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domingo, 2 de março de 2014

Clarice Lispector - primeiro esboço


Clarice Lipector, primeiro esboço, by Lígia.
Quem sabe um dia ainda acredito que posso desenhar e entro em um curso, quem sabe.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A descoberta do mundo - Clarice Lispector

A descoberta do mundo -
Clarice Lispector
Rocco, 1999

Transbordamento, esta a sensação de quem lê as letras do livro A descoberta do mundo, por parte de Clarice Lispector. Na verdade, toda a trajetória da autora construída em ordem cronológica, no cotidiano, no jornal do Brasil, de agosto de 1967 a dezembro de 1973. Não deixa de ser um extravazamento do que pensa a autora sobre os mais diversos temas simples e complexos da vida com a linguagem que até hoje não encontrei autor à altura de Clarice.

Insubstituível, Clarice Lispector é insubstituível !



A Rosa Branca

Corola alta: que extrema superfície. Catedral de vidro superfície da superfície, inatingível. Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e à nona se unem em coral - crianças sáias abrem bocas de manhã e entoam espírito, leve super´fície de espírito, superfície intocável de uma rosa.
Estendo minha mão esquerda que é mais fraca e delicada, mão escura que logo recolho sorrindo de pudor: não te poso tocar. Meu rude pensamento quisera poder cantar teu entendimento de elo e glória.
Tento liberar-me da memória, entender-te como te vê a aurora, como te vê uma cadeira, como te vê outra flor. (Não temas, não quero possuir-te.)
Alço-me, alço-me em direção de tua superfície que já é perfume. Alço-me até atingir minha própria tona, minha própria aparência  - empalideço nessa região assustada e fina, quase alcanço tua superfície divina... Numa queda ridícula caí.
Não abaixo minha cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dó-me o coração grosseiro como em amor por um homem. E das mãos tão grandes saem as palavras envergonhadas.

(A descoberta do mundo - Clarice Lispector - pág. 424)



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Clarice Lispector - saudade

Clarice Lispector

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que  presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

(Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo - Rio de Janeiro - Rocco: 1999)


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Eu tomo conta do mundo - Clarice Lispector

Clarice Lispector

"Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo teraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante à noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho,  se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.
Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapose magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.

Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas."
(A descoberta do mundo - Clarice Lispector).

"Se não for prá te adorar... para que nasci..."




domingo, 20 de novembro de 2011

Clarice Lispector - A descoberta do mundo

 Cavaleiros - Macaé - RJ - Brasil
As águas do mar

"Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: não está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fato não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorregando - espantada de pé, fertilizada.

Agora o frio se transforma em frígido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos, com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

E era isto que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secando pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opões resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão amigo quanto o ser humano."

(A descoberta do mundo, págs 470, 471 - Clarice Lispector)


sábado, 7 de maio de 2011

Clarice Fotobiografia - Nádia Battella Gotlib


Clarice Fotobiografia / Nádia Battella Gotlig. 2a. edição - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.


"Pegar o vivo e tirar o seu imóvel retrato e olhar-se no retrato e pensar que o flagrante deixou uma prova, a desse retrato já morto."
(Um Sopro de Vida - Clarice Lispector)

Clarice Lispector (1920-1977), nascida em Tchetchélnik, na Ucrânia (Rússia), e naturalizada brasileira, é escritora já reconhecida pela crítica, tanto no Brasil quanto no exterior, por sua obra ficcional e por sua atividade na imprensa carioca, desenvolvida ao longo de 37 anos de produção. Nascida durante a viagem dos pais, judeus imigrantes que vieram com as três filhas para o Brasil, morou em Maceió e Recife, depois, no Rio de Janeiro, em seguida, em países europeus (Itália, Suiça, Inglaterra) e nos Estados Unidos e, novamente, no Rio de Janeiro. Este livro registra, numa narrativa visual criada a partir de imagens acompanhadas de legendas e, de no final, textos explicativos mais detalhados, os momentos mais marcantes desse percurso de vida e obra pautado na busca, sempre renovada, de exprimir o inexprimível da natureza humana, em linguagem criativa, experimentada como selvagem "matéria viva pulsando".

A autora de Clarice Fotobiografia  já avisa de antemão: a prova e o enigma envolverá o leitor / espectador desta Fotobiografia. Os encontros mágicos podem ocorrer a partir de algumas transcrições de textos seus, ou de modo mais sutil, em cada detalhe gráfico: certas paisagens, pedaços de cidades, pessoas sós ou em grupo, na caligrafia de certas cartas e dedicatórias, em espaços interiores, em papéis ora desgastados pelo tempo, ora em sépia, ora voluntariamente rasgados, sinais gráficos do que existiu, como são também sinais os registros de passeios, posturas de corpo, olhares, gestos.

O livro é um deleite não somente aos olhos pois é uma construção histórica a partir da vida de Clarice e seus familiares através de imagens e textos que foi assim distribuída:

1. Da Ucrânia ao Brasil: em exílio.
2. Em Maceió: a infância nordestina
3. Em Recife: À beira do capibaribe
4. Rio de Janeiro: a mocidade carioca
5. Em Belém do Pará: a vida a dois
6. Em Nápoles: "O Mediterrâneo é azul, azul"
7. Em Berna: "Cemitério de sensações"
8. Em Trquay: o gosto pelo cinzento
9. Em Washington: quase sete anos
10. No Rio de Janeiro: a volta definitiva
11. Ainda no Rio de Janeiro: Horas de estrela
12. Para sempre: a obra viva
13. Do Brasil à Ucrânia: em Tchetchélnik

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Clarice Lispector - Laços de Família

 Teia da Vida

A aranha traça na sua teia
Seu destino, o seu alimento
O seu condimento e o sabor da vida
Que na teia ela destina

O pescador no mar
Traça na rede de pesca,
O seu futuro, a sua fé,
A sua amizade
e o seu mar de felicidade
Que no barco ele desvia da tristeza
e acerta na alegria de viver
E toda a sua beleza"

(Carla Guedes - Imaginária Flor, 1999)


Um dia vi minha filha demoradamente observar uma aranha.  A aranha era sua presa naquele dia. A vida queria seguir seu curso contemporâneo mas tudo parecia parar naquela cena. Rendida, um caderno a partir daquele dia teria um lugar para encontro de letras, seja flor, seja aranha, seja mar. Assim, surgiu o primeiro livro de poemas de Carla Guedes (à direita, na foto acima, ao lado dos irmãos Lis/esquerda, Victor/esquerda e Davi), 'Imaginária Flor', editado aos 10 anos. No prefácio a autora relata: "a vida, as flores, o amanhecer me inspiram.".

Em  "Laços de Família", Clarice Lispector aborda através da literatura como bússola pela essência humana a desvendar as profundezas da alma. Utiliza o cotidiano revelado nos personagens na iminência de um milagre, uma explosão ou uma singela descoberta. Todos suscetíveis aos acontecimentos do dia a dia. Vidas que se perdem e se encontram em labirintos formados por uma linguagem única, meticulosamente estruturada, de caráter profundo e universal.

"Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O mínimo corpo  tremia. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d´água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um laod para outro na cozinha, cortanto os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos."

Com vocabulário simples, o leitor que não se engane ao ser surpreendido com pequenos detalhes do cotidiano deflagando o entrechoque de mundos e fronteiras, desnudando um ambiente falsamente estável, em que vidas aparentemente sólidas se desestabilizam de súbito, justo quando o dia a dia parece estar sendo marcado pela ameaça de nada acontecer.


"Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia." 


Lispector, Clarice, 1925-1977 - Laços de família: contos / Clarice Lispector. - Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

domingo, 8 de agosto de 2010

Clarice Lispector - Correspondências



Nova York, 10 de junho de 1946
"Clarice,
Esta é a quarta carta que inicio para responder a sua. A primeira eu deixei no Brasil, só trouxe a primeira página, que vai junto. A segunda eu rasguei. A terceira eu não acabei, vai junto também. Hoje recebi uma carta do Paulo, dizendo que não tinha mandado até agora a resposta dele. Positivamente somos uns cachorros irremediáveis. Você por favor não ligue para isso não. Pode ter certeza de que não te esquecemos." (...)

Fernando Sabino

Nova York, 17 de setembro de 1946
Clarice,
(...)"Como eu já disse, gostei muito do seu conto: admiravelmente bem escrito, não falta nada nem sobra nada. Se permite duas ou três sugestões: onde você fala primeira vez que o homem carregava um saco, sugiro que diga saco de linhagem, ou de pano etc... "... tirou a pá do saco" me soa desagradável. Parece que não há mais nada. É em verdade um conto tão bonito, Clarice, um conto que só se escreveria na Europa, na Suíça. Por ele posso perceber uma coisa muito importante do conto: que você está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito: o que é preciso é sofrer bem: é uma diferença bem importante, para a qual o Mário sempre me chamava a atenção. A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo. É o relexo disso que vejo no seu conto, você procura escrever bem, e escreve bem. Me deu vontade de enunciar um trísmo: "O problema para quem escreve é antes de tudo um problema literário." Álvaro Lins.

Fernando Sabino

Correspondências inclui 129 cartas, que cobrem quatro décadas da vida de Clarice, dos anos 1940 até pouco antes da morte da autora, ocorrida no Rio de Janeiro em 1977. Entre seus correspondentes estão o marido, Maury Gurgel Valente, os amigos Lúcio Cardoso, Bluma Wainer e Fernando Sabino, com com manteve uma rica e frutuosa correspondência, até trocas mais pontuais.

Berna, 19 de junho de 1946 - quarta-feira
Fernando,
Sua carta me surpreendeu tanto! Eu tive a impressão de ter caído numa coisa assim: de jogar verde para colher maduro ou de ir buscar lã tosquiada, ou dois e dois são quatro - eu escrevi para vocês no Rio, na sua casa, e você me responde de Nova York.

Clarice

Berna, 13 de outubro de 1946
Fernando,
(...)"Talvez seja orgulho querer escrever, você às vezes não sente que é? A gente deveria se contentar em ver, às vezes. Felizmente tantas outras vezes não é orgulho, é desejo humilde. Enquanto isso, estou me divertindo tanto quanto você não pode imaginar: comecei a fazer uma "cena" (não sei dar o nome verdadeiro ou técnico); uma cena antiga, tipo tragédia idade média, com... coro, sacerdote, povo, esposo, amante..."

Clarice

As cartas eram o contacto de Clarice com o mundo e a necessidade de se manter viva. Por este motivo Clarice dava ênfase a sua necessidade de respostas. Verdadeiros poemas ao longo da ordem cronológica que o livro Correspondências vai sendo apresentado pode ser captado o crescimento interior de Clarice, como a paciência foi um mestre em sua vida de eterna poesia e carinho com o próximo. O livro é um retrato da trajetória biográfico-literária, do contexto cultural e sociopolítico da época atingido através de sua correspondência com escritores, artistas, intelectuais e familiares, seus amigos.

Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, pequena cidade da Ucrânia, e chegou ao Brasil aos dois meses de idade, naturalizando-se brasileira posteriormente. Criou-se em Maceió e Recife, transferindo-se aos dozes anos para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, trabalhou como jornalista e iniciou sua carreira literária. Viveu muitos anos no exterior, em função do casamento com um diplomata brasileiro, teve dois filhos e faleceu em dezembro de 1977.

Encerro com Sabino e o interessante texto:

"Só de pensar que você estará lendo esta carta muitos dias depois de ter sido escrita me dá vontade de não mandar. Mas mando, isso é uma desonestidade. Você nos escreveu há um mês. Juro que não faço mais isso, fiz só da primeira vez, agora não faço mais. Me escreva que responderei imediatamente. Como vai indo o seu livro? O que é que você faz às três horas da tarde? Quero saber tudo, tudo. Você tem recebido notícias do Brasil? Alguém mais escreveu sobre o seu livro? É verdade que a Suíça é muito branca? Você mora numa casa de dois andares ou de um só? Tem cortina na janela? Ou ainda está num hotel? Oh, meu Deus, Seminarstrasse será simplesmente um hotel? Qual é o cigarro que você está fumando agora? Pipocas, Fernando (14)!"

14 - Referência a sua predileção por pipocas, que a levou um dia a me assustar com esta incontida exclamação de alegria infantil, ao passarmos no meu carro em Copacabana diante de um pipoqueiro.

Demais!

Lispector, Clarice, 1920-1977 - Correspondências / Clarice Lispector; organização de Teresa Montero - Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Clarice Lispector/Entre-vistas



Ler um livro de entrevistas a princípio pode parecer adentrar através da 'palavra expressa' na intimidade do outro. No livro "Clarice Lispector - Entrevistas", difícil vislumbrar onde termina a rotina profissional da entrevistadora na arte de pesquisadora em conquistar o entrevistado com êxito para superar as expectativas do trabalho proposto e onde começa um grande diálogo. Clarice bem elabora todas as perguntas de maneira que muitas envolvem seu trabalho literário, fruto da curiosidade da alma humana, do conhecer através do outro a si própria, como ser humano comum, entretanto, com um olhar essencial à realidade do outro que se revela sempre especial.

É um livro para leitura vagarosa, onde cada entrevistado tem a oportunidade de saborear a boa prosa de Clarice quando formula perguntas, abrangentes como a vida, como quem deseja saber pelo outro o essencial que a vida propõe seja em literatura, música, artes cênicas, artes plásticas ou esportes. Como o ser humano é um pouco de tudo, melhor abrir o livro aleatoreamente e vislumbrar cada palavra conquistada por Clarice Lispector nos caros entrevistados, sejam eles Lygia Fagundes Telles, Rubem Braga, Tom Jobim, Pablo Neruda, Elis Regina, Fernando Sabino, Ferreira Gullar, Oscar Niemeyer ou Isaac Karabtchevsk, entre outros. Lógico que tudo acaba em um grande bate-papo, com a profundidade que somente Clarice pode proporcionar. Imaginar Tom e Clarice argumentando se a literatura e a música acabariam algum dia e em que tempo ocorreria ... felizmente concluíram que nunca acabariam (a fórmula dessa sabedoria, só os grandes podem calcular). "Só a criação satisfaz" responde em bom tom.

"Qual a coisa mais importante do mundo?";
"Qual a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo";
"O que é o amor?";

pergunta Clarice...

"O amor";
"Saber situar-se neste mundo de alegrias e tristezas em que vivemos, certos de que não estamos sozinhos, ...";
"Sentir a fragilidade das coisas e a pouca importância de tudo que realizamos.";
"Dar ao amor o sentido universal que merece.";

foram respostas... só lendo!

Falando em leitura, não há como não pensar em releitura e pensar em releitura é pensar em Rubem Braga que curiosamente relatou pretender realizar uma seleção de todos os livros num só volume por estar em situação de 'esgotamento'. Não pretendia reeditar, nem reler seus livros, por achar a releitura um processo um tanto 'chato'... Não sei se conseguiu (reeditar o livro). Clarice Lispector concordou com ele, disse evitar ao máximo ter que reler seus trabalhos e fica mesmo espantada com pessoas que fazem releitura... Imagina! Bom, naquela época não existia a rede, é isto!

Hum... boa releitura!

Lispector, Clarice, 1920-1977 - Entrevistas, [organização de Claire Williams; preparação de originais e notas bibliográficas de Teresa Montero]. - Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
Foto digital: Lígia Guedes

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