quarta-feira, 7 de março de 2012

La Fontaine - fábulas - ilustradas por Gustavo Doré



"Sirvo-me de animais para instruir os homens.
Algumas vezes oponho, através de uma dupla imagem
O vício à virtude, a tolice ao bom senso.
(...)
Uma moral nua provoca o tédio:
O conto faz passar o preceito com ele,
Numa espécie de fingimento, é preciso instruir e agradar
Pois contar por contar, me parece de pouca monta."
(Jean de La Fontaine)

La Fontaine fábulas, ilustradas por Gustavo Doré, Vol. I e II, editora Landy, 2003 é um livro para se ler antes de dormir como nos tempos infantis. Leitura leve, irreverente, para todas as faixas etárias. Consigo imaginar o impacto que o autor causava nos leitores da época em que escrevia e publicava seu maravilhoso trabalho, tão atual até os dias de hoje. Um livro imprescindível na estante.


FÁBULA VII

O VELHO, O RAPAZ E O BURRO

O mundo ralha de tudo,
Tenha ou não tenha razão,
Quero contar uma história
Em prova desta asserção.

Partiu um velho campônio
Do seu monte ao povoado;
Levava um neto que tinha,
No seu burrinho, montado.

Encontra uns homens que dizem:
"Olha aquela que tal é",
Montado o rapaz, que é forte,
E o velho trôpego a pé!

- Tapemos a boca ao mundo,
O velho disse: - Rapaz,
Desde do burro, que eu monto,
E vem cainhando atrás".

Monta-se, mas dizer ouve:
"Que patetice tão rata!
O tamanhão no burrinho,
E o pobre pequeno à pata!

- Eu me apeio, diz, prudente,
O velho de boa fé;
Vá o burro sem carrego,
E ambos vamos a pé".

Apeiam-se, e outros lhes dizem:
"Toleirões, calcando a lama!
De que lhes serve o burrinho?
Dormem com ele na cama?

- Rapaz, diz o bom do velho,
Se de irmos a pé murmuram,
Ambos no burro montemos,
A ver se ainda nos censuram".

Montam, mas ouvem de um lado:
"Apeiem-se, almas de breu,
Querem matar o burrinho?
Apost que não é seu!

Vamos ao chão, diz o velho,
Já não sei que hei de fazer!
O mundo está de tal sorte,
Que não se pode entender.

É mau se monto no burro,
Se o rapaz monta, mau é;
Se ambos montamos, é mau,
E é mau se vamos a pé!

De tudo me tem ralhado;
Agora que mais me resta?
Peguemos no burro às costas,
Façamos inda mais esta!

Pegam no burro; o bom velho
Pelas mãos o ergue do chão,
Pega-lhe o rapaz nas pernas,
E assim caminhand vão.

"Olhem dois loucos varrido!
Ouvem com grande sussurro, -
Fazendo mundo às avessa,
ornados burros do burro!"

O velho, então, pára, e exclama:
"Do que observo me confundo!
Por mais que a gente se mate,
Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,
Sirvam-nos estas lições;
É mais que tolo quem dá
Ao mundo satisfações".

CURVO SEM MEDO

Esta edição, traduzida por poetas brasileiros e portugueses, como Raimundo Corrêa, Machado de Assis, Bocage, Filinto Elísio entre outros, mais se enriquece com as ilustrações de Gustavo Doré, famoso ilustrador que também produziu criações para o D. Quixote, A Divina Comédia e Orlando Furioso, obras-primas da literatura universal.

São apresentados quatro livros com as mais belas fábulas:

Livro Primeiro
O lobo e o cão (Barão de Paranapiacaba)
O velho e a morte (Gonçalves Crespo)
O burro vestido com a pele do leão (Curvo Semmedo)
Ossos do ofício (João de Deus)
O rato anacoreta (Costa e Silva)
O leão e outros animais (Fernando Leal)
A raposa e as uvas (Bocage)
O bêbado e sua mulher (E. A. Vidal)
O leão que vai à guerra (Filinto Elísio)
O leão e o mosquito (J. I. D´Araujo)
O lobo e o grou (a cegonha) (Malhão)
Os animais enfermos da peste (Machado de Assis)
O leão velho (Bocage)
O rato da cidade e o do campo (Barão de Paranapiacaba)
O burro e os donos (Curvo Semmedo)
Os dois pombos (José Antonio de Freitas)
O lobo e o cordeiro (Barão de Paranapiacaba)
O homem e a sua imagem (Teófilo Braga)


Livro Segundo
O homem e o bosque (Costa e Silva)
A morte e o desgraçado (Gomes Leal)
O corvo e a raposa (Bocage)
A andorinha e os outros passarinhos (B. de Paranapiacaba)
O homem de meia idade (Couto Guerreiro)
O gato e o macaco (Garcia Monteiro)
A raposa e a cegonha (J. I. D´Araujo)
O veado enfermo (Filinto D´Almeida)
O leão vencido pelo homem (Bocage)
A panela de ferro e a panela de barro (Acácio Antunes)
Os lobos e as ovelhas (J. I. D´Araujo)
A ingratidão dos homens acerca da fortuna (Filinto Elísio)
As rãs que pedem rei (Barão de Paranapiacaba)
Os médicos (Curvo Semmedo)
O filósofo cita (J. Mariano de Oliveira)
O camelo (Couto Guerreiro)
O avarento que perdeu o tesouro (Ramos Coelho)
O leão caçando com o burro (Barão de Paranapiacaba)
A lebre e as rãs (E. A. Vidal)

Livro Terceiro
Os mateiros e mercúrio (Costa e Silva)
Os zangãos e as abelhas (Barão de Paranapiacaba)
O leão doente (Curvo Semmedo)
Os dois dragões (Júlio de Castilho)
A cerva e a vide (Couto Guerreiro)
O mono e o leopardo (Silva Ramos)
O leão e o caçador (Barão de Paranapiacaba)
O rato e o elefante (A. Lopes Cardoso)
A raposa derrabada (Curvo Semmedo)
Os ladrões e o asno (Gomes de Amorim)
O sol e o vento (Couto Guerreiro)
Os dois touros e a rã (Barão de Paranapiacaba)
A ostra e os pleiteantes (Filinto Elísio)
A leoa e a ursa (Raimundo Correa)
As orelhas da Lebre (Curvo Semmedo)
A águia e o mocho (Jaime Vitor)
O lavrador e seus filhos (Couto Guerreiro)
O gato e o rato velho (José Antonio de Freitas)
O sol e as rãs (Antonio Pitanga)
O carvalho e a cana (José Ignácio D´Araujo)

Livro Quarto
O congresso dos ratos (Barão de Paranapiacaba)
O menino e o mestre-escola (João C. de Menezes e Souza)
A fortuna e o rapaz (Couto Guerreiro)
O passarinho, o açor e a cotovia (Maximiliano D´Azevedo)
O pastor e o mar (Filinto Elísio)
O marido, a mulher e o ladrão (Hipólito de Camargo)
O velho, o rapaz e o burro (Curvo Semmedo)
O macaco (Barão de Paranapiacaba)
O mergulhão, a silva e o morcego (Couto Guerreiro)
A torrente e o rio (Silva Ramos)
O cisne e o cozinheiro (Filinto Elísio)
O porco, a cabra e o carneiro (J. I. D´Araujo)
A cotovia e os filhos (Curvo Semmedo)
O milhafre e o rouxinol (Barão de Paranapiacaba)
Os dois galos (Couto Guerreiro)
O estatuário e a estátua de Júpiter (Raimundo Corrêa)
O doido que vende siso (Barão de Paranapiacaba)
O elefante e o macaco de Júpiter (Dr. Brasílio Machado)
O homem e a cobra (Costa e Silva)
Os peixes e o pastor que toca flauta (J.I.D´Araujo)

La Fontaine nasceu em 1621 em Château-Thierry. Em 1647 foi para Paris, onde iniciou carreira literária. Frequentou a Corte de Luis XIV e os meios literários parisienses. Chegou a frequentar um grupo de que faziam parte Racine, Boileau e Moliére. Escreveu contos, cultivou a poesia, também escreveu a comédia "Climene". Mas são as suas Fábulas que ganharam fama. Para escrevê-las tomou temas de Esopo e Fedro e da mitologia clássica. Tratou esses temas de modo reinventivo. Como bom poeta que foi, soube manejar o verso com brilho, o que resultou em um belo conjunto, atraente pela leveza e pelo espírito irreverente e irônico que nele imprimiu. Por isso suas fábulas resistiram ao tempo e continuam a atrair leitores de todo o mundo.

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