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sábado, 4 de setembro de 2010

Knut Hamsun - fome

Fome - Knut Hamsun


Fome / Knut Hamsun; Tradução de Carlos Drummond de Andrade - São Paulo : Geração Editorial, 2009, Ficção Norueguesa, 171páginas.

"Naquele tempo, com a barriga na miséria, eu vagava pelas ruas de Cristiânia, cidade singular, que deixa marca nas pessoas..."

"Fome", belíssimo romance universal, tradução de Carlos Drummond de Andrade, prende a atenção do leitor não somente pelo fundo histórico da narrativa, dos tormentos de um escritor vagabundo e famélico que vaga pelas ruas atormentado com um toco de lápis, como o qual escreve crônicas para os jornais, dependendo disso para não morrer:

"Durante todo o verão vagueei pelos cemitérios ou no Parque do Castelo: aí me abancava e escrevia artigos para os jornais, colunas e mais colunas, sobre as coisas mais diversas: invenções estranhas, maluquices, fantasias de cérebro agitado. Em desepero, escolhia frequentemente os assuntos menos atuais, que me custavam longas horas de esforço e nunca eram aprovados. Acabado o artigo, atacava outro, e raramente me desencorajava pelo "não" dos redatores-chefes, dizia sempre a mim mesmo que acabaria vencendo. E, de fato, se estava de veia e o artigo saía bem feito, acontecia-me receber cinco coroas pelo trabalho de uma tarde."

Comovente, o livro descreve de forma tragicômica as agruras de um escritor miserável e vagabundo e todo um mundo de excluídos em labirintos pelas ruas da antiga Cristiania (hoje Oslo, capital da Noruega). Enquanto a vida pulsa, o personagem reflete de maneira profunda sobre o sentido da vida, sobre Deus, sobre o estar no mundo.

"A idéia de Deus voltou a preocupar-me. Era absolutamente injustificável de sua parte interpor-se toda vez que eu procurava um emprego, e estragar tudo, quando minha aspiração se resumia em ganhar o pão cotidiano. Eu observara muito bem que, se jejuasse durante um período bastante longo, era como se os miolos me escorresem suavemente do cérebro, esvaziando-o. A cabeça tornava-se leve, como que ausente; já não lhe sentia o peso sobre os ombros, e, se olhava para alguém, tinha a sensação de que meus olhos estavam fixos, arregalados.

Sentado no banco, e absorto nessas reflexões, sentia-me cada vez mais azedo com relação a Deus, por causa de suas insistentes provocações. Se ele supunha chamar-me para junto de si e aperfeiçoar-me pelo martírio, acumulando mortificações em meu caminho, estava um tanto enganado, podia garantir-lhe. levantei os olhos para o Altíssimo, quase chorando de orgulho desafiador, e disse-lhe essas coisas uma vez por todas, mentalmente."

Knut Hamsun, autor, foi estivador, lenhador, marinheiro, sapateiro, condutor de bonde, jornalista, cuidador de frangos. Viveu nos Estados Unidos, vagou pela Europa, e esta sua vida errante e de sofrimentos moldou-lhe o caráter, dando-lhe inspiração para criar seus vibrantes personagens. O escritor atormentado de "Fome" é ele mesmo. Controvertido, excêntrico, polêmico, avassalador e monumental em sua obra cheia de sangue, vida e furor. Knut Hamsun recebeu o Nobel de Literatura de 1920 e curiosamente perdeu o cheque no retorno do prêmio. Só ele! Hamsun nos deixou uma obra paradoxalmente plena de amarguras, sonhos e descrenças, mas também de alegrias, otimismo e esperanças. O personagem de "Fome" nos desperta pena, mas também admiração e até inveja. "O romancista universal da dor serena".

"À medida que as horas passavam, eu me via cada vez mais carcomido física e moralmente, e deixava-me levar à prática de ações cada vez menos honestas."

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