sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jonathan Swift

Jonathan Swift
1667 - Em Dublin, nasce Jonathan Swift, em 30 de novembro.
1668 - É levado secretamente para a Inglaterra.
1670 - Volta à Irlanda. É entregue aos cuidados do tio Godwin.
1673 - Estuda na escola Kilkenny, em Dublin.
1681 - Ingressa na Universidade de Trinity, em Dublin.
1688 - Morre seu tio Godwin. Swift é diplomado pela universidade. Parte para Leicester, na Inglaterra.
1689 - Conhece Esther Johnson (Stella), por quem nutre profunda paixão.
1693 - Forma-se doutor em Teologia pela Universidade de Oxford.
1697 - Escreve A Batalha dos Livros.
1699 - Morre William Temple, seu suposto irmão e de quem era empregado.
1701 - Publica anonimamente Discurso sobre as Dissensões entre Nobres e Comuns em Atenas e Roma.
1704 - Publica A Batalha dos Livros e O Conto do Tonel.
1710 - Inicia o Diário a Stella. É nomeado deão da Catedral de São Patrício; em Dublin.
1713 - Escreve o poema Cadenus.
1725 - Começa a redigir As Viagens de Gulliver.
1726 - Publica As Viagens de Gulliver.
1728 - Morre Stella.
1731 - Escreve o peoma Sobre a Morte do Dr. Swift.
1738 - Publica A Conversação Polida.
1745 - Morre, surdo e louco, em 19 de outubro, em Dublin.

A infância de Jonathan Swift esteve longe de ser feliz. Abriu os olhos para a vida num escuro dia dublinense - 30 de novembro de 1667 - e não achou seu pai, morto sete meses antes. Logo vieram os comentários dos bisbilhoteiros: talvez o pequeno Jonathan não fosse filho do velho Swift, e sim de uma ligação da mãe com o nobre John Temple. Os comentários foram tantos e tão plausíveis que nunca se soube ao certo se afinal aquele Swift que fugira da Inglaterra para escapar à ditadura de Oliver Cromwell era ou não pai do Swift que, com sátiras irreverentes, abalaria o público da Europa em sua época.

Jonathan tinha um ano de idade e crescia sem muitos cuidados maternos quando sua ama o levou secretamente para a Inglaterra. O país vivia tempos agitados. Depois de onze anos de república, o Exército inglês resolvera restaurar a monarquia, entregando o governo a Carlos II, em 1660. Para evitar disputas religiosas como as que se vinham desenrolando desde a morte da rainha Elizabeth, fizeram-no assinar uma declaração prometendo anistia geral e liberdade de crença. Contudo, o rei mostrava fortes tendências ao catolicismo, provocando o desagrado de seus ministros e oficiais anglicanos.

A ama do pequeno Jonathan sentia a atmosfera cada vez mais pesada e, cerca de dois anos após sua chegada ao solo inglês, voltou com o menino para a Irlanda.

A mãe de Swift, ao contrário, desconhecendo os problemas políticos, estava ansiosa por viver na Inglaterra. Para realizar seu desejo, confiou o pequeno Swift aos cuidados de seu cunhado Godwin. O tio mandou-se estudar na escola Kilkenny e ensinou-lhe boas maneiras. Amor não lhe deu, nem carinho. Quando ele padecia de vertigens e crises de surdez, limitava-se a medicá-lo, frio e indiferente. Em 1681 matriculou-o na Universidade de Trinity, onde o sobrinho só se distinguiu pelas punições: mais de setenta em dois anos. Aborrecia-se com os compêndios. Irritava-se com os mestres. Desacreditava dos conhecimentos. Ao fim de algum tempo, a congregação deu-lhe o diploma, para ver-se livre dele.

Mesmo que não o diplomassem, Swift teria de abandonar a universidade por falta de condições econômicas. A morte do tio em 1688 privara-o de seu único esteio financeiro, e a situação caótica da Irlanda impelia-o para longe. O rei Jaime II, católico professo, já provocava o descontentamento popular antes de ser coroado. No ano de 1685, ano da morte de seu pai, os políticos ingleses dividiram-se em facções antagônicas, formando os grandes partidos britânicos: de um lado, os whigs, mais liberais, porém contrários á ascensão de um rei católico; de outro lado, os tories, conservadores, defensores da monarquia e partidários de Jaime.

Coroado em 1685, Jaime II reinaria apenas três anos; em 1688 era destronado pela chamada Revolução Gloriosa, que colocou no poder seu genro Guilherme III de Orange. Jaime asilou-se na Irlanda, católica como ele.

Swift não esprou para ver os desastres acarretados pela presença de Jaime II na Irlanda. No mesmo ano da Revolução Gloriosa foi juntar-se a sua mãe em Leicester. A situação da Inglaterra não era calma, porém Leicester era o lugar mais distante da Irlanda aonde suas economias lhe permitiam ir.
A mãe não dispunha de muito dinheiro para ajudá-lo. O rapaz tinha de procurar um emprego e sustentar-se. Valeu-lhe nessa busca antiga amizade materna com o família Temple. Sir William, estadista e escritor de grande prestígio durante o reinado de Carlos II, deu-lhe um emprego de guarda-livros em sua propriedade rural de moor Place, na Inglaterra.

Swift entediava-se no campo, dividido entre os livros de contabilidade e as leituras para sir William, do qual diziam ser irmão. Um dia, Moor Place ganhou novo encanto. Trouxe-lhe uma doce menina de oito anos: Esther Johnson, que, segundo as más línguas, era filha de William Temple com uma ama da casa - e, portanto, sobrinha de Jonathan. O possível parentesco e a diferença de idade não constituíram barreira para o desabrochar de um afeto entre o jovem e a criança. Swift amou-a até  fim da vida e a ela dedicou alguns de seus mais belos poemas. Chamou-a Stella - estrela -, fiel à moda corrente de rebatizar a amada com nome latino.

A presença de Stella era um bálsamo para o escritor, mas não bastava para retê-lo como empregado de seu suposto irmão. Tinha ambições. Compreendia que, para realizá-las, precisava de um diploma. Em 1693 doutorou-se em Teologia pela Universidade de Oxford. Pouco depois assumiu o posto de cônego em Kilrooth, Irlanda, obtido graças às boas relações de sir William.

Longe de Stella, julgou-se apaixonado por uma certa Jane Waring, a quem apelidou de Varina e dedicou poemas ardentes. O arrebatamento amoroso - não se sabe se correspondido - durou pouco. Em questão de meses, Swift arrependia-se de ter jurado amor eterno e de haver pedido a moça em casamento. Em 1695 voltou para Moor Place. Encontrou William escrevendo um panfleto altamente conservador sobre a "batalha dos livros" travada na Inglaterra. A rivalidade entre whigs e tories refletia-se na literatura, dividindo os escritores em conservadores e modernizantes. Mal saíra o escrito de sir Temple, os modernizantes atacaram-no vivamente. Swift, promovido a secretário de sir Temple, achou-se obrigado a defendê-lo e redigiu, em 1697, A Batalha dos Livros. Por trás da defesa, todavia, ironizava sutilmente ambas as posições. A obra foi publicada em 1704, juntamente com O Conto do Tonel, um ataque à vida religiosa da Inglaterra, também escrito em Moor Place. A sátira, o pessimismo e o riso amargo seriam, a partir de então, a característica da obra de Swift.

A morte de William Temple em 1699 privou Swift de um emprego fácil. Novamente teve de perambular pelas casas dos grandes de Leicester em busca de proteção. Fizeram-no cônego de Dunlevin, na Irlanda. A nomeação desgostou-o, mas Swift não teve alternativa senão aceitá-la. Em 1701 estava instalado em seu novo lar, perdido entre planícies desertas e silenciosas.

Não ficaria sozinho por muito tempo. Atendendo a seu pedido, Stella foi viver ali perto. Porém levava consigo a sra. Dingley, prima de sir William. Jamais permitiu a Swift o menor gesto de namorado, e, tanto quanto se sabe, nem ele o tentou.

A proximidade da menina pareceu dar-lhe alento para continuar escrevendo. Em 1701 publicou anonimamente o Discurso sobre as Dissenções entre os Nobres e Comuns em Atenas e Roma. A alusão aos partidos ingleses era clara, e sua posição, ao lado dos whigs, valeu-lhe o ataque dos tories e a proteção de estadistas como Somers e Halifax, de elevado prestígio junto ao governo.

Vislumbrado com a possibilidade de ascender na Igreja anglicana com a ajuda dos políticos, Swift começou a viajar frequentemente para Londres. Conseguiu editores para A Batalha dos Livros e O Conto do Tonel. Popularizou-se apoiado por satíricos como Pope, escritores polemistas como Richard Steele e Joseph Addison - fundadores do The Spectator, um dos primeiros periódicos ingleses.

Reconheciam em suas sátiras motivos semelhantes aos deles: profundo amor à verdade, feroz aversão à hipocrisia, honesto desejo de demolir as ilusões de seu povo. Reinava desde 1702 a filha de Jaime II, Ana. Com ela subiram ao poder os tories moderados, representados pelo primeiro-ministro Robert Harley. Para Swift tanto fazia ser tory ou whig, achava todos os políticos igualmente corruptos e incapazes. Fora whig enquanto lhe conviera. Com a mudança de governo, não hesitou em proclamar-se tory, conquistando assim a proteção e a simpatia de Harley.

A ambição e as amizades mantinham-no em Londres, com Stella presente em seu coração. Escrevia-lhe numerosas cartas, fazia-lhe confidências no Diário a Stella. Todas as noites, à luz de vela, fechava-se no quarto para o diálogo mental com a amada. Ao falar de assuntos íntimos, expressava-se numa linguagem cifrada, composta de combinações de letras e palavras, compreensível apenas para ele e sua Stella. É a chamada "pequena linguagem", que criou especialmente para comunicar-se com a amada. Mais tarde a experiência daria frutos em As Viagens de Gulliver.

Em 1713 abandonou o Diário, ferido pelo que considerava uma injustiça a rainha Ana pretendia dar-lhe a Sé de Hereford, por ele ambicionada, mas, diante das intrigas do arcebispo de York, escandalizado com O Conto do Tonel, e da duquesa de Somerset, desgostosa com as sátiras do escritor sobre sua pessoa, abandonou o projeto. Nomeou-o deão da Catedral de São Patrício em Dublin.

A acolhida dos irlandeses foi fria, senão hostil. Tinham ciúme de sua vida londrina e desconfiavam de suas atividades políticas, que lhes pareciam incompatíveis com as funções eclesiásticas. No "exílio" de Dublin, como o considerava, Swift não tinha amigos nem prestígio, nem a presença consoladora de Stella. Ao contrário, as más notícias se acumulavam.

Em 1714 morriam a rainha Ana e também a herdeira do trono, Sofia, neta de Jaime I. Pelo direito de sucessão, a coroa cabia ao filho desta, Jorge I, alemão que estabeleceu na Inglaterra a dinastia Hannover. O descontentamento era geral. Os ingleses não desejavam um  monarca estrangeiro, porém não podiam ignorar sua própria constituição. A Swift particularmente a sucessão atingiu na medida em que os whigs voltaram ao poder e os tories - ele inclusive - passaram a ser perseguidos.

Ao saber de seus problemas, Stella foi juntar-se a ele em Dublin. Swift dedicou-se então  a escrever As Viagens de Gulliver, uma aventura por países imaginários, com personagens de características ímpares. Publicado pela primeira vez em 1726, por Benjamin Motte, e reeditado no ano seguinte, causou estranheza e reações inesperadas. Pelo fantástico de certas situações - na verdade um artifício do autor para atacar mais livremente as instituições inglesas -, pelo dinamismo das aventuras, pela simplicidade do estilo, pela simpatia que o herói transmite, As Viagens de Gulliver tornou-se, ao longo do tempo, livro predileto do público infantil. No entanto, não foi elaborado absolutamente com a intenção de entreter nem as crianças - Swift jurava detestá-las - nem pessoa alguma. Ao iniciar a redação da obra, em 1725, o autor escreveu a seu amigo Alexandre Pope afirmando que, com As Viagens de Gulliver, pretendia agredir o mundo, não diverti-lo.

Além de desmascarar a humanidade e demolir os falsos valores - seu objetivo primacial -, Swift visava ainda a ridicularizar a moda da narrativa de viagem, uma obsessão da época.

Enquanto isso, a doce Stella chegava ao fim de seus dias.

Os poemas que Swift lhe escrevia em todos os seus aniversários, convidando-a à plenitude e à primavera, não conseguiam devolver-lhe a energia. Em 1728 ela morre, acometia por um mal desconhecido. Foi um forte abalo para Swift. Esse homem amargo, que proclamava horror às crianças, guardava no íntimo sentimentos profundos, zelosamente protegidos pro uma couraça.

Em público, todavia, esforçava-se por manter a imagem de um escritor irreverente e pessimista, que não poupava à mordacidade nem a própria Stella. Num dos últimos poemas comemorativos de seu aniversário, em 1725, compara-a a uma vaca, que, após sofrer os rigores do inverno, volta a apascentar-se na relva verde da primavera. Ele mesmo se faz objeto da sátira em seu poema Sobre a Morte do Dr. Swift, composto em 1731.

Por essa época trabalhava num sarcástico ensaio destinado a despojar a conversação inglesa das banalidades e incorreções que a levavam ao ridículo. A Conversação Polida, publicada em 1738, representa o resultado de vinte anos de observação e pesquisa, e foi a última obra de Swift. Perdia aos poucos a sanidade mental, da qual muitos duvidavam havia tempo. A surdez, que o ameaçava na infância em crises espaçadas, acometera-o de todo. Surdo e louco, Swift recolheu-se a Dublin, onde servia de espetáculo aos ociosos: para poderem espiá-lo pelas frestas, pagavam ingressos a seus criados.

Num momento de lucidez, inclui em seu testamento uma cláusula em benefício dos asilos de loucos. Parece ter sido esse seu último ato. Em 19 de outubro de 1745 morreu imerso nas sombras da loucura e na solidão de sua surdez. Foi enterrado na Catedral de São Patrício, em Dublin. Na lápide, o epitáfio, em latim, escrito por ele mesmo: "Aqui jaz o corpo de Jonathan Swift, doutor em Teologia e deão desta catedral, onde a colérica indignação não poderá mais dilacerar-lhe o coração. Segue, passante, e imita, se puderes, esse que se consumiu até o extremo pela causa da Liberdade.




Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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