dos moços e até mais talvez. Afigurava-se-lhe a gramática portuguesa, em certos casos, apertada tirania exercida ilegalmente sobre o falar brasileiro."
(Euclides da Cunha)

Sugestões do Crepúsculo

Ao pôr-do-sol, pela tristeza
Da meia luz crepuscular,
Tem a toada de uma reza
A voz do mar.

Aumenta, alastra e desce pelas
Rampas dos morros, pouco a pouco,
O ermo de sombra, vago e oco,
Do céu sem sol e sem estrelas.

Tudo amortece e a tudo invade
Uma fadiga, um desconforto...
Como a infeliz serenidade
Do embaciado olhar de um morto.

Domada então por um instante
Da singular melancolia
De entorno - apenas balbucia
A voz piedosa do gigante.

Toda se abranda a vaga hirsuta,
Toda se humilha, a murmurar...
Que pede ao céu que não a escuta
A voz do mar?


1866 - Nasce no dia 5 de abril, em Santos - SP
1924 - Morre em 22 de abril, em São Paulo - SP

Obras do autor
POESIA: Ardentias, 1885; Relicário, 1888; Rosa, rosa do mar, 1902; Poemas e canções, 1908; Versos da mocidade, 1909.
PROSA: Verso e prosa, 1909; Páginas soltas, 1911; A voz dos sinos, 1916; Luisinha, 1924.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um Panorama da Poesia Brasileira do século XX

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Bela cozinha



Um mimo: receber de minha filha o livro autografado Bela cozinha (e escreve)!




Muito belo e instrutivo pois vai além de receitas, tem todo um contexto de repensar a forma de alimentar-se.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho - Volumes 1 e 2






Começar a coleção de Monteiro Lobato por Reinações de Narizinho é assertivo. 

Reinações de Narizinho é um clássico da literatura infantil brasileira.

As histórias do grande autor permearam minhas tardes de leitura feliz da infância. Acredito mesmo que meu amor pelas letras começaram com este autor que tão bem soube falar ao coração e mente infantil.

Lobato, Monteiro, 1882-1948. Reinações de Narizinho, volume 1 e volume 2 - Monteiro Lobato; Ilustrações Paulo Borges. - 2a. ed. - São Paulo:Globo, 2008.

A coleção Monteiro Lobato pela editora globo contém os seguintes livros:

Ilustrações de Paulo Borges
Reinações de Narizinho (volumes 1 e 2)
Caçadas de Pedrinho
O Picapau Amarelo

Ilustrações de Osher e Hector Gomez
Aritmética da Emília

Ilustrações de Cláudio Martins
Histórias de Tia Nastácia

Ilustrações de Fabiana Salomão
Peter Pan

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cartas e pássaros - Lígia Guedes Joaquim



Caros,
Segue em primeira mão a capa do meu livro de contos, "Cartas e pássaros", a ser lançado no mês de outubro do corrente ano, na cidade de Macaé, estado do Rio de Janeiro, Brasil.
O livro apresenta 13 contos. São retratos do olhar dos homens do mar, sejam eles pescadores ou trabalhadores da indústria, onde a diversidade de rostos e cultura é uma constante.
Assim transparecem os contos “A pescaria”, “O acidente”, “Homenagem” e “Cartas e Pássaros”.
Retrata ainda a exclusão em um mundo farto de recursos nos contos “Cara da avó”, “Galinho”,“Pai Nosso”, “Papagaios” e “Porta de igreja”.
Espelhos sociais são apresentados nos contos “202”, “Fluxo de consciência”, “Verão” e “Alça de caixão”, onde a frágil vida pode esvair-se como o sopro de uma leve brisa alçando novos rumos, como o voo de um pássaro.
Estarei divulgando o lançamento do livro tão logo seja possível. Passei por grande perda familiar e no momento estou repriorizando este momento.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

12 Anos de Escravidão

12 Anos de Escravidão

O filme 12 Anos de Escravidão mostra a que ponto o ser humano chega nas relações com o seu próximo, através da emocionante história (real) de um homem que foi sequestrado e tornou-se escravo por 12 anos.

1841. Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um escravo liberto, que vive em paz ao lado da esposa e filhos. Um dia, após aceitar um trabalho que o leva a outra cidade, ele é sequestrado e acorrentado. Vendido como se fosse um escravo, Solomon precisa superar humilhações físicas e emocionais para sobreviver. Ao longo de doze anos ele passa por dois senhores, Ford (Benedict Cumberbatch) e Edwin Epps (Michael Fassbender), que, cada um à sua maneira, exploram seus serviços.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Projeto livro - em andamento




Caros,
Estes dias tem sido importantes para a concretização do sonho de lançamento do  livro de contos pois está tinindo no forno da editora. Encerrei a fase de revisão de texto.
Acima, um pequeno ensaio fotográfico feito por meu amigo Julius (Julius Mack Fotografia), pois necessitava de uma foto para compor a biografia do autor. 
Iniciei a peregrinação rumo ao melhor ângulo na querida Praia Campista, nesta amada cidade de Macaé, a Princesinha do Atlântico (o fundo, Praia dos Cavaleiros), onde tem-se vista para as três ilhas: Sant´Ana, Papagaio e Francês. 
Assim como relatou nosso mestre Antônio Álvares Parada, foram cenário para muitas histórias de desbravadores que aqui chegavam nesta praia selvagem que nunca deixou se dominar à construção de um porto de atracamento.
Frequentava em minha adolescência a Praia Campista, onde nenhuma residência se fazia presente.
Lindos tempos.
O nome do meu livrinho em breve divulgarei.
Estou guardando surpresa mas adianto que o lançamento está bem próximo, caso tudo ocorra conforme o cronograma da editora.
Estou feliz com toda esta vivência.
É como um período de gestação em que os momentos finais estão por vir, a ansiedade aumenta e certamente o feliz dia chegará, quando estarei apresentando minhas letras aos amigos.
Até breve!

terça-feira, 29 de julho de 2014

A trilogia das cores



Excelente e surpreendente opção de filmes: A trilogia das cores "A liberdade é azul", "A igualdade é branca" e "A fraternidade é Vermelha".

"A liberdade é azul" conta o drama de Julie, que ao acordar num hospital de um acidente, fica sabendo que sua filha e seu marido Patrice morreram. No desespero, Julie procura se desfazer de tudo que lhe lembre o passado. Aos poucos, reencontra a vontade de viver com Olivier que ajudava Patrice a compor o "Concerto Pela Unificação da Europa". Enquanto auxilia Olivier a retomar o trabalho do marido, Julie sente de novo a dor da perda ao reabrir ferida, mas, com Olivier a seu lado, tem mais confiança em si mesma e no futuro... Uma história de amor contada com a sensibilidade do consagrado diretor polonês Krzusztof Kieslowski, que escreveu o roteiro em parceria com Agnieszka Holland.

