quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Voltaire

Voltaire


1694 - Nasce François-Marie Arouet em paris, no dia 21 de novembro.
1704 - Entra para o colégio de jesuítas Louis-le-Grand, em Paris.
1713 - Viaja para a Holanda, como secretário do marquês de Châteauneuf.
1715 - Volta a Paris.
1717 - É levado à Bastilha, onde permanece por onze meses. Escreve a peça de teatro Édipo. Escreve o poema épico Henriade. Adota o pseudônimo Voltaire.
1722 - Escreve a peça Artemire.
1726 - Vai para Londres, fugindo do cárcere.
1727 - Escreve Cartas sobre os Ingleses.
1729 - Volta a Paris.
1734 - Publica Cartas Filosóficas.
1747 - Escreve o conto Zadig.
1749 - Morre a marquesa de Châtelet, com quem Voltaire vivera por muitos anos.
1751 - Publica O Século de Luís XIV.
1752 - Publica o conto Micrômegas.
1755 - Muda-se para Les Délice, próximo a Genebea, Suiça.
1756 - Escreve Ensaio sobre os Costumes e o Espírito dos Povos.
1759 - Escreve Cândido, uma réplica a seus opositores.
1763 - Publica o Tratado sobre a Tolerância.
1764 - Publica Dicionário Filosófico.
1767 - Publica O Ingênuo.
1778 - A peça Irene é encenada na Comèdia Française. Morre em Paris em 30 de maio e é enterrado em Salier.
1790 - Seu corpo é transladado para Paris.

(*) Contos
Filósofo e porta-voz dos iluministas, Voltaire (pseudônimo literário de François Marie Aroeut) escreveu novelas satíricas, poema épico, cartas, tragédias e contos. Estes são caracterizados pela irreverência e pela crítica aos aproveitadores (Jeannot e Colin), aos abusos políticos (O Ingênuo), à corrupção e à desigualdade das riquezas (O Homem de Quarenta Escudos), a seus opositores (Cândido).
No final de uma vida atribulada, em que sofreu perseguições e passou alguns períodos na prisão e no exílio, foi chamado de volta a Paris e recebido em triunfo pela Academia e pela Comedie-Française.



François-Marie Arouet, ou Voltaire, nasceu em Paris, em 21 de novembro de 1694. Reinava Luís XIV. A França era grande, e os franceses, infelizes. Ou melhor, nem todos, porque para um pequeno setor da nobreza o monarca construiu sua armadilha dourada: Versalhes. A nova sede da corte era, basicamente, um suborno. A nobreza podia optar: continuar entre gado e campônios, nas fazendas, ou ir para Versalhes. E havia mais um incentivo: quem se mantivesse quieto sob o olhar do rei receberia como prêmio uma pensão.

A tentação era grande. E, enquanto ia sendo construído aquele sonho de jardins e salões a perder de vista, a nobreza afluía para usufruir uma vida brilhante e parasitária. A formação desse núcleo de versalheses ociosos mudaria o panorama intelectual da França. Abandonados os hábitos antigos, era preciso matar o tempo de outra form. A nobreza agora lia, organizara concursos, interessava-se por ocultismo e filosofia.

O espírito versalhês não se fez em um dia. Na infância de Voltaire, ainda se estava formando. E nessa época Nino de Lenclos, bela e inteligente cortesã francesa, ao sentir que envelhecia recolheu-se numa cidadezinha de província. Havia pouco se mudara para ali a família Arouet, e o olho treinado da cortesã distinguiu no menino François os "sintomas" do jovem literato. Acabou deixando-lhe uma herança de 2 mil francos com a condição de que fossem gastos em livros. E assim François mergulhou nas leituras que determinariam o curso de sua vida.

Aos dez anos, em 1704, entrou para o colégio de jesuítas Louis-le-Grand, em Paris. Terminado o curso, matriculou-se na faculdade de Direito. Mas não ia às aulas. Frequentava tavernas, perseguia as criadas e embebedava-se com relativa assiduidade. Para tirá-lo da libertinagem, o pai arrumou-lhe o emprego de secretário de um parente: o marquês de Châteauneuf, que estava prestes a embarcar para Haia, em 1713. Na Holanda, François não arriscou um tostão pela glória de seu rei. Apaixonou-se por Pimpette, graciosa filha de um exilado. Pilhado em flagrante, foi obrigado a voltar para Paris em 1715, aos 21 anos.

Seu regresso coincidiu com a morte de Luís XIV, o "Rei-Sol". Soba a regência liberal do duque de Orléans - já que Luís XV, o herdeiro do trono, era muito menino para governar -, o estilo de vida de Versalhes e Paris, antes refreado pela autoridade de Luís XIV, eclodiu em mil cintilações.

Magrinho, espirituoso e rápido improvisador,  jovem Arouet logo se introduziu nesse ambiente muito à vontade, e não tardou a sentir o sabor do sucesso mundano.

Mas esse sucesso tornava sua língua cada vez mais ferina. Todas as boas anedotas que corriam sobre o Duque de Orléans lhe eram atribuídas. E custaram-lhe a liberdade. Em 16 de abril de 1717, aos 23 anos, François Arouet foi levado à Bastilha, famoso cárcere parisiense onde se encontravam opositores políticos, intelectuais rebeldes e simples desafetos dos amigos do monarca.

Nos onze meses de cárcere, François escreveu uma peça para teatro - Édipo - e um longo poema épico - Henriade. Durante esse período adotou o pseudônimo Voltaire, cuja origem jamais explicou.
Mas prender um poeta por tempo excessivo tornaria o regente impopular entre os elegantes. Achando que a lição terminara, o duque ordenou a soltura de Voltaire e destinou-lhe uma razoável pensão anual.

A Bastilha não rendeu a Voltaire apenas a pensão. Édipo foi o grande sucesso teatral da temporada.
Com o dinheiro das apresentações, fez investimentos. Nunca mais teria dificuldades financeiras. O pai, que morrera em 1722, quando Voltaire contava trinta anos, podia repousar sossegado.

Embriagado pelo sucesso, lisonjeado por um séquito de aduladores, encenou sua segunda peça teatral: Artemire. A peça foi um fracasso, e a luzes se apagaram em torno de Voltaire, que começou a definhar. Em pleno declínio físico, contraiu varíola e entrou em estado de coma, do qual emergiu alguns dias depois para descobrir que Henriade o tornara novamente popular.

Em 1726, durante um jantar no castelo do duque de Sully, o Cavaleiro de Rohan perguntou em tom de desafio: "Quem é esse sujeito que fala tão alto?",  "Alguém, caro senhor", respondeu Voltaire, "que não precisa de um grande nome, porque faz respeitar aquele que possui." O cavaleiro engoliu a afronta, mas enviou seus lacaios para espancarem Voltaire à saída da recepção. No dia seguinte, coberto de ataduras, o poeta atravessou o teatro até o camarote do cavaleiro e desafiou-o para um duelo. Um nobre, contudo, não se batia em literatos; preferia encarcerá-los. Voltaire retornou à Bastilha, onde lhe ofereceram duas opções: permanecer nela ou emigrar para  a Inglaterra. Escolheu a segunda.

A Inglaterra desse período era muito diferente da França. Ao contrário da França, a nobreza não constituía uma casta fechada. Voltaire tornou-se amigo de Iorde Bolingbroke, nobre, comerciante e intelectual de certa reputação e travou conhecimento com os principais literatos do momento, entre eles Jonathan Swift.

A liberdade com que Bolingbroke, Swift, Pope, Locke, Berkeley e tantos outros filósofos e literatos discutiam religião e política deixou Voltaire perplexo. Do outro lado do canal da Mancha, esses autores estariam na Bastilha antes mesmo de pensar em publicar seus livros. O que Voltaire presenciava naqueles animados serões era o desabrochar do Iluminismo inglês.

Em 1729, serenados os ânimos, Voltaire retornou a Paris. Estava com 35 anos e era mais famoso por sua língua ferina que por sua pena. E provavelmente teria continuado por muito tempo assim se um editor, sem sua permissão, não resolvesse publicar em 1734 as Cartas sobre os Ingleses, que ele escrevera quando estava exilado na Inglaterra, com o título de Cartas Filosóficas.

O Parlamento de Paris mandou queimar o livro por considerá-lo escandaloso, contrário à religião e à moral. Pressentindo o cheiro da Bastilha, Voltaire resolveu escapar a tempo. E, para amenizar o isolamento, levou consigo Êmilie de Breteuil, marqueza de Châtelet.

No ano seguinte, por influência de amigos na corte, a condenação foi revogada, mas Voltaire continuava indesejável em Versalhes, e permaneceu no Castelo de Cirey, propriedade da marquesa Émilie de Breteuil, que despertara nele um amor sincero. E certamente também uma grande admiração. De quando em quando Voltaire aparecia em Paris, para em seguida ser visto em misteriosas viagens à Bélgica, Holanda e à corte prussiana, onde se fizera amigo de Frederico II. Prestando serviços de diplomata oficioso, tentava recuperar as boas graças de Versalhes. Em Cirey, pela segunda vez desde a infância, Voltaire se lançou com grande empenho e entusiasmo à literatura.
Ao mesmo tempo que criava peças para o teatro, iniciou um de seus trabalhos mais sérios - O Século de Luís XIV, em que pretendia revelar o sentido da história. Voltaire mal iniciara essa obra quando o cardeal de Fleury, conselheiro do rei, informou-o de que considerava ofensiva essa apologia de um rei que não teve como primeiro-ministro um príncipe da Igreja. E o autor, obediente, trancou a chave seu manuscrito, para só publicá-lo em 1751.

Morto o cardeal de Fleury, madame de Pompadour tornou-se a primeira influência na corte. Velha amiga e confidente do poeta, conseguiu-lhe o cargo de historiógrafo real, o que lhe permitiu reunir enorme documentação, o título de fidalgo e, finalmente, em 1746, um lugar na Academia.

Por essa época, Voltaire inaugurou um novo gênero literário: o conto filosófico, e passou a publicar alguns deles ao longo dos anos seguintes. Esses pequenos "romances", como ele os chamava, constituem, juntamente com seus artigos da Enciclopédia, que ele reelaborou e ampliou no Dicionário Filosófico (1764), a parte mais viva e atual de sua obra, Zadig (1747), Micrômegas (1752) e O Ingênuo (1767) têm em comum uma notável construção. Nada de supérfluo. São descarnados, puro diálogo e ação. Com uma veia cínica e cética na narração que revela o conhecimento dos textos de Swift, desfilam a corrupção dos funcionários, os amores eternos que duram duas semanas, as discussões teológicas que terminaram em massacres.

Em 1749, morria a marquesa de Châtelet, que Voltaire abandonara havia algum tempo em troca da vida versalhesa. Todavia, a morte da amiga abalou-o profundamente. A vida na França tornou-se amarga, e o poeta aceitou o convite para visitar a corte prussiana.

Frederico II, herdeiro do melhor Exército da Europa, era um príncipe muito especial. Admirador da França e do Iluminismo, desejoso de se tornar um clássico da língua francesa, importava a peso de ouro intelectuais da França para sua corte. Entre eles, Voltaire.

Mas em pouco tempo o rei e o escritor se desentenderam. Voltaire devolveu-lhe a chave de camareiro, a fita da Ordem de Mérito e procurou regressar à França em 1754. Mas em Frankfurt foi detido pelos soldados reais. Esquecera de devolver um poema satírico de autoria de Sua Majestade, que mão queria torná-lo público. O poema, porém, se perdera, e Voltaire permaneceu prisioneiro por duas semanas, até que se encontrou o manuscrito; só então ele pôde partir. Mas não queria volta à França imediatamente. Preferiu adquirir uma propriedade perto de Genebra, na Suíça. Em Les Délice, seu novo lar, escreveu o Ensaio sobre os Costumes e o Espírito dos Povos, em 1756, primeiro grande trabalho da historiografia moderna, que tenta mostrar como as sociedades evoluíram da barbárie para a civilização.

Nessa mesma época, juntou-se a D´Holbach, Condillac, Condorcer, Helvetius, Buffon, Montesquieu e iniciou a redação da Enciclopédia ou Dicionário Raciocinado das Artes e Ofícios. Sob a direção de Diderot, essa obra se tornaria a publicação mais importante do século XVIII, a bíblia do Iluminismo. Os verbetes de Voltaire estão entre os mais brilhantes da obra, mas não entre os mais profundos. Um deles, entretanto, sobre a cidade de Genebra - onde os protestantes haviam proibido os espetáculos de teatro -, provocou grande tumulto e obrigou-o a mudar de residência. Manteve Les Délices, mas comprou outra fazenda, em Ferney, na França, próximo à fronteira belga. No dia de Todos os Santos do ano de 1755, um terreno em Lisboa fez desabar as igrejas. Trinta mil pessoas ficaram sepultadas sob os escombros, e o clero francês explicava dos púlpitos que Deus castigara dessa forma o povo de Portugal por seus pecados.

Leibniz, grande matemático e filósofo, por seu lado, sustentara que "vivemos no melhor dos mundos possíveis". A resposta de Voltaire resultou no melhor de seus "contos filosóficos": Cândido, ou O Otimismo, publicado em 1759, em que Leibniz aparece sob a caricatura do dr. Pangloss.

Enquanto o infeliz Cândido é vítima de injustiças, prepotências e loucuras, o dr. Pangloss garante-lhe que há motivos para ele se alegrar, já que vive no melhor dos mundos possíveis. Moral da história: o melhor é cultivar nosso jardim particular e deixar que o mundo enlouqueça lá fora.

Foi precisamente o que Voltaire procurou fazer em Ferney. Transformou a fazenda maltratada numa gleba produtiva, distribui justiça, dirigiu a irrigação, abriu escolas. E teria continuado nessas atividades se não tivesse recebido, num dia incerto de 1761, a visita de uma família aterrorizada, contando uma fúnebre história de perseguição. Um jovem suicidara-se em Toulouse. Havia, contudo, uma lei pela qual o corpo dos suicidas deveria ser arrastado pelas ruas e, depois, enforcado em público. O pai do rapaz, Jean Calas, arranjara tudo para que o suicídio parecesse morte natural e o corpo do filho fosse respeitado. Mas Calas era protestante, e acabou sendo acusado de ter assassinado o filho para que não se convertesse ao catolicismo. Foi preso, torturado e condenado à morte.

Enquanto Voltaire defendia a família e a memória de Jean Calas, o corpo de uma certa Elisabeth Sirven foi encontrado num poço, no ano de 1762. A família também era protestante, e o juiz acusou os pais de terem matado a jovem. Voltaire lançou uma campanha, contratou advogados, redigiu defesas e enviou-as para os tribunais. E foi nessa época que escreveu o Tratado sobre a Tolerância, publicado em 1763.
Esses casos ainda estavam na ordem do dia quando, em 1767, o jovem La Barre, de família protestante, foi acusado de mutilar crucifixos. Ao ser preso,  encontraram em seu poder um exemplar do Dicionário Filosófico, escrito com a intenção explícita de ridicularizar o fanatismo católico.
Do caso La Barre em diante, a atividade de Voltaire assemelhou-se à erupção de um vulcão: inundou o país de panfletos, livros, ironias, apelos. Todas as suas cartas terminavam com um veemente apelo: "Esmagai o infame". Voltaire passou a ser aclamado pelo povo, pelo clero e pelos cortesãos iluministas o apóstolo do progresso. Tomado de gosto pelo papel de "defensor público", passou a lutar por todos os que lhe pareciam injustiçados.

Morto Luís XV, nada mais o impedia de retornar a Paris. Sua volta foi uma apoteose. Mas a viagem desgastou-lhe as forças, e ele acabou recebendo as centenas de visitantes retido no leito.

Um padre foi receber sua confissão. "Quem o enviou"?, perguntou o enfermo. "Deus em pessoa", respondeu o padre. "Bem, vejamos então as credenciais..."

O melhor era chamar alguém que conhecesse Voltaire. Mas um abade de suas relações recusou-se a ouvir a confissão se ele não assinasse sua submissão completa à Igreja Católica. O doente despachou-o, chamou seu secretário e ditou uma declaração: "Morro amando Deus, amando meus amigos, não odiando meus inimigos e detestando a superstição. 28 de fevereiro, 1778".

Mas, em vez de morrer, fez triunfal visita à Academia Francesa. Compareceu à Comédie, onde foi aplaudido durante longos vinte minutos. Cobriram-no com uma coroa de louros. Era a glória que ainda mantinha vivo aquele moribundo.

Por fim, entrou em agonia e lutou contra a morte como se travasse uma batalha corporal. Gritava como um possesso e ainda teve forças para expulsar do quarto um último padre. Mas em 30 de maio teve a batalha vencida. Voltaire, com 84 anos, mesmo morto, ainda daria algum trabalho: como em Paris recusaram-lhe sepultura cristã, os amigos colocaram o corpo numa carruagem, fazendo-o passar por vivo e levaram-no sentado até Salier, onde foi enterrado. Doze anos depois a Assembléia Nacional da Revolução obrigou Luís XVI a transladar o corpo para o Panteão de Paris. Setecentas mil pessoas seguiram o cortejo.

Sobre seu túmulo Voltaire pedira que escrevessem apenas uma frase: "Ele defendeu Calas".


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Lampedusa

Lampedusa
1896 - Em 23 de dezembro, em Palermo, nasce Giuseppe Maria Fabrizio Salvatore Stefane Vittorio Tomasi, filho de Giulio Maria Tomasi, duque de Parma, e de Beatrice Mastrogiovanni Tasca Filangeri di Cutò.
1908 - Com a morte do avô de Giuseppe, seu pai se torna príncipe de Lampedusa.
1914 - Irrompe, em julho, a Primeira Guerra Mundial.
1915 - Em abril Giuseppe ingressa na faculdade de direito. Em novembro é convocado pelo Exército e serve durante um ano em Messina.
1916 - É promovido a cabo e transferido para Augusta.
1917 - Frequenta o curso preparatório de oficiais em Turim. É promovido a subtenente e enviado para o front no planalto de Asiago. É capturado e preso.
1918 - Foge do campo de prisioneiros de Szombathely, na Hungria. Segue para Trieste e dali vai para Palermo.
1919 - Em Roma, presta o exame constitucional, o único de seu currículo universitário.
1920 - Em janeiro transfere-se para a Universidade de Gênova. Em fevereiro, promovido a tenente, volta para Palermo.
1920-1930 - Realiza viagens dentro da Itália e para o exterior.
1925 - Na embaixada da Itália em Londres, Giuseppe conhece Alessandra Wolff-Stomersee.
1926-1927 - Publica três artigos na revista Le Opere e i Giorni.
1927 - Visita Alessandra no castelo de Stomersee, na Letônia.
1930 - Alessandra e Giuseppe se encontra em Roma.
1932 - Na Páscoa, Alessandra visita Giuseppe em Palermo. Em agosto, casam-se em Riga e fixam residência em Palermo, no Palácio Lampedusa.
1934 - Com a morte do pai, Giuseppe herda o título de príncipe de Lampedusa.
1939 - Prenúncio da Segunda Guerra Mundial. Giuseppe é convocado pelo Exército para treinamento nos arredores de Roma.
1941 - Em 4 de julho Riga é ocupada pelas tropas alemãs. O Palácio Lampedusa é levemente danificado por uma bomba.
1942 - Em abril o palácio é novamente atingido. Giuseppe transfere-se com a mãe para Cabo d´Orlando.
1946 - Em 17 de outubro morre Beatrice Tomasi.
1954 - Acompanha o primo Lucio Piccolo a um evento literário em San Pellegrino. Inicia o manuscrito de O Leopardo.
1955 - Escreve o conto Recordações da Infância.
1956 - O original de O Leopardo é recusado pela editora Mondadori. Giuseppe adota o jovem Gioacchino Lanza. Escreve A Alegria e a Lei e dois capítulos de O Leopardo (*).
1957 - É diagnosticado um tumor em seu pulmão. Parte com a esposa para Roma e interna-se numa clínica para tratamento. Morre em 23 de julho. No dia 25 é velado na Basílica Sagrado Coração de Jesus, e no dia 28 é sepultado em Palermo.
1958 - O Leopardo é publicado pelo editor Giorgio Bassani.
1959 - O Leopardo ganha o Prêmio Strega.
1963 - Luchino Visconti transforma o romance em filme.
1982 - Morre Alessandra Wolff-Stomersee.


(*) o Leopardo
Consagrado por leitores e por críticos, O Leopardo evoca o declínio de uma família aristocrática da Sicília em meados do século XIX. Um velho príncipe, cuja casa feudal tem como símbolo uma espécie rara de leopardo, fadada ao desaparecimento, é o personagem principal.
Num contraponto à situação política da época, os personagens têm seus amores e embates retratados paralelamente às lutas que agitam a Itália, que busca a unificação e a libertação do absolutismo. O Leopardo foi traduzido para vários idiomas e adaptado para o cinema.
O filme recebeu a Palma de Ouro em Cannes em 1963.



Na Sicília de 1860, quando a Unificação da Itália se torna inevitável, o menos dos gestos parece carregado de significado e melancolia, agitação e inquietação dos sentidos: "Algum enorme desastre irracional está para acontecer".

É nessa atmosfera que se desenvolve a história de O Leopardo: o príncipe Don Fabrizio testemunha, à sua volta, a decadência de uma aristocracia e de uma herança que já não o agradam. O príncipe de alma proletária entende que sua classe terá de se suicidar ou será eliminada pelo movimento da história, substituída por uma burguesia ávida de poder. É dessa aristocracia em decadência que descende Giuseppe Tomasi di Lampedusa, nascido em Palermo em 23 de dezembro de 1896, filho de Giulio Maria Tomasi, duque de Parma, e de Beatrice Mastrogiovanni Tasca Filangeri di Cutò. Neto do príncipe de Lampedusa, sua família era das mais tradicionais da Sicília, e, embora já houvesse sido muito rica, perdera a maior parte de suas poses e propriedades.

Giuseppe é um jovem rebelde, e a mãe é a única pessoa que consegue exercer sobre ele alguma autoridade. A família não aprova seu entusiasmo diletante pela literatura - Giuseppe tem o hábito de vasculhar a biblioteca da família e ler livros de todos os gêneros, em vários idiomas. É admirador da literatura francesa, de Stendhal especialmente.

Em abril de 1915 Giuseppe ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Roma, porém é obrigado a interromper os estudos alguns meses depois, ao ser convocado pelo Exército. A Primeira Guerra Mundial começara havia alguns meses, e durante um ano ele serve na cidade de Messina como oficial de artilharia. Em 1916 e promovido a cabo e transferido para Augusta.

Em 1917 vai a Turim para frequentar o curso preparatório de oficiais. É promovido a subtenente e enviado para o front no planalto de Asiago, onde é capturado, preso e levado para o campo do prisioneiros de guerra de Szombathely, na Hungria. Depois de uma primeira tentativa frustada de fuga, Giuseppe finamente consegue escapar do campo de prisioneiros em novembro de 1918. Disfarçado, atravessa a Europa a pé e volta para a Itália.

Terminada a guerra, continua ainda no Exército como oficial efetivo por um período de seis anos, Em 1919, em Roma, presta o exame constitucional, o único de seu currículo universitário. Mas a experiência da guerra e da prisão lhe havia causado profundas mudanças no comportamento e acarretado um esgotamento nervoso. Dessa forma, seus planos de seguir a carreira diplomática ficam prejudicados.

Em janeiro de 1920, aos 23 anos, transfere-se para a Universidade de Gênova. No mês seguinte é promovido a tenente e volta para Palermo.

Entre 1920 e 1930, Giuseppe realiza inúmeras viagens, tanto na Itália como para o exterior (Inglaterra, França, Alemanha, Áustria), a maioria em companhia da mãe, Beatrice, cuja influência é um empecilho para as aspirações literárias de Giuseppe.

Apenas depois da morte da mãe ele enfim consegue se dedicar inteiramente à cultura e ao prazer de escrever.

Em 1925, em Londres, Giuseppe conhece Alessandra Wolff-Stomersee, com quem teria um namoro de sete anos. A mãe de Alessandra, viúva, casara-se com o tio de Giuseppe, Pietro Tomasi della Torretta, embaixador da Itália.Entre os anos 1926 e 1927, Giuseppe publica alguns artigos na revista genovesa Le Opere e i Giorni. O namoro com Alessandra vai de vento em popa: em 1927 visita-a pela primeira vez em sua residência, o castelo de Stomersee, na Letônia. Em 1930 o casal encontra-se em Roma, e no verão de 1931 Giuseppe volta ao castelo de Stomersee.

Na Páscoa de 1932 Alessandra visita Giuseppe em Palermo. Em agosto desse ano, finalmente, casam-se numa igreja ortodoxa de Riga e fixam residência em  Palermo, no Palácio Lampedusa.

Em 1933 Alessandra retorna a Stomersse, e de 1933 a 1939 Giuseppe reveza-se entre Riga e Stomersee, ficando apenas curtos períodos de tempo em Palermo. Passa então a visitar a esposa na Letônia, geralmente no verão. Com a divisão da herança do avô, fica com o palácio do centro de Palermo. O rendimento do aluguel permite-lhe levar uma vida discretamente agitada.

Com a morte do pai em 1934, Giuseppe herda o título de príncipe de Lampedusa. Em 1939 é convocado pelo Exército para treinamento em Nettuno, nos arredores de Roma. Está prestes a eclodir a Segunda Guerra Mundial.

Em junho de 1940 o regimento é transferido para Poggioreale, onde Giuseppe recebe com frequência a visita de Alessandra. Em julho do ano seguinte Riga é ocupada pelas tropas alemãs. Em agosto o Palácio Lampedusa é ligeiramente danificado por uma bomba, e é outra vez atingido em abril de 1942.

No final desse ano os bombardeios em Palermo se intensificam, e Giuseppe muda-se com a mãe para Cabo d'Orlando, onde moram seus primos.

No dia 7 de janeiro de 1943 as janelas do Palácio Lampedusa são estilhaçadas por um bombardeio aéreo, e em 5 de abril uma bomba atinge diretamente o palácio, fazendo desabar a escadaria principal e arrancando o portão.

Após o desembarque dos Aliados na Sicília, Alessandra encontra-se com Giuseppe e sua mãe em Cabo d'Orlando, e os três seguem juntos para Ficarra. Em outubro de 1943 o casal retorna a Palermo, onde aluga um apartamento mobiliado na praça Castelnuovo. Beatrice Tomasi volta a residir no palácio semidestruído, onde morre em 17 de outubro.

m 1954 acompanha o primo Lucio Piccolo a uma reunião literária em San Pellegrino, norte da Itália, onde Piccolo recebe um prêmio por suas poesias. No final desse ano Giuseppe começa a escrever o livro cujo esboço se formara em sua mente ao longo de vinte e cinco anos: a obra-prima O Leopardo, uma crônica sobre o efeito da Unificação da Itália após o domínio de Garibaldi em 1860, Estava com 58 anos de idade.

Atravessa o ano de 1955 ocupado com seu romance. Depois de datilografados os quatro primeiros capítulos, o primo de Giuseppe, Lucio Piccolo, envia-os à editora Mondadori, e continua enviando-os à medida que Giuseppe vai escrevendo. Contudo, decepcionado, em 1956 Piccolo recebe de volta os capítulos datilografados, rejeitados pela editora.

Sem se deixar abater pela recusa da editora, escreve ainda dois capítulos de O Leopardo e também seu segundo conto, A Alegria e a Lei. Já havia escrito antes Recordações de Infância.

Em dezembro de 1956 Giuseppe obtém na Corte autorização para adotar o jovem Gioacchino Lanza, frequentador da casa do barão Sgadari, de Mônaco, e que conhecera três anos antes. Em seguida escreve seu testamento e duas cartas de acompanhamento, uma para a esposa e uma para o filho adotivo.

Entre 1956 e 1957 escreve mais dois contos, A Sereia e Os Gatinhos Cegos; este , na verdade, é o primeiro capítulo de um romance inacabado.

Em fevereiro de 1957 os manuscrito de O Leopardo são enviados a Elio Vittorini, compilador de uma coleção de narrativas de escritores desconhecidos publicada pela editora Einaudi. Nessa mesma época um conhecido de Alessandra, Giorgio Giargia, se oferece para enviar uma cópia à editora Elena Croce.

No final de abril, em Cabo d'Orlando, durante um acesso de tosse, Giuseppe detecta vestígios de sangue no lenço. Volta a Palermo e consulta um médico, que diagnostica um tumor maligno em seu pulmão direito.

Em maio parte com a esposa para Roma e interna-se numa clínica para tratamento. Em 2 de julho recebe uma carta de Vittorini, rejeitando o livro.

Em 23 de julho, na primeira hora da manhã, Giuseppe di Lampedusa morre, aos 60 anos, sem ter a chance de ver sua obra publicada e aclamada pelo público e pela crítica. Em 25 de julho é velado na Basílica Sagrado Coração de Jesus, e três dias depois é sepultado no mausoléu da família, no cemitério dos Capuchinhos, em Palermo.

Em maio de 1958 Giorgio Bassani, a cujas mãos chegara a cópia enviada a Elena Croce, vai a Palermo para reconstruir as origens do romance. O filho adotivo, Gioacchino Lanza Tomasi, confia-lhe o manuscrito, e O Leopardo é publicado em 11 de novembro. Em 7 de julho de 1959 a obra ganha o Prêmio Strega.

Com sua vasta cultura, seu extraordinário talento para a prosa e sua obra fascinante, Lampedusa consegue, postumamente, conquistar o mundo e assegurar um lugar definitivo entre os maiores autores da literatura contemporânea.

Adaptado para o cinema por Luchino Visconti, o filme obtém a Palma de Ouro no Festival de Canes em 1963.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Camões

Camões
1524 ou 1525 - Datas prováveis do nascimento de Luís Vaz de Camões, talvez em Lisboa.
1549 - Desterro em Belver, no Alto Alentejo. Em barca para Ceuta a fim de combater os mouros; numa das escaramuças, perde o olho direito.
1551 - Regressa a Lisboa.
1552 - Numa briga, fere um funcionário da Casa Real. Por esse motivo, passa nove meses na prisão.
1553 - É indultado e, depois de pagar quatro mil-réis, é posto em liberdade. Embarca para Goa, na Índia.
1556 - É nomeado provedor-mor em Macau. Participa de várias campanhas militares.
1560 - Ao retornar à Índia, naufraga na foz do rio Meckong.
1561 - É destituído de suas funções de provedor. É enviado a Goa para ser julgado por má gestão dos bens dos defuntos e ausentes. Um amigo o livra do julgamento. Nomeado para a função de feitor em Chaul. Não chega a exercer o cargo.
1562 - Preso em Goa por dívidas não pagas, é libertado pelo vice-rei Dom Francisco de Souza Coutinho.
1567 - Segue para Moçambique.
1570 - Regressa a Lisboa acompanhado do historiador Diogo do Couto.
1572 - É publicada a primeira edição de Os Lusíadas.
1580 - Em 10 de junho morre em Lisboa, atacado pela peste.

Na virada do século XV para o XVI, Dom Manuel I, o Venturoso, é o rei de Portugal. Em seu reinado a expansão ultramarina, iniciada algumas décadas antes, ganha novo impulso. Em 1497 Vasco da Gama já comandara uma expedição que partira de Lisboa com quatro navios e chegara a Calicute, nas Índias orientais. Vive-se uma época de descobrimetos e de conquistas territoriais.

Por volta de 1525, possivelmente em Lisboa, nasce Luís Vaz de Camões, filho do fidalgo Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá Macedo, pertencentes à pequena nobreza.

É provável que tenha passado a infância em Coimbra, o grande centro cultural de Portugal e cidade que abriga uma das mais completas bibliotecas da época. Segundo consta, na aquisição da vasta cultura humanística teria sido orientado por seu tio, D. Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz e chanceler da Universidade. Camões, aliás, pode ter conseguido sua formação mesmo sem haver frequentado regularmente a Universidade de Coimbra, já que seu nome não aparece nos registros escolares. A propósito, sua cultura clássica é invejável: inclui tanto os poetas latinos como os filósofos gregos. Seus autores prediletos são Dante e Petrarca; conhece como poucos a história antiga dos romanos, dos gregos, dos povos da península Ibérica a astronomia e as artes militares.

Mas a vida de Camões não é dedicada apenas aos livros. Com menos de vinte anos, ainda em Coimbra, mistura os prazeres do espírito com os do corpo. Autores portugueses afirmam que o poeta domina, nessa época, a arte de conquistar os corações femininos, sobretudo das belas damas da nobreza, tornando-se invejado até por fidalgos endinheirados.

Antes de concluir os estudos em Coimbra, transfere-se para Lisboa. A nobreza dos pais garante-lhe um lugar na corte de D. João II, onde, em versos apaixonados, ele saúda uma beleza loura, de olhos claros. Nesse tempo, segundo algumas versões, Camões exerceria o cargo de preceptor do filho dos Condes de Linhares, seus resolutos protetores durante toda a vida.

Em 1549, aos 24 anos, o vigor de jovem e o interesse pelas letras levam Camões a participar de intrigas na corte, as quais, possivelmente, o obrigam a lançar-se naquela vida errante que lhe viria a proporcionar os elementos de sua futura obra-prima.

Nesse período Camões é desterrado para Belver, no Alto Alentejo. Ao que parece, um amor malsucedido teria sido a causa do seu afastamento do paço. Algum tempo depois, mediante despacho real, Camões é transferido para Ceuta, no Marrocos, posto avançado contra os mouros, que ainda assediam a península Ibérica. Numa das refregas em que toma parte, perde o olho direito. A partir daí passaria a ser representado com essa deformidade em todos os seus retratos conhecidos.

Quando regressa da África, o poeta já não encontra em Lisboa os amigos do passado. É um homem marcado, a quem ninguém faz deferências. Em 16 de junho de 1552 envolve-se em um triste incidente. Nesse dia, durante uma procissão de Corpus Christi, Camões, por motivo desconhecido, desentende-se com um funcionário da Casa Real, Gonçalo Borges, e golpeia-o gravemente no pescoço com uma espada. Levado á prisão da cidade, fica encarcerado durante nove meses, enquanto o adversário aos poucos se restabelece.

Indultado no ano seguinte, é posto em liberdade após  o pagamento de quatro mil-réis exigido pelo rei. Poucos dias depois, na qualidade de simples soldado, Camões embarca na armada de Fernão Álvares Cabral (filho de Pedro Álvares) em direção a Goa. Durante os seis meses que passa no mar, enfrenta sucessivas calmarias nas costas da África e tempestades no Índico, conhece aldeias de selvagens e civilizações estranhas. Toda essa experiência seria transformada em versos na composição das cenas marítimas do grande poema épico que futuramente escreveria.

Apesar da liberdade de costumes que caracteriza a vida da Índia, cinco nobres portugueses convidados por Luís de Camões para um banquete em sua casa, em Goa, ficam surpresos por lhes serem apresentados pratos cheios de folhas manuscritas de poesias em vez das iguarias que esperam. Dessa maneira, com humor e uma nota de tristeza, Camões, nobre, soldado e poeta, anuncia a seus compatriotas, que haviam feito fortunas astronômicas nas colônias da Ásia, o deplorável estado de suas finanças.

Esse é um dos poucos episódios da vida atribulada do poeta português que se conhece com exatidão. No seu tempo, raras foram as notas ou observações que se escreveram a seu respeito. Sabe-se que, sempre malsucedido do ponto de vista financeiro, Camões faz representar em Goa, perante o governador Francisco Barreto, o seu Auto de Filodemo. Mais tarde atacaria de forma ainda mais violenta os costumes de nobres e de plebeus na Índia.

Nomeado para o cargo de provedor-mor dos bens de defuntos e ausentes da China, Camões parte para Macau em 1556. Antes de entrar no exercício de suas funções, participa de várias campanhas militares: ataca beduínos na Arábia, toma parte em batalhas contra nativos que combatem os portugueses e em expedições ao Vietnã e a Malaca, atividades bélicas que muito bem descreveria depois em Os Lusíadas, tirando delas conclusões que ainda hoje continuam válidas.

De acordo com estudiosos da vida de Camões, a ideia de escrever Os Lusíadas ocorrera-lha ainda em Portugal, mas sem dúvida a maior parte dos seus dez cantos ele compõe ao longo dos dezessete anos em que vagueia pela Ásia.

Conta a lenda que, enquanto permanece em Macau, Camões dirige-se a uma gruta à beira-mar onde, ao lado da sua  amada chinesa, Dinamene, escreve, dia após dia, os versos de Os Lusíadas. Todavia, a própria gruta parece desmentir a versão da lenda: é extremamente pequena, quase uma fenda na rocha, frequentemente salpicada pelas águas das marés mais altas. É improvável que Camões tenha conseguido permanecer nela durante tanto tempo.

Retorna à Índia por volta de 1560, aonde chega depois de naufragar na foz do rio Meckong e de salvar-se a nado. Camões, contudo, consegue livrar seu poema. Pelo que se sabe, nadando apenas com um braço, e com o outro estendido acima das onda, erguendo Os Lusíadas, o poeta atinge a praia.

Acusado de não ter exercido satisfatoriamente sua gestão sobre os bens dos defuntos e ausentes, um ano após sua chegada a Macau Camões é destituído do cargo e enviado, sob custódia, a Goa, onde seria ser julgado. Nessa cidade consegue, ao que parece graças a um amigo influente, livrar-se do julgamento e obter nova nomeação, agora para feitor em Chaul, cargo que nunca chegaria a exercer.
Por essa altura, e a requerimento de um tal Miguel Roiz, Camões é preso por dívidas, fato que o leva a dirigir um poema humorístico ao vice-rei, Dom Francisco de Sousa Coutinho, Conde de Redondo, invocando seu auxílio.

Em 1567, finalmente, Camões deixa a índia. Do capitão de uma nau consegue passagem gratuita até Moçambique, onde espera encontrar a proteção de um amigo. Porém, suas esperanças frustram-se, e a situação torna-se-lhe a pior possível.

Quem o encontra nessas tristes circunstâncias é o historiador Diogo do Couto, que faz referências ao caso em sua obra Décadas da Índia: "Em Moçambique achamos aquele Príncipe dos Poetas, Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e, para se embarcar para o reino, lhe ajuntamos toda a roupa que houve mister; e não faltou quem lhe desse de comer. E aquele inverno que esteve em Moçambique, acabando de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, foi escrevendo muito em um livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe juntaram. E nunca pude saber, no reino, dele, por muito que inquiri. E foi furto notável."

Camões volta para Lisboa com Diogo do Couto, e chega por ocasião de uma grande peste que dizima a população em 1568 e 1569. Tem então conhecimento de que uma das suas grandes amadas havia morrido prematuramente, aos 25 anos, quando ele ainda estava em Macau.

Nessa mesma ocasião Camões empenha-se para publicar Os Lusíadas. Depois de o aperfeiçoar, tira uma cópia especial para dedicá-la ao rei Dom Sebastião. O portador do poema - ao que parece Camões já não tem acesso à corte - é seu amigo de juventude Dom Manuel de Portugal. O soberano recebe com agrado a oferta. Talvez por isso o frade dominicano Bartolomeu Ferreira, encarregado pelo Santo Ofício da censura eclesiástica, não cria dificuldades à publicação, embora em Os Lusíadas sobejem as divindades pagãs, misturadas com o maravilhoso cristão.

Sobre esse assunto delicado, Frei Bartolomeu comenta em seu despacho favorável: "Como isto é poesia e fingimento, e o autor, como poeta, não pretende mais que ornar o estilo poético, não tivemos por inconveniente ir esta fábula na obra. E por isso me parece o livro digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas".

Um alvará régio de setembro de 1571 concede a licença de impressão e garante a Camões direitos de autor por dez anos. Em 1572 o poema é publicado, e o rei decide conceder uma tença ao seu autor, no montante de quinze mil-réis por ano - quantia, aliás, pequena em relação a outras pensões atribuídas naquela época.

Mesmo assim, numa prova evidente de que o valor de Os Lusíadas ainda não fora compreendido, o decreto real que concede a referida tença salienta como justificativa os serviços prestados por Camões na Índia.

Os últimos anos da vida do poeta são reconstituídos, praticamente, à base de conjeturas. As tenças concedidas pelo rei são pagas com atraso, e isso, tendo em conta sa exiguidade, só faz aumentar as já não poucas dificuldades de Camões.

Em 10 de junho de 1580 morre o grande poeta português. O historiador Diogo do Couto, nas Décadas, faz um simples relato: "Em Portugal morreu este excelente poeta em pura pobreza".

Entre 1579 e 1581 grassa em Lisboa, mais uma vez, violenta peste. A morte sobrevém em quatro ou cindo dias. No meio do caos reinante, com a acumulação de cadáveres para ser inumados, o copro de Camões é apenas envolvido numa mortalha e lançado, com os de outras numerosas vítimas da epidemia, na cripta da Igreja de Santa Ana. Um terremoto em 1755 destrói o templo e mistura ainda mais as ossadas que sob ele jazem. Em 1880 todos os despojos mortais que ali se encontram são levados para o Panteão dos Jerônimos, onde ficam sepultados, na esperança de que entre eles estivessem os restos do maior poeta português.

Do grande poema épico há traduções em quase todas as línguas do mundo, e entre os grandes admiradores de Camões contam-se célebres figuras da literatura e da cultura universais. Cervantes, seu contemporâneo, refere-se a Os Lusíadas como "O Tesouro do Luso".

Os Lusíadas tem hoje um lugar de relevo na literatura universal. Seu valor maior foi, porém, o de incorporar na própria vida dos portugueses o relato dos feitos heroicos dos navegadores da pequena nação ibérica, que escrevia então, sozinha, as primeiras páginas da história do mundo moderno.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

domingo, 29 de setembro de 2013

Choderlos de Laclos

Choderlos de Laclos
1741 - Em 18 de outrubro nasce em Amiens Pierre-Ambroise-François Choderlos de Laclos.
1759 - Laclos entra para a Escola de Artilharia de La Fère.
1763 - Liga-se ao regimento de Toul.
1769 - Sere em Grenoble.
1779 - Destacado para a ilha de Aix.
1782 - Publica As Relações Perigosas (*).
1783 - Em La Rochelle, seduz Marie-Soulange Duperré.
1784 - Com a ajuda de Marie-Soulange escreve A Educação das Mulheres. A srta. Duperré dá à luz um filho, Étienne.
1785 - É eleito membro da Academia de La Rochelle.
1786 - Casa-se com a srta. Duperré e reconhece seu filho.
1788 - Deixa o Exército e entra para o serviço do duque de Orléans. Nasce Soulange, sua segunda filha.
1789 - Acompanha o duque de Orléans a Londres.
1790 - Retorna à França e torna-se membro do Clube dos Jacobinos.
1792 - Em Toulouse, torna-se chefe do Estado-Maior do Exército dos Pireneus, com o grau de general.
1793 - É preso em 1. de abril por ser considerado um orleanista. Em 10 de maio tem decretada sua prisão domiciliar.
1794 - É libertado em 3 de dezembro.
1795 - Nasce seu terceiro filho, Charles. É nomeado secretário-geral das Hipotecas.
1800 - É reintegrado ao Exército com o grau de general-de-brigada. Em abril é designado para o Exército do Reno. Em agosto é designado para o Exército da Itália.
1801 - Volta a Paris.
1803 - É designado para Tarento, quartel-general francês no sul da Itália. Morre no dia 5 de setembro.

(*) As Relações Perigosas
Obra-prima de análise e elaboração narrativa, As Relações Perigosas é o único livro importante de Laclos, observador perspicaz dos costumes de sua época, final do século XVIII. A estrutura do romance, com suas sutilezas de construção e desenvolvimento, valoriza as características dos personagens. Espécie de manual maquiavélico erótico, é um verdadeiro estudo psicológico da alma humana. Esta obra está entre o que de melhor já se produziu na literatura francesa e mundial.


Paris, século XVIII. Numa mesa de canto no Café de la Régence, Diderot discute, com outros literatos e filósofos, o assunto do dia: como apressar a transformação social que a França vem sofrendo. O poder real está bastante desacreditado, mas para se chegar à Revolução é preciso destruir, de uma vez por todas, os privilégios dos aristocratas. Ao mesmo tempo, no café Procope, Voltaire elogia a física de Newton e discorre sobre a Razão. Numa mesa próxima, um pequeno grupo também defende a Razão, porém aliada ao Sentimento, e enaltece a vida simples e virtuosa, em contato com a natureza, como prega Rousseau, o grande pensador do Iluminismo.

Desde meados do século anterior os cafés multiplicam-se rapidamente por Paris, tornando-se ponto de encontro de artistas, intelectuais e filósofos que se ocupam em discutir o presente e programar o futuro do país. Vivem eles um dos períodos mais movimentados da história da França.

Nessa França, fervilhante de idéias, ação e transformação, vem ao mundo Pierre-Ambroise-François Choderlos de Laclos, em 18 de outrubro de 1741, em Amiens, filho de Jean-Ambroise Choderlos de Laclos e de Marie-Catherine Galois. Sua família, embora modesta pertence à nobreza, possui elevada cultura e revela forte gosto pelas letras. Até a adolescência o pequeno Pierre-Ambroise recebe uma educação cuidada e vive com tranquilidade, carinho e afeto na casa de seus pais.

Em 1756 explode a Guerra dos Sete Anos. As tropas francesas combatem em toda a Europa, acumulando sucessivos fracassos. Apesar do panorama desfavorável do Exército francês, Laclos sente-se atraído pela carreira militar e ingressa no corpo de artilharia.

Em 1759, aos dezoito anos, é  nomeado aspirante na Escola de Artilharia de La Fère. Ao formar-se, incorpora-se na brigada das colônias destinada a expedições à Índia e ao Canadá. As viagens não chegam a se realizar. Pelo Tratado de Paris, firmado no fim da Guerra dos Sete Anos, a França perde seus poderes sobre aqueles dois países, que passam a pertencer à Inglaterra.

Laclos e seu regimento partem para Toul em 1763. Três anos mais tarde transferem-se para Steasburgo; logo depois estão em Grenoble. Por mais ativa que fosse, a vida militar deixa aos oficiais muito tempo ocioso. Laclos aproveita-o para frequentar a sociedade e escrever poesias. Nem dramas nem excessos marcam o período de sua juventude. Durante os sete anos que passa em Grenoble, seus superiores não se cansam de lançar-lhe elogios. Mas Laclos parte para Valence e leva consigo o romance Ernestine, considerado a obra-prima de uma amiga, sra. Riccoboni. Lá, o transforma em ópera cômica e o encena em 1777.

O prestígio literário da sra. Riccoboni atrai para o teatro a mais alta aristocracia francesa. A estréia, no entanto, redunda em completo fracasso. A platéia vaia do princípio ao fim.

Ainda com as vaias ecoando-lhe nos ouvidos, Laclos deixa Paris e volta ao quartel, onde sua reputação de oficial competente e devotado se mantém intata.

Corre o anod e 1779. Choderlos está com 38 anos, e é encarregado de construir uma fortaleza na ilha de Aix, apesar de ele sonhar com a guerra. As forças francesas, em luta pela independência das colônias inglesas na América, enfrentam os exércitos britânicos. Passam-se três anos de luta, e os vencedores voltam cobertos de glórias. Quanto a Laclos, tudo que conquistara foram elogios - e críticas - pela construção da fortaleza de Aix e o posto de capitão-comandante, encarregado de complexas missões.

Mas ser  apenas militar não lhe basta mais. Quer fazer algo maior, como escrevr um livro "qeu fizess escândalo e fosse comentado mesmo depois de sua morte". No dia 4 de setembro de 1781 pede seis meses de afastamento para dedicar-se à tarefa. No dia 23 de março de 1782 As Relações Perigosas está à venda.

Sucesso imediato. Satiricamente retratada, a aristocracia reage com indignação.

Escrito sob a forma de cartas trocadas entre os personagens, As Relações Perigosas mostra a decadência moral da sociedade aristocrata do século XVIII. A intenção do autor aparece claramente expressa no frontispício do romance, onde se lê: "As Relações Perigosas, ou Cartas Recolhidas em uma Sociedade e Publicadas para a Instrução de Algumas Outras". Em seguida há a citação de Rousseau, tirada do prefácio da Nouvelle Héloise: "Vi os costumes de meu tempo e publiquei estas cartas".

Ao tomar conhecimento de As Relações Perigosas, o marechal de Ségur, ministro do Exército, ordena o retorno imedito do escritor para o seu regimento, que então se encontra em Brest. Duro golpe para Laclos. Não suporta a idéia de trocar os prazeres da glória pelos deveres do quartel. Graças à interferência do marquês de Montalembert, consegue do ministro um posto em La Rochelle. Ali conhece a jovem Marie-Soulange Duperré. É ela que o ajuda na elaboração de A Educação das Mulheres, ensaio em que defende a igualdade entre os sexos e que seria publicado apenas em 1903.

Usando de todo o conhecimento sobre a arte de seduzir, Laclos conquista a jovem em 1783, apesar da diferença de idade - está com 42 anos, e ela, com dezoito. Só se casariam, contudo, em 1786, dois anos após o nascimento de seu primeiro filho, Étienne.

Logo após o casamento, Laclos faz circular por Paris e La Rochelle uma carta dirigida "aos senhores da Academia Francesa" na qual se manifesta contra os elogios daquela instituição ao marechal de Vauban, considerado um mestre em fortificações e um verdadeiro deus para o Exército francês. Em resposta a Laclos, o ministro da Guerra retira-lhe o direito de gozar um mês de afastamento pelas núpcias e ordena-lhe que se reintregue imediatamente às tropas, então em Metz. Laclos permanece no Exército até outubro de 1788, quando seu regimento é transferido para La Fère e ele passa a trabalhar para o duque Orléans. Em pouco tempo torna-se o único conselheiro de seu amo. Ativo e cauteloso, observa o que se passa ao redor e age em segredo, ampliando suas ligações com grupos revolucionários e frequentando três clubes, onde se reúnem alguns dos homens mais importantes do movimento.

O inverno que precede a Revolução é o pior do século. A colheita fora desastrosa, e o povo passa fome. Seguindo os conselhos de Laclos, Filipe de Orleans faz largos gestos filantrópicos, e em pouco tempo torna-se um ídolo do povo. Mas seus ideais de transformação política e social não encontram ressonância nso comandantes da Revolução, que consideram perigosa sua popularidade. A Luís XVI tampouco agradam os atos do duque. Para distanciá-lo da corte, envia-o a Londres. Corre o ano de 1789, e Laclos acompanha o duque.

Durante a estada em Londres, Filipe de Orléans dedica-se a resolver seus problemas financeiros. A Laclos, ninguém vê. Fechado em seu gabinete de trabalho, encarrega-se da correspondência do duque e, ao mesmo tempo, prepara uma retirada honrosa para si próprio.

Mas em 5 de fevereiro de 1790 é assinada a aliança entre Inglaterra, Prússia e Holanda.

Depois de tentar em vão obter o cargo de embaixador em Londres, o duque de Orléans resolve voltar à França. Encontra Paris tumultuada: a Revolução explodira em 1789. pessoalmente, nada sofre. Na assembléia, recebe calorosos aplausos da ala esquerda. Laclos continua a seu lado, embora sua importância houvesse diminuído bastante, assim como seu salário. Laclos, então, lança-se abertamente na política, acreditando que só mesmo da Revolução poderia esperar alguma coisa. Adere à Sociedade dos Amigos da Constituição e passa a fazer parte do Clube dos Jacobinos, centro de reunião de um grupo de revolucionários.

Luís XVI acompanha atentamente a evolução dos acontecimentos no reino, prevendo a violência que se desencadearia. O soberano resolve deixar as Tulherias para a Semana Santa em Saint-Cloud. No caminho, é barrado por populares enraivecidos. Na manhã seguinte toda a imprensa monarquista ataca Laclos, acusando-o de haver incitado o povo a impedir a viagem de Luís XVI. Sua reputação cai sensivelmente.

Em 21 de junho de 1792 Paris amanhece sem rei: é constatada a fuga de Luís XVI. Num célebre reunião dos jacobinos, Laclos propõe elaborar-se uma petição assinada por milhares de cidadãos para ser enviada à Assembléia, declarando vago o trono. A Assembléia recusa a proposta. Desgostoso com a política, ele não vê outra solução a não ser voltar para a vida militar: por meio de indicações, consegue o posto de comissário do poder executivo em Châlons, onde as forças francesas enfrentam os exércitos da Prússia. Sob suas ordens, a França conquista a importante vitória de Valmy.

No dia 22 de setembro de 1792 é proclamada a República. Laclos, aos 52 anos, é nomeado chafe do Estado-Maior do Exército dos Pireneus, e parte com a família para Toulouse. Após envolver-se em discussões políticas, é designado governador-geral dos estabelecimentos franceses da Índia. Há tempos ele vem solicitando essa colocação. O outro lado do mar seria, na realidade, sua única salvação: como colaborador do duque de Orléans, angariara o ódio de todos. A mudança para a Índia, porém, não se realiza.

A situação de Filipe de Orléans não é menos complicada: é preso, julgado e condenado à guilhotina. Laclos, cujo nome sempre estiver aligado ao orleanismo, também é preso, mas graças à influência de um velho amigo do tempo de La Rochelle, o escritor é transferido do cárcere para a prisão domiciliar. Pouco tempo depois, contudo, recebe nova ordem de prisão. Em 3 de dezembro de 1794 é novamente libertado.

Suas amizades lhe garantem um emprego que lhe permite viver como um burguês. Nomeado general-de-brigada em 27 de fevereiro de 1800, Laclos, aos 59 anos e com os membros paralisados pelo reumatismo, solicita um posto ativo, e é designado para o Exército do Reno. Em abril do mesmo ano serve na Basiléia, e em junho é indicado para um comando em Grenoble. Permanece ali durante pouco mais de um mês: em agosto transfere-se para a Itália, com todos os seus homens, cavalos e material. Retorna à França em 1801, onde fica, por três meses, junto da mulher e dos filhos - "o grande Étienne, a esperta Soulange e o gordo Charles". No ano seguinte porém, como membro do Comitê de Artilharia, sua atividade volta a ser intensa.

Na primavera de 1803, aos 62 anos, recebe ordens de partir para São Domingos, a fim de combater os negros amotinados. De última hora é alterado seu roteiro: deve ir para Tarento, sul da Itália, região de prais quentes e pantanosas, onde grassam as febres mais temidas que os soldados inimigos. Ao cabo de uma longa e penosa viagem, por estradas horríveis e sob um sol tórrido, chega finalmente a seu destino. Vítima de disenteria, Lalcos fica preso ao leito desde o dia 2 de agosto até a hora de sua morte. Não tem mais forças nem para escrever. Seu ajudante-de-campo trata-o como "o filho mais dedicado". O soldado velho e cansado pressente que vai morrer. Em nenhum momento pronuncia o nome de Deus. Em lugar de preocupar-se com o futuro misterioso, volta-se para a vida que ficará atrás de si, única realidade que pode conceber. Dita para a mulher conselhos detalhados sobre a administração a ser dada à sua pequena fortuna e sobre o futuro dos filhos. Envia cartas a Marmont e Bonaparte, pedindo-lhes que cuidem de sua família. No dia 5 de setembro de 1803, após 35 dias de doença, morre o autor de As Relações Perigosas. Gouvion Saint-Cyr manda sepultá-lo na pequena ilha de São Pedro, diante da enseada de Tarento, no meio de um forte qeu recebe o nome de Laclos. Diz-se, porém, que em 1815 suas cinzas foram espalhadas ao vento.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sábado, 28 de setembro de 2013

Bram Stoker

Bram Stocker


1847 - Em 8 de novembro, nasce Abraham Stoker, em Dublin, Irlanda.
1863 - Ingressa no Trinity College, em Dublin.
1866 - É contratado para trabalhar no castelo de Dublin. Escreve o manual Deveres dos Amanuenses e escrivães nas Audiências para Julgamento de Pequenas Causas e Delitos na Irlanda.
1870 - Forma-se em Matemática Pura com louvor.
1876 - Conhece o ator Henry Irving e torna-se seu amigo.
1878 - Casa-se com Florence Balcombe. Aceita a oferta de Irving para administrar o Royal Lyceum Theatre de Londres.
1879 - Nasce Noel, o único filho do casal. Publica seu primeiro livro, The Duties of Clerks of Petty Sessions in Ireland.
1882 - Publica Under the Sunset, uma coleção de contos.
1890 - Começa a escrever um romance de vampirismo, ainda sem título.
1891 - Publica o romance O Castelo da Serpente.
1894 - Publica The Watter´s Mou e Croken Sands.
1895 - Publica The Shoulder of Shasta.
1897 - Em 26 de maio publica Drácula (*).
1898 - Publica Miss Betty.
1903 - Publica Os Sete Dedos da Morte.
1904 - Publica The Man.
1905 - Morre o amigo Henry Irving. Stoker sofre um derrame cerebral.
1906 - Publica Personal Reminiscences of Henry Irving.
1909 - Publica O Caixão da Mulher-Vampiro.
1911 - Publica seu último romance, O Monstro Branco.
1912 - Morre em Londres, em 20 de abril.
1922 -Estréia Nosferatu, primeiro filme baseado no romance Drácula, de Bram Stoker.


(*) Drácula
O publicitário e escritor inglês Bram Stoker inspirou-se no conde Vlad Tepes, o Empalador, príncipe da Valáquia na segunda metade do século XV, para criar o personagem-título de seu romance de terror. O príncipe, também conhecido como Vlad Dracul (nome que em romeno significa dragão, diabo), foi de fato um tirano e um guerreiro muito cruel, porém jamais um vampiro. A história do conde Drácula se passa na Transilvânia, região lúgubre ao norte da Romênia.
Sucesso desde que foi publicado, em 1897, o livro recebeu uma série de adaptações para o cinema, a primeira delas em 1931.


Na primeira metade do século XIX Dublin, na Irlanda, vive um momento político bastante tenso. Daniel O´Connel, líder nacionalista, é um incansável agitador e mobilizador das massas. Lidera um movimento popular que resulta na concessão aos católicos de alguns direitos até então reservados apenas aos protestantes, como o voto e o acesso a cargos públicos. O´Connell é responsável, também, pela campanha que defende a separação política entre Irlanda e Inglaterra.

Para agravar ainda mais a situação do país, em 1846 tem inicio um período de terrível de fome na Irlanda, seguido de uma epidemia de tifo, que perduraria por dois anos. Em consequência, quase dois milhões de irlandeses emigram, a maioria para os EUA.

Esse é o retrato da época em que nasce Abraham Stocker, em 8 de novembro de 1847, no subúrbio de Clontarf, Dublin.

Terceiro dos sete filhos de Abraham Stoker - um funcionário público da secretaria do castelo de Dublin - e de Charlotte Thornley, o pequeno Bram, como prefere  se chamado, passa os primeiros oito anos da vida confinado a uma cama em decorrência de uma misteriosa doença que os médicos não conseguem diagnosticar. Jamais se saberia se a causa dessa enfermidade era de ordem física ou psicológica e até que ponto iria influenciar seu futuro fascínio pela morbidez.

O relacionamento de Bram com a mãe é excepcionalmente afetivo. A sra. Stoker partilha com o filho seu conhecimento e amor por contos de fadas, histórias de fantasmas e apavorantes narrativas sobre a pandemia de cólera que atingira a Europa de 1826 a 1837 e da qual ela havia sido testemunhas.

Em 1863, com dezesseis anos de idade, Bram ingressa no Trinity College de Dublin, onde cursa Matemática Pura. Destaca-se notavelmente no curso, pratica esportes - chega a ganhar um prêmio em atletismo - e torna-se presidente da Sociedade Filosófica.

O jovem Bram sonha ser escritor, porém, induzido pelo pai, que tem planos mais práticos para ele, acaba seguindo-lhe os passos na carreira pública e, a partir de 1866, também passa a trabalhar no castelo de Dublin.

Nesse período, como um burocrata a serviço da Justiça, escreve um manual denominado Deveres dos Amanuenses e Escrivães nas Audiências para Julgamento de Pequenas Causas e Delitos na Irlanda, que só seria publicado em 1879.

Obtém com louvor, em 1870, o diploma de Bacharel em Ciências. Durante os oito anos em que trabalha como funcionário público, Stocker desempenha também cargos universitários, participa de sociedades científicas e literárias e colabora em periódicos. É cronista, jornalista, contador, crítico teatral do Evening Mail de Dublin e editor do The Irish Eco.

Ao assistir no palco a uma interpretação de Henry Irving, em 1876, Stoker fica impressionado com o talento do ator inglês, que representa as peças de Shakespeare em uma temporada no teatro de Dublin. Bram publica em sua coluna uma análise da atuação de Irving, pois eles são apresentados após o término do espetáculo e tem início uma amizade que se manteria por quase trinta anos.

Dois anos depois, Henri Irving oferece ao amigo Stoker o cargo de administrador do Royal Lyceum Theatre de Londres. Stoker imediatamente pede demissão do cargo público, casa-se com Florence Balcombe, uma linda jovem de dezenove anos que rompera um noivado de três anos com Oscar Wilde, e segue para a Inglaterra. No ano seguinte Florence dá à luz o único filho do casal, Noel. Nesse mesmo ano Stoker publica seu primeiro livro, The Duties of Clerks of Petty Sessions in Ireland.

Seu segundo livro, Under the Sunset, publicado em 1882, consiste em oito contos infantis de mistério.

Bram Stoker trabalha intensamente: além de ser responsável por mais de uma centena de funcionários do teatro, organiza turnês internacionais da companhia teatral, cuida da correspondência e desempenha a função de empresário e secretário de Henri Irving. Em meio a todas essas atividades, ainda encontra tempo para escrever. Ao entrar em contato com a sociedade londrina, que tende a ser apaixonada pelo sobrenatural, Bram Stoker começa a encontrar inspiração e material para escrever suas histórias soturnas.

Em 1890 Stoker começa a escrever um romance sobre vampiros, ainda sem título definido. No verão desse mesmo ano passa férias em Whitby, onde passa a cogitar o nome Drácula para esse romance que está escrevendo. Ao mesmo tempo trabalha em outro livro O Castelo da Serpente, que é publicado em 1891.

O panorama intelectual da época em que vive Bram Stoker revela a forte influência dos movimentos espiritualistas na Inglaterra Vitoriana do final do século XIX e início da era Eduardiana - a chamada Belle Époque.

Estranhas combinações de esotérico cientificismo e ritualístico misticismo são dadas à luz e ganham notoriedade e aclamação popular. Racional e irracional encontram-se estreitamente ligados. Reunindo o gosto pelo fantástico e pelo oculto com base em suas observações em penitenciárias da Inglaterra, onde lhe despertam a atenção alguns detentos obcecados pela compulsão de verter sangue e até mesmo de ingeri-lo - sintoma de uma disfunção metabólica de origem genética causada por uma deficiência enzimática e que reduz a produção das células sanguíneas -, Bram Stoker começa a fazer pesquisas para complementar o livro que viria a ser sua obra-prima. Ao ser publicado em maio de 1897, sete anos depois de iniciado, lançaria o protagonista Drácula em projeção mundial, bem como o próprio autor. Durante esse período publica três livros: The Watter´s Mou e Croken Sands em 1894 e The Shoulder of Shasta em 1895.

Nas lendas e no folclore os vampiros já eram conhecidos havia séculos. Em suas pesquisas, Stoker reúne informações sobre a crença em vampiros na Transilvânia e baseia-se ainda na sintomatologia de algumas anomalias genéticas ligadas a grupos mediterrânicos e que podem ser aliviadas com transfusões de sangue: palidez, crescimento anormal de pelos, unhas e dentes, retraimento da gengiva, sensibilidade à luz e, em alguns casos, crises de insanidade.

Existe também a possibilidade de que, para criar o personagem-título de seu romance de terror Bram Stoker, já familiarizado com a literatura inglesa do século XIX sobre vampiros, tenha se inspirado no príncipe da Valáquia Vlad Tepes Dracul (nome originário de drac, que em romeno significa dragão, diabo). Dracul, que viveu no século XV, foi um tirano e um guerreiro muito cruel, porém nao exatamente um vampiro.

Aliás, é Henry Irving, com sua voz sibilante quem serve de modelo a Stoker para a descrição do demoníaco personagem Drácula.

Um ano depois da publicação de Drácula, Bram Stoker escreve outro livro: Miss Betty; mas sua carreira entra em declínio: um incêndio no Lyceum Theatre destrói a maior parte dos figurinos, adereços e equipamentos do teatro, que viria a ser fechado em 1902. Em 1903 Bram publica Os Sete Dedos da Morte, e no ano seguinte The Man. Nesse período também sua saúde começa a declinar. Henry Irving morre em 1905, e a saúde de Bram piora ainda mais. Nesse mesmo ano sofre um derrame cerebral e, logo em seguida, contrai uma doença nos rins. É com grande dificuldade que escreve os últimos livros. Em 1906 publica Personal Reminiscences of Henry Irving, em homenagem ao amigo. Em 1909 publica O Caixão da Mullher-Vampiro, e dois anos depois, O Monstro Branco.

No dia 20 de abril de 1912, com 64 anos de idade, esgotado e enfraquecido pelos problemas de sáude, Bram Stoker morre, sem ter tido a oportunidade de assistir ao notável sucesso de sua obra.

Em 1922 é produzido na Alemanha o primeiro filme baseado no romance Drácula, de Bram Stoker: Nosferatu.

Drácula continua sendo a obra literária mais frequentemente adaptada para o cinema, e seus personagens as figuras mais retratadas na tela, ao lado do detetive Sherlock Holmes e seu fiel auxiliar Watson, do escritor inglês Arthur Conan Doyle. Em 1987 a Associação de Escritores de História de Horror dos EUA instituiu um conjunto de prêmios anuais em seu campo de atuação que recebeu o nome de Bram Stoker Award.

O ator Christopher Lee, que encarnou onze vezes o personagem de Drácula, cujo papel consagrou sua longa carreira no cinema, declarou no Festival Imagfic de Madri, em 1990: "Drácula é um herói maléfico, a que eu tenho dado um certo toque de tristeza, sem esquecer que é um personagem heróico, romântico e sensual".

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Homero

Homero
Século  XV-X a.C. - Período pré-homérico ou micênico.
Os primeiros povos indo-europeus - os aqueus - chegam à Grécia e fundam diversas cidades, entre elas Micenas, Tirinto e Pilos.
Os habitantes de Micenas entram em contato com a ilha de Creta e surge a cultura creto-mecânica.
Chegam à Grécia os jônios e os eólios. É fundada a cidade de Atenas.
A Grécia é invadida pelos dórios, que fundam a cidade de Esparta e destroem a civilização creto-micênica.
Eclode a guerra de Tróia, qeu dura dez anos e termina com a vitória da Grécia.
Séculos IX-VI a.C. - Período homérico ou arcaico.
850 a.C. - Provável data de nascimento de Homero.
800 a.C. - Início da colonização grega. Expansão do comércio marítimo. Desenvolvimento das cidades-Estados.
750 a.C. - Introdução da escrita na Grécia.


(*) Odisséia
Ao longo do tempo muito se tem discutido sobre a verdadeira autoria de A Odisséia, atribuída a Homero, embora sem resultados conclusivos. A obra é uma exaltação do povo grego ao herói mortal Ulisses, conhecido também como Odisseu. A história tem início quando Menelau, tei de Esparta, e Agamênon, rei de Atenas, convocam todos os reis e nobres da Grécia para ajudá-lo a montar uma expedição contra Tróia. Diante da convocação, Ulisses finge estar louco. 
Descoberta a farsa, só lhe resta partir para a guerra.
Após a tomada de Tróia, tem início a viagem de Ulisses, cheia de peripécias e aventuras, de volta a Ítaca, sua terra natal.


Por volta do século XV a.C. a Grécia e ocupada pelos aqueus, povo indo-europeu. Com base em uma sociedade altamente estruturada e original, esse povo é responsável pelo surgimento de uma nova cultura que se expande pelo Mediterrâneo oriental. O centro irradiador dessa cultura é Micenas.

Com a chegada dos jônios é fundada a cidade de Atenas, e a civilização creto-micênica atinge o apogeu, até que a região é invadida pelos dórios, também de origem indo-européia, entre 1200 a.C. e 1100 a.C.

A chegada desse povo guerreiro ao território grego contribui decisivamente para a decadência da ilha de Creta e o consequente desaparecimento por completo da antiga civilização micênica. Tem início então uma nova fase no desenvolvimento histórico das regiões situadas na bacia do mar Egeu.

Os gregos da Antiguidade chamavam a si próprios de "helenos", que incluíam todos aqueles que estavam unidos pela mesma cultura e religião e falavam grego, mesmo que usassem dialetos diferentes ou não vivessem na Grécia. Em oposição, eram chamados "bárbaros" os que não falavam grego.

Até o século VIII a.C. as relações dos helenos entre si e com os bárbaros eram esporádicas e inexpressivas, embora as influências culturais do Oriente nunca deixassem de estar presentes. A adoção do alfabeto fenício, adaptado às exigências da língua grega, constitui o resultado mais improtante desse contato. Remontam à segunda metade do século VIII a.C. as mais antigas inscrições alfabéticas e, nessa época, aparecem documentos epigráficos, como listas de magistrados e de vencedores nos jogos olímpicos, que contribuem, desde então, para um conhecimento mais preciso do passado.

O renascimento da técnica de escrita evidencia, antes de tudo, a intensidade do progresso cultural no Egeu helênico, e sua origem indica a importância do Oriente nas transformações sociais em curso. A influência oriental estimula  o alargamento do horizonte geográfico e econômico dos gregos, que atinge o ponto máximo com a vasta colonização efetuada entre meados do século VIII e fins do VI a.C.

Por volta de 750 a.C. o surgimento de algumas tendências no desenvolvimento das comunidades helênicas assinala ma nova fase de sua história. Do ponto de vista histórico, a época arcaica representa uma fase de intensa transformação em todos os níveis da sociedade.

O termo "arcaico", que os especialistas empregam para denominá-la, provém da periodização arqueológica, pois classifica inicialmente os traços peculiares da escultura, arquitetura, decoração, cerâmica etc., que aos poucos abandonam a linha geométrica dominante na produção artística e prenunciam as formas do clássico. Três fenômenos sintetizam essa mutação: o movimento de renovação cultural processado sob a influência do Oriente; o deslocamento de populações pela implantação de colônias em vasta área mediterrânea; e o processo que consolidou as estruturas clássicas da cidade-Estado em algumas regiões mais expostas às correntes do progresso. Numerosos relatos literários da fundação de colônias referem-se a rivalidades entre facções, banimentos, privação de direitos cívicos, como episódios que precederam a emigração. As tensões ocasionadas pela escassez do solo também figuram nessas histórias, que, apesar de construídas com dados lendários, são adequadas ao que se conhece do contexto social vigente na fase áurea do desenvolvimento. De fato, nas cidades da Grécia européia que encabeçaram o movimento, era muito rígido o domínio dos aristocratas.

O aumento da população, a produção agrícola insuficiente e a miséria dos camponeses levam os gregos à procura de novas terras, aventurando-se pelos mares Egeu, Mediterrâneo e Negro, e fundando colônias costeiras ao longo desses mares, o que resulta na expansão do comércio marítimo e no desenvolvimento das cidades-Estados, ou seja, centros de poder que têm em comum a língua, a proximidade e a cultura.

Dentre o material literário disponível para o conhecimento desse período, o mais antigo e rico é constituído pela Ilíada e pela Odisséia, dois dos maiores poemas épicos da Grécia antiga e que tiveram profunda influência sobre a literatura ocidental, que incorporaram episódios pertencentes a um dos ciclos lendários que os poetas talvez cantassem desde a época micênica. Tradicionalmente atribui-se a Homero a autoria dessas obras, mas ainda hoje é discutida não só a questão da autoria dessas epopéias como a data de sua composição. Estima-se que esteja situada nos marcos cronológicos fornecidos por uma importante expansão cultural efetivada em ambas as margens do Egeu.

Com base em referências às condições sociais dessa época encontradas nos poemas de Homero, o historiador grego Heródoto (século V a.C.) situa o período de vida do poeta entre os séculos IX e VIII a.C., fixando a provável data de seu nascimento por volta de 850 a.C. em algum lugar da Jônia, antigo distrito grego da costa ocidental da Anatólia, que hoje constitui a parte asiática da Turquia. Entretanto, outras cidades gregas reivindicam a honra de ser o local do nascimento de Homero: Esmirna, Rodes, Quios, Argos, Ìtaca, Pilos e Atenas.

São poucas as informações concretas sobre a vida de Homero. Não há nem mesmo a comprovação de que ele tenha de fato existido. São inúmeras as lendas e contradições, e todas essas dúvidas geraram a "questão homérica", que até hoje não foi inteiramente esclarecida. Uma das fontes que defende ser Homero natural da Esmirna ou de Quioz diz que ele era pobre e de origem plebéia, e que percorrera o mundo conhecido em sua época anotando nomes, datas e características física, enquanto recebia hospedagem em troca de poesias. Ao retornar a Ítaca, após uma viagem à Espanha, teria contraído uma doença nos olhos que o teria levado a perder a visão. Supões-se que fosse cego pela origem do seu nome em grego (aquele que não vê), embora existisse, também, em épocas remotas, a noção geral de que os poetas fossem cegos e que justamente essa falta de visão lhes possibilitava "ver" o que as outras pessoas não viam, ou seja, a deficiência visual os tornava mais sensíveis à inspiração artística e literária.

Consta ainda das principais fontes a informação de que a morte de Homero teria ocorrido em uma das ilhas Cíclades. No entanto, as contradições e a escassa confiabilidade dos dados biográficos levaram alguns estudiosos a questionar sua existência.

Alguns sugerem que Homero teria sido simplesmente um compilador, que reuniu vários poemas anônimos e pequenas canções populares até formar um todo homogêneo. Outra corrente supões que "Homero" seja um nome coletivo e que a Ilíada e a Odisséia resultem do trabalho de dois ou mais poetas. Um primeiro teria concebido e composto um núcleo primordial que foi depois desenvolvido por outros. Essa questão tem gerado controvérsias, pois há duas opiniões contraditórias: enquanto alguns vêem falta de unidade e variações de linguagens, estilo, ponto de vista e tema nas duas obras, sinal de que não teriam sido escritas por um só poeta, há quem afirme que existe equilíbrio e homogeneidade na linguagem, no tom solene dos versos, no retrato do ideais e valores da sociedade helênica, na visão realista que engloba o fantástico e o real, o histórico e o imaginário. E há ainda a corrente que nega a existência do poeta, baseada na ausência de provas arqueológicas de que os gregos soubessem escrever na época em que Homero teria vivido, e que seria impossível compor poemas tão longos sem o conhecimento da escrita. Os achados arqueológicos indicam que a escrita foi introduzida na Grécia a partir de 750 a.C., e o mais antigo documento literário conhecido data do século IV a.C.

Antes disso, a literatura era transmitida oralmente, e o povo grego conheceu os poemas de Homero ouvindo-os recitados em festivais ou lendo cópias manuscritas. O filósofo e escritor grego Aristarco de Samotrácia (século II a.C),  e outros filólogos da época Alexandrina encarregaram-se da tarefa de produzir a edição do texto das epopéias de Homero. Aos manuscritos em pergaminho oriundas desse trabalho acrescentaram-se anotações de diversos outros helenistas e eruditos bizantinos, ao longo de pelo menos mil anos.

Os estudiosos que admitem a existência de Homero e que atribuem a ele a autoria das epopéias - entre eles, o pensador grego Aristóteles (século IV a.C) - situam a composição da Ilíada na época de juventude do poeta, e a da Odisséia no final de sua vida, o que explicaria as diferenças de estilo e de linguagem apontadas por aqueles que negam a autoria comum das duas obras.

Em dialeto jônico, o que confirmaria a hipótese da origem jônica de Homero, a Odisséia é uma exaltação do povo grego ao herói mortal Ulisses, conhecido também como Odisseu. A história tem início quando Menelau, rei de Esparta, e Agamênon, rei de Atenas, convocam todos os reis e nobres da Grécia para ajudá-los a montar uma expedição contra Tróia. Diante da convocação, Ulisses finge estar louco. Descoberta a farsa, só lhe resta partir para a guerra. Após a tomada de Tróia, tem início a viagem de Ulisses, cheia de peripécias e aventuras, de volta a Ítaca, sua terra natal.

Os poemas homéricos desfrutaram imensa popularidade na Antiguidade. Cópias desses poemas transformaram-se em compêndios básicos que as crianças gregas usavam para aprender a ler e para estudar as lendas e os mitos da Grégia antiga. Platão (séculos V-IV a.C.) chega memso a referir-se ao poeta como "o educador da Grécia". Os gregos formaram seus pontos de vista religiosos a partir dos retratos dos deuses feitos por Homero em seus poemas. As epopéias também foram tomadas como padrão ético e estético e constituíram um exemplo incontestado para todos os poetas épicos gregos ou latinos, além de fornecer personagens e enredo para os grandes dramaturgos do século V a.C.

Além dos clássicos Ilíada e Odisséia, atribui-se também a Homero a autoria de uma coleção de 34 hinos - os Hinos Homéricos -, do poema Margites e da paródia épica Batracomaquia. Entretanto, a ausência de comprovação também gerou opiniões divergentes quanto à autoria dessas obras.

As obras de Homero refletem vividamente a antiguidade mais remota da civilização grega. Desde o século XVI ocupam um lugar preponderante na cultura literária clássica européia, e na originalidade, riqueza e colorido influenciaram inúmeros poetas e artistas do Ocidente. As situações descritas e narradas por Homero tornaram-se simbólicas de toda a aventura humana sobre a terra, e seu nome chega a confundir-se com a própria poesia.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Jane Austen

Jane Austen
1775 - Nasce em 16 de dezembro, no presbitério de Steventon Parish, em Hampshire, Inglaterra.
1784 - É levada para uma escola em Oxford juntamente com a irmã Cassandra, sob os cuidados de uma preceptora.
1787 - Jane e a irmã voltam para casa.
1790-1793 - Nesse período escreve os primeiros romances, que comporiam a coletânea juvenilia.
1795 - Conhece o irlandês Thomas Lefroy, por quem se apaixona.
1796 - Escreve à irmã uma carta relatando o rompimento com Lefroy.
1795-1798 - Nesse período escreve as versões originais de A Abadia de Northanger, Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito.
1801 - Muda-se com a família para Bath.
1805 - Morre George, seu pai. Começa a escrever The Watsons e Lady Susan, mas não conclui as obras.
1807 - As duas irmãs e a mãe mudam-se para Southampton e passam a residir com o irmão Frank e sua esposa.
1809 - Jane, a irmã e a mãe mudam-se para uma casa em Chawton, cedida pelo irmão Edward.
1811 - Publica Razão e Sensibilidade (*). Começa a escrever Mansfield Park.
1813 - Publica Orgulho e Preconceito. Sai a segunda edição de Razão e Sensibilidade.
1814 - Começa a escrever Emma. Publica Mansfield Park.
1815 - Começa a escrever Persuasão. Publica Emma.
1816 - Conclui Persusão. Sai a segunda edição de Mansfield Park.
1817 - Começa a escrever Sanditon, mas adoece e vai para Winchester para se tratar. Fica paralítica e morre em 18 de julho, aos 41 anos.


(*) Razão e Sensibilidade
Na Inglaterra do século XX, as irmãs Elinor, Marianne e Margareth Dashwood ficam desemparadas com a morte do pai, cujas propriedades ão deixadas como herança para um filho do primeiro casamento. Bonitas, inteligentes e sensíveis, as irmãs e a mãe mudam-se para um chalé oferecido por um parente distante. Sem dote, Elinor (a razão) e Marianne (a sensibilidade0 têm pouca chance de conseguir um bom casamento. Mas a grandeza de seus sentimentos revela-se importante contra a hipocrisia de uma sociedade preocupada apenas com os bens materiais. Essa obra é um retrato mordaz de tipos interesseiros, cujo objetivo de vida é enriquecer e projetar-se socialmente.


A Europa do século XVIII passa por importantes mudanças políticas e econômicas. Os tratados de Utrecht (1713-1715) encerram o período da preponderância francesa, que passa a ser britânica. O absolutismo triunfa até meados desse século em boa parte do continente, onde ocorrem diversos conflitos: aguerra da Tríplice Aliança, a guerra da sucessão da Áustria, a guerra dos Sete Anos e outros.

As rivalidades coloniais entre França e Inglaterra pesam muito nas relações entre esses países. Na Índia os britânicos suplantam definitivamente a influência francesa no decorrer da guerra dos Sete Anos.

A partir de 1760 tem início na Inglaterra a Revolução Industrial. A invenção da máquina a vapor é decisiva para a aceleração da série de transformações tecnológicas, econômicas e sociais que só depois de muitas décadas se entenderiam ao continente.

O impacto causado na Europa pela Revolução Francesa, em 1789, é tão profundo e marcante que a partir daí tem início outra época, tradicionalmente denominada Idade Contemporânea.

A segunda metade do século XVIII passa a ser denominada Século da Luzes, em virtude do predomínio gradual das idéias de tolerância religiosa e reforma política e social que asseguram maior liberdade individual.

É nesse período de ebulição política na Europa que nasce Jane Austen, em 16 de dezembro de 1775, no presbitério de Steventon Parish, em Hampshire, zona rural da Inglaterra, no reinado de Jorge III.
Jane é a segunda filha e a penúltima dos oito filhos do reverendo George Austen e sua esposa Cassandra Leigh Austen, pertencentes a uma família tradicional e numerosa.Jane recebe em casa a maior parte de sua instrução. Tem uma infância feliz em meio aos irmãos e a outros garotos, que se hospedam na casa e dos quais o reverendo George é tutor. Amantes do romance e da poesia, para se divertir as crianças escrevem e inventam jogos e charadas, e mesmo  sendo garotinha, Jane é incentivada a escrever. Desde cedo revela sua inclinação para as letras, ao escrever bilhetes para parentes e amigos em uma época em que escrever cartas é uma espécie de modismo. A leitura pelas crianças de livros da extensa biblioteca do reverendo George fornece material para que escrevam pequenas peças teatrais, que elas próprias representam.

Em 1784, quando seu pais decidem enviar Cassandra - a inseparável irmã mais velha, então com dez anos -  para uma escola em Oxford, Jane implora para ser levada junto, no que é atendida. Elas ficam sob os cuidados de uma preceptora; contudo, sem recursos par manter as meninas estudando fora, o pai traz as filhas de volta para casa três anos depois. Jane nunca mais se separaria da família.

Em 1790, com catorze anos de idade, Jane escreve seu primeiro romance, Amor e Amizade, sob a forma epistolar - estilo que nunca seria inteiramente dominado pela escritora. Essa e outras obras escritas anonimamente na adolescência além de uma coleção de cartas, comporiam os três volumes da coletânea Juvenilia.

A vida de Jane Austen até então não é marcada por grandes acontecimentos, nada ocorre que possa perturbar a sua pacata existência. Contudo, apesar da tão pouca vivência, do restrito convívio social e de morar sempre em pequenas cidades do interior da Inglaterra, a escritora possui uma visão extraordinariamente cosmopolita.

Transforma-se em uma notável cronista da sociedade inglesa da época, que, ao contrário do que se poderia supor, não é uma sociedade rural típica inglesa, est´vel, conservadora, e sim uma sociedade burguesa, um mundo fluido e arbitrário em que algumas famílias nadam em dinheiro novo, enquanto outras lutam para manter o pouco que possuem.

Com percepção aguda dos fatos e estilo pacífico, sereno e equilibrado, Jane consegue construir em seus romances uma descrição minuciosa do ambiente a que pertence com uma sutil ironia. Seus primeiros escritos contêm imagens anárquicas e de violência em abundância, e por ser filha de um eclesiástico do século XVIII, isso revela uma ousadia incomum.

O romance Lady Susan, escrito na adolescência, em 1792, é inspirado em As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos, um livro que seria proibido para uma senhorita da pequena burguesia, educada nos rigores do puritanismo. É possível que os pais de Jane não lhe censurem as leituras,, pis seu trabalho literário também recebe influência de Sir Chales Dickinson, escrito por Samuel Richardson, e de Tom Jones, de Henry Fielding, livros considerados igualmente escandalosos na época.

A criação aristocrática também aflora na temática dos romances de Jane Austen, sobretudo na caracterização psicológica de suas personagens femininas, verdadeiras heroínas burguesas, cuja preocupação máxima é conseguir um bom casamento. Sem dúvida a principal diferença entre Jane Austen e suas heroínas sensuais é que, no caso destas, não só suas percepções e critérios são importantes como também em geral têm a oportunidade de escolher o próprio destino.

Ainda em 1782, Jane escreve Kitty ou o Caramanchão, e entre 1795 e 1798 Elinor e Marianne, romance epistolar que serviria de base para Razão e Sensibilidade,  A Abadia de Northangeer, que parodia os livros de terror, muito populares à época, mas que só seria publicado postumamente, e Orgulho e Preconceito.

Em 1795, no final da adolescência, Jane se apaixona por um irlandês encantador chamado Thomas Lefroy, mas o romance não se concretiza e termina no ano seguinte. Essa desilusão amorosa sem dúvida desencadeia em Jane os mesmos sentimentos de vulnerabilidade e de um relativo abandono que marcaram sua infância, quando a mãe a deixara juntamente com a irmã Cassandra Elisabeth aos cuidados de uma preceptora em Oxford.

Em 1801, aos 26 anos, muda-se com os pais e Cassandra, para Bath. Após a morte do irmão George, deficiente mental, do pai, em 1805, e da cunhada, que deixa órfãos os onze filhos de seu irmão Edward, ela passa por um período de depressão, durante o qual escreve muito pouco.

Em março de 1807, Cassandra e a mãe mudam-se para Castle Square, Southampton. Passam a morar com seu irmão Frank, um capitão naval, e sua esposa.

Em 1809 as três mulheres transferem-se para uma pequena mas confortável casa cedida pelo próspero irmão Edward em Chawton, próximo a Winchester, no sul da Inglaterra. Jane retoma a atividade literária e começa a preparar a versão final de Razão e Sensibilidade e de Orgulho e Preconceito.

Em 1811, então com 36 anos, publica Razão e Sensibilidade e começa a escrever Mansfield Park, que seria publicado em 1814, ano em que começa a escrever Emma, obra dedicada ao príncipe regente, futuro George IV, e publicada no ano seguinte.

No início de 1817 Jane começa a escrever outro romance, Sanditon, mas poucos meses depois adoece, vitimada por uma complicação pulmonar, e vê-se obrigada a ir para Winchester para se tratar. Porém, fica paralítica e morre  em 18 de julho, aos 41 anos de idade. Cassandra está a seu lado. Uma semana depois é sepultada na catedral da cidade, sem a presença da irmã, já que nessa época mulheres não assistem a funerais.

Além de A Abadia de Northanger, outras obras publicadas após sua morte são Persuasão e Lady Susan, com um prefácio biográfico escrito por Henry, seu irmão predileto. As obras The Watsons e Sanditon também são póstumas, mas são trabalhos não concluídos.

A linguagem pura e simples, o tom humorístico, sarcástico, a agudeza de espírito e os sempre atuais temas de maor e casamento garantem a imortal popularidade de Jane Austen, cujos romances são frequentemente reproduzidos com sucesso nas telas de cinema.

Ao longo dos séculos, biógrafos e críticos têm se perguntado como a tímida e reservada filha de um clérigo protestante do interior da Inglaterra viria a produzir livros tão sofisticados, como uma mulher de temperamento doce, morta aos 41 anos de idade, solteira e com pouco convívio social, se converteria em autora de romances tão irônicos e profundamente modernos, que não se enquadram em nenhum dos padrões literários característicos de sua época.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Stendhal

Stendhal


1783 - Nasce em Grenoble, em 23 de janeiro, Henri Beyle, filho de Chérubin-Joseph Beyle e Caroline-Adelaide-Henriette Gagnon.
1790 - Morte da mãe.
1796 - Ingressa na escola de Grenoble.
1799 - Vai a Paris.
1800 - Viaja para a Itália como subtenente do 6. Regimento dos Dragões.
1802 - Deixa o exército. Volta a Paris.
1803- Adere aos "Ideólogos".
1804 -  Liga-se à atriz Mélanie Guilbert. Estabelece-se como comerciante na cidade de Marselha.
1806 - Volta a Paris e ingressa novamente no Exército.
1809 - Viaja a Viena.
1811 - Viaja à Itália.
1814 - Publica Vidas de Haydn, Mozart e Metastásio.
1817 - Publica História da Pintura na Itália e Roma, Nápoles e Florença.
1821 - Regressa a Paris.
1822 - Publica De Amor com o pseudônimo Stendhal.
1823 - Publica Racine e Shakespeare.
1827 - Publica Armance.
1830 - Publica Passeios em Roma.
1831 - Transferido como cônsul para Civitavecchia.
1832 - Conclui Lembranças de Egotismo, publicado postumamente.
1833 - Começa a escrever Lucien Leuwen.
1835 - Redige Vida de Henri Brulard.
1836 - Viaja a Paris.
1838 - Escreve Memórias de um Turista e A Cartuxa de Parma.
1842 - Em 22 de março tem um ataque apoplético, em Paris. Dia 23, às 2 horas da madrugada, morre.


(*) O Vermelho e o Negro
O Vermelho e o Negro é uma das obra-primas de Stendhal. O perfil psicológico e a vida de Julien Sorel, um dos personagens mais marcantes da literatura de todos os tempos, tem por fundo a França do período da restauração napoleônica, retratada ao mesmo tempo com agudo realismo e fantasia transfiguradora. O título, simbólico, evoca uma opção entre a carreira militar e a eclesiástica que se oferece ao herói, ele mesmo um símbolo, de certo modo, da idéia de vontade individual como força criadora dos acontecimentos, que anima a obra de Stendhal.



A neve cai em grossos flocos sobre Grenoble. Cobre de branco os telhados escuros e as ruas estreitas. Afugenta os transeuntes, interdita os passeios. No ardor da despedida, o pequeno grupo junto à diligência nem chega a sentir o frio. Henri Beyle está de partida para Paris: aspira conquistar o amor e a glória. Por certo, na capital sentirá falta das monanhas ao redor de Grenoble, e lamentará não ter a irmã, Pauline, o avô e o tio Romain a seu lado. Porém, em compensação não castigará os olhos com os feios traços da cidade natal. Olha para a irmã caçula, que espera indiferente pelo fim das despedidas. Perto dela, o Abade Raillane parece fitar Henri em reprovação. Entende essa viagem a Paris como uma fuga para a aventura. Teme que, sem religião nem disciplina moral, o jovem Beyle se perca. Só falta dizer adeus ao pai, que, emocionado, retém na sua a mão do filho, sem dizer uma palavra. Havia muito tempo Chérubin-Joseph Beyle perdera o hábito das confidências. As mágoas, as dificuldades e a morte precoce da esposa, em 1790, quando Henri tem apenas sete anos, o haviam endurecido ao longo da vida.

Soltando a mão do pai, contempla as casas escuras e as ruas estreitas, adivinhando as montanhas que a nevada encobre. Murmura um "adeus, Grenoble" e sobe na diligência, junto com o avô.

Com o velho doutor Gagnon aprende a admirar a beleza e a arte, e dele recebe tanto carinho como só sua mãe lhe havia dado. No canto da diligência, Henri Beyle se comove, pensando que em breve terá de despedir-se do avô. E, furtivamente, com o punho do casaco enxuga uma lágrima indiscreta.
O avô percebe-lhe o gesto, e, para distraí-lo, fala sobre os exames vestibulares e sobre o triunfo certo de seu exame na Escola Politécnica.

Mas no dia da prova, ainda cansado da viagem, Henri acorda tarde demais. Nem avô nem neto lamentam o fato; afinal, estudar engenharia fora apenas um pretexto para sair de Grenoble. O doutor Gagnon deixa o neto aos cuidados de um primo e parte. Por intermédio de Pierre Daru, homem de prestígio no governo de Napoleão, engaja-se no Exército e, em 1800, parte para a Itália.

Encanta-se com a beleza da paisagem e das mulheres.

Aaixona-se pela literatura e pela música, em particular pela ópera O Matrimônio Secreto, de Domenico Cimarosa.

Aborrecido com o Exército, em1802 desliga-se das armas, diz adeus a Angela Paietragrua, sua amada milanesa, e volta a Paris.

Apesar dos parcos recursos, Henri decide tornar-se um cavalheiro perfeito e põe-se a tomar lições de dança. Para ler Shakespeare no original, dedica-se ao estudo do inglês. Para conhecer as idéias da moda, frequenta os saões de Destutt de Tracy e lê as obras de Condillac. Mas estudos e exercícios não o fazem deixar de ser conquistador.

Corre o ano de 1804. Sua apaixão pela atriz Mélanie Guilbert o faz seguir-lhe os passos: muda-se ocm ela para Marselha e, para sobreviver, estabelece-se como comerciante. Tanto a temporada como a empresa comercial redundam em grande fracasso, e os amantes têm de se separar. Henri Beyle regressa a Paris, falido. O primo o readmite no Exército e confia-lhe uma intendência na Áustria, onde fica por dois anos. em 1810, aos 27 anos, volta a Paris, para logo em seguida partir em viagem para a Itália, a Rússia e a Alemanha. Outra vez de volta a Paris, presencia a tomada da capital pelas forças aliadas e a fuga de Napoleão, em 1814. Nada mais lhe resta fazer na França: rumo então para Milão, decidido a dedicar-se exclusivamente à literatura.

Data desses anos de derrocadas a publicação de Vidas de Haydn , Mozart e Metastásio, seu primeiro trabalho, com o pseudônimo de Bombet. Sua estréia literária provoca um grande escândalo. Giuseppe Carpani, escritor italiano, acusa-o de haver plagiado sua biografia de Haydn. Imediatamente, um certo Bombet Júnior, que se declara irmão mais novo do Bombet plagiador (e que na verdade era o mesmo Henri Beyle), acorre para defendê-lo. Pela imprensa consegue distorcer de tal modo os fatos que Carpani, verdadeiro autor da obra, acaba aparecendo aos olhos do público não só como mentiroso mas também como ladrão. O debate desperta a curiosidade dos leitores, e o livro revela-se um grande sucesso.

Três anos depois publica História da Pintura na Itália - mais um plágio - e Roma, Nápoles e Florença, evolução de suas lembranças de viagem. Porém as críticas e suas amizades com os liberais italianos despertam nos austríacos - que dominam boa parte do norte da Itália - a suspeita de que Beyle trama contra eles. Temendo ser preso, em 1821 volta a Paris. Está com 38 anos e deixa atrás de si mais um amor atormentado: Métilde Dembowski, "a maior de todas as dores que já sofrera".

A influência dos "ideólogos" revela-se claramente no tratado Do Amor, publicado em 1822 e primeira obra assinada com o pseudônimo Stendhal. Apesar da leveza do estilo, o ensaio não obtém sucesso.
Os anos seguintes vêem aparecer a Vida de Rossini (1823), um dos raros sucessos de Stendhal, e Racine e Shakespeare (1825), este considerado uma de suas obras mais importantes.

Fazendo jus à fama de conquistador, em 1824 liga-se a Clementine Curial, casada com um general de Napoleão. Durante dois anos vivem intensa paixão e as mágoas de sucessivas traições. Em setembro de 1826 o caso está terminado. Stendhal passa por uma crise terrível, que o coloca "à beira do suicídio".

A desilusão transparece em seu primeiro romance, publicado em 1827 aos 44 anos: Armance narra uma história de amor impossível, na qual o herói vai buscar a morte na bela paisagem da Grécia, e a heroína entra para o convento.

Stendhal não opta por nenhum desses caminhos para esquecer seu triste caso com Clementine. Lança-se, isso sim, nos braços de Alberte de Rubempré. Mas ao regressar de uma viagem à Espanha encontra-a nos braços de um amigo seu e desfaz a ligação. Vai procurar consolo nos encantos da italiana Giulia Rinieri de´Rochi. De Alberte e de Giulia Stendhal tira vários traços para compor a personagem de Matilde de La Mole, figura destacada de O Vermelho e o Negro.

O significado do título suscita muita discussão. Segundo alguns críticos, Stedhal quer representar o jogo da roleta. Outros vêem no vermelho o Exército, o sangue das batalhas, e no negro a Igreja, o preto das batinas. Há também os que consideram o negro uma alusão ao estado de seminarista do herói, e o vermelho o sangue que o embebe no cadafalso.

A publicação de O Vermelho e o Negro em 1830 coincide com a Revolução de Julho, que coloca no poder Luís Filipe. O novo rei envia Stendhal para Trieste, como cônsul. Porém a Áustria, que domina essa cidade na ocasião, recusa-se a aceitá-lo, temendo idéias liberais. Após cinco meses de espera, o escritor recebe ordens para assumir o consulado em Civitavecchia, próximo a Roma. O Vaticano não o vê com bons olhos, prova disso é que colocara Roma, Nápoles e Florença na lista dos livros proibidos.

Para evitar novos problemas, Stendhal decide não publicar nada enquanto estiver no exercício de funções oficiais; ms continua a escrever. Em 1832 conclui Lembranças de Egotismo, uma reconstituição de suas peripécias em Paris. No ano seguinte inicia a composição de Lucien Leuwen, romance que deixa inacabado, publicado postumamente em 1894. Talvez por não poder descrever os meios diplomáticos de Romas, onde deveria desenrolar-se a segunda parte do livro, Stendhal suspende a redação de Lucien Leuwen, que nunca mais retomaria, e começa a elaborar a Vida de Henri Brulard, minuciosa autobiografia que alguns críticos julgam ser sua obra-prima. Escondendo-se sob outro nome, Stendhal procura uma definição de si mesmo, após uma revisão o mais objetiva possível de seus atos e impulsos.

Em 1839 publica A Cartuxa de Parma, seu último romance, em que descreve o luminoso panorama italliano que tantas vezes palmilhara deslumbrado.

A Itália figura como personagem central nas Crônicas Italianas, escritas em Roma, cidade que Stendhal amarra sem o entusiasmo juvenil que o prendera a Milão, mas com uma terra melancolia.
Encontra ali o ambiente perfeito para esperar com serenidade a velhice e a morte e tentar reconstituir os fatos de sua vida. As Crônicas não focalizam nem as artes nem a beleza da paisagem, mas o elemento humano, disposto nas diferentes camadas sociais que Stendhal analisa.

Ao elaborar essas últimas obras Stendhal sente-se só e desamparado. Não conta mais com o forte primo Daru. As mulheres se afastam, seus livros não alcançam mais grande sucesso. Stendhal não havia escrito para o grande público; como dizia, sua literatura se dirigia para os séculos seguintes: "Posso fazer uma obra que não agrade a ninguém e que será reconhecida como bela no ano 2000". Um dos poucos a compreendê-lo em seu próprio tempo é Balzac, cujo artigo elogioso sobre A Cartuxa de Parma constitui uma das últimas alegrias de Stendhal.

O coração enfraquecido não lhe dá mais muito tempo de vida. Em 15 de março de 1841 sofre um primeiro ataque. Apressado, deixa Civitavecchia e retorna à França: quer morrer em sua pátria. É mês de outubro. É outono em Paris.

Cinco meses mais tarde, em 22 de março de 1842, anda pela Rua Neuve des Capucines quando cai sob um fulminante ataque de apoplexia.

Transportado para o hotel, falece na madrugada do dia seguinte. O amigo Romain Colomb providencia os serviços fúnebres, realizados na igreja de Assunção. Com mais duas pessoas apenas, acompanha o féretro até o cemitério de Montmartre. Ali repousa o homem ambicioso e ávido de amor, o escritor orgulhoso que escrevera para gerações futuras. Em vida, não conhecera a glória. Após a morte, consagra-se como um dos maiores autores do século dezenove.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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