segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Mas Viveremos

Carlos Drummond de Andrade
 - Alguma Poesia
 (contra-capa)

Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.

Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.

Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e esperança.

Já não distinguirei, na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.

Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados,
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.

Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.

Voltava a noite, mais noite, mais completa.
E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas
oceanos e oceanos e oceanos.

Mas um livro, por baixo do colchão
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando,
e teu retrato, amigo, consolava.

Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.

No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei se vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.

Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.

Mas viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.

Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.

Pouco importa os dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se taçam
sinais da praia ao rubro couraçado.

Ele chegará, ele viaja o mundo.
E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.

Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
Essa rosa, esse canto, essa palavra.





domingo, 30 de outubro de 2011

Luiz Ruffato - Leituras de escritor

Luiz Ruffato - Leituras de escritor
Leituras de escritor / Luiz Ruffato (organização) ; ilustração Mariana Zanetti. 2. ed. - São Paulo : Comboio de Corda, 2009. - (Coleção Leituras de escritor).

Luiz Ruffato, autor do livro Leituras de escritor, 'Um leitor privilegiado', assim definido pelos editores que compõem o prefácio do caprichado livro de excelente conteúdo tanto quanto é observado o carinho com que foi graficamente preparado onde ao término de cada um dos 14 contos dos autores selecionados é apresentado um breve resumo sobre o autor e sobre o conto apresentado. Tudo isto para oferecer a jovens leitores, ou seja, nós (afinal, somos jovens ainda!), uma antologia com textos curtos do esforço de nosso caro escritor renomado em trazer o melhor da produção alheia que dizem respeito às nossas inquietações criativas.

Os temas do livro Leituras de escritor, de Luiz Ruffato,  preferencialmente faz referência a crianças ou adolescentes como protagonistas, fragrados em momentos-chave de suas existências, assim como temas de injustiça social "Menina", de Ivan Ângelo (1936), e "Frio", de João Antônio (1937-1996), além de "O primeiro baile", da neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923), "Paco Yunque", do peruano César Vallejo (1892-1938), e "Porque somos muito pobres", do mexicano Juan Rulfo (1917-1986) e outros temas mais específicos como racismo ou o conceito de loucura, e ainda o insólito que impregna o real e ainda uma dose de lirismo. Presentes ainda na antologia o brasileiro Machado de Assis (1836-1908), "Conto de Escola" e o  russo Anton Tchekhov (1860-1904) , "Vanka"e o italiano Luigi Pirandello (1867-1936).


Vanka (Anton Tchekhov), ilustração por Mariana Zanetti
"Vanka Jukov, de nove anos, e que fora deixado três meses antes em casa do sapateiro Aliákhin, para que aprendesse o ofício, não se deitara para dormir na noite de Natal. Depois de esperar que os patrões e aprendizes saíssem para a missa, tirou do armário m frasco de tinta, uma caneta com pena enferrujada, estendeu na frente uma folha amassada de papel e pôs-se a escrever. Antes de traçar a primeira letra, olhou algumas vezes, assustado, para as portas e janelas, espiou de viés o ícone escuro, ladeado por prateleiras com formas de sapato, e emitiu um suspiro entrecortado. O papel estava sobre um banco e ele de joelhos, ao lado.
"Querido vovô, Constantin Macáritch!", escreveu. "Te escrevo uma carta. Dou-lhe os parabéns pelo Natal e desejo a ti tudo o que te possa dar Deus, Nosso Senhor. Não tenho pai nem mãezinha, só me ficou você no mundo."

 Luiz Ruffato no prefácio 'Leitura como alumbramento' faz um rápido relato da trajetória da vida de um menino, antes pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista formado em comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, até se fazer autor de vários livros.

Frio / João Antônio
Menina / Ivan Ângelo
O jardim selvagem / Lygia Fagundes Telles
Porque somos muito pobres / Juan Rulfo
Casa tomada / Julio Cortázar
Tarde de sábado / Erskine Caldwell
Galinha cega / João Alphonsus
Paco Yunque / César Vallejo
O primeiro baile / Katherine Mansfield
Um artista d fome / Franz Kafka
Objetos sólidos / Virginia Woolf
A heresia cátara / Luigi Pirandello
Vanka / Anton Tchekhov
Conto de escola / Machado de Assis

Luiz Ruffato (veja aqui endereço no facebook, ou  releituras) é mineiro de Cataguases, reside há vários anos na cidade de São Paulo. Contista, romancista, poeta e ensaísta. Autor de vários livros, entre eles, o traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA e Machado de Assis, "Eles eram muitos cavalos".

Mariana Zanetti (veja aqui endereço no facebook) é arquiteta e artista plástica, ilustradora de livros para jovens e crianças, entre os quais Zoo, de Fabrício Corsaletti, e O anjo do lago, de Socorro Aciolly.

domingo, 23 de outubro de 2011

A canção - A cor do invisível - Mário Quintana


"Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
[mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as
[folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!"

(Mário Quintana - A cor do invisível - pág.22)

A cor do invisível - Mário Quintana

Quintana, Mário, 1906-1994
A cor do invisível / Mário Quintana. - São Paulo : Globo, 2005. - (coleção Mario Quintana / organização, plano de edição, fixação de texto, cronologia e bibliografia Tania Franco Carvalhal)

"Centenário Mário Quintana, 1906-2006"
Bibliografia

sábado, 22 de outubro de 2011

Victor Domingos - As Confissões de Dulce


Victor Domingos, autor do livro lançado em formato digital As Confissões de Dulce, uma narrativa que conquistou em 2005 o 2º prémio no Concurso Literário “D. Sancho I”. A obra já está disponível na Smashwords em edição multiformato, podendo ser lida no computador e na generalidade dos leitores portáteis de ebooks, incluindo por exemplo o Kindle, o iPad e o iPhone.

A História costuma relatar os feitos de reis e guerreiros, mas raramente se debruça sobre as dinâmicas das relações entre os intervenientes. Além disso, a importância da presença feminina é persistentemente negligenciada nos relatos históricos sobre a época que se seguiu à fundação de Portugal. As Confissões de Dulce contrariam essa tendência, abordando em ficção literária o lado humano da rainha D. Dulce, a esposa de D. Sancho I, filho de Afonso Henriques e o segundo rei de Portugal.

Esta obra, uma narrativa curta destinada a uma leitura descontraída, é disponibilizada numa variedade de formatos digitais (EPUB, Kindle, PDF, entre outros) que a tornam compatível com qualquer computador pessoal, bem como com os leitores portáteis de ebooks mais comuns, incluindo Kindle, iPad e iPhone. Existem também inúmeras aplicações para os sistemas iOS, Android, Symbian, Blackberry e Windows Phone 7 (como Stanza, Aldiko, WordPlayer, Mobipocket ou Freda), que permitem ler este livro em praticamente qualquer tablet ou smartphone.

O livro "As Confissões de Dulce" já se encontra também disponível à venda, na Apple iBookstore e na Amazon Kindle Store, na Amazon.co.uk , na Amazon.de e Amazon.fr . Na livraria Smashwords, é também possível adquirir o livro em versão multiformato, particularmente útil para quem usa outros dispositivos de leitura de ebooks.


É só conferir!


Victor Domingos
Victor Domingos (página no facebook), (Portugal, 1981) é licenciado em Psicologia e um eterno autodidata.

A sua obra de narrativa Ode a Um Poeta Naturalista (ArcosOnline.com, 2003) recebeu em 1999 o Prémio Literário Teixeira de Queirós. Em 2002, uma outra narrativa sua, intitulada Manual de Trigonometria Aplicada (Autores de Braga, 2002) seria o trabalho vencedor do Concurso Literário “Ecos da Memória”. Três anos mais tarde, viria a ser atribuído o 2º prémio, no Concurso Nacional de Contos “D. Sancho I”, à sua narrativa As Confissões de Dulce (Quasi Edições, 2006; Smashwords, 2011).

No campo da poesia, publicou a obra É preciso calar o monólogo (ArcosOnline.com, 2005). Tem também colaboração dispersa por variadas publicações, como a revista portuguesa Terra de Val de Vez (Nº18, 2007), a revista digital galega Andar21.net ou o portal brasileiro Alma de Poeta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Henrik Ibsen - Casa de Bonecas

Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, um romance para se ler de um só  fôlego, sem intervalo para um cafezinho.

Casa de Bonecas, a obra mais famosa de Ibsen, de 1879, é um drama social sobre casamento no qual uma mulher-boneca se recusa a obedecer ao marido e põe fim a um casamento aparentemente perfeito renunciando à confortável mentira e elegendo o risco de ser ela mesma, na busca de nova identidade, de uma nova moral. A peça fez grande sucesso e foi encenada em vários países da Europa e da América.

Impressionante como o ritmo da narrativa muda rapidamente, começada em forma de peça, em três atos, com seus personagens floreados pelas aparências sociais impregnadas de suas facetas sociais contaminadas (discurso paternalista, figura da mulher como um ser não-pensante, dependente material e psicologicamente da figura masculina) e transforma-se rapidamente no segundo e terceiros atos, forma em que é apresentada a narrativa, chegando-se ao desfecho final com a libertação feminina da personagem principal, Norma, a mulher-boneca, de toda sua máscara mal construída ao longo de uma caminhada sem identidade. O personagem masculino bem vestido em suas nuances de falso provedor do lar, tratando a figura feminina como a uma bonequinha totalmente controlável, sem identidade, próximo a figura do tratamento de um pai a uma filha mimada.

Consigo imaginar como o romance Casa de Bonecas pode ter impactado a sociedade de época. Afinal, a forte desconstrução da figura santificada feminina que chega a inadaptabilidade de uma felicidade construída no seio do lar, tendo o esposo, os filhos e as convenções sociais vigentes. A favor desta desconstrução de identidade feliz feminina neste meio social burguês decadente, o autor dá um desfecho trágico rompendo com todas as amarras das falsas máscaras de seus personagens. Assim são construídas as peças de Ibsen, com foco mais nos personagens do que nas situações, criando dramas realistas de conflitos psicológicos. Seu tema central é o dever do indivíduo para consigo mesmo. Na tarefa da auto-realização os personagens de Ibsen encaram as convenções antiquadas da sociedade burguesa. O individualismo anarquista de Ibsen deixou marcas profundas na geração mais jovem fora da Noruega, onde ele era considerado um escritor revolucionário. Em sua vida pessoal, entretanto, era visto como moralista e conservador.

"NORA (Pensativa.)
Ah, Torvald, omaior milagre de todos teria que acontecer.

HELMER
Diga o que seria isso!
NORA Nós dois, você e eu, teríamos que nos modificar a ponto de... Ah, Torvald, eu não acredito mais em milagres.

HELMER
Mas eu vou acreditar. Diga? Teríamos que nos modificar a ponto de...

NORA
De poder fazer do nosso casamento uma verdadeira vida em comum. Adeus. (Sai pelo vestíbulo.)

HELMER
 (Afunda-se nma cadeira, perto da porta, esconde o rosto nas mãos.)
Nora! Nora! (Olha em volta. Levanta-se.) Vazio. Foi emobra. (Uma esperança passa pelo seu pensamento.) O maior milagre de todos?
(Ouve-se o som de uma porta que bate lá embaixo.)

Henrik Ibsen é considerado o Shakespeare da era moderna, pelo realismo e pela profundidade psicológica com que retratou os problemas sociais, a injustiça e a hipocrisia das convenções sociais, colocando em xeque os valores da classe média européia, retratando o final do século XIX, a crise das instituições e a moral burguesa em cenas.

Henrik Ibsen - Vida e Obra

1828 - Em 20 de março, nasce Henrik Johan Ibsen, em Skien, Noruega.
1835 - Sua família muda-se para uma fazenda em Gjerpen.
1843 - A família muda-se para Skien. Em dezembro Ibsen vai para Grimstad para ser aprendiz de farmacêutico.
1846 - Emoutubro nasce Hans Jacob Henriksen, filho ilegítimo de Ibsen e Else Sophie.
1849 - Conclui a obra Catilina.
1850 - Vai para Chistiania (atual Oslo). Publica Vatilina, sob o pseudônimo de Brynjolf Bjarme. Em setembro estréia a peça The Warrior's Barrow.
1852 - É contratado como dietor de cena no Norwegian Theatre. Viaja para a Dinamarca e para a Alemanha.
1856 - Fica noivo de Suzannah Thoresen.
1857 - É contratado para o cargo de diretor do Christiania Norwegian Theatre.
1858 - Casa-se com Suzannah Thoresen.
1859 - Nasce Sigurd, seu filho.
1862 - O Christiania Norweian Theatre vai à falência.
1863 - Publica The Pretenders.
1864 - Ibsen viaja para a Itália.
1866 - Escreve a peça épica Brand.
1867 - Escreve Peer Gynt.
1868 - Muda-se com a família para Dresden, onde vive por sete anos.
1869 - Viaja ao Egito para assistir à inauguração do canal de Suez.
1870 - Escreve Balloon-letter to a Swedish Lady.
1871 - Publica Poemas.
1873 - Publica The Emperor and the Galilean.
1875 - A família muda-se para Munique.
1877 - Publica Pillars of Society.
1879 - Ibsen escreve Casa de Bonecas.  peça dá ao autor projeção internacional.
1881 - A peça Ghosts provoca polêmica.
1882 - Escreve An Enemy of the People.
1886 - Escreve Tosmersholm.
1890 - Escreve Hedda Gbler.
1891 - Escreve The Master Buider.
1892 - Seu filho Sigurd casa-se com Bergliot.
1893 - Nasce Tancred, oneto de Ibsen.
1894 - Escreve Litle Eyolf.
1895 - Muda-se para o apartamento onde viveria até o fim de sua vida.
1896 - Escreve John Gabriel Borkmann.
1899 - Escreve When the Dead Awaken.
1900 - Sofre um derrame que o deixa com o lado esquerdo paralisado.
1901 - Um segundo derrame paralisa-lhe o lado direito.
1902 - É indicado apra o Prêmio Nobel de Literatura.
1903 - Sofre o terceiro derrame e perde a capacidade manual de escrever.
1906 - Morre em 23 de maio. Em 1. de junho é sepultado com honras de Estado no cemitério Var Freisers.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sopra, Espírito!




Sopra, Espírito de Deus neste lugar
Poder e Tua graça,
Vem avivar


Sobre  o vale de ossos secos
Faz um exército se levantar

Sobre as feridas não tratadas,
Vem restaurar, e curar

Sobre os nossos corações
Vem, Senhor!
Sobre todas as nações


Vem, Senhor!


Sobre toda a terra estende a Tua glória


Ora, vem, Senhor Jesus!

domingo, 16 de outubro de 2011

Jorge Amado - Mar morto

Mar Morto - Jorge Amado

"Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia. Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus. O povo de Iemanjá tem muito que contar.
Vinde ouvir essas histórias e essas canções. Vinde ouvir a história de Guma e de Lívia que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela, a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e, dificilmente, um homem da terra entende o coração dos marinheiros. Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções e vai às festas de dona Janaína, mesmo assim ele não conhece todos os segredos do mar. Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem."
(Posfácio de Ana Maria Machado)

Reler Mar Morto, de Jorge Amado, é antes que reler um dos livros mais populares, escrito por encomenda do editor José Olympio, que tentava ajudar financeiramente o escritor baiano, recém-libertado da prisão no Rio de Janeiro, onde ficara detido por motivos políticos. É antes que reler as histórias da beira do cais da Bahia. O mar não é um mero cenário ou pano de fundo, mas protagonista dos grandes e pequenos dramas de pescadores, marinheiros, malandros, macumbeiros e prostitutas.

Ora doce e sereno, ora transbordante pela fúria, o mar da Bahia conduz a vida de Guma, jovem e destemido mestre de saveiro, dividido ente o amor de Lívia, que o faz desejar a estabilidade de um lar na parte alta da cidade, e o chamado de Iemanjá, que o atrai para as ondas e um dia o levará para as míticas terras de Aiocá, como levou seu pai.

O mar - um mundo de homens que saem para enfrentar o oceano - em suas batalhas pela sobrevivência - e das mulheres que o esperam, muitos deles repetindo o destino de pais e avós.


Praia Imbetiba - Macaé - RJ
Esta vista da praia de imbetiba, na cidade de Macaé, RJ, permeou minha infância (existiam dois trampolins nesta pedra à direita onde aprendi a pular e nadar no primeiro deles) e adolescência onde jovens passeavam bronzeadoas no fim de semana em frente a barracas de cachorro-quente em conversas animadas ou tomavam refrigerante e dançavam no extinto bar de madeira mocambo, ou simplesmente passeavam na brisa fresca em frente ao mar, em frente ao hotel panorama, que por vezes tinham grana para tomar um drink em ocasiões especiais.

Hoje esta mesma praia está verticalizada de hotéis muitas vezes vazios de clientes executivos mas cheios da presença da indústria nesta maravilhosa cidade eterna Princesinha do Atlântico mesmo que a queiram entitular a Rainha do Ouro Negro, a capital mundial do petróleo.

Foi olhando para esta paisagem no retorno do trabalho na última sexta-feira que não resisti em registrar a cena deste lindo céu lilás que sempre revigora nossos sonhos de saber que em oposição a tanto aço, a tanta necessidade da indústria se fazer presente para o crescimento deste país, a natureza estará lá falando mais forte. Neste pensamento, retorno ao tempo em que meu pai aos 19 anos chegou a esta cidade vindo da Bahia, a procura de trabalho deixando a Bahia onde o cacau já não imperava e a mão de obra se tornava escrava, depositando esperança na cidade de Macaé que bem o acolheu como a tantos trabalhadores que hoje vem de todas as partes do mundo e cada vez mais estarão aqui chegando devido as contingências cada vez mais evidentes de uma crise que se vislumbra a nível mundial onde o trabalho estará cada vez mais disputado, a mão de obra qualificada menos valorizada, escrava do sistema capitalista cada vez mais imperante.

Macaé é uma cidade que considero irmã da Bahia, similar em características de seu povo simples, alegre, que tem no mar um amplo campo de sustento. Foi talvez por isto que quando na adolescência li o livro de Jorge Amado, Mar Morto, me identifiquei tanto com seus personagens, suas lutas.

 O mar, cenário incontestável de esperança de continuidade de gerações muitas vezes traz surpresas, mostra sua força mas por vezes se deixa ficar e é nestes momentos que a vida simplesmente acontece, seja para um pescador, um marinheiro, um petroleiro.

Jorge Amado (1912 - 2001) foi um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX. Seus livros foram traduzidos para dezenas de idiomas e adaptados para o cinema, o teatro e a televisão. Entre seus livros mais famosos estão Capitães da Areia, Gabriela, cravo e canela, Dona Flor e e seus dois maridos, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua e Tenda dos Milagres.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mario Vargas Llosa - Sabres e Utopias - Visões da América Latina

Mario Vargas Llosa - Sabres e Utopias - Visões da América Latina

"A riqueza da América Latina está no fato de ela ser muitas coisas ao mesmo tempo, o que faz dela um microcosmo no qual coabitam quase todas as raças e culturas do mundo. Cinco séculos após a chegadas dos europeus às suas praias, serras e matas, os latino-americanos de origem espanhola, portuguesa, italiana, alemã, chinesa ou japonesa são tão oriundos do continente como os que têm seus ascendentes nos antigos astecas, toltecas, maias, quéchuas, aimarás ou caribes. E as marcas deixadas pelos africanos no continente, onde também estão há cinco séculos, estão presentes por todos os lados: nos tipos humanos, na fala, na música, na comida e até mesmo em certas formas de prática religiosa. Não é exagero dizer que não existe tradição, cultura, língua e raça que não tenha acrescentado alguma coisa a esse efervescente redemoinho de misturas e uniões que se realizam em todos os aspectos da vida na América Latina. Esse amálgama é o seu maior patrimônio: ser um continente que cerece de identidade justamente porque contém todas elas. E porque continua a se transformar todos os dias."
(Sabres e Utopias - p.317)
Vargas Llosa, Mario - Sabres e Utoias : Visões da América Latina / Mario Vargas Llosa; seleção e prefácio de Carlos Granés; tradução Bernardo Ajzenberg. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

"... A América Latina é e, ao mesmo tempo, não é a Europa. Não é Europa porque a América Latina é também o pré-hispânico e o africano que se fundiram ou convivem nela com o que nso chegou da Europa, bem como as diversas mestiçagens disso resultantes. Mas é Europa, por outro lado, porque dali vieram as línguas que a integram ao resto do mundo, as religiões, as crenças que organizaram a sua vida e a orte, as instituições que - boas ou ruins, bem ou mal aplicadas - regulam suas sociedades e foram as coordenadas dentro das quais os latino-americanos pensam, agem, gozam ou sofrem." (trecho de "Sabres e Utopias", pp.352-353).

Sabres e Utopias, um dos livros mais recentes de Vargas Llosa nos mostra que não só é um excelente romancista - "um dos melhores do mundo", nas palavras de John Updike -, mas também um crítico e ensaísta brilhante, e um exímio observador da história recente da América Latina.

Nos artigos reunidos neste livro, ele fala sobre os mais diversos temas: política, direitos humanos, literatura e artes plásticas, economia e História. Acima de tudo, Vargas Llosa se mostra um defensor aguerrido da democracia e liberdade.

"Conforme o ângulo de que é vista, a América Latina apresenta um panorama estimulante ou desolador. Da perspectiva política, não há dúvida de que este é o melhor momento de toda a sua história republicana. (...)
Esse processo de democratização política do continente não deve ser avaliado apenas com critérios estatísticos. O que ele tem de mais significativo é a sua natureza, ou seja, o fato de ser um processo autenticamente popular. Pela primeira vez em nossa história republicana, não foram as elites nem a pressão estrangeira o fator impulsionador para a formação de regimes civis e democráticos, mas sim, sobretudo, o povo, as amplas massas de mulheres e homens humildes já cansados de tanta demagogia e da brutalidade, seja das ditaduras militares, seja dos grupos e partidos revolucionários. (...)"


Ele ataca com precisão tanto os regimes militares de direita, corruptos e violentos, quanto as ditaduras de esquerda, que prometem utopias mas entregam somente repressão e autoritarismo.

Com respeito ao Brasil, ele faz análises impactantes sobre a situação política atual, constrói relatos comoventes sobre autores como Euclides da Cunha e Jorge Amado.

Vargas Llosa expressa "os riscos e esperanças frente a América Latina. Seus textos são construídos não por ordem cronológica mas por assuntos, tratando de temas polêmicos como revoluções, nacionalismo, populismo, indigenismo, corrupção - a maior das ameaças à credibilidade das democracias - até a descoberta das ideias liberais, sua defesa irrestrita do regime democrático e sua paixão pela literatura e pela arte latino-americanas."

Mário Vargas Llosa é jornalista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, e um dos mais importantes escritores da atualidade. Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, viveu em Paris na década de 1960 e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias ao longo dos anos.

Autor de uma extensa obra literária, foi vencedor dos prestigiosos prêmios Cervantes, Príncipe de Astúrias, PEN/Nabokov e Grinzane Cavour. O autorr divide seu tempo atualmente entre Londres, Paris, Madri e Lima. É autor, entre outros livros, dos romances Travessuras da menina má, Pantaleão e as visitadoras, Tia Julia e o escrevinhador e Elogio da madrasta, publicados no Brasil, pela Alfaguara.

Carlos Granés Maya nasceu em Bogotá, Colômbia, em 1975. É doutor em antropologia social pela Universidade Complutense de Madri e autor do livro La Revancha de la Imaginación: Antropología de los Procesos de Creación, Mario Vargas Llosa y José Alejandro Restrepo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Raul Bopp

Raul Bopp, 1962

"Jacarés em férias
mastigam estrelas que se derretem dentro d´água"

O gaúcho Raul Bopp, descendente de alemães criadores de gado, nasce no dia 4 de agosto, em Santa Maria - RS e morre em 2 de junho, no Rio de Janeiro, RJ. Aos 16 anos, fez sua primeira viagem, indo do Paraguai ao Mato Grosso a cavalo, só retornando ao Rio Grande do Sul quando decidiu estudar Direito. Mas seu anseio por viajar era tão grande, que ele deu um jeito de cursar a faculdade em cidades diferentes. Estudou em Porto Alegre, Recife, Belém e Rio de Janeiro.

Em Belém, começou a escrever Cobra Norato, onde narra as aventuras de um jovem depois de entrar no corpo da mitológica figura com formato de cobra sucuri, devoradora de quem invade seus domínios. Para descrever o vigor, a violência e o caos da floresta, Bopp recorreu a versos livres, sem obedecer aos critérios da poética estabelecida. Cobra Norato tem parentesco com o Macunaíma, de Mário de Andrade, e o Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, por suas origens comuns nas lendas da Amazônia, explorando o mito da viagem no tempo e no espaço.

Em 1926, o poeta chegou a São Paulo. A princípio se envolveu com o grupo Verde-Amarelo, tendência modernista de acento xenófobo, cujo principal nome era Plínio Salgado, mas logo se uniu a Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, sendo um dos responsáveis pela Revista de Antropofagia. Com a publicação de Cobra Norato e também de Urucungo - poemas negros, conquistou respeito e admiração. Oswald afirmou que, "em Cobra Norato, pela primeira vez, se realizou a poesia brasileira grandiosa e sem fraude".
Em 1932, o poeta ingressou na carreira diplomática. Serviu no Japão, em Los Angeles, Lisboa, Zurique, Barcelona, Guatemala, Berna, Viena e Lima, tendo sido embaixador na Áustria e no Peru. Ao se aposentar, em 1963, escreveu memórias de suas andanças pelo mundo e de sua participação no movimento modernista.
Aos 90 anos de idade, Raul Bopp partiu em sua última viagem.


Cobra Norato

Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

Vou andando caminhando caminhando
Me misturo no ventre do mato mordendo raízes

Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato

- Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar

A noite chega mansinho
Esrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra.

Agora sim
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo

Vou visitar a rainha Luzia
Quero me casar com a sua filha
- Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono escorregou nas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos


"Sentir-se-á, sempre, neste poema bizarro e vitalista (Cobra Norato), uma imagem de coisas brasileiras através da visão expressionista de um artista originalíssimo."
(Àlvaro Lins)


Obras do autor

POESIA: Cobra Norato, 1931; Urucungo - poemas negros, 1932; Poesias, 1947; Cobra Norato e outros poemas, 1954; Antologia poética, 1967; Putirum; poesias coisas do folclore, 1969; Mironga e outros poemas, 1978.

ARTIGOS E CRÍTICAS: América, 1942; Movimentos modernistas no Brasil, 1966.

PROSA: Notas de viagem: uma volta pelo mundo em trinta dias, 1960; Notas de um caderno sobre o Itamarati, 1960; Memórias de um embaixador, 1968; Coisas do Oriente, 1971; "Bopp passado a limpo" por ele mesmo, 1972; Samburá: notas de viagens & saldos literários, 1973; Vid e morte da antropofagia, 1977; Longitudes: crônicas de viagens, 1980.

EM COLABORAÇÃO: caminhos para o Brasil (com Américo R. Neto e Eng. Donald Derron), 1928; Geogragia mineral (com José Jobim), 1938. Sol e banana: notas sobre a economia no Brasil (com José Jobim), 1938.



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX

sábado, 8 de outubro de 2011

Conto de um hospital


Vagueando pelos corredores vazios onde até mesmo o enfermeiro cochilava um sono leve na cama improvisada embaixo do balcão da enfermaria os passos seguem até se depararem com a imagem em tela da intrigante venda nos olhos da mulher a amamentar o rebento. Talvez um quadro qualquer mas não para quem já havia naquele mesmo corredor presenciado o choro de uma mãe que perdera seu bebe quem sabe se foi a causa informada, o tão singelo ato de amamentar não concluído pela cria que se recusava a fisgar seu precioso leite. Mistérios que humanos não podem julgar ou adentrar em querer conhecer.

Melhor caminhar pelos corredores que ter gritos alucinantes em pesadelos anteriores, onde a sombra da morte ronda tantos quartos e por momentos ou falta de qualificação profissional enfermeiros anjos dão lugar a enfermeiros vampiros na noite a sugar o sangue de crianças inocentes que não podiam nem dormir o sono dos justos.

Momentos nobres são perceptíveis em um hospital - um coral em uma tarde ensolarada, quem sabe uma faxineira com um sorriso e uma fala mansa dê lugar ao aviso de silêncio que queira imperar no ambiente como a dizer: a saúde silencia em nosso país. Silencia a falta de recursos, a falta de diagnósticos, a falta de esperança.

Nestes momentos, a solidão é companheira e tão somente a presença de Deus pode tirar a desesperança reinante, pois os médicos, os enfermeiros, os profissionais da sáude são apenas membros auxiliares mas estão todos em coro a pedir socorro, tem olhos como da imagem, cegos de quem não querem ver, ou se veem não querem enxergar.



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