"A fraternidade é Vermelha", na minha visão, o melhor da série, talvez por ter já participado de um júri popular certa vez e compreender um pouco o mundo judiciário sob os olhos de quem julga ou pretende julgar. O filme conta a história de um juiz aposentado a partir do ponto em que conhece Valentine (Irène Jacob), quando dirigindo seu caro de volta para casa, após um dia de trabalho como modelo, atropela algo em seu caminho. Ao descer do veículo, encontra uma cachorrinha ferida, com o endereço de seu dono na coleira. É assim que ela fica conhecendo a pessoa que iria alterar o curso de sua vida: um juiz aposentado, que termina seus dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Por trás deste estranho comportamento, está o enigma de um homem cujo motivo vital é tomar posse da intimidade daquelas pessoas e acompanhar passo a passo o desenrolar de seus destinos... Um oceano de possibilidades coloca-se, então à frente de Valentine e ela se vê prestes a mergulhar num mundo assustador, em que todas as regras podem ser quebradas. indicado ao Oscar em 1995 para Melhor Diretor, Melhor Rotiero e Melhor Fotografia. Boa filosofia de vida e valores.

"A igualdade é branca" beira ao cômico, conta a história do polonês Karol que recebe uma intimação para comparecer ao Palácio da justiça de Paris e surpreende-se ao saber que Dominique, sua esposa, quer o divórcio. Sem falar absolutamente uma palavra em francês, ele entra em grandes apuros e depois de muito contratempo, Karol enriquece e trama uma inusitada vingança contra sua ex-mulher, mesmo amando-a loucamente.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Wislawa Szymborska

Wislawa Szymborska
[poemas]

Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigtório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

[Alguns gostam de poesia]

Poemas / Wislawa Szymorska; Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien - São Paulo : Companhia das Letras, 2011.

Escolhi o livro [poemas] , de Wislawa Szymborska, como presente especial a minha amada filha poetisa Carla Guedes, que faz aniversário no próximo mês de agosto. Para uma amante das letras e em especial de poesias, acredito ser o presente que a deixará deslumbrada com a qualidade dos poemas da autora polonesa, ganhadora do Prêmio Nobel de literatura de 1996, que sempre escreveu pouco mas merecedora do nobre prêmio, provando que quantidade não é qualidade.

Beirando aos 90 anos, toda a sua produção, que cabe num volume relativamente pequeno, pode ser lida em um dia ou dois, mas requer tempo para ser de fato apreciada. E isso não porque ela "escreva difícil", pois, para os poetas poloneses nascidos no entre guerras, quando seu país ressurgiu das ruínas de três impérios, não havia crime ou pecado maior que o hermetismo, a obscuridade. Pelo contrário: seus versos, que, lúcidos e acessíveis, nunca recorrem a referências esotéricas e a passes verbais de mágica, desdobram-se quase como equações lógicas cuja argumentação pode ser acompanhada por qualquer um. Nem por isso se trata de uma poesia fácil, no sentido de feita com facilidade. Sua arte, que é a da contenção, da economia e da reticência, pressupõe, em cada poema, uma intencionalidade meticulosamente pensada e, portanto, uma prolongada gestação. A polonesa só escreve seus poemas necessários e os escreve apenas uma vez, vale dizer, ela inventa procedimentos novos para cada um deles e não os repete nem os converte, como fazem bardos menores, em matriz xerográfica de dúzias de poemas similares.
Com uma obra completa mais seleta do que as antologias dos outros, Szymborska prova que muito da grandeza se revela naquilo que um autor se recusa a escrever. Sua poesia já foi chamada de filosófica e, condizentemente, enfatiza antes a indagação sistemática do que as eventuais respostas, mas as perguntas que dirige a uma realidade hostil são tão atípicas (embora também tão naturais e incontornáveis) quanto as de um pré-socrático que o túnel do tempo despejasse no centro da principal área de desastre do século XX. Foi em polonês que se escreveu a melhor poesia dos últimos cinquenta ou sessenta anos, e, pelas mãos de Szymborska, a geração de poetas que testemunhou a Segunda Guerra e o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada. (Nelson Ascher)

Wislawa Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para Cracóvia, onde vive até hoje. Estudou literatura e sociologia na Universidade de Cracóvia. Trabalhou por quase trinta anos na revista literária Zycie Literackie.

sábado, 21 de junho de 2014

Macaé - RJ - Brasil - Vista da cidade - por Gladstone Peixoto

Macaé - RJ - Brasil


E assim amanhece a Princesinha do Atlântico (Macaé) no primeiro dia de inverno do ano de 2014.

Imagem: Gladstone Peixoto

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pascal Mercier - A partitura do adeus





A revista Cidade Nova (exemplar 578, Ano LVI, n. 6, Junho de 2014), na seção "na estante", por Fernanda Pompermayer (fernanda@cidadenova.org.br) apresentou uma crítica literária sobre o livro A Partitura do adeus, de Pascal Mercier
A partitura do adeus é uma obra contemporânea, nitidamente pós-moderna. Mas poderia ter sido escrita cem anos atrás, no século 18 e até antes. Poderia ser uma linda história narrada no tempo das carruagens, em que as tuas eram iluminadas por lampiões, em bucólicas auroras cobertas de névoa. Parece contraditório, mas não é. A narrativa é totalmente atemporal por compor uma obra onde a psicologia humana transborda em cada página, em cada parágrafo. A história é narrada sem muitos enfeites, não é um livro de "final feliz" e isso fica claro desde o começo, desde a introdução. Mas o que se passa com as personagens poderia ser vivido em qualquer época da história: são situações, dramas, anseios que poderiam compor a aventura humana de qualquer pessoa, em qualquer época ou país. O que faz a história ser tocante e atual é o modo de contá-la, a ausência de pudor em desnudar feridas. Existe amizade, confidência, interesse sincero pelos outros. As pessoas se defrontam com seus limites, com o fim de uma carreira, com o fracasso de um casamento. Há deslizes e vitórias... como sempre houve e haverá.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Sonho 2014: um livro!


Caros leitores e amigos,
Quem nunca teve um sonho (prefiro a palavra sonho a projeto) a latejar os pensamentos?
Pois eis que vagarosamente ando caminhando alguns passos em direção a edição de meu primeiro livrinho. Sim, digo livrinho porque ele é bem tímido, pequeno, poucas páginas.
Está em final de gestação.
Como é difícil colocar palavras impressas. Sim, porque as palavras ficam mas os pensamentos são mutantes. Então o que gostaríamos de dizer em determinado momento da vida que sabemos que poderão não ser mais nossos pensamentos futuros? Poderão estar em algum momento do nosso passado de idéias. Mas a falta do dizer não constrói. Então o hoje é importante para construir o amanhã que se espera.
Assim, estarei editando um livro para contar quem sabe o que vi, imaginei ver ou ainda vivenciei, seja através do meu olhar ou do olhar do outro.
Até o final deste ano desejo compartilhar este sonho: um livro de contos.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Érico Veríssimo - Fantoches e outros contos



A revista Cidade Nova de janeiro do corrente ano na seção "na estante", por Fernanda Pompermayer (fernanda@cidadenova.org.br) apresentou um crítica literária sobre o livro de contos de Érico Veríssimo entitulado Fantoches e outros contos aqui reproduzida:

Livro: Fantoche e outros contos
Autor: Érico Veríssimo
Editora: Companhia das letras, São Paulo, 2007
Páginas: 352
Preço: R$46,33

O longa "O tempo e o vento", de Jayme Monjardim, trouxe à memória dos brasileiros o escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), m dos nossos autores clássico do século 20. O talento de Érico talvez tenha se perdido no tempo, levado pelo vento... mas nem por isso deixa de ser real e autêntico.
Além de sua obra-prima homônima ao filme - que é retratada por Monjardim apenas em parte - Érico escreveu dezenas de outros livros. O primeiro deles foi Fantoches, ainda em 1932, reunindo os seus primeiros contos, como se fossem peças de teatro. Depois vieram os romances Clarissa (1933), Música ao longe (1935) e muitos outros. Érico enveredou inclusive pela literatura infantil, escreveu diários de viagem e por fim suas memórias, em Solo de clarineta. Fantoches e outros contos é uma reedição do original Fantoches, acrescido de outros contos mais tardios. O volume conta com uma característica muito especial: para a edição comemorativa dos 40 anos da publicação de Fantoches, Érico, escritor mais maduro, apontou sobre o livro várias observações, inclusive ilustradas por ele mesmo, come espírito crítico e com o grande senso de humor que o caracterizou - dá para entender o talento e a veia humorística do filho, Luis Fernando Veríssimo.
A primeira parte da versão atual apresenta o livro original com os fac-símiles das páginas anotadas por Érico. "Há uns vinte anos, relendo os contos que formam o presente volume, tive  sensação de ser pai de mim mesmo. Torando a l~e-los agora, vinte anos mais tarde, sinto-me como se eu fosse o meu próprio avô..." (Érico Veríssimo, 1972).
Na segunda parte (Outros contos), o autor dá um show com contos mais maduros e reflexivos. Só para dar água na boca:

As mãos de meu filho. "Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas em voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros. Beethoven."

O navio das sombras. "É noite escura e o cais está deserto. Ivo ergue a gola do sobretudo. Sente muito frio, e o silêncio enorme e hostil enche-o de um vago medo. Vai viajar. Mas é estranho... Tudo parece diferente do que ele sempre imaginara. O grande transatlântico se desenha sem contornos certos contra o céu de fuligem. Não se vê um só vulto humano no cais. Advinha-se, entretanto, na treva, a presença rígida e gelada dos guindastes."

A ponte. "O médico tinha prometido vir às cinco da tarde com a interpretação da radiografia. Mário esperava-o, angustiado, na biblioteca de seu apartamento, imaginando o pior. Era um sábado de maio e ele estava sozinho desde as três, tentando concentrar-se na leitura de uma novela. Impossível. Tinha a atenção vaga e inquieta e, além da dor habitual no estômago, a garra do medo agora lhe oprimia o peito, dificultava-lhe a respiração."

O grande Érico Veríssimo toca o fundo da alma de quem o lê. Por isso, é imperdível.

terça-feira, 11 de março de 2014

Carla Guedes - Rosas



Já não tenho medo das rosas.
Lindas, rubras...
Antes meu medo era rubro
Rubro meu sangue
Colhido nos espinhos
Do medo perfurante
Da ausência e desilusão.

Murchas.
Rosas murchas,
Feitos sonhos murchos
Despetalados na praça.
Já não tenho medo das rosas.
Perfume com espinho dentro,
Sofreguidão com espinho dentro
Beleza, mesmo que dure
Só na paixão da entrega?

Já não me envergonham as rosas.
Faces rubras,
Sangue, sofreguidão e espinhos.
Porque hoje me enfeito de rosas
Mesmo que a carne grite,
Mesmo que os dedos gritem,
Porque sei, agora murchas,
Que eram lindas e inocentes.

Eram apenas rosas.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A Menina que roubava livros - filme



O filme A menina que roubava livros é uma leitura fiel à narrativa do livro, no tom correto: sério, poético, delicado e reflexivo. Recomendo!

domingo, 2 de março de 2014

Clarice Lispector - primeiro esboço


Clarice Lipector, primeiro esboço, by Lígia.
Quem sabe um dia ainda acredito que posso desenhar e entro em um curso, quem sabe.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Oliver Sacks - Um antropólogo em Marte

Oliver Sacks
Um antropólogo em Marte : sete histórias paradoxais - Oliver Sacks; tradução Bernardo Carvalho. - São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

O caso do pintor daltônico, O último hippie, Uma vida de cirurgião, Ver e não ver, A paisagem dos seus sonhos, Prodígios e Um antropólogo em marte são casos clínicos extraordinários de que o neurologista nos apresenta com uma visão tendo como foco a individualidade humana e suas complexidades pois faz referência a indivíduos cujas vida, pressionadas por situações-limite (por vezes trágicas, em geral dramáticas) podendo nos levar a compreender melhor o que somos.

O caso do pintor daltônico
Relata a história do Sr. I que teve um colapso abrupto e completo da visão das cores, após um suposto acidente de carro passando a viver num mundo em preto-e-branco. Daltonismo total, raro. A partir do relato do paciente, desse sensível artista que em início de março de 1986 relata sua história em carta ao Dr. Oliver começa assim uma batalha pela compreensão das possibilidades da situação vigente e futura:
"Sou um artista consideravelmente bem-sucedido que acaba de passar dos 65 anos. No dia 2 de janeiro deste ano eu ia dirigindo meu carro quando levei uma trombada de um pequeno caminhão, do lado do passageiro. Durante a consulta no ambulatório de um hospital local, me disseram que eu tinha sofrido uma concussão. Durante o exame de vista, descobriram que eu não conseguia distinguir letras ou cores. As letras pareciam caracteres gregos. Minha visão era tal que tudo parecia visto através de uma tela de um televisor em preto-e-branco. Depois de alguns dia passei a distinguir as letras e fiquei com uma visão de águia - consigo ver uma minhoca se contorcendo a uma quadra de distância. A precisão do foco é inacreditável. MAS ESTOU COMPLETAMENTE DALTÔNICO. Procurei oftalmologistas que nada sabem sobre esse daltonismo. Procurei neurologistas - inutilmente. Mesmo sob hipnose, continuo sem distinguir as cores. Passei por todo tipo de exame. Todos os que você conseguir imaginar. "

A reflexão possível deste primeiro conto, poderia assim chamá-lo é instantânea ao que leva a refletir José Saramago no seu livro "Ensaio sobre a cegueira". É um mundo novo descortinado a partir da narrativa. Um mundo em que o ser humano poderá desfrutar, renovando percepções, novas concepções de vida possível a partir de novos ângulos. Ângulo diferente de tudo a que está acostumado, suas regras sociais, suas rotinas, tudo caindo por terra e novos valores a aflorar para que a vida continue, seja de que forma for.

