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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mário Benedetti - A borra do café

Mário Benedetti / A borra do café; tradução Ari Roitman e Paulina Wacht. - Rio de Janeiro: Record, 1998.

"Para onde vão as névoas, a borra do café, os calendários de outro tempo?"
(Júlio Cortázar)

"Rita teve então um gesto que pôs o ponto final, agora sim, na minha infância: me beijou. Foi na bochecha, ao lado da comissura dos lábios, e ela prolongou um pouquinho aquele contato. Tenho a impressão de que aquilo foi o meu primeiro esboço de felicidade. (...) Então eu também a beijei na bocheca, perto dos lábios, e ela sorriu, boníssima. Acho que gostou. Senti uma agitação nova, uma euforia quase heróica. Não era ainda, por razões óbvias, uma excitação sexual, mas digamos que fosse uma emoção pré-erótica."
(Mário Benedetti)

Iniciar bem o ano é ter acesso a um romance de Mário Benedetti. Uma conversa que se extende, tendo a infância que o personagem Cláudio percorre , em sua iniciação adolescente, em sua puberdade, os bairros de Montevidéu, graças à mobilidade doméstica da família, que mudava de lugar constantemente. Poderia ser a construção de sua  biografia por estar impregnado do passado como se fosse a vida em si, e o faz, metaforicamente, sem sair desse exílio em que vive e que nunca abandona.

São fatos cotidianos de Montevidéu que o autor explora, fáceis mas não simples, transparentes mas não vazios, líricos mas não piegas, contados todos com a poesia que é característica de sua obra narrativa. O livro transmite otimismo, é cálido e intranscendente, está escrito em sua contra-capa. Nada complicado, nada rebuscado, nada pretencioso. É, enfim, um desses que se tem que ler, não por nada, mas apenas porque sim, o que não é pouco. Digo, por ser de Benedetti, já se tem motivo suficiente.

Mário Benedetti nasceu em 1920 em Paso de los Toros. Em 1973, teve que sair de Montevidéu depois do golpe militar e foi viver em Madri. Com a redemocratização do país, voltou ao Uruguai, dividindo seu tempo entre os dois países. É autor de mais de 50 livros, entre eles, Quem de nós, Montevideanos, Correio do Tempo , A trégua, O amor, as mulheres e a vida, entre outros.

sábado, 19 de março de 2011

Mario Benedetti - Quem de nós

Quem de nós: uma história de amor / Mário Benedetti ; tradução Maria Alzira Brum Lemos. -
Rio de Janeiro : Record, 2007.

"Incorremos em vários erros, mas acho que o nosso grande equívoco, o mais irremediável, foi nunca falar sobre eles. A única franqueza possível, aquela que possui a maioria dos casais que diariamente se insulta, amaldiçoa e desfruta por igual de suas etapas de ódio e apaziguamento, foi isso que perdemos. Eles estão constantemente atualizando a imagem do outro, sabem reciprocamente a que se ater, mas nós estamos atrasados, você em relação a mim, eu em relação a você."

Após ler a poesia e a prosa descontraída de Mario Benedetti no livro Correio do tempo, conforme tópico anterior, difícil foi não reler o romance Quem de nós por pura saudade da prosa caudalosa de Benedetti.

Quem de nós é um romance extraordinário, retrata, ao longo de três partes, o triângulo amoroso entre os amigos Miguel, Alicia e Lucas, cujos laços afetivos remontam à infância, aos bancos escolares.

Em "Miguel", parte dedicada ao vértice mais delicado da relação, o leitor entra em contato com as anotações do marido que há poucos dias levara a esposa Alicia ao porto de Montevidéu, e cujo último aceno já era a certeza de que ela não mais voltaria; iria a Buenos Aires ao encontro de Lucas, com quem sempre partilhara os mesmos interesses. Ao longo de anos, os dois homens trocaram cartas, e sempre, ao pé da missiva, houve a furtiva intromissão da mulher: "carinhosas lembranças ao bom amigo Lucas".

Na parte dedicada a "Alicia", a narrativa ganha a forma epistolar, e a mulher explica em um longo texto ao ex-marido as razões de sua partida. É patente, nas palavras dela, sua desilusão em perceber que miguel, dono de uma enorme insegurança, acabou empurrando-a aos braços do amigo.

Por fim, a genialidade de Mario Benedetti se reafirma na última parte do livro. "Lucas" (escritor e tradutor) apresenta seu relato do triângulo sob os contornos de um conto, no qual personagens de sua ficção dialogam com os protagonistas desta primorosa novela de Benedetti, cuja genialidade lhe valeu um lugar no panteão dos maiores escritores da América Latina.

Belíssima narrativa!

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