quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Voltaire - vida e obra

Voltaire
1694 - Nasce François-Marie Arouet em paris, no dia 21 de novembro.
1704 - Entra para o colégio de jesuítas Louis-le-Grand, em Paris.
1713 - Viaja para a Holanda, como secretário do marquês de Châteauneuf.
1715 - Volta a Paris.
1717 - É levado à Bastilha, onde permanece por onze meses. Escreve a peça de teatro Édipo. Escreve o poema épico Henriade. Adota o pseudônimo Voltaire.
1722 - Escreve a peça Artemire.
1726 - Vai para Londres, fugindo do cárcere.
1727 - Escreve Cartas sobre os Ingleses.
1729 - Volta a Paris.
1734 - Publica Cartas Filosóficas.
1747 - Escreve o conto Zadig.
1749 - Morre a marquesa de Châtelet, com quem Voltaire vivera por muitos anos.
1751 - Publica O Século de Luís XIV.
1752 - Publica o conto Micrômegas.
1755 - Muda-se para Les Délice, próximo a Genebea, Suiça.
1756 - Escreve Ensaio sobre os Costumes e o Espírito dos Povos.
1759 - Escreve Cândido, uma réplica a seus opositores.
1763 - Publica o Tratado sobre a Tolerância.
1764 - Publica Dicionário Filosófico.
1767 - Publica O Ingênuo.
1778 - A peça Irene é encenada na Comèdia Française. Morre em Paris em 30 de maio e é enterrado em Salier.
1790 - Seu corpo é transladado para Paris.

François-Marie Arouet, ou Voltaire, nasceu em Paris, em 21 de novembro de 1694. Reinava Luís XIV. A França era grande, e os franceses, infelizes. Ou melhor, nem todos, porque para um pequeno setor da nobreza o monarca construiu sua armadilha dourada: Versalhes. A nova sede da corte era, basicamente, um suborno. A nobreza podia optar: continuar entre gado e campônios, nas fazendas, ou ir para Versalhes. E havia mais um incentivo: quem se mantivesse quieto sob o olhar do rei receberia como prêmio uma pensão.
A tentação era grande. E, enquanto ia sendo construído aquele sonho de jardins e salões a perder de vista, a nobreza afluía para usufruir uma vida brilhante e parasitária. A formação desse núcleo de versalheses ociosos mudaria o panorama intelectual da França. Abandonados os hábitos antigos, era preciso matar o tempo de outra form. A nobreza agora lia, organizara concursos, interessava-se por ocultismo e filosofia.
O espírito versalhês não se fez em um dia. Na infância de Voltaire, ainda se estava formando. E nessa época Nino de Lenclos, bela e inteligente cortesã francesa, ao sentir que envelhecia recolheu-se numa cidadezinha de província. Havia pouco se mudara para ali a família Arouet, e o olho treinado da cortesã distinguiu no menino François os "sintomas" do jovem literato. Acabou deixando-lhe uma herança de 2 mil francos com a condição de que fossem gastos em livros. E assim François mergulhou nas leituras que determinariam o curso de sua vida.
Aos dez anos, em 1704, entrou para o colégio de jesuítas Louis-le-Grand, em Paris. Terminado o curso, matriculou-se na faculdade de Direito. Mas não ia às aulas. Frequentava tavernas, perseguia as criadas e embebedava-se com relativa assiduidade. Para tirá-lo da libertinagem, o pai arrumou-lhe o emprego de secretário de um parente: o marquês de Châteauneuf, que estava prestes a embarcar para Haia, em 1713. Na Holanda, François não arriscou um tostão pela glória de seu rei. Apaixonou-se por Pimpette, graciosa filha de um exilado. Pilhado em flagrante, foi obrigado a voltar para Paris em 1715, aos 21 anos.
Seu regresso coincidiu com a morte de Luís XIV, o "Rei-Sol". Soba a regência liberal do duque de Orléans - já que Luís XV, o herdeiro do trono, era muito menino para governar -, o estilo de vida de Versalhes e Paris, antes refreado pela autoridade de Luís XIV, eclodiu em mil cintilações.
Magrinho, espirituoso e rápido improvisador,  jovem Arouet logo se introduziu nesse ambiente muito à vontade, e não tardou a sentir o sabor do sucesso mundano.
Mas esse sucesso tornava sua língua cada vez mais ferina. Todas as boas anedotas que corriam sobre o Duque de Orléans lhe eram atribuídas. E custaram-lhe a liberdade. Em 16 de abril de 1717, aos 23 anos, François Arouet foi levado à Bastilha, famoso cárcere parisiense onde se encontravam opositores políticos, intelectuais rebeldes e simples desafetos dos amigos do monarca.
Nos onze meses de cárcere, François escreveu uma peça para teatro - Édipo - e um longo poema épico - Henriade. Durante esse período adotou o pseudônimo Voltaire, cuja origem jamais explicou.
Mas prender um poeta por tempo excessivo tornaria o regente impopular entre os elegantes. Achando que a lição terminara, o duque ordenou a soltura de Voltaire e destinou-lhe uma razoável pensão anual.
A Bastilha não rendeu a Voltaire apenas a pensão. Édipo foi o grande sucesso teatral da temporada.
Com o dinheiro das apresentações, fez investimentos. Nunca mais teria dificuldades financeiras. O pai, que morrera em 1722, quando Voltaire contava trinta anos, podia repousar sossegado.
Embriagado pelo sucesso, lisonjeado por um séquito de aduladores, encenou sua segunda peça teatral: Artemire. A peça foi um fracasso, e a luzes se apagaram em torno de Voltaire, que começou a definhar. Em pleno declínio físico, contraiu varíola e entrou em estado de coma, do qual emergiu alguns dias depois para descobrir que Henriade o tornara novamente popular.
Em 1726, durante um jantar no castelo do duque de Sully, o Cavaleiro de Rohan perguntou em tom de desafio: "Quem é esse sujeito que fala tão alto?",  "Alguém, caro senhor", respondeu Voltaire, "que não precisa de um grande nome, porque faz respeitar aquele que possui." O cavaleiro engoliu a afronta, mas enviou seus lacaios para espancarem Voltaire à saída da recepção. No dia seguinte, coberto de ataduras, o poeta atravessou o teatro até o camarote do cavaleiro e desafiou-o para um duelo. Um nobre, contudo, não se batia em literatos; preferia encarcerá-los. Voltaire retornou à Bastilha, onde lhe ofereceram duas opções: permanecer nela ou emigrar para  a Inglaterra. Escolheu a segunda.
A Inglaterra desse período era muito diferente da França. Ao contrário da França, a nobreza não constituía uma casta fechada. Voltaire tornou-se amigo de Iorde Bolingbroke, nobre, comerciante e intelectual de certa reputação e travou conhecimento com os principais literatos do momento, entre eles Jonathan Swift.
A liberdade com que Bolingbroke, Swift, Pope, Locke, Berkeley e tantos outros filósofos e literatos discutiam religião e política deixou Voltaire perplexo. Do outro lado do canal da Mancha, esses autores estariam na Bastilha antes mesmo de pensar em publicar seus livros. O que Voltaire presenciava naqueles animados serões era o desabrochar do Iluminismo inglês.
Em 1729, serenados os ânimos, Voltaire retornou a Paris. Estava com 35 anos e era mais famoso por sua língua ferina que por sua pena. E provavelmente teria continuado por muito tempo assim se um editor, sem sua permissão, não resolvesse publicar em 1734 as Cartas sobre os Ingleses, que ele escrevera quando estava exilado na Inglaterra, com o título de Cartas Filosóficas.
O Parlamento de Paris mandou queimar o livro por considerá-lo escandaloso, contrário à religião e à moral. Pressentindo o cheiro da Bastilha, Voltaire resolveu escapar a tempo. E, para amenizar o isolamento, levou consigo Êmilie de Breteuil, marqueza de Châtelet.
No ano seguinte, por influência de amigos na corte, a condenação foi revogada, mas Voltaire continuava indesejável em Versalhes, e permaneceu no Castelo de Cirey, propriedade da marquesa Émilie de Breteuil, que despertara nele um amor sincero. E certamente também uma grande admiração. De quando em quando Voltaire aparecia em Paris, para em seguida ser visto em misteriosas viagens à Bélgica, Holanda e à corte prussiana, onde se fizera amigo de Frederico II. Prestando serviços de diplomata oficioso, tentava recuperar as boas graças de Versalhes. Em Cirey, pela segunda vez desde a infância, Voltaire se lançou com grande empenho e entusiasmo à literatura.
Ao mesmo tempo que criava peças para o teatro, iniciou um de seus trabalhos mais sérios - O Século de Luís XIV, em que pretendia revelar o sentido da história. Voltaire mal iniciara essa obra quando o cardeal de Fleury, conselheiro do rei, informou-o de que considerava ofensiva essa apologia de um rei que não teve como primeiro-ministro um príncipe da Igreja. E o autor, obediente, trancou a chave seu manuscrito, para só publicá-lo em 1751.
Morto o cardeal de Fleury, madame de Pompadour tornou-se a primeira influência na corte. Velha amiga e confidente do poeta, conseguiu-lhe o cargo de historiógrafo real, o que lhe permitiu reunir enorme documentação, o título de fidalgo e, finalmente, em 1746, um lugar na Academia.
Por essa época, Voltaire inaugurou um novo gênero literário: o conto filosófico, e passou a publicar alguns deles ao longo dos anos seguintes. Esses pequenos "romances", como ele os chamava, constituem, juntamente com seus artigos da Enciclopédia, que ele reelaborou e ampliou no Dicionário Filosófico (1764), a parte mais viva e atual de sua obra, Zadig (1747), Micrômegas (1752) e O Ingênuo (1767) têm em comum uma notável construção. Nada de supérfluo. São descarnados, puro diálogo e ação. Com uma veia cínica e cética na narração que revela o conhecimento dos textos de Swift, desfilam a corrupção dos funcionários, os amores eternos que duram duas semanas, as discussões teológicas que terminaram em massacres.
Em 1749, morria a marquesa de Châtelet, que Voltaire abandonara havia algum tempo em troca da vida versalhesa. Todavia, a morte da amiga abalou-o profundamente. A vida na França tornou-se amarga, e o poeta aceitou o convite para visitar a corte prussiana.
Frederico II, herdeiro do melhor Exército da Europa, era um príncipe muito especial. Admirador da França e do Iluminismo, desejoso de se tornar um clássico da língua francesa, importava a peso de ouro intelectuais da França para sua corte. Entre eles, Voltaire.
Mas em pouco tempo o rei e o escritor se desentenderam. Voltaire devolveu-lhe a chave de camareiro, a fita da Ordem de Mérito e procurou regressar à França em 1754. Mas em Frankfurt foi detido pelos soldados reais. Esquecera de devolver um poema satírico de autoria de Sua Majestade, que mão queria torná-lo público. O poema, porém, se perdera, e Voltaire permaneceu prisioneiro por duas semanas, até que se encontrou o manuscrito; só então ele pôde partir. Mas não queria volta à França imediatamente. Preferiu adquirir uma propriedade perto de Genebra, na Suíça. Em Les Délice, seu novo lar, escreveu o Ensaio sobre os Costumes e o Espírito dos Povos, em 1756, primeiro grande trabalho da historiografia moderna, que tenta mostrar como as sociedades evoluíram da barbárie para a civilização.
Nessa mesma época, juntou-se a D´Holbach, Condillac, Condorcer, Helvetius, Buffon, Montesquieu e iniciou a redação da Enciclopédia ou Dicionário Raciocinado das Artes e Ofícios. Sob a direção de Diderot, essa obra se tornaria a publicação mais importante do século XVIII, a bíblia do Iluminismo. Os verbetes de Voltaire estão entre os mais brilhantes da obra, mas não entre os mais profundos. Um deles, entretanto, sobre a cidade de Genebra - onde os protestantes haviam proibido os espetáculos de teatro -, provocou grande tumulto e obrigou-o a mudar de residência. Manteve Les Délices, mas comprou outra fazenda, em Ferney, na França, próximo à fronteira belga. No dia de Todos os Santos do ano de 1755, um terreno em Lisboa fez desabar as igrejas. Trinta mil pessoas ficaram sepultadas sob os escombros, e o clero francês explicava dos púlpitos que Deus castigara dessa forma o povo de Portugal por seus pecados.
Leibniz, grande matemático e filósofo, por seu lado, sustentara que "vivemos no melhor dos mundos possíveis". A resposta de Voltaire resultou no melhor de seus "contos filosóficos": Cândido, ou O Otimismo, publicado em 1759, em que Leibniz aparece sob a caricatura do dr. Pangloss.
Enquanto o infeliz Cândido é vítima de injustiças, prepotências e loucuras, o dr. Pangloss garante-lhe que há motivos para ele se alegrar, já que vive no melhor dos mundos possíveis. Moral da história: o melhor é cultivar nosso jardim particular e deixar que o mundo enlouqueça lá fora.
Foi precisamente o que Voltaire procurou fazer em Ferney. Transformou a fazenda maltratada numa gleba produtiva, distribui justiça, dirigiu a irrigação, abriu escolas. E teria continuado nessas atividades se não tivesse recebido, num dia incerto de 1761, a visita de uma família aterrorizada, contando uma fúnebre história de perseguição. Um jovem suicidara-se em Toulouse. Havia, contudo, uma lei pela qual o corpo dos suicidas deveria ser arrastado pelas ruas e, depois, enforcado em público. O pai do rapaz, Jean Calas, arranjara tudo para que o suicídio parecesse morte natural e o corpo do filho fosse respeitado. Mas Calas era protestante, e acabou sendo acusado de ter assassinado o filho para que não se convertesse ao catolicismo. Foi preso, torturado e condenado à morte.
Enquanto Voltaire defendia a família e a memória de Jean Calas, o corpo de uma certa Elisabeth Sirven foi encontrado num poço, no ano de 1762. A família também era protestante, e o juiz acusou os pais de terem matado a jovem. Voltaire lançou uma campanha, contratou advogados, redigiu defesas e enviou-as para os tribunais. E foi nessa época que escreveu o Tratado sobre a Tolerância, publicado em 1763.
Esses casos ainda estavam na ordem do dia quando, em 1767, o jovem La Barre, de família protestante, foi acusado de mutilar crucifixos. Ao ser preso,  encontraram em seu poder um exemplar do Dicionário Filosófico, escrito com a intenção explícita de ridicularizar o fanatismo católico.
Do caso La Barre em diante, a atividade de Voltaire assemelhou-se à erupção de um vulcão: inundou o país de panfletos, livros, ironias, apelos. Todas as suas cartas terminavam com um veemente apelo: "Esmagai o infame". Voltaire passou a ser aclamado pelo povo, pelo clero e pelos cortesãos iluministas o apóstolo do progresso. Tomado de gosto pelo papel de "defensor público", passou a lutar por todos os que lhe pareciam injustiçados.
Morto Luís XV, nada mais o impedia de retornar a Paris. Sua volta foi uma apoteose. Mas a viagem desgastou-lhe as forças, e ele acabou recebendo as centenas de visitantes retido no leito.
Um padre foi receber sua confissão. "Quem o enviou"?, perguntou o enfermo. "Deus em pessoa", respondeu o padre. "Bem, vejamos então as credenciais..."
O melhor era chamar alguém que conhecesse Voltaire. Mas um abade de suas relações recusou-se a ouvir a confissão se ele não assinasse sua submissão completa à Igreja Católica. O doente despachou-o, chamou seu secretário e ditou uma declaração: "Morro amando Deus, amando meus amigos, não odiando meus inimigos e detestando a superstição. 28 de fevereiro, 1778".
Mas, em vez de morrer, fez triunfal visita à Academia Francesa. Compareceu à Comédie, onde foi aplaudido durante longos vinte minutos. Cobriram-no com uma coroa de louros. Era a glória que ainda mantinha vivo aquele moribundo.
Por fim, entrou em agonia e lutou contra a morte como se travasse uma batalha corporal. Gritava como um possesso e ainda teve forças para expulsar do quarto um último padre. Mas em 30 de maio teve a batalha vencida. Voltaire, com 84 anos, mesmo morto, ainda daria algum trabalho: como em Paris recusaram-lhe sepultura cristã, os amigos colocaram o corpo numa carruagem, fazendo-o passar por vivo e levaram-no sentado até Salier, onde foi enterrado. Doze anos depois a Assembléia Nacional da Revolução obrigou Luís XVI a transladar o corpo para o Panteão de Paris. Setecentas mil pessoas seguiram o cortejo.
Sobre seu túmulo Voltaire pedira que escrevessem apenas uma frase: "Ele defendeu Calas".


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

Um comentário:

  1. Tive o prazer de ler "Candide" em francês e me deslumbrei com esse inesquecível personagem e o sua amor pela bela Cunegonde. Uma viagem sem sombra de duvida e o recomendo.

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