quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Galinho - Lígia Guedes Joaquim


Cartas e pássaros - Lígia Guedes Joaquim

Galinho ofuscava os olhos observando o jardim de margaridas reluzentes sobre as casas.
Pelo brilho que emitiam calculava que o dia ia à meio.
O olhar mudou de ponto.
Os barcos não retornaram, ficando apenas os enormes cargueiros que pela distância pareciam vermelhos barquinhos de papel, como os da bacia no quintal de sua infância.
A água do mar parecia brilhar mais que as parabólicas lá embaixo na cidade.
O sol escaldante impedia o raciocínio. Que dia seria? Que importava saber?
Permanecer no mirante tendo a cidade como distração era sua passagem do tempo.
Olhar a igreja com o Cristo azul de braços abertos a certeza de que vivia.
Azul. Quem pintou o Cristo?
O carteiro arrastando a bicicleta morosametne na subida do morro indicava que não chegara o fim da tarde.
Tempo de parcos recursos pelo trabalho que insistia em executar. Já o destituíram do posto sabia disto. Permanecer lhe rendia algumas parcas moedas vez por outra. Suficientes para o dono do bar não lhe pedir para sair do estabelecimento diariamente frequentado.
A fome apertou.
Já não sabia quantos dias estava sem ir a casa da velha lá embaixo do morro. Única que lhe atendia com uma refeição e um sermão. A exigência de sempre: levar o pote doado. Lembrara que fora verejado pela janela na última noite junto com a sua urina.
desceu vagarosamente em direção ao seu barraco.
A fome teria que esperar.
Pelo menos por mais um dia.

Cartas e pássaros / Lígia Guedes Joaquim - Rio de Janeiro : MDM Editora, 2015.

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