segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Raul Pompéia - vida e obra

Raul Pompéia

1863 - Em 12 de abril nasce Raul d´Ávila Pompéia, em Jacuecanga, município de Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro.
1873 - A família transfere-se para a cidade do Rio de Janeiro, Raul é matriculado como interno no Colégio Abilio, do dr. Abílio César Borges, barão de Macaúbas.
1879 - Ingressa no Imperial Colégio D. Pedro II, onde conclui os estudos secundários.
1880 - Publica seu primeiro romance, Uma Tragédia no Amazonas.
1881 - Publica os contos Microscópios no jornal estudantil A Comédia, de São Paulo. Matricula-se na Faculdade de Direito de Largo de São Francisco, em São Paulo. Luta pela abolição da escravatura, ao lado do poeta, jornalista e advogado Luís Gama.
1882 - A Gazeta de Notícias começa a publicar em folhetins o segundo romance de Raul, As Jóias da Coroa.
1883 - Inicia as Canções sem Metro, publicando-as no Jornal do Comércio, de São Paulo.
A campanha abolicionista absorve grande parte de sua atividade.
1885 - Com 94 colegas, transfere-se para a Faculdade de Direito de Recife, onde conclui o curso.
1888 - Publica em folhetim, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, o romance O Ateneu. Inicia nesse mesmo jornal, a seção "Pandora", sobre a crítica de arte. Trabalha como correspondente do Diário de Minas. Deixa inacabado o romance Agonia.
1889 - Colaboração em A Rua, de Pardal Mallet, e no Jornal do Comércio.
1890 - Intensa atividade artística, que o faz discutir os problemas coletivos de seu tempo.
1891 - É nomeado professor de mitologia da Escola Nacional de Belas-Artes.
1892 - Ofendido por Olavo Bilac, desafia-o para um duelo à espada.
1893 - Publica um de seus melhores desenhos políticos: "O Brasil crucificado entre dois ladrões", na linha nacionalista dos adeptos radicais de Floriano Peixoto.
1894 - É nomeado diretor da Biblioteca Nacional.
1895 - Acusado de desacatar Prudente de Moraes, Presidente da República, é demitido do cargo de diretor da Biblioteca Nacional. Em 25 de dezembro põe fim à vida com um tiro no coração.
1900 - Publicação póstuma, em livro de Canções sem Metro.

Jornalista e escritor, Raul Pompéia, nasceu em Jacuecanga, Angra dos Reis, Rio de Janeiro em 12 de Abril de 1863, segundo filho do próspero advogado Antônio d´Ávila Pompéia, homem carrancudo, de aspecto austero, e de Rosa d´Ávila Pompéia, mulher de rara beleza.
O pai descendia de uma família mineira, que, envolvida na Inconfidência Mineira, fugiu de Minas e fixou-se em Resende, Estado do Rio de Janeiro. Dona Rosa provinha de portugueses que, atraídos pela cana e pelo comércio, se estabeleceram em Angra dos Reis.
Depois de liquidar os negócios da fazenda, em 1873 o doutor Antônio transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família, onde comprou casas e abriu banca de advogado.
Nessa época as ricas famílias da Inglaterra mandavam os filhos para o Eaton, quando lhes queriam dar uma educação coerente com a posição social. À burguesia brasileira o Colégio Abílio, bem como o Imperial Colégio D. Pedro II, pareciam corresponder. Em 1973 "O menino Raul Pompéia entra para o colégio dos homens que sustentam e pagam a educação dos seus filhos com o trabalho escravo", escreveria José Lins do Rego. Em O Ateneu, obra publicada em 188, o professor Aristarco personaliza o modelo da educação moral e cívica.
Mas não se pode tomar ao pé da letra que o Ateneu tivesse sido inspirado mesmo no Colégio Abílio. Na vida de Raul Pompéia, o diretor Abílio César Borges, barão de Macaúbas, gozou de uma lembrança bem contrária àquele ódio que Aristarco despertava em Sérgio, narrador e protagonista. Em 1891, quando morreu o famoso barão, Pompéia dedicou-lhe verdadeira homenagem.
No Colégio Abílio, Raul Pompéia revelara suas inclinações intelectuais e artísticas. Dona Rosa e o doutor Antônio sonhavam para o filho um lugar de relevo, a nata da sociedade.
Os d´Ávila Pompéia, especialmente as mulheres (a mãe e as três irmãs) concentravam todo o carinho e confiança no jovem Raul. Seus escritos e desenhos foram guardados amarrados em fitas. A família continuava distante do burburinho d Corte. Praticamente não recebiam visitas. Raul não tinha amigos íntimos, mas era vibrante nos ataques aos professores injustos e ao favorecimento escolar de que gozava o neto do imperador. Não se acomodou. Embora aprovado, várias vezes repetiu o exame de grego, até conseguir a nota com distinção. Concluiu o ensino médio e desdenhou o diploma que tanto estudo lhe custara. Publicou Uma Tragédia no Amazonas, escrito na época do Abílio, que alcançou algum sucesso e lhe valeu crítica esperançosa de Capistrano de Abreu, literato de fama.
Quando Pompéia desembarcou em São Paulo, onde foi fazer o curso de Direito, falava-se na construção do Viaduto do Chá. Naquele ano de 1881 a cidade era pequena, a vida era tranquila. Animavam-na os estudantes, com suas repúblicas, suas festas. A garoa umedecia a paisagem. As casas baixas abrigavam famílias de passado rural; brasileiros, italianos, portugueses, um ou outro espanhol; algum alemão, foragido de inúmeras perseguições; o russo que se encontrava com o turco e falavam da guerra entre seus países; alguns judeus iam à sinagoga. Nos bairros, negros livres procuravam organizar seus núcleos familiares, apesar do ambiente escravocrata. Havia os mestiços passeando na vida boêmia. Nos cafés a intelectualidade paulistana discutia a República, a escravidão, a literatura. Os poetas iam à praça.
Em São Paulo Raul Pompéia logo se engajou na campanha abolicionista. Embora violentos, não foram os escritos de "Rapp" (um dentre os seus vários apelidos) que atraíram o ódio aberto dos escravocratas paulistas. Foi uma charge contra o Diário de Campinas, órgão dos proprietários rurais. O desenho ousado ferira a suscetibilidade religiosa dos donos de escravos. COm isso o estudante Raul Pompéia passou a ser perseguido pelos conservadores. A Faculdade de Direito refletia a crise política; os estudantes abolicionistas e republicanos entravam em choque com a direção retrógrada de alguns de seus professores.
Em 1884, jornalista consagrado, autor de mais um romance (As Jóias da Coroa), a banca o reprovou nos exames finais: "injustamente", disseram testemunhos da época. Na sequência de uma greve, Raul Pompéia emigrou para o Recife com mais 94 colegas, onde concluiria o curso de Direito.
Não foi só no jornalismo.
Raul Pompéia também participou apaixonadamente dos dois principais movimentos de oposição da época; intransigente, não rimava República com escravidão. Além de escritor, Pompéia foi também desenhista e escultor, demonstrando temperamento sensível, às vezes angustiado, mórbido e instável, características que o levaram a se envolver em contínuas polêmicas.
Suas ligações com Luís Gama e depois com Antônio Bento, líderes insurrecionais inatos, fixaram no poeta de Canções sem Metro uma ideia de prática política. As rebeliões nas senzalas queimavam pós de café, os escravos fugiam.
Em Recife Pompéia viveu mais isolado. O bairro onde ele e os colegas criaram uma casa de estudantes era distante. Pompéia concentrou-se nas provas finais e nos trabalhos literários. Talvez datem dessa época os esboços de O Ateneu.
A situação menos escravocrata do Nordeste descansou-o um pouco da campanha abolicionista. Levou, enfim, o seu diploma para o Rio de Janeiro e a lembrança de alguns colegas mortos pela febre amarela.
Começou a atuar como o que hoje se chama de jornalista cultural. Sua vocação de artista plástico era saciada com a cobertura de exposições e com sua escrita ficcional, marcada por descrições muito vívidas e cromáticas.
A temperatura política do Império media-se na rua do Ouvidor. Ministros, deputados, jornalistas, poetas e cocheiros comentavam e previam acontecimentos; de palpite, compunham-se e derrubavam-se os ministérios. Segredos do Paço escapavam; faziam-se promessas de empregos públicos. Uma mulher bonita suspendia olhares, provocava a fantasia dos homens. Raul Pompéia era dos habitués. Mas não bebia, não fumava, não tinha aventuras eróticas para contar. Ouvia com desagrado os comentários vulgares. Fugia disso. Era contra sua índole, delicada e fina.
No entanto, se estivesse em discussão um assunto político ou literário, mostrava-se polêmico, defendia com ardor suas posições. Os inimigos apareciam; uns discutiam honestamente, outros armavam boatos, calúnias. Enfim, Pompéia fazia parte do ambiente intelectual de Coelho Neto, Aluísio de Azevedo, Artur Azevedo, Olavo Bilac, Valetim Magalhães, Capistrano de Abreu, Luís Murat, Machado de Assis, Araripe Júnior e Pardal Mallet.
Em 1887 lá está ele em meio a intensa atividade, colaborando em jornais de diversas províncias, polemizando, fazendo comícios pela República e pela abolição; vai à rua do Ouvidor. O artista prolongava as noites de trabalho debruçado sobre as Canções sem Metro (cuja publicação se iniciara em 1883 no Jornal do Comércio, de São Paulo), desenhando ilustrações para elas.
Sua sensibilidade recolhe ao mesmo tempo imagens do passado, sons, sofrimentos, decepções que se fundem às mesmas emoções doloridas do presente. Esse trabalho vai consumindo tinta e papel e dando vazão a um requintado artista do romance brasileiro. O resultado é a publicação, em 1888, de O Ateneu, segundo seu autor uma "crônica de saudades", cujo lançamento foi assim comentado pela Gazeta de notícias: "Não há no livro propriamente personagens reais, copiados in totum de um modelo único; mas não há fato nem cenários de fantasia".
Nesse ano Pompéia escreveu uma defesa do livro diante de seus críticos, que, numa prática brasileira que dura até hoje, insistiam em julgar o autor em vez da obra. Melancólico como Machado, Pompéia não teve a capacidade de reserva e ironia dele; seu bordão de autodefesa era: "É mau, mas é meu".
É placentária a relação de Pompéia com sua origem, diria se pudesse o menino Sérgio, personagem-narrador de O Ateneu. As relações não se quebravam nunca; a família como que amarrava um nó no coração. Raul Pompéia não desatou todos os pontos. As quatro mulheres da família projetavam nele todo um carinho não manifestado ao pai, por sua austeridade e hipocondria; transmitiam ao medas menino da casa as emoções provocadas pela atuação, ao que tudo indica, de respeitável autoritarismo do pai, o homem da casa.
O autoritarismo do doutor Antônio era resultado do sistema patriarcal que assegurava a instituição da família como privilégio dos proprietários e homens livres. Raul Pompéia não conheceu outra vida familiar. Na intimidade, o seu mundo foi exclusivo da família, dividido entre o afeto maternal e a força paterna. O conflito íntimo entre essas imagens contrárias de prazer e repressão, conduzido pela inibição moral dos costumes, ele soube sublimar na arte de O Ateneu. "O seu romance nos parece uma criação que vencera o suicida", afirmaria José Lins do Rego.
A partir de 1891 ele não escreveria mais para a literatura. Sua personalidade voltara-se inteiramente para a política. Sucedem-se comícios, artigos, polêmicas, ensaios com o estilo inconfundível do homem de letras. Violentos, radicais... Mas radicais em relação a quê?
Não era mais possível o clima de união de que Pompéia gozara no movimento abolicionista à época da São Francisco. A guerra civil animava polêmicas, dividia jornalistas: defendiam-se interesses diversos, quando não se tratava de proteger a própria pele. Alguns colegas de Pompéia haviam sido presos e torturados pela polícia de Floriano. Sob constante estado de sítio e perseguições, os florianistas agitavam o Rio de Janeiro com manifestações radicais.
Pompéia sofre ofensas de Olavo Bilac no jornal O Combate. Num artigo, Bilac criticava severamente Pompéia, acusando-o de estar sendo cooptado pelo governo florianista ao aceitar o emprego de professor num momento de muitas incertezas políticas. A reação violenta de Pompéia ao que considerou uma infâmia veio no desafio feito a Bilac, depois de se esbofetearem um dia, sob juras de vingança; para resolver a questão duelariam à espada.
Há no episódio do duelo, moda recente entre os frequentadores dos cafés da rua do Ouvidor, algo de grotesco. Socialmente, talvez expressasse intenção de auto-extermínio de uma camada sem perspectiva histórica no processo que se desenrolava. Os espadachins não entraram em ação, a ofensa fora retirada, graças à interferência dos padrinhos. Era a frase que, na vida de Pompéia, seus biógrafos chamam de "intoxicação pública".
Pompéia continuou florianista mesmo após a morte do presidente. No governo de Floriano, fora nomeado professor de mitologia da Escola de Belas-Artes e depois diretor da Biblioteca Nacional. A posse de Prudente de Moraes criaria pânico e paranóia entre os florianistas; os mais exaltados continuavam o clima de guerra civil.
Meses após os funerais do marechal Floriano - quando, segundo fontes do governo, que estivera no cemitério prestando as últimas homenagens ao antecessor -, um jornal publicou violento panfleto assinado por Luís Murat. O artigo se referia às cenas nos funerais. O título da matéria era "Um Louco no Cemitério", Além da crítica política à conduta de Pompéia e de aplaudir sua demissão do cargo na Biblioteca Nacional, Murat, ex-companheiro de classe de Pompéia, tocou na honra deste, insinuando "covardia" no desfecho do duelo com Bilac.
O doutor Antônio falecera alguns anos antes. Pompéia, com suas crises de depressão, preocupava a
mãe e as irmãs. Após a leitura do artigo de Murat, vivia alarmando as mulheres com projeto de suicídio. "Estou desonrado!" Com os nervos despedaçados, resolveu papéis e tomou o revólver. Ainda escreveu um bilhete ao jornal, pelo qual se sentira desprestigiado, e ao país: "À Notícia e ao Brasil declarou que sou homem de honra", Datou "25 de dezembro de 1895" e assinou "Raul Pompéia". Estirou-se numa poltrona. A mão do artista foi certeira; desembaraçou-se de si mesmo com um tiro no coração. A mãe, dona Rosa, e as irmãs foram acudir. Antes de pedir água e morrer, o desgraçado artista notara o estado da irmã. Disse à mãe: "Vá ver a Alice".
Raul Pompéia é o patrono da cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Domício da Gama.
Abolicionismo, nacionalismo e condições sociais foram alguns dos temas que Raul Pompéia, além de tratar em suas obras e discussões, procurou mostrar desenhando. Seus desenhos revelam uma sensibilidade artística que vai além dos limites do escritor preocupado com os problemas do seu tempo. Quando escreveu O Ateneu, Raul Pompéia quis dar mais vida ao texto, acompanhando-o de ilustrações feitas por ele mesmo, a bico-de-pena. São mais de quarenta desenhos que mostram personagens, situações, detalhes da vida no Ateneu; enfim, todo o clima que envolve Sérgio, o personagem-narrador do romance.
Um dos mais inteligentes romances da literatura brasileira, O Ateneu é o ápice da carreira de Raul Pompéia. É o romance da desilusão. O escritor escolheu para a fábula sentimental o estilo mais significativo de sua época: Gustave Flaubert. Dele tomou emprestado o nome de um personagem para construir uma das figuras femininas mais platonicamente sensuais - Ema.
Sérgio e Ema constituem a história de amor no romance.
A história do internato fala da educação sexual e intelectual do adolescente como reflexo da sociedade e, mais precisamente, de sua elite no contexto de falência do regime monárquico, de base escravista. Os sintomas de decadência percorrem as experiências narradas por Sérgio no contato com os companheiros de classe - Rebelo, Sanches, Bento Alves, Franco, Egbert -, mostrando-se nas relações a ausência de perspectiva histórica.
Em artigos e prefácios, Pompéia se revela um combatente decidido contra o escravismo e a monarquia. Em seus livros, ainda que timidamente, já são colocadas questões que só cem anos depois viriam a ser debatidas abertamente, como a homossexualidade e os internatos para meninos.
Do ponto de vista literário não há unanimidade entre os críticos: alguns, com ressalvas, o classificam como realista; outros, também com ressalvas, o enquadram entre os naturalistas; e há também aqueles que até insinuam que sua obra é precursora do Modernismo. Por todas essas razões, a obra desse home que tirou a própria vida é um dos marcos na história da nossa literatura, capaz de propiciar o prazer e a reflexão ainda hoje.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Francisca Júlia da Silva - 100 Anos de Poesia


Francisca Júlia

"Mergulha o teu olhar de fino colorista
No azul: medita um pouco, e escreve; um nada quase"
(Francisca Júlia)

Francisca Júlia, a única mulher no Brasil a se destacar no Parnasianismo, uma escola de estilo sóbrio e conservador, foi incentivada  a ler pelo pai, advogado, e pela mãe, professora. Aos oito anos, mudou-se com a família para São Paulo. Aos 20 começou a escrever para o Correio Paulistano, o Diário Popular e o Estado de S. Paulo - no qual publicou seus primeiros poemas -, e também para a imprensa carioca, destacando-se as revistas O Álbum, editada por Arthur Azevedo, e A Semana.

O livro de estréia de Francisca Júlia reuniu os sonetos publicados durante três anos na imprensa. Segundo Manuel Bandeira, "o seu livro Mármores (...) foi entusiasticamente saudado pelos mestres parnasianos, e com razão, pois talvez em nenhuns outros versos se encontre como nos da poetisa paulista mais extremamente realizado o ideal de impassível beleza, que era a aspiração da escola."
Apesar do sucesso, Francisca Júlia só lançou outro livro de poemas, Esfinges, oito anos depois. Nesse período, editou em colaboração com o irmão, o também escritor Júlio César da Silva, o Livro da infância, adotado pelas escolas de 1. grau do estado de São Paulo. De acordo com Benjamin de Abdala Júnior, Esfinges  "mostrou seu encaminhamento para a tendência religiosa do Simbolismo". Pode-se observar que sua obra tem duas fases distintas: parnasiana, em Mármores; e simbolista, em Esfinges. Deste último, disse o crítico Aristeu Seixas: "Nenhuma pena manejada por mão feminina, seja qual for o período a que remontemos, jamis esculpiu, em nossa língua, versos que atinjam a perfeição em par e a beleza estonteante dos concebidos pelo raro gênio da peregrina artista."

Em 1909, a poetisa casou-se com o telegrafista Edmundo Munster, deixando a vida liter´ria para dedicar-se ao lar. Só publicou mais um livro, o infanto-juvenil Alma infantil, também em parceria com o irmão. Conhecida como a "musa impassível", sua morte veio a demonstrar que, na vida particular, Francisca Júlia não era nada impassível: inconformada e bastante abalada com a morte do  marido tuberculoso, a poetisa ingeriu uma dose letal de narcóticos e morreu no dia seguinte, em pleno velório do esposo, sendo sepultada no feriado de finados.

Curiosidade
Sua estréia na revista A Semana, uma das mais conceituadas da então capital federal, causou grande alvoroço. Seus redatores, escritores famosos da época, a princípio não acreditaram que aqueles versos tão perfeitos tivessem sido escritos por uma mulher. João Ribeiro chegou a comentar: "Isto não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo Correia!"

"Em Francisca Júlia, surpreendeu-me o respeito da língua portuguesa, (...) que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura."
(Olavo Bilac)


"Nem aqui,nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhes são positivamente inferiores na estrofe, na composição e fatura do verso, nenhum possui e tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa fria severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa."
(João Ribeiro)

"Muito pouco se escrevem sobre o maior vulto feminino do Parnasianismo brasileiro. Num universo inteiramente dominado por poetas do chamado sexo forte, Francisca Júlia provou que mulher também sabia fazer poesia de qualidade."
(Roberto Flores)


À noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra;
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois, a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, em réquiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite adentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite escura assim, de repouso e de calam,
É que a alma vive a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor tão cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.


Nasce no dia 31 de agosto, em Xiririca (atual Eldorado) - SP
Morre em 1. de novembro, em São Paulo - SP

Obras da autora
POESIA: Mármores, 1895; Esfinges, 1903.
INFANTO-JUVENIL: Livro da infância (com Júlio César da Silva), 1899; Alma infantil (com Júlio César da Silva), 1912.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vicente de Carvalho - 100 Anos de Poesia

"O mar é para  mim como o céu para um crente."

Vicente Augusto de Carvalho, nascido em Santos, litoral paulista, o "poeta do mar" - como viria a ser chamado - terminou os estudos longe de sua fonte de inspiração. Formou-se em Direito na Faculdade de São Paulo, em 1891.
Seus dois primeiros livros, Ardentias e Relicário, apresentavam um lirismo mais próximo do arrebatamento romântico do que da frieza descritiva do estetismo parnasiano, escola literária com a qual viria a ser associado. "A visão do oceano, da mata e da montanha e o encanto pela beleza da mulher são traços comuns do romântico e do parnasiano", aponta Alfredo Bosi, concordando com Euclides da Cunha, que prefaciou Poemas e canções. Para o escritor, Palavras ao mar é "... um dos mais breves e maiores poemas que ainda se escreveram na língua portuguesa".
Jornalista combativo, Vicente de Carvalho envolveu-se com a campanha republicana, tendo como princípio as idéias positivistas então em voga, chegando a ser eleito membro do Diretório Republicano de Santos. Nesta cidade, fundou o Diário da Manhã e O Jornal, e colaborava com A Tribuna e O Estado de S. Paulo.
Com o fim das suas atividades políticas - foi deputado do Congresso Constituinte do Estado -, mudou-se para Franca, no interior paulista, tornando-se fazendeiro. Retornaria a Santos, onde foi nomeado juiz em 1907 e, sete anos depois, ministro do Tribunal de Justiça. Em seu período positivista, Vicente de Carvalho parou de escrever poemas. Por isso seu nome não figura entre os parnasianos de ponta: Raimundo Correia, Olavo Bilac e Alberto de Oliveira. Mas a publicação de seus livros, no início do século XX, revelou, segundo Manuel Bandeira, "um quarto mestre, nada inferior aos outros, e em certos aspectos mesmo superior - mais vário, mais completo, mais natural, mais comovido". Para a professora e crítica Sônia Brayner, o poeta "jamais renegou os sentimentos líricos iniciais, assumindo uma posição independente frente às tendências formalistas".
Em 1909, foi eleito para a cadeira número 29 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Artur Azevedo. Depois de se aposentar, deixou também o jornalismo, resumindo a sua participação na imprensa à publicação esparsa de versos na revista  A Cigarra, e passou a dedicar-se com mais frequência ao seu passatempo favorito: a pescaria. Conta Amaury Ribeiro que "o poeta provocava a lenda de homem do mar que o circundava (...), sempre longe dos salões e da vida social, testando-se na praia, dormindo nos barcos, à espera das manhãs de pescaria". O "poeta do mar" faleceu vítima de uma pneumonia, adquirida durante um passeio de barco.

"Só explica tão forte empenho posto em granjear tão modesto resultado, como é um livro de versos, aquele fortíssimo instinto, profundamente humano, que se rebela contra a morte, sonhando, para depois dela, uma continuação, ainda que modificada, da vida."
(Vicente de Carvalho)


"O autor de Poemas e canções não é legítimo parnasiano. Apenas soube aproveitar da escola poética de Bilac os grandes benefícios que trouxe, no Brasil, para a construção do verso."
(Mário de Andrade)


"Em matéria de linguagem e de regras em geral, Vicente de Carvalho foi, na mocidade, um revolucionário entusiasta, como o comum dos moços e até mais talvez. Afigurava-se-lhe a gramática portuguesa, em certos casos, apertada tirania exercida ilegalmente sobre o falar brasileiro."
(Euclides da Cunha)

Sugestões do Crepúsculo

Ao pôr-do-sol, pela tristeza
Da meia luz crepuscular,
Tem a toada de uma reza
A voz do mar.

Aumenta, alastra e desce pelas
Rampas dos morros, pouco a pouco,
O ermo de sombra, vago e oco,
Do céu sem sol e sem estrelas.

Tudo amortece e a tudo invade
Uma fadiga, um desconforto...
Como a infeliz serenidade
Do embaciado olhar de um morto.

Domada então por um instante
Da singular melancolia
De entorno - apenas balbucia
A voz piedosa do gigante.

Toda se abranda a vaga hirsuta,
Toda se humilha, a murmurar...
Que pede ao céu que não a escuta
A voz do mar?


1866 - Nasce no dia 5 de abril, em Santos - SP
1924 - Morre em 22 de abril, em São Paulo - SP

Obras do autor
POESIA: Ardentias, 1885; Relicário, 1888; Rosa, rosa do mar, 1902; Poemas e canções, 1908; Versos da mocidade, 1909.
PROSA: Verso e prosa, 1909; Páginas soltas, 1911; A voz dos sinos, 1916; Luisinha, 1924.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um Panorama da Poesia Brasileira do século XX

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Bela cozinha



Um mimo: receber de minha filha o livro autografado Bela cozinha (e escreve)!




Muito belo e instrutivo pois vai além de receitas, tem todo um contexto de repensar a forma de alimentar-se.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Macaé (RJ) - Lagoa de Imboacica


Lagoa de Imboacica -Macaé (RJ)
Lígia Guedes Joaquim

Porque contemplar faz parte da felicidade.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho - Volumes 1 e 2






Começar a coleção de Monteiro Lobato por Reinações de Narizinho é assertivo. 

Reinações de Narizinho é um clássico da literatura infantil brasileira.

As histórias do grande autor permearam minhas tardes de leitura feliz da infância. Acredito mesmo que meu amor pelas letras começaram com este autor que tão bem soube falar ao coração e mente infantil.

Lobato, Monteiro, 1882-1948. Reinações de Narizinho, volume 1 e volume 2 - Monteiro Lobato; Ilustrações Paulo Borges. - 2a. ed. - São Paulo:Globo, 2008.

A coleção Monteiro Lobato pela editora globo contém os seguintes livros:

Ilustrações de Paulo Borges
Reinações de Narizinho (volumes 1 e 2)
Caçadas de Pedrinho
O Picapau Amarelo

Ilustrações de Osher e Hector Gomez
Aritmética da Emília

Ilustrações de Cláudio Martins
Histórias de Tia Nastácia

Ilustrações de Fabiana Salomão
Peter Pan

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cartas e pássaros - Lígia Guedes Joaquim



Caros,
Segue em primeira mão a capa do meu livro de contos, "Cartas e pássaros", a ser lançado no mês de outubro do corrente ano, na cidade de Macaé, estado do Rio de Janeiro, Brasil.
O livro apresenta 13 contos. São retratos do olhar dos homens do mar, sejam eles pescadores ou trabalhadores da indústria, onde a diversidade de rostos e cultura é uma constante.
Assim transparecem os contos “A pescaria”, “O acidente”, “Homenagem” e “Cartas e Pássaros”.
Retrata ainda a exclusão em um mundo farto de recursos nos contos “Cara da avó”, “Galinho”,“Pai Nosso”, “Papagaios” e “Porta de igreja”.
Espelhos sociais são apresentados nos contos “202”, “Fluxo de consciência”, “Verão” e “Alça de caixão”, onde a frágil vida pode esvair-se como o sopro de uma leve brisa alçando novos rumos, como o voo de um pássaro.
Estarei divulgando o lançamento do livro tão logo seja possível. Passei por grande perda familiar e no momento estou repriorizando este momento.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

12 Anos de Escravidão

12 Anos de Escravidão

O filme 12 Anos de Escravidão mostra a que ponto o ser humano chega nas relações com o seu próximo, através da emocionante história (real) de um homem que foi sequestrado e tornou-se escravo por 12 anos.

1841. Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um escravo liberto, que vive em paz ao lado da esposa e filhos. Um dia, após aceitar um trabalho que o leva a outra cidade, ele é sequestrado e acorrentado. Vendido como se fosse um escravo, Solomon precisa superar humilhações físicas e emocionais para sobreviver. Ao longo de doze anos ele passa por dois senhores, Ford (Benedict Cumberbatch) e Edwin Epps (Michael Fassbender), que, cada um à sua maneira, exploram seus serviços.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Projeto livro - em andamento




Caros,
Estes dias tem sido importantes para a concretização do sonho de lançamento do  livro de contos pois está tinindo no forno da editora. Encerrei a fase de revisão de texto.
Acima, um pequeno ensaio fotográfico feito por meu amigo Julius (Julius Mack Fotografia), pois necessitava de uma foto para compor a biografia do autor. 
Iniciei a peregrinação rumo ao melhor ângulo na querida Praia Campista, nesta amada cidade de Macaé, a Princesinha do Atlântico (o fundo, Praia dos Cavaleiros), onde tem-se vista para as três ilhas: Sant´Ana, Papagaio e Francês. 
Assim como relatou nosso mestre Antônio Álvares Parada, foram cenário para muitas histórias de desbravadores que aqui chegavam nesta praia selvagem que nunca deixou se dominar à construção de um porto de atracamento.
Frequentava em minha adolescência a Praia Campista, onde nenhuma residência se fazia presente.
Lindos tempos.
O nome do meu livrinho em breve divulgarei.
Estou guardando surpresa mas adianto que o lançamento está bem próximo, caso tudo ocorra conforme o cronograma da editora.
Estou feliz com toda esta vivência.
É como um período de gestação em que os momentos finais estão por vir, a ansiedade aumenta e certamente o feliz dia chegará, quando estarei apresentando minhas letras aos amigos.
Até breve!

terça-feira, 29 de julho de 2014

A trilogia das cores



Excelente e surpreendente opção de filmes: A trilogia das cores "A liberdade é azul", "A igualdade é branca" e "A fraternidade é Vermelha".

"A liberdade é azul" conta o drama de Julie, que ao acordar num hospital de um acidente, fica sabendo que sua filha e seu marido Patrice morreram. No desespero, Julie procura se desfazer de tudo que lhe lembre o passado. Aos poucos, reencontra a vontade de viver com Olivier que ajudava Patrice a compor o "Concerto Pela Unificação da Europa". Enquanto auxilia Olivier a retomar o trabalho do marido, Julie sente de novo a dor da perda ao reabrir ferida, mas, com Olivier a seu lado, tem mais confiança em si mesma e no futuro... Uma história de amor contada com a sensibilidade do consagrado diretor polonês Krzusztof Kieslowski, que escreveu o roteiro em parceria com Agnieszka Holland.

"A fraternidade é Vermelha", na minha visão, o melhor da série, talvez por ter já participado de um júri popular certa vez e compreender um pouco o mundo judiciário sob os olhos de quem julga ou pretende julgar. O filme conta a história de um juiz aposentado a partir do ponto em que conhece Valentine (Irène Jacob), quando dirigindo seu caro de volta para casa, após um dia de trabalho como modelo, atropela algo em seu caminho. Ao descer do veículo, encontra uma cachorrinha ferida, com o endereço de seu dono na coleira. É assim que ela fica conhecendo a pessoa que iria alterar o curso de sua vida: um juiz aposentado, que termina seus dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Por trás deste estranho comportamento, está o enigma de um homem cujo motivo vital é tomar posse da intimidade daquelas pessoas e acompanhar passo a passo o desenrolar de seus destinos... Um oceano de possibilidades coloca-se, então à frente de Valentine e ela se vê prestes a mergulhar num mundo assustador, em que todas as regras podem ser quebradas. indicado ao Oscar em 1995 para Melhor Diretor, Melhor Rotiero e Melhor Fotografia. Boa filosofia de vida e valores.

"A igualdade é branca" beira ao cômico, conta a história do polonês Karol que recebe uma intimação para comparecer ao Palácio da justiça de Paris e surpreende-se ao saber que Dominique, sua esposa, quer o divórcio. Sem falar absolutamente uma palavra em francês, ele entra em grandes apuros e depois de muito contratempo, Karol enriquece e trama uma inusitada vingança contra sua ex-mulher, mesmo amando-a loucamente.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Wislawa Szymborska

Wislawa Szymborska
[poemas]

Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigtório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

[Alguns gostam de poesia]

Poemas / Wislawa Szymorska; Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien - São Paulo : Companhia das Letras, 2011.

Escolhi o livro [poemas] , de Wislawa Szymborska, como presente especial a minha amada filha poetisa Carla Guedes, que faz aniversário no próximo mês de agosto. Para uma amante das letras e em especial de poesias, acredito ser o presente que a deixará deslumbrada com a qualidade dos poemas da autora polonesa, ganhadora do Prêmio Nobel de literatura de 1996, que sempre escreveu pouco mas merecedora do nobre prêmio, provando que quantidade não é qualidade.

Beirando aos 90 anos, toda a sua produção, que cabe num volume relativamente pequeno, pode ser lida em um dia ou dois, mas requer tempo para ser de fato apreciada. E isso não porque ela "escreva difícil", pois, para os poetas poloneses nascidos no entre guerras, quando seu país ressurgiu das ruínas de três impérios, não havia crime ou pecado maior que o hermetismo, a obscuridade. Pelo contrário: seus versos, que, lúcidos e acessíveis, nunca recorrem a referências esotéricas e a passes verbais de mágica, desdobram-se quase como equações lógicas cuja argumentação pode ser acompanhada por qualquer um. Nem por isso se trata de uma poesia fácil, no sentido de feita com facilidade. Sua arte, que é a da contenção, da economia e da reticência, pressupõe, em cada poema, uma intencionalidade meticulosamente pensada e, portanto, uma prolongada gestação. A polonesa só escreve seus poemas necessários e os escreve apenas uma vez, vale dizer, ela inventa procedimentos novos para cada um deles e não os repete nem os converte, como fazem bardos menores, em matriz xerográfica de dúzias de poemas similares.
Com uma obra completa mais seleta do que as antologias dos outros, Szymborska prova que muito da grandeza se revela naquilo que um autor se recusa a escrever. Sua poesia já foi chamada de filosófica e, condizentemente, enfatiza antes a indagação sistemática do que as eventuais respostas, mas as perguntas que dirige a uma realidade hostil são tão atípicas (embora também tão naturais e incontornáveis) quanto as de um pré-socrático que o túnel do tempo despejasse no centro da principal área de desastre do século XX. Foi em polonês que se escreveu a melhor poesia dos últimos cinquenta ou sessenta anos, e, pelas mãos de Szymborska, a geração de poetas que testemunhou a Segunda Guerra e o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada. (Nelson Ascher)

Wislawa Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para Cracóvia, onde vive até hoje. Estudou literatura e sociologia na Universidade de Cracóvia. Trabalhou por quase trinta anos na revista literária Zycie Literackie.

sábado, 21 de junho de 2014

Macaé - RJ - Brasil

Macaé - RJ - Brasil


E assim amanhece a Princesinha do Atlântico (Macaé) no primeiro dia de inverno do ano de 2014.

Imagem: Gladstone Peixoto

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pascal Mercier - A partitura do adeus





A revista Cidade Nova (exemplar 578, Ano LVI, n. 6, Junho de 2014), na seção "na estante", por Fernanda Pompermayer (fernanda@cidadenova.org.br) apresentou uma crítica literária sobre o livro A Partitura do adeus, de Pascal Mercier
A partitura do adeus é uma obra contemporânea, nitidamente pós-moderna. Mas poderia ter sido escrita cem anos atrás, no século 18 e até antes. Poderia ser uma linda história narrada no tempo das carruagens, em que as tuas eram iluminadas por lampiões, em bucólicas auroras cobertas de névoa. Parece contraditório, mas não é. A narrativa é totalmente atemporal por compor uma obra onde a psicologia humana transborda em cada página, em cada parágrafo. A história é narrada sem muitos enfeites, não é um livro de "final feliz" e isso fica claro desde o começo, desde a introdução. Mas o que se passa com as personagens poderia ser vivido em qualquer época da história: são situações, dramas, anseios que poderiam compor a aventura humana de qualquer pessoa, em qualquer época ou país. O que faz a história ser tocante e atual é o modo de contá-la, a ausência de pudor em desnudar feridas. Existe amizade, confidência, interesse sincero pelos outros. As pessoas se defrontam com seus limites, com o fim de uma carreira, com o fracasso de um casamento. Há deslizes e vitórias... como sempre houve e haverá.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Sonho 2014: um livro!


Caros leitores e amigos,
Quem nunca teve um sonho (prefiro a palavra sonho a projeto) a latejar os pensamentos?
Pois eis que vagarosamente ando caminhando alguns passos em direção a edição de meu primeiro livrinho. Sim, digo livrinho porque ele é bem tímido, pequeno, poucas páginas.
Está em final de gestação.
Como é difícil colocar palavras impressas. Sim, porque as palavras ficam mas os pensamentos são mutantes. Então o que gostaríamos de dizer em determinado momento da vida que sabemos que poderão não ser mais nossos pensamentos futuros? Poderão estar em algum momento do nosso passado de idéias. Mas a falta do dizer não constrói. Então o hoje é importante para construir o amanhã que se espera.
Assim, estarei editando um livro para contar quem sabe o que vi, imaginei ver ou ainda vivenciei, seja através do meu olhar ou do olhar do outro.
Até o final deste ano desejo compartilhar este sonho: um livro de contos.

domingo, 23 de março de 2014

Alça de caixão


Segurei a fria alça no exato momento em que iria chocar-se no vaso grande de plantas. O funcionário da funerária parecia não notar que o caixão escorregara no piso liso e deslizara à esquerda onde certamente quebraria o vaso e iria de encontro ao muro branco do extenso corredor sob aquele escaldante sol. Algum transeunte se antecipou abrindo a porta que dava para um área coberta em frente às salas de atendimento onde estivera a exatamente uma semana também  observando dois homens rapidamente retirarem um caixão na mesma direção. Naquele dia a ideia de segurar uma alça de caixão seria absurda por imaginar que tal tarefa era para os extremamente fortes. Só não imaginara que a força física seria transposta com extrema facilidade. A necessidade é sempre um bom condutor, pensara. As pessoas sentadas observavam e pareciam baixar a cabeça para não olhar o suado homem da funerária à frente do caixão que pensava ainda o conduzir só. Minutos antes enquanto arrumávamos as flores no corpo soubera pelo mesmo que o cérebro é o que primeiro se desintegra. Estranha maneira de quebrar o silêncio ou agradecer a falta de ajuda para sua mão de obra. Desde que entrara na funerária somente ele e a atendente que encomendara as flores na cidade visinha atuavam: mostrou as possibilidades de caixão, separou as flores, agiu a papelada, procurou as chaves do carro enfrentando um trânsito caótico, arrumou o corpo e agora tentava sair o mais breve possível do hospital pois a hora avançava e  já aguardavam o corpo no templo. Mais uma porta foi aberta e ganhamos o escaldante sol rumo ao carro da funerária. Na tentativa de ajudar, vi meu dedo quase esmagado embaixo do caixão quando o mesmo foi solto no carro. Meu grito despertara o distraído porteiro do hospital que veio correndo ajudar. Transeuntes enquanto aguardavam o sinal abrir na movimentada rua observavam discretamente nosso movimento. O telefone tocara. Vai ter café aflita perguntara a voz. De imediato não entendi a pergunta e respondera que a prioridade no momento era confirmar o jazido no memorial mas certamente seria providenciado. Café para os visitantes, insistira a viúva. Lembrara das flores encomendadas. Naturais. Porquê indicara artificiais no enterro da irmã do falecido? Não saberia responder . Tais pensamentos eram perturbadores naquele momento. Embarcamos no carro da funerária no tumultuado trânsito. Chegamos ao templo e novamente somente a companhia do funcionário da funerária e o caixão. Minha irmã surgiu e alcançou a alça do caixão. Adentramos ao templo. A viúva correu em direção ao caixão em prantos. Já passara de uma hora da tarde. O enterro sairia ao fim da tarde. Lembrara que levantara às quatro horas da manhã, após uma noite sem sono e ganhara a rua rumo entretanto encontrara tão somente a escuridão. Horário de verão, lembrara. Quando enfim adentrara o hospital evitando o elevador cuja porta  abria em frente ao CTI, ganhando as escadas, o telefone tocara. Era o número do médico. Não atendera, ofegante subira as escadas parando em frente ao interfone no terceiro andar, na porta da sala de entrada da UTI. Na indecisão, a mão ganhara o aparelho de celular e confirmara o último número discado. O médico atendera e informara que necessitava conversar pessoalmente. Após informar que se encontrava na porta, escutara tão somente um 'aguarde'. Foram os minutos mais longos já vivenciados. Recebera a notícia e sentira todo o corpo tremer. A única pergunta que conseguira balbuciar foi se houvera sofrimento na partida. "Não, apenas se libertou, com suavidade". Não podia deixar de lembrar dos pássaros não libertos, engaiolados e de quando uma semana antes ouvira, naquele mesmo hospital: "liberte-os pois não posso mais prosseguir". Agora, apenas um longo dia e uma alça de caixão que não seria mais vista. Somente o vôo dos pássaros libertos naquele lindo pôr de sol onde enterrara meu pai.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Érico Veríssimo - Fantoches e outros contos



A revista Cidade Nova de janeiro do corrente ano na seção "na estante", por Fernanda Pompermayer (fernanda@cidadenova.org.br) apresentou um crítica literária sobre o livro de contos de Érico Veríssimo entitulado Fantoches e outros contos aqui reproduzida:

Livro: Fantoche e outros contos
Autor: Érico Veríssimo
Editora: Companhia das letras, São Paulo, 2007
Páginas: 352
Preço: R$46,33

O longa "O tempo e o vento", de Jayme Monjardim, trouxe à memória dos brasileiros o escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), m dos nossos autores clássico do século 20. O talento de Érico talvez tenha se perdido no tempo, levado pelo vento... mas nem por isso deixa de ser real e autêntico.
Além de sua obra-prima homônima ao filme - que é retratada por Monjardim apenas em parte - Érico escreveu dezenas de outros livros. O primeiro deles foi Fantoches, ainda em 1932, reunindo os seus primeiros contos, como se fossem peças de teatro. Depois vieram os romances Clarissa (1933), Música ao longe (1935) e muitos outros. Érico enveredou inclusive pela literatura infantil, escreveu diários de viagem e por fim suas memórias, em Solo de clarineta. Fantoches e outros contos é uma reedição do original Fantoches, acrescido de outros contos mais tardios. O volume conta com uma característica muito especial: para a edição comemorativa dos 40 anos da publicação de Fantoches, Érico, escritor mais maduro, apontou sobre o livro várias observações, inclusive ilustradas por ele mesmo, come espírito crítico e com o grande senso de humor que o caracterizou - dá para entender o talento e a veia humorística do filho, Luis Fernando Veríssimo.
A primeira parte da versão atual apresenta o livro original com os fac-símiles das páginas anotadas por Érico. "Há uns vinte anos, relendo os contos que formam o presente volume, tive  sensação de ser pai de mim mesmo. Torando a l~e-los agora, vinte anos mais tarde, sinto-me como se eu fosse o meu próprio avô..." (Érico Veríssimo, 1972).
Na segunda parte (Outros contos), o autor dá um show com contos mais maduros e reflexivos. Só para dar água na boca:

As mãos de meu filho. "Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas em voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros. Beethoven."

O navio das sombras. "É noite escura e o cais está deserto. Ivo ergue a gola do sobretudo. Sente muito frio, e o silêncio enorme e hostil enche-o de um vago medo. Vai viajar. Mas é estranho... Tudo parece diferente do que ele sempre imaginara. O grande transatlântico se desenha sem contornos certos contra o céu de fuligem. Não se vê um só vulto humano no cais. Advinha-se, entretanto, na treva, a presença rígida e gelada dos guindastes."

A ponte. "O médico tinha prometido vir às cinco da tarde com a interpretação da radiografia. Mário esperava-o, angustiado, na biblioteca de seu apartamento, imaginando o pior. Era um sábado de maio e ele estava sozinho desde as três, tentando concentrar-se na leitura de uma novela. Impossível. Tinha a atenção vaga e inquieta e, além da dor habitual no estômago, a garra do medo agora lhe oprimia o peito, dificultava-lhe a respiração."

O grande Érico Veríssimo toca o fundo da alma de quem o lê. Por isso, é imperdível.

terça-feira, 11 de março de 2014

Carla Guedes - Rosas



Já não tenho medo das rosas.
Lindas, rubras...
Antes meu medo era rubro
Rubro meu sangue
Colhido nos espinhos
Do medo perfurante
Da ausência e desilusão.

Murchas.
Rosas murchas,
Feitos sonhos murchos
Despetalados na praça.
Já não tenho medo das rosas.
Perfume com espinho dentro,
Sofreguidão com espinho dentro
Beleza, mesmo que dure
Só na paixão da entrega?

Já não me envergonham as rosas.
Faces rubras,
Sangue, sofreguidão e espinhos.
Porque hoje me enfeito de rosas
Mesmo que a carne grite,
Mesmo que os dedos gritem,
Porque sei, agora murchas,
Que eram lindas e inocentes.

Eram apenas rosas.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A Menina que roubava livros - filme



O filme A menina que roubava livros é uma leitura fiel à narrativa do livro, no tom correto: sério, poético, delicado e reflexivo. Recomendo!

domingo, 2 de março de 2014

Clarice Lispector - primeiro esboço


Clarice Lipector, primeiro esboço, by Lígia.
Quem sabe um dia ainda acredito que posso desenhar e entro em um curso, quem sabe.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Oliver Sacks - Um antropólogo em Marte

Oliver Sacks
Um antropólogo em Marte : sete histórias paradoxais - Oliver Sacks; tradução Bernardo Carvalho. - São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

O caso do pintor daltônico, O último hippie, Uma vida de cirurgião, Ver e não ver, A paisagem dos seus sonhos, Prodígios e Um antropólogo em marte são casos clínicos extraordinários de que o neurologista nos apresenta com uma visão tendo como foco a individualidade humana e suas complexidades pois faz referência a indivíduos cujas vida, pressionadas por situações-limite (por vezes trágicas, em geral dramáticas) podendo nos levar a compreender melhor o que somos.

O caso do pintor daltônico
Relata a história do Sr. I que teve um colapso abrupto e completo da visão das cores, após um suposto acidente de carro passando a viver num mundo em preto-e-branco. Daltonismo total, raro. A partir do relato do paciente, desse sensível artista que em início de março de 1986 relata sua história em carta ao Dr. Oliver começa assim uma batalha pela compreensão das possibilidades da situação vigente e futura:
"Sou um artista consideravelmente bem-sucedido que acaba de passar dos 65 anos. No dia 2 de janeiro deste ano eu ia dirigindo meu carro quando levei uma trombada de um pequeno caminhão, do lado do passageiro. Durante a consulta no ambulatório de um hospital local, me disseram que eu tinha sofrido uma concussão. Durante o exame de vista, descobriram que eu não conseguia distinguir letras ou cores. As letras pareciam caracteres gregos. Minha visão era tal que tudo parecia visto através de uma tela de um televisor em preto-e-branco. Depois de alguns dia passei a distinguir as letras e fiquei com uma visão de águia - consigo ver uma minhoca se contorcendo a uma quadra de distância. A precisão do foco é inacreditável. MAS ESTOU COMPLETAMENTE DALTÔNICO. Procurei oftalmologistas que nada sabem sobre esse daltonismo. Procurei neurologistas - inutilmente. Mesmo sob hipnose, continuo sem distinguir as cores. Passei por todo tipo de exame. Todos os que você conseguir imaginar. "

A reflexão possível deste primeiro conto, poderia assim chamá-lo é instantânea ao que leva a refletir José Saramago no seu livro "Ensaio sobre a cegueira". É um mundo novo descortinado a partir da narrativa. Um mundo em que o ser humano poderá desfrutar, renovando percepções, novas concepções de vida possível a partir de novos ângulos. Ângulo diferente de tudo a que está acostumado, suas regras sociais, suas rotinas, tudo caindo por terra e novos valores a aflorar para que a vida continue, seja de que forma for.

Sete narrativas sobre a natureza e a alma humana, aviso o autor no prefácio, e sobre como elas colidem de formas inesperadas. As pessoas deste livro passaram por condições neurológicas tão diversas quanto a síndrome de Tourette, o autismo, a amnésia e o daltonismo total. Elas exemplificam essas condições, são "casos" no sentido médico tradicional - mas também são indivíduos únicos, cada um vivendo (e, em certo sentido, criando) seu próprio mundo.

Oliver Sacks nasceu em Londres, em 1933, e mora nos EUA, onde leciona no Albert Einstein College of Medicine (Nova York). É autor de Enxaqueca, Tempo de Despertar (que inspirou o filme homônimo com Robert de Niro e Robin Williams), O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, A ilha dos daltônicos, Vendo vozes, Tio Tungstênio, Com uma perna só e Alucinações musicais - todos publicados pela Companhia das Letras.


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Henry James - vida e obra

Henry James
1843 - Em 15 de abril, nasce Henry James, em Nova York.
1855 - Viaja para estudar em Genebra, Londres e Paris.
1862 - Estuda na Faculdade de Direito de Harvard.
1864 - A família muda-se para Boston. Publica seu primeiro conto: A Tragedy of Error.
1865 - Publica The Story of a Year, primeiro conto assinado.
1866 - A família transfere-se para Cambridge, Estados Unidos.
1870 - Em março recebe a notícia da morte de sua prima Minny Temple.
1875 - Publica A Passionate Pilgrim, Transatlatic Sketches e Roderick Hudson.
1877 - Publica O Americano.
1880 - Publica A Herdeira.
1881 - Publica O Retrato de uma Dama.
1882 - No mês de janeiro morre sua mãe; em dezembro morre o pai.
1884 - Publica Lady Barberina.
1886 - Publica Os Bostonianos e A Princesa Casamassina.
1890 - Publica A Musa Trágica.
1891 - É encenada Gy Domville.
1896 - Muda-se para Lamb House, em Rye, na Inglaterra.
1898 - Publica A Outra Volta do Parafuso.
1902 - Publica As Asas da Pomba.
1903 - Publica Os Embaixadores.
1904 - Publica A Taça de Ouro. Viaja aos Estados Unidos.
1905 - Publica The American Scene.
1915 - Torna-se cidadão britânico em 26 de julho.
1916 - Morre no dia 28 de fevereiro, aos 73 anos.

Não: nada de cadáveres. Nem crimes. Nem casstelos escuros. Nem sangue. Nem alçapões secretos. Nem monstros que caminham pela noite.
Não: o mistério e o pavor não dependem dessas coisas. Os fantamas, se existem, caminham à luz do dia. Quando se tem medo, é o próprio sangue que esfria nas veias. Fora dos túmulos, os cadáveres existem apenas na imaginação. E os alçapões secretos são as ciladas preparadas pelo subconsciente. A atmosfera é assustadora porque o impossível coexiste com o possível.
Imagine seu próprio medo. O homem, esse angustiado, tem imensa capacidade de temer a si próprio, criando em sua fantasia as coisas que o apavoram.
Era assim que Henry James queria: nada de histórias macabras. Para ele, os relatos de fantasmas eram a "forma mais aproximada do conto de fadas", e suas experiências fantásticas, apenas vôos da imaginação poe´tica. Henry James teve uma infância rica. O pai, também chamado Henry James, era homem de posses. Mary Robertson James, a mãe, era uma mulher de hábitos simples.
Segundo filho do casal, Henry nasceu em 15 de abril de 1843, perto de Washington Square, onde passou a infância. Em julho de 1855 a família partiu para a Europa. Durante os cinco anos seguintes, entre várias idas e vindas, as crianças frequentaram, altrnadametne, escolas européias e americanas. Em 1860 voltaram a morar nos Estados Unidos.

 

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Oliver Sacks - O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu

Oliver Sacks
Olho a coleção de Oliver Sacks, de minha filha, Carla Guedes, a poetisa, e custo a me convencer que neste início tardio de leitura para um novo ano o autor seria a melhor opção.
Oliver Sacks leciona neurologia na Columbia University, onde ocupa também o recém-criado posto de Artista. É o autor neurologista, cientista romântico, que em seus ensaios transforma intencionalmente os relatos clínicos em artefatos literários, mostrando que somente a forma narrativa - com suas nuances  imprevisíveis, seus detalhes dramáticos, os sofrimentos e experiências de personagens singulares - restituem à abstração da doença uma feição humana, desvelando novas realidades para investigação científica e problematizando os limites ente o físico e o psíquico.
Nada animador uma leitura com foco psicológico para quem está vivenciando perdas (um pai que partiu ou um rumo de vida que está em mudança). Decido arriscar e ler o primeiro conto e tê-lo como balizador da continuidade da leitura.
Foi então que o conto O homem que confundiu sua mulher com um chapéu , mesmo nome do título do livro me pegou pelo laço.
Quanta leveza na narrativa, levando o leitor a acompanhar todo o processo por que passou seu personagem, detalhando os espaços físicos e emocionais de forma surpreendente.

Consta ainda:
Parte I - "Perdas": O marinheiro perdido, A mulher desencarnada, O homem que caía da cama, Mãos, Fantasmas, Nivelado, Olhar à direita!, O discurso do Presidente.
Parte II - "Excessos": Witty Ticcy Ray, A doença de Cupido, Uma questão de identidade, Sim, padre-enfermeira, A possuída.
Parte III - "Transportes": Reminiscências, Nostalgia incontinente, Passagem para a Índia, O cão sob a pele, Assassinato, As visões de Hildegarda.
Parte IV - "O mundo dos simples": Rebecca, O dicionário de música ambulante, Os gêmeos, O artista autista.

Olho os demais livros na estante e penso em seguir com o autor: Tempo de despertar, Enxaqueca, Com uma perna só, Alucinações musicais, A ilha dos daltônicos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jonathan Swift - vida e obra

Jonathan Swift
1667 - Em Dublin, nasce Jonathan Swift, em 30 de novembro.
1668 - É levado secretamente para a Inglaterra.
1670 - Volta à Irlanda. É entregue aos cuidados do tio Godwin.
1673 - Estuda na escola Kilkenny, em Dublin.
1681 - Ingressa na Universidade de Trinity, em Dublin.
1688 - Morre seu tio Godwin. Swift é diplomado pela universidade. Parte para Leicester, na Inglaterra.
1689 - Conhece Esther Johnson (Stella), por quem nutre profunda paixão.
1693 - Forma-se doutor em Teologia pela Universidade de Oxford.
1697 - Escreve A Batalha dos Livros.
1699 - Morre William Temple, seu suposto irmão e de quem era empregado.
1701 - Publica anonimamente Discurso sobre as Dissensões entre Nobres e Comuns em Atenas e Roma.
1704 - Publica A Batalha dos Livros e O Conto do Tonel.
1710 - Inicia o Diário a Stella. É nomeado deão da Catedral de São Patrício; em Dublin.
1713 - Escreve o poema Cadenus.
1725 - Começa a redigir As Viagens de Gulliver.
1726 - Publica As Viagens de Gulliver.
1728 - Morre Stella.
1731 - Escreve o peoma Sobre a Morte do Dr. Swift.
1738 - Publica A Conversação Polida.
1745 - Morre, surdo e louco, em 19 de outubro, em Dublin.

A infância de Jonathan Swift esteve longe de ser feliz. Abriu os olhos para a vida num escuro dia dublinense - 30 de novembro de 1667 - e não achou seu pai, morto sete meses antes. Logo vieram os comentários dos bisbilhoteiros: talvez o pequeno Jonathan não fosse filho do velho Swift, e sim de uma ligação da mãe com o nobre John Temple. Os comentários foram tantos e tão plausíveis que nunca se soube ao certo se afinal aquele Swift que fugira da Inglaterra para escapar à ditadura de Oliver Cromwell era ou não pai do Swift que, com sátiras irreverentes, abalaria o público da Europa em sua época.
Jonathan tinha um ano de idade e crescia sem muitos cuidados maternos quando sua ama o levou secretamente para a Inglaterra. O país vivia tempos agitados. Depois de onze anos de república, o Exército inglês resolvera restaurar a monarquia, entregando o governo a Carlos II, em 1660. Para evitar disputas religiosas como as que se vinham desenrolando desde a morte da rainha Elizabeth, fizeram-no assinar uma declaração prometendo anistia geral e liberdade de crença. Contudo, o rei mostrava fortes tendências ao catolicismo, provocando o desagrado de seus ministros e oficiais anglicanos.
A ama do pequeno Jonathan sentia a atmosfera cada vez mais pesada e, cerca de dois anos após sua chegada ao solo inglês, voltou com o menino para a Irlanda.
A mãe de Swift, ao contrário, desconhecendo os problemas políticos, estava ansiosa por viver na Inglaterra. Para realizar seu desejo, confiou o pequeno Swift aos cuidados de seu cunhado Godwin. O tio mandou-se estudar na escola Kilkenny e ensinou-lhe boas maneiras. Amor não lhe deu, nem carinho. Quando ele padecia de vertigens e crises de surdez, limitava-se a medicá-lo, frio e indiferente. Em 1681 matriculou-o na Universidade de Trinity, onde o sobrinho só se distinguiu pelas punições: mais de setenta em dois anos. Aborrecia-se com os compêndios. Irritava-se com os mestres. Desacreditava dos conhecimentos. Ao fim de algum tempo, a congregação deu-lhe o diploma, para ver-se livre dele.
Mesmo que não o diplomassem, Swift teria de abandonar a universidade por falta de condições econômicas. A morte do tio em 1688 privara-o de seu único esteio financeiro, e a situação caótica da Irlanda impelia-o para longe. O rei Jaime II, católico professo, já provocava o descontentamento popular antes de ser coroado. No ano de 1685, ano da morte de seu pai, os políticos ingleses dividiram-se em facções antagônicas, formando os grandes partidos britânicos: de um lado, os whigs, mais liberais, porém contrários á ascensão de um rei católico; de outro lado, os tories, conservadores, defensores da monarquia e partidários de Jaime.
Coroado em 1685, Jaime II reinaria apenas três anos; em 1688 era destronado pela chamada Revolução Gloriosa, que colocou no poder seu genro Guilherme III de Orange. Jaime asilou-se na Irlanda, católica como ele.
Swift não esprou para ver os desastres acarretados pela presença de Jaime II na Irlanda. No mesmo ano da Revolução Gloriosa foi juntar-se a sua mãe em Leicester. A situação da Inglaterra não era calma, porém Leicester era o lugar mais distante da Irlanda aonde suas economias lhe permitiam ir.
A mãe não dispunha de muito dinheiro para ajudá-lo. O rapaz tinha de procurar um emprego e sustentar-se. Valeu-lhe nessa busca antiga amizade materna com o família Temple. Sir William, estadista e escritor de grande prestígio durante o reinado de Carlos II, deu-lhe um emprego de guarda-livros em sua propriedade rural de moor Place, na Inglaterra.
Swift entediava-se no campo, dividido entre os livros de contabilidade e as leituras para sir William, do qual diziam ser irmão. Um dia, Moor Place ganhou novo encanto. Trouxe-lhe uma doce menina de oito anos: Esther Johnson, que, segundo as más línguas, era filha de William Temple com uma ama da casa - e, portanto, sobrinha de Jonathan. O possível parentesco e a diferença de idade não constituíram barreira para o desabrochar de um afeto entre o jovem e a criança. Swift amou-a até  fim da vida e a ela dedicou alguns de seus mais belos poemas. Chamou-a Stella - estrela -, fiel à moda corrente de rebatizar a amada com nome latino.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Júlio Verne - vida e obra

Júlio Verne
 1828 - Em 8 de fevereiro nasce Jules Gabriel Verne Allote, em Nantes, França.
1829 - Nasce o irmão Paul.
1834 - Júlio começa a frequentar a escola.
1841-46 - Vai para o Petit Séminaire e depois para o Liceu Royal de Nantes.
1847 - Estuda Direito em Paris.
1848 - É apresentado aos escritores Alexandre Dumas, pai e filho.
1851 - Publica Viagem num Balão.
1852-55 - Torna-se secretário do Teatro Lírico de Paris. Publica várias obras.
1857 - Em 10 de janeiro casa-se com Honorine-Ane de Vianne.
1859-1860 - Viaja à Escócia. Escreve Viagem à Inglaterra e à Escócia.
1861 - Em 3 de agosto nasce Michel, seu único filho.
1862 - Viaja à Noruega e à Dinamarca.
1863 - É publicado Cinco Semanas num Balão. Escreve Paris no Século Vinte.
1864 - Publica Aventuras do Capitão Hatteras e Viagem ao Centro da Terra.
1866 - Publica Da Terra à Lua e Os Filhos do Capitão Grant.
1868 - Viaja a Londres a bordo de seu iate Saint Michel.
1870 - Publica 20.000 Léguas Submarinas.
1871 - Morre Pierre, seu pai.
1873-74 - Publica A Volta ao Mundo em Oitenta Dias e A Ilha Misteriosa.
1878 - Entre junho e agosto faz uma viagem a Portugal.
1879-80 - Verne viaja para a Noruega, Irlanda e Escócia.
1885 - Publica Mathias Sandorf.
1887 - Em 15 de fevereiro morre Sophie, sua mãe.
1905 - Em 17 de março Júlio Verne adoece gravemente, em consequência de diabetes. Em 24 de março morre. É sepultado em Amiens.

Em 31 de janeiro de 1863, um livro de formato pequeno começa a aparecer nas prateleiras das livrarias na França. Conta a história de três viajantes, liderados por um tal dr. Fergusson, que se aventuram no coração da África viajando em um balão. Os valentes personagens da história enfrentam tribos selvagens, animais ferozes e outros perigos.
Os leitores estão perplexos, intrigados. Será fato ou ficção... Parece um autêntico diário de bordo, que inclui descrições detalhadas dos fenômenos naturais presenciados e anotações sobre longitude e latitude à medida que os exploradores avançam em sua viagem, mas as aventuras parecem fantásticas!
No jornal parisiense Le Fígaro, um comentário na coluna literária diz: "A viagem do dr. Fergusson é realidade ou não... Tudo o que se pode dizer é que é envolvente como o mais bem-escrito dos romances e instrutivo como um livro didático de ciências. Nem mesmo os grandes descobrimentos da história do mundo foram tão bem narrados".
O título desse incrível livro era Cinco Semanas num Balão, e o autor era um desconhecido chamado Júlio Verne.
Jules Gabriel Verne Allottte (seu nome de batismo) nasceu em 8 de fevereiro de 1828, em Nantes, no estuário de Líger, frança. Era o primeiro dos cinco filhos de Pierre Verne, um próspero advogado, e Sophie (Allote de la Fuye por nascimento), filha de uma família de militares. Seus irmãos eram Paul, Anne, Mathilde e Marie.
Criado numa cidade portuária, o garoto tímido vivia na marina e nas docas, observando o movimento do cais, o vaivém dos navios e das escunas, enquanto sua imaginação o transportava para portos longínquos, empoleirado no mastro de alguma embarcação. Sempre que podia, Júlio alugava um barco e passava o dia navegando nas imediações do cais. Algumas vezes Paul, o irmão um ano mais novo, o acompanhava. Mas foi numa ocasião em que estava sozinho que Júlio se viu à deriva, a cera de cinquenta quilômetros da orla, quando uma das pranchas se soltou e o barco acabou afundando. Encurralado numa ilhora, ele foi forçado a esperar que a maré baixasse para atravessar o trecho até terra firme e voltar para casa. Outro caso conta que aos onze anos, Júlio, apaixonado pelas histórias de países distantes, resolveu fugir de casa. Seu pai o teria conseguido pegar no porto de Poimboeuf, na primeira escala do navio. Pela fuga o menino receberia uma inesquecível surra. Em uma das primeiras biografias de Júlio Verne esse episódio seria romanceado, como uma tentativa do jovem Verne de viajar trabalhando de camareiro num navio mercante com destino às Índias, no qual teria chegado a embarcar clandestinamente. Teria sido resgatado pelo pai no último instante, antes de o navio zarpar. Não há evidências de que essas histórias sejam verdadeiras.
Júlio estudou em colégios católicos, e ao terminar o ensino secundário, em 1847, seu pai o enviou a Paris para estudar Direito. Nessa cidade Júlio passou a se interessar por teatro e escreveu uma peça, a comédia de um ato Les Pailles Rompues, que seria publicada em 1850. Seu pai ficou indignado quando Júlio anunciou que não queria prosseguir com os estudos e parou de lhe mandar dinheiro. Júlio então foi forçado a vender suas histórias para se sustentar. Introduzido por seu tio Châteaubourg nos círculos literários de Paris, Júlio Verne começou a publicar peças sob a influência de escritores famosos, como Victor Hugo e Alexandre Dumas (filho), a quem conhecia pessoalmente.

Em 1849 Charles Baudelaire traduziu os livros de Edgar Allan Poe para o francês. Júlio Verne tornou-se um dos mais devotados admiradores do autor americano; e em 1851 escreveu seu primeiro conto de ficção científica - Viagem num Balão, sob a influência de Poe.
Passou a trabalhar como secretário do Teatro Lírico de Paris em 1852, onde ficou por dois anos. Nesse período conheceu Honorine-Ane Hebe Freyson de Vianne de Morel, uma jovem viúva que tinha duas filhas, com a qual se casaria em 1857. Ele vivia com a mulher e as enteadas numa espaçosa residência e ocasionalmente saía para velejar. Para sustentar a família, trabalhou durante algum tempo como corretor da Bolsa de Valores, já que sua carreira de escritor progredia lentamente. Em 1861 nasceu Michel, o único filho do casal.
Em 1862 Júlio Verne conheceu Pierre Jules Hetzel,, escritor e editor de publicações infanto-juvenis, que começou a publicar a série Viagens Extraordinárias. Essa colaboração duraria até o fim da carreira de Verne. Depois de passar horas e horas nas bibliotecas de Paris estudando geologia, engenharia e astronomia, Verne publicou, em 1863, o seu primeiro romance, Cinco Semanas num Balão. O livro fazia parte da série Viagens Extraordinárias. O espetacular sucesso da obra, alcançado primeiramente na França e em seguida em vários países da Europa, rendeu-lhe um contrato de vinte anos com o editor Hetzel. Esse contrato seria alterado cinco vezes, sempre para incluir condições cada vez mais vantajosas para o escritor. Com os ganhos de suas futuras obras, Verne pode deixar seu emprego na Bolsa e dedicar-se inteiramente à literatura.
Apesar de se entregar com afinco à atividade de escrever, Verne conseguiu concluir o curso de advocacia. Foi nessa época que ele começou a sofrer de problemas digestivos, que periodicamente recorreriam até o fim de sua vida.
As histórias de Júlio Verne logo ganharam enorme popularidade no mundo inteiro. Como não era cientista nem tinha uma vasta experiência de viagens, Verne pesquisava muito para escrever seus livros. Ao contrário de outras obras de literatura de ficção, ele procurava ser realista e prático na narrativa e na descrição dos detalhes.
Outros livros vieram: Viagem ao Centro da Terra, em 1864; Da Terra à Lua, em 1866; 20.000 Léguas Submarinas, em 1870. O clássico A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, história baseada em uma viagem real do americano George Francis Train, foi escrito em 1873. Na primeira parte de sua carreira Júlio Verne expressava otimismo com o progresso e o papel central da Europa no desenvolvimento social e tecnológico do mundo. Já nos romances seguintes, o pessimismo do autor em relação ao futuro da civilização humana refletia o clima de fatalidade de fim de século.
Escritor de imensa popularidade, Júlio Verne é considerado o pai da ficção científica, ao lado de H. G. Wells. Embora Júlio Verne não tenha sido o primeiro escritor a descrever viagens à Lua ou aventuras no fundo do mar a bordo de um submarino, suas histórias foram as primeiras desse gênero que alcançaram projeção e popularidade internacional. Escritas tanto para adolescentes quanto para adultos, geralmente em forma de diários de bordo, elas levam o leitor a embarcar em aventuras, captam o espírito aventureiro do século XIX e o fascínio incondicional pelo progresso científico e pelas invenções tecnológicas.
Júlio Verne foi considerado um visionário, uma vez que muitas de suas idéias se profetizaram posteriormente nos avanços da ciência ao longo do tempo.
Durante mais de quarenta anos Júlio Verne publicou pelo menos um livro por ano, sobre uma ampla variedade de temas. Embora escrevesse sobre lugares exóticos, ele viajou relativamente pouco - seu único vôo de balão durou apenas 24 minutos.
Em 1872 mudou-se com a família para um palacete adquirido em Amiens, cidade em que nascera sua mulher.
Em um dia de março de 1886 Júlio Verne estava chegando a casa, depois de passar a tarde no clube, quando ouviu o som de disparos. Em seguida sentiu uma dor aguda na perna esquerda. O tiro que o deixaria manco para o resto da vida fora disparado por seu próprio sobrinho Gaston - que tinha problemas mentais -, filho do irmão Paul. Uma vingança por Verne ter se recusado a lhe dar dinherio para fazer uma viagem.
Desgostoso coma a perda parcial da mobilidade, com a morte da mãe, ocorrida em 1887, e por outros motivos, sua outrora tranquila felicidade ficou abalada. Em carta dirigida ao irmão em 1894, ele se queixaria: "Tornou-se insuportável para mim qualquer alegria, o meu caráter está profundamente alterado, e recebi golpes de que nunca conseguirei me recuperar". Paul morreria em 1897, e a Júlio Verne , cada vez mais desolado, apenas restava confessar: "Quando não trabalho, deixo de sentir-me viver".
O último romance de JúlioVerne foi A Invasão do Mar, de 1905. Sua obra completa é composta por 65 romances, cerca de vinte contos e ensaios, trinta peças, alguns trabalhos geográficos e também librettos de ópera.
A antecipação científica baseada em feitos verídicos e as aventuras de personagens audazes e inteligentes foram a principal fonte dos romances de Verne, os mares e lugares inexplorados o cenário adequado para o desenrolar de suas histórias, que são uma rara combinação de inventividade e habilidade literária.
No fim da vida, com problemas de saúde, Verne já não podia ir à biblioteca, os livros eram levados até ele. Mas mantinha a rotina de escrever pela manhã e ler à tarde.
Na noite de 24 de março de 1905, em Amiens, Júlio Verne pediu um exemplar do livro 20.000 Léguas Submarinas. Perguntou pela mulher e pelos filhos, fechou os olhos e morreu, em consequência de complicações por diabetes. Foi sepultado no cemitério Madeleine, em Amiens.
Após a morte de Verne, seu filho Michel concluiu e publicou algumas das obras inacabadas do pai.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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