terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Lígia Guedes Joaquim - Cartas e pássaros

"Cartas e pássaros" nasceu!

Foi emocionante o lançamento no dia 29.01.2016, com a presença de amigos, família e novos leitores.

A emoção, o carinho pelas letras invadiu o ambiente fazendo crer que vale a pena o caminho da literatura!

Cartas e pássaros -
Lígia Guedes Joaquim






Email para aquisição da obra: ligiajoaquim@yahoo.com.br

sábado, 16 de janeiro de 2016

Convite - Lançamento do livro "Cartas e pássaros"



É com alegria que convido os amigos para o lançamento do meu primeiro livro "Cartas e pássaros", onde são apresentados 13 contos: Alça de caixão, A pescaria, Cara da avó, Cartas e pássaros, Fluxo de consciência, Homenagem, Galinho, O acidente, Pai Nosso, Papagaios, Porta de igreja, Verão, 202.



Sinopse da contra-capa:

"A autora, desde tenra idade, descobriu o prazer de brincar com as letras e apreciar o azul profundo do mar na Princesinha do Atlântico, Macaé, litoral do Estado do Rio de Janeiro.

Gosta de observar o olhar dos homens do mar, sejam eles pescadores ou trabalhadores da indústria, onde a diversidade de rostos e cultura é uma constante.
Assim transparecem os contos "A pescaria", "O acidente", "Homenagem" e "Cartas e Pássaros".

Retrata ainda a exclusão em um mundo farto de recursos nos contos "Cara da avó", "Galinho", "Pai Nosso", "Papagaios" e "Porta de igreja".

Espelhos sociais são apresentados nos contos "202", "Fluxo de consciência", "Verão" e "Alça de caixão", onde a frágil vida pode esvair-se como o sopro de uma leve brisa alçando novos rumos, como o voo de um pássaro.

Contacto para aquisição da obra: ligiajoaquim@yahoo.com.br


domingo, 27 de dezembro de 2015

Stendhal - A cartuxa de Parma

Stendhal - A cartuxa de Parma

A cartuxa de Parma, Stendhal, Penguin - Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

A cartuxa de Parma é um digno retrato de sua época. Stendhal (pseudônimo usado na literatura pelo francês Henri-Marie Beyle) escreveu essa obra-prima de 617 páginas com rapidez inacreditável: apenas 53 dias!, e a publicou em 1839. O autor é conhecido também por outro é conhecido também por outro famoso romance, O vermelho e o negro - que não deve ser confundido com o filme O escarlate e o negro, de Jerry London (1983), protagonizado por Gregory Peck. Esse romance foi considerado pela crítica um exemplo antecipado do realismo literário. Sua marca registrada são a perspicácia e a delicadeza na análise psicológica dos personagens. Houve até quem o comparasse a O Príncipe, de Maquiavel, contextualizado em outra época.

No início do século XIX a Europa ainda respirava o cheiro de pólvora das guerras napoleônicas e vivia em grande instabilidade política, cenário perfeito para intrigas partidárias, arroubos de nacionalismo e, principalmente, ambições desenfreadas pelo poder.

A história, que curiosamente apenas no final faz alusão à cartuxa que lhe dá o título, acontece entre os campos de batalha franceses e a ensolarada região de Parma, na época um dos muitos reinos da Itália. A prosa ágil de Stendhal e a estrutura da trama dão ainda mais requinte às intrigas e conspirações de bastidores, potencializadas por recursos como cartas anônimas e envenenamentos. O livro demorou para emplacar, mas em compensação recebeu elogios de notáveis da época. Balzac o considerou o  mais significativo romance do seu tempo e até deu conselhos a Stendhal para que enxugasse o texto, tornando-o mais fluido e profundo. Para André Gide foi o maior romance francês. Para completar, Tolstói confessou que encontrou na obra de Stendhal inspiração para a sua monumental Guerra e Paz (1865-1869). Assim como o personagem central de A Cartuxa de Parma, Fabrice Del Parma, Fabrice Del Dongo vagueia pelo fronte da batalha de Waterloo perguntando-se se aquilo era realmente a guerra, mais tarde Pierre Bezukhov, em Guerra e Paz, caminhará perplexo, entre os canhões da Terceira Coalizão russa contra Napoleão, em busca de um sentido para a vida.
Nesse dia, o exército, que acabava de ganhar a batalha de Ligny, estava em plena marcha para Bruxelas; era véspera da batalha de Waterloo. Por volta do meio-dia, a chuva torrencial continuava e Fabrice ouviu o troar do canhão; essa felicidade o fez esquecer por completo os horríveis momentos de desespero que aquela prisão tão injusta acabava de provocar.
Andou até noite muito avançada, e como começava a ter algum bom senso foi tentar alojamento numa casa de camponês muito distante da estrada.
Esse camponês chorava e alegava que lhe tinham levado tudo; Fabrice lhe deu um escudo e ele encontrou aveia. (...)
Uma hora antes de o dia raiar, Fabrice estava na estrada e, com muitos afagos, conseguiu fazer seu cavalo pegar um trote. Por volta das cinco horas, ouviu o canhoneio: eram as preliminares de Waterloo. (p. 69).

Fonte: Cidade Nova - Dezembro 2015, n. 12, Na Estante, por Fernanda Pompermayer.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Omar Khayyam - Rubaiyat (de Franz Toussaint)

Omar Khayyan - Rubaiyat
Rubaiyat (Omar Khayyam); tradução Manuel Bandeira (de Franz Toussaint). - Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

Um mistério: assim este livro chega a minhas mãos.

Após uma mudança de espaço físico no trabalho, eis que sob a minha mesa aparece o livro Rubaiyat, com belíssima capa, impressionando a primeira vista.

Procuro pelo dono sem êxito. Resolvo levá-lo para leitura.

Basta ler uns versos para saber a jóia que ficou perdida em minha mesa.

Imaginá-lo sendo escrito no século XI por um poeta persa que se tornou um dos autores mais populares do mundo foi um imenso prazer.

Omar Khayyan é um fenômeno, e recriado por muitas mãos, o que de certa forma gera polêmicas acerca da tradução de suas obras.

Nesta edição Manuel Bandeira optou por trabalhar sobre a tradução francesa de Toussaint (1923), pois achava que a edição inglesa de FitzGerald (1859), que popularizou Omar Khayyam no Ocidente, sendo "primorosa" do ponto de vista literário, é, do ponto de vista da fidelidade ao texto original, "inaproveitável".

Assim segue a polêmica sobre quantas "quadras" Omar deixou. Seriam 206 conforme edição iraniana de 1461 ou 464 de acordo com a edição francesa de J.B. Nicolas (1857), que trabalhava na embaiada francesa em Teerã. Seriam as 178 da edição em Teerã, em 1943, ou as 121 da edição dinamarquesa de 1927?

Importante astrônomo, matemático e pensador em sua época, chegou a nós como poeta. Sua poesia sobreviveu à sua ciência e aos seus tradutores.

Há qualquer coisa intrigante e misteriosa que faz com qeu leitores de uma era eletrônica e globalizada se deliciem com essa poesia simples e intemporal, já alerta Affonso Romano de Sant´Anna na contra-capa do livro.

Melhor que saber sobre o autor é ler suas poesias, certamente.

Ah, não procures a felicidade!
A vida dura o tempo de um suspiro.
Djemchid e Kai--Kobad hoje são poeira.
A vida é um sonho; o mundo, uma
[miragem.

sábado, 3 de outubro de 2015

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens
A revista Cidade Nova, Julho 2015, seção NA ESTANTE, por Fernanda Pompermayer apresenta crítica literária ao livro Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupéry, Editora Via Leitura, São Paulo, 2015, 176 páginas.

"No Brasil Saint-Exupéry é sinônimo de O pequeno príncipe, até hoje na lista dos livros mais vendidos. Mas o escritor francês é maior do que o seu pequeno-grande personagem e Terra dos homens, publicado em 1939, é uma prova disso. Nele o aficionado aviador relata parte da sua vida, sempre mergulhando nas profundezas mais íntimas de seu ser e compartilhando com o leitor suas reflexões.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Krishna Monteiro - O que não existe mais

Krishna Monteiro -
o que não existe mais

Monteiro, Krishna - O que não existe mais - São Paulo : Tordesilhas, 2015.

domingo, 16 de agosto de 2015

Carla Guedes - Voadoras

Carla Guedes

E lá vão as moças
Seguindo a Orquestra
Recolhendo mínimas,
Semínimas e sinonímias.
Sonhos na grama e no asfalto
Feito confete
Sonhos nas mãos e nos dedos
Grudados como
Purpurina.

A chuva faz que cai,
mas não cai
A chuva faz que vem,
mas não vem
Vem!
E chove.

[Pausa!]

Esboçam no dia um sorriso bobo
Que é pra cantarolar alegrias,
Recosturar fantasias,
E dar a cara pro vento
Nessa vida que anda numa corda
Bamba!
Na leveza da valsa, do riso, e batuque
Samba!
Estandarte é o coração.

E seguem as moças,
E deixam a Orquestra,
Espantando uma folia fora de época:
Solidão.

(Carla Guedes)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Charles Dickens - Grandes Esperanças

Charles Dickens - Grandes Esperanças

"O lar nunca fora um lugar muito agradável para mim, por causa do temperamento da minha irmã. Mas Joe o santificava, e antes eu acreditava no meu lar. Antes eu acreditava na sala de visitas de cerimônia, como um salão dos mais elegantes; acreditava na porta da frente, como um portal misterioso do templo sagrado cuja abertura solene era marcada por um sacrifício de aves assadas; acreditava na cozinha como um cômodo casto, ainda que não magnífico; acreditava na ferraria como o caminho reluzente da maturidade e da independência. No decorrer de um ano, tudo isso mudara. (...) A mudança ocorrera em mim; era um fato consumado. Bom ou mau, desculpável ou indesculpável, era um fato" (p.166).

quinta-feira, 4 de junho de 2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

F. Scott Fitzgerald

F. Scott Fitzgerald
1896 - Em 14 de setembro, em Saint Paul, Minnesota, Estados Unidos, nasce Francis Scott Key Fitzgerald.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Macaé - RJ - Brasil - Praia Campista e plataforma - por Gladstone Peixoto



Macaé - RJ - Brasil
Nas lentes do meu amigo Gladstone Peixoto, um pedacinho da cidade de Macaé, que fica localizada no Estado do Rio de Janeiro, Brasil, a Princesinha do Atlântico, dita capital nacional do petróleo.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Muriel Barbery- A elegância do ouriço

A elegância do ouriço -
Muriel Barbery

"Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem."

Surpreendente o livro A elegância do ouriço! Linguagem leve, poética, aprofundada sobre a vivência humana, o sentido da vida, o estar no mundo. Trata com maestria as inter-relações.

"Qual é essa guerra que travamos, na evidência de nossa derrota? Manhã após manhã, já exaustos com todas essas batalhas que vêm, reconduzimos o pavor do cotidiano, esse corredor sem fim que, nas derradeiras horas, valerá como destino por ter sido tão longamente percorrido. Sim, meu anjo, eis o cotidiano: enfadonho, vazio e submerso em tristezas. As alamedas do inferno não são estranhas a isso; lá caímos um dia por termos ficado ai muito tempo. De um corredor às alamedas: então se dá a queda, sem choque nem surpresa. Cada dia reatamos com a tristeza do corredor e, passo após passo, executamos o caminho da nossa sombria danação.
Ele terá visto as alamedas? Como se nasce, depois de se ter caído? Que pupilas novas em olhos calcinados? Onde começa a guerra, e onde cessa o combate?
Então, uma camélia.

Sensível quando desnuda a alma humana seja através da história de Renée, zeladora de um prédio luxuoso no coração de Paris, tendo o coração amante da literatura (seu gato se chama Leon em homenagem a um escritor Russo) e da arte.

"Para que serve a Arte? Para nos dar a abreve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a Arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, apõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos."

A também moradora do prédio, a adolescente Paloma, que tem por projeto se suicidar no dia do seu aniversário colocando fogo no seu luxuoso apartamento caso não encontre um sentido para sua vida de inadaptação ao meio em que vive revelado em seu diário onde mantém anotações: os Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo desenvolve um raciocínio de pura filosofia.

"A eternidade nos escapa.
Nesses dias, em que soçobram no altar de nossa natureza profunda todas as crenças românticas, políticas, intelectuais, metafísicas e morais que os anos de instrução e educação tentaram imprimir em nós, a sociedade, campo territorial cruzado por grandes ondas hierárquicas, afunda no nada do Sentido. Acabam-se os ricos e os pobres, os pensadores, os pesquisadores, os gestores, os escravos, os gentis e os malvados, os criativos e os conscienciosos, os sindicalistas e os individualistas, os progressistas e suas cartas e risos, seus comportamentos e enfeites, sua linguagens e seus códigos, inscritos na carta genética do primata médio, significam apenas isto: manter o própria nível ou morrer."

Kakuro Ozu, novo morador do prédio, dono de gatos com nomes de personagens russos entra em cena contracenando com as caras protagonistas dando novo sentido a suas vidas e busca da felicidade.

Final surpreendente. Recomendadíssimo!

Muriel Barbery nasceu em Bayeux, em 1969. Ex-aluna da École Normale Supérieure, em Paris, atualmente leciona filosofia na Normandia, onde mora. Estreou na literatura com o romance Une gourmandise (2000), traduzido em doze línguas. Seu segundo livro, A elegância do ouriço, foi uma das grandes sensações literárias de 2006 na França.

sábado, 11 de abril de 2015

Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros

Leonardo Padura
O sonho virou pesadelo assim é o título da matéria "Na Estante" , por Fernanda Pompermayer (fernanda@cidadenova.org.br), na edição Cidade Nova, Março 2015, n. 3, que faz análise da obra literária O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, Editora Boitempo, São Paulo, 2013, 592 páginas. Vejamos:

A história de Leon Trostky, um dos pioneiros do socialismo soviético, inspirou várias biografias, filmes e outros relatos. O que o cubano Leonardo Padura fez em O homem que amava os cachorros foi escrever uma obra completa, muito interessante, no típico estilo romance histórico. São quase 600 páginas bem recheadas, que assustam os pouco inclinados a grandes empreitadas literárias e são a delícia dos leitores contumazes.
Até a página 200, mais ou menos, a história parece não decolar e o livro "não pega". Mas a perseverança e a teimosia do leitor são largamente premiadas com o que se desenrola daí para a frente, com os personagens bem situados, a trama engatilhada. E, mesmo sabendo o desfecho do livro, por ser um fato histórico, não dá mais para largá-lo.
O livro reconstrói a trajetória de Trotski, desde a expulsão da União Soviética por ordem de Stalin, a sua peregrinação de exilado, até sua última etapa, o México.
Paralelamente, o percurso do seu algoz, o catalão Ramón Mercader, passa pelos frontes da Guerra Civil Espanhola onde lutou, até os campos de treinamento da elite militar soviética, que o transformaram em "uma máquina obediente e impiedosa".
Talvez a grandeza maior deste livro esteja no incentivo à reflexão. Ela nos mostra um Trotski inconformado com o cerceamento de sua liberdade. Um idealista convencido de que ainda tem um pape a desempenhar no palco da história mundial. Portanto, um homem obstinado, que escreve, tenta incitar um rearranjo revolucionário paralelo ao que se instalou na Rússia, servindo-se dos ânimos inflamados que percorrem a Europa.
E em todo esse tempo de amarguras e desilusões, poucos consolos e constantes traições, Trotski pensa. Pensa no que fez, no que deixou de fazer, no que deveria ter feito, no que estão fazendo em nome da "sua" revolução.
"Com a esperança de que ainda fosse possível salvar a revolução, ele [Trotski] tentava desligar o marxismo da deformação stalinista (...) " E questiona: "O que restaria da experiência mais generosa jamais sonhada pelo homem? Nada. Ou restaria, para o futuro, a marca de um egoísmo que tinha usado e enganado a classe trabalhadora mundial permaneceria a lembrança da ditadura mais férrea e desprezível que o delírio humano poderia conceber. A União Soviética legaria ao futuro o seu fracasso e o medo de muitas gerações à procura de um sonho de igualdade que, na vida real, se transformara no pesadelo da maioria" (p. 213).
As dúvidas o atormentam: "A teoria marxista, que ele e Lenin utilizavam para validar todas as suas decisões, nunca considerara a circunstância de os comunistas, uma vez no poder, perderem o apoio dos trabalhadores. Pela primeira vez desde o triunfo de Outubro deveriam ter se interrogado (...) se era justo instaurar o socialismo contra ou à margem da vontade majoritária. A ditadura do proletariado deveria eliminar as classes trabalhadoras, mas deveria reprimir também os trabalhadores? A alternativa teria sido dramática e maniqueísta: não era possível permitir a expressão da vontade popular, porque esta poderia reverter o próprio processo. Mas a abolição dessa vontade privava o governo bolchevique da sua legitimidade essencial: chegado o momento em que as massas deixaram de acreditar, impôs-se a necessidade de fazê-las acreditar pela força. E aplicaram a força. A Revolução tinha começado a devorar os próprios filhos, e a ele coubera a triste honra de dar a ordem que abrira o banquete" (p.83).

sexta-feira, 13 de março de 2015

Gabriel García Márquez - Eu não vim fazer um discurso

Gabriel García Márquez

A revista Cidade Nova, na sessão de literatura, por Fernanda Pompermayer, apresenta a obra do mestre Gabriel García Márquez, "Eu não vim fazer um discurso", editora Record, Rio de Janeiro, 2011.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Tim Maia - filme

Tim Maia

Esperava mais poesia na história de um ícone da música brasileira, uma das vozes mais cristalinas que já encantou multidões.
A  abordagem do filme que passa da infância à vida adulta do cantor Tim Maia pode ser realista mas não creio que a vida do nosso caro cantor tenha sido somente confusão, desencontros e um final com a total decadência do cantor.
Tim Maia foi por décadas querido pelo público.
Ninguém pode negar a história de um homem mas creio que a forma como se conta uma história em que as abordagens não sejam focadas nas lentes onde o negativo é tido como ênfase merece ser revisto.
Esperava mais desta história como sei que o foi pois um cantor que compõe tão belas canções não pode ser somente o controverso personagem focado pela lente deste filme.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ricardo Lísias - O céu dos suicidas

Ricardo Lísias
O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias é um romance de fácil e rápida leitura.
Hilário por apresentar humor embutido na narrativa de repetições que reforçam e compõem o personagem principal, um colecionador na juventude, reforçando suas angústias existenciais.
O autor empresta seu nome ao personagem que  passa por um sofrimento que se agrava ao longo da narrativa quando não aceita o fato de que seu amigo que se suicidara não tem um lugar ao céu. Pelo menos do ponto de vista da procurada aceitação espiritual para o amigo através das religiões por que procura uma resposta, ou um céu ao morto.
Percorre o caminho de alívio a suas angústias quando tenta encontrar nos locais onde o amigo morto percorreu resposta ao seu sentimento, a culpa por não ter prestado ajuda ao moribundo quando o procurara em vida.
Assim, passa da faculdade ao manicômio onde André, seu melhor amigo vivera, encontrando nos outros respostas a si mesmo, seja através da não aceitação da fala alheia quanto da necessidade de um contacto físico, um alento de um idoso qualquer, um médico, uma transeunte, como alívio de suas dores.
A medida que avança à busca de respostas de significação de vida à vida do amigo morto também percorre essa busca à suas necessidade de existência.
Assim vai tecendo a trama que de certa forma tem uma narrativa exagerada até chegar ao ápice das angústias e sofrimentos físicos e psíquicos do conturbado personagem.




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Isabel Allende - Contos de Eva Luna

Isabel Allende
Recebi hoje do grupo do facebook Bolsa-Leitura, coordenado por minha amiga leitora compulsiva Maria Luiza, o livro da autora Isabel Allende: Contos de Eva Luna.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Doador de Memórias


Sinopse:
Uma pequena comunidade vive em um mundo aparentemente ideal, sem doenças nem guerras, mas também sem sentimentos. Uma pessoa é encarregada a armazenar estas memórias, de forma a poupar os demais habitantes do sofrimento e também guiá-los com sua sabedoria. De tempos em tempos esta tarefa muda de mãos e agora cabe ao jovem Jonas (Brenton Thwaites), que precisa passar por um duro treinamento para provar que é digno da responsabilidade.

O doador de memórias remete a outro filme com sinopse aqui no blog: A vila.
Apesar da comparação absurda, os filmes tem tema em comum: poderia uma sociedade ditada por regras humanas estar em paz em um ambiente sem violência e sendo feliz é a proposta de questionamento.
Assim como em A Vila, O doador de memórias relata uma comunidade que tem limites em termos espaciais para viver, que tem regras ordenadas pelos mais velhos visando viverem em harmonia, sem violência e de forma igualitária.
Seria possível excluir do homem seu instinto natural, seus sentimentos, suas percepções e ainda assim construir um ambiente feliz de convívio mútuo, onde o conceito de felicidade é ditado por regras já pré definidas, interroga a narrativa do filme O doador de memórias.
As regras estipuladas pelo homem quando este está fugidio de seu instinto são regras seguras, caminhos seguros questiona o filme.
Assim como em A Vila pode ser questionado em quantas espaços "protegidos" tem o homem procurado se isolar visando a busca por segurança.
Bom filme para refletir o quão humanos somos nos erros e acertos. O quão de erros já nos guiaram a caminhos melhores mas o quão de erros ainda não temos percepção de vislumbrar pois o homem vive em comunidades diversificadas, onde o belo é a diversidade, mesmo que para isto ainda amadureça e saiba conviver em harmonia consigo e com o próximo.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Henry Fielding - vida e obra

Henry Fielding
1707 - Nasce em 22 de abril, em Sharpham Park, condado de omerset, Henry Fielding, filho de Edmund e Sara Fielding.
1718 - Morre a mãe de Henry, Sara Fielding. Henry frequenta o colégio na cidade de Eton.
1726 - Inicia do curso de Direito em Leiden.
1728 - Muda-se para Londres. Encena sua primeira comédia, O Amor sob Diversas Máscaras.
1730 - Apresenta as comédias O Galante do Templo, A Farsa do Autor e Thomas Ressucitado ou A História Completa da Vida e das Maravilhosas Ações de Tom Thumb.
1734 - Em novembro casa-se com Charlotte Cradock.
1736 - Estréia a peça burlesca Pasquin, com grande êxito.
1737 - Estréia a peça satírica Registro Histórico para 1736. Em novembro Fielding retoma os estudos de Direito.
1740 - Fielding passa a trabalhar no fórum londrino.
1741 - Samuel Richardson publica o romance Pamela. Morre Charlotte.
1743 - Apresenta a peça O Dia do Casamento.
1746 - m novembro casa-se com Mary Donald e transfere residência para Twickenham, perto de Londres.
1749 - Em fevereiro publica Tom Jones (*), a história de um Enjeitado, em seis
partes.
1751- Edita seu último romance, Amélia.
1754 - A conselho médico, Fielding viaja para Lisboa em junho para tratar da saúde, fortemente abalada. Morre em Lisboa em 8 de outubro. É enterrado no cemitério dos Ciprestes.


(*) Tom Jones
Este romance conta a história de um enjeitado criado por uma família da nobreza rural que se torna um jovem de grande fascínio pessoal e que atrai a paixão de diversas mulheres. Mas torna-se vítima das mais variadas formas de preconceito e desperta, em muitos, a inveja e o ciúme. Sua verdadeira origem é revelada no final, após profunda análise do cotidiano inglês de meados do século XVIII.


Filho de família aristocrática, da qual não herdou títulos nem bens, Henry Fielding nasceu em 22 de abril de 1707 na cidade de Sharpham Park, Somersetshire, Inglaterra. Seus pais foram Sara Fielding, que morreu em 1718, e Edmund Fielding.

Henry recebeu uma educação esmerada. Depois de concluir os estudos intermediários em Eton, seguiu para Leiden, cidade da Bélgica, para cursar Direito.

Em 1728 Fielding mudou-se para Londres e foi tomado pela indecisão, não sabia que profissão abraçar: poderia ser escritor ou cocheiro. A primeira seria mais agradável,mais cômoda; a segunda renderia mais dinheiro e consideração social.

Se tivesse chegado a Londres alguns anos antes, teria encontrado os homens de letras em outra situação, dividindo espaço na corte com os fidalgos e manipulando a opinião pública por meio de livros e jornais. Contudo, apesar dessa liberdade, muitas vezes os escritores tinham de se curvar ás exigências de políticos poderosos, que podiam pô-los em dificuldades.

Assim, Robert Walpole, que se tornou ministro em 1721,havia estabelecido restrições á liberdade dos literatos ligados ao governo, considerando que seus pareceres, muito teóricos e apaixonados sobre os atos do Estado, eram a causa principal de instabilidade e de insatisfações. Dispensou-os e mandou-os ganhar o pão por conta própria. Empregou escrivães medíocres porém confiáveis, capazes de compilar suas idéias e as dos demais políticos sem alterações sutis. Destituída do antigo poder, a arte de escrever passou a ser vista como um mau ofício, desempenhado por gente de baixa categoria social e de escassos dotes intelectuais.

De qualquer forma, Henry tinha de se sustentar, e diante das opções que se apresentavam, decidiu-se pela literatura. Começou então a redigir para o teatro.

Sua primeira comédia, O Amor sob Diversas Máscaras, de 1728, não teve a menor repercussão. Henry só começou a ser conhecido em 1730, quando apresentou O Galante do Templo e A Farsa do Autor, com êxito suficiente para se dedicar ao teatro como meio de vida. Durante sete anos elaborou volumosa produção, da qual a obra mais famosa é a peça Thomas Ressuscitado ou A História Completa da Vida e das Maravilhosas Ações de Tom Thumb, representada pela primeira vez em 1730 e ampliada no ano seguinte sob o título Tragédia das Tragédias ou A Vida de Tom Thumb, o Grande. A peça narra as incríveis aventuras de um rapaz absurdamente pequeno que, por causa de seu tamanho, é carregado nos ares por um corvo, devorado por um gigante e envolvido em dezenas de outras peripécias semelhantes. Essas situações serviam apenas de pretexto a Fielding para atacar personalidades políticas da época, atraindo para si os olhares irados da censura oficial. Conta-se que Tom Thumb foi motivo de uma das duas únicas gargalhadas que o amargo romancista Jonathan Swift deu em toda sua vida, que demonstrou, assim, reconhecer o grande valor de Henry Fielding.

O sucesso como comediógrafo, contudo, não proporcionou a Fielding melhores meio de subsitência. O que lhe valia era a facilidade em fazer amigos. Era um rapaz alegre, excelente contador de histórias, dotado de inteligência, humor e vitalidade, e não lhe faltavam companheiros, alguns dos quais ricos e bem instalados, que se sentiam honrados em dividir a casa com ele. Nem a morte da mãe, quando Fielding tinha apenas onze anos, nem a penúria do lar paterno, nem o segundo casamento do pai - que indiretamente contribuíra para o rapaz abandonar os estudos de Direito e ir tentar a vida em Londres - haviam conseguido tirar sua alegria de viver.

Em 1734 Fielding se casa com Charlotte Cradock e passa a desfilar pelos jardins e avenidas de Londres ostentando roupas caras, carruagens e criados. Não lhe passava pela cabeça que poderia aproveitar a fortuna da esposa para se estabelecer na vida e assegurar uma velhice tranquila. Esbanjou até o último centavo, tudo que Charlotte tinha, e ao fim de dois anos viu-se obrigado a trabalhar para comer. Muitos de seus gastos não revertiam em benefício próprio, mas em favor dos amigos, não só daqueles que o haviam ajudado nos tempos de miséria mas também dos mais recentes.

O esgotamento de uma mina que esperava fosse eterna levou-o novamente para o teatro. Pasquin, de 1736, permitiu-lhe recuperar por algum tempo a euforia financeira, representava um violento ataque ao ministro Walpole. No ano seguinte repetiu a dose, com uma sátira mais ferina, Registro Histórico para 1736. O ministro então resolveu fechar-lhe a boca e promulgou o Licensing Act, decreto que autorizava o Parlamento inglês a recusar qualquer obra teatral que julgasse indecorosa ou agressiva. Com essa restrição, em 1737 Fielding decidiu retomar os estudos, interrompidos quando se transferira para Londres. Nesse mesmo ano foi nomeado magistrado de uma corte criminal e fundou um jornal, O Campeão, no qual atuou até junho de 1740.

Para quem sempre vivera na maior liberdade, era difícil ajustar-se a horários e métodos. Os amigos dividiram-se em correntes opostas. Uns confiavam no êxito do advogado Fielding; outros prognosticavam para breve sua desistência da função. Os últimos ganharam a aposta ao fim de alguns meses. O escritor abandonou o emprego, por motivo de saúde. Com uma mulher para sustentar, a quem ele não só amava como se sentia na obrigação de retribuir os anos de fartura, Fielding estava disposto a abandonar a vida de farras e a dedicar-se seriamente ao trabalho. Mas a libertinagem anterior lhe havia dilapidado a saúde. Ataques de gota o prendiam ao leito por semanas a fio, impedindo seu comparecimento ao fórum. E ele achou que era mais honesto demitir-se.

Charlotte faleceu em 1742, e Fielding foi tomado por profunda depressão. Seus amigos temiam qeu ele adotasse alguma medida desvairada, mas seu temperamento forte e alegre não lhe permitiu, porém, entregar-se por muito tempo ás lamentações. Refeito do abalo, voltou a escrever no mesmo tom satírico que o caracterizava.

Em 1743 Fieding tentou obter a aprovação de uma comédia, continuação de A Virgem Desmascarada, porém mais uma vez Walpole negou autorização por considerá-la ofensiva a uma personalidade da época. Fielding passou a escrever panfletos políticos, tratados, ensaios, e, nesse mesmo ano, retomou a carreira teatral com O Dia do Casamento. O êxito ajudou a Henry a conseguir uma certa folga financeira.

Depois do segundo casamento, em 1746, com Mary Donald, antiga cidadezinha próxima a Londres. Após dois anos regressou á capital como juiz de paz e foi morar no bairro de Westminster.
Apesar do trabalho exaustivo, Fielding encontrava tempo para escrever. Depois do ato de Walpole que lhe restringira a liberdade de comediógrafo, voltara-se para o romance. Ocupava-se de uma obra que haveria de fazer corar Samuel Richardson, seu vizinho, que jamais faltava ao culto dominical, empenhava-se em resolver problemas de consciência de consulentes afligidos por questões morais e religiosas e, nas horas vagas escrevia romances e investia furioso contra Fielding, a quem ele considerava um incurável libertino. Richardson inaugurou uma corrente moralista e austera, mais preocupada com o mundo ideal possível e com a análise psicológica das personagens.

Depois de ter lutado na vida como aprendiz de impresor e operário, e a duras penas ter conseguido fundar sua própria tipografia, Richadson recebeu um convite para escrever um livro destinado à leitura das jovens provincianas que iam trabalhar em Londres. A obra Pamela ou A Virtude Recompensada, de 1741, obteve imenso sucesso em toda a Inglaterra, transpôs o canal da Mancha, cativou o público francês e provocou entusiasmados elogios do enciclopedista Diderot. O romance relata as desventuras de Pamela Andrews, camponesa educada por uma senhora da nobreza que, antes de morrer, confia a moça aos cuidados de seu filho. O primeiro objetivo do rapaz é seduzi-la, mas, comovido por suas lágrimas, acaba se arrependendo e casando-se com a virtuosa donzela. Fielding não pôde deixar de rir do moralismo pregado por Richardson e do endeusamento de valores tão instáveis como dinheiro e posição social. Sem perda de tempo, elaborou duas paródias do romance, Defesa da Vida da Sra. Shamela Andrews, em 1741, e As Histórias das Aventuras de Joseph Andrews e Seu Amigo Abraham Adams, em 1742, que suscitou a admiração da crítica. Na primeira parte desse livro, Fielding apenas parodia Pamela, narrando ironicamente a luta do belo criado Joseph Andrews em defesa da própria virtude, ameaçada pelas artimanhas da patroa. No desenrolar da obra, contudo, o autor se afasta da intenção inicial e acaba retratando com graça e talento toda uma camada social, vergastando-lhe as hipocrisias e futilidades.

Com Pamela, Richardson pretendia criar um romance psicológico, diversificado do relato de aventuras a´te então existente na Inglaterra. Fielding, por sua vez, procurou considerar de outro modo o problema moral. Para ele, as boas ações não deveriam ser fruto de normas e de repressão, mas partir espontaneamente de um impulso generoso de amor pelo próximo e do desejo de semear o bem. Virtude, a seu ver, era mais a habilidade de resolver os próprios problemas do que promover, á força, a felicidade alheia.

Seis anos após a sátira de Fielding, Richardson procurou penitenciar-se por Pamela, publicando a história da virtude perseguida e arrasada: Clarisse Harlowe. Essa obra, que se celebrizou como a melhor de Richardson, agradou ao público da época pela agudeza da análise psicológica. Fielding, entretanto, não permaneceu silencioso diante da nova aventura melodramática do rival e escreveu, em 1749, um romance que ficou marcado na história da literatura inglesa como uma produção genial: Tom Jones, a História de um Enjeitado, biografia de um jovem exuberante de energia, ingênuo e violento que retratava o próprio Fielding em oposição ao austero Richardson. Recém-nascido, Tom Jones é deixado na casa do sr. Allworthy, que o cria como a um filho. Depois de adulto, por intriga de Blifil, sobrinho de seu protetor, Tom é obrigado a abandonar o lar e entregar-se a uma vida errante e dissipada. Enfrenta problemas sem conta, envolve-se em muitas tramas amorosas, despedaça corações, ajuda as pessoas em dificuldades e, por fim, é acusado de um crime. A obra muito se aproxima das novelas cavaleirescas e dos romances à maneira do Dom Quixote. Tom Jones levou alguns críticos a considerarem Fielding  como o criador do romance inglês, o que de certa forma é exagero.

O romance se divide em dezoito "livros", ou partes, cada uma delas precedida por um prólogo, no qual o autor expõe sus idéias, comenta a ação, dialoga com o leitor e vangloria-se de ter sido o primeiro escritor a estabelecer esses capítulos iniciais.

Os críticos da época atacaram Tom Jones por considerá-lo um estímulo à licenciosidade. Ao apresentar um personagem simático  dissoluto, que, apesar de seus erros, conquista a felicidade impunemente, o autor estaria desencorajando o exercício da virtude e, de certa forma, aconselhando o vício. Na França o livro chegou a ser proibido. Na verdade, o conceito de moral de Fielding não poderia ser compreendido em seu tempo. Tom Jones é apenas um apaixonado pela vida, corajoso e bom, mas fraco e indisciplinado - um pequeno selvagem. Suas boas ações brotam naturalmente, e por isso o escritor se inclina a lhes dar um valor maior do que se fossem fruto de educação e tende a perdoar os erros do personagem.

Não só a personalidade do protagonista provocou a ira dos críticos e moralistas. Nos prólogos iniciais de cada parte Fielding alude muitas vezes a seu inimigo Richardson, que o considera devasso. Combate os costumes patriarcalistas, como o de se forçar uma jovem a casar contra a vontade, e defende  a rebelião familiar. Zomba dos moralistas, escarnece dos clérigos, taca os críticos com violência, demonstrando por eles profundo desprezo.

Exausto pelo combate ao crime, aborrecido com a má vontade da crítica, enfraquecido pelas doenças, Fielding via apagar-se rapidamente a alegria de viver. Num estado lastimável, ainda encontrou forças, em 1751, para escrever um último romance, Amélia, no qual presta homenagem a sua segunda mulher, a quem involuntariamente causara grandes desgostos. Falta em Amélia o brilhantismo de Joseph Andrews ou de Tom Jones, mas a obra é dotada de um etilo mais apurado e de uma análise mais profunda dos personagens. Embora ainda se volte abertamente contra certas leis inglesas que considerava injustas, como a prisão por dívidas, e denuncie graves males sociais, Fielding atenua, em Amélia, o tom impiedoso de sua sátira.

Foi aconselhado pelos médicos a deixar a Inglaterra e a procurar em Lisboa um clima propício a sua saúde debilitada. Ao abandonar a pátria, trêmulo de emoção e de tristeza, escreveu: "Hoje, quarta-feira, 24 de junho de 1754, o sol mais triste que já vi levantou-se e encontrou-me acordado. No brilho desse sol eu ia ver, pensava, pela última vez, dizendo-lhes um último adeus, os objetos queridos, pelos quais eu sentia a ternura de uma mãe: não estava de forma alguma endurecido pela doutrina da escola filosófica que me ensinou a suportar a dor e a desprezar a morte. Ao meio-dia em ponto fui advertido de que o carro me esperava. Abracei meus filhos um após o outro e subi no carro, um pouco resolutamente; minha mulher, que se conduziu como uma verdadeira heroína e como um filósofo, embora seja, ao mesmo tempo, a mais terna das mães, seguiu-me juntamente com a filha mais velha; alguns amigos me acompanharam, outros se despediram de mim, e ouvi fazerem de minha coragem um conceito de elogios, os quais sabia muito bem não merecer por nenhum direito". Se o homem Henry Fielding - que três meses depois, em 8 de outubro, morreria sozinho e amargurado num quarto de Lisboa - pensava não merecer os elogios naquela hora da partida, os escritor os ganhou para sempre por sua obra magistral, ainda hoje entre a vida breve de um homem e a imortalidade de um grande artista.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Lis & Afins


Escrever é mesmo purificar a alma.
E assim surge mais um blog: Lis & Afins.
Minha amada filha, Lis Guedes, estudante de Serviço Social.
Que venham belas reflexões sobre a condição humana, sobre o estar no mundo.
Que venham belas letras.
É só conferir!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Raul Pompéia

Raul Pompéia

1863 - Em 12 de abril nasce Raul d´Ávila Pompéia, em Jacuecanga, município de Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro.
1873 - A família transfere-se para a cidade do Rio de Janeiro, Raul é matriculado como interno no Colégio Abilio, do dr. Abílio César Borges, barão de Macaúbas.
1879 - Ingressa no Imperial Colégio D. Pedro II, onde conclui os estudos secundários.
1880 - Publica seu primeiro romance, Uma Tragédia no Amazonas.
1881 - Publica os contos Microscópios no jornal estudantil A Comédia, de São Paulo. Matricula-se na Faculdade de Direito de Largo de São Francisco, em São Paulo. Luta pela abolição da escravatura, ao lado do poeta, jornalista e advogado Luís Gama.
1882 - A Gazeta de Notícias começa a publicar em folhetins o segundo romance de Raul, As Jóias da Coroa.
1883 - Inicia as Canções sem Metro, publicando-as no Jornal do Comércio, de São Paulo.
A campanha abolicionista absorve grande parte de sua atividade.
1885 - Com 94 colegas, transfere-se para a Faculdade de Direito de Recife, onde conclui o curso.
1888 - Publica em folhetim, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, o romance O Ateneu. Inicia nesse mesmo jornal, a seção "Pandora", sobre a crítica de arte. Trabalha como correspondente do Diário de Minas. Deixa inacabado o romance Agonia.
1889 - Colaboração em A Rua, de Pardal Mallet, e no Jornal do Comércio.
1890 - Intensa atividade artística, que o faz discutir os problemas coletivos de seu tempo.
1891 - É nomeado professor de mitologia da Escola Nacional de Belas-Artes.
1892 - Ofendido por Olavo Bilac, desafia-o para um duelo à espada.
1893 - Publica um de seus melhores desenhos políticos: "O Brasil crucificado entre dois ladrões", na linha nacionalista dos adeptos radicais de Floriano Peixoto.
1894 - É nomeado diretor da Biblioteca Nacional.
1895 - Acusado de desacatar Prudente de Moraes, Presidente da República, é demitido do cargo de diretor da Biblioteca Nacional. Em 25 de dezembro põe fim à vida com um tiro no coração.
1900 - Publicação póstuma, em livro de Canções sem Metro.


O Ateneu
Um dos mais inteligentes romances da literatura brasileira e obra mais conhecida de Raul Pompéia, O Ateneu narra a história de Sérgio, um garoto que com onze anos é levado pelo pai para um internato. 
Em uma recriação autobiográfica,o autor conseguiu como poucos captar os conflitos, constrangimentos e angústias do dia-a-dia no colégio interno.


Jornalista e escritor, Raul Pompéia, nasceu em Jacuecanga, Angra dos Reis, Rio de Janeiro em 12 de Abril de 1863, segundo filho do próspero advogado Antônio d´Ávila Pompéia, homem carrancudo, de aspecto austero, e de Rosa d´Ávila Pompéia, mulher de rara beleza.

O pai descendia de uma família mineira, que, envolvida na Inconfidência Mineira, fugiu de Minas e fixou-se em Resende, Estado do Rio de Janeiro. Dona Rosa provinha de portugueses que, atraídos pela cana e pelo comércio, se estabeleceram em Angra dos Reis.

Depois de liquidar os negócios da fazenda, em 1873 o doutor Antônio transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família, onde comprou casas e abriu banca de advogado.

Nessa época as ricas famílias da Inglaterra mandavam os filhos para o Eaton, quando lhes queriam dar uma educação coerente com a posição social. À burguesia brasileira o Colégio Abílio, bem como o Imperial Colégio D. Pedro II, pareciam corresponder. Em 1973 "O menino Raul Pompéia entra para o colégio dos homens que sustentam e pagam a educação dos seus filhos com o trabalho escravo", escreveria José Lins do Rego. Em O Ateneu, obra publicada em 188, o professor Aristarco personaliza o modelo da educação moral e cívica.

Mas não se pode tomar ao pé da letra que o Ateneu tivesse sido inspirado mesmo no Colégio Abílio. Na vida de Raul Pompéia, o diretor Abílio César Borges, barão de Macaúbas, gozou de uma lembrança bem contrária àquele ódio que Aristarco despertava em Sérgio, narrador e protagonista. Em 1891, quando morreu o famoso barão, Pompéia dedicou-lhe verdadeira homenagem.

No Colégio Abílio, Raul Pompéia revelara suas inclinações intelectuais e artísticas. Dona Rosa e o doutor Antônio sonhavam para o filho um lugar de relevo, a nata da sociedade.

Os d´Ávila Pompéia, especialmente as mulheres (a mãe e as três irmãs) concentravam todo o carinho e confiança no jovem Raul. Seus escritos e desenhos foram guardados amarrados em fitas. A família continuava distante do burburinho d Corte. Praticamente não recebiam visitas. Raul não tinha amigos íntimos, mas era vibrante nos ataques aos professores injustos e ao favorecimento escolar de que gozava o neto do imperador. Não se acomodou. Embora aprovado, várias vezes repetiu o exame de grego, até conseguir a nota com distinção. Concluiu o ensino médio e desdenhou o diploma que tanto estudo lhe custara. Publicou Uma Tragédia no Amazonas, escrito na época do Abílio, que alcançou algum sucesso e lhe valeu crítica esperançosa de Capistrano de Abreu, literato de fama.

Quando Pompéia desembarcou em São Paulo, onde foi fazer o curso de Direito, falava-se na construção do Viaduto do Chá. Naquele ano de 1881 a cidade era pequena, a vida era tranquila. Animavam-na os estudantes, com suas repúblicas, suas festas. A garoa umedecia a paisagem. As casas baixas abrigavam famílias de passado rural; brasileiros, italianos, portugueses, um ou outro espanhol; algum alemão, foragido de inúmeras perseguições; o russo que se encontrava com o turco e falavam da guerra entre seus países; alguns judeus iam à sinagoga. Nos bairros, negros livres procuravam organizar seus núcleos familiares, apesar do ambiente escravocrata. Havia os mestiços passeando na vida boêmia. Nos cafés a intelectualidade paulistana discutia a República, a escravidão, a literatura. Os poetas iam à praça.

Em São Paulo Raul Pompéia logo se engajou na campanha abolicionista. Embora violentos, não foram os escritos de "Rapp" (um dentre os seus vários apelidos) que atraíram o ódio aberto dos escravocratas paulistas. Foi uma charge contra o Diário de Campinas, órgão dos proprietários rurais. O desenho ousado ferira a suscetibilidade religiosa dos donos de escravos. COm isso o estudante Raul Pompéia passou a ser perseguido pelos conservadores. A Faculdade de Direito refletia a crise política; os estudantes abolicionistas e republicanos entravam em choque com a direção retrógrada de alguns de seus professores.

Em 1884, jornalista consagrado, autor de mais um romance (As Jóias da Coroa), a banca o reprovou nos exames finais: "injustamente", disseram testemunhos da época. Na sequência de uma greve, Raul Pompéia emigrou para o Recife com mais 94 colegas, onde concluiria o curso de Direito.

Não foi só no jornalismo.

Raul Pompéia também participou apaixonadamente dos dois principais movimentos de oposição da época; intransigente, não rimava República com escravidão. Além de escritor, Pompéia foi também desenhista e escultor, demonstrando temperamento sensível, às vezes angustiado, mórbido e instável, características que o levaram a se envolver em contínuas polêmicas.


Suas ligações com Luís Gama e depois com Antônio Bento, líderes insurrecionais inatos, fixaram no poeta de Canções sem Metro uma ideia de prática política. As rebeliões nas senzalas queimavam pós de café, os escravos fugiam.

Em Recife Pompéia viveu mais isolado. O bairro onde ele e os colegas criaram uma casa de estudantes era distante. Pompéia concentrou-se nas provas finais e nos trabalhos literários. Talvez datem dessa época os esboços de O Ateneu.

A situação menos escravocrata do Nordeste descansou-o um pouco da campanha abolicionista. Levou, enfim, o seu diploma para o Rio de Janeiro e a lembrança de alguns colegas mortos pela febre amarela.

Começou a atuar como o que hoje se chama de jornalista cultural. Sua vocação de artista plástico era saciada com a cobertura de exposições e com sua escrita ficcional, marcada por descrições muito vívidas e cromáticas.

A temperatura política do Império media-se na rua do Ouvidor. Ministros, deputados, jornalistas, poetas e cocheiros comentavam e previam acontecimentos; de palpite, compunham-se e derrubavam-se os ministérios. Segredos do Paço escapavam; faziam-se promessas de empregos públicos. Uma mulher bonita suspendia olhares, provocava a fantasia dos homens. Raul Pompéia era dos habitués. Mas não bebia, não fumava, não tinha aventuras eróticas para contar. Ouvia com desagrado os comentários vulgares. Fugia disso. Era contra sua índole, delicada e fina.

No entanto, se estivesse em discussão um assunto político ou literário, mostrava-se polêmico, defendia com ardor suas posições. Os inimigos apareciam; uns discutiam honestamente, outros armavam boatos, calúnias. Enfim, Pompéia fazia parte do ambiente intelectual de Coelho Neto, Aluísio de Azevedo, Artur Azevedo, Olavo Bilac, Valetim Magalhães, Capistrano de Abreu, Luís Murat, Machado de Assis, Araripe Júnior e Pardal Mallet.

Em 1887 lá está ele em meio a intensa atividade, colaborando em jornais de diversas províncias, polemizando, fazendo comícios pela República e pela abolição; vai à rua do Ouvidor. O artista prolongava as noites de trabalho debruçado sobre as Canções sem Metro (cuja publicação se iniciara em 1883 no Jornal do Comércio, de São Paulo), desenhando ilustrações para elas.

Sua sensibilidade recolhe ao mesmo tempo imagens do passado, sons, sofrimentos, decepções que se fundem às mesmas emoções doloridas do presente. Esse trabalho vai consumindo tinta e papel e dando vazão a um requintado artista do romance brasileiro. O resultado é a publicação, em 1888, de O Ateneu, segundo seu autor uma "crônica de saudades", cujo lançamento foi assim comentado pela Gazeta de notícias: "Não há no livro propriamente personagens reais, copiados in totum de um modelo único; mas não há fato nem cenários de fantasia".

Nesse ano Pompéia escreveu uma defesa do livro diante de seus críticos, que, numa prática brasileira que dura até hoje, insistiam em julgar o autor em vez da obra. Melancólico como Machado, Pompéia não teve a capacidade de reserva e ironia dele; seu bordão de autodefesa era: "É mau, mas é meu".

É placentária a relação de Pompéia com sua origem, diria se pudesse o menino Sérgio, personagem-narrador de O Ateneu. As relações não se quebravam nunca; a família como que amarrava um nó no coração. Raul Pompéia não desatou todos os pontos. As quatro mulheres da família projetavam nele todo um carinho não manifestado ao pai, por sua austeridade e hipocondria; transmitiam ao medas menino da casa as emoções provocadas pela atuação, ao que tudo indica, de respeitável autoritarismo do pai, o homem da casa.

O autoritarismo do doutor Antônio era resultado do sistema patriarcal que assegurava a instituição da família como privilégio dos proprietários e homens livres. Raul Pompéia não conheceu outra vida familiar. Na intimidade, o seu mundo foi exclusivo da família, dividido entre o afeto maternal e a força paterna. O conflito íntimo entre essas imagens contrárias de prazer e repressão, conduzido pela inibição moral dos costumes, ele soube sublimar na arte de O Ateneu. "O seu romance nos parece uma criação que vencera o suicida", afirmaria José Lins do Rego.

A partir de 1891 ele não escreveria mais para a literatura. Sua personalidade voltara-se inteiramente para a política. Sucedem-se comícios, artigos, polêmicas, ensaios com o estilo inconfundível do homem de letras. Violentos, radicais... Mas radicais em relação a quê?

Não era mais possível o clima de união de que Pompéia gozara no movimento abolicionista à época da São Francisco. A guerra civil animava polêmicas, dividia jornalistas: defendiam-se interesses diversos, quando não se tratava de proteger a própria pele. Alguns colegas de Pompéia haviam sido presos e torturados pela polícia de Floriano. Sob constante estado de sítio e perseguições, os florianistas agitavam o Rio de Janeiro com manifestações radicais.

Pompéia sofre ofensas de Olavo Bilac no jornal O Combate. Num artigo, Bilac criticava severamente Pompéia, acusando-o de estar sendo cooptado pelo governo florianista ao aceitar o emprego de professor num momento de muitas incertezas políticas. A reação violenta de Pompéia ao que considerou uma infâmia veio no desafio feito a Bilac, depois de se esbofetearem um dia, sob juras de vingança; para resolver a questão duelariam à espada.

Há no episódio do duelo, moda recente entre os frequentadores dos cafés da rua do Ouvidor, algo de grotesco. Socialmente, talvez expressasse intenção de auto-extermínio de uma camada sem perspectiva histórica no processo que se desenrolava. Os espadachins não entraram em ação, a ofensa fora retirada, graças à interferência dos padrinhos. Era a frase que, na vida de Pompéia, seus biógrafos chamam de "intoxicação pública".

Pompéia continuou florianista mesmo após a morte do presidente. No governo de Floriano, fora nomeado professor de mitologia da Escola de Belas-Artes e depois diretor da Biblioteca Nacional. A posse de Prudente de Moraes criaria pânico e paranóia entre os florianistas; os mais exaltados continuavam o clima de guerra civil.

Meses após os funerais do marechal Floriano - quando, segundo fontes do governo, que estivera no cemitério prestando as últimas homenagens ao antecessor -, um jornal publicou violento panfleto assinado por Luís Murat. O artigo se referia às cenas nos funerais. O título da matéria era "Um Louco no Cemitério", Além da crítica política à conduta de Pompéia e de aplaudir sua demissão do cargo na Biblioteca Nacional, Murat, ex-companheiro de classe de Pompéia, tocou na honra deste, insinuando "covardia" no desfecho do duelo com Bilac.

O doutor Antônio falecera alguns anos antes. Pompéia, com suas crises de depressão, preocupava a
mãe e as irmãs. Após a leitura do artigo de Murat, vivia alarmando as mulheres com projeto de suicídio. "Estou desonrado!" Com os nervos despedaçados, resolveu papéis e tomou o revólver. Ainda escreveu um bilhete ao jornal, pelo qual se sentira desprestigiado, e ao país: "À Notícia e ao Brasil declarou que sou homem de honra", Datou "25 de dezembro de 1895" e assinou "Raul Pompéia". Estirou-se numa poltrona. A mão do artista foi certeira; desembaraçou-se de si mesmo com um tiro no coração. A mãe, dona Rosa, e as irmãs foram acudir. Antes de pedir água e morrer, o desgraçado artista notara o estado da irmã. Disse à mãe: "Vá ver a Alice".

Raul Pompéia é o patrono da cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Domício da Gama.

Abolicionismo, nacionalismo e condições sociais foram alguns dos temas que Raul Pompéia, além de tratar em suas obras e discussões, procurou mostrar desenhando. Seus desenhos revelam uma sensibilidade artística que vai além dos limites do escritor preocupado com os problemas do seu tempo. Quando escreveu O Ateneu, Raul Pompéia quis dar mais vida ao texto, acompanhando-o de ilustrações feitas por ele mesmo, a bico-de-pena. São mais de quarenta desenhos que mostram personagens, situações, detalhes da vida no Ateneu; enfim, todo o clima que envolve Sérgio, o personagem-narrador do romance.

Um dos mais inteligentes romances da literatura brasileira, O Ateneu é o ápice da carreira de Raul Pompéia. É o romance da desilusão. O escritor escolheu para a fábula sentimental o estilo mais significativo de sua época: Gustave Flaubert. Dele tomou emprestado o nome de um personagem para construir uma das figuras femininas mais platonicamente sensuais - Ema.

Sérgio e Ema constituem a história de amor no romance.

A história do internato fala da educação sexual e intelectual do adolescente como reflexo da sociedade e, mais precisamente, de sua elite no contexto de falência do regime monárquico, de base escravista. Os sintomas de decadência percorrem as experiências narradas por Sérgio no contato com os companheiros de classe - Rebelo, Sanches, Bento Alves, Franco, Egbert -, mostrando-se nas relações a ausência de perspectiva histórica.

Em artigos e prefácios, Pompéia se revela um combatente decidido contra o escravismo e a monarquia. Em seus livros, ainda que timidamente, já são colocadas questões que só cem anos depois viriam a ser debatidas abertamente, como a homossexualidade e os internatos para meninos.

Do ponto de vista literário não há unanimidade entre os críticos: alguns, com ressalvas, o classificam como realista; outros, também com ressalvas, o enquadram entre os naturalistas; e há também aqueles que até insinuam que sua obra é precursora do Modernismo. Por todas essas razões, a obra desse home que tirou a própria vida é um dos marcos na história da nossa literatura, capaz de propiciar o prazer e a reflexão ainda hoje.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Francisca Júlia da Silva


Francisca Júlia

"Mergulha o teu olhar de fino colorista
No azul: medita um pouco, e escreve; um nada quase"
(Francisca Júlia)

Francisca Júlia, a única mulher no Brasil a se destacar no Parnasianismo, uma escola de estilo sóbrio e conservador, foi incentivada  a ler pelo pai, advogado, e pela mãe, professora. Aos oito anos, mudou-se com a família para São Paulo. Aos 20 começou a escrever para o Correio Paulistano, o Diário Popular e o Estado de S. Paulo - no qual publicou seus primeiros poemas -, e também para a imprensa carioca, destacando-se as revistas O Álbum, editada por Arthur Azevedo, e A Semana.

O livro de estréia de Francisca Júlia reuniu os sonetos publicados durante três anos na imprensa. Segundo Manuel Bandeira, "o seu livro Mármores (...) foi entusiasticamente saudado pelos mestres parnasianos, e com razão, pois talvez em nenhuns outros versos se encontre como nos da poetisa paulista mais extremamente realizado o ideal de impassível beleza, que era a aspiração da escola."
Apesar do sucesso, Francisca Júlia só lançou outro livro de poemas, Esfinges, oito anos depois. Nesse período, editou em colaboração com o irmão, o também escritor Júlio César da Silva, o Livro da infância, adotado pelas escolas de 1. grau do estado de São Paulo. De acordo com Benjamin de Abdala Júnior, Esfinges  "mostrou seu encaminhamento para a tendência religiosa do Simbolismo". Pode-se observar que sua obra tem duas fases distintas: parnasiana, em Mármores; e simbolista, em Esfinges. Deste último, disse o crítico Aristeu Seixas: "Nenhuma pena manejada por mão feminina, seja qual for o período a que remontemos, jamis esculpiu, em nossa língua, versos que atinjam a perfeição em par e a beleza estonteante dos concebidos pelo raro gênio da peregrina artista."

Em 1909, a poetisa casou-se com o telegrafista Edmundo Munster, deixando a vida liter´ria para dedicar-se ao lar. Só publicou mais um livro, o infanto-juvenil Alma infantil, também em parceria com o irmão. Conhecida como a "musa impassível", sua morte veio a demonstrar que, na vida particular, Francisca Júlia não era nada impassível: inconformada e bastante abalada com a morte do  marido tuberculoso, a poetisa ingeriu uma dose letal de narcóticos e morreu no dia seguinte, em pleno velório do esposo, sendo sepultada no feriado de finados.

Curiosidade
Sua estréia na revista A Semana, uma das mais conceituadas da então capital federal, causou grande alvoroço. Seus redatores, escritores famosos da época, a princípio não acreditaram que aqueles versos tão perfeitos tivessem sido escritos por uma mulher. João Ribeiro chegou a comentar: "Isto não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo Correia!"

"Em Francisca Júlia, surpreendeu-me o respeito da língua portuguesa, (...) que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura."
(Olavo Bilac)


"Nem aqui,nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhes são positivamente inferiores na estrofe, na composição e fatura do verso, nenhum possui e tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa fria severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa."
(João Ribeiro)

"Muito pouco se escrevem sobre o maior vulto feminino do Parnasianismo brasileiro. Num universo inteiramente dominado por poetas do chamado sexo forte, Francisca Júlia provou que mulher também sabia fazer poesia de qualidade."
(Roberto Flores)


À noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra;
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois, a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, em réquiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite adentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite escura assim, de repouso e de calam,
É que a alma vive a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor tão cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.


Nasce no dia 31 de agosto, em Xiririca (atual Eldorado) - SP
Morre em 1. de novembro, em São Paulo - SP

Obras da autora
POESIA: Mármores, 1895; Esfinges, 1903.
INFANTO-JUVENIL: Livro da infância (com Júlio César da Silva), 1899; Alma infantil (com Júlio César da Silva), 1912.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX

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