segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Dostoiévski

Dostoiévski

1821 - Em 30 de outubro, em Moscou, nasce Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski.
1837 - Morre a mãe de Dostoiévski. Transfere-se para São Peterburgo e ingressa na Escola de Engenharia Militar.
1839 - Seu pai é assassinado.
1841 - Inicia as obras Bóris Godunov e Maria Stuart, mas não as conclui.
1843 - Passa a trabalhar na seção de Engenharia de São Petersburgo. Traduz Eugênia Grandet, de Balzac, e Dom Carlos, de Schiller.
1844 - Dostoiévski demite-se do cargo público para se dedicar à literatura.
1845 - Publica Pobre Gente.
1847 - Sai a segunda edição de Pobre Gente. Sofre uma crise de epilepsia.
1848 - Publica o romance O Duplo.
1849 - É preso e condenado à morte. Comutada a pena, parte para a Sibéria.
1854 - É incorporado como soldado raso em uma guarnição siberiana.
1857 - Casa-se com Maria Dimítrievna Issáievna.
1859 - Volta a São Petersburgo.
1861 - Publica Recordações da Casa dos Mortos. Funda o jornal O Tempo.
1862 - Viaja ao exterior com a jovem Polina Súslova.
1863 - Retorna à Rússia.
1864 - Funda o periódico A Época. Morrem sua esposa e seu irmão.
1867 - Dostoiévski casa-se com Ana Grigórievna. Publica Crime e Castigo (*).
1868 - Nasce a primeira filha.
1871 - Volta a São Petersburgo e publica Os Possessos.
1874 - Publica O Adolescente e Diário de um Escritor.
1880 - Publica Os Irmãos Karamázovi.
1881 - Morre em 28 de janeiro, e é sepultado três dias depois no Cemitério Alieksandr Niévski, em São Petersburgo.

(*) Crime e Castigo
Dostoiévski parece ter se inspirado em seu sofrimento ao escrever Crime e Castigo. Nesse livro, cujo cenário retrata os becos sombrios e vielas com imensos casarões de São Petersburgo, bem como a paisagem desolada da Sibéria, estão presentes o interesse permanente pelo problema moral do crime e todas as contradições da época em que viveu Dostoiévski, considerado um dos maiores escritores russos de todos os tempos.


Em junho de 1812 a Rússia é invadida pelas tropas napoleônicas, e a elas se rende após sanguenta batalha. Após cinco semanas numa Moscou incendiada, abandonada por seus moradores, tem início a famosa retirada do Grande Exército, ordenada por Napoleão. Mas as tropas russas seguem-lhe as pegadas atá a Alemanha, e nesse país travam diversas batalhas. A perseguição continua até Paris, onde, no mês de março de 1814, Alexandre I entra triunfalmente.

De volta à Rússia, jovens oficiais se impressionam com os abusos da burocracia, com a arbitrariedade do governo, com o sofrimento dos servos, com juízes corruptos, entre outros desmandos. Algumas sociedades secretas começam a se organizar para reverter a situação, e até 1820 ocorrem vários movimentos revolucionários por todo o país.

Nesa Rússia conturbada, na cidade de Moscou, nasce Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, em outubro de 1821, descendente de uma aristocrática família lituana, porém agora sem fortuna alguma.
O pequeno Dostoiévski cresce em meio à pobreza e a pessoas doentes; seu pai é médico em um sanatório para pobres em Moscou, e é aí que reside a família.

Além das condições materiais bastante adversas, ainda lhe amarguram a vida o temperamento despótico e brutal do pai, que vive aos gritos com ele, e a passividade triste e nervosa de sua mãe, Maria Fiódorovna Nietcháieva. Martiirzado, o menino alimenta a esperança de que o pai morra o que chega a pedir a Deus em suas preces. Contudo, quem morre é sua mãe, que não resite a tantos sofrimentos.

Viúvo, Mikhail dedica-se com mais afinco ao trabalho e resolve mandar o filho para a escola militar de engenharia, em São Petersburgo, atual Leningrado E é ali entre exercícios de campanha e cálculos matemáticos, que o adolescente Fiódor descobre o prazer da literatura. Entrega-se febrilmente à leitura, e fica impressionado com Schiller, Dickens, George Sand e Balzac. As idéias de muitos escritores de séculos anteriores, como Byron, Shakespeare e Cervantes, e de seu contemporâneo Victor Hugo, mais tarde influenciariam suas obras.

A inesperada notícia do assassinato do pai, em 1839, acaba pesando na consciência do jovem Fiódor, que tanto rezara para ver-se livre dele. Amargurado, angustiando pelo remorso, sentindo-se responsável por toda a miséria do ser humano, ele busca se redimir por meio da criação literária. Aos vinte anos começa a escrever Bóris Godunow e Maria Stuart, que não só refletem a preocupação de seguir a moda romântica como também sua problemática pessoal: o primeiro é a história de um tirano, como seu pai, e o segundo é o drama de uma rainha infeliz e injustiçada, como sua mãe. Fiódor não conclui nenhuma das duas obras.

Em 1843 termina os estudos e vai servir como alferes na seção de Engenharia de São Petersburgo. Nessa mesma época traduz duas obras românticas: Eugênia Grandet, de Victor Hugo, e a peça Dom Carlos, de Schiller. No ano seguinte, ainda tentando seguir os padrões do romantismo, Dostoiévski começa a elaborar Pobre Gente, novela que descreve o ambiente medíocre em que vive. Por fim, cada vez mais fascinado pela literatura, demite-se do cargo público para dedicar-se inteiramente à carreira de escritor.

Publicada em 1845, Pobre Gente transforma-se em grande sucesso de público e de crítica, o que o encoraja a escrever com mais afinco. Em 1847, ano em que sai a segunda edição de Pobre Gente, sofre uma série crise de epilepsia. No ano seguinte publica O Duplo, romance que não obtém o mínimo sucesso literário.

A fase de glória parece estar chegando ao fim, a fama começa a declinar: os críticos e autoridades literárias russas quer tanto o haviam elogiado chegam a confessar de público que se enganaram e que haviam exaltado equivocadamente seu talento literário.

Tão inesperada mudança de opinião isola Dostoiévski do convívio geral. É tomado então por repentinas dúvidas a respeito da própria capacidade e de qual seria sua real vocação.

Em 1848 Dostoiévshi, aos 21 anos, começa a frequentar um grupo socialista revolucionário em São Petersburgo, do qual passa a fazer parte. Mais tarde, no entanto, no livro Os Possessos, denunciaria o clima de violência e niilismo vigente entre os revolucionários, acusando-os de agir sobretudo movidos pelo tédio e de viverem inutilmente à custa dos servos.

Antes do rompimento com o grupo, porém, o escritor já se havia comprometido em favor do socialismo, em seus discursos públicos. Denunciado juntamente com os companheiros de grupo, é preso e condenado à morte por fuzilamento.

Já no patíbulo, no momento em que se iria cumprir a sentença, um toque de clarim interrompe a execução. Para incredulidade e imenso alívio dos réus, o auditor imperial anuncia que Nicolau I mudara de idéia e que a pena de morte fora comutada em prisão perpétua com trabalhos forçados na Sibéria.

Para lá segue o escritor, então, na véspera do Natal de 1849. Na bagagem que leva é pouco o peso: um exemplar do Evangelho - só! Mas quanto alento, força e inspiração lhe dá a leitura desse único livro. Daí a certeza renovada de que os sofrimentos são o preço necessário da redenção.

Na convivência com ladrões, criminosos e prostitutas no exílio, Dostoiévski jamais põe em dúvida a bondade humana. No livro Recordações da Casa dos Mortos, ele registraria: "Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva".

Após cinco intermináveis anos de trabalhos forçados, em 1854, com 33 anos, Dostoiévski é incorporado como soldado raso em uma guarnição siberiana, onde passa outros cinco anos. Não tem amigos nem família, tampouco dinheiro. Na fria solidão da Sibéria, sofre o suplício de apaixonar-se por uma mulher casada, Maria Dimítrievna Issáievna. Seu sofrimento aumenta quando ela se muda para outra cidade, mas depois de alguns meses, para sua alegria, ele vislumbra uma esperança: Maria fica viúva. Em menos de um ano, passado o período de luto, eles se casam, em 1857.

O casamento, porém, não tem um bom começo. Na noite de núpcias Dostoiévski sofre uma violenta crise de epilepsia, como já tivera anos antes. A mulher apenas o observa, com o espanto estampado nos olhos.

Não há consolo na Sibéria: a desolação da paisagem o deprime, sua saúde é péssima, o casamento revela-se um fracasso. Tudo que lhe resta é escrever um novo romance, Recordações da Casa dos Mortos, e esperar que o czar lhe dê permissão para voltar a São Petersburgo.

Nicolau I já está morto, e seu sucessor, Alexandre II, atende-lhe o pedido. Em novembro de 1859 o escritor volta à cidade que tão bem retrataria em seus contos e romances.

O retorno, porém, é melancólico e solitário: os amigos já o esqueceram, o público também. Com o irmão Mikhail, funda um periódico, O Tempo, em 1861, A publicação de Recordações da Casa dos Mortos, nesse mesmo ano, ajuda-o a fazer ressurgir seu nome, mas a fama não é suficiente para livrá-lo das graves dificuldades financeiras. Tudo o que ganha, Dostoiévski gasta com o jornal e com a mulher doente, contrai empréstimos que não consegue pagar, e por fim, ao ver-se ameaçado por credores, foge para o exterior, em 1862. Deixa a mulher em São Petersburgo e, com recursos obtidos na Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, percorre a Alemanha, Itália, Suíça, França e Inglaterra, levando consigo uma jovem estudante, partidária do feminismo, entusiasta da literatura e candidata a romancista: Polina Súslova, que posteriormente seria a musa inspiradora das personagens de O Jogador, O Idiota e Os Irmãos Karamázovi, entre outros. No entanto, gasta no jogo tudo o que lhe resta e mais o que consegue ganhar com a penhora de seus pertences e os de Polina.

De volta a Petersburgo, em 1863, Dostoiévski encontra Maria agonizante e o jornal fechado por ordem do governo. No ano seguinte, encontra ânimo e funda então outro periódico, A Época. Ainda em 1864, num período de três meses, morrem Maria e Mikhail, ficando a seu encargo a sobrevivência da cunhada viúva e dos sobrinhos. É em meio a esse sentimento de angústia que Dostoiévski inicia a redação de Memórias do Subterrâneo, obra que marca o completo amadurecimento literário do escritor. A partir desse livro ele superaria os modismos românticos que marcaram as obras anteriores, passando a interessar-se pela sondagem dos mistérios da existência e da complexidade da alma humana, pelo refortalecimento das qualidades essenciais do povo russo e pela busca do homem bom. Entretanto, embora tenha encontrado o caminho para se realizar como escritor, Dostoiévski é um homem solitário e infeliz. Polina, que ele deixara em Paris, recusa seu pedido de casamento, e ele se afunda mais e mais em dívidas de jogo. Quando seu editor exige que ele cumpra o prazo para a conclusão do manuscrito de Crime e Castigo, ele contrata a estenógrafa Ana Grigórievna para ajudá-lo, e finalmente encontra na jovem de 21 anos a companheira que procurara por toda sua vida. Casa-se com ela em 1867, aos 46 anos. A paixão pelo jogo, porém, só faz aumentar-lhe as dívidas. Os credores voltam com as ameaças de cadeia, e Dostoiévski emigra com Ana para a Europa Ocidental. Um adiantamento do editor permite-lhe fixar-se em Genebra. Mas o vício o persegue, tudo empenha - da aliança ao capote - e tudo perde.

A morte da primeira filha em 1868, com três meses de idade, ameaça comprometer sua sanidade mental, o que é agravado pelo sentimento de culpa por privar a amada esposa do conforto e dos bens materiais. Sem filha, sem paz, o casal abandona Genebra e a literatura. Vagueia pela Itália, atormentado pela solidão, curtindo a saudade da pátria distante e da filha morta. Amigos compadecidos e o editor mandam-lhe da Rússia uma ajuda financeira, que, mais uma vez, esvai-se nos cassinos. A Dostoiévski não resta escolha senão voltar a escrever, e o faz sem cessar, procurando ganhar o mínimo para o sustento doméstico. O nascimento da segunda filha, em 1869, vem atenuar um pouco a rudeza da vida. Com ânimo renovado, o casal retorna à Rússia em 1871, ano que publica Os Possessos.

Dois anos depois Dostoiévski assume o cargo de redator-chefe em O Cidadão. E é a partir dessa época que escreve algumas de suas obras-primas. Em 1874 publica O Adolescente Diário de um Escritor, e em 1880 Os Irmãos Karamázovi .Torna-se ídolo de seus leitores, guia espiritual, exemplo de força e coragem, o "Escritor da Rússia", que , ao retratar a alma de seu povo, evidenciara a própria condição humana.

As aspirações de Dostoiévski estão, enfim, realizadas. Não só o escritor alcança seus intentos: o homem encontra o amor sofridamente buscado, a alegria de ter os filhos que quis e a paz que tanto almejara.

Mas já não há tempo para ser feliz. Num dia nevado de 1881, vítima de uma hemorragia, morre aos sessenta anos Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, consagrado até hoje como um dos mestres da literatura universal.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

domingo, 22 de setembro de 2013

Dante Alighieri

Dante Alighieri
1265 - Em Florença, provavelmente em 29 de maio, nasce Dante Alighieri.
1274 - Vê Beatriz Portinari em uma festa e por ela se apaixona.
1283 - Morre o pai de Dante.
1285 - Casa-se com Gemma di Manetto Donati.
1287 - Beatriz casa-se com o banqueiro Simone dei Bardi.
1289 - Dante luta com o exército guelfo de Florença na batalha de Campaldino.
1290 - Morre Beatriz, aos 24 anos.
1293 - Escreve A Vida Nova.
1295 - Passa a dedicar-se ativamente à política.
1300 - É eleito um dos seis priores do Conselho de Florença, pelo partido dos guelfos.
1302 - É exilado de Florença quando a facção dos negros toma o poder.
1306-1309 - Durante esse período escreve O Banquete, De Vulgari Eloquentia De Monarchia e O Convívio.
1307 - Começa a escrever A Divina Comédia.
1316 - Recusa o perdão do exílio.
1317 - Muda-se para Ravena, onde escreve Quaestio de Aqua et Terra.
1321 - Conclui A Divina Comédia (*).
            Ao retornar de uma viagem a Veneza, morre em 14 de setembro, com 56 anos.

(*) A Divina Comédia
Obra-prima de Dante Alighieri, A Divina Comédia exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos setecentos anos. Dante, o personagem da história, narra uma odisséia pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso, descrevendo cada etapa da viagem com detalhes quase visuais. Nessa viagem é guiado, no Inferno e no Purgatório, pelo poeta Virgílio, e no Céu por Beatriz, musa do autor em várias de suas obras.


Em plena idade de ouro do mundo medieval, a Florença do século XIII é um rico centro cultural, a mais importante cidade da Itália central, com sua prosperidade baseada na manufatura de tecidos, no comércio de cereais e nos negócios financeiros.

 Em meados desse século a cunhagem do florim de ouro constitui-se numa etapa decisiva da hist´ria econômica européia. Casas bancárias já indicam a importância do intercâmbio realizado, e uma burguesia comercial começa a predominar. É uma época de mudanças e definições, de renovação e também de conflitos internos.

O poder na Itália divide-se entre o papa e o Sagrado Império Romano. As cidades são centros independentes, e as facções políticas, que representam os interesses das famílias, frequentemente se enfrentam em disputas sangrentas. Em Florença a aristocracia se divide entre guelfos e guibelinos, representantes, respectivamente, da baixa nobreza e do clero e da alta nobreza e do poder imperial.

Essa Florença é o berço de Dante Alighieri, que nasce me maio de 1265, descendente de uma família de baixa nobreza guelfa. À época, a cidade é dirigida pelos guibelinos.

Órfão de mãe ainda criança, com apenas nove anos Dante apaixona-se pela menina Beatriz, da mesma idade. Nessa época os casamentos são motivados por alianças políticas entre as famílias. Aos doze anos já está prometido em casamento a uma moça da família Donati.

Em 1283, aos dezoito anos, perde o pai. Nesse mesmo ano reencontra Beatriz, após nove anos sem vê-la. O amor platônico que nutre por Beatriz o domina. Mas ela, assim como ele, também já está prometida em casamento. De fato, em 1285 Dante se casa com Gemma di Manetto Donati, com qeum teria quatro filhos: Jacopo, Pietro, Giovanni e Antonia. Esta sua filha se tornaria freira e assumiria o nome Beatriz.

Em 1287, com 22 anos, Beatriz casa-se com o banqueiro Simone dei Bardi. A forma como Dante encara o amor por sua musa, entretanto, não se altera. Para ele Beatriz continua sendo a dama por quem estaria apaixonado até o fim de seus dias.

Em 1289 Dante ingressa no exército e toma parte na batalha de Campaldino, na qual os guelfos vencem os guibelinos de Pisa e Arezzo e recuperam o poder sobre a cidade de Florença.

Em 1290, aos 24 anos, Beatriz morre prematuramente, deixando Dante inconsolável. Do período imediato à morte de Beatriz, pouco se sabe além de que teria se entregado a uma vida dissoluta. Depois de uma mudança radical, passa a dedicar-se á filosofia e à literatura, e o amor latônico por sua musa é expresso em A Vida Nova. Escrito por volta de 1293, é uma coleção de sonetos e canções dedicados a Beatriz, complementados por um commentário em prosa que elucida o leitor sobre as circunstâncias em que os poemas foram escritos e o estado da alma do poeta. Essa obra revela a influência da poesia dos trovadores que floresceu no sul da França durante os séculos XII e XIII.

Discípulo de Brunetto Latini, consagrado escritor florentino que influencia fortemente sua obra, a juventude de Dante é marcada pela amizade com destacados poetas, como Guido Cavalcanti, o que lhe possibilita ingressar numa camada da sociedade inacessível a sua pequena nobreza guelfa.

Os interesse de Dante, contudo, não se restringem à literatura. Em 1295, aos trinta anos, passa a tomar parte na política florentina, sempre cheia de paixão, à beira da guerra civil. Encarrega-se de missões diplomáticas importantes e contribui para exaltar as paixões facciosas que agitam Florença.
Em 1300 é eleito membro do Colégio dos Priores. Porém, com a entrada em Florneça de Charles de Valois, que fora enviado pelo papa para pacificar as dissensões entre as duas facções guelfas adversárias - os negros e os brancos -, o partido dos negros triunfa e toma o poder. Dante pertence ao partido dos brancos. Derrotado, acusado de corrupção, improbidade administrativa e oposição ao papa, em 1302 o poeta é obrigado a seguir para o exílio, sob pena de ser condenado à morte caso retorne a Florença.

Entregue a uma vida errante por Forlì, Veneza, Bolonha, Pádua e Lucca, e perseguindo seu itinerário filosófico e poético, entre 1306 e 1309 Dante compõe um tratado filosófico, O Banquete, uma obra inacabada composta de três odes; um ensaio linguístico, De Vulgari Eloquentia, em que defende a língua italiana; e um tratado político, De Monarchia, no qual prega a autonomia do poder temporal em relação ao poder espiritual. Inicia também O Convívio, obra projetada para quinze volumes sobre a importância da cultura, mas da qual escreveu apenas três. Nessa obra o autor exibe erudição enciclopédica, dominando todo o saber de sua época.

A partir de 1315 fixa-se em Verona por dois anos. Em 1316 recebe o perdão do exílio e é convidado pelo governo a retornar a Florença, mas as condições impostas são por demais humilhantes e vexatórias, assemelham-se àquelas reservadas aos criminosos, e Dante rejeita o convite. Em represália a sua negativa, recebe nova condenação, dessa vez extensiva aos filhos.

Em1317 parte de Verona para Ravena, e aí escreve Quaestio de Aqua et Terra, versão pouco alongada de aula ministrada pelo poeta sobre a então apaixonante questão de não poder a água, em lugar algum, superar, em altura, a terra imensa.

As experiências do poeta, entretanto, alimentam sobretudo a inspiração de A Divina Comédia. Obra em forma de poema épico, sem ser tecnicamente uma epopéia, foi escrita entre 1307 e 1321, e nela Dante relata seu desenvolvimento espiritual e concentra a atenção do leitor sobre a vida depois da morte. Composto de numerosos episódios, vistos e testemunhados por Dante durante uma imaginária migração pelos três reinos do outro mundo, a obra transfigura no plano poético não apenas a própria vida do autor mas a de toda a literatura ocidental.

A Divina Comédia seria posteriormente considerada pelos críticos uma das melhores obras da literatura mundial, não apenas por sua poesia magnífica mas também por sua sabedoria e erudição, uma "síntese do pensamento medieval".

Dante se tornaria um grande pensador, poeta, político e um dos escritores mais eruditos de todos os tempos, influenciando autores importantes do século XIX, entre ele lorde Byron e Victor Hugo.
Em se tratando de Dante, passados quase sete séculos de sua obra principal, não se conhece outra que tão bem tenha decantado o amor platônico nem que tenha provocado tamanha paixão e tanta polêmica.

Em 1321, logo após regressar a Ravena de uma viagem a Veneza, aonde fora enviado como embaixador pelo príncipe Guido Novello da Polenta, Dante adoece e morre em 14 de setembro, aos 56 anos. Junto a seu leito de morte encontram-se sua filha Antonia - a freira Beatriz -, seu médico e o príncipe Guido. É sepultado na Igreja de São Francisco. As honrarias que lhe ficara devendo a cidade de Florença lhe são prestadas ainda hoje por toda a humanidade.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sábado, 21 de setembro de 2013

Victor Hugo

Victor Hugo
1802 - Nasce Victor-Marie Hugo, em Besançon, França.
1817 - É premiado pela Academia Francesa de Letras.
1820 - Publica a obra Ode sobre a Morte do Duque de Berny.
1822 - Em junho, publica Odes a Poesias Diversas.
1823 - Publica o seu primeiro romance, Han de Islândia.
1827 - Publica Cromwell, sucesso de público e de crítica.
1829 - É publicada a obra O Último Dia de um Condenado. Escreve a peça de teatro Marion Delorme.
1830 - Estréia no teatro a peça Hernani.
1831 - Escreve a magnífica obra-prima O Corcunda de Notre-Dame. Publica Folhas de Outono.
1835 - A publicação de Cantos do Crepúsculo é um retrato dos sentimentos do autor.
1837 - Conclui As Vozes Interiores.
1841 - Elege-se Membro da Academia Francesa.
1845 - É nomeado par de França.
1851 - Exila-se na Bélgica.
1852 - Instala-se na ilha de Jersey e escreve História de um Crime e Napoleão, o Pequeno.
1853 - Escreve a sátira política Os Castigos.
1855 - Muda-se para Guernesey.
1856 - Publica As Contemplações.
1859 - Conclui os poemas A Legenda dos Séculos.
1862 - Publica Os Miseráveis.
1866 - Os Trabalhadores do Mar (*) conquista os franceses.
1868 - Morre a esposa Adèle Foucher, em 27 de agosto.
1871 - Victor regressa a Paris.
1876 - É eleito senador.
1883 - Morre Juliette Drouet, sua amante e companheira por 50 anos.
1885 - Em 22 de maio falece, aos 83 anos, Victor Hugo. É sepultado em 1. de junho no Panteão, o monumento fúnebre dos heróis nacionais.


(*) Os Trabalhadore do Mar
Fortes contrates e choques de paixões e de situações. Ideais de generosidade fatalmente destinada ao sacrifício. Eis o ambiente em que aparecem as primeira afirmações da civilização mecanizada e o decorrente sentido da luta vitoriosa do homem contra as forças da natureza. Victor Hugo, com Os Trabalhadores do Mar, quis glorificar o trabalho, a vontade, tudo o que torna o homem grande ao trilhar seus caminhos históricos, sociais e sentimentais.


A França despede-se do século XVIII com o mais importante movimento político-social até então ocorrido na Europa: a Revolução Francesa, em 1789, que trouxera em seu bojo os princípios do Estado moderno.

Um olhar sobre o panorama francês do século XIX revela sua riqueza e complexidade: diferentes correntes de pensamento e movimentos literários irrompem por todo o país em meio a diversos movimentos políticos, econômicos e sociais.

A primeira metade do século é influenciada pela luta política e pelas teses sociais. Numerosos escritores aderem às causas democráticas, e surgem obras de contéudo social e humanitário.

Já a segunda metade do século é caracterizada pelo progresso da ciência e por sua influência na vida das pessoas. O positivismo do filósofo Auguste Comte traz à tona um novo conceito de ver a vida.
Entre 1750 e 1870, dois grandes movimentos literários se sucedem, cada um com uma visão de mundo específica: o Romantismo e o Realismo.

É durante essa primeira fase literária que nasce em Besançon, às margens do rio Doubs, Victor-Marie Hugo, em 26 de fevereiro de 1802, terceiro filho de Léopold-Sigisbert Hugo e de Sophie Trébuchet.
Desde muito jovem Victor Hugo já se mostra senhor de suas vontades. Aluno brilhante na escola elementar e no liceu, tem seu talento para a literatura revelado precocemente. Sua recusa em ingressar na Escola Politécnica para se dedicar à carreira literária causa frustração ao pai, que considera inútil a atividade de escritor.

Mas o tempo mostra que Victor Hugo está certo em seguir suas aptidões. Em 1817, aos 15 anos, recebe um prêmio em um concurso de poesia da Academia Francesa.

Finalmente, em 1820, conquista a admiração de familiares ao ter seu talento reconhecido pelo rei Luís XVIII, que passa a lhe pagar uma pensão ao ver qualidade em sua obra Ode sobre a Morte do Duque de Berny.

Os anos seguintes são de total dedicação à literatura e à noiva, Adèle Foucher.

Em 12 de outubro de 1822 o casal sobe ao altar, para desgosto do irmão de Victor Hugo, Eugène, apaixonado por Adèle, que enlouquece e é internado em um hospício, de onde jamais sairia.

Em pouco menos de um ano a vida do casal é tomada pela tristeza. A morte do primeiro filho e o fracasso literário como romancista interrompem o período de estabilidade vivido até então. Han de Islândia não agrada à crítica. Victor Hugo, porém, acostumado às intempéries da carreira, entrega-se de corpo e alma a outra criação. Em 1824 o nascimento da filha Léopoldine o faz sorrir novamente. Em 1826 publica Ode e Baladas e Bug Jargal, romance que começara a escrever na juventude. Com seu malabarismo rítmico e o domínio da arte de escrever sobre temas medievais, é aclamado pelos jovens escritores da época, tornando-se porta-voz da nova escola literária: o Romantismo. Escrito em 1827, o drama Cromwell é sucesso de público e de crítica, e tem em seu prefácio o ponto alto da obra, pois é considerado o manifesto do movimento romântico na literatura francesa.

Aos 26 anos, rodeado de discípulos, Victor Hugo é um homem feliz: além da encantadora Léopoldine, tem já dois meninos. Charles e François-Victor. A conta bancária aumenta, e a família começa a levar uma vida de luxo e elegância. Victor Hugo só lamenta que o pai não possa presenciar sua boa fase, pois o velho Léopold falecera poucos meses antes da chegada do sucesso em sua vida.

O Último Dia de um Condenado, obra vibrante de humanitarismo, na qual condena a pena de morte, é publicada em 1829. Os trabalhos em prosa, no entanto, não o satisfazem, nem a seu público. Retoma então o teatro e escreve Marion Delorme. No ano seguinte a estréia da peça Hernani no teatro divide opiniões: os jovens aplaudem fervorosamente, e os mais velhos vaiam, atiram ovos e tomate no palco. Essa verdadeira batalha contribui para a consagração final de Victor Hugo como líder romântico.

É o ano de 1830. Após o nascimento de uma menina, que recebe o nome da mãe, Adèle recusa-se a ter mais filhos e concede ao marido toda a liberdade para movimentar-se em Paris, desde que a deixe em paz. Essa grande decepção faz com que Victor Hugo se entregue à libertinagem, ligando-se indistintamente a atrizes, aristocratas e humildes costureiras. Mas ele jamais se separaria de Adèle.

Em 1831 escreve seu grande romance histórico: O Corcunda de Notre-Dame. Apesar do sucesso alcançado, Victor Hugo volta a dedicar-se ao teatro e à poesia, gênero em que se torna um dos maiores representantes franceses.

Nesse mesmo ano publica ainda Folhas de Outono, coletânea de versos íntimos em que expressa suas inquietações filosóficas.

O ano de 1835 é particularmente difícil para Victor Hugo, e é quando escreve Cantos do Crepúsculo. Nessa magnífica obra está retratada toda a dor por que passa: sua fé religiosa está abalada, e sua crença no amor, morta. Mas há um fio de esperança nas entrelinhas: ainda espera pela felicidade.
Em março de 1837 recebe a notícia da morte do irmão Eugène. É nessa época que conclui As Vozes Interiores.

Em 1841 ingressa na Academia Francesa, após quatro derrotas humilhantes. Assim, as portas da aristocracia se abem para ele, sugerindo-lhe ascensão  política. Em 1845 é nomeado para integrar a Câmara dos Pares. Em 1848, após a revolução que depõe Luís Filipe e proclama a república, Victor Hugo é eleito deputado em Paris. No entanto, sua radical oposição a Napoleão Bonaparte leva-o a buscar asilo político na Bélgica, após o golpe de Estado de 1851. Em Bruxelas escreve História de um Crime. No memso ano, publica Napoleão, o Pequeno.

Como a vida na capital é dispendiosa, Victor Hugo transfere-se para a ilha de Jersey em agosto de 1852. Ali, adquire uma belíssima casa e chama para junto de si os filhos, a esposa, Adèle, e Juliette Drouet, a atriz que, em 1833, se tornara a mais fiel de suas amantes.

Passa os dia praticando equitação ao longo das prais, ouvindo sua filha Adele ao piano, passeando com os cães e concluindo Os Castigos (1853), sua mais violenta sátira política.

Os hábitos aristocráticos de Victor Hugo não agradam aos outros desterrados franceses que vivem modestamente na ilha. Por outro lado, sua adesão a práticas de espiritismo não é vista com bons olhos pelos vizinhos e conhecidos. As autoridades, que tampouco aprovam as atitudes de Victor Hugo, valem-se dessa antipatia geral para forçá-lo a retirar-se.

Num chuvoso dia de outubro de 1855 o escritor desembarca na ilha de Guernesey. Junto ao mar, tendo ao longe a visão do litoral francês, viveria ali até 1870.

Do refúgio envia aos editores As Contemplações (1856). Nessa obra chora a trágica morte por afogamento da filha Léopoldine, em 1843, lastima atos de Napoleão e declara seu amor à humanidade, especialmente aos humildes e sofredores.

De longe, Napoleão o observa, e, julgando que ele superara os ressentimentos, oferece-lhe anistia em 1859. Victor Hugo rejeita o perdão e prefere permanecer isolado, concluindo os poemas de A Legenda dos Séculos (1859).

Vive tranquilamente em Guernesey, Juliette mora ao lado, Adèle não se importa. Conhece então mais um triunfo com Os Miseráveis (1862), romance épico em cuja elaboração gastara dezesseis anos.
Os Trabalhadores do Mar (1866), uma triste história de amor aclamada por muitos como sua obra-prima em prosa, é escrita em 1866. A desventura de Gilliar - protagonista do romance - e a exaltação que o autor faz do trabalho, da dedicação e da perseverança comovem o povo francês.

Parece chegado o momento de deixar o exílio. E efetivamente Victor Hugo parte. Porém não via à França, e sim à Bélgica, conhecer se primeiro neto, filho de Charles. Treze meses (1868) depois a criança falece, vítima de meningite. Logo outro menino nasce, em agosto de 1868, dias antes da morte de Adèle, esposa do poeta.

Chegado o outono, Victor Hugo torna à solidão de Guernesey. Mas em 1870, ao saber da queda de Napoleão e da restauração da república da França, regressa a Paris e envolve-se novamente em causas políticas. Reconquistada a paz da nação, poucos amigos lhe restam, embora ainda conte com a simpatia geral do povo e a veneração de jovens literatos. Depois de perder os filhos Charles e François num espaço de dois anos e de a filha Adèle ter enlouquecido e ser internada em um hospício, resta-lhe a companhia do casal de netos e da fiel companheira Juliette.

A morte de Juliette Drouet, em 1883, leva-lhe a última companhia verdadeira. Sobram-lhe apenas os netos - crianças demais para compreendê-lo - e os admiradores - embevecidos demais para colocarem-se a seu lado. Nesse isolamento, morre em 22 de maio de 1885 aos 83 anos. Durante nove dias o povo parisiense vela-lhe o corpo. Em 1. de junho, ao nascer do dia, dois milhões de pessoas acompanham o cortejo, na maior concentração pública que a França jamais prestou a qualquer de seus poetas. Seu enterro no Panteão, o monumento fúnebre dos heróis nacionais, fez justiça ao talento de um dos maiores escritores do país.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes
1547 - Nasce Miguel de Cervantes Saavedra, em Alcalá de Henares.
1567 - Escreve seu primeiro poema, em homenagem a Isabel de Valois, esposa de Filipe II, rei da Espanha.
1567 - Viaja pela Itália como camareiro do cardeal Júlio de Acquaviva.
1571 - Na Batalha de Lepanto, como soldado, Cervantes é ferido no peito e na não esquerda, que fica inutilizada.
1573 - Aquartelado em Nápoles, atua na tomada de Túnis, no norte da África, sob o comando de dom João da Áustria.
1575 - Em setembro, parte para a Espanha, a bordo da galera El Sol. É aprisionado pelos turcos.
1575-1580 - Cativeiro na Argélia.
1580 - É resgatado pela missão católica de frei João Gil.
1581 - Em Madri, começa a escrever Galatéia.
1584 - Casa-se com Catalina Palacios.
1585 - Serve como comissário real da Invencível Armada.
1594 - Trabalha como coletor de impostos.
1597 - Inicia Dom Quixote.
1604 - Obtém licença para imprimir a primeira parte de Dom Quixote.
1605 - Publica a primeira parte de Dom Quixote, em Madri.
1613 - Edita Novelas Exemplares.
1614- Publica Viagem ao Parnaso.
1615 - Publicadas a segunda parte de Dom Quixote e Oito Comédias e Oito Intermédios.
1616 - Morre em Madri, pobre e esquecido, em 23 de abril.

A Idade Moderna está se iniciando. O mundo passa por importantes transformações no século XVI. Os grandes descobrimentos e o comércio com as colônias européias do Novo Mundo contribuem com a revolução econômica, primeira etapa do capitalismo moderno. A Europa está em efervescência: começam a se formar os grandes Estados modernos; a Igreja passa pela Reforma e pela Contra-Reforma; o movimento artístico, intelectual e literário é mais intenso do que nunca.

A Espanha, sob o reinado de Carlos V - filho de Filipe I, o Belo Carlos I herdou o trono da Espanha em 1516 e passou a ser chamado de Carlos V ao tornar-se imperador do Sacro Império Romano-Germânico, em 1519 - está envolvida em guerras contra os mouros no norte da África.

Nesse cenário nasce em Alcalá de Henares, Castilha, e 1547, Miguel de Cervantes, filho de um modesto barbeiro-cirurgião e de uma plebéia, que, em busca de melhores condições de vida, vagueiam pelo interior da Espanha, de cidade em cidade.

Cervantes, quarto filho dos sete do casal, cresce sem cuidados e sem conforto. Sua pouca educação formal lhe é ministrada por volta dos vinte anos, pelo mestre Juan López de Hoyos, um humanista espanhol. É dessa época seu primeiro trabalho literário: um soneto em homenagem a Isabel de Valois, esposa de Felipe II.

Cervantes passa a assistir às curtas representações teatrais - os intermédios - do também espanhol Lope de Rueda, de quem mais tarde seguiria o gênero.

O contato com estudantes e aventureiros desperta em Cervantes o desejo de conhecer outros povos e países, e ele então aceita o convite de um nobre cardeal para servir em sua casa, na Itália. Esse país assiste ao crepúsculo do Renascimento, movimento artístico revolucionário que teve como expoente Rafael, Bramante, Michelangelo, Leonardo da Vinci, entre outros, e que produziram estupendas obras-primas.

Aos 24 anos junta-se ao exército espanhol e luta com bravura contra os trucos na Batalha de Lepanto, na costa oeste da Grécia. As forças cristãs da Santa Liga saem vitoriosas, mas Cervantes é seriamente ferido e perde o movimento da mão esquerda. Após um período de recuperação e depois de outra expedição militar em 1575 ao norte da África é preso por corsários em seu regresso à Espanha. Passa cinco anos de angústia e sofrimento no cativeiro em Argel. Só é libertado quando uma alta quantia - recolhida de familiares, alguns fidalgos e padres compadecidos - paga o resgate imposto pelos turcos.

De volta a sua cidade natal, dele ninguém mais se lembra: nem medalhas, nem a prometida promoção a capitão, apenas dívidas. Engaja-se como soldado raso nas tropas de Filipe II para sobreviver, mas pouco tempo depois, desiludido com a carreira militar e sem dinheiro, depõe a espada.

Em 1584 Cervantes casa-se com Catalina uma mulher quase vinte anos mais nova, porém faltam-lhe o gosto pelas coisas domésticas e o apego à família e ao lar. Catalina não aprova seu espírito aventureiro nem tolera a enteada, ilegítima, que ele levara consigo. Um ano depois, com a traição da mulher, advém o naufrágio do casamento.

Nada lhe resta senão partir para Madri, onde desempenha modestíssimos trabalhos, como, entre outros, o de comissário de provisões, em que recolhe trigo e azeite para a campanha da Invencível Armada, a fabulosa esquadra criada por Filipe II para conquistar a Inglaterra. Cansa-se também dessa vida, e tudo o que quer é silêncio para escrever, concluir Galatéia, seu primeiro livro, iniciado ainda no período de cativeiro. Publicada em 1585, essa obra já demonstra seu talento, mas não lhe traz compensação financeira. Com afinco, até 1587 escreve cerca de trinta peças de teatro.

Em 1593, com a destruição da Invencível Armanda, perde o cargo de comissário. Mas, enfim, precisa viver, e passa então a exercer a função de coletor de impostos. Homem livre, dado a andanças e pouco afeito a números, é injustamente  acusado de desvios de verbas. Até que se prove sua inocência, passa um período encarcerado em Sevilha, onde supõe-se, começa a escrever a primeira parte de Dom Quixote, o Engenhoso Fidalgo de la Mancha.

Em 1605, aos 57 anos, o guerreiro e poeta Miguel de Cervantes publica a primeira parte de Dom Quixote, e com ela atinge a tão esperada consagração literária. O êxito é imediato. Conhece então, por breve tempo, um pouco das homenagens que lhe seriam prestadas ao longo dos séculos. Em seu primeiro ano de publicação, a obra tem seis edições, e não tarda a ser traduzida para o inglês e para o francês. A fama de Quixote, símbolo do espírito idealista e aventureiro do ser humano, leva o nome de Cervantes além-fronteira.

Em 1613, com 66 ano de idade, publica Novelas Exemplares, uma coleção de contos curtos, e um ano mais tarde, um poema satírico, Viagem ao Parnaso. Tenta ainda compor versos, mas acaba reconhecendo não ser essa sua maior habilidade. Satirizando preconceitos e algumas profissões, dedica-se ao teatro, deixa de lado a poesia.

Já velho e doente, em 1614 Cervantes participa de um concurso de poesias. Obtém o primeiro lugar mas isso é nada para um gênio com seu talento. A segunda parte de Dom Quixote é publicada em 1615, completando sua novela de cavalaria, obra máxima do gênero que predominou na Idade Média.
Sem amigos, vive só, pobre, doente e esquecido. Incompreendido, o mundo já não lhe interessa. Em silêncio, recolhe-se a um convento franciscano E, como convém a um franciscano, um túmulo despojado, sem lápide, serve-lhe de última morada, em abril de 1616.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Daniel Defoe

Daniel Defoe
1660 - Provavelmente no dia 30 de setembro, nasce em Londres Daniel Foe, filho do James e Mary Foe.
1665 - A "Grande Peste" mata mais de 70 mil pessoas em Londres.
1670 - Daniel fica órfão de mãe.
1674 - Daniel é matriculado na academia do reverendo Charles Morton, em Newington Green.
1683 - Estabelece-se como negociante especializado no comércio de meias.
1684 - Casa-se com Mary Tuffley.
1685 - Estoura em Londres a Rebelião de Monnmouth, Daniel Foe junta-se ao movimento.
1688 - Guilherme III de Orange sitia Londres e força a fuga de Jaime II. Daniel estabelece-se como comerciante.
1689 - O Parlamento oferece a coroa a Guilherme III. Eclode a guerra entre Inglaterra e França.
1697 - O comerciante torna-se escritor: redige Ensaios sobre Projetos.
1701 - Publica, em 1701, O Verdadeiro Inglês Nato e as Considerações sobre a Sucessão da Coroa da Inglaterra. Elabora a famosa Petição da Legião.
1702 - Publica o mais famoso de seus panfletos: O Caminho mais Rápido com os Dissidentes.
1703 - A London Gazette anuncia a oferta de uma recompensa pela captura de Defoe. Em 20 de maio é capturado e enviado para a prisão de Newgate. Compõe o audacioso Hino ao Pelourinho.
1704 - Daniel torna-se colaborador do líder tory e começa a redigir uma revista semanal. É libertado em novembro.
1714 - Sem emprego e endividado, começa a escrever Robison Crusoé.
1719 - Publica Robson Crusoé, As Últimas Aventuras de Robison Crusoé e O Rei dos Piratas.
1720 - Publica Histórias da Vida e Aventuras do Sr. Duncan Campbell, Memórias de um Cavaleiro e Vida, Aventuras e Piratarias do Famoso Capitão Singleton.
1722 - Publica Moll Flanders, O Coronel Jack, Os Antecedentes da Peste e o Diário do Ano da Peste.
1724 - Publica Roxana.
1730 - Desaparece misteriosamente.
1731 - Morre em abril, em Ropemaker´s Alley.

"Procura-se um homem de estatura mediana, de aproximadamente quarenta anos, pele morena, cabelos castanho-escuros, que usa peruca, possui nariz em forma de gancho, queixo pontiagudo, olhos cinzentos e um grande sinal perto da boca. A quem informar sobre seu paradeiro, oferece-se uma recompensa de cinquenta libras."

(*) Moll Flanders
Obra realista inspirada no romance picaresco espanhol, Moll Flanders recria o mundo pitoresco dos aventureiros e prostitutas do início do século XVIII. Com inigualável mestria e riqueza de detalhes, Daniel Defoe conta a história de uma mulher que, tendo nascido na prisão, termina sua vida rica e respeitada.


O anúncio, publicado na London Gazette de 10 de janeiro de 1703, não surpreende ninguém. O que provoca surpresa e revolta é a identidade do procurado: Daniel Defoe. Para o governo, um panfletário perigoso; para o povo, um herói. Ao crime de dizer o que pensa, ele acrescenta o fato de ser presbiteriano, e portanto um dissidente, como todos os protestantes ingleses que não adotam o anglicanismo, religião oficial. A situação dos dissidentes na Inglaterra está longe de ser ideal, porém em algumas épocas chegaria a ser quase insustentável. Conhece um período de relativa tranquilidade no reinado de Carlos II, que, em 1660, restaura a monarquia inglesa. No mesmo ano de sua coroação, o soberano assina a Declaração de Breda, garantindo anistia geral para os delitos religiosos e proclamando a liberdade de culto.

O nascimento de Defoe coincide com a abertura desse período de calma e otimismo para os dissidentes. Filo do presbiteriano James Foe, nasce em Londres, provavelmente, de acordo com biógrafos, em 30 de setembro de 1660.

O pai de Daniel dedica-se à fabricação de velas de sebo, ofício que lhe garante uma situação modesta mas respeitável na paróquia londrina de Cripplegate, onde mora com a mulher e dois filhos.

Daniel está com cinco anos quando sobrevém a Grande Peste, que ceifa a vida de 70 mil habitantes de Londres. As rus enchem-se de cadáveres, o luto penetra em todas as famílias. Nem bem a dor havia desaparecido dos semblantes, uma nova calamidade se abate sobre a capital: o Grande Incêndio, que reduz a cinzas a maior parte da cidade. Milagrosamente, a vivenda dos Foe escapa ao fogo, mas o terrível espetáculo de Londres em chamas jamais se apagaria da memória de Daniel.

Passadas as catástrofes, Daniel retoma a calam de sua infância, embebida em leituras bíblicas, sermões dominicais, ensinamentos austeros. Pode conceder-se o luxo de praticar a música, ler poemas e estudar. Seu pai progredira o bastante para trocar o ofício de fabricante de velas pelo de açougueiro, mais respeitável e lucrativo. Visa garantir fundos suficientes para fazer o filho um bom ministro presbiteriano. Com tal propósito, confia-o aos cuidados do reverendo James Fisher, em cuja escola o menino realiza os estudos primários. Em 1674, como as universidades estivessem fechadas para os dissidentes, matricula-o na prestigiada academia do reverendo Charles Morton, em Newington Green.
A perspectiva de tornar-se um ministro presbiteriano não entusiasma o jovem Foe. Abandonando os projetos paternos, em 1683 estabelece-se como negociante. Mas seu primeiro grande negócio é o casamento, um ano mais tarde, com a filha de um rico mercador. Mary Tuffley, a escolhida, tinha então vinte anos e um dote bastante considerável.

A atmosfera política torna-se a cada dia mais tensa. O problema da sucessão ao trono preocupa a todos. Muitos apóiam Jaime II, irmão e herdeiro do soberano reinante. No Parlamento, o assunto dá origem a dois partidos políticos: os tories, favoráveis ao herdeiro, e os whigs, conrários ao futuro monarca. Quando Carlos II morre, em 1685, estoura em Londres a Rebelião de Monmouth, que visa a ascensão de Jaime II.

Daniel Foe junta-se ao movimento. A revolta francesa, e Jaime II torna-se rei da Inglaterra, iniciando vasta e sangrenta repressão aos puritanos.

Os dissidentes, dentre os quais Daniel Foe, resolvem pedir ajuda ao príncipe holandês Guilherme III de Orange, genro do caprichoso monarca britânico. Em 1688, apoiado por vários generais ingleses, Guilherme sitia Londres e força a fuga de Jaime II.

Interpretando a atitude do rei como uma abdicação, o Parlamento oferece, em 1689, a coroa ao príncipe estrangeiro.

A tranquilidade parece restabelecida. Inflamado panfletário de Guilherme III de Orange, Daniel Foe prospera rapidamente. Retoma suas viagens pela ilha britânica em busca de clientes, adquire uma casa em Londres, um loja em Cornhill e um chalé no campo para as férias de verão e os fins de semana. É provavelmente nessa época que adota o nome Defoe, uma transcrição mais aristocrástica da assinatura D.Foe. A paz e a prosperidade têm, no entanto, curta duração. Ainda nesse ano eclode a guerra entre a Inglaterra e a França. Em função do conflito, o comércio sofre sensível baixa. Afetado pela depressão econômica geral, Daniel vai à falência, deixando atrás de si uma vultosa dívida.

A experiência convida à reflexão. Enquanto procura meios de quitar seus débitos, o comerciante faz-se escritor e redige, em 1697, Ensaios sobre Projetos.

Em 1701 Defoe publica, em defesa de Guilherme III, O Verdadeiro Inglês Nato. Poucos meses mais tarde edita as Considerações sobre a Sucessão da Coroa da Inglaterra, em que novamente defende a legitimidade de Guilherme III e a soberania da vontade popular.

Ainda em 1701, toma corpo no Parlamento uma inflamada polêmica sobre a preparação do país para a guerra contra a França. Os Whigs reclamam providências urgentes, enquanto os tories, conservadores e oposicionistas procuram retardar os preparativos bélicos, na esperança de que um ataque repentino dos franceses derrube o monarca britânico. Defoe segue com interesse os debates,porém só se pronuncia quando cinco cavalheiros de Kent apresentam aos tories uma petição de defesa e são presos. O escritor rapidamente elabora a famosa Petição da Legião, endereçada ao líder tory Robert Harley. Graças a isso, os prisioneiros são libertados, e Defoe é festejado pelos cidadãos de Londres como um herói.

Com a morte de Guilherme de Orange e ascensão de sua cunhada Ana, filha de Jaime II, inicia-se um período negro para os dissidentes. Aos ataques contra seu grupo Defoe responde, em 1702, com o mais famoso de seus panfleto: O Caminho mais Rápido com o Dissidentes. Se a Petição já lhe havia granjeado inimizades entre os tories, esse último escrito é acusado de "libelo sedicioso", e o autor, perseguido pela Justiça como temível desordeiro. É quando, em 1703, a London Gazette anuncia a oferta de uma recompensa por sua captura.

Defoe torna-se um fugitivo. De diversos esconderijos envia petições a Nottingham, secretário de Estado, solicitando uma sentença um pouco mais tolerável. Mas as autoridades mostram-se inflexíveis. Em 20 de maio de 1703, descoberto na casa de um tecelão, é preso e em seguida sentenciado a pagar uma elevada multa, ficar por três vezes no pelourinho e permanecer no cárcere por tempo indeterminado. Enquanto aguarda a execução da pena, compões o audacioso Hino ao Pelourinho, que, tornado público, transforma a punição em triunfo. Da prisão de Newgate, para onde é levado, Defoe acompanha atentamente a vida política, aguardando uma ocasião de "reabilitar-se". O momento oportuno parece chegar no início do ano de 1704, quando Nottigham, combatido por Robert Harley, começa a cair em descrédito junto à rainha. Defoe escreve ao líder tory, oferecendo-lhe seus préstimos de redator. Conhecendo de longa data as qualidades do escritor como panfletário, o deputado propõe-lhe que redija uma revista semanal, que, protegida pelo rótulo de "independente", defenderia os pontos de vista de Harley e de seu grupo. Defoe começa e elaborar o primeiro número da Review: nesse trabalho consiste sua única esperança de recuperar a liberdade.

Em maio de 1704 Nottingham é substituído por Robert Harley como secretário de Estado, mas Daniel Defoe só seria libertado em novembro. Ao sair do cárcere o escritor cai nas garras dos credores, enraivecidos com o atraso dos pagamentos provocado pela prisão. Não lhe resta alternativa: oou volta às grades, dessa vez por dívidas, ou continua servindo a Harley com sua pena. A Review passa a sair duas e logo três vezes por semana. Juntamente com o Observador, de tendência whig, e a Rehearsal, do partido tory, a Review de Defoe exerce notável influência sobre a vida cultural e política da Inglaterra.

Findo o reinado de Ana em 1714, os escritores perdem a posição privilegiada de propagandistas, e Defoe, sem emprego e endividado, tem de procurar ocupação em outro setor. Resolve lançar-se na ficção e escreve, sem muito entusiasmo, o romance Robinson Crusoé publicado em 1719.

A crítica recebe a obra com certa ironia. Os intelectuais não dão importância ao livro, mas o sucesso de público é extraordinário.

Ainda em 1719 o romancista e seus editores procuram repetir o êxito da estréia com As Últimas Aventuras de Robison Crusoé e O Rei dos Piratas. No ano seguinte aparecem História da Vida e Aventuras do Sr. Duncan Campbell, Memórias de um Cavaleiro e Vida, Aventuras e Piratarias do Famoso Capitão Singleton. Mas o grande sucesso de público só seria igualado por Moll Flanders, ou, no título completo: Venturas e Desventuras da Famosa Moll Flanders e Cia.

O ano de 1722 é o mais fértil de sua carreira: além de Moll Flanders, publica O Coronel Jack, Os Antecedentes da Peste e o Diário do Ano da Peste.

Para muitos críticos, Defoe é o verdadeiro criador do romance inglês, o primeiro autor britânico a elaborar relatos dinâmicos, extraídos do real ou do plausível. Seus heróis são criaturas modeladas no povo, desprovidas dos atributos semidivinos que caracterizam os heróis cavaleirescos.

A partir de 1724, quando publica Roxana, seu último romance, Defoe adota uma forma documentária, procurando transformar em leitura agradável as anotações que fizera durante quarenta anos de viagens através da Inglaterra e da Escócia. A primeira obra publicada sobre esse tema é Viagem através de Toda a Ilha da Grã-Bretanha (1724-1726), em três volumes. O segundo livro, O Perfeito Homem de Negócios Inglês (1725-1727).

Aos setenta anos Daniel Defoe parece finalmente haver encontrado a tranquilidade. Escritor de renome, pai de oito filhos, ele conseguira sobreviver aos muitos problemas financeiros e às duras perseguições políticas. No verão de 1730, estranhamente, desaparece. Em setembro do ano anterior havia escrito a seu editor dizendo-se muito doente. Depois silenciara. Para tentar esclarecer esse misterioso desaparecimento, existe apenas uma carta, datada de 12 de agosto e endereçada ao genro Henry Baker. No topo da página, uma indicação: "a aproximadamente 2 milhas de Greenwich, Kent"; ao final da carta, a assinatura: "seu infeliz D.F.". Ao destinatário, Defoe queixa-se de ter sido abandonado por todos. Não se tem idéia da razão desse "exílio" do escritor. A morte não tarda a encontrá-lo. Chega em abril de 1731, em Ropemaker´s Alley, e encontra-o tão solitário como o seu Robison Crusoé.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Franz Kafka

Franz Kafka


1883 - Em 3 de julho nasce Franz Kafka, em Praga, cidade da monarquia austro-húngara.
1901 - Conclui o curso secundário e ingressa na Universidade Alemã de Praga.
1904 - Conhece Max Brod.
1905 - Escreve Descrições de uma Luta.
1906 - Forma-se em Direito.
1907 - Começa a trabalhar me uma Companhia de seguros.
1908 - Passa a trabalhar em uma companhia de seguros de acidentes do trabalho.
1911 - Viaja para França, Itália e Suíça com o amigo Max Brod.
1912 - Conhece Felice Bauer na casa de Max. Escreve O Julgamento, A Metamorfose (*) e os sete primeiros capítulos de América.
1913 - Publica Meditações e O Foguista.
1914 - Fica noivo de Felice Bauer, mas rompe o noivado poucos meses depois.
Começa a escreve O Processo. Em outubro escreve os contos Na Colônia Penal e Diante da Lei.
1915 - Publicação de A Metamorfose. Franz Kafka recebe o prêmio Theodor Fontane.
1917 - Franz reata o noivado com Felice. Em agosto descobre que está com tuberculose e afasta-se do trabalho. Pouco antes do final do ano, rompe mais uma vez o noivado com Felice.
1919 - Conhece Julie Whoryzek e firma noivado com ela. Escreve Uma Carta ao Pai. Dois dias antes de casar, rompe o noivado.
1920 - Início da troca de cartas com Milena Jesenská, que mora em Viena. Escreve diversos contos, entre os quais Poseidon, Noites e Sobre a Questão das Leis.
1921 - Escreve Primeiro Sofrimento.
1922 - Escreve O Castelo, Um Artista da Fome e Pesquisas de um Cão.
1923 - Conhece a judia berlinense Dora Diamant. Muda-se para Berlim, onde divide um apartamento com Dora. Escreve  Uma Pequena Mulher e A Construção.
1924 - Escreve Josefine, a Cantora. Muito doente, retorna para a casa dos pais, em Praga. É internado num sanatório perto de Viena, na Áustria. Em 11 de maio recebe pela última vez a visita do amigo Max Brod. Morre em 3 de junho, antes de fazer 41 anos. Em 10 de junho é sepultado no Cemitério Israelita de Praga.
1925 - Publicação de O Processo.


(*) A Metamorfose
Escrita em apenas vinte dias, A Metamorfose é a mais conhecida das obras de Kafka. O que teria
acontecido ao caixeiro-viajante que certo dia acorda transformado em um gigantesco inseto? Kafka nos introduz num estranho e enigmático mundo e nos faz refletir sobre o verdadeiro sentido da vida. O imaginário e a linguagem são ambíguos, e as situações podem adquirir múltiplas interpretações. Desconhecido em vida, Kafka tornou-se um dos mais importantes escritores do século XX.



Na segunda metade do século XIX, Áustria e Hungria formam dois Estado siguais, cada um com seu sistema político próprio e sua respectiva capital. Em comum têm o mesmo imperador: Francisco José. Na monarquia austro-húngara vivem numerosas minorias étnicas, entre as quais os tchecos. Extremistas, reivindicam ampla autonomia e provocam frequentes incidentes políticos e desordens de rua, sobretudo em Praga.

É nessa cidade que, em 3 de julho de 1883, nasce Franz Kafka, primeiro filho de Hermann Kafka e Julie Lowy, um casal judeu de classe média em ascensão. Hermann é um próspero comerciante, e Julie pertence a uma família abastada. Dois anos depois nasce o irmão Georg, que morre no ano seguinte. Aos quatro anos ele ganha outro irmão, Heinrich, que morre antes de completar um ano. A primeira irmã de Franz, Gabriele, nasce quando ele está com seis anos. Nasceriam ainda mais duas irmãs: Valerie, em 1890, e Ottilie (Ottla) em 1892. O jovem Franz é quieto e reservado, mas gosta de escrever peças para as irmãs representarem. Além disso, lê livros compulsivamente.

A maioria das pessoas em Praga fala tcheco, mas a língua da elite é o alemão. O desejo paterno de ascensão social impõe que Franz estude em colégios alemães, e não em tchecos. Na escola ele aprende também grego e latim.

Sua formação religiosa limita-se praticamente à cerimônia do bar mitzvah e a frequentar a sinagoga quatro vezes por ano com o pai, o que não é suficiente para torná-lo um judeu otodoxo.

Em 1901, aos dezoito anos, Franz concluiu o curso secundário no Liceu Alemão e ingressa na universidade alemã Charles Ferdinand, onde a princípio decide estudar Química para acompanhar um amigo. Duas semanas depois, transfere-se para o curso de Direito. No semestre seguinte, tenta Literatura Alemã, mas não se adapta e volta para o Direito. É nesse curso, em 1904, que conhece um estudante, Max Brod, escritor de certo prestígio. Ele e Franz seriam amigos pelo resto da vida.

Desde 1898 Franz tentava escrever, mas, insatisfeito com os resultados destrói suas primeiras obras. A primeira história completa, Descrição de uma Luta, é de 1905. Em 1906 Franz conclui o curso de Direito.

Em 1907 passa a trabalhar em uma companhia de seguros, mas logo pede demissão, por considerar a carga horária abusiva e as condições de trabalho intoleráveis. No ano seguinte começa a trabalhar numa companhia de seguros de acidentes do trabalho, onde permaneceria por quase toda a vida. O novo emprego, embora não fosse exatamente gratificante, era de meio período, o que lhe dava tempo para pensar e escrever.

Em 1911 Franz viaja à França, Itália e Suíça com Max Brod e passa a se interessar por teatro iídiche (idioma familiar dos judeus na Europa).

Durante a juventude e a idade adulta, Franz é bastante namorador, mas não se envolve profundamente com nenhuma mulher, sempre rompe os relacionamentos. Aparentemente, para ele, assim como para a maioria das pessoas, na época as mulheres ou são muito comportadas ou não são de boa família. Portanto, um relacionamento maduro com uma mulher que ele respeitasse e que ele gostasse era algo impossível, como logo descobriria Felice Bauer.

Na noite de 13 de agosto de 1912, Franz conhece Felice Bauer e apaixona-se por ela. Nessa época ele mora em Berlim, na casa de Max, e passa a escrever longas cartas a Felice, falando principalmente de seus conflitos internos. E é nesse primeiro arroubo de paixão que ele escreve O Julgamento, a ela dedicado.

No final de 191, ao mesmo tempo que trabalha em América, escreve aquela que se tornaria a sua obra mais famosa, A Metamorfose - em que o personagem Gregor Samsa, certa manhã, acorda transformado em um gigantesco inseto.

No ano seguinte, convencido por Max, Franz publica Meditações, uma coletânea de contos, e O Foguista, também um conto e primeiro capítulo do livro América.

Com a saúde frágil, aos trinta anos Franz é internado em um sanatório em Riva, na Itália, para se recuperar. Aí conhece Gerti Wasner, uma jovem suíça de dezoito anos, e nasce entre ambos, uma forte afeição. Franz passa o empo escrevendo contos de fadas, que lê para ela durante o café da manhã. O relacionamento dura apenas dez dias, mas parece ter exercido forte influência em Franz.
Enquanto isso o namoro por correspondência com Felice continua. Franz escreve-lhe todos os dias, sempre apontando suas próprias fraquezas, até que a pede em casamento, por carta, em 1913 e ela aceita, embora na mesma carta Franz discorra sobre os motivos pelos quais considera que não seria um bom marido para ela.

Grere Bloch, uma amiga de Felice, passa a escrever para Franz, atuando como intermediária entre os dois. Trocam tantas cartas que nasce uma sólida amizade entre eles.

Mas parece que Grete queria mais que isso. E talvez tenha conseguido. Em carta escrita a uma amiga 25 anos depois, em 1940, Grete conta que teve um filho de Franz em 1914 e que ele teria morrido em 1921, com sete anos. Não há evidência sobre o caso, e Grete alega que Franz nunca soube da existência da criança, o que é pouco provável, já que continuaram em contato por alguns anos depois disso. Além do mais, com seus bloqueios e neuroses, Kafka não teria atido um caso com uma moça respeitável. Essa carta foi incluída por Max Brod na segunda edição de sua biografia de Franz Kafka.

Franz rompe o noivado com Felice em 1914, mas continuam a corresponder-se. Nesse mesmo ano começa a escrever O Processo. Ainda em 1914 escreve Na Colônia Penal e Diante da Lei. A Metamorfose é publicada em 1915, pelo editor Kurt Wolff Verlag, que acredita no sucesso da obra, embora Kafka tenha permanecido quase anônimo. Seu prestígio aumenta razoavelmente quando ele ganha o prêmio Theodor Fontane mais oitocentos marcos.

Em 1917, depois de passar uma semana com Felice em Marienbad e de viajar com ela para Budapeste, Franz pede-a novamente em casamento.  Um pouco farta das inseguranças emocionais de Franz, Felice decide terminar de vez o relacionamento.

Nesse período ele já começa a apresentar os primeiros sintomas de tuberculose. Vai então morar com a sua irmã Ottla em Zurau, a noroeste de Praga, região sossegada e salutar que muito o agrada. Aí escreve uma coletânea de provérbios e pensamentos. Passados os oito meses mais felizes de sua vida, Franz retoma a Praga.

Apesar da saúde fraca, novamente Franz fica noivo em 1919, dessa vez de Julie Whoryzek, filha do zelador de uma sinagoga, o que deixa seu pai, o velho Hermann, arrasado e decidido a vender se ponto de comércio e sair do país para evitar a vergonha que tal união causaria ao nome da família. Essa é uma das razões que levam Franz a escrever Uma Carta ao Pai, nesse mesmo ano. Franz entrega-a à mãe, para que a faça chegar ao pai, mas depois de lê-la ela acha melhor não deixar que o marido a leia. Franz chega a escolher um apartamento para ele e Julie, mas dois dias antes do casamento rompe o noivado. Uma nova pessoa entrara em sua vida.

Milena Josenská-Pollak é casada com um amigo de Franz, Ernst Pollak. inteligente e carismática, ela reconhece o talento e as qualidades especiais de Franz. Começam a se corresponder em 1920, e encontram-se apenas ocasionalmente. Milena não é Judia, mas tem parentes judeus. Segundo ela, o marido a trai "cem vezes por ano", e ela encontra conforto em Franz, depois de separar-se. Se foram ou não amantes, não se sabe.

Em 1922, num período de nove meses Kafka escreve O Castelo. A obra mais complexa e talvez mais estranha de Kafka não chega a ser concluída. Aparentemente, Milena é a musa inspiradora da personagem Frieda, e no livro Kafka menciona um café que ela e marido costumavam frequentar em Viena.

Em 1923 Milena e Pollak se reconciliam. Franz rompe o relacionamento e propõe que não mais se vejam nem se correspondam. No verão desse mesmo ano, interessado no judaísmo e no sionismo, Franz começa a estudar hebraico. Depois de trocar duas ou três vezes de professor, chega a Dora Diamant (ou Dymant), uma jovem polonesa, judia ortodoxa, que lê fluentemente o hebraico. Conhecem-se na cidade de Graal-Muritz, no litoral alemão do mar Báltico, e apaixonam-se. Em setembro Franz sai da casa dos pais, onde sempre havia morado, e muda-se para Berlim com Dora.
Embora morem num apartamento de dois cômodos numa pensão, tudo indica que sejam mais amigos do que amantes. Apesar da falta de dinheiro, tão escasso que mal dá para pagar a conta de luz, ele parece mais feliz do que nunca. É nesse período que escreve Uma Pequena Mulher e Josephine, a Cantora, ou O Povo dos Ratos.

No início de 1924 a saúde de Franz piora sensivelmente. É internado em um sanatório, depois em outro, e emagrece muito. Em abril é transferido para a clínica próxima a Viena. Pede Dora em casamento, embora esteja praticamente definhando, mas o pai dela reprova o pedido. Franz parece se contentar com a presença de Dora ao lado de seu leito  com a constante dedicação e carinho.

Em maio recebe a visita de Max Brod e concede-lhe autorização para publicar Um Artista da Fome, com algumas outras histórias. Reforça ao amigo o pedido para que ele queime todas as suas obras, por considerá-las insignificantes das obras originalmente idealizadas.

Em 3 de junho de 1924 Franz Kafka morre, antes de completar 41 anos. Dora fica inconsolável. O sepultamento é realizado uma semana depois, no Cemitério Israelita de Praga.

Na década de 50 a editora judaica Shocken Books, com sede na Alemanha, tenta compara de Felice Bauer as cartas que Franz lhe escrevera, mas ela recusa. Depois de algum tempo, com a saúde fraca e precisando de dinheiro, acaba concordando.

Max Brod não obedece às instruções de destruir as obras de Kafka. Edita e publica quase tudo que Franz escrevera, e também publica  a história da vida do amigo. Em 1939 muda-se para Tel Aviv, na Palestina, levando consigo quase todos os manuscritos de Franz, para fugir dos nazistas. Max morre em 1968, com a reputação do homem que desrespeitara o último desejo do amigo no leito de morte, ou do homem que havia tirado Franz Kafka do anonimato e o projetara mundialmente.

Kafka é um símbolo da literatura moderna, um dos autores mais estudados e comentados do século XX. Logo após a morte do escritor, Milena Jesenská fez publicar um necrológio de sua autoria em um jornal tcheco que se encerrava com as seguintes palavras: "Kafka escreveu as obras mais significativas da moderna literatura; a verdade crua nelas presentes faz com que pareçam naturalistas, mesmo quando falam em símbolos. Elas refletem a ironia e a visão profética de um homem condenado a ver o mundo com tão ofuscante clareza que o considerou insuportável, e partiu para a morte".

sábado, 14 de setembro de 2013

Pirandello

"Tentei contar algo a outros homens,
sem quaisquer outras ambições, exceto
talvez a de me vingar de ter nascido"
(Luigi Pirandello)


1867 - Nasce em 28 de junho, em Girgenti (hoje Agrigento), Sicília, Luigi Pirandello.
1880 - Sua família transfere-se para Palermo.
1885 - A família decide voltar para Agrigento. Luigi permanece em Palermo.
1886 - Fica noivo de Lina, irmã de um amigo.
1887 - Luigi deixa Palermo e ingressa na faculdade de Letras em Roma.
1889 - Parte para Bonn, Alemanha, para concluir os estudos. Publica Mal Giocondo, livro de poemas.
1891 - Termina sua tese sobre os dialetos grecosículos e obtém o título de doutor.
1893 - Volta a Palermo e termina o noivado com Lina.
1894 - Casa-se com Maria Antonietta Portulano.
1895 - Nasce Stefano, seu primeiro filho.
1897 - Nasce sua filha Lietta.
1899 - Nasce seu filho Fausto.
1902 - Publica Beffe della Vita e della Morte, Quand´ero Matto e Bianche e Neve.
1904 - Publica O Falecido Mattia Pascal (*).
1914 - Stefano, o filho mais velho, alista-se como voluntário para combater na Primeira Guerra Mundial. Morre Caterina, a mãe do escritor.
1917-20 - São representadas as comédias Assim É, se Lhe Parece; O Prazer da Honestidade; Mas não É uma Coisa Séria; Como Antes, Melhor Que Antes; A Senhora Morli e Uma e Duas, escritas no período da guerra.
1921 - Estréia em Lilão, com grande sucesso, o drama Seis Personagens à Procura de um Autor(*).
É encenada a tragédia Henrique IV.
1922-23 - São encenadas as peças Vestir os Nus, A Vida Que Te Dei e Cada um à Sua Maneira.
1925 - Onze artistas, entre eles Stefano, filho de Pirandello, fundam o Teatro d´Arte.
1934 - Recebe o Prêmio Nobel de Literatura.
1936 - Morre de pneumonia, em 10 de dezembro, em Roma.

(*) O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens à Procura de um Autor
É no romance O Falecido Mattia Pascal que o autor dá início à temática que para ele se tornaria inesgotável: o paradoxo entre essência e aparência, entre o que é o homem e como é visto pelos outros.

(*) Peça em três atos, Seis Personagens à Procura de um Autor é uma das obras complexas de Pirandello. Aborda o drama dos personagens angustiosamente em busca de sua definição, a criação de uma obra pelos profissionais do teatro e as alterações que ela pode sofrer.


Filho de um pai aventureiro e de uma mãe romântica, filho de uma desencantada cidade, filho da fuga, Luigi Pirandello nasceu em 28 de junho de 1867 em Girgenti (hoje Agrigeto), Sicília. Seus pais foram Stefano Pirandello e Caterina Ricci Gramitto.

Stefano havia lutado junto com Giuseppe Garibaldi e, durante a campanha pela unificação italiana, tornara-se amigo de Rocco Ricci Gramitto, com a irmão de quem viria a se casar. Viviam em Agrigento, bela cidade cheia de gente desocupada que andava pelas ruas suando tédio e deseperança. Mas era também uma cidade intensamente religiosa. Dentre suas festas e tradições, muito importante era a procissão em homenagem a São Cosme e São Damião. Tudo se modificava. Todos saíam às ruas e carregavam o andor dos santos E rezavam.. Depois voltava o tédio.

A monotomia desapareceu durante a epidemia de cólera. Muita gente morreu. Os que podiam enviaram mulher e filhos para o campo. Stefano mandou Caterina - que estava grávida - para a aldeia de Chaos.

Os primeiros estudos formais de Luigi foram realizados em casa, depois o menino passou a frequentar uma escola técnica. Mais tarde transferiu-se para o ginásio de Empédocles. Um dia, com um novo e bonito traje de marinheiro que ganhara do pai, o pequeno Luigi saiu a passeio. Era domingo, dia em que recebia uma lira para gastar como quisesse. No caminho, ele ia pensando nos ensinamentos do Cristo: ajudar os pobres, fazer caridade. Se pensamento foi interrompido pelo encontro com um menino pobre. Luigi deu-lhe as roupas e sua lira. Algumas horas depois, a mãe do garoto apareceu na casa de Luigi e devolveu tudo. Luigi não compreendeu. Chorou. Afinal, não tinha seguido os ensinamentos de Cristo...

A família vivia agora em Palermo. Luigi então conhece uma menina, sente por ela uma coisa estranha, que não compreende. Ao terminar as férias a menina vai despedir-se dele. De tanta emoção, Luigi feriu o dedo. A garota socorreu-o: tomou-lhe o dedo e chupou o sangue. Luigi interpretou isso como um beijo. Muito sensível, começou a chorar. Algumas horas depois teve febre, e durante três dias ficou entre a vida e a morte. Quando terminaram as aulas, a menina foi visitá-lo. Ele já estava restabelecido, mas sua aparência não era das melhores. A pequena desmaiou. Luigi ficou perplexo: era o amor.

No ano do nascimento do filho. Stefano começou a exploração de uma mina de enxofre. Ficou rico e importante e, em 1880, transferiu-se para Palermo. Nessa cidade Luigi teve oportunidade de dedicar-se à leitura. Na Biblioteca Pública Vittorio Emmanuele, deliciava-se com a grande quantidade de livros à disposição. E, de visita em visita, conseguiu estudar toda a literatura italiana. Paradoxalmente, todo esse conhecimento acabou causando-lhe problemas na escola. Não conseguia prestar atenção às aulas de latim, pois já conhecia os textos. Mas isso não o entristecia. Triste mesmo ficou no dia em que descobriu uma aventura amorosa do pai. Decidiu não mais lhe dirigir a palavra.
Em 1885 a família decidiu voltar para Agrigento. Luigi ficou em Palermo, onde passou a morar com um companheiro de escola. Dedicava a maior parte do tempo à leitura e aos estudos. Nas horas de lazer, visitava os amigos. Pela irmã de um deles - Lina - Luigi se apaixonou. Ela era quatro anos mais velha. Praticamente estava em idade de casar. Ele, apenas um adolescente, não ousava aproximar-se da amada.

Alguns anos depois Luigi mudou-se para a casa de sua tia Sara, onde viveu três anos. Nas férias escolares ia até Agrigento visitar a mãe. Do pai, continuava mantendo distância. Durante o período de aula dedicava-se ao estudo, à noite amava Lina a distância. Acabou virando poeta.

Mas quem ama em silêncio propicia a investida de outros admiradores e concorrentes. Foi o que aconteceu: um próspero comerciante viúvo pediu Lina em casamento. A família era favorável. Luigi desesperançou-se e deixou de frequentar a casa da amada. Todavia, ante a insistência dos irmãos da moça, reaproximou-se e confessou seus sentimentos. Lina também o amava. O compromisso foi formalizado, e os jovens ficaram noivos em 1886. Para casar, faltava apenas uma petição oficial de casamento feita pelo pai do pretendente, como era costume à época.

Luigi teria de falar com Stefano. O orgulho era forte, mas o amor era muito maior. Foi para Agrigento e procurou-o. O pai logo escreveu à família de Lina expressando sua opinião. E sua opinião era de que o filho não deveria casar-se antes de terminar o curso.

Desanimado, Luigi voltou a Palermo, e em 1887 ingressou na faculdade de Letras. um ano depois viajou a Roma, e dali, em 1889, partiu para Bonn, Alemanha. Como não entendia bem o idioma alemão, estudou-o durante seis meses antes de iniciar os estudos regulares. Quando se sentiu apto, traduziu as Elegias Renanas, de Goethe.

Lina tinha ficado longe. Próxima estava Jenny Schultz Lander, moça de um charme inesquecível, a quem passou a dedicar suas poesias. Mas não podia abandonar-se às solicitações da criatividade. Tinha de tornar-se professor o mais depressa possível para ter condições de casar e sustentar uma família.

Certo dia recebeu uma carta da Sicília: a noiva não estava bem. Viajou a Palermo e, assim que a viu, ela abriu-lhe os braços amorosos e cheios de saudade. Poderia ter sido um reencontro de amor, mas não foi. No olhar de Lina, Luigi sentiu os anos perdidos. Angustiado, perguntava-se: quem era aquela moça, agora, senão uma estranha.

Apressou a volta para Bonn. A Jenny, contou as tristezas. A ela dedicou um livro de poesias: Pasqua di Gea.

Em 1891 terminou sua tese sobre os dialetos greco-sículos - Sons e Evolução Fonética do Dialeto de Agrigento - e obteve o dooutorado. Dois anos depois viajou para Roma, onde se hospedou na casa de seu tio Rocco. O pensamento voltou-se para Lina: fazia um ano que não a via. Precisava tomar uma decisão. Viajou novamente para Palermo. Brigou com a noiva: entre eles não existia mais amor. As duas famílias entraram em conflito e, depois de muitas discussões, o compromisso foi desfeito.

Livre, sem nenhum compromisso, Pirandello regressou à capital. Logo que pôde, entrou em contato com Hugo Fleres, artista que havia ilustrado sua tradução de Goethe. Estava tudo preparado para o livro ser publicado quando o editor Loescher morreu. Fleres apresentou-o então a Luigi Capuana, escritor realista muito famoso, que convenceu Pirandello a abandonar a poesia para dedicar-se integralmente à prosa. Animado por Capuana - umas das maiores influênicas em sua vida - , Pirandello começou a escreve A Excluída.

No inverno de 1893 recebeu uma carta de seu pai: era uma proposta de casamento. Stefano queria uni-lo a Maria Antonietta Portulano, filha de um milionário a quem se associara. O jovem concordou. A moça também. De início o velho Portulano se opôs violentamente, mas depois acabou dedendo, e o casamento se realixou em janeiro de 1894.

Uma semana depois de casados, Luigi e Maria Antonietta foram para Roa. Ele pôs-se a trabalhar. Escrevia poesias que eram publicadas na revista Vita Italiana e artigos críticos impressos na Nuova Antologia. Todavia, não encontrava editor para seus livros, que se estavam acumulando nas gavetas. Quando terminou sua primeira sua primeira peça - O Torniquete -, Pirandello deu-a para Luigi Capuana ler. De Capuana a peça foi parar nas mãos de Eduardo Bouter, um dos melhores críticos da época. E Boutet levou-a para o ator siciliano Flavio Andò, que prometeu a Pirandello montar a peça tão logo retornasse de uma excursão pela Rússia.

O escritor ficou na expectativa. Seis meses depois, cansado de esperar por Andò, mandou-lhe uma carta. Flavio respondeu que não podia encenar a obra porque sua mulher, a atriz Tina di Lorenzo, estava doente e impossibilitada de ensaiar. Para Pirandello, aquilo parecia mais uma desculpa. E assim, desanimado, desistiu do teatro.

Luigi Capuana ficou inconformado com o andamento das coisas. Escreveu um artigo - que teve ótima repercussão - no qual falava dos trabalhos do escritor. O editor Lumachi, de Florença, acabou se interessando pelos contos de Pirandello publicados na revista II Marzocco, e lançou, em 1902, dois volumes com o título Beffe dela Vita e della Morte. Streglio, um editor de Turim, seguindo o exemplo de Lumachi, publicou também, nesse mesmo ano, dois livros de contos: Quand´ero Matto e Biacnche e Nere. Honorato Roux, diretor de La Tribuna, de Roma, pediu a Pirandello seu romance A Excluída para editá-lo em folhetim. Apenas as comédias não foram publicadas, porque o escritor continuava não querendo ouvir falar em teatro.

A vida doméstica corria tranquila. Frequentemente Pirandello e Antonietta recebiam visitas dos escritores e artistas do círculo de Capuana. Em seis anos o casal teve três filhos: Stefano, Lietta e Fausto.

Um dia, ao voltar para casa, Pirandello encontrou Antonietta desmaiada. Ao seu lado estava uma carta enviada por Stefano. O pai contava que estava arruinado em consequência da destruição de sua mina, motivada por um grande tremor de terra. O choque de Antonietta era facilmente explicável: todo o seu dote estava investido nessa mina.

As coisas mudaram muito. Primeiramente, Pirandello empenhou as jóias da mulher. Depois passou a solicitar pagamento pelos escritos publicados em II Marzocco. Começo a lecionar no Instituto Superior Feminino do Magistério e a dar aulas particulares.

O redator-chefe da Nuova Antologia pediu-lhe um romance. O escritor prometeu um livro que ainda não tinha começado a elaborar: O Falecido Mattia Pascal.

A obra foi sucesso desde o primeiro capítulo, publicado em 1904. Henri Bigot, professor de Túnis, propôs-se traduzir o romance - que ainda não estava terminando - para o francês. Ao mesmo tempo, o Fremdenblatt, periódico de Viena, ofereceu-lhe para elaborar a versão alemã de O Falecido Mattia Pascal.

O sucesso não impediu que Pirandello continuasse trabalhando intensamente. Durante o dia ia ao Instituto e dava aulas particulares, à noite escrevia os capítulos do romance, impressos quinzenalmente. Além disso, colaborava em várias revistas e cuidava dos afazeres domésticos, porque sua mulher, acometida de paralisia histérica nas pernas, não abandonava o leito. Quando ela finalmente conseguiu andar, não era mais a mesma. Não se interessava pelas atividades do marido, culpava-o pela perda do seu dote, acusando-o de infidelidades inexistentes.

A verdade é que Maria Antonietta estava louca. Mas o escritor não queria aceitar esse fato, e lutava com toda a coragem para conservá-la a seu lado. Nesse ambiente confuso Pirandello compunha contos e novelas. Só não queria ouvir falar em teatro. E talvez não fizesse mais nada para o palco não fosse a interferência do Nino Marrtoglio, que reabriria o Teatro Metastasio e passou a pressionar o escritor para ceder-lhe O Torniquete e elaborar uma outra peça de ato único, inspirada no conto Le Lumíe di Sicilia. As obras obtiveram êxito, mas o autor não esteve presente em nenhuma das apresentações, porque não queria alarmar sua mulher.

Um outro amigo de Pirandello descobriu uma peça esquecida numa gaveta - Il Nibbio -,mandou copiá-la e enviou-a a Marco Praga, que orientava a temporada estável do Teatro Manzoni de Milão. Praga estava formando sua própria companhia de comédias, e resolveu montar ele mesmo a peça. Suamontagem, contudo, acabou deformando as intenções do escritor. Indignado, Pirandello telefrafoou-lhe pedindo para retirar a peça de cartaz.

Il Nibbio, que nas mãos de Praga se transformou em Se Non Còsi e mais tarde foi reescrita sob o título La Ragionr degli Altri, novamente afastou Pirandello do teatro.

À medida que o marido ganhava prestígio, Antonietta tornava-se mais irascível. Tentando acalmar a situação doméstica, Pirandello entregava-lhe tudo o que ganhava, e aonde ia levava consigo um dos filhos, pensando assim não criar nenhum pretexto para novas crises da mulher.

Mas nada disso adiantava. Enquanto Portulano ainda vivia, Antonietta mantinha-se um pouco mais discreta. Depois que o pai morreu, passou a falar em independência e separação. Duas ou três vezes separaram-se, e Pirandello só voltava para casa quando Maria Antonietta melhorava das crises. Certa ocasião ela pegou os filhos e foi para a Sicília. Meses depois teve um acesso de loucura. O juiz da região disse aos parentes que era necessário interná-la imediatamente. O escritor foi chamado à Sicília, onde tomou conhecimento da decisão. Não sabia bem o que fazer. Quando Maria Antonietta o viu, correu para seus braços, suplicando que a salvasse. Pirandello levou-a para casa. Os médicos não tinham dado nenhuma esperança de cura. De fato os acessos aumentavam cada vez mais.

No início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Stefano, o filho mais velho, alistou-se como voluntário, o que fez piorar o estado de Maria Antonietta. No mesmo período, na Sicília, morria Caterina, a mãe do escritor.

Durante a guerra Pirandello escreveu mais algumas comédias, que foram apresentadas anos seguintes: Assim É, se Lhe Parece e O Prazer da Honestidade, em 1917; Mas não É uma Coisa Séria, em 1918; Como Antes, Melhor que Antes, A Senhora Morli e Uma ou Duas, em 1920.

Entretanto, ele quase não assistia aos ensaios de suas peças, para não agravar o clima familiar. Sua filha Lietta era praticamente a dona-de-casa. Maria Antonietta a via como inimiga que se havia apossado de suas atribuições domésticas. Em suas fantasias, acreditava haver ligações maiores entre a filha e o marido. Lietta não podia suportar aquela situação desesperadora. Um dia pegou um velho revólver e disparou contra si mesma. Só não se feriu porque a bala, sem força, ficou presa no cano enferrujado da arma. Em outra oportunidade tentou novamente o suicídio, atirando-se nas águas do Tibre. Foi salva, e Pirandello resolveu confiá-la aos cuidados de umas freiras. Quatro meses depois, Lietta foi para Florença, onde ficou durante oito meses na casa de uma tia. Maria Antonietta, que havia causado todo o drama, não demonstrava arrependimento. Ao contrário, vivia dizendo ao marido que, se sua filha voltasse, ela sairia.

Quando a guerra terminou e Stefano regressou, foi decidida a internação de Maria Antonietta. Só então Lietta pôde voltar à sua casa. Para o escritor, a ausência da mulher - apesar de todos os transtornos - era motivo de tristeza e solidão. E ele se voltou para sua obra. Pretendia retomar o romance. Só não o fez porque não conseguia encontrar um elo que unisse fatos e personagens. Continuou n teatro. Assim nasceu o drama Seis Personagens à Procura de um Autor, que estreou em Milão em setembro de 1921. O sucesso foi grande. No ano seguinte a peça foi montada em Londres, e depois em Nova York, Paris, Cravóvia, Praga e Amsterdã. Ainda em 1921 foi encenada Henrique IV, à qual se seguiram Vestir os Nus, no ano seguinte e A Vida Que Te Dei e Cada Um à Sua Maneira.
Em 1925 onze artista se juntaram - e entre eles o próprio filho de Pirandello, que usava o pseudônimo de Stefano Landi - e fundaram o Teatro D´Arte. A primeira apresentação foi no Palácio Odeschalchi, com a peça A Festa do Senhor do Barco, um anto com 180 personagens. O Teatro d´Arte fez tanto sucesso que logo começaram a chover convites para representações no exterior.

Numa dessas viagens Pirandello apaixonou-se por Marta Abba, a primeira atriz do grupo, que lhe inspiraria um novo sentido de viver. No estrangeiro escreveu novas peças: Lazzaro; Esta Noite Improvisamos; Ou de Um, ou de Ninguém; Como Me Queres. escreveu também duas comédias, uma delas, Os Gigantes da Montanha, não foi terminada. Em 1936, quando trabalhava num dos estúdios da Cinecittá, na adaptação de O Falecido Pascal, foi acometido de forte pneumonia. Faleceu no ida 10 de dezembro de 1936, deixando algumas obras inacabadas. Para Marta Abba deixou os direitos de uma grande parte de suas peças. Para os filhos, deixou os direitos de uma grande parte de suas peças. Para os filhos, deixou todos os seus bens. E, para ele mesmo, pediu um enterro de pobre. Que fosse cremado e que suas cinzas fossem atiradas ao vento na aldeia em que nascera.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Mark Twain

Mark Twain

1835 - Em 30 de novembro, nasce Samuel Langhorne Clemens.
1839 - A família muda-se para Hannibal, Missouri.
1847 - Sam frequenta o colégio John Dawson. Em 24 de março morre seu pai.
1851 - Começa a trabalhar no jornal do irmão Orion.
1853 - Trabalha como tipógrafo em St. Louis, Nova York e Filadélfia.
1854-1856 - Escreve cartas de viagem.
1857 - Trabalha como auxiliar de timoneiro.
1861 - Vai para Nevada com o irmão Orion.
1862 - Trabalha para o Territorial Enterprise.
1864 - Muda-se para São Francisco.
1865 - Participa da mineração em Nevada. Escreve para jornais de São Francisco.
1866 - Viaja para o Havaí como correspondente do Sacramento Union. Muda-se para Nova York.
1867 - Publica A Famosa Rã Saltadora do Condado de Calaveras e outras Histórias. Embarca com destino à Europa e Oriente Médio. Retorna e conhece Olivia Langdon. Muda-se para Washington, D.C. e torna-se secretário do senador William Stewart.
1868 - Fica noivo de Olivia Langdon.
1869 - Publica Innocents Abroad.
1870 - Casa-se com Olivia e vai morar em Buffalo. Nasce Langdon, o primeiro filho.
1871 - Muda-se para Elmira.
1872 - Nasce a filha Susy. Morre o filho Langdon.
1873 - Passa três meses na Inglaterra.
1874 - Nasce a filha Clara.
1876 - Publica As Aventuras de Tom Sawyer (*).
1878 - Em abril vai com a família para a Europa.
1880 - Publica A Tramp Abroad. Nasce a filha Jean.
1881 - Publica O Príncipe e o Mendigo.
1884 - Funda sua própria editora.
1885 - Publica As Aventuras de Huckleberry Finn.
1889 - Publica Um Americano na Corte do Rei Arthur.
1890 - Morrem sua mãe e sua sogra.
1891 - Muda-se com a família para a Europa.
1892 - Publica O Conde Americano.
1894 - Sua editora vai à falência. Publica Pudd´nhead Wilson.
1895 - Faz palestras ao redor do mundo.
1896 - Morre a filha Susy.
1897 - Publica Following the Equator.
1898 - Publica The Man That Corrupted Hadleyburg.
1904 - Livy morre em Florença.
1908 - Muda-se para Reddling, Connecticut.
1909 - Morre Jean, a filha caçula.
1910 - Em 21 de abril, morre em Stormfield. Em 23 de abril é sepultado no Cemitério Woodlawn, em Nova York.

(*) As Aventuras de Tom Sawyer
Tom Sawyer e seu inseparável amigo Huck Finn adoram pescar, sonham com piratas e grandes tesouros e pensam em Becky Thatcher - uma linda colega da escola. Ao partir em busca de um tesouro, dão de cara com o terrível Joe Malvado. Quando tentam escapar de Joe, acