sábado, 3 de outubro de 2015

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens
A revista Cidade Nova, Julho 2015, seção NA ESTANTE, por Fernanda Pompermayer apresenta crítica literária ao livro Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupéry, Editora Via Leitura, São Paulo, 2015, 176 páginas.

"No Brasil Saint-Exupéry é sinônimo de O pequeno príncipe, até hoje na lista dos livros mais vendidos. Mas o escritor francês é maior do que o seu pequeno-grande personagem e Terra dos homens, publicado em 1939, é uma prova disso. Nele o aficionado aviador relata parte da sua vida, sempre mergulhando nas profundezas mais íntimas de seu ser e compartilhando com o leitor suas reflexões.

Em 1926 Saint-Exupéry faz seu primeiro voo pela Companhia Geral Aeropostal, precursora da Air France.

Naquele tempo os aviões ainda eram rudimentares e voavam com instrumentos básicos. Em contrapartida os voos a baixa altitude permitiam um contato quase direto com o território sobrevoado: montanhas, planícies, geleiras, oceanos... À noite o firmamento tornava-se companhia silenciosa dos pilotos, que perscrutavam sua rota entre os sinais emitidos pelas estrelas.

O autor de Terra dos homens foi um dos pioneiros nesse tipo de navegação aérea de alto risco, percorrendo as primeiras rotas recém-inauguradas entre a América e a África, sobrevoando o Sahara, depois atravessando o Atlântico e transpondo a cordilheira dos Andes, para chegar a Buenos Aires, Rio de Janeiro e Assunção.

Essas experiências marcaram a sua vida e a sua visão de mundo.

"Aprendemos mais a nosso respeito com a terra", afirma, "do que com todos os livros". Porque ela nos opõe resistência. O homem descobre a si mesmo medindo-se com o obstáculo".

A aviação o colocava em contato com o cosmo, regido por leis imutáveis, e com o mundo habitado, que ele aprendeu a respeitar com uma enorme carga de humanismo.

"Ainda tenho diante dos olhos a imagem da minha primeira noite de voo na Argentina, certa noite escura em que cintilavam, como estrelas, as raras luzes dispersas na planície. Cada assinalava, no oceano de trevas, o milagre da consciência. Naquela casa, liam, pensavam, trocavam confidências. Em outras, talvez, sondavam o espaço, quebravam a cabeça em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Ali, amavam. De longe em longe, aquelas lareiras piscavam no campo, exigindo seu alimento. Até as ais discretas, como a do poeta, a do professor, a do carpinteiro. Mas entre aquelas estrelas vivas, quantas janelas fechadas, quantas estrelas apagadas, quantos homens adormecidos..."
Precisamos ousar uma aproximação.
Precisamos tentar comunicarmo-nos com algumas luzes que ardem de longe em longe no campo" (pp.6-7).
"As pessoas caminham muito tempo lado a lado, cada qual encerrada em seu próprio silêncio, ou então trocam palavras vazias. Na hora do perigo, porém, elas se aproximam umas das outras. Descobrem que fazem parte da mesma comunidade. Ampliam-se com a descoberta de outras consciências. Contemplam-se com grandes sorrisos. Como prisioneiros libertados que se maravilham com a imensidão do mar" (p. 39).

Em outras obras, como O aviador (1926), Correio do Sul (1929) e Voo Noturno (1931), Saint-Exupéry também descreve suas experiências na aviação. Em Terra dos homens os relatos incluem um resgate milagroso. Após um pouso forçado, consequência da pouca visibilidade noturna numa viagem de Bengazi (Líbia) ao Cairo, ele e seu companheiro de voo, Prévot, passam 14 dias perdidos no deserto, sem água, sem comida, sem reparo. Quando as forças chegam ao fim e o físico começa a dar sinais de que a sobrevivência é questão de horas, uma miragem revela-se verdadeira. Um beduíno montado num camelo se materializa no horizonte. Pouco a pouco se aproxima e lhes oferece salvação.

"Quanto a você que nos salvou, beduíno da líbia, você se apagou para smepre de minha memória. Nunca recordarei seu rosto. Você é o homem, e aparece para mim com o rosto de todos os homens. Você nunca tinha nos visto, mas nos reconheceu. Você é o irmão bem-amado. Eu o reconhecerei em todos os homens." (p. 150).



2 comentários:

  1. Eu gostei desse livro, Lígia Guedes. Hoje vou começar Voo Noturno, empresto depois, se quiser. bj

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  2. Obrigada Regina.
    Voo Noturno é um belo livro.

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