Sete narrativas sobre a natureza e a alma humana, aviso o autor no prefácio, e sobre como elas colidem de formas inesperadas. As pessoas deste livro passaram por condições neurológicas tão diversas quanto a síndrome de Tourette, o autismo, a amnésia e o daltonismo total. Elas exemplificam essas condições, são "casos" no sentido médico tradicional - mas também são indivíduos únicos, cada um vivendo (e, em certo sentido, criando) seu próprio mundo.

Oliver Sacks nasceu em Londres, em 1933, e mora nos EUA, onde leciona no Albert Einstein College of Medicine (Nova York). É autor de Enxaqueca, Tempo de Despertar (que inspirou o filme homônimo com Robert de Niro e Robin Williams), O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, A ilha dos daltônicos, Vendo vozes, Tio Tungstênio, Com uma perna só e Alucinações musicais - todos publicados pela Companhia das Letras.


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Henry James

Henry James
1843 - Em 15 de abril, nasce Henry James, em Nova York.
1855 - Viaja para estudar em Genebra, Londres e Paris.
1862 - Estuda na Faculdade de Direito de Harvard.
1864 - A família muda-se para Boston. Publica seu primeiro conto: A Tragedy of Error.
1865 - Publica The Story of a Year, primeiro conto assinado.
1866 - A família transfere-se para Cambridge, Estados Unidos.
1870 - Em março recebe a notícia da morte de sua prima Minny Temple.
1875 - Publica A Passionate Pilgrim, Transatlatic Sketches e Roderick Hudson.
1877 - Publica O Americano.
1880 - Publica A Herdeira.
1881 - Publica O Retrato de uma Dama.
1882 - No mês de janeiro morre sua mãe; em dezembro morre o pai.
1884 - Publica Lady Barberina (*).
1886 - Publica Os Bostonianos e A Princesa Casamassina.
1890 - Publica A Musa Trágica.
1891 - É encenada Gy Domville.
1896 - Muda-se para Lamb House, em Rye, na Inglaterra.
1898 - Publica A Outra Volta do Parafuso (*).
1902 - Publica As Asas da Pomba.
1903 - Publica Os Embaixadores.
1904 - Publica A Taça de Ouro. Viaja aos Estados Unidos.
1905 - Publica The American Scene.
1915 - Torna-se cidadão britânico em 26 de julho.
1916 - Morre no dia 28 de fevereiro, aos 73 anos.


(*) Lady Barberina - A Outra Volta do Parafuso
Lady Barberina é o retrato de um grande amor norteado pelos valores sociais; revela as experi~encias de vida do autor e traça um paralelo entre a cultura dos Estados Unidos e a da Inglaterra no século XIX.

A Outra Volta do Parafuso é um excepcional conto de horror. No século XIX, governanta inglesa que cuida de duas crianças descobre que elas podem estar sendo manipuladas pelo espírito de dois empregados.



Não: nada de cadáveres. Nem crimes. Nem castelos escuros. Nem sangue. Nem alçapões secretos. Nem monstros que caminham pela noite.

Não: o mistério e o pavor não dependem dessas coisas. Os fantamas, se existem, caminham à luz do dia. Quando se tem medo, é o próprio sangue que esfria nas veias. Fora dos túmulos, os cadáveres existem apenas na imaginação. E os alçapões secretos são as ciladas preparadas pelo subconsciente. A atmosfera é assustadora porque o impossível coexiste com o possível.

Imagine seu próprio medo. O homem, esse angustiado, tem imensa capacidade de temer a si próprio, criando em sua fantasia as coisas que o apavoram.

Era assim que Henry James queria: nada de histórias macabras. Para ele, os relatos de fantasmas eram a "forma mais aproximada do conto de fadas", e suas experiências fantásticas, apenas vôos da imaginação poe´tica. Henry James teve uma infância rica. O pai, também chamado Henry James, era homem de posses. Mary Robertson James, a mãe, era uma mulher de hábitos simples.

Segundo filho do casal, Henry nasceu em 15 de abril de 1843, perto de Washington Square, onde passou a infância. Em julho de 1855 a família partiu para a Europa. Durante os cinco anos seguintes, entre várias idas e vindas, as crianças frequentaram, alternadamente, escolas européias e americanas. Em 1860 voltaram a morar nos Estados Unidos.

Em 1861 começou a fazer o curso de Direito, mas as conferências do escritor James Russel Lowel lsobre literatura faziam-no esquecer as leis. Em 1863 escreveu seu primeiro conto - A Tragedy of Error -, publicado, sem assinatura, na revista Continental Monthly, em fevereiro de 1864. Pouco depois redigiu uma nota crítica para The North American Review. No ano seguinte se tornou colaborador da revista The Nation e publicou na revista Atlantic Monthly seu primeiro conto assinado.

Em fevereiro de 1869 partiu para a Europa. Levava consigo o pequeno lastro de suas experiências literárias, os primeiros contos, em que já aparecem alguns dos temas que seriam constantes em sua obra - os artistas, o sobrenatural, o americano viajado.  

Esteve na Inglaterra, França, Suíça e Itália. Em março de 1870 recebeu a notícia da morte de sua prima Minny Temple, da qual gostava muito e em quem se inspiraria, anos mais tarde, para criar vários personagens. Em abril voltou para os Estados Unidos e tornou-se crítico de arte do período The Atlantic, no qual publicou, em 1871, sua primeira novela: Watch and Ward.

Em 1875 publicou o romance Roderick Hudson e o livro de contos A Passionate Pilgrim. Em novembro do mesmo ano mudou-se para Paris, onde trabalhou como correspondente do jornal Tribune. Um ano depois James chegou à conclusão de que não tinha talento para repórter. E partiu para Londres. Antes de arrumar as malas, fez um balanço dos aspectos positivos de sua estada em Paris. Em termos de criação literária, a melhor obra desse período foi o romance O Americano, publicado pela revista The Atlantic em 1877. Além disso, teve oportunidade de conhecer escritores como Turguêniev, Flaubert, Zola, Maupassant, Édmond Goucourt. Entre eles, quem mais o impressionou foi Turguêniev, sobretudo por sua maneira de concentrar-se nos personagens, dando pouca importância ao enredo. Em dezembro de 1876 fixou-se em Londres, na esperança de conquistar seu público também na Inglaterra - o que só aconteceria em 1879, com a edição inglesa de Roderick Hudson e O Americano. Dos três romances escritos até então, apenas Watch and Ward não foi publicado, pois o próprio escritor julgava-o imaturo.

Nem foi preciso esperar o lançamento desses dois romances para James firmar-se perante a crítica britânica. A consagração veio em 1878, com a publicação dos ensaios literários French Poets and Novelist, do romance Os Europeus e de mais de trinta contos, entre os quais Daisy Miller e An International Episode.

Em 1880 foi publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos A Herdeira um de seus melhores livros. E em outubro desse ano aparecia a primeira parte de O Retrato de um Dama, sua obra mais extensa e popular e que encerraria a primeira fase da produção de James. Fase de aprendizado, de sucesso, de descoberta e de uso de temas cosmopolitas.

De repente, uma má notícia: sua mãe está doente. Henry  James arruma as malas e viaja para os Estados Unidos. Outubro de 1881: ele vai rever a cidade que deixara seis anos antes. Instala-se em um hotel em Boston, onde escreve à vontade e aproveita as horas livres para visitar Nova York e Washington. Em janeiro de 1882 sua mãe morre. Nada mais tem ele a fazer na América. Em dezembro está de volta à Europa, e logo recebe outra notícia que o faz arrumar as malas de novo: agora é seu pai. Viaja apressadamente, mas não chega a tempo de encontrar o velho James vivo. Corre ao cemitério e, junto ao túmulo, depara com uma carta de seu irmão William: "Boa noite, adorado pai. Se eu não te vir de novo, então adeus, um feliz adeus".

Henry ficou na América até agosto do ano seguinte. Depois retornou novamente á Inglaterra. Sua produção não sofreu abalos. Ao contrário: durante a década de 1880 escreveu vários contos, a novela The Reverberator e os três romances considerados naturalistas: Os Bostonianos, Princesa Casamassina e A Musa Trágica.

Os Bostonianos trata dos reformadores da Nova Inglaterra. Princesa Casamassina fala dos anarquistas europeus. Nos dois romances as cenas da vida urbana mostram uma visão baste ampla das cidades de Boston e Londres. Os leitores, porém, esperavam mais contos a respeito dos americanos na Europa ou de viajantes estrangeiros na América. Por isso, as duas publicações foram um fracasso.

Henry James não se deixou abalar. Continuou a compor seus contos, nos quais se percebe uma constante evolução de técnica aliada a temas mais ricos e variados. os escritos desse período podem ser agrupados por assuntosra. Domvilles: internacionais - alguns na América, outros na Europa -, sobre o casamento e sobre artistas. Ao primeiro grupo pertence Lady Barberina, publicado em 1884, história de uma jovem inglesa que se casa com um rico médico americano. Entre os contos do segundo grupo, destaca-se A London Life, uma análise da corrupção do casamento. Por fim, dos contos sobre artistas, distinguem-se The Author of Beltraffic, cujo tema é a incompatibilidade de gênio entre um artista e sua esposa, e The Lesson of the Master, que trata do casamento de um escritor e dos efeitos dessa união sobre seu trabalho.

O romance The Reverberator, de 1888, é uma produção menor, que pode ser utilizada como argumento contra as opiniões de que James era sério demais: seu tema é o jornalismo mexeriqueiro, o colunismo social. Em 1889 o escritor fez nova tentativa naturalista no romance, com A Musa Trágica, mas que também não alcançou êxito com o público. No fim da década de 1880 o escritor era considerado um artista de extraordinária habilidade artesanal e havia recebido o reconhecimento da crítica. Mas o sucesso não se traduzia em dinheiro. Por isso, em 1890 resolveu tentar o teatro, muito mais rendoso na época. Assim, de 1890 a 1895, escreveu sete peças, das quais apenas duas foram encenadas. Na primavera de 1890 terminou a dramatização de O Americano, que, embora bem recebida pela crítica, não alcançou sucesso com o público.

Em 1892 fez a versão teatral de Daisy Miller, recusada pelo empresário, que a considerou literária demais. James, contudo, não desistia de conquistar o palco. Em 1893 escreveu mais quatro peças, que também não chegaram a ser montadas. No ano seguinte publicou-as em forma de livro, sob o título Theatricals.

Em 1895, o popular ator e produtor George Alexander encerrou a peça Guy Domville. A estréia foi um desastre. No segundo ato, quando a Sra. Domville apareceu com um alto chapéu preto, alguém gritou: "Onde foi que você arranjou esse chapéu?". E no final, quando Guy exclama: "Sou, meu senhor, o último dos Domville", uma voz respondeu: "E já não é sem tempo". Até esse instante James não estava no teatro; chegou ao cair do pano e apresentou-se à platéia. Foi uma tempestade de vaias. Em uma carta, o autor referiu-se ao episódio como um "dos mais detestáveis incidentes de minha vida". Antes de Guy Domville James havia escrito a peça The Other House, publicada em 1896 e jamais encenada. Depois de Guy Domville, ainda tentou conquista o público teatral com Summersoft, representada, com algum êxito, em 1908, sob o título The High Bid.

Apesar dos fracassos, James continuou insistindo no teatro até 1909, quando escreveu sua última peça, The Outcry. A obra deveria ser representada na temporada desse ano, mas atrasos na revisão do manuscrito e no preenchimento do elenco foram adiando a estréia, que acabou cancelada.

Entristecido, James desistiu do palco. Retirou-se definitivamente de Londres e mudou-se para Lamb House, em Rye, cidade costeira do Sussex. Voltou a compor romances, novelas e contos. Até 1900 concluiu um grande número de obras de ficção, além de mais de vinte contos. São desse período suas experiências com o relato fantástico, em que se destaca A Outra Volta do Parafuso.

No entanto, mais importantes que os temas são as inovações técnicas introduzidas por Henry James. O teatro deu-lhe muitas lições: apresentação da ação por meio da cena, uso do diálogo como processo narrativo e supressão do autor onisciente como informador e comentarista. Seus escritos posteriores constituiriam a sua  maior fase. Nos primeiros dez anos do século XX Henry James trabalhou intensamente. De 1990 a 1904 escreveu seus três maiores romances: Os Embaixadores, As Asas da Pomba e A Taça de Ouro.

Em 1904 viajou para a Flórida e para a Califórnia, onde realizou algumas conferências. Quando retornou à Inglaterra, escreveu The American Scene, um livro de observações sobre suas viagens.

Embora tenha sido publicado em 1903, Os Embaixadores foi concluído antes de As Asas da Pomba; apareceu, a princípio, na North American Review, em capítulos. Nos dois romances, analisou dramas humanos, dentro dos grandes sistemas sociais que o homem criou e dentro dos grandes sistemas sociais que o homem criou e dentro das idéias pelas quais edificou sua civilização, conservando-se um realista apegado às coisas visíveis e palpáveis.

Em A Taça de Ouro, James procura solução para problemas não resolvidos em trabalhos anteriores. Havia muito tempo queria escrever sobre o adultério; não podia fazê-lo, pois as familiares revistas americanas obrigavam-no a tratar o tema superficialmente. Como não havia planos para o romance ser publicado em série, sentia-se livre para abordar o assunto sem nenhuma restrição. Foi o que fez.

Na mesma época foram publicados mais três livros de contos: The Soft Side, The Better Sort e The Finer Grain. Dessas coletâneas o conto mais popular é The Beast in the Jungle, que narra a história de um indivíduo tão egoísta que era incapaz de perceber o mundo à sua volta, de compreender e amar. Esse conto é uma representação alegórica da insensibilidade, da cautela e da falta de ação que, segundo o autor, caracteriza o homem moderno.

Nas horas de folga James dedicava-se à preparação da chamada "Edição Nova York" de suas obras. A cada romance e livro de contos, juntou um longo prefácio, no qual faz reflexões sobre os princípios de sua arte e os formula claramente. Mais tarde esses prefácios foram reunidos num volume sob o título The Art of Novel, em que três elementos se destacam: o estudo do processo de criação, a forma pela qual chegou a escrever histórias e as associações pessoais despertadas por uma nova leitura de sua própria obra. Esses trabalhos forneceram à crítica uma terminologia valiosa para a discussão do romance, que até hoje é amplamente utilizada. Em bora não tenha voltado a escrever romances, sua produção literária dos últimos anos foi extraordinária.

Dedicou-se à elaboração de textos autobiográficos críticos e de viagens. Escreveu English Hours, Italian Hours e Little Tour in France. Pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial, publicou Notes on Novelists, com estudos sobre Zola, Flaubert, Balzac, H. G. Wells e Bennett, além dos dois volumes de memórias: A Small Boy and Others e Notes of a Son and Brother. Um terceiro livro sobre sua vida em Londres e Paris - The Middle Year - seria publicado somente após sua morte.

Em 1910 William James viajou à Europa para tratamento de saúde. Embora não estivesse muito bem, Henry acompanhou-o de volta à América. William piorou e faleceu no dia 26 de agosto.

Profundamente abaldo o escritor ficou na América até agosto do ano seguinte. Antes de retornar à Inglaterra foi homenageado com o grau honorário da Universidade de Harvard. Meses depois recebeu o título de Doutor Honorário de Oxford. Em 1913 seus setenta anos foram intensamente comemorados.

Em agosto de 1914 começou a guerra. Henry James cessou toda a sua atividade literária, lamentando "o horror de ter vivido para testemunhar tudo isso", e ingressou num grupo de americanos que voluntariamente prestavam assistência espiritual aos feridos. Nas horas vagas redigia vários artigos sobre os refugiados de guerra.

Desejava que os Estados Unidos se aliassem à Inglaterra e à França. Irritado com a neutralidade do presidente Wilson, adotou a cidadania britânica em julho de 1915.

Em dezembro desse ano sofreu um derrame. Em fevereiro de 1916, morreu. Seu corpo foi cremado, e suas cinzas enviadas para a América e colocadas no jazigo da família, em Cambridge, Massachusetts.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Oliver Sacks - O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu

Oliver Sacks
Olho a coleção de Oliver Sacks, de minha filha, Carla Guedes, a poetisa, e custo a me convencer que neste início tardio de leitura para um novo ano o autor seria a melhor opção.
Oliver Sacks leciona neurologia na Columbia University, onde ocupa também o recém-criado posto de Artista. É o autor neurologista, cientista romântico, que em seus ensaios transforma intencionalmente os relatos clínicos em artefatos literários, mostrando que somente a forma narrativa - com suas nuances  imprevisíveis, seus detalhes dramáticos, os sofrimentos e experiências de personagens singulares - restituem à abstração da doença uma feição humana, desvelando novas realidades para investigação científica e problematizando os limites ente o físico e o psíquico.
Nada animador uma leitura com foco psicológico para quem está vivenciando perdas (um pai que partiu ou um rumo de vida que está em mudança). Decido arriscar e ler o primeiro conto e tê-lo como balizador da continuidade da leitura.
Foi então que o conto O homem que confundiu sua mulher com um chapéu , mesmo nome do título do livro me pegou pelo laço.
Quanta leveza na narrativa, levando o leitor a acompanhar todo o processo por que passou seu personagem, detalhando os espaços físicos e emocionais de forma surpreendente.

Consta ainda:
Parte I - "Perdas": O marinheiro perdido, A mulher desencarnada, O homem que caía da cama, Mãos, Fantasmas, Nivelado, Olhar à direita!, O discurso do Presidente.
Parte II - "Excessos": Witty Ticcy Ray, A doença de Cupido, Uma questão de identidade, Sim, padre-enfermeira, A possuída.
Parte III - "Transportes": Reminiscências, Nostalgia incontinente, Passagem para a Índia, O cão sob a pele, Assassinato, As visões de Hildegarda.
Parte IV - "O mundo dos simples": Rebecca, O dicionário de música ambulante, Os gêmeos, O artista autista.

Olho os demais livros na estante e penso em seguir com o autor: Tempo de despertar, Enxaqueca, Com uma perna só, Alucinações musicais, A ilha dos daltônicos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jonathan Swift

Jonathan Swift
1667 - Em Dublin, nasce Jonathan Swift, em 30 de novembro.
1668 - É levado secretamente para a Inglaterra.
1670 - Volta à Irlanda. É entregue aos cuidados do tio Godwin.
1673 - Estuda na escola Kilkenny, em Dublin.
1681 - Ingressa na Universidade de Trinity, em Dublin.
1688 - Morre seu tio Godwin. Swift é diplomado pela universidade. Parte para Leicester, na Inglaterra.
1689 - Conhece Esther Johnson (Stella), por quem nutre profunda paixão.
1693 - Forma-se doutor em Teologia pela Universidade de Oxford.
1697 - Escreve A Batalha dos Livros.
1699 - Morre William Temple, seu suposto irmão e de quem era empregado.
1701 - Publica anonimamente Discurso sobre as Dissensões entre Nobres e Comuns em Atenas e Roma.
1704 - Publica A Batalha dos Livros e O Conto do Tonel.
1710 - Inicia o Diário a Stella. É nomeado deão da Catedral de São Patrício; em Dublin.
1713 - Escreve o poema Cadenus.
1725 - Começa a redigir As Viagens de Gulliver (*).
1726 - Publica As Viagens de Gulliver.
1728 - Morre Stella.
1731 - Escreve o peoma Sobre a Morte do Dr. Swift.
1738 - Publica A Conversação Polida.
1745 - Morre, surdo e louco, em 19 de outubro, em Dublin.

(*) As Viagens de Gulliver
Nesta sátira fantástica, o personagem Gulliver visita países imaginários: Lilliput, cujos habitantes medem menos de 15cm; Brobdingnag, habitado por gigantes; Laputa, ilha voadora habitada por sábios loucos; o país dos Houynhnms, cavalos que domina os Yahoos, antropóides degradados. Swift critica a sociedade inglesa e questiona as teorias intelectuais e as instituições políticas.


A infância de Jonathan Swift esteve longe de ser feliz. Abriu os olhos para a vida num escuro dia dublinense - 30 de novembro de 1667 - e não achou seu pai, morto sete meses antes. Logo vieram os comentários dos bisbilhoteiros: talvez o pequeno Jonathan não fosse filho do velho Swift, e sim de uma ligação da mãe com o nobre John Temple. Os comentários foram tantos e tão plausíveis que nunca se soube ao certo se afinal aquele Swift que fugira da Inglaterra para escapar à ditadura de Oliver Cromwell era ou não pai do Swift que, com sátiras irreverentes, abalaria o público da Europa em sua época.

Jonathan tinha um ano de idade e crescia sem muitos cuidados maternos quando sua ama o levou secretamente para a Inglaterra. O país vivia tempos agitados. Depois de onze anos de república, o Exército inglês resolvera restaurar a monarquia, entregando o governo a Carlos II, em 1660. Para evitar disputas religiosas como as que se vinham desenrolando desde a morte da rainha Elizabeth, fizeram-no assinar uma declaração prometendo anistia geral e liberdade de crença. Contudo, o rei mostrava fortes tendências ao catolicismo, provocando o desagrado de seus ministros e oficiais anglicanos.

A ama do pequeno Jonathan sentia a atmosfera cada vez mais pesada e, cerca de dois anos após sua chegada ao solo inglês, voltou com o menino para a Irlanda.

A mãe de Swift, ao contrário, desconhecendo os problemas políticos, estava ansiosa por viver na Inglaterra. Para realizar seu desejo, confiou o pequeno Swift aos cuidados de seu cunhado Godwin. O tio mandou-se estudar na escola Kilkenny e ensinou-lhe boas maneiras. Amor não lhe deu, nem carinho. Quando ele padecia de vertigens e crises de surdez, limitava-se a medicá-lo, frio e indiferente. Em 1681 matriculou-o na Universidade de Trinity, onde o sobrinho só se distinguiu pelas punições: mais de setenta em dois anos. Aborrecia-se com os compêndios. Irritava-se com os mestres. Desacreditava dos conhecimentos. Ao fim de algum tempo, a congregação deu-lhe o diploma, para ver-se livre dele.

Mesmo que não o diplomassem, Swift teria de abandonar a universidade por falta de condições econômicas. A morte do tio em 1688 privara-o de seu único esteio financeiro, e a situação caótica da Irlanda impelia-o para longe. O rei Jaime II, católico professo, já provocava o descontentamento popular antes de ser coroado. No ano de 1685, ano da morte de seu pai, os políticos ingleses dividiram-se em facções antagônicas, formando os grandes partidos britânicos: de um lado, os whigs, mais liberais, porém contrários á ascensão de um rei católico; de outro lado, os tories, conservadores, defensores da monarquia e partidários de Jaime.

Coroado em 1685, Jaime II reinaria apenas três anos; em 1688 era destronado pela chamada Revolução Gloriosa, que colocou no poder seu genro Guilherme III de Orange. Jaime asilou-se na Irlanda, católica como ele.

Swift não esprou para ver os desastres acarretados pela presença de Jaime II na Irlanda. No mesmo ano da Revolução Gloriosa foi juntar-se a sua mãe em Leicester. A situação da Inglaterra não era calma, porém Leicester era o lugar mais distante da Irlanda aonde suas economias lhe permitiam ir.
A mãe não dispunha de muito dinheiro para ajudá-lo. O rapaz tinha de procurar um emprego e sustentar-se. Valeu-lhe nessa busca antiga amizade materna com o família Temple. Sir William, estadista e escritor de grande prestígio durante o reinado de Carlos II, deu-lhe um emprego de guarda-livros em sua propriedade rural de moor Place, na Inglaterra.

Swift entediava-se no campo, dividido entre os livros de contabilidade e as leituras para sir William, do qual diziam ser irmão. Um dia, Moor Place ganhou novo encanto. Trouxe-lhe uma doce menina de oito anos: Esther Johnson, que, segundo as más línguas, era filha de William Temple com uma ama da casa - e, portanto, sobrinha de Jonathan. O possível parentesco e a diferença de idade não constituíram barreira para o desabrochar de um afeto entre o jovem e a criança. Swift amou-a até  fim da vida e a ela dedicou alguns de seus mais belos poemas. Chamou-a Stella - estrela -, fiel à moda corrente de rebatizar a amada com nome latino.

A presença de Stella era um bálsamo para o escritor, mas não bastava para retê-lo como empregado de seu suposto irmão. Tinha ambições. Compreendia que, para realizá-las, precisava de um diploma. Em 1693 doutorou-se em Teologia pela Universidade de Oxford. Pouco depois assumiu o posto de cônego em Kilrooth, Irlanda, obtido graças às boas relações de sir William.

Longe de Stella, julgou-se apaixonado por uma certa Jane Waring, a quem apelidou de Varina e dedicou poemas ardentes. O arrebatamento amoroso - não se sabe se correspondido - durou pouco. Em questão de meses, Swift arrependia-se de ter jurado amor eterno e de haver pedido a moça em casamento. Em 1695 voltou para Moor Place. Encontrou William escrevendo um panfleto altamente conservador sobre a "batalha dos livros" travada na Inglaterra. A rivalidade entre whigs e tories refletia-se na literatura, dividindo os escritores em conservadores e modernizantes. Mal saíra o escrito de sir Temple, os modernizantes atacaram-no vivamente. Swift, promovido a secretário de sir Temple, achou-se obrigado a defendê-lo e redigiu, em 1697, A Batalha dos Livros. Por trás da defesa, todavia, ironizava sutilmente ambas as posições. A obra foi publicada em 1704, juntamente com O Conto do Tonel, um ataque à vida religiosa da Inglaterra, também escrito em Moor Place. A sátira, o pessimismo e o riso amargo seriam, a partir de então, a característica da obra de Swift.

A morte de William Temple em 1699 privou Swift de um emprego fácil. Novamente teve de perambular pelas casas dos grandes de Leicester em busca de proteção. Fizeram-no cônego de Dunlevin, na Irlanda. A nomeação desgostou-o, mas Swift não teve alternativa senão aceitá-la. Em 1701 estava instalado em seu novo lar, perdido entre planícies desertas e silenciosas.

Não ficaria sozinho por muito tempo. Atendendo a seu pedido, Stella foi viver ali perto. Porém levava consigo a sra. Dingley, prima de sir William. Jamais permitiu a Swift o menor gesto de namorado, e, tanto quanto se sabe, nem ele o tentou.

A proximidade da menina pareceu dar-lhe alento para continuar escrevendo. Em 1701 publicou anonimamente o Discurso sobre as Dissenções entre os Nobres e Comuns em Atenas e Roma. A alusão aos partidos ingleses era clara, e sua posição, ao lado dos whigs, valeu-lhe o ataque dos tories e a proteção de estadistas como Somers e Halifax, de elevado prestígio junto ao governo.

Vislumbrado com a possibilidade de ascender na Igreja anglicana com a ajuda dos políticos, Swift começou a viajar frequentemente para Londres. Conseguiu editores para A Batalha dos Livros e O Conto do Tonel. Popularizou-se apoiado por satíricos como Pope, escritores polemistas como Richard Steele e Joseph Addison - fundadores do The Spectator, um dos primeiros periódicos ingleses.

Reconheciam em suas sátiras motivos semelhantes aos deles: profundo amor à verdade, feroz aversão à hipocrisia, honesto desejo de demolir as ilusões de seu povo. Reinava desde 1702 a filha de Jaime II, Ana. Com ela subiram ao poder os tories moderados, representados pelo primeiro-ministro Robert Harley. Para Swift tanto fazia ser tory ou whig, achava todos os políticos igualmente corruptos e incapazes. Fora whig enquanto lhe conviera. Com a mudança de governo, não hesitou em proclamar-se tory, conquistando assim a proteção e a simpatia de Harley.

A ambição e as amizades mantinham-no em Londres, com Stella presente em seu coração. Escrevia-lhe numerosas cartas, fazia-lhe confidências no Diário a Stella. Todas as noites, à luz de vela, fechava-se no quarto para o diálogo mental com a amada. Ao falar de assuntos íntimos, expressava-se numa linguagem cifrada, composta de combinações de letras e palavras, compreensível apenas para ele e sua Stella. É a chamada "pequena linguagem", que criou especialmente para comunicar-se com a amada. Mais tarde a experiência daria frutos em As Viagens de Gulliver.

Em 1713 abandonou o Diário, ferido pelo que considerava uma injustiça a rainha Ana pretendia dar-lhe a Sé de Hereford, por ele ambicionada, mas, diante das intrigas do arcebispo de York, escandalizado com O Conto do Tonel, e da duquesa de Somerset, desgostosa com as sátiras do escritor sobre sua pessoa, abandonou o projeto. Nomeou-o deão da Catedral de São Patrício em Dublin.

A acolhida dos irlandeses foi fria, senão hostil. Tinham ciúme de sua vida londrina e desconfiavam de suas atividades políticas, que lhes pareciam incompatíveis com as funções eclesiásticas. No "exílio" de Dublin, como o considerava, Swift não tinha amigos nem prestígio, nem a presença consoladora de Stella. Ao contrário, as más notícias se acumulavam.

Em 1714 morriam a rainha Ana e também a herdeira do trono, Sofia, neta de Jaime I. Pelo direito de sucessão, a coroa cabia ao filho desta, Jorge I, alemão que estabeleceu na Inglaterra a dinastia Hannover. O descontentamento era geral. Os ingleses não desejavam um  monarca estrangeiro, porém não podiam ignorar sua própria constituição. A Swift particularmente a sucessão atingiu na medida em que os whigs voltaram ao poder e os tories - ele inclusive - passaram a ser perseguidos.

Ao saber de seus problemas, Stella foi juntar-se a ele em Dublin. Swift dedicou-se então  a escrever As Viagens de Gulliver, uma aventura por países imaginários, com personagens de características ímpares. Publicado pela primeira vez em 1726, por Benjamin Motte, e reeditado no ano seguinte, causou estranheza e reações inesperadas. Pelo fantástico de certas situações - na verdade um artifício do autor para atacar mais livremente as instituições inglesas -, pelo dinamismo das aventuras, pela simplicidade do estilo, pela simpatia que o herói transmite, As Viagens de Gulliver tornou-se, ao longo do tempo, livro predileto do público infantil. No entanto, não foi elaborado absolutamente com a intenção de entreter nem as crianças - Swift jurava detestá-las - nem pessoa alguma. Ao iniciar a redação da obra, em 1725, o autor escreveu a seu amigo Alexandre Pope afirmando que, com As Viagens de Gulliver, pretendia agredir o mundo, não diverti-lo.

Além de desmascarar a humanidade e demolir os falsos valores - seu objetivo primacial -, Swift visava ainda a ridicularizar a moda da narrativa de viagem, uma obsessão da época.

Enquanto isso, a doce Stella chegava ao fim de seus dias.

Os poemas que Swift lhe escrevia em todos os seus aniversários, convidando-a à plenitude e à primavera, não conseguiam devolver-lhe a energia. Em 1728 ela morre, acometia por um mal desconhecido. Foi um forte abalo para Swift. Esse homem amargo, que proclamava horror às crianças, guardava no íntimo sentimentos profundos, zelosamente protegidos pro uma couraça.

Em público, todavia, esforçava-se por manter a imagem de um escritor irreverente e pessimista, que não poupava à mordacidade nem a própria Stella. Num dos últimos poemas comemorativos de seu aniversário, em 1725, compara-a a uma vaca, que, após sofrer os rigores do inverno, volta a apascentar-se na relva verde da primavera. Ele mesmo se faz objeto da sátira em seu poema Sobre a Morte do Dr. Swift, composto em 1731.

Por essa época trabalhava num sarcástico ensaio destinado a despojar a conversação inglesa das banalidades e incorreções que a levavam ao ridículo. A Conversação Polida, publicada em 1738, representa o resultado de vinte anos de observação e pesquisa, e foi a última obra de Swift. Perdia aos poucos a sanidade mental, da qual muitos duvidavam havia tempo. A surdez, que o ameaçava na infância em crises espaçadas, acometera-o de todo. Surdo e louco, Swift recolheu-se a Dublin, onde servia de espetáculo aos ociosos: para poderem espiá-lo pelas frestas, pagavam ingressos a seus criados.

Num momento de lucidez, inclui em seu testamento uma cláusula em benefício dos asilos de loucos. Parece ter sido esse seu último ato. Em 19 de outubro de 1745 morreu imerso nas sombras da loucura e na solidão de sua surdez. Foi enterrado na Catedral de São Patrício, em Dublin. Na lápide, o epitáfio, em latim, escrito por ele mesmo: "Aqui jaz o corpo de Jonathan Swift, doutor em Teologia e deão desta catedral, onde a colérica indignação não poderá mais dilacerar-lhe o coração. Segue, passante, e imita, se puderes, esse que se consumiu até o extremo pela causa da Liberdade.




Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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