sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe
1809 - Em 19 de janeiro nasce em Boston, nos Estados Unidos, Edgar Poe.
1811 - Em 8 de dezembro fica órfão de mãe.
1812 - Edgar é batizado como Edgar Allan Poe.
1814 - Com cinco anos Edgar começa a frequentar a escola.
1815 - Em 22 de junho John e Frances, com Edgar e a irmã de Frances, Ann Moore Valentine partem para a Inglaterra.
1820 - Em 22 de julho a família retorna à América.
1826 - Em fevereiro Edgar ingressa na Universidade da Virgínia, em Charlottesville.
1827 - Em março Edgar vai embora de casa. Publica, em Boston, seu primeiro livro, Tamerlão e Outros Poemas.
1829 - Em 28 de fevereiro morre a mãe adotiva de Edgar. Em dezembro é publicado seu segundo livro, Al Aaraaf, Tamerlão e Poesias Menores.
1830 - Em outubro John Allan se casa com Louisa Patterson, com quem teria três filhos.
1831 - O livro Poemas é publicado em Nova York. Em agosto morre em Baltimore o irmão de Edgar, Henry, provavelmente de tuberculose ou de cólera.
1833 - Em março Edgar recebe um prêmio de 50 dólares do The Saturday Visitor, de Baltimore, pelo conto Manuscrito Encontrado numa Garrafa.
1834 - Em março, em Richmond, morre Johnn Allan.
1836 - Em 16 de maio, com 27 anos, Edgar se casa com sua prima Vigília, de treze.
1838 - Em fevereiro Poe e a família mudam-se para a Filadélfia. Em julho é publicada A Narrativa de Arthur Gordon Pym.
1839-41 - Publica A Queda da Casa de Usher, Contos do Grotesco e do Arabesco e Os Crimes da Rua Morgue.
1843 - Em junho Poe ganha do Dollar Newspaper um prêmio de 100 dólares pelo conto O Escaravelho de Ouro.
1844 - Em outubro Poe e a família mudam-se para nova York.
1845 - Torna-se editor do The Broadway Journal. O Corvo é publicado no Evening Mirror. Contos e O Corvo e Outros Poemas são publicados em Nova York.
1846 - Em janeiro o The Broadway Journal encerra suas atividades. Em maio Poe muda-se com a família para Fordham, Nova York.
1847 - Em 30 de janeiro, em Fordham, Virgínia Poe morre de tuberculose.
1849 - Poe volta a Richmond e reencontra Elmira, agora viúva. Em 27 de setembro deixa Richmond com destino a Baltimore. Em 7 de outubro morre em Baltimore, no Hospital Universitário de Washington. No dia seguinte é sepultado no mausoléu do avô, no cemitério da Igreja Presbiteriana de Westminster, em Baltimore, Maryland. Charles Baudelaire publica Contos do Grotesco e do Arabesco na França, com o nome de Histórias Extraordinárias (*).


Histórias Extraordinárias
Em 1849 Baudelaire publicou na Frnaça Contos do Grotesdo e do Arabesco, de Alla Poe, com o título Histórias Extraordinárias. Trata-se de um conjunto de textos - como A Queda da Casa de Usher, O Barril de Amontilado, O Gato Preto, Os Crimes da Rua Morgue, dentre outros - nos quais, com extrema habilidade, Poe enfoca o fantástico e o sobrenatural com descrições minuciosas, conduzindo o leitor a um mundo noturno, enigmático, neurótico e de terror.




Segundo filho de um casal de atores itinerantes fracassados - David Poe Jr. e Elisabeth Arnold Hopkins -, Edgar Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809, em Boston, onde os pais trabalhavam à época. Edgar, contudo, sempre considerou Richmond, capital da Virgínia, sua cidade natal. Foi onde passou a maior parte da infância e a juventude. Após a morte da mãe, Poe, com três anos incompletos, e sua irmã Rosalie, de onze meses, foram adotados por duas famílias de Richmond - Poe foi levado para a casa da John e Frances Valentine Allan, e Rosalie para a de William e Jane Scott MacKenzie. O irmão mais velho, Henry, ficou em Baltimore com os avós.

John Allan era sócio de uma tabacaria, e na época a família vivia num apartamento na sobreloja do estabelecimento.

Em 1815 Allan Poe viajou com os pais de criação e a tia, irmã de Frances, para a Inglaterra, onde viveu até 1820. De volta aos Estados Unidos, JOhn Allan comprou uma bela casa na Virgínia, onde Edgar morou até ingressar na universidade, em 1826. Do outro lado da rua morava a família Royster e sua filha Elmira, que se tornou a namorada de adolescência de Edgar. Mas, devido à desaprovação dos pais de Elmira, o relacionamento com Poe foi rompido, e ela casou-se com Alexander Shelton, que os pais consideravam melhor partido.

Na Universidade de Virgínia Allan Poe estudou francês, espanhol, italiano, latim e grego. Viciado em jogo, desentendeu-se com o pai adotivo por causa de uma dívida de 2 mil dólares contraída na universidade. Mesmo tendo quase certeza de que fora trapaceado, Edgar insistia em pagar a dívida mas John recusou-se a ajudá-lo. Edgar então abandonou os estudos e saiu da casa dos pais adotivos e da cidade de Richmond. Viajou para Boston e alistou-se no exército, de onde mais tarde seria expulso por indisciplina.

Foi em Boston que, em 1827, publicou seu primeiro livro, Tamerlão e Outros Poemas. Sua poesia refletia os conflitos com os pais de criação e provavelmente foram escritos, pelo menos em parte, ainda na Virgínia.

No dia 28 de fevereiro de 1829, Frances, a mãe adotiva de Edgar, morreu em Richmond. Ele obteve autorização para afastar-se do posto, mas não conseguiu chegar a tempo para o enterro.
Depois de servir durante dois anos no exército, por alguns meses na Academia Militar de West Point e da publicação de um segundo livro de poesias, Al Aaraaf, Tamerlão e Poesias Menores, Allan Poe mudou-se para a cidade de Baltimore.

Em 1831 publicou Poemas, e em 1833 ganhou o primeiro prêmio num concurso literário com o conto Manuscrito Encontrado numa Garrafa. O êxito no concurso rendeu a Poe um prêmio de 50 dólares e garantiu-lhe a oportunidade de emprego que o levaria de volta a Richmond, em dezembro de 1835, como redator e editor da revista Southern Literary Messenger, onde trabalharia até 1837, escrevendo análises literárias de obras e recebendo tanto elogios quanto críticas por seus comentários francos. Nesse período publicou vários de seus próprios poemas e histórias.

Edgar morava em uma pensão com sua tia viúva Maria Clemm, o filho dela e a filha, Virgínia, com quem se casou em 16 de maio de 1836. Eles se uniram clandestinamente, tendo apenas Maria Clemm como testemunha, uma vez que os parentes haviam se mostrado contrários ao casamento. Na certidão emitida pelo cartório de Richmond, a idade de Virgínia era de 21 anos, mas na verdade ainda não tinha completado catorze. Após uma cerimônia simples, o casal viajou em lua-de-mel para Petersburg, cidade ao sul de Richmond, onde se hospedaram na casa de Hiram Haines, editor de um jornal local.

Enquanto trabalhava na Southern Literary Messenger, Poe começou a escrever seu único romance, A Narrativa de Arthur Gordon Pym. A primeira parte do romance foi publicada na revista e garantiu a Poe o reconhecimento do público como crítico, poeta e escritor. Mas, com problema de alcoolismo, Poe deixou o emprego na revista. Em 1837 passou a morar em Nova York, e em 1838 partiu para a Filadélfia. Sustentava-se realizando serviços editoriais para publicações como Burton´s Gentleman´s Magazine, Graham´s Magazine, New York Evening Mirror e The Broadway Journal.

Em 1839 escreveu A Queda da Casa de Usher e Contos do Grotesco e do Arabesco. No ano seginte publicou Os Crimes da Rua Morgue, seu primeiro conto policial. Durante o período em que Poe trabalhou na Graham´s Magazine, a circulação da revista aumentou de 5000 para 37000 assinaturas, tornando-se de longe o periódico mais popular da época.

Em março de 1842 Poe encontrou-se com o escritor inglês Charles Dickens na Filadélfia. No ano anterior Dickens ficara impressionado com a perspicácia de Poe, que advinhou o final da história de Barnaby Rudge, de sua autoria, - publicado em capítulos no jornal Saturday Everning Post - depois de analisá-la. Dickens comprometeu-se a encontrar uma editora inglesa para publicar Contos do Grotesco e do Arabesco, embora nada de concreto tenha resultado da promessa.

Edgar tentou publicar seu próprio periódico, mas não obteve apoio nem verba. Em 4 de março de 1843 o Saturday Courier da Filadélfia publicou um artigo autobiográfico de Poe, repleto de informações distorcidas, presumidamente fornecidas pelo próprio escritor. E foi a partir daí que a imagem pública de Poe começou a se estabelecer.

Em junho de 1843 o Dollar Newspaper da Filadélfia publicou o conto O Escaravelho de Ouro, que rendeu a Poe um prêmio de 100 dólares. O sucesso foi tão grande que uma segunda edição do jornal foi publicada. Além do prêmio em dinheiro, Poe recebeu uma significativa projeção nacional e internacional. Algumas de suas obras começaram a ser adaptadas para o teatro e traduzidas para o francês.

Em novembro desse mesmo ano Poe deu uma palestra sobre poesia americana, na Filadélfia. A platéia ficou lotada, e as críticas foram favoráveis. Isso o incentivou a fazer outras palestras, entre as quais "Os Poetas e a Poesia da América", "O Princípio Poético" e "O Universo". Em fevereiro de 1845 Poe tornou-se um dos editores do The Broadway Journal. Em julho passou a ser o único editor e em outubro tornou-se o único proprietário do periódico. Finalmente Poe conseguira: era dono de uma publicação, mas que operava perigosamente no vermelho. No ano seguinte, afundado em dívidas, o The Broadway Journal encerrou suas atividades. Em maio Poe mudou-se com a família para um chalé em Fordham, New Yoork.

A dependência do álcool foi a perdição de Allan Poe. Seu talento era imenso, e ele tinha contatos influentes e boa oportunidades. Alguns amigos de Washington conseguiram uma audiência na Casa Branca para levar adiante seu tão sonhado projeto de lançar uma revista, que até já tinha título - The Stylus. Mas quando ele se apresentou, visivelmente embriagado nem mesmo seu melhor amigo, o escritor e político F.W.Thomas,  pode fazer alguma coisa para ajudá-lo. Daí por diante, a sorte o abandonou.

Com o agravamento do estado de saúde da esposa acometida de tuberculose, Poe passou a recorrer à bebida com mais frequência. Virgínia morreu em 30 de janeiro de 1847. No ano seguinte Poe escreveu A Balela do Balão e publica O Corvo, conto que o tornou famoso nos Estados Unidos e na Europa.

Inspirado em uma de suas palestras - "O Universo" -, escreveu o livro Eureka, um extenso "poema em prosa", de teor semicientífico e metafísico, publicado em março de 1848. Essa foi a décima e última obra do poeta publicada em vida. De volta a Richmond em 1849, retornou o contato com a namorada da adolescência, Elmira. Mas a morte da esposa o deixara profundamente abalado, e ele nunca se recuperaria do golpe. Sua saúde se deteriorava cada vez mais, e quem lhe dava assistência era a tia e sogra, Maria Clemm.

O fim da vida de Poe foi marcado pela publicação de alguns de seus mais notáveis poemas - Os Sinos, Ulalume, Annabel Lee e outros - e por seu deslumbramento com várias mulheres.

Edgar Allan Poe virtualmente criou a história de detetive e aperfeiçoou o gênero de suspense.
Também escreveu alguns dos mais importantes textos críticos de sua época - citações teóricas sobre poesia e conto -, e sua influência na literatura mundial é extensa.

Alguns de seus poemas se destacam pela construção literária impecável, pelos temas sombrios de morte, melancolia, crueldade, tortura culpa e vingança, pelos cenários lúgubres e pela extraordinária manipulação da métrica e do ritmo, que por vezes chegam a reproduzir sons e estados de espírito.

Allan Poe influenciou poetas e escritores modernos entre os quais, certamente, Sir Arthur Conan Doyle - criador do personagem Sherlock Holmes e seu assistente Watson - , cujo estilo e estrutura são muito semelhantes às histórias de detetive de Poe.

As circunstâncias da morte do escritor Poe permanecem um mistério. Após uma visita a Norfolk e Richmond para dar algumas palestras, ele foi encontrado inconsciente numa rua de Baltimore, em 3 de outubro de 1849, e levado a um hospital, onde ficou internado por quatro dias, com febre alta, tremores e delírios. Morreu no dia 7 de outubro. Edema cerebral, indicava o diagnóstico publicado no breve obituário. Edgar Allan Poe foi sepultado no cemitério da Igreja Presbiteriana de Westminsteer, em Baltimore, Maryland, no mausoléu de seu avô.

Nesse mesmo ano Charles Baudelaire publicou Contos do Grotesco e o Arabesco na França, com o nome de Histórias Extraordinárias.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Honoré de Balzac

Honoré de Balzac
1799 - Em 20 de maio, nasce em Tours Honoré de Balzac, filho de Bernard François Balssa e Laure Sallambier.
1807-1813 - Estuda no Colégio dos Oratorianos de Vendôme.
1814 - A família Balzac instala-se em Paris.
1816-1819 - Balzac estuda Direito.
1819 - Muda-se para a mansarda da rua Lesdiguières. A família transfere-se para Villeparisis.
1820 - Balzac conclui a tragédia Cromwell.
1821 - Conhece Laure de Berny.
1822-1825- Funda uma editora e em dois anos está arruinado financeiramente.
1829 - Publica Os Chouans e A Fisiologia do Casamento.
1830 - Publica Cenas da Vida Privada. Colabora em diversos periódicos.
1831 - Obtém grande êxito com A Pele de Onagro e compõe mais nove romances. Começa a escrever A Mulher de Trinta Anos (*).
1832 - Candidata-se a deputado. Recebe a primeira carta anônima de "a estrangeira", a senhora Eveline Hanska.
1833 - Publica Pai Goriot, usando pela primeira vez o processo de "retorno de personagens". Planeja A Comédia Humana, conjunto de 95 romances, entre os quais Eugênia Grandet, editado nesse mesmo ano.
1835 - Encontra Eveline Hanska emViena.
1836 - Viaja à Itália.
1836-1840 - Publica 21 livros.
1841 - Em outubro, assina um contrato para editar A Comédia Humana.
1842 - Morre o conde Hanski.
1843 - Balzac viaja a São Petersburgo. Padece de várias enfermidades.
1846 - Adquire o palacete da rua Fortunée, em Paris.
1850 - Em março, casa-se com Eveline Hanska. Retorna a Paris. Adoece e, no dia 18 de agosto, morre. É enterrado três dias depois no Cemitério de Père-Lachaise. Victor Hugo pronuncia o discurso fúnebre.

(*) A Mulher de Trinta Anos
Em A Mulher de Trinta Anos Balzac levanta questões fundamentais da vida amorosa e sentimental das mulheres e revela sua perplexidade diante do fracasso do casamento.
Esse retrato da alma feminina é bastante atual; sua personagem principal, Júlia D´Aiglemont, é uma mulher malcasada, consciente da razão de seus sofrimentos e revoltada contra a instituição imperfeita do matrimônio.

Desde pequeno Balzac tinha um sonho: viver em sociedade entre aritocratas, imortalizado pela atividade literária. Como primeiro passo, o menino de Tours, filho de modesto funcionário público, resolve alterar sua linhagem. Julgando plebéia a ascendência do pai, Bernar François Balssa, liga-a artificialmente a antigos nobres franceses. Mal aprende a escrever, passa a asisnar Balzac e acrescenta entre o prenome e o sobrenome um "de", índice de nobreza na França: Honoré de Balzac. Armado assim de nobreza e tradição pensava poder conquistar importância e celebridade.

Não lhe importa a indiferença da mãe nem a falta de atenção do pai e dos irmãos. Só Laure, a irmã mais nova, emocionada, ouve-o falar de seus planos, da obra colossal que pretendia criar, do reconhecimento que acredita receberá um dia.

Em 1814 a família Balzac muda-se para Paris, onde Honoré poderia estudar. Com vinte anos diploma-se em Direito e vai estagiar no escritório do advogado Goyonnet de Merville, que mais tarde se transformaria no Derville de A Comédia Humana. Os anos de estágio não lhe servem como prática na profissão, mas fornecem-lhe material para vários romances. Logo se cansa da vida no cartório. Quer escrever o que vê. Ao comunicar seu desejo aos pais, causa estupefação geral. Exceto Laure, toda a família responde com ironia, desestimulando-o.

Honoré não dá ouvidos aos que tentam desanimá-lo e recusa-se a acompanhar a família, que está de mudança para Villeparisis, lugarejo próximo a Paris. Os pais de Balzac, ao perceberem que o filho não abriria mão de seus sonhos, fazem um trato com ele: iriam sustentá-lo durante um ano na capital. Terminado esse prazo, se não obtivesse êxito na literatura teria de trabalhar como advogado.

Para evitar que leve uma vida desregrada, os pais restringem-lhe a mesada ao mínimo essencial, obrigando-o a viver num quarto miserável, sob os cuidados de uma velha criada. Mas Balzac sente-se o homem mais feliz do mundo; está convencido de que se tornará um grande escritor: tem um nome aristocrático e um sótão em Paris.

Depois de um ano, passado entre leituras, passeios e dúvidas, Balzac conclui a tragédia Cromwell e leva-a à família e aos amigos. Todos acham a obra lamentável, mas ele não se dá por vencido. Talvez não fosse o teatro o gênero em que seu talento haveria de se revelar. Quem sabe se no romance teria algum êxito.

O prazo de um ano está terminado. Os pais anunciam que não mais sustentariam as fantasias do filho. Balzac, animado pela confiança da irmão e pela certeza de guardar dentro de si um universo a ser revelado, acha necessário dar-se tempo para amadurecer.

Os romances sentimentais estão na moda, publicados em fascículos mensais, segundo os modelos ingleses. Balzac sabe não ser esse o caminho da arte. Mas precisa de dinheiro para sobreviver. Temendo arruinar seu prestígio antes de alçar-se à posição de grande escritor, publica sob pseudônimo as composições elaboradas de 1822 a 1825.

A atividade incessante e o desgosto com as coisas que produz levam-no a buscar algum descanso em Villeparisis. Encontra ali o primeiro amor de sua vida: Laure de Berny, amiga da família, 22 anos mais velha que ele, casada com um fidalgo irascível, mãe de sete crianças. Amável e inteligente, atrai desde o início as simpatias de Balzac. percebendo, contudo, que provocaria uma tempestade se correspondesse aos sentimentos do admirador, tenta evitá-lo o quanto pode. E não pode muito. A mãe de Balzac e as três filhas mais velhas da amada tudo fazem para impedir a ligação. Mas o amor vence e resite por dez anos, transformando-se depois numa "amizade quase sublime". Em O Lírio do Vale, de 1835, Balzac celebra liricamente sua "dileta" sob o nome de senhora de Mortsauf, imagem da "perfeição terrestre", adorável criatura dotada das melhores qualidades físicas e espirituais.

Balzac, até então, não escrevera uma só linha da grande obra que projetara. As publicações folhetinescas esgotam-lhe tempo e energia. Precisa achar uma maneira de se manter com menor desgaste. Resolve transformar-se em editor, primeiro de obras alheias, depois das suas. Com recursos da família da senhora de Berny, monta uma editora; mas é obrigado a fechá-la e a volta a escrever para pagar as dívidas que contraíra. O desastre financeiro rende-lhe experiência e inspiração, que mais tarde lhe servirão como assunto de uma impiedosa sátira contra os meios editoriais.

Em meio a todas essas turbulências, Balzac encontra no escocês Walter Scott o modelo para a criação de uma obra verdadeiramente literária. Scott é famoso na época como o criador do romance histórico. Parte então para a Bretanha, ao norte da França, a fim de estudar de perto o cenário e pesquisar os documentos sobre a rebelião dos Chouans, monarquistas que se insurgiram contra a Revolução Francesa. Ao voltar a Paris, leva o manuscrito. Em 1829, aos trinta anos, publica-o, assinando seu nome pela primeira vez.

Os Chouans e A Fisiologia do Casamento abrem-lhe as portas dos mais importantes círculos literários. O êxito dos dois romances permite-lhe colaborar em periódicos e revistas de sucesso, ganhando muito mais. Consegue finalmente as condições materiais necessárias para se dedicar com sossego à realização das suas aspirações. Põe-se a escrever febrilmente, e em um único ano conclui, além de inúmeros artigos, dezenove novelas e romances e grande parte de Pequenas Misérias da Vida Conjugal, Beatriz, A Pele de Onagro e Catarina de Médicis. Com a ambição de se tornar um "historiador da sociedade contemporânea", Balzac abandona o romance histórico. De Walter Scott mantém apenas o processo narrativo: assim, o público pode visualizar facilmente os personagens e o ambiente, apresentados com minúcias.

Jovem cheio de planos e energia, Balzac monopoliza as atenções. Mais feio que bonito, com tendência à obesidade, veste-se ora em desalinho, ora com espalhafatoso dandismo. Tem o nariz disforme, rosto arredondado, cabelos longos e estranhos "olhos de ouro". Fala muito, e sempre de si próprio, dos livros que fizera e dos que planeja, das noites que passa em claro, tomando café incessantemente para se manter acordado e redigir. É a grandeza. Vai longe o tempo dos projetos cochichados a Laure, no escuro, para que a mãe não os escutasse.

A fama e o sucesso dá-lhe esperanças de vencer na política, e, em 1832, aos 33 anos, candidata-se a deputado. Mas não consegue os votos que esperava.

Em fins desse mesmo ano Balzac recebe uma carta da parte de uma mulher que apenas se assina "A Estrangeira" e lhe expressa admiração incondicional. Mais tarde descobre ser ela a condessa polonesa Eveline Hanska, casada e infeliz, muito mais velha que o romancista. Encontra-a pessoalmente pela primeira vez na Suíça e tornam-se amantes. Apesar de se avistarem esporadicamente, a relação entre ambos perdura até a morte de Balzac, e durante muitos anos se mantém somente através de volumosa correspondência.

A ligação com a senhora Hanska não o impede, porém, de viver efêmeras aventuras amorosas e de escrever. Nada no mundo o faria abandonar a literatura. Em 1834 termina Pai Goriot, iniciando o sistema de repetição de personagens de obra para obra. Percebe que poderia fazer romances sem começo nem fim, ligados uns aos outros como se fossem os diversos momentos da vida, preciosos fragmentos de um grande quadro social e psicológico. Ocorre-lhe a idéia de compor uma série de romances cíclicos, abrangendo todos os já escritos e excluindo apenas os que publicara sob pseudônimo. Um amigo, o marquês de Belloy, sugere-lhe que intitule o conjunto de A Comédia Humana, em contraposição à Divina Comédia, de Dante: nesta foram tratados os problemas espirituais do homem e da sociedade; naquela seriam analisados os dramas do mundo. Balzac esboça o plano: a obra iria se dividir em três partes: Estudo de Costumes, Estudos Filosóficos e Estudos Analíticos. A primeira compreenderia Cenas da Vida Privada, Cenas da Vida das Províncias (grupo a eu pertence Eugênia Grandet, publicado em 1833), Cenas da Vida Parisiense, Cenas da Vida Política e Cenas da Vida no Campo. Os Estudos Filosóficos (análise dos sentimentos) e os Analíticos (procura dos princípios) não foram sub-divididos Ao todo, A Comédia Humana engloba 95 romances, compostos de 1829 a 1848.

Seu objetivo inicial é elaborar uma espécie de tipologia social, mais científica do que artística, que supunha uma certa analogia da sociedade humana relativamente à vida animal. Desde logo o ousado projeto se revela, ao autor, incompatível com suas convicções religiosas. Limita-se a retratar os costumes de seu tempo, sublimando o poder e os perigos da imprensa, o papel da burocracia, a sede por dinheiro. Sobre esse pano de fundo da realidade social do século XIX, sua poderosa imaginação cria episódios e intrigas emocionantes.

Trabalhando quase 21 horas por dia (À Procura do Absoluto, As Ilusões Perdidas) e descansando pouquíssimo, ao cabo de um ano sua saúde está deteriorada. Engorda rapidamente, embora se alimente mal. Sente tonturas. Os editores, apesar dos lucros que usufruem com seus romances, continuam lhe pagando mal. Os credores vivem à sua porta. A senhora Hanska está presente só em cartas ou em encontros fugazes. Seu único consolo é a pilha de volumes que vai crescendo: O Contrato de Casamento, O Lírio do Vale (um de seus melhores romances, obra-prima de lirismo) e Memórias de uma Jovem Esposa.

Com a morte do conde Hanski, em 1841, Balzac pode unir-se a "A Estrangeira". Em seus sonhos de nobreza, ele a imagina sobrinha de Maria Leszczynska, a polonesa com que Luís XV se casara. Muitas vezes a própria Eveline Hanska tenta fazê-lov er que o parentesco com a rainha é mais uma de suas fantasias. Tendo conquistado a glória literária, só lhe falta pertencer realmente à aristocracia para sentir-se realizado.

O casamento tarda. Antes de levar para junto de si a mulher amada, Balzac quer pagar as dívidas e comprar uma casa que cobiçara nos seus primeiros dias de Paris, um belo palacete na rua Fortunée. Com a compra e a instalação, realizada com grande requinte, gasta dinheiro que não possui e tem de redobrar o trabalho. Está doente e enfraquecido; planeja vários romances; não executa nenhum. Sabendo que a ele restam poucos anos de vida, Eveline finalmente o desposa em 1850, em Berdtcheft.

"Não tenho mais força e poder senão para a felicidade, e, se esta não vier... nada mais desejarei no mundo", escreveria Balzac em Albert Savarus, de 1842. A felicidade não vem, nem há mais tempo. Acamado desde o retorno a Paris, não há como minorar o cansaço acumulado durante anos de trabalho incessante. Em 18 de agosto de 1850 seu estado se torna desesperador. O organismo debilitado já não reage. E Honoré de Balzac morre, aos 51 anos, sem ter sido um aristocrata, mas imortalizado como o grande retratista da burguesia do século XIX.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Shakespeare

William Shakespeare
1564 - Em abril, provavelmente no dia 23, nasce William Shakespeare, em Straford-on-Avon, Inglaterra.
1582 - Em 27 de novembro casa-se com Anne Hathaway.
1583 - Em maio nasce a filha Susanna.
1585 - Em fevereiro nascem os gêmeos Hamnet e Judith.
1592 - Depois de deixar Stratford e ir para Londres, William é reconhecido como um ator talentoso, bem como um grande poeta. Torna-se membro da companhia teatral Os Homens de Lord Chamberlain.
 1596 - O filho Hamnet morre com onze anos de idade. William torna-se "cavalheiro" quando seu pai recebe um brasão de armas do College of Heralds.
1597 - William compra uma casa à qual dá o nome de "The Great House of New Place" (A Grande Casa do Novo Lugar).
1599 - Em julho o Globe Theater é construído com as ruínas do The Theater.
1603 - Em mao a companhia teatral de Lord Chamberlain passa a se chamar Homens do Rei.
1613 - O Globe Theater pega fogo durante uma apresentação de Henrique VII. Shakespeare se aposenta e volta para sua terra natal.
1616 - Em 23 d abril, em Stratford, morre William Shakespeare, aos 52 anos. Em 26 de abril é sepultado na igreja de Stratford.


(*) Tragédias
A primeira grande obra de Shakespeare foi Romeu e Julieta, de 1594. Da segunda e maior fase da dramaturgia shakespeariana são Macbeth e Otelo, entre outras grandes tragédias. Reunidas em um só volume, aqui estão três dos mais consagrados trabalhos do autor, peças até hoje entusiasticamente aplaudidas nos palcos de todo o mundo.


Terceiro filho de John Shakespeare e Mary Arden, William Shakespeare nasceu emStratfor-on-Avon, a cinquenta qulômetros de Londres, em abril de 1564. Não há registro de seu nacimento, mas existena igreja local o registro de seu batismo, em 26 de abril. Na época, pr ser alto o índice de mortalidade de recém-nascidos, as crianças normalmente eram batizadas com dois ou três dias de vida. Dessa forma foi estabelecido, então, o dia 23 de abril como a data de seu nascimento.

William era neto de fazenderios, e seu pai era um próspero comerciante de couros que chegou a ser vereador na cidade de Stratford-on-Avon (o nome indica que a cidade se localiza às margens do rio Avon). William foi o terceiro filho de John e Mary, porém o primeiro que chegou à idade adulta. Londres e as regiões próximas, á época, eram constantemtne assoladas por epidemias de peste, e as duas irmãs mais velhas de William morreram ainda crianças.

Tudo que se sabe da juventude de Shakesperare é que ele provavelmente estudou na Stratford Grammar Shool, onde teria aprendido gramática e literatura latina. Grande parte de sua obra demonstra conhecimento do teatro romano, da história antiga e da mitologia clássic.

Não há registro de que Shakespeare tenha ido para a universidade. Sabe-se que William caosu-se com Anne Hathaway, oito anos mais velha que ele. Anne estava grávida de tr~es meses, e William, que estava com dexoito anos de idade, precisou de uma autorização especial para se casar, provavelmente na Temple Gafton Church. Antes de completar 21 anos William já era pai de três ciranças, sendo que duas eram um casal de gêmeos. Houve especulação de que fora um casamento sem amor e de que o relacionamento de William com a esposa estava longe de ser um mar de rosas.

No entanto, William sempre permaneceu leal - se não fiel - a Anne durante toda a vida, não tendo deixado nunca de visitá-la regularmente, depois que se mudou para Londres.

Nada se sabe sobre o período compreendido entre o nascimento dos gêmeos e a ascensão de William Shakespeare como ator, poeta e dramaturgo, em 1592. No entanto cogita-se que ele teria fugido de Stratford para Londres para escapar de um processo por ter caçado um veado em propriedade particular, e também que teria feito parte de um grupo de atores itinerantes e trabalhado como professor numa escola rural.

Em 1594 Shakespeare ingressou na companhia teatral de Lord Chamberlain, que mais tarde, no reinado de James I, receberia o nome de King´s Men (Homens do Rei).

Shakespeare permaneceu nessa companhia teatral até o final de sua carreira em Londres. Presume-se que, como ator, ele tenha representado o papel de personagens idosos, como o fantasma em Hamlet e o velho Adam em As You Kike It (comédia de 1599). Em 1596 a família de Shakespeare recebeu um brasão de armas, e em 1597 a condição financeira de William lhe permitiu adquirir uma imponente residência em Stratford, onde ele viveria até o final da vida.

Em 1599 tornou-se um dos sócios-proprietários do Globe Theatre. Em 1613 Shakespeare se aposentou e retornou a Stratford, depois que ocorreu um incêndio no Globe durante uma apresentação.

É graças á petulante declaração de um dramaturgo rival, Robert Greene, que hoje se sabe que em 1592 Shakespeare já adquirira reputação como ator e escritor. Numa publicação que circulava à época, Greene referiu-se e ele como "uma gralha emergente".

O trabalho inicial de Skakespeare para o teatro foi interrompido por uma epidemia de peste em Londres que levou as autoridades a fechar os teatros.

Nesse período, apoiado por Henry Wriothesley, prestigiado conde de Southampton, ele escreveu dois poemas narrativos eróticos: Vênus e Adônis, em 1593, e O Rapto de Lucrécia, em 1594, ale´m de 154 sonetos - publicados em 1609, embora já circulassem anteriormente em forma de manuscrito -, que expressavam agitação, frustração, homossexualismo e masoquismo. Essas obras estabeleceram a reputação de Shakespeare como um talentoso e popular poeta da Renascença.

Houve mais sessões especiais para apresentação das peças de Shakespeare nas cortes da rainha Elizabeth I e do rei James I do que para qualquer outro dramaturgo. Certa vez, porém, arriscou-se a perder as boas graças da corte quando, em 1599, sua companhia teatral apresentou "a peça de destituição e assassinato do rei Ricardo II", a pedido de um grupo de conspiradores contra a rainha Elizabeth. No inquérito que se abriu, a companhia foi absolvida de cumplicidade na conspiração.

Por volta de 1608 a produção dramática de Shakespeare diminuiu, e ele começou a passar mais tempo na residência da família em Stratford, onde desfrutava uma vida confortável, embora nunca tenha sido um homem rico.

Shakespeare foi pai de duas filhas. De Judith, a mais nova, não aprovava o namoro com Thomas Quiney, quatro anos mais jovem que ela e dono de uma taberna em Stratford. E não era sem motivo, pois, já comprometido com Judith, Thomas tinha um caso com uma mulher, que morreu ao dar à luz seu filho, na época do casamento com Judith. Shakespeare chegou a alterar seu testamento para que Thomas não pudesse se beneficiar da herança, cuja maior parte ficou para a filha Susanna, que foi quem deu a Shakespeare sua única neta, Elizabeth.

As histórias sobre a morte de Shakespeare não são comprovadas. A mais conhecida delas é a de que ele teria contraído uma febre fatal após um banquete com seus amigos escritores Michel Drayton e Ben Jonson. O registro de seu sepultamento data de 25 de abril de 1616, quando acabara de completar 52 anos.

A obra de Shakespeare é dividida em quatro períodos: o primeiro, até 1594; o segundo, de 1594 a 1600; o terceiro, de 1600 a 1608; e o quarto, após 1608. Ao longo desse tempo o estilo de Shakespeare evoluiu da retórica barroca ao lirismo despojado.

O primeiro período foi caracterizado, até certo ponto, em voga na época o gênero de peça histórica, e Shakespeare escreveu os afrescos Henrique VI entre 1589 e 1592 e Ricardo III entre 1592  1593. também se destacam nesse período as comédias ligeiras A Comédia de Erros, de 1592, A Megera Domada, escrita entre 1593 e 1594, e Os Dois Cavalheiros de Verona, de 1594, além da tragédia Tito Andrônico, de 1593-1594.

No segundo período o estilo e a abordagem de Shakespeare se tornaram altamente individualizados. Foi quando escreveu as peças históricas Ricardo II, Henrique IV e Henrique V, as comédias Sonho de Uma Noite de Verão, em 1595, O Mercador de Veneza, em 1596, Muito Barulho por Nada, em 1598, e As Alegres Comadres de Windsor, em 1600. Desse período são também as tragédias Romeu e Julieta, de 1594-1595, e Júlio César, de 1599.

As tragédias escritas no terceiro período são consideradas as obras de maior profundidade de Shakespeare. Nelas ele usa a linguagem poética como um instrumento extremamente dramático, capaz de registrar o pensamento e as várias dimensões de determinadas situações dramáticas: entre 1601 e 1606 escreveu Hamlet, Otelo, Macbeth e Rei Lear. São também desse período as comédias Tróilo e Créssida, Tudo Está Bem Quando Acaba Bem e Medida por Medida.

O quarto período é o do equilíbrio. Nele destacam-se as principais tragicomédias românticas do escritor: Tímon de Atenas, Cimbelina, Conto de Inverno e A Tempestade.

Nesse período Shakespeare escreveu também as peças históricas Antônio e Cleópatra e Coriolano.

Na opinião de muitos críticos, as tragicomédias significam o auge do amadurecimento de William Shakespeare, embora uma outra linha considere que essa evolução reflete simplesmente as mudanças de estilo no drama daquele período.

A obra dramática de Shakespeare funde uma visão poética e refinada com um forte caráter popular, no qual os assassinatos, as violações, os incestos e as traições são os ingredientes mais leves para o divertimento do público. Além disso, na época de Shakespeare os palcos consistiam em uma plataforma elevada ao redor da qual o público se sentava, como em uma arena. E a utilização dos temas antigos também contribuía para que os personagens de Shakespeare falassem ao coração da platéia.

Já houve cerca de trezentas adaptações das peças de Shakespeare para o cinema, entre elas diferentes versões de Hamlet, Otelo, Romeu e Julieta, Macbeth, Júlio César, Rei Lear e Sonho de Uma Noite de Verão. Até hoje suas peças são representadas nos teatros do mundo inteiro, sempre com muito sucesso.

Shakespeare é sempre atual. Sua mensagem atinge todas as classes sociais, religiões, ideologias políticas e estados da alma. Ele festeja o amor, os manjares, a bebida a música, a amizade, a conversação e a beleza variável e constante da Natureza. O homem que Shakespeare apresenta reflete sua experiência, senso comum e invulgar sabedoria.

Shakespeare sabia manejar a língua com inigualável mestria. A forma como falava de uma coisa fazia com que ela se materializasse. Condensava o Universo em monossílabos: "Ser ou não ser" é a questão mais complexa e profunda que se põe ao homem, traduzida pelas palavras mais curtas e simples. Sabia como tocar a alma humana.

Assim como conduz o homem aos limites da eternidade, Shakespeare remete-o para o comum da Humanidade. Ante o cadáver de Cordélia, o Rei Lear, atormentado pela dor, exclama: "Como é possível que um cão, um cavalo e um rato tenham vida, enquanto tu jazes inerte?". No auge do seu desespero, diz: "Não voltarás mais". E acrescenta:"Nunca mais, nunca mais,  nunca mais, nunca mias, nunca mais!" Em seguida, o dique que represava sua angústia cede com este pedido prosaico:"Por favor, desaperta-me este botão".

Só mesmo William Shakespeare poderia ter ousado empregar conceitos tão díspares em um momento tão dramático. Shakespeare sobrevive porque a seu respeito só se consegue dizer a penúltima palavra - nunca a última. Suas criações são tão opacas como as da própria vida. Seus personagens são imensamente desconcertantes.

Hamlet é dos personagens sobre a qual mais se tem escrito ao longos do séculos. No entanto, a única coisa que se sabe de Hamlet é que sua tragédia é ser Hamlet - como a de todos ser humano é ser o que é. Todas as épocas e todos os homens encontram sua imagem refletida no espelho universal de Shakespeare. Os ecos da sua paixão e da sua poesia ressoam no nosso espírito - e assim será, certamente, ainda por muito tempo.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Zola

Émile Edouard Charles Antoine Zola
1840 - Nasce em Paris, em 2 de abril, Émile Edouard Charles Antoine Zola, filho único de Francesco Zola e de Émile Aurélie Aubert.
1843 - A família muda-se para Aix-en-Provence.
1847 - Morre o pai, Francesco.
1852 - Tornase amigo do pintor Paul Cézanne, que estuda com ele no Collège Bourbon.
1858 - Muda-se para Paris com a mãe.
1959 - Primeira obra em prosa, As Costureirinhas de Provença.
1862 - Começa a trabalhar na Editora Hachette.
1864 - Publica Contos para Ninon.
1865 - Publica seu primeiro romance, A Confissão de Claude.
1866 - Demite-se da Editora para se dedicar à literatura.
1867 - Começa a escrever o romance Thérèse Raquin. Publica Os Mistérios de Marselha.
1868 - Passa a trabalhar no grandioso projeto História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império: Os Rougon-Macquart.
1870 - Casa-se com Alexandrine Méley.
1871 - Publica os dois primeiros volumes da série Os Rougon-Macquart: A Fortuna dos Rougon e A Presa.
1873 /1876 - Publica O Ventre de Paris, A Conquista de Plassans, O Crime do Abade Mouret e Sua Excelência Eugène Rougon.

Naná
Integrante de um ciclo de vinte romances, Naná descreve a trajetória da filha de uma lavadeira que, corrompida na adolescência, transforma-se na mais poderosa cortesã do Segundo Império francês. Escrito em 1880, provavelmente este seja o romance mais popular de Émile Zola, e um dos perfis de mulher mais explorados pelo cinema e pela literatura.


Filho único de Francesco Zola, um italiano que vivia em Aix-en-Provence, onde trabalhava na construção de um canal, e de Émilie-Aurélie Aubert, Émile Zola nasceu em Paris, em 2 de abril de 1840. Seu pai tinha 44 anos quando, em uma de suas viagens a Paris, conheceu Émilie, que ainda não completara vinte anos.

O menino mal conheceu o pai; em 1847 Francesco faleceu. Sozinha e com grande sacrifício, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer com que o filho estudasse.

Aos doze anos, no Collège Bourbon, tornou-se amigo do futuro grande pintor impressionista Paul Cézanne.

Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com a mãe para Paris, onde, graças a um amigo da família, conseguiu emprego na alfândega. O salário era muito bom, porém o mais penoso era ter de ficar preso no escritório. Além disso havia outro problema sério: o jovem não conhecia ninguém de Paris. Assim, sua única distração era escrever, para os amigos que deixara em Aix, longas queixas sobre a necessidade de ganhar a vida.

Nem a promoção a comissário da alfândega conseguiu entusiasmá-lo. Vivia sonhando com a natureza, as flores, os pássaros e as mulheres: enfim, a vida fora do escritório. E, de tanto sonhar, um dia descobriu que não poderia mais suportar "aquele mundo de comissários estúpidos". Largou tudo e foi morar em um sótão, alimentando-se de pão com alho e óleo, à maneira dos boêmios da época. Só não pensava em deixar Paris. Sentia que possuía talento literário, estava disposto a lutar para obter sucesso, e as probabilidades de consegui-lo eram maiores na capital. Em dezembro de 1859 concluía sua primeira obra em prosa, As Costureirinhas de Provença. Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito.  Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".

Enquanto a fama não vinha, distraía-se de várias maneiras: discutia literatura, escrevia poemas sob a influência de seus ídolos românticos, sonhava com o futuro e ainda encontrou tempo para se apaixonar por Alexandrine Méley, com quem se casaria em 1870.

Em 1862, com o objetivo de se aproximar um pouco mais do mundo literário, começou a trabalhar na Editora Hachette. Ali seu progresso foi rápido: logo tornou-se chefe de publicidade. Tinha um bom salário e a oportunidade de tomar contato com os escritores mais famosos da época. Por outro lado, aos poucos foi descobrindo que a literatura também era um comércio e que o valor de uma obra, em si, não bastava para imortalizar um autor sem ajuda de publicidade.

Enquanto trabalhava para vender os livros de outros, Zola escrevia também o seu: Contos para Ninon. Abandonara a poesia, pois a experiência lhe havia ensinado que os versos não vendiam bem. Recusado inicialmente por três editores, o manuscrito foi afinal publicado em 1864, e recebeu boa acolhida da crítica, embora não despertasse grandes polêmicas. Mas isso não importava. O fundamental era trabalhar muito para aumentar a renda e fazer-se conhecido. As dez horas diárias não lhe bastavam: Zola ainda escrevia artigos para o Petit Journal e para o Salut Public, de Lyon, além de redigir A Confissão de Claude, publicado em 1865. O livro foi vem recebido pela crítica, mas, como o anterior, não suscitou polêmicas. E Zola sabia que as polêmicas eram úteis ao sucesso de um escritor.

Por outro lado, começou a sentir que a Hachette lhe roubava um tempo precioso. Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.

Trocou o romantismo de seus anos de adolescência pelo realismo. Em 1867 começou a elaborar Thérèse Raquin, "um grande estudo fisiológico e psicológico". Entretanto, logo teve de interromper o trabalho para atender a uma encomenda: escrever o romance-folhetim Os Mistérios de Marselha. Apesar de não ganhar muito dinheiro com essa obra, com essa publicação Zola passou a ser conhecido em toda a região meridional da França.

Durante mais de dois anos Zola imaginou o projeto de sua nova obra. Um trabalho de muito fôlego composto de vários romances ligados entre si. Começou então a elaborar a História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império: Os Rougon-Macquart. O ano de 1870 surgia com ilimitada fé na ciência e no progresso, e parecia propiciar uma tarefa desse tipo.

Depois de convencer o editor Charpentier a financiar o projeto, o romancista afastou-se do mundo. Depois de viver enfiado nas bibliotecas por mais de uma ano, terminou a coleta de dados, foi para casa e começou a criar.

Não teria abandonado a mesa de trabalho não fosse a guerra franco-prussiana, em 1870, que o obrigou a refugiar-se em Bordeaux. Quando terminou o sítio dos inimigos, voltou a Paris. Mas em março do ano seguinte estourava a revolta dos operários, a Comuna. No meio de toda a agitação, míope e com um caderninho nas mãos, o escritor anotava tudo. Sua atitude despertou suspeitas, e ele acabou sendo preso pelos revoltosos. "Mas eu sou Émile Zola", protestou, "antigo republicano. Meus livros foram perseguidos pelo império! Sou um jornalista!" Seus protestos convenceram os líderes revolucionários, que o libertaram no dia seguinte. Mal deixou a cela, contudo, foi novamente preso, dessa vez pelos homens do governo. Soltaram-no graças à intervenção de Gustave Simon, filho do estadista Jules Simon. Ao sair da prisão, declarou: "A única coisa que me consola é não existir um terceiro governo que mande me prender amanhã".

Enquanto a revolução continuava lá fora, dentro de casa o escritor continuava seu trabalho. Apesar de todas as interferências, em 1871 apareceram os dois primeiros volumes da série: A Fortuna dos Rougon e A Presa. Zola estava ansioso por conhecer a opinião do público. Ficou preocupado ao notar uma reação negativa, e indignou-se quando teve notícias de que até cartas de denúncias estavam sendo enviadas ao procurador da República. Sua indignação, porém, só serviu para piorar as coisas: a publicação em folhetim de A Presa foi suspensa, sob acusação de obscenidade. Isso era demais para um autor que se considerava sério e puro. Sua defesa apareceria algum tempo depois no ensaio Da Moralidade na Literatura. Até 1876 publicou mais quatro volumes: O Ventre de Paris, A Conquista de Plassans, O Crime do Abade Mouret e Sua Excelência Eugène Rougon.

Estava com 36 anos e com uma enorme capacidade criadora. A crítica já acolhia com interesse suas obras. Entretanto, ainda não era um romancista de sucesso.

Em 1876 saiu A Taverna em folhetim, transformado em livro no ano seguinte, em dois volumes. Apesar de todas as críticas, o sucesso foi tão grande que, em poucas semanas, Émile Zola se transformou no mais célebre escritor francês.

O sucesso do romance não ficou apenas em frases elogiosas. O editor Charpentier reformulou os termos do contrato, para favorecer o escritor. Os jornais disputaram as obras seguintes de Zola, oferecendo fortunas para publicá-las em folhetim. Com todo esse dinheiro, o romancista comprou uma casa em Médan, e, enquanto os leitores ainda discutiam A Taberna, Zola começou a elaborar um novo livro, em estilo completamente diverso. Mas, como ele mesmo previra, Uma Página de Amor, de 1878, acabou decepcionando um público que cada vez mais desejava narrativas violentas.

O único consolo pelo fracasso foi a constante presença de um grupo de autores em sua casa. Dessas reuniões surgiu em 1880 Os Serões de Médan, com um conto de cada escritor; o de Zola chamava-se O Ataque do Moinho.

Nesse mesmo ano pôs-se a preparar um novo romance, Naná, em que descrevia a vida de uma cortesã. O sucesso foi enorme, sobretudo pelo tema ousado e pela criação realista dos personagens. Entretanto, como o escândalo havia sido responsável por grande parte desse êxito, os ataques vieram de maneira redobrada. Os que haviam elogiado A Taberna, por mostrar as fraquezas dos meios operários, rejeitaram Naná por denunciar os males de outras camadas sociais.

Em 1882 Zola publicou Panelada, e nos dois seguintes mais dois volumes da série dos Rougon: À Felicidade das Damas e A Alegria de Viver. Este tinha como tema a luta do grande comércio contra as pequenas lojas. Para escrever Germinal, publicado em 1885, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo do poço para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam. Descobriu as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, o sacrifício dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre o rosto deles, a dificuldade de empurrar uma vagoneta por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver.

A obra obteve enorme repercussão. Apesar de revelar um universo que muita gente não queria ver, Germinal é um livro tão poderoso que consagrou Zola como um dos maiores escritores de todos os tempos.

No ano seginte, 1886, lançou A Obra e começou a escrever A Terra, romance ambientado no campo, no qual pretendia pintar a vida dos camponeses, tal como fizera com os operários em Germinal. Publicado em 1887, A Terra logo transformou Zola num alvo de críticas violentas. Acusaram-no de indecente e de haver caluniado os camponeses. Os adversários do naturalismo não lhe davam folga.

Em 1888 o escritor conheceu Jeanne Rozerot, jovem de vinte anos com quem teve uma ligação amorosa, que resultou num casal de filhos. Nesse ano publicou O Sonho, obra em que demonstrou sua enorme facilidade de passar de temas violentos para assuntos mais amenos. Dois anos depois terminou A Besta Humana. Cansado da série Os Rougon-Macquart, os novos romances foram empobrecendo. Assim, os três últimos, publicados entre 1891 e 1893 - O Dinheiro, A Derrocada e O Dr. Pascal -, já não têm a força dos anteriores.

Quando terminou Os Rougon-Macquart, Zola estava com 53 anos. Havia escrito vinte romances, em 31 volumes, com 1200 personagens. Podia dar-se ao luxo de descansar. Mas ele queria continuar criando. O projeto da próxima obra já estava pronto: As Três Cidades, título que englobaria os romances Lourdes, Roma e Paris, publicados entre 1894 e 1898.

Em 1894 o capitão do Estado-Maior do Exército Alfred Dreyfus foi condenado à prisão perpétua na ilha do Diabo (Guiana Francesa), acusado de haver entregue à Alemanha documentos referentes à defesa nacional, um crime que não tinha cometido. As cartas que o capitão enviava do presídio gritavam por sua inocência com firmeza e convicção. O caso tornou-se público.

Três anos mais tarde Zola foi passar o inverno em Paris e tomou conhecimento de certos documentos relativos ao processo. Entusiasmou-se. Era a primeira vez, após trinta anos de literatura, que sentia uma motivação para agir muito superior à paixão por criar. Era preciso reparar a injustiça cometida diante de todo um povo.

O acaso acabou decidindo a maneira de entrar em ação: num passeio por Paris Zola encontrou-se com o diretor do jornal Le Figaro. Os dois conversaram sobre o caso e chegaram à mesma conclusão: Dreyfus era inocente. Pouco depois o jornal publicava um artigo do escritor referindo-se ao anti-semitismo (Dreyfus era judeu). No dia 14 de dezembro de 1897 Zola redigiu Carta à Juventude, em que fez um apelo para que os jovens lutassem pela revisão do processo.

Zola atacava, os adversários revidavam. Num artigo do Petit Journal, chegaram a colocar em dúvida a honra de seu pai. Com uma tiragem de mais de um milhão de exemplares, o jornal espalhava a mentira e o ódio nas vilas mais longínquas. Mesmo as pessoas que estavam convencidas da inocência do capitão Dreyfus continuavam caladas.

Zola, entretanto, não se deixou assustar. Em janeiro de 1898, publicou no Aurore a famosa carta J´Accuse (Eu Acuso), endereçada ao presidente da República, Félix Faure. Nela denunciava todas as partes obscuras do processo. A publicação abalou Paris. O escritor foi condenado a um ano de prisão e obrigado a pagar fiança.

A única solução era sair da França. Zola então partiu para a Inglaterra, onde começou a compor Fecundidade, o primeiro de seus Quatro Evangelhos. Só retornou a Paris para assistir à revisão do processo de Dreyfus. O capitão foi condenado novamente, e Zola, num artigo violentíssimo, fez explodir toda sua indignação. Finalmente, em 1899, Dreyfus foi libertado. E o romancista, por ter sido um dos grandes responsáveis por essa vitória, recebeu um convite de editores ingleses para escrever sobre o caso. No entanto, recusou, pois julgava o fato de interesse exclusivamente francês.

Em 1901 as associações operárias organizaram um banquete para festejar a publicação de seu segundo evangelho, Trabalho, e para homenageá-lo por sua atuação no caso Dreyfus. Em agosto do ano seguinte terminou a redação de Verdade, o terceiro evangelho. No mês seguinte foi a Paris. O apartamento desabitado havia alguns meses estava bastante úmido. Zola ligou o aquecedor e adormeceu ao lado da esposa. À noite Alexandrine acordou com o corpo extremamente fatigado. Cambaleando, sentindo um mal-estar geral, chegou até o banheiro e vomitou. Quando voltou ao quarto, viu Zola já acordado. Contudo, os dois não conseguiam conversar, pois ele também se sentia mal. Tentou levantar-se mas perdeu os sentidos. Alexandrine esforçou-se para ajudá-lo, mas desmaiou também.

Somente às nove horas da manhã do dia 29 de setembro é que os empregados decidiram arrombar a porta do quarto. Alexandrine foi transportada imediatamente para uma clínica e salvou-se. Zola, entretanto, morreu asfixiado pelo gás do aquecedor. Não houve tempo para que escrevesse o último dos quatro evangelhos: Justiça. Seu corpo foi enterrado em 5 de outubro no Cemitério de Montmarte, com honras nacionais.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Henry Fielding

Henry Fielding

1707 - Nasce em 22 de abril, em Sharpham Park, condado de Somerser, Henry Fielding, filho de Edmund e Sara Fielding.
1718 - Morre a mãe de Henry, Sara Fielding. Henry frequenta o colégio na cidade de Eton.
1726 - Inicia o curso de Direito em Leiden.
1728 - Muda-se para Londres. Encena sua primeira comédia, O Amor sob Diversas Máscaras.
1730 - Apresenta as comédias O Galante do Templo, A Farsa do Autor e Thomas Ressuscitado ou A História Completa da Vida e das Maravilhosas Ações de Tom Thumb.
1734 - Em novembro casa-se com Charlotte Cradock.
1736 - Estréia a peça burlesca Pasquin, com grande êxito.
1737 - Estréia a peça satírica Registro Histórico para 1736. Em novembro Fielding retoma os estudos de Direito. Funda o jornal O Campeão.
1740- Fielding passa a trabalhar no fórum londrino.
1741 - Samuel Richardson publica o romance Pamela.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

domingo, 13 de outubro de 2013

sábado, 12 de outubro de 2013

Gógol

Gógol

1809 - Em 19 de março, nasce na província de Poltava, Ucrânia, Nicolai Vassílievitch Gógol, filho de Vassíli Afanássievitch Gógol-Ianóvski e Maria Ivanovna.
1820 - É enviado ao liceu de Poltava, juntamente com seu irmão Ivan.
1821 - Morre seu irmão Ivan. É enviado para o liceu de Niêjin.
1825 - Morre o pai de Gógol.
1826 - Dirige A Estrela, revista elaborada pelos alunos do liceu de Niêjin.
1828 - Parte para a capital da Rússia, São Petersburgo, em companhia do amigo Danilévski.
1829 - Publica o poema Hans Kuchelgarten, sob o pseudônimo de V. Alov. Parte para a Alemanha em agosto. Em setembro reTorna a São Petersburgo.
1831 - Publica o conto A Noite de São João na revista mensal Letras Patrióticas. Em março passa a lecionar no Instituto Patriótico das Jovens Nobres. Em julho conhece o poeta Púchkin. Em setembro publica o primeiro volume de Noites na Fazenda perto de Dikanka.
1832 - Viaja para sua terra natal.
1834 - É nomeado professor-adjunto de História na Universidade de São Petersburgo.
1835 - Publica Arabescos e Mirgórod. Escreve O Inspetor Geral e começa Almas Mortas.
1836 - Estréia da peça O Inspetor Geral. Em junho parte para o exterior com o amigo Danilévski.
1842 - Publica Almas Mortas (*). Dá início ao segundo volume dessa obra.
1843 - Queima pela primeira vez manuscritos da segunda parte de Almas Mortas (*).
1846 - Começa a publicar Extratos de uma Correspondência.
1847 - Publica Confissões de um Autor.
1848 - Em janeiro viaja para a Terra Santa Chega a Jerusalém em 18 de fevereiro.
1849 - Termina de escrever a segunda parte de Almas Mortas.
1852 - Queima todos os seus manuscritos. Morre em 21 de janeiro.


(*) Almas Mortas
Publicado em 1842, Almas Mortas conta a história de um aventureiro que compra, a baixo preço. os camponeses russos mortos desde o último censo, mas ainda vivos nas listas do fisco. Uma trapaça que permite traçar um panorama da vida da província e um esboço do homem russo por inteiro, pelo seu lado negativo. Gógol iniciou um segundo volume de Almas Mortas, mas em um momento de angústia acabou queimando os manuscritos. Alguns anos depois retoma a continuação da obra e a conclui, mas pouco antes de morrer queima novamente os originais.


Amanhece em São Petersburgo. Acordado de seus sonhos, Nicolai Vassílievitch Gógol esfrega os olhos, passa água sobre o rosto e sente o impacto do primeiro dia na  capital. Corre até a janela para olhar o Nieva. Mas não há Nieva algum. Olha para Danilévski, que ainda dorme, para todos os cantos do pequeno quarto, e não pode conter a sensação de um ódio inexplicável. Nada é como imaginava.
No dia seguinte e nos outros será a mesma coia. Aquela sensação de perplexidade o acompanhará pelas ruas cheias de marasmo. E estará com ele quando voltar para casa, conversar com Dnailévski, olhar para o lugar onde deveria estar o rio Nieva e escrever para sua mãe.

O pai, Bassíli Afanássievitch Gógol-Ianósvki, falecido em 185, tinha sido um proprietário qeu empregava mais de cem "almas" - assim eram chamados os servos. A mãe, Maria Ivánovna, amava o marido e os filhos de maneira apaixonada. Era uma mulher de extraordinária sensibilidade. Transmitiu ao pequeno Gógol sua personalidade contraditória e um intenso sentimento religioso que o levaria ao misticismo.

Já na infância aconteciam coisas que o deixavam perdido entre a fé e o temor. muitas vezes ouvia vozes que chamavam seu nome - segundo crenças populares, isso significava presságio de morte. Então ele fugia e procurava alguém que pudesse protegê-lo. Quando as vozes o deixavam, sorria e encarava o mundo com coragem e felicidade.

Seu mundo começou no dia 19 de março de 1809, na província de Poltava, Ucrânia. Um universo fantástico bem maior que a paisagem estranhamento dividida: de um lado, enormes áreas desocupadas; de outro, grandes glebas de terra pertencentes a poucos proprietários. Para servi-los havia as "almas", que com seu suor semeavam a terra, sem nunca possuí-la.

Desde menino ouvia as canções do folclore russo, ia às feiras, assistia aos teatrinhos de fantoches, escutava lendas e fábulas e aos poucos, assimilava o modo de pensar de seu povo.

Em 1820 foi enviado ao liceu de Poltava, junto com seu irmão Ivan. Com as férias de verão vieram também os ventos  misteriosos que carregaram a vida de Ivan. Ficou sem saber o significado da vida e da morte, perdido entre o luto as lágrimas e o vazio.

Em 1821 Gógol seguiu para o liceu de Niêjin levando uma bagagem de sentimentos conturbados. Talvez por isso nunca tenha se integrado de fato aos colegas e professores. Após a morte do pai, parecia que nada mais havia a fazer em Niêjin. Gógol começou então a sonhar com São Petersburgo. Quando deixou Niêjin, em 1828, viveu durante seis meses com a mãe e os irmãos. Depois partiu para a capital em companhia do amigo Danilévski.

Gógol sabia que como simples escriturário nunca poderia realizar seus projetos. O emprego serviria apenas para satisfazer às necessidades mais urgentes, e logo percebeu que o salário não bastaria para fazê-lo sobreviver, e acabou pedindo ajuda à mãe.

Na verdade, ele já havia feito algumas tentativas de manter-se por si mesmo. Em 1829 publicou Hans Kuchelgarten. O poema, assinado com o pseudônimo de V. Alov, refletia as primeiras influências literárias. Contudo, a obra era inferior à produção dos poetas médios da época. A crítica reagiu de forma tão negativa que Gógol, tomado de desespero, correu às livrarias, recolheu os exemplares ainda existentes, levou-os para casa e queimou-os.

A essa experiência seguiu-se uma enorme angústia, que o fez partir para o exterior no primeiro navio que encontrou. Em agosto chegou à Alemanha; em setembro estava de volta a São Petersburgo, em péssima situação financeira. Mais tarde conseguiu emprego e foi morar com dois amigos.

Enquanto ia sobrevivendo apertadamente, o jovem Gógol prestava atenção no rumo que as coisas tomavam em seu país. Os intelectuais revelavam crescente preocupação com os problemas do povo russo, sobretudo com o analfabetismo da maior parte da população.

Reprimidos pela censura, tendo universidades e jornais sufocados por inspeções militares, os intelectuais viam a literatura como único meio de divulgar idéias novas. Assim, foi a partir de 1830 que a literatura russa conseguiu suas primeiras vitórias, apesar das repressões.

Essa mudança abriu novas perspectivas a Gógol, que passou a colaborar na revista Letras Patrióticas. Seu primeiro conto, A Noite de São João, saiu em fevereiro de 1831. Foi o suficiente para fazê-lo trabalhar intensamente em sua nova obra. Noites na Fazenda perto de Dikanka. Em março abandonou o emprego burocrático para dar aulas no Instituto Patriótico das Jovens Nobres.

Em julho desse mesmo ano conheceu o poeta Púchkin e, durante um mês, encontraram-se todos os dias. Púchkin não havia lido nada do jovem estreante; depois de alguns contato, percebeu-lhe a inexperiência, o espírito conturbado, a cultura deficiente. Mas também descobriu a maior característica literária de Gógol: saber mostrar como ninguém a superficialidade do homem vulgar.

Ainda em setembro desse ano, Gógol - agora quase um discípulo de Púchkin - publicou o primeiro volume de Noites na Fazenda perto de Dikanka. O segundo volume da obra, publicado em março de 1832, repetiu o êxito anterior. A obra é uma coleção de contos sobre os costumes populares de sua terra que se destaam o humor fantástico e a superstição.

Logo no início de abril Gógol resolveu visitar a terra natal, onde passou seis meses.

Em outubro retornou a São Petersburgo, levando consigo as irmãs, que iam estudar no Instituto Patriótico. Sentiu-se um pouco triste, angustiado, alguns dias após a chegada. Faltava-lhe inspiração. E assim passou todo o ano de 1833, queixando-se aos amigos sobre sua falta de imaginação.

Precisava atirar-se a uma obra que exigisse todos o seu potencial. Talvez uma História Universal em oito ou nove volumes. Mas para escrevê-la necessitava de maiores conhecimentos e de experiências mais intensas, que só conseguiria dando aulas. Em julho de 1834 obteve uma vaga de professor-adjunto na Universidade de São Petersburgo. No entanto apenas sua primeira aula causou boa impressão, pois as seguintes demonstraram claramente que ele havia esgotado todo seu conhecimento e todas suas idéias na aula de estréia.

No fim desse ano, consciente de seu fracasso Gógol demite-se. Mas não recaiu nas crises de angústia. Ao contrário, logo no início de 1835 pôs-se a trabalhar com vontade: em fevereiro sai o volume Arabescos, que reuniu dados biográficos, conferências e os contos A Perspectiva Nevski, Diário de um Louco e O Retrato. A mesma série de contos ambientados em São Petersburgo pertencem O Nariz, de 1835, e O Capote, de 1842, possivelmente inspirado nas experiências do escritor como frustrado funcionário público. O Nariz é a história de um homem que acorda e sente falta de seu nariz. O tema irreal e humorístico oculta um significado bastante verdadeiro, a perda da segurança cotidiana provocada por uma situação inesperada.

O Capote conta a história de um modesto funcionário que, com enorme sacrifício, consegue economizar dinheiro para comprar um capote. Porém a vestimenta logo é roubada. Vítima de um destino infeliz, ele adoece e morre. Seu fantasma passa a roubar capotes durante a noite.

Em março de 1835 foi publicado Mirgórod, coletânea de contos de inspiração popular com sabor humorístico. Dentre todos, o conto que recebeu a melhor acolhida por parte do público foi Taras Bulba, escrito nos padrões de uma novela histórica. Ainda nesse ano nasceu O Inspetor Geral, que sairia em 1836, e começou a elaborar Almas Mortas. Ainda em 1835 Gógol retornou à universidade. Queria fazer mais uma tentativa de firmar-se como professor e, ao mesmo tempo, prosseguir nos estudos que lhe possibilitariam escrever sua volumosa História Universal. Em dezembro desse ano demitiu-se de novo, abandonando para sempre o magistério e a obra histórica.

No ano seguinte, sua maior preocupação foi montar a comédia O Inspetor Geral, que estreou em abril. As opiniões do público e da crítica dividiram-se, embora ninguém tivesse percebido mais que o significado aparente da peça.

Gógol, que só prestava atenção ás críticas negativas, mergulhou novamente em crises de angústia. Em 6 de jnho de 1836 deixou São Peterburgo acompanhado de Danilé-vski. Após ter passado um longo período viajando pela Alemanha, França e Suíça, Gógol chegou a Roma em maro de 1837. Na bagagem levava os primeiros capítulos e Almas Mortas, sua obra mais importante.

Embora estivesse ainda muito abatido, pôs-se a trabalhar com afinco. Distante de seu país, as coisas lhe pareciam mais claras. Estava quase alcançando o equilíbrio emocional quando recebeu uma notícia que o deixou totalmente prostrado: o poeta Púchkin acabara de morrer num duelo. Gógol pensava apenas em morrer. Deitava-se na cama e ficava esperando a morte. E ela não chegava. Quando terminou o ano de 1838, levantou-se do leito e procurou encarar a vida com novo lento. Foi com esse ânimo que Jukóvski o encontrou no início de 1839. Gógol ficou  sabendo que suas irmãs haviam deixado o Instituto Patriótico e estavam precisando de emprego. Ajudado pelo amigo, retornou à Rússia poucos meses depois.

Chegou a Moscou em setembro, apreensivo e triste. Não se demorou na cidade. Poucos dias depois, tomou o caminho de São Petersburgo. Lembranças sombrias assaltaram-no. Sentiu que não poderia ficar ali por muito tempo. Mas não tinha recursos para lançar-se a nova viagem. Os amigos compadeceram-se dele. Poetas, romancistas, sonhadores, todos reuniram suas minguadas economias, e, ao fim de alguns messes, entregaram-lhe uma pequena fortuna: 4.000 rublos. Em junho de 1840 Gógol estava outra vez em Roma, bem longe dos críticos e dos nevoeiros russos.

Novamente foi tomado por presságios de morte. Depois de uma fase de crises respiratórias e distúrbios cardíacos, mandou chamar um padre, certo de que fosse morrer. Mas sobreviveu, e passou a acreditar que Deus o ressuscitara. Em agosto de 1841 viajou para a Rússia com o manuscrito completo de Almas Mortas. Seu estado nervoso, já bastante grave, piorou quando teve de enfrentar a censura, que pretendia fazer enormes cortes em seu livro. As objeções começavam pelo título, que, segundo os censores, ridicularizava o dogma cristão da imortalidade da alma. Apesar de todos os contratempos, a obra foi publicada graças à intervenção de alguns amigos.

Almas Mortas e um retrato fiel da Rússia da época, quando ainda reinava o regime de servidão. Os bens de um proprietário eram avaliados pela quantidade de "almas" (servos) que ele possuía e pelas quais pagava um imposto. O poeta Púchkin sugeriu ao escritor a seguinte situação: um esperto proprietário compra as "almas" mortas por um preço baixo e hipoteca-as como vivas, com grande lucro. Gógol aproveitou a idéia para levar o leitor a uma viagem por toda a Rússia, descrevendo as condições do povo.

Preocupado com a impressão negativa do povo russo que sua obra transmitia, Gógol decidiu escrever mais dois livros, nos quais os personagens seriam reabilitados.Em 1843 iniciou o segundo volume da obra. Todavia, acometido de uma de suas crises, queimou os manuscritos.

Emocionalmente, sobrevivia equilibrando-se numa tênue linha, cercado por medo, calafrios e angústias. Em 1846 começou a publicar Extratos e uma Correspondência, que provocou nos leitores e críticos uma reação bastante desfavorável. Era a primeira vez que um escritor se abria com tanta sinceridade. Mas essa honestidade, para a Rússia da época, significava escândalo.

Gógol já não sabia o que fazer. No ano seguinte publicou Confissões de um Autor, em que expressou seus protestos contra as críticas que vinha sofrendo. De nada adiantou. Todos estavam contra ele: amigos, inimigos, políticos, revolucionários, liberais, moderados, a família imperial e os literatos.

Suas crises tornaram-se cada vez mais violentas. Em janeiro de 1848 partiu para a Terra Santa. De retorno á Rússia, pôs-se a peregrinar pelo interior do país. Procurava conhecer melhor seu povo para dar continuidade a sua obra. Finalmente, em 1849 concluiu a segunda parte de Almas Mortas.

Já fazia algum tempo que o escritor estava estreitamente ligado ao padre Mateus Konstantinóvski, que professava a negação da Vida, da Arte e do Homem Criador. Gógol tentava resistir a suas influências, mas, cansado de lutar, passou a aceitar a ideia da morte como uma senda de salvação. Não só desistiu de publicar o livro como resolveu destruí-lo. Na noite de 11 de fevereiro de 1852 acordou o criado e mandou-o queimar os manuscritos. Depois caiu de cama e ficou inerte, esperando a chegada da morte. Deixou de se alimentar e de ingerir qualquer remédio, dizendo: "É preciso que vocês me deixem, porque sei que devo morrer". Em 21 de fevereiro, por fim, cumpriram-se os presságios.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Eça de Queirós

Eça de Queirós
1845 - Nasce em 25 de novembro, em Póvoa de Varzim, Portugal, José Maria Eça de Queirós, filho de José Maria Almeida Teixeira de Queirós e Carolina Augusta Pereira de Queirós.
1849 - Em 3 de setembro seus pais se casam. Eça é entregue aos avós paternos, após viver na casa de sua ama até os quatro anos de idade.
1855 - É matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto.
1861 - Eça de Queiróz faz o preparatório para ingressar no curso de Direito na Universidade de Coimbra.
1865 - Trava conhecimento com Antero de Quental, deflagrador da Questão Coimbrã.
1866 - Eça forma-se em Direito e vai para a casa paterna, em Lisboa. Participa das reuniões do Cenáculo. Funda e dirige o jornal de oposição O Distrito de Évora.
1871 - Realizam-se as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, logo proibidas pelo governo.
1872 - O escritor é nomeado cônsul nas Antilhas espanholas.
1874 - É transferido para o consulado de Newcastle-on-Tyne, na Grã-Bretanha.
1875 - Publica O Crime do Padre Amaro.
1878 - Assume o consulado de Bristol, também na Grã-Bretanha. Publica O Primo Basílio.
1880 - Publica O Mandarim.
1886 - Casa-se com Emília de Castro Pamplona, filha de seu amigo conde de Resende.
1887 - Publica A Relíquia. Nasce sua filha, Maria de Castro d´Eça de Queiróz.
1888 - Graças à influência política de seu amigo Oliveira Martins, é nomeado cônsul em Paris. Nasce o filho José Maria d´Eça de Queirós. Publica Os Maias.
1889 - Integra o grupo Vencidos da Vida. Fundo a Revista de Portugal, pela qual publica Correspondência de Fradique Mendes. Nasce o filho Antônio d´Eça de Queirós. 
1891 - Traduz As Minas do Rei Salomão.
1894 - Nasce o último filho, Alberto d´Eça de Queirós.
1900 - Publica A Ilustre Casa de Ramires. Eça de Queirós morre em Paris, em sua casa de Neuilly.
1901 - Publicação póstuma de A Cidade e as Serras (*).
1925 - Publicação póstuma de A Capital.


(*) A Cidade e as Serras
Romance publicado postumamente, A Cidade e as Serras é uma magnífica crítica dos tempos "modernos", uma sátira ao culto da tecnologia. 
Um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos, Eça de Queiroz retrata com elegância o estilo de vida que anuncia o século XX contrapondo o estilo de vida em Paris, mais requintado, às virtudes da vida rural portuguesa.


Sob o reinado de D. Maria II, que começará a reinar em 1834, aos quinze anos, Portugal atravessa um período político conturbado; revolução, insurreição, golpe de Estado, guerra civil.

Nesse período, em 25 de novembro de 1845, nasce em Póvoa de Varzim José Maria Eça de Queirós, cujos pais, Carolina Augusta Pereira de Queirós e dr. José Maria Almeida Teixeira de Queirós, não são oficialmente casados. O casamento só ocorreria quatro anos depois.

O menino não fica em sua terra natal. É levado à Vila do Conde para viver na casa de uma ama: a costureira Ana Joaquina Leal de Barros, com quem permaneceria até 1849.

Seu pai tenta ocultar as circunstâncias do nascimento do filho, por temer a censura oficial e para evitar problemas à manutenção de seu cargo público - de magistrado. Eça não convive também com seus irmãos, pois aos quatro anos de idade é transferido para a casa de seus avós paternos, onde viveria até 1855.

Aos dez anos é matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto. Aluno interno, tem como professor Joaquim da Costa Ramalho (pai do escritor Ramalho Ortigão, que se tornaria seu grande amigo). Em 1861, com dezesseis anos de idade, transfere-se para Coimbra e começa o curso preparatório para o ingresso na faculdade de Direito. Tímido e sensível, inicia-se na vida boêmia e romântica da cidade. Conhece, então, alguns moços que revolucionam as letras e a política portuguesa: Antero de Quental, Germano Meireles, Alberto Sampaio, Teófilo Braga. Na universidade é um aluno apagado, mas toma gosto pelo teatro estudantil, especializando-se na interpretação de um pai nobre nas várias peças de que participa.

Quanto ao resto, permanece à margem: aprecia apenas de longe a Questão Coimbrã (1865), uma ruidosa polêmica literária que acaba por envolver os principais escritores do país, entre eles Antero de Quental e Teófilo Braga, que torpedeiam o Romantismo ultrapassado do poeta Antônio Feliciano de Castilho.

Em 1866, com o diploma de advogado, o dr. José Maria Eça de Queirós deixa Coimbra e finalmente dirige-se para a casa dos pais, em Lisboa. Nesse mesmo ano estréia como escritor, publicando no jornal A Gazeta de Portugal o folhetim Notas Marginais.

No ano seguinte passa a dirigir o jornal de oposição Distrito de Évora. Também redator, Eça de Queirós mergulha na realidade de seu país. Em seus artigos começa a emergir o grande escritor realista. Esse realismo acentua-se ainda mais quando o escritor retorna a Lisboa, no final de 1867, e passa a participar do Cenáculo, um vigoroso núcleo intelectual. Reuniões de grupo, debates, idéias e teorias novas. Eça toma contato com o Positivismo e o Socialismo, revê e avalia o Romantismo. Entra para o círculo da geração realista - Antero de Quental, Oliveira Martins, Batalha Reis, Guerra Junqueiro e outros.

Em outubro de 1869, em companhia do galante aventureiro conde de Resende, visita o Oriente. Percorre a Palestina e, na qualidade de correspondente do Diário de Notícias, assiste à abertura do canal de Suez no Egito. Ao retornar a Lisboa, em 1870, inicia a publicação em capítulos, nesse periódico, de uma novela policial: O Mistério da Estrada de Sintra, com a colaboração do escritor Ramalho Ortigão, seu único amigo e companheiro de escola.

Convencido da impossibilidade de viver de seus escritos, aos 25 anos Eça tenta a carreira diplomática e classifica-se em primeiro lugar. Contudo, é preterido na indicação para cônsul no Brasil. A irreverência do escritor, então, explode em As Farpas, panfleto de crítica social e política cuja principal arma era o riso, escrito em parceria com Ramalho Ortigão.

Engajado politicamente, Eça de Queiros participa agora das Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense. Prefere uma palestra sobre "O Realismo como Nova Expressão de Arte". A nova corrente é definida de forma entusiástica, pelo jovem escritor, como arte de participação e denúncia dos males sociais. Seis dias depois de iniciadas as conferências, uma portaria ministerial as interrompe abruptamente. Em meio às polêmicas do Cassino Lisbonense, dá prova dessa orientação estética no conto Singularidades de uma Rapariga Loura, que seria publicado em 1874.

Em 1871 Eça de Queirós consegue sua nomeação como cônsul nas Antilhas espanholas, mas só no ano seguinte assume o posto, no qual permaneceria até 1874. Depois é transferido para Newcastle-on-Tyne, na Grã-Bretanha. É aí que termina de escrever a primeira versão de O Crime do Padre Amaro. Mas a atitude perfeccionista de Eça faz com que reescreva o romance, que afinal é publicado em 1875. O Primo Basílio, romance situado na longínqua Lisboa, é publicado em 1878. E Eça de Queirós confessa estar vivendo para a arte: "Eu por aqui - não fazendo, não pensando, não vivendo senão arte. Acabei O Primo Basílio".  Nessa vertiginosa atividade literária, o escritor planeja publicar um vasto inquérito sobre a sociedade portuguesa - as Cenas da Vida Real. Mas acaba abandonando o projeto: falta-lhe a "verificação", própria da estética naturalista, conforme a definiu em sua conferência no Cassino.

Apesar do sucesso obtido com O Primo Basílio, o escritor e diplomata vive do ordenado de cônsul, insuficiente para saldar suas numerosas dívidas. "Salva-me, salva-me duma situação que me arruína, me enterra cada dia mais, me preocupa a ponto de me tornar estúpido", escreveria ele a seu amigo Ramalho Ortigão. Além das preocupações financeiras, afligem-no problemas de saúde; à anemia crônica juntam-se nevralgias dolorosas e fortes abalos de nervos.

Seus vaivéns diplomáticos prosseguem em 1878, quando é transferido de Newcastle para Bristol. Eça, contudo, sente-se só na Inglaterra. Não tem com quem polemizar ou simplesmente trocar idéias. Consola-se escrevendo contos e artigos para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Aos 33 anos de idade Eça pensa em se casar, constituir família, conforme confissão em uma carta a seu amigo Ramalho Ortigão: "precisava duma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna (não muita)... que me adotasse como se adota uma criança...".

Essa mulher seria Emília de Castro Pamplona, filha do conde de Resende, seu companheiro de viagem ao Oriente. Com ela se casaria em fevereiro de 1886, aos 40 anos de idade, no oratório particular da casa da jovem, em Ovídio.

Em 1888, dois anos após o casamento, Eça de Queirós assume o último posto de sua carreira diplomática e segue para Paris, dessa vez para sempre. Instala-se em Neuilly, "num recinto ameno e silencioso". Atenua-se agora, também, a irreverência do escritor, sócio da Academia Real de Ciências desde 1883 e à qual não comparece sequer uma vez. Gradativamente Eça de Queirós vai abandonando o Realismo mais esquemático, incursionando para o que chama de "fantasia"; mostra, a essa altura, certa influência da literatura inglesa. As obras A Relíquia e Os Maias, anteriormente ao seu casamento, são publicadas em 1887 e 1888.

Em 1889 Eça funda a Revista de Portugal, e nela publica Correspondência de Fradique Mendes. O padrão do escritor, exilado em sua torre diplomática, é Fradique Mendes, seu personagem ficticio. A irreverência social e o sarcasmo, que o compensam ideologicamente como escritor e cidadão, colidem com as atividades da diplomacia e sua vida burguesa. Seu irreverente personagem Fradique Mendes é a imgem de um escritor realizado, com prestígio mundano.

O Eça de Queirós demolidor da moral burguesa dos tempos do Cenáculo aspira agora a uma "disciplina intelectual, econômica, moral e doméstica". E o grupo que realizara a Questão Coimbrã, em 1865, nem de longe parece o mesmo. Seus integrantes são, agora, na década de 1880, os Vencidos da Vida: Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro e... Eça de Queirós. Não são os combativos jovens dos tempos antigos: reúnem-se festivamente em torno de uma mesa de hotel ou de um restaurante para discussão de temas contemporâneos.

O vencidismo fora uma posição "mais intelectual" como o próprio Eça afirmara várias vezes. Mas, segundo o parecer dos outros, seus integrantes estavam mesmo era em crise de desalento. E é nessa atmosfera de vencidismo que ele publica A Ilustre Casa de Ramires, iniciada em 1894, e A Cidade e as Serras - canto realista das maravilhas da vida rural.

Com a morte da sogra em 1890, Eça de Queirós herda uma quinta em Santa Cruz do Douro. Além de célebre, tornara-se rico.

A última visita que Eça de Queirós faz a Portugal é em 1900. Envelhecido e doente, parece despedir-se de seu país. Aos 55 anos Eça está acabado. Seu amigo Antero de Quental suicidara-se em 1892. Oliveira Martins havia morrido em 1894. O desaparecimento dos amigos e companheiros de sua geração pressagiava também seu próprio fim. Os médicos recomendam-lhe repouso e se possível, que deixe a vida agitada de Paris. Em julho de 1900 Eça parte para Glion, próximo a Genebra; escolhera o local julgando que ali respiraria uma grande paz. Mas não suporta mais de quinze dias de isolamento. Regressa a Paris, onde as febres, suores e insônia voltam a persegui-lo.

O escritor passa seus últimos dias como um "pequeno-burguês retirado", segundo suas próprias palavras. Ironicamente, registra ainda: "faço também literatura, uma literatura complicada, porque com o vício de misturar trabalho, acho-me envolvido na composição, revisão e acepilhação geral de cinco livros".

Na tarde de 16 de agosto de 1900, em meio ao calor abafado do verão parisiense, morre um dos maiores ficcionistas da literatura portuguesa, acometido por enterocolite, um mal hereditário que o perseguira desde a juventude.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

domingo, 6 de outubro de 2013

Melville

Melville
1819 - Em 1. de agosto, nasce em Nova York Herman Melville.
1830 - O empório de Allan Melville vai à falência, e a família se muda para Albany.
1832 - Morre Allan Melville. Herman deixa a escola e arranja um emprego em um banco.
1834 - Passa a trabalhar como guarda-livros do irmão mais velho, Gansevoort.
1835 - Frequenta o Colégio Clássico de Albany.
1837 - O irmão Gansevoort vai à falência, e a família se muda para Lansingburgh.
1839 - Herman consegue emprego como camareiro no navio mercante St. Lawrence.
1841 - Embarca no baleeiro Acushmet com destino aos mares do Sul.
1842 - Em julho, o Acushnet aporta nas ilhas Marquesas (atual Polinésia Francesa). Herman e um amigo abandonam o navio para explorar a ilha.
1843 - Alista-se na Marinha e embarca no United States.
1846 - Publica Taipi - Paraíso de Canibais, sobre a vida da Polinésia.
1847 - Publica Omu, uma narrativa das aventuras nos mares do Sul. Em agosto, casa-se com Elisabeth Shaw.
1849 - Publica Mardi e Redburn.
1850 - Publica White Jacker.
1851 - Publica Moby Dick (*).
1852 - Publica Pierre ou As Ambiguidades.
1853 - Publica Bartleby, o Escriturário.
1854 - Publica As Encantadas.
1855 - Publica Israel Potter e Benito Cereno.
1856 - Faz uma viagem à Europa e à África. Publica Piazza Tales.
1857 - Publica The Confidence Man.
1866 - Publica Battle-Pieces e Aspectos da Guerra.
1867 - O segundo filho, Stanwix, que fora para o mar em 1869, morre num hospital em São Francisco.
1891 - Escreve Billy Budd, só publicado em 1924. Morre de infarto em 28 de setembro, em Nova York.

(*) Moby Dick
A descrição feita por Herman Melville, em 1851, da caça à baleia-branca é uma alegoria da luta do homem contra as forças da natureza, avassaladoras e destruidoras, que, no entanto, se encontram presentes dentro do próprio homem. Nem a obra nem o autor foram compreendidos à época, o que fez de Moby Dick um fracasso.
O tempo se encarregaria de fazer justiça: Moby Dick é considerado por muitos, hoje, o maior romance já escrito nos Estados Unidos.


No primeiro dia de agosto de 1819, em Nova York, Maria Gansevoort Melville dá a luz ao terceiro filho, Herman. Depois dele outros cinco viriam. Tanto o avô paterno de Herman, de nobre família escocesa, quanto o materno, descendente de holandeses, haviam sido heróis na Revolução Americana de 1787.

O pai de Herman, Allan Melville, é dono de um empório, que, em 1830, vai à falência. A família então é obrgidada a se abrigar na casa de um parente, em Albany. Dois anos depois Allan morre deixando Maria e os oito filhos em péssima situação financeira. Gansevoort, o mais velho, envolve-se num negócio de peles, procurando ajudar na manutenção da casa; as meninas vão para a Academia Feminina de Albany. Com treze anos Herman arranja emprego num banco, depois de abandonar a escola.

Sai do estabelecimento bancário em 1834 para trabalhar como guarda-livros do irmão. As coisas seguem equilibradas até 1837, quando o negócio de Gansevoort também vai á falência. Herman passa a lecionar em Pittsfield, Massachusetts.

No ano seguinte a família transfere-se para a cidade vizinha de Lansingburgh, procurando melhores condições de vida. Herman vai para a Academia de Eengenharia, com o intuito de obter um emprego no canal Erie, mas desiste alguns meses depois.

Em 1839 publica no Democratic Press e no Lansigburgh Advertiser sua primeira composição literária, Fragmentos Literários de uma Escrivaminha, com o pseudônimo de L. A. V. É um trabalho simples, que revela um autor de estilo ainda indefinido mas com inclinações românticas.

Está com vinte anos de idade e sem perspectiva. Não se decide pro profissão alguma e seente-se frustrado por não poder ajudar no sustento da família. Tentando ajudá-lo, Gansevoort arranja-lhe um emprego de camareiro num navio mercante, o St. Lawrence. Em 5 de julho de 1839 Herman embarca rumo a Liverpool, na Inglaterra.

Algumas decepções o aguardam: os marujos não têm o menor refinamento. A vida a bordo é inglória e exaustiva. E Liverpool é uma cidade cheia de pobres que dormem famintos pelas ruas. Toda sua decepcionante experiência seria relatada mais tarde no livro Redburn, publicado em 1849. Além dos aspectos meramente descritivos da viagem, Herman acrescentaria à obra alguns episódios não acontecidos de fato, como uma visita do herói a Londres e uma epidemia a bordo.

Três meses depois da partida o St. Lawrence aporta de volta em Nova York, trazendo inúmeros imigrantes irlandeses. Herman desembarca frustrado e sai à procura de emprego. Consegue dar algumas aulas em Greenbush, no Etado de Nova York, mas pouco tempo depois a escola fecha, e ele vai para o colégio de Brunswick, perto de Albany. Ali fica até 1840, quando resolve tentar a sorte no Oeste.

No fim do ano, sem um vintém no bolso, retorna a Nova York. Volta a perambular pelas ruas, e seus passeios acabam por levá-lo a New Bedford, considerada a capital mundial dos baleeiros.
Em janeiro de 1841 Herman embarca no Acushnet, um veleiro com 35 metros de comprimento, equipado com oficina mecânica, carpintaria, sala de costura, e repleto de provisões. A tripulação é formada por imediatos, arpoadores e marinheiros. Todos eles participam da caça à baleia, tarefa perigosa e emocionante cuja finalidade é a extração do óleo. A experiência vivenciada no Acushnet inspiraria Herman a escrever dez anos depois sua obra-prima - Moby Dick -, cujo título original era A Baleia-Branca.

Ao deixar os Açores o Acushnet segue para o Atlântico Sul, fazendo uma escala no Peru em junho de 1841 e tomando depois o rumo do cabo Horn, e extremo meridional da América do Sul.
Num relato sobre as ilhas Encantadas (as Galápagos), Herman afirma ter visitado também, durante essa viagem, o arquipélago de João Fernandes. Nessa silhas, pertencentes ao governo chileno, teria vivido, de 1704 a 1709, o marinheiro Alexandre Selkirk, que inspirou a Daniel Defoe o famoso personagem Robison Crusoé.

Em julho de 1842 o Acushnet chega às ilhas Marquesas e apota em Nuku-Hiva, a ilha mais importante do arquipélago, que então se encontra sob domínio francês. Alguns dias depois Herman e seu amigo Richard Tobias Greene - "Toby" - abandonam o navio e começam a explorar a ilha com a intenção de encontrar a tribo dos hapaas, considerada amistosa aos marinheiros brancos. Escalam as latas colinas que circundam a baía de Taiohae e acabam nas mãos dos taipis, que, segundo se conta, são antropófagos.

Após alguns dias Toby tem permissão da tribo para procurar medicamentos para Herman, que está com a perna ferida. Não volta mais: engaja-se num baleeiro que está à procura de marinheiros desgarrados e vai embora. Um mês depois o baleeiro australiano Lucy Ann encontra Herman.

Essa experiência é relatada em seu livro Taipi - paraíso dos Canibais, publicado em 1846. Nesse romance em forma de reportagem o escritor conta o que lhe acontecera desde o momento em que deixa seu posto no Acushmet até o dia em que, salvo dos antropófagos, embarca no Lucy Ann. Descreve o modo de vida dos taipis a flora e a fauna da ilha. Somente na segunda parte do livro - após a partida de Toby - é que ele narra uma série de acontecimentos que fogem ao mero documentário.

A úncia pessoa com que Melville conveersa no Lucy Ann é o Dr. Long ou Long Ghost (Fantasma Comprido). Os marinheiros não querem trabalhar, aguardam apenas uma ocasião propícia para desertar. A primeira tentativa nesse sentido acontece em uma ilha das Marquesas, quando dez homens tentam fugir, mas não conseguem.

Enquanto o Lucy Ann vai navegando nesse clima caótico, Herman - com o pretexto da perna machucada - passa o tempo todo lendo os livros de seu amigo Fantasma Comprido. Somente suspende a leitura quando o navio chega a Papeete, no Taiti. Outra vez a tripulação se amotina, e dessa vez o capitação é subjugado e enviado a terra. Os marinheiros não querem prosseguir viagem no Lucy Ann, por isso solicitam ao cônsul inglês permissão para ficar na ilha. Em resposta são trancafiados nos cárceres do navio francês Reine-Blanche, inclusive Herman e o Fantasma.

Quase diariamente as autoridades da ilha procuram os rebeldes para tentar convencê-los a retornar seus postos no velho baleeiro australiano. Mas os marujos preferem permanecer encarcerados. Por fim, no dia 15 de outubro de 1842, recuperam a liberdade. O Lucy Ann já vai longe, tripulado por aventureiros que nada sabem sobre as duras condições do trabalho a bordo.

Livres, sem possibilidade imediata de embarcar em outro navio, Herman e o Fantasma passeiam pela ilha, observando a vida dos habitantes locais, que cultuam a indolência e a embriaguez e rejetam tenazmente qualquer sugestão de trabalho. Comem frutas silvestres, abundantes em seus campos férteis, e dormem em toscas tapera.

Avesso à indolência e a hábitos ociosos, é com imensa alegria que Herman, em janeiro de 1843, sobe a bordo de um baleeiro que havia aportado na ilha. Sente só uma tristeza: a de deixar o bom amigo Fantasma, que optara pela boa vida na ilha. Quatro anos mais tarde o romancista reviveria toda essa aventura em seu livro Omu (1847).

Segundo o relato do escritor, o baleeiro navega algum tempo pelos mares do Sul, antes de aportar em Honolulu, onde a tripulação desembarca para uma escala de quatro meses. O Havaí, bem como o Taiti, constituiam, na época, objeto de acirradas disputas entre ingleses, franceses e americanos, todos interessados no controle da região. Para não ser ludibriados pelos rivais na disputa do arquipélago, os Estados Unidos mantêm na ilha um destacamento naval. Em 17 de agosto de 1843 Herman alista-se na Marinha norte-americana em Honolulu e embarca no United States, um navio com 450 tripulantes, divididos numa hierarquia de graus e funções.

Quando o United States chega a Boston, em outubro de 1844, Herman é dispensado. A impressão que lhe ficara do rígido ambiente disciplinar da fragata americana seria exposta em White Jacket (Jaqueta Branca) em 1850.

Aos 25 anos de idade Herman já tem outras expectativas. Depois de quase quatro anos sem ver nenhum membro da família, sua primeira providência é visitar a mãe em Lansingburgh. O irmão mais velho é secretário da legação americana em Londres. As irmãs continuam solteiras.

Atenuada a emoção dos contatos familiares, põe-se a escrever. Não quer mais saber de lecionar. Afinal, tem aventuras suficientes para escrever vários livros. O primeiro é Taipi - Paraíso de Canibais (1846). A experiência serve para mostrar-lhe as dificuldades ligadas ao ramo editorial: ninguém quer publicá-lo. A conselho de um amigo, envia os manuscritos para Gansevoort. Alguns meses depois o irmão manda-lhe boas notícias: o editor John Murray comprara Taipi. As cinco libras que chegam com a carta são apenas uma parte do pagamento das cem que lhe serão enviadas nos próximos sete meses.

Mas o editor manifesta a intenção de cortar várias passagens do livro, pondo em dúvida sua veracidade. No auge das discussões, aparece o velho amigo Toby, que comprova as situações relatadas no romance. As coisas se resolvem, e Herman aproveita para acrescentar à edição americana a História de Toby, onde conta o que acontecera ao amigo depois de sua partida de Nuku-Hiva.

Tudo parece ir muito bem quando, subitamente, em 12 de maio de 1846, Gansevoort morre. E Herman continua a escrever. Seu livro seguinte, Omu )no dialeto das ilhas Marquesas, omoo significa "vagabundo"), encontra outro tipo de dificuldade: o editor recusa-se a publicar uma obra que afirma que o cristianismo falhara na Polinésia. Acaba sendo impresso, em 1847, pela Harper & Brothers, de Nova York.

Em agosto de 1847 Herman casa-se com Elisabeth Shaw, filha de um oficial de justiça, amigo da família. O ex-aventureiro decide-se por uma tranquila vida doméstica. Fixa residência em Nova York e retoma um livro que iniciara pouco antes do casamento: Mardi. No prefácio esclarece que resolvera escrever um verdadeiro romance de aventuras polinésias para verificar se não era possível fazer à fantasia passar por realidade - justamente o inverso do que havia feito nos dois primeiros livros.

Em Mardi Herman Melville coloca suas dúvidas em relação aos valores de seu tempo: "O mal é a doença crônica do universo". Essa afirmação seria o ponto chave de toda sua obra. Publicado em 1849, Mardi decepciona críticos e leitores, que esperavam uma sequência das ingênuas aventuras dos livros anteriores, e não uma crítica dos valores estabelecidos da época.

Todavia, antes da publicação, Herman já começara a escrever outro livro, que, segundo ele, tinha tudo para ser um sucesso estrondoso. Como nascera seu primeiro filho - Malcom - e ele estava mesmo precisando de dinheiro, dedica-se à composição de Redburn, o relato de sua primeira vigem de barco de Nova York a Liverpool.

É ali, entre plantas, árvores e animais, que começa a elaborar A Baleia-Branca, cujo título seria depois alterado para Moby Dick. É a história do capitão Acab, comandante do baleeiro Pequod, contra Moby Dick, a baleia branca. Acab tinha vivido uma vida de solidão durante quarenta anos. Casara-se muito tarde e em seguida partira para o mar. Seu maior desejo era vingar-se da baleia que lhe arrancara uma perna.

Todas as experiências de Herman no baleeiro Acushnet estão presentes no livro. No entanto, o sentido mais profundo da obra é a eterna procura do homem, o combate instintivo e intenso contra as forças do mal, o anseio de pureza, e por fim a amarga desilusão: a terra não é nem nunca virá a ser um paraíso. Tudo isso Herman combina com uma excitante história de aventuras, que é publicada na Inglaterra em 1851, mesmo ano do nascimento de seu segundo filho, Stanwix.

Em 1852 Herman publica um livro controverso: Pierre ou As Ambiguidades. É ridicularizado e denunciado como louco e imoral. Aliás, para a maioria dos leitores, o próprio Melville está louco. Na verdade, o escritor está sofrendo um forte depressão nervosa. Sempre acreditara nos ensinamentos de Cristo e na bondade dos homens. Agora está em crise com suas crenças.

Nem o nascimento da filha Elisabeth, em 1853, consegue melhorar seu ânimo. Ao contrário: as coisas andam difíceis, e há mais uma criança para sustentar. Pede a ajuda de amigos para arranjar um emprego fixo, mas nada consegue. Passa então a escrever uma série de contos, que publica anonimamente nas revistas literárias.

Dois anos depois, em 1855, nasce Frances, seu quarto filho. Nessa época Herman escreve uma pequena obra-prima: Benito Cereno. No ano seguinte reúne vários contos, alguns ainda inédiots, outros já publicados em revistas, e edita-os sob o título Piazza Tales (Contos da Praça).

Faz-lhe falta viajar, dar uma volta ao mundo, deixar por algum tempo a quietude e a rotina de Arrowhead. Então, em 1856 Herman novamente se põe a caminho, pelo mar, e visita o norte da África e a Europa. Ao retornar, relata as impressões da viagem em Diário dos Estreitos, no qual fala em detalhes de Gibraltar, Dardanelos e Bósforo.

Mal Herman conclui essa obra, explode nos Estados Unidos a Guerra Civil (1861-1865), que ele descreve como um trágico espetáculo em Do Alto de uma Casa e Réquiem. Em 1857 lança o romance The Confidence Man (Um Homem de Confiança), em que se percebe claramente a intensa misantropia em que vive. Mas o escritor já não tem entusiasmo pela vida. Apenas por amor à família esforça-se para obter um emprego como inspetor da Alfândega de Nova York, em 1866. No início do ano seguinte, recebe um duro golpe: seu filho Malcolm, de apenas dezoito anos, tira a própria vida com um tiro.

Herman só volta a escrever muito tempo depois, para iniciar a composição de sua última obra de fôlego: Clarel, um relato em versos baseado numa viagem que fizera á Terra Santa em 1857. No poema está expressa a idéia de que não adianta sonhar com uma ordem social se a ignorância e o orgulho não foram superados dentro de cada ser humano.

Nenhum editor se dispõe a arriscar seu capital para publicar a obra. É Peter Gansevoort, tio do escritor, quem acaba financiando a edição, em 1876.

Em 1888, com 68 anos, Herman se aposenta da Alfândega. Sente-se já no fim da vida. "Eles falam da dignidade do trabalho. Pura mistificação. O trabalho, para dizer a verdade, é uma necessidade para nossa pobre condição terrestre. A dignidade encontra-se no lazer. Aliás, noventa e nove por cento de todo trabalho realizado neste mundo e tolo ou inútil".

Livre dos compromissos burocráticos, Herman dedica seus últimos anos à elaboração de Billy Budd, mais uma história do mar, que só seria publicada postumamente. Pouco tempo depois de concluí-la, Herman Melville parte para sua última e inadiável viagem. Em 28 de setembro de 1891 sofre um ataque cardíaco fatal. Nenhum jornal publica a notícia de sua morte. Somente muitos anos mais tarde ele receberia os aplausos que amais lhe tributaram em vida, e um escritor consagrado como Camus diria: "Para avaliar o gênio de Melville, é indispensável admitir que suas obras traçam uma experiência espiritual de intensidade sem igual e que são em parte simbólicas. Seus livros admiráveis são desses excepcionais que podem ser lidos de diferentes maneiras, ao mesmo tempo evidentes e misteriosos, obscuros e, todavia, límpidos como água cristalina. A criança e o sábio encontram neles alimento".

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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