segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nós Todos Lemos: entrevista para a Rádio Nacional da Amazônia

Com alegria compartilho que o Blog "Nós Todos Lemos" realizou entrevista para a "Rádio Nacional da Amazônia", a convite do programa Mosaico, sob a coordenação do Morillo Carvalho e da entrevistadora Juliana, nesta data, às 13:30h (horário de Brasília). Agradeço a Lorrane Ferreira que entrou em contacto para realização do evento.

Foi uma honra ser convidada para participar da entrevista e uma alegria poder levar um pouco da experiência deste Blog, da comunidade 'Nós Todos Lemos" no orkut, do trabalho de divulgação da literatura que fazem tão seriamente e eficientemente independente se voluntário, do grupo "Nós Todos Lemos" do facebook, como sementes plantadas, que já frutificam. Da 'troca de figurinha' em rede, de falar da amizade que aqui conquistamos, dos laços criados, do aprender mais que ensinar, enfim, da relação de confiança, respeito construída, apesar de estarmos em um ambiente online.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

As Crônicas de Nárnia III - A Viagem do Peregrino da Alvorada


Para quem já leu ou compartilhou a leitura do livro, é um bom momento a chegada de mais um filme "As Crônicas de Nárnia", versão III, lançado em 10/12/2010.
Bom filme!

sábado, 13 de novembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - o livro em seu tempo

Alguma Poesia - o livro em seu tempoCarlos Drummond de Andrade, belíssimo livro, organização Eucanaã Ferraz é uma reprodução da obra, literalmente, não apenas a imagem integral da primeira edição do livro inaugural do autor, publicado em maio de 1930.

Reproduz-se na obra, o exemplar, especialmente encadernado, que pertenceu ao próprio poeta, com anotações na íntegra. A obra inclui cartas do autor a críticos e amigos, artigos, resenhas. Os recortes, fotos e cartas que ilustram esta edição são originarios da Fundação Casa de Rui Barbosa, Arquivo Museu de Literatura Brasileira, conforme, informa o organizador.


Oito décadas após sua publicação, Alguma Poesia não cessa de convocar novos leitores e releituras. Matriz inesgotável de investigações críticas, instiga-as e subsiste a elas, tendo conservado o frescor dos clássicos no franco diálogo que manteve com a poesia brasileira que se escreveu nos últimos 60 anos.

Carlos Drummond de Andrade é o poeta brasileiro atualizadíssimo, sua poesia é como uma eterna conversa com um amigo, talvez por isto sinto Drummond com demasiada intimidade, a quem podemos conversar intensamente através dos seus belos versos.



POEMA QUE ACONTECE

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que si soubesse
nem ligasse.

(Carlos Drummond de Andrade)

O livro contém as imagens feitas em scanner da obra original e linda imagem do autor ainda jovem, entretido nas escritas.

"Carlos Drummond de Andrade, timidíssimo, é, ao mesmo tempo, inteligentíssimo e sensibilíssimo. Coisas que se contrariam com ferocidade. E desse combate a poesia dele é feita."
(Mário de Andrade - 100 Anos de Poesia)

Outras opções de Alguma Poesia.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Carla Guedes - Poetisa Homenageada


Carla Guedes, poetisa, minha filha, homenageada como personalidade do ano na área de Cultura, pela Secretaria de Cultura da cidade de Macaé, na passagem do dia 05/10/2010, conforme atesta o certificado recebido.

Carla Guedes Braga, nascida em 02/08/1988 é coralista, poetisa macaense, tendo participado como autora de poemas diversos no livro relançado por ocasião das festividades do dia da cutura, de autores poetas macaenses, "Palavra Expressa".

É autora ainda dos livros "Imaginária Flor", lançado aos 10 anos e "Verso In´Verso", aos 20 anos, com parceria com a poetisa Silvana Teixeira.Classificada em 8. lugar no 12. Festival de Poesia Falada com seu poema "Tentativa de Poeta":

Riscava as primeiras rimas
Como quem arrscava os primeiros passos
E rabiscando de leve, redondo e lento
Compunha, em pronto, de certo,
versos tolos.

E regendo assim as palavras
Libertando-as de minha sã loucura
Minha escrita, hoje, é eterna procura:
Nada de termos exatos ou
versos inteiros.

Dentre caudalosos rios fonéticos
Escolho em tantos somente poucos;
Profanar temas herméticos, em meu dever de poeta;
Na proeminência de meus
versos ocos.

Meus desvarios lógicos, frenéticos
Em minha tentativa de compor versos poéticos,
Assemelho-me a crônicos, insanos, insensatos, léxicos.
Tomado por inteiro de meus
versos loucos.

(Carla Guedes)

Seus poemas refletem a interiorização e a busca pela essência ontológica, cultivando o jogo de palavras e a musicalidade natural da língua, segundo a autora.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dia da Cultura - Uma Homenagem a Poesia - Mário Quintana

"Creio que um verdadeiro poeta, ainda que soubesse ser o único sobrevivente humano na face da terra, ainda assim escreveria poemas. Indagar para quê ou para quem? Isso aprofundaria o mistério da criação poética."
(Mário Quintana)

Ler, reler Mário Quintana (1906-1994) na semana da Cultura é uma bela homenagem a poesia brasileira. Falar em poesia é falar em Mário Quintana que buscou a aproximação com a mesma através da simplicidade nela embutida por suas criações que ele em vida, procurou atingir aos atentos leitores:

"Jamais compreendereis a terrível simplicidade das minhas palavras porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves,..." ou ainda "O verdadeiro poeta faz poesia com as coisas mais simples e corriqueiras deste e dos outros mundos."

O Auto-Retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

(Mário Quintana)

"Alguns de teus versos não precisam estar impressos em tinta e papel: eu os carrego de cor, e às vezes eles brotam de mim como se fossem meus. De certo modo, eles são meus, e hás de convir que a glória de um poeta é conceder essas parcerias anônimas pelo mundo..."
(Paulo Mendes Campos)

A Oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

Adquiri, para melhor conhecer este grande poeta, a coleção Mário Quintana contendo os livros Espelho Mágico, Baú de Espantos, A cor do Invisível, Canções e A Rua dos Cataventos. Verdadeiro presente!


Obras do autor:

POESIA: A Rua dos cataventos, 1940; Canções, 1946; Sapato Florido, 1948; O aprendiz de feiticeiro, 1950; Espelho mágico, 1951; Inéditos e esparsos, 1953; Apontamentos de história sobrenatural, 1976; A vaca e o hipogrifo, 1977; Na volta da esquina, 1979; Esconderijos do tempo, 1980; Diário poético, 1985; Baú de espantos, 1985; A cor do invisível, 1989; Velório sem defunto, 1990.

ANTOLOGIAS E OBRAS COMPLETAS: Poesias, 1952; Prosa e Verso, 1978; Nova Antologia Poética, 1981; Os Melhores Poemas, 1983; 80 Anos de Poesia, 1986.

LITERATURA INFANTIL: Batalhão das Letras, 1948; Pé de Pilão, 1975. 

CRÔNICAS E OUTRAS: Cadernos H, 1973; Lili inversa o mundo, 1983; Nariz de Vidro, 1984; Sapato Amarelo, 1984; Da preguiça como método de trabalho, 1987; Preparativos de viagem, 1987; Sapato furado, 1994

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - Volume I

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Lygia Fagundes Telles - Cadernos de Literatura Brasileira

"Na verdade eu aprendi a escrever muito mais tarde do que a maioria das crianças. Nós vivíamos mudando de cidade, por força do trabalho do meu pai, de maneira que eu não parava nas escolas. De certo modo, minha ignorância era legitimada pela situação: filha de delegado, de promotor, podia estar atrasada. Minha mãe achava eu eu era retardada. Até mesmo falar eu aprendi tarde; meu avô chegou a pensar que eu fosse muda: eu só pedia as coisas através de gestos..."

(Lygia Fagundes Telles)


Pesquisei Mário Quintana na rede e eis que surge Lygia Fagundes Telles. Nada ocorre ao acaso. Acabei por adquirir os "Cadernos de Literatura Brasileira", tendo como artista principal esta maravilhosa escritora que tão pouco conheço.

O livro de estréia Porão e Sobrados (1938) apesar da autora não o considerar quando aferida sobre sua primeria obra, talvez pelo nível das tramas ou técnica, bem norteia toda a produção futura de Lygia. É só conferir o prefácio de Lygia: "E aquelas minhas aspirações [literárias] complicadas foram-se reduzindo. De tudo, só restou um punhado de vidas que resolvi alojar no "Porão". Mas entre essa gente pobre, vieram alguns burgueses. E precisei construir um "Sobrado". Carinhosamente o[s] recebo nesta minha primeira obra, na qual tudo pode faltar, menos uma cousa: a sinceridade", escreveu. Assim inicia a obra de Lygia Fagundes Telles, um livro de contos, hoje esquecido.

Em entrevista a "Cadernos de Literatura Brasileira", referente a estréia cedo na literatura, Lygia responde:

"Eu sempre digo que comecei a escrever antes de saber escrever. Não é charminho de escritor, não. Falo assim porque antes de ser alfabetizada eu já contava histórias. Eram histórias que eu ouvia das minhas pajens. Essas pajens eram moças desgarradas que minha mãe arrebatava. Eu gostava disso, uma coisa meio medieval, de princesa, ter pajem. Pois bem: eu comecei contando para as outras ciranças as histórias que ouvia das pajens. Mas sempre mudava um pouco o que tinha escutado e, quando repetia, muddava de novo. A garotada protestava: "Não era assim! A caveira tinha outro nome!" (caveira porque eu contava sempre histórias de terror). Quando eu formalmente aprendi a escrever, achei que era importante "guardar" as histórias e aí passei a anotar tudo num caderno."

Ainda: "Comecei a escrever os contos que depois reuniria em Porão e Sobrado". Num determinado momento, eu me dei conta de que as pessoas que escreviam tinham livros publicados - e  eu quis ter o meu."

Sobre romance: "É curioso. Quando estou escrevendo um romance, eu tenho a impressão de que nunca fiz outra coisa na vida. Eu fico tão apaixonada pelo gênero que chego a achar que nunca mais vou escrever um conto. Os personagens de um romance exigem muito. A certa altura, eu chego a confundi-los com seres da vida real. Nesse ponto, eu e as personagens já formamos uma só matéria. Isso continua a ser um mistério para mim. Quando terminei As meninas, comecei a chorar - é que tinha acabado ali uma convivência encantadora, que me fazia feliz. Ao terminar o livro, me senti solitária.

E conto: "Eu percebo que está começando a nascer um conto quando, ao analisar as personagens, vejo que elas são, de certo modo, limitadas. Elas tem que viver aquele instante com toda a força e a vitalidade que eu puder dar, porque nenhuma delas vai durar. Isso quer dizer que, com elas, eu preciso seduzir o leitor num tempo mínimo. Eu não vou ter a noite inteira para isso, com uísque, caviar, entende? Preciso ser rápida, infalível. O conto é, portanto, um aforma arrebatadora de sedução. É como um condenado à morte, que precisa aproveitar a última refeição, a última música, o último desejo, o último tudo."
Perguntada sobre seu espelho literário, responde: Edgar Allan Poe, James Joyce, Oscar Wilde, Henry James, D. H. Lawrence, Jorge Luis Borges, William Faulkner, e, claro, Machado de Assis.

Resumir Lygia, tarefa inglória, entretanto,  uma vida de disciplina sem regras fixas, de amor à vida e à literatura, quando se faz da literatura "uma forma de amor".
O Menino e o Velho
Quando entrei no pequeno restaurante da praia, os dois já estavam sentados, o velho e o menino. A manhã tão luminosa. Fiquei olhando o mar que não via há algum tempo, e era o mesmo mar de antes, um mar que se repetia e era irrepetível, misterioso e sem mistério na inocência da sua natureza mais profunda, estourando naquelas espumas flutuantes (bom-dia, Castro Alves!), tão efêmeras e eternas, nascendo e morrendo ali na areia. O garçom, um simpático alemão corado, me reconheceu logo, Franz?, eu perguntei. Ele fez uma continência, baixou a bandeja e deixou na minha frente o copo de chope. Pedi um sanduíche, Pão preto?, ele lembrou e foi até á mesa do velho que pediu outra garrafa de água Vichy. Fixei o olhar na mesa ocupada pelos dois, agora o velho dizia alguma coisa que fez o menino rir, um avô com o neto. E não era um avô com o neto, tão nítidas as tais diferenças de classe, o contraste entre o velho, vestido com simplicidade, mas num estilo rebuscado e o menino encardido, um moleque do povo e de alguma escola pobre, a mochila de livros toda esbagaçada no espaldar da cadeira.
(...)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Marisa Lajolo - Monteiro Lobato - um brasileiro sob medida

Apaixonado, idealista, irônico, rabugento, sonhador, radical, contraditório... Monteiro Lobato é um pouco como todos nós, brasileiros. Ora assumindo posições polêmicas, ora se antecipando a seu tempo, ele é, acima disso tudo, o criador de uma das mais belas utopias brasileiras - o Sítio do Picapau Amarelo, livro que li para os filhos e pretendo que chegue a muitas e muitas outras gerações. Em estilo coloquial, com texto envolvente e bem-homorado, esta biografia é sob medida para o leitor contemporâneo mergulhar na vida e na obra de Monteiro Lobato, um brasileiro sob medida.

Cresci lendo Monteiro Lobato. Muito de minha criatividade e liberdade de pensamentos devo a seus textos que levam a reflexão, ultrapassa limite temporal. Meu primeiro livro de Monteiro Lobato foi a Chave do Tamanho, lido na escola. Lembro que o livro me impressionou muito. Levava temas como paz mundial ao universo infantil.

Para Maria Célia Paulillo, em artigo científico: "Ao longo dos anos, a história da literatura fixou uma imagem multiforme e um tanto contraditória de Monteiro Lobato. De uma lado, afirma-se o escritor inventivo, considerado o criador de nossa literatura infantil; de outro, configura-se o crítico de pintura que tripudiou sobre os quadros inovadores da pintora modernista Anita Mafalti; ora cita-se o fazendeiro que ridicularizou seus agregados na figura do Jeca Tatu, ora exalta-se o cidadão progressista defensor do petróleo nacional. O novo livro de Marisa Lajolo, Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida, vai além dessa imagem, mostrando que a carreira poliédrica do escritor foi fruto de uma visão de mundo arrojada e moderna, sempre em perfeita sintonia com o seu momento histórico."

Segundo ainda a pesquisadora "Sempre atento a sua realidade, Lobato soube incorporar, em uma obra ficcional pautada pela fantasia e pelo humor, informações muitas vezes coincidentes com o currículo escolar. Em contraposição à escola convencional, alvo de freqüentes críticas das personagens lobatianas, o Sítio do Pica-Pau Amarelo surge como uma escola alternativa. Nela, conhecimentos de gramática, matemática, geologia e até rudimentos de uma política nacionalista de petróleo são veiculados e assimilados de forma crítica, independente e freqüentemente questionadora, especialmente quando a relação de ensino-aprendizagem se dá entre Dona Benta e a discípula Emília.



Nos anos 40, quando ainda nem se pensava em Mercosul, o autor acalentou um desdobramento latino-americano de sua obra, por meio de um projeto em que a história da América fosse contada às crianças pelo vulcão andino Aconcágua. O projeto, que não chegou a ser implementado, é inovador e ousado, tanto no plano intelectual como editorial. Primeiro, porque propõe um novo modo de contar a história da América, isto é, a partir de um ponto de vista diferente do colonizador europeu. Segundo, porque procura ampliar o mercado de leitores, atingindo um público além de nossas fronteiras."

Como já dizia Monteiro Lobato: "um país se faz com homens e livros"! Vida longa a literatura Lobatiana!


Sobre a autora: Marisa Lajolo nasceu e vive em São Paulo e cursou Letras na Universidade de São Paulo, onde também concluiu Mestrado e Doutorado. É Professora Titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, onde - com apoio do CNPq e da Fapesp - coordena o projeto Memória de Leitura (http://unicamp.br/iel/memoria) em cujo bojo foi realizada parte da pesquisa da qual resultou este livro. Publicou A formação da leitura no Brasil, Do mundo da leitura para a leitura do mundo, A leitura rarefeita, Literatura infantil brasileira: história e histórias, além de ter organizado inúmeras antologias e publicado artigos em revistas especializadas no Brasil e no exterior.

Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil 2000: Livro altamente recomendável.

Monteiro Lobato : um brasileiro sob medida / Marisa Lajolo. - São Paulo : Moderna, 2000. Projeot Gráfico Moema Cavalcanti.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Da Preguiça como Métodos de Trabalho - Mário Quintana

Para Mário Quintana, o leitor não deve ser desperto, pois eles são, "por natureza, dorminhocos. Gostam de ler dormindo".

Num país como o nosso, ninguém é levado a sério com ideias originais: "O lugar-comum é a base da sociedade, a sua política, a sua filosofia, a segurança das instituições". Ainda na crônica inicial do livro há referência ao leitor "semidesperto" e um ambíguo elogio: "A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro".

Da preguiça como método de trabalho, de Mário Quintana é uma obra com estilos variados, inclassificável. Surpreendente, despretensioso. Chega mansamente e ao final deixa o leitor deslumbrado. Mário Quintana reúne uma miscelânea com contos, aforismos, crônicas, fábulas, trovas, comentários e entrevistas. Cócegas para o cérebro. A ternura, presente na vida e obra do poeta, extensão certa aos amigos como Cecília Meireles, Érico Veríssimo e Manuel Bandeira. É só conferir no obra. Quintana, poeta em tempo integral. Onde a preguiça?

"O verdadeiro poeta, tudo quanto ele toca, se transforma em poesia."

Mário Quintana é um desses raros poetas. Como não quer nada, vai traçando sua poética visão de vida. Com leveza, senso de humor e simplicidade, escreve um livro que é bom ter por perto. Afinidade imediata. Como quem conquistou um amigo, ou quem sabe, foi cativado.

"Um engano em bronze é um engano eterno."
(Mário Quintana)

Coleção Mário Quintana, Organização, plano de edição, cronologia e bibliografia: Tania Franco Carvalhal, Fixação de texto: Lucia Rebello e Suzana Kanter

Quintana, Mário, 1906-1994. Da preguiça como método de trabalho / Mário Quintana; [prefácio Carlos Jorge Appel] - 2. ed. - São Paulo : Globo, 2007. - (Coleção Mário Quintana)
A Rua dos Cataventos / Canções / Sapato Florido / O aprendiz de Feiticeiro / Espelho Mágico / Apontamentos de História Sobrenatural / Esconderijos do tempo / Baú de Espantos / A Cor do Invisível / Caderno H / Porta Giratória / Da Preguiça como Método de Trabalho / A Vaca e o Hipogrifo / O Batalhão das Letras / Preparativos de Viagem / Velório sem Defunto / Nova Antologia Poética / 80 Anos de Poesia

domingo, 24 de outubro de 2010

Contos Brasileiros 2 - para gostar de ler


Os autores de Contos Brasileiros 2 mostram que para criar uma boa história é preciso entender bem sua matéria-prima, o próprio ser humano. Às vezes com humor, outras com pessimismo, com os dois pés no chão ou com a cabeça na lua, esses contadores de histórias retratam sua realidade e abrem espaço para que os leitores tirem suas próprias conclusões.

Através de "Contos Brasileiros 2" fica retratado que a difícil arte de escrita pode ser percebida de diferentes formas por seus autores.

Para Machado de Assis as ideias são como nozes: para saber o que o que está dentro de uma ou de outra, é preciso quebrá-las. Só assim tomam forma, se transformam desde poesias até grandes romances. 

João Antônio vive os fatos antes de escrevê-los; não consegue inventar histórias e personagens que não tenham acontecido ou existido na realidade.

Lygia Fagundes Telles vê o escritor como um lutador de boxe, enfrentando lutas com muita paciencia, humildade e até humor. Nos descaminhos dessas lutas é que se percebe a inspiração e até a vocação verdadeira. Murilo Rubião também pensa de forma parecida: quando cria uma história, o escritor precisa passar por uma tremenda luta com a palavra, rasgando papel e revirando o texto...

Clarice Lispector pensava quando criança pensava que os livros nasciam como árvores ou como pássaros. Ao descobrir que existiam autores, e que eram eles os responsáveis por todas as ideias presentes nos livros, decidiu que seria escritora, e assim transmitiria todos os seus pensamentos na forma de palavra escrita.

Estes e outros escritores como Murilo Rubião, Wander Piroli e Moacyr Scliar revelam modos de transofrmar pensamentos em letra corrida, em contos que trazem ótimos momentos de leitura. De maneira e estilos diferentes eles mostram uma característica - e uma ideia - comum: a maestria e a paixão pelo ato de escrever.

Cem anos de perdão, A armadilha, Trabalhadores do Brasil, Dezembro no bairro, Macacos, Festa, Meninão do Caixote são alguns dos contos apresentados neste simples e não menos importante livro.

Boa leitura!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Antônio Alvarez Parada: Meu nome, crianças, é Macaé




Quem não conhece a história da cidade de Macaé (RJ) é uma boa oportunidade através deste raro livro, "Meu nome, crianças, é Macaé", de Antônio Alvarez Parada. História contada com graça, o livro tem uma leveza e alegria de escrita peculiar de seu autor.

"Mas, aqui prá nós, pois ninguém nos ouve. Eu mesma, sinceramnte, não gosto do apelido. De Princesinha do Atlântico talvez quantas outras cidades, daqui ou do estrangeiro, sejam chamadas! Mas Macaé, não. Macaé só eu. Modéstia à parte."
"Mas o que fazer, se até oficialmente, legalmente, eu sou a Princesinha do Atlântico? Nâo podendo fugir do apelido, vá lá! Sou princesa."
"Quero, porém, ao me verem assim promovida a princesa, que me enxerguem como sou. Princesa índia, pois foi dos índios minha origem. Negros e lisos são meus cabelos, como negros são meus olhos. E morena minha pele."

Parece que a leitura agrada a criancinhas e não somente. O livro é estudado por universitários do país e tem artigos científicos que fazem estudo específico ou referência ao mesmo.

Antônio Alvarez Parada com toda a humildade que só um grande homem possui, já inicia esclarecendo que 'na falta de conhecimentos mais profundos, de escrever algo realmente digno do título de História de Macaé', por isso, 'o jeito era contar histórias de Macaé.' Relata ainda que 'é um livro para crianças, na dedicatória, na linguagem, na profundidade. Ou, ao menos, teve essa intenção'. Bom, isto é verdade, pois conseguiu atingir a criança que existe em todo macaense ou aquele que teve ou tem a possibilidade de aqui nesta linda terra estar.

Seja através do incentivo dos amigos, empresarial ou próprio, A A Parada conseguiu transformar uma leitura que poderia ter sido científica em uma leve história para a criança que fomos, somos ou pretendemos ser. 

sábado, 16 de outubro de 2010

José Saramago - Biografia

José Saramago - Biografia

"Olho de cima da ribanceira a coragem que mal se move, a água quase estagnada, e absurdamente imagino que tudo voltaria a ser o que foi se nela pudesse voltar a mergulhar a minha nudez da infância, se pudesse retornar nas mãos que tenho hoje a longa e húmida vara ou os sonoros remos de antanho, impelir, sobre a lisa pele da água, o barco rústico que conduziu até às fronteiras do sonho um certo ser que flui e deixei encalhado algures no tempo." - José Saramago - As pequenas memórias

Um livro de biografia se propõe a revelar a essência do escritor. 
Fascinante conhecer um pouco mais de Saramago, único Nobel de Literatura, tornando-se o primeiro e único escritor de língua portuguesa a obter tal distinção.

Um dos escritores mais importantes da história da literatura, em Saramago - biografia pode ser acompanhado desde seu nascimento na aldeia portuguesa da Azinhaga, Golegã, até a sua mudança para a ilha de Lanzarote, Espanha, com ênfase no contexto social-histórico vivido pelo autor e sua família. Toda a obra de Saramago é revelada, desde as crônicas de A Capital e do Jornal do Fundão, até Caim.

Saramago passou a se dedicar definitivamente à escrita ficcional aos 53 anos e, em 1980 lança Levantado do Chão. Com esse romance, surge o que viria a ser conhecido como o "estilo saramaguiano"; o narrador "oraliza" a escrita como se estivesse de viva voz, como numa roda de amigos, e desrespeita ostensivamente as regras sintáticas e a pontuação. Mas é o romance Memorial do Convento, de 1982, que o consagra definitivamente.

O livro relata ainda em capítulo exclusivo,  "O encontro com Pilar del Río" a origem e evolução da relação com Saramago desde o encontro dela, Pilar em uma livraria com o Memorial del convento, quando ficou impressionada com a obra, passando pela entrevista a Juan Arias destinada ao livro José Saramago, por um agradecimento a leitura de suas obras, pela troca de cartas (as cartinhas sempre são testemunhas), pelo passeio ao túmulo de Pessoa no Cemitério dos Prazeres, leitura de obras, ah, o amor, enfim, chega enfim com Pilar se mudando para Lisboa, onde se casa com o escritor em 29 de outubro de 1988. Ela tinha 37 anos e ele, 66. Dede então viveram juntos, de fins de 1988 a início de 1993, na rua dos Ferreiros. Depois, até sua morte na Ilha Canária de Lanzarote.
Lopes, João Marques, 1960 - Saramago - Biografia / João Marques Lopes.-São Paulo: Leya, 2010. 248 p.

João Marques Lopes desenvolve, atualmente, trabalho de doutorado na área de Literatura Brasileira, pela Faculdade de Letras de Lisboa e em colaboração com a Universidade de Utrecht, na Holanda. Do autor já foram publicadas biografias sobre Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Colaborou com vários artigos na coleção Os Anos de Salazar, sempre no âmbito da literatura e cultura portuguesas. É licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ronald de Carvalho - Teoria

Areia Branca - RJ - Brasil

Teoria

Cria o teu ritmo a cada momento.
Ritmo grave ou límpido ou melancólico;
ritmo de flauta desenhando no ar imagens claras
de bosques, de águas múrmuras, de pés ligeiros e de asas;
ritmo de harpas,
ritmo de bronzes,
ritmo de pedras,
ritmo de colunas severas ou risonhas,
ritmo de estátuas,
ritmo de montanhas,
ritmo de ondas,
ritmo de dor ou ritmo de alegria!
Não esgotes jamais a fonte de tua poesia,
enche a bilha de barro ou o cântaro de grantio

com o sangue de tua carne e as vozes de teu espírito!
Cria o tue ritmo livremente,
como a natureza cria as árvores e as ervas rasteiras.

Cria o teu ritmo e criarás o mundo!

Ronald de Carvalho

"Tudo me convence ainda mais que o único e verdadeiro gênero literário que existe é o estilo. Somente com esse dom de exprimir o que pensamos e sentimos, na poesia, no romance, na crítica, é que se criam as obras de arte."

"A literatura é a própria história de cada coletividade; refletem-se nela, como num espelho polido, as imagens tristes ou risonhas da vida humana."

"O Brasil representa, sem dúvida, uma força nova da humanidade, (...) onde prodominam, é certo, as influências, mas onde já se vislumbram vários indícios de uma próxima autonomia intelectual, de que a literatura, já considerável e brilhante, constitui a melhor e mais decisiva prova."

Ronald de Carvalho - 100 Anos de Poesia

Ronald de Carvalho (1893-1935) praticamente não teve contato com o pai, fuzilado junto com seu tio pelos florianistas de Santa Catarina em 1894. Formado em Direito antes dos 20 anos, o poeta, jornalista, diplomata, trdutor e ensaísta surgiu no meio literário em 1910, colaborando para o Diário de Notícias, na época dirigido por Rui Barbosa. Três anos depois, viajou para Paris, onde estudou Filosofia e Sociologia. Quando retornou ao Brasil, iniciou carreira no Ministério das Relações Exteriores e publicou o seu primeiro livro de poemas, Luz gloriosa. Graça aranha escreveu: "Ronald é um dos construores espirituais do Brasil novo. Por ele, se formará uma sensibilidade diferente da que até agora animava a nossa terra. Deixará o Brasil de ser o lírico da tristeza, para ser o criador da perpétua alegria."

Ronald de Carvalho morreu aos 42 anos, quando ocupava os cargos de ministro Plenipotenciário e de chefe da Casa Civil da Presidência da República. Um acidente de carro interrompeu bruscamente a obra de um dos mais cultos literatos brasileiros.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Carlos Drummond de Andrade - No Meio do Caminho

Areia Branca - RJ - Brasil


 
 No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nuncca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade - 100 Anos de Poesia


Quase impossível caminhar em um ensolarado dia  sem recordar Drummond!

"(Drummond) cria uma linguagem poética inconfundível e quase inimitável, seca, precisa, direta, que não disfarça o objetivo ou a coisa. E ao lado das fdormas livres, enriquece as formas tradicionais."
Antonio Candido e José Aderaldo Castello

"Carlos Drummond de Andrade, timidíssimo, é, ao mesmo tempo, inteligentíssimo e sensibilíssimo. Coisas que se contrariam com ferocidade. E desse combate toda a poesia dele é feita."
Mário de Andrade

"Não tenho tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético."
Carlos Drummond de Andrade


Filho de uma família de fazendeiros, Carlos Drummond de Andrade começou cedo sua vida lierária. Aos 13 anos, já participava de reuniões no Grêmio Dramático e Literário Artur Azevedo, onde fazia palestras sobre literatura. Em 1918, foi estudar no colégio interno Anchieta, em Nova Friburgo, de onde foi expulso, um ano depois, por desentendimentos com um professor de português. Na justificativa oficial do colégio constava o seguinte motivo: "insubordinação mental". Drummond frequentou o colégio Arnaldo e terminou os estudos em Belo Horizonte, onde seus primeiros trabalhos foram publicados no Diário de Minas.
Drummond acreditava em relação à poesia: "Não tenho tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético."


O escritor Manuel Grana Etcheverry, genro do poeta, conta que, quando Maria Julieta ficou doente, Drummond registrou o calvário da filha em pequenas anotações, que acabam com as seguintes palavras: "Assim terminou a vida da pessoa que mais amei neste mundo. Fim." Muito abalado, numaw consulta médica, Drummond pediu à sua cardiologista que lhe receitasse um "enfarte fulminante". Doze dias depois da morte da filha, o poeta faleceu.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

100 Anos de Poesia - um panorama da poesia brasileira no século XX


100 Anos de Poesia -
 Um panorama da poesia brasileira no século XX,
 organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia, uma obra prima!


"Alta noite, quando escreveis um poema qualquer
sem sentirdes que o escreveis,
olhai vossa mão - que vossa mão não vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe."
Jorge de Lima

"Jorge, nunca o vi intranquilo ou nervoso; o mesmo sempre, inalterável, o ar generoso e discreto,  paciente com todos, às vezes dando até a impressão de deslingado ou aéreo. Ao lado da clientela do médico, a clientela do poeta. Enquanto numa sala, às vezes, Jorge tratava dos doentes, na outra ia aceso o debate de temas de cultura. E a impressão que ele dava era a de um mágico, pela maneira como fazia as coisas, pelo jeito de ir e vir, pelas surpresas que causava, como uma espécie de prestidigitador."
Valdemar Cavalcanti

Sempre que se desejar a leveza de uma leitura que somente a poesia pode proporcionar, 100 Anos de Poesia, vol I dará acesso a autores consagrados como
Ivan Junqueira, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Da Costa e Silva, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho, B. Lopes, Francisca Júlia da Silva,
José Albano, Gilka Machado, Olegário Mariano, Raul de Leoni, Jorge de Lima, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, Ruy Espinheira Filho, Mário de Andrade, Dante Milano,
Guilherme de Almeida, Henriqueta Lisboa, Augusto Frederico Schmidt, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Cassiano Ricardo, Menotti de Picchia, Raul Bopp, Ascenso Ferreira, Maria Lucia de Barros Camargo, Abgar Renault, Emílio Moura, Alphonsus de Guimaraens Filho,
Bueno de Rivera, Joaquim Cardozo, Cecília Meireles, Vasco Mariz, Catulo da Paixão Cearense, Leandro Gomes de Barros, Zé Limeira da Paraíba, Carlos Pena Filho, Vinicius de Moraes,
Gilberto Mendonça Teles, Paulo Mendes Campos, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Domingos  Carvalho da Silva, Lêdo Ivo, Afonso Felix de Souza, Francisco Carvalho, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana.

O Acendedor de Lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

Jorge de Lima

Estou molhado dos limos primitivos
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais

Jorge de Lima

Curiosidade:
Curiosidade: Para desenvolver todas as suas atividades, Jorge de Lima mantinha uma rotina espartana. Maria Teresa de Lima, sua filha, conta que ele acordava às quatro da manhã, e, enquanto fazia a barba, ia pintando seus quadros. Das seis às oito, atendia os pobres. Daí em diante, recebia os clientes e amigos no consultório. Quando chegava em casa, já de noite, escrevia até o início da madrugada. Às quatro, já estava novamente de pé.

O vol. II de 100 Anos de Poesia apresenta um emaranhado de vozes dissonantes, os principais poetas contemporâneos onde cada poeta cria seu próprio universo, desenvolvendo meios, nem sempre convencionais, para exibir e divulgar seu trabalho, através de exposições, recitais, performances, agitos, intervenções. No despertar do terceiro milênio onde a internet é prática da cotidiana vida, a palavra - escrita, dita, musicada, coisificada - está viva como na aurora dos primeiros dias. O amante da poesia poderá sentir falta deste ou aquele autor, mas certamente outras obras surgirão para encantar com a diversidade e a qualidade dos poetas como desta espetacular obra que horam a tradição da melhor poesia brasileira de todos os tempos. E tenham dito os coordenadores editoriais. Quem sou eu para discordar. Apenas apreciar esta magnífica obra.

"Houve grandes momentos. Por exemplo, os assinalados pelos grandes poemas, que vieram desmoralizar a idéia de que a poesia morreu ou que não tem o que oferecer à cultura em tempos de "comunicação de massa". Neste sentido há uns 10 grandes poemas na literatura brasileira realmente notáveis neste século."
Affonso Romano de Sant´Anna

Vamos a eles:

Manoel de Barros, Gilberto Mendonça Teles, Max Martins, Sebastião Uchôa Leite,
 Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Iumna Maria Simon, Mário Chamie, Wlademir Dias-Pino, Mário Faustino, Walmir Ayala, Ivo Barroso, Ruy Espinheirta Filho, Alberto da Costa e Silva,
Mauro Mota, César Leal, H. Dobal, Nauro Machado, Alberto da Cunha Melo, Reynaldo Valinho Alvarez, Ivo Barroso, Carlos Lima, Thiago de Mello, Moacyr Félix, Ferreira Gullar, Geir Campos, Marly de Oliveira, Affonso Romano de Sant´Anna, Claudio Willer, Roberto Piva, Claudio Willer, Neide Archanjo, Paulo Bonfim, Renata Pallottini, Gerardo Melo Mourão, Armindo Trevisan, Carlos Nejar, Ivan Junqueira, Hilda Hilst, César Leal, Patativa do Assaré, Cora Coralina, José Chagas, José Carlos Capinan, Torquato Neto, Heloísa Buarque de Hollanda, Ana Cristina César, Cacaso,
Geraldo Carneiro, Chacal, Paulo Leminski, Waly Salomão, Olga Savary, Anderson Braga Horta, Antônio Fantinato, Astrid Cabral, Antonio Carlos Secchin, Alexei Bueno, Mano Melo,
  Arnaldo Antunes, Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Adélia Prado.

As obras apresentam ainda Cronologia anual de Arte e Cultura e Ciência e Política de 1901 a 1950 e de 1951 a 2000

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.

"Não conto nada na reta, escrevo sempre nas linhas tortas, como digo aliás num poema. Na minha poesia parece que tem muita coisa de fora, mas é tudo de dentro. Sou muito preparado de conflitos."
Manoel de Barros

"Em poucas épocas teve nossa literatura um grupo homogêneo e poderoso com o que se afirmou desde a implantação do Modernismo. Seria longo e difícil mencionar todos os nomes daqueles que realizaram grandes obras marcantes a partir da segunda década do século XX, na poesia como na ficção."
Alphonsus de Guimarães Filho

domingo, 10 de outubro de 2010

Jane Austen - Razão e Sensibilidade

Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, é um livro que oportunizo iniciar a leitura neste feriado, que a muito almejo não somente pela curiosidade de saber autora do conceituado Orgulho e Preconceito.

Jane Austen nasce em 16 de dezembro de 1775. Segunda e penúltima dos oito filhos do reverendo George Austen e sua esposa Cassandra Leigh Austen. Recebe em casa a maior parte de sua instrução. Tem uma infância feliz em meio aos irmãos e a outros garotos, que se hospedam na casa e dos quais o reverendo é tutor. Amantes do romance e da poesia, para se divertir as crianças escrevem e inventam jogos e charadas, e mesmo sendo uma garotinha, Jane é incentivada a escrever. A leitura das crianças de livros da extensa biblioteca do reverendo George fornece material para que escrevam pequenas peças teatrais, que elas próprias representam.

Em 1970, com quatorze anos de idade, Jane escreve seu primeiro romance, Amor e Amizade, sob a forma epistolar - estilo que nunca seria inteiramente dominado pela escritora. Transforma-se em uma notável cronista da sociedade inglesa da época, que, ao contrário do que se poderia supor, não é uma sociedade rural típica inglesa, estável, conservadora, e sim uma sociedade burguesa, um mundo fluido e arbitrário em que algumas famílias nadam em dinheiro novo, enquanto outras lutam para manter o pouco que possuem. Com percepção aguda dos fatos e estilo pacífico, sereno e equilibrado, Jane consegue construir em seus romances uma descrição minuciosa do ambiente a que pertence com uma sutil ironia. Seus primeiros escritos contem imagens anárquicas e de violência em abundância, isto no século XVIII, revela uma ousadia incomum. A principal diferença entre Jane Austen e suas heroínas sensuais é que, no caso destas, não só suas percepções e critérios são importantes como também em geral têm a oportunidade de escolher o próprio destino.

A autora de Orgulho e Preconceito em 1817 adoece e vitimada por complicação pulmonar, vê-se obrigada a ir para Winchester para se tratar. Fica paralítica e morre em 18 de julho, aos 41 anos de idade. Uma semana depois é sepultada na catedral da cidade, sem a presença da inseparável irmã Cassandra, já que nessa época mulheres não assitem a funerais.

Biógrafos e críticos têm se perguntado como a tímida e reservada filha de um clérigo protestante do interior da Inglaterra viria a produzir livros tão sofisticados, irônicos e profundamente modernos, que não se enquadram em nenhum dos padrões literários característicos de sua época. Boa leitura, clássico!

sábado, 9 de outubro de 2010

CINE ARTE MACAÉ - 5X FAVELA - agora por nós mesmos

CINE ARTE MACAÉ - 5X FAVELA
Direção: Wagner Novais , Rodrigo Felha , Cacau Amaral , Luciano Vidigal , Cadu Barcellos , Luciana Bezerra , Manaíra Carneiro

Sessões: 15h - 16:50h - 18:50h - 20:40h (exceto quinta)- de 08 a 14/10/2010

Sinopse:

Episódio 1 - Fonte de Renda: Maicon (Sílvio Guindane) consegue realizar o sonho de passar no vestibular, mas logo se encontra apreensivo devido à sua incapacidade de arcar com os gastos com livros, alimentação e transporte. Ele fica então tentado a vender drogas para os colegas de faculdade, como forma de obter o sustento necessário para os estudos.

Episódio 2 - Arroz com Feijão: Para conseguir um quarto para o filho, os pais de Wesley (Juan Paiva) resolvem reduzir o cardápio diário a arroz com feijão. No aniversário do pai o garoto se junta ao amigo Orelha (Pablo Vinícius) para conseguir dinheiro, no intuito de comprar um frango como presente.

Episódio 3 - Concerto para Violino: Quando crianças Márcia (Cíntia Rosa), Jota (Thiago Martins) e Ademir (Samuel de Assis) fizeram um pacto de amizade eterna. Agora, com todos em torno dos 20 anos, Jota entrou para o tráfico de drogas enquanto que Ademir se tornou policial. O confronto entre os dois pode impedir que Márcia, agora violinista, realize o sonho de uma bolsa de estudos na Europa.

Episódio 4 - Deixa Voar: Flávio (Vítor Carvalho), de 17 anos, deixa que a pipa de um amigo voe. Para buscá-la ele precisa ir à favela de uma facção rival. Mesmo com medo, ele decide buscar a pipa.

Episódio 5 - Acende a Luz: É véspera de Natal e o morro está sem luz há três dias. Como os técnicos da companhia de luz não conseguem resolver o problema, um deles é sequestrado pelos moradores locais. Eles decidem fazê-lo de refém até que a luz volte.

Ficha técnica:

Título original: 5x Favela - Agora por Nós Mesmo
Gênero: Drama
Duração: 01 hs 43 min
Ano de lançamento: 2010(Brasil)
Estúdio: Luz Mágica Produções / Globo Filmes / Videofilmes / Quanta / TeleImage distribuidora:Sony Pictures Entertainment / RioFilme
Roteiro: Rafael Dragaud (coordenação), José Antônio Silva, Vilson Almeida de Oliveira, Rodrigo Cardozo, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra
Produção: Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães
Música: Guto Graça Mello
Fotografia: Alexandre Ramos
Direção de arte: Pedro Paulo de Souza e Rafael Cabeça
Figurino: Inês Salgado
Edição: Quito Ribeiro

Vale conferir!

sábado, 2 de outubro de 2010

Filipa Melo - Este é o meu corpo


Este é o meu corpo / Filipa Melo.
 - São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2004. - (Tanto mar;1)

"Este é um monólogo disfarçado de conversa. Um diálogo morto.
Não tenho ilusões. Entendo a minha loucura mascarada pelo delírio da morte nos corpos que corto. A morte é um diabo louco numa dança macabra dentro dos corpos. É com ela que eu falo: numa conversa de loucos.
Segundo dizem, para a morte e para o sol não se olha de frente. Por isso continuo, cego, a olhá-la. A olhar-me nela. A olhar-te. Cego e louco."

Numa cidade de província, noite escura, enquanto a água fustiga as pedras nas margens do rio, é encontrado um corpo virado do avesso, irreconhecível, sem formas e sem rosto, ao mesmo tempo belo e repugnante.

"Quando o homem se aproximou da ponte, já o cão rodeava o cropo. Cheirava-o, roçando o focinho nas carnes, veias e ossos que pareciam triturados. Conservavam os contornos intactos. Estendiam-se em duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça de borco entre o passeio e o alcatrão. Não havia nem olhos, nem cara, nem roupas. No meio da carne rosácea, os tendões desenhavam linhas brancas, cruzadas por músculos finos, tensos e escuros. A pele parecia ter sido sugada por um violento remoinho que a puxara para dentro, retorcida como um trapo velho, seca como um pergaminho."

"Hesito. Confesso que tento manter no discurso a pose distante de quem te observa de fora. Comporto-me como um apaixonado e apercebo-me novamente disso. Tento cativar-te. A ti, imagina, estendida, esventradada à minha frente, rodeada da luz crua das lâmpadas fluorescentes e dos reflexos baços dos azulejos. O cenário é tudo menos romântico e eu ficciono-o para te poupar à crueza dos meus gestos.
Mas é verdade. Abro-te para te extrair os segredos e te deixar partir.
O meu corpo responde também. Sinto as mãos húmidas dentro das luvas, a testa quente, a boca áspera, depois inundada pela saliva, que engulo em pequenos goles. Quero deixar as formalidades e gritar-te que preciso que me ajudes.
Ajuda-me.
Regresso à técnica e acalmo-me.

"Este é o meu corpo" é um livro para ser relido. Estranho se considerado o tema, um livro de suspense, portanto avesso a releituras mas especialmente na delicada forma de abordagem do tema se torna um livro surpreendente. Revela os mistérios de um assassinato de forma poética, através do olhar de um médico legista. Com a solenidade exigida a um ato religioso, com a ternura de uma carícia, esse corpo será desvelado através dos cortes profundos do bisturi de um médico-legista obcecado com os segredos que lhe contam os mortos. "Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam", diz ele. E é também dos reflexos desta morte na vida dos que ficam que trata este romance, puzzle de muitos corpos e das marcas da vida e da morte dentro deles. Porque o corpo humano encerra os mais intangíveis mistérios. Este é o meu corpo arrasta-nos para uma viagem apaixonante ao fundo de nós mesmos, transportados pelo estilo claro, profundo e cirúrgico de uma autora que promete deixar marcas na nova literatura portuguesa.

"Mas as palavras não querem dizer nada. As palavras não chegam. Eu só tenho as palavras.
São elas que, neste momento, te transformam em apenas mais um corpo. Que te reduzem ao mistério.
Eu não sei nada. Nem de ti, nem da morte que te estancou as feridas e se prepara para as reduzir a pó. Nem da vida que deixaste para trás.
Alguém ficou de ti. Confirmo-o agora.
Alguém que antes não era e que, quando morrer, nunca mais voltará a existir.
Alguém que, como eu, te procurará por entre os despojos de ti, e que saberá encontrar-te, e desvendar os teus sinais."

"Ninguém nasce duas vezes. Conheço a nossa individualidade composta de carne e sangue. Manobro a sua evidência na mesa de autópsias. Nascemos de uma só maneira, morremos segundo fórmulas infinitas. É a direcção que seguimos entre as duas etapas o que as estreita ou separa. O que nos destina a sobrevivermos na memória dos outros como um exemplar vivo ou um espécime morto. E a encerrarmos as nossas contas com eles.
Não existem f´romulas para a vida. Em vão desejamos herdá-las. Em vão ansiamos fazer delas um legado. Em vão."

Filipa Melo nasceu em 1972, em Angola, na cidade de Silva Porto (atual Cuito) e vive em Portugal desde os dois anos de idade. Desde 1992, desenvolve suas atividades como jornalista. Este é o meu corpo é seu primeiro romance, já publicado na França, na Espanha e na Itália.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ernest Hemingway - Contos - volume 3

Hemingway, Ernest, 1899-1961. Contos de Ernest Hermingway / tradução de José J. Veiga. - 2a. ed. - Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2006. - 416p. - (Obra completa, v.3)

"Se eu ia embora queria guardar tudo na memória e me despedir. O fogão era enferrujado e a tampa do reservatório de água quente estava quebrada. Acima do fogão tinha um limpador de pratos com cabo de madeira pendurado na beira de uma prateleira. Meu pai uma noite jogou esse limpador de pratos num morcego. O impador ficou pendurado ali para meu pai se lembrar de comprar outro, e acho que também para se lembrar do morcego. Peguei o morcego com uma rede de cabo comprido e pendi-o numa caixa com tampa de tela. Tinha olhos pequeninos e dentes também pequeninos, e ficava encolhido na caixa. Soltamos ele na praia do lago no escuro; ele voou por cima do lago elegantemente à flor da água, depois subiu, virou e voou por cima de nós e finalmente sumiu entre as árvores no escuro. Na cozinha havia duas mesas: uma, em que comíamos, e a outra, em que preparávamos a comida. As duas eram forradas com oleado. Tinha um balde de granito para tirar água do poço. Na porta da despensa tinha um rolo para toalha e forros de mesa numa prateleira acima da estufa. No canto ficava a vassoura. A caixa de lenha estava pela metade e as panelas ficavam penduradas na parede.
Passei os olhos por toda a cozinha para guardá-la na memória porque gostava muito dela.
- Então - disse meu pai. - Acha que vai poder se lembrar dela?
- Acho que sim.
- E vai lembrar o quê?
- Todas as nossas brincadeiras.
- Não só de abastecer a caixa de lenha e puxar água?
- Não foi trabalho pesado.
- Não. Não é pesado. Não tem pena de ir?
- Não se for para o Canadá.
- Não vamos nos estabelecer lá.
- mas vamos ficar um pouco.
- Não muito.
- E de lá vamos para onde?
- Veremos depois.
- Pouco me importa para onde iremos.
- Continue assim - disse meu pai. Acendeu um cigarro e ofereceu-me o maço. - Você fuma?
- Não.
- Ótimo. Agora você vai lá fora, sobe ao telhado e põe o balde na chaminé. Eu fecho a casa."

Ernest Hemingway nasceu em Oak Park, Illinois, em 1899, e começou sua carreira de escritor no The Kansas City Star, em 1917. Em 1921 mudou-se para Paris, onde se juntou a um grupo formado por Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerard, Ezra Pound e Ford Madox Ford. Seu primeiro livro foi Três Histórias e Dez Poemas, publicado em Paris em 1923.

Um livro de contos é uma excelente oportunidade de se desvendar um autor e quando se trata de Ernest Hemingway, quem sabe um mito. A reedição de sua obra, Contos revela ao leitor brasileiro os efeitos de estilo muitas vezes com uma linguagem desadjetivada, desmetaforizada e fluente, muitas vezes com crueza na descrição de cenas de mutilação e morte, causando um efeito impressionante onde conflitos e dramas são submetidos a análise do atento leitor de seus escritos . O tema morte sempre esteve presente na obra do autor que muitas vezes utiliza a linguagem jornalística causando impacto na narrativa aos desavisados leitores.Luiz Antônio Aguiar lembra em prefácio de Contos - Vol. 3 que tão poucos terão sido em grau tão extremado vítimas de estereótipo como o autor. Fascínio exercido no leitor no momento de extrema popularidade do autor... suposições.

Certo somente que valores como fragilidade, perplexidade e angústia da perspectiva de morte aleatória e frequentemente desnecessária, quando na guerra, em meio ao morticínio, os combatentes perdem contato com "os ideais e os objetivos políticos". Valores questionados por aquele que conviveu em muitas guerras, a Primeira e a Segunda, com a Guerra Civil Espanhola, além de correr o mundo inteiro, buscando a violência das touradas espanholas, das caçadas na África e das lutas de boxe do submundo americano. Equívoco puro.  Ler alguns de seus contos inéditos apresentados nesta edição e conhecer o autor da obra O Velho e o Mar, agraciada com o Pulitzer e em 1954 recebeu o Nobel de literatura pelo conjunto de sua obra é adentrar em sensível e prazerosa narrativa.

domingo, 26 de setembro de 2010

Louisa May Alcott - Mulherzinhas



Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, tradução de Vera Maria Marques Martins. Título original: Little Women, Editora Nova Cultural Ltda, 2003 - São Paulo - SP.


- Sem presentes, o Natal não vai ser Natal - resmungou Jô, deitada no tapete.
- É horrível ser pobre! - suspirou Meg, olhando para o vestido velho que usava.
- Não acho justo que algumas meninas tenham tantas coisas bonitas, e outras não tenham nada - acrescentou a pequena Amy, fungando, revoltada.
- Nós temos mãe, pai e umas às outras - ponderou Beth em tom satisfeito, lá de seu cantinho perto da lareira.
Por alguns momentos, ninguém falou.
Os quatro rostinhos iluminados pelo fogo animaram-se por um instante.
- Não temos pai e não teremos por muito tempo - Jô lembrou, abatendo os ânimos.

Tenho dois exemplares do livro. Um adquirido em coleção de banca, a que faço referência, o outro ganhei em um concurso de contos (primeiro e único) que participei. Inicio o IV capítulo desta obra sem compreender o motivo desta demora na procura de sua leitura apesar das excelentes referências dos leitores (tanto feminino quanto masculino) familiares, o que estou por comprovar adiantando aqui esta resenha. Havia feito uma brincadeira em postagem anterior de trazer uma leitura mensal clássica. Começar por Mulherzinhas, já vejo como iniciar com chave de ouro pois a leitura é envolvente, com abordagem nos aspectos da convivência e do amor em família no contexto social envolvendo as discrepâncias da vida cotidiana em época de guerra.

A leitura foi um hábito na família de Louisa May Alcott, autora de "Mulherzinhas", não como uma obrigação, mas como um prazer, já influenciados pelo patricarca da família, Bronson Alcott, conhecido por seus revolucionários métodos de ensino, na própria escola, a Temple School, onde a interação dos alunos e a crença de que o aprendizado deve ser um prazer para as crianças.A autora, que teve esta obra por encomenda da editora Niles, de Boston, transformou o pedido de "um livro para meninas" no mais surpreendente sucesso que escreve em Orchard House, entre maio e julho de 1868. O romance, baseado nas experiências de Louisa e de suas irmãs desde a puberdade até o casamento, retrata as mudanças da sociedade da época. A escritora se inspira na vida e na personalidade da mãe e das irmãs para criar as personagens Marmee (Abigail), Meg (Anna), Beth (Elisabeth), Amy (May) e Jo (ela própria).

O grande sucesso de 'Mulherzinhas" levou a independência financeira a autora que havia dito em tempos difíceis, desgastada com a pobreza da família: "Hei de fazer alguma coisa, não importa o quê... lecionar, costurar, representar, escrever, qualquer coisa para ajudar minha família; e serei rica e famosa e feliz antes de morrer, vocês vão ver se não!" Esta parece ser a trilha de Louisa, confrontando uma sociedade que oferece poucas oportunidades de emprego às mulheres. Louisa sai à procura de trabalho, disposta a fazer qualquer coisa para ganhar dinheiro, dentro das possibilidades ao alcance de uma menina adolescente. Em 1862, com o início da Guerra Civil Americana, Louisa trabalha como enfermeira voluntária, "A Enfermeira do Frasco", assim conhecida por combater o mau cheiro que impregna as dependências do hospital, onde aquire o hábito de passar água de lavanda no corpo e nos móveis e objetos ao seu redor. Inspiração para o livro "Hospital Sketches", as cartas que escrevia para casa contando tais condições precárias de higiene e ventilação, assim como a indiferença dos profissionais diante da deplorável situação.

Em 1870 Louisa participa ativamente do movimento pela abolição da escravatura e pela aprovação do direito ao voto feminino. Em 1879 viria a ser a primeira mulher da região de Concord a se inscrever no colégio eleitoral da cidade. Publica também "Homenzinhos" além de uma série de livros para leitores jovens que tornaram-se seus fãs pela escrita inovadora, diferente da literatura da época. Seu último romance é publicado em 1886: "Jo´s Boys", entretanto, a saúde precária por ter adquirido febre tifóide como enfermeira durante a guerra, falece em 1888, dois dias após a morte do pai.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

50 Contos de Machado de Assis - selecionados por John Gledson

"Ler Machado de Assis era uma tentação permanente, quase como se fosse um vício a que tivesse de resistir.", dizia Carlos Drummond de Andrade.

Ler 50 contos de Machado de Assis, do professor John Gledson é um excelente lugar para praticar este vício. Dos cerca de 200 dos 50 contos escolhidos foram todos escritos depois de 1878, quando o autor já tinha quase 40 anos.

Costumo ler um livro de contos paralelamente a minhas leituras, para permitir um tempo de reflexão à obra que está sendo lida. Ler os contos de Machado de Assis é formidável pois ele continua atualíssimo com seu jeito de se dirigir diretamente ao leitor, constrói uma leitura íntima, participativa.

Muitas são as tentativas de rotular o 'Bruxo do Cosme Velho' que livremente escreveu sobre temas analisados como repetitivos (ciúme, dinheiro, parasitismo da elite) e até citados na revista "Bravo!" no artigo entitulado "As Obsessões de Machado de Assis", "onde estudos se debruçam sobre os temas que atormentaram o escritor ao longo da carreira", por Ariel Kostman. Certo mesmo é que Machado sabia onde queria chegar, sabia conquistar o leitor tão difícil em seu tempo histórico onde o romantismo imperava absoluto e devia se divertir muito com o que escrevia, pois suas escritas são antes que irônicas, muito divertidas sem contar o aprofundamento psicológico nos personagens, e isto a 25 anos das deduções que Freud poderia ter feito em alguns campos que Machado acabou por superar o conceituado profissional.

Segundo artigo especial  sobre a vida de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) na revista "Almanaque das Letras", Ano 1 - n. 2 - Jan de 2008, o autor da imortal Capitu passou por todos os gêneros literários. Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. è o fundador da cadeira n. 23 da Academia Brasileira de Letras e um dos criadores da casa. Por mais de dez anos esteve à frente da presidência da Academia. Teve origem bem humilde: filho do operário Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo. Foi criado pela madrasta, lavadeira e doceira. Sem meios para cursos regulares, estudou como pode e, em 1855, aos 16 anos, publicou o primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na Marmota Fluminense.

Autor de 9 romances, 4 livros de poesia, 7 de contos, 10 peças de teatro, além de críticas, traduções e crônicas, Machado foi o crítico da sociedade fútil, da falsidade, da retórica vazia, mas foi consciente de que é impossível fazer o relato completo da realidade, pois o sentido das coisas não é estável, é movediço; não é sólido, mas gelatinoso. Seu humor é gráfico, brinca com associações de idéias, desenha-se na imaginação do leitor, não vem da piada explícita. Daí seu esmero retórico, informa a revista 'Língua Portuguesa' , Ano III - número 29 - 2008.

Ah, Machado, só lendo!

Sumário:  O machete, Na arca, O alienista, Teoria do medalhão, Uma visita de Alcebíades, D. Benedita, O segredo do Bonzo, O anel de Polícrates, O empréstimo, A sereníssima república, O espelho (*), Verba testamentária, A chinela turca, A igreja do Diabo, Conto alexandrino, Cantiga de esponsais, Singular ocorrência, ùltimo capítulo, Galeria póstuma, Capítulo dos chapéus, Anedota pecuniária, Primas de Sapucaia!, Uma senhora, Fulano, A segunda vida, Trina e una, Noite de almirante, A senhora do Galvão, As academias de Sião, Evolução, O enfermeiro, Conto de escola, D. Paula, O diplomático, A cartomante, Adão e Eva, Um apólogo, A causa secreta, Uns braços, Entre santos, Trio em lá menor,Terpsícore, A desejada das gentes, Um homem célebre, O caso da vara, Missa do galo, Idéias de canário, Uma noite, Pílades e Orestes, Pai contra mãe.

(*) leia on-line em http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/espelho.html

Assis, Machado de / 50 contos / Machado de Assis; seleção, introdução e notas John Gledson. - São Paulo : Companhia das Letras, 2007.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Carlos Marchi - Fera de Macabu / Sem Controle


Carlos Marchi - Fera de Macabu

Extraordinária leitura, difícil é saber onde inicia o histórico e finda o romance ou onde inicia o fantástico e termina o real na empolgada prosa do jornalista Carlos Marchi que conta minuciosamente a condenação à morte de um rico fazendeiro em Macaé, no norte fluminense, vítima inocente de uma conspiração política, a tão conhecida saga de Motta Coqueiro. A propósito do fato, analisa detalhadamente a dura legislação penal brasileira do tempo do Império, as discussões sobre a pena de morte e reconstitui coloridamente o cotidiano das fazendas no rico norte fluminense, até os tempos atuais, como eram os casamentos, a vida dos escravos, o hábito de provocar abortos para não gerar escravos, as formas de bruxarias. Notável se revela o relato integral do encontro de Pedro II com o escritor Victor Hugo em Paris a quem tem grande admiração ao ponto de levar flores em seu túmulo pós-morte, acompanhando toda a literatura do autor, inclusive o livro aqui já mencionado aqui no blog Nós Todos Lemos, "O último dia de um condenado à morte".

"Enquanto os personagens da história viviam, sofriam e moriam, a pena de morte ainda vigorava oficialmente no Brasil, muito embora desde o momento em que alguém contou a Pedro II a verdadeira história de Úrsula das Virgens, nunca mais um homem livre tenha subido novamente os treze degraus da morte. O enforcamento de Manoel da Motta Coqueiro foi o ponto-limite das manifestações de intolerância nacional no século 19; depois dos enforcamentos de Flor, Faustino e Domingos, executados três meses depois de Coqueiro, o imperador, consternado por aquela modalidade estúpida de assassinato oficial, desmascaraa pela condenação injusta de Coqueiro, passou a comutar sistematicamente as sentenças máximas atribuídas a homens livres; logo depois ele já comutava as penas máximas aplicadas a escravos; por pior que fossem os seus crimes, o imperador sempre as transformava em penas de galés perpétuas."

Falando em último dia de um condenado à morte, o autor detalha com graça as felizes avançadas técnicas portuguesas do bem-morrer, copiadas pelos americanos em detrimento das peripécias inglesas na arte de enforcamento.

"O fazendeiro não era tão indigitado assim, pois.Tinha boas razões para agradecer a Deus e a D. Pedro I. Ao primeiro porque, com sua infinita generosidade, iluminou as autoridades e os carrascos no caminho da evolução, no sentido da extinção de todos os castigos cruéis estabelecidos pelas Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas e na descoberta de novas tecnologias para a bem-morrer; ao segundo, porque foi seu braço terreno que determinou legalmente a extinção dos castigos perversos que toldavam de terror as  execuções oficiais no Brasil. Não havia nada a reclamar, portanto. Poderia ter sido muito mais doloroso do que foi.
Se não fossem, naturalmente (e pela ordem),Deus e Pedro I."

A imprensa acompanha as investigações com estardalhaço e empresta a Coqueiro um apelido incriminador - é a Fera de Macabu. Pouco tempo depois do enforcamento descobre-se que o fazenderio tinha sido a inocente vítima de um terrível erro judiciário. Abalado, o imperador, um humanista em formação, decide que dali em diane ninguém mais será enforcado no Brasil.

"Quanto ao fantasma de Coqueiro, o principal e derradeiro personagem deste livro, continuou vagando errante pelas noites escuras da praça da Luz, até muito tempo depois de vencida a maldição dos cem anos, sempre envolto na mesma túnica branca e esvoaçante de pano grosseiro com que foi enforcado, revelam os melhores contadores de histórias de Macaé: quando o fantasma gemia urros ininteligíveis que só as almas penadas sabem proferir, ouvia-se também o lúgubre tilintar das correntes que pendiam de seus pulsos, há muito rompidas. Há quem granta que ainda hoje ele aparece, nas negras noites sem lua da praça da Luz, como um lobisomem eterno e inestinguível, para assustar os meninos que, como que, nasceram ali perto, estudaram no Colégio Estadual Luiz Reid e foram criados sob as penas da centenária maldição na heróica, leal e mui misteriosa cidade de Macaé."

A história de Motta Coqueiro, além de peça teatral, conforme detalha o livro Fera de Macabu, foi lançada no cinema em 2007 com o título de Sem Controle.


Carlos Marchi começou a atuar como jornalista em 1971, em pelnos anos de chumbo. Trabalhou em várias empresas jornalísticas,no Rio de Janeiro e em Brasília (Correio da Manhã, Última Hora, O Globo, Rede Globo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil, além de colaborar com dezenas de outras publicações). Teve intensa atividade política e sindical; em 1984, foi assessor da candidatura Tancredo Neves. Tem como marca original de seus trabalhos o olho clínico do repórter e o texto esmerado, além da visão de mundo humanista.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade


A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


"Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!"

Sumário: Considerações do poema, Procura da poesia, A flor e a náusea, Carrego comigo, Anoitecer, O medo, Nosso tmepo, Passagem do ano, Passagem da noite, Uma hora e mais outra, Nos áureos tempos, Rola mundo, Áporo, Ontem, Fragilidade, O poeta escolhe seu túmulo, Vida menor, Campo, chinês e sono, Episódio, Nova canção do exílio, Economia dos mares terrestres, Equívoco, Movimento da espada, Assalto, Anúncio da ros, Edifício São Borja, O mito, Resíduo, Caso do vestido, O elefante, Morte do leiteiro, Noite na repartição, Morte no avião, Desfile, Consolo na praia, Retrato de família, Interpetação de dezembro, Como um presente, Rua da madrugada, Idade madura, Versos à boca da noite, No país dos Andrades, Notícias, América, Cidade prevista, Carta a Stalingrado, Tlegrama de Moscou, Mas viveremos, Visão, Com o russo em Berlim, Indicações, Onde há pouco falávamos, Os últimos dias, Mário de Andrade desde aos infernos, Canto ao homem do povo Charlie Chaplin

Andrade, Carlos Drummond de , 1902-1987 - A rosa do povo / Carlos Drummond de Andrade; prefácio de Affonso Romano de Sant´Anna. - 42. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009;

Óleo sobre tela: Lis G.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails