quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bernardo Carvalho - O sol se põe em São Paulo




"Lembro de um jantar especialmente desconcertante em que alguém na mesa gritava que, se não fosse pelo nazismo, o mundo não teria entendido e reconhecido os textos de Kafka, ou de quando alguém citou o exemplo de William Blake - autor do 'Casamento do Céu e do Inferno', que tínhamos estudado naquela mesma tarde, no curso de literatura inglesa -, reconhecido só depois de um século da sua morte, como lema da nossa fantasia de incompreendidos: "O que espanta é a incapacidade de ver, avaliar e fazer justiça no presente". Era uma boa fantasia." (...)

O sol se põe em São Paulo, Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 2007, surpreende, leitura cativante ao leitor desavisado. O livro abre em devaneios (chega a ser engraçado quando o autor sugere fazer um suicídio, ao professor, para provar sua tese literária, o que , lógico, não foi aceito) ao sugerir que toda literatura poderia ser um ensaio futurista da vida do autor entrelaçada à trama escrita.

" É lógico que não falei da minha tese à velha japonesa. Só um louco como o professor, podia me levar a sério. Eu tinha estudado a biografia dos escritores em busca de fatos que dessem sustentação aos meus argumentos, e me servi de um amálgama de todas essas vidas para contar a ela um pouco da minha. Eu me fazia passar pelo sujeito cujos livros de alguma forma anunciariam o meu futuro. Mas o que ela não sabia era que, como eu não tinha escrito livro nenhum, também não podia antecipar o meu destino e que, por isso, sem outra motivação, terminei por abandonar a própria tese."

O protagonista de O sol se põe em São Paulo, cliente, desempregado, separado, morador se São Paulo recebe a pergunta à queima-roupa "Você é escritor?" da idosa dona de um restaurante japonês, a que frequenta desde os tempos da faculdade e que vai mudar sua rotina e rota de vida ao se permitir adentrar nos obscuros caminhos das letras e daquele pacto em se tornar o escritor de uma história de vida.

"No segundo encontro, depois de me perguntar sobre escritores japoneses que eu não conhecia (foi a deixa, porque o pouco que eu sabia era nomes, e mesmo assim os confundia, já não podia dizer quem era quem e quem tinha escrito o quê) e de me deixar com a sensação de que tinha posto tudo a perder, ela me disse que da próxima vez nos veríamos na sua casa. Estava pronta. Eu devia ter desconfiado desde o início que, ao contrário das expectativas mais plausíveis, tudo dependia da minha ignorância e não do meu conhecimento. Ela contava com a minha ignorância. Quanto menos eu soubesse sobre a literatura e os escritores japoneses, melhor para ela, mais à vontade ficaria para me contar a história. Eu era a pessoa que ela procurava, um mentiroso, alguém que só podia ser o que era não sendo. O que me abriu as portas foi provavelmente dizer que não conhecia o escritor de quem ela queria falar, fosse ele quem fosse. E foi preciso que ela desaparecesse, dois meses depois do nosso primeiro encontro, para que eu me visse obrigado a apelar a outras fontes e, passando por acaso pelo nome de um entre os vários escritores japoneses de uma lista de livros que eu nunca lera, acabasse ouvindo de um ex-colega de mestrado, que havia se especializado na obra daquele autor, que a minha história mais parecia um dos seus romances."

Neste cenário que envolve a história do Japão e do Brasil, o triângulo amoroso relatado pela idosa japonesa traz a história de Michiyo, Jokici e Masukichi, que envolve um pária, um primo do imperador e o escritor Junichiro Tanizaki, é igualmente a sua própria história de exílio e humilhação. Seu empenho em narrá-la até o final, em salvá-la do esquecimento a todo custo, é também a única chance de redenção que lhe resta. 

Bernardo Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. É escritor e jornalista. Seus livros foram traduzidos para mais de dez idiomas.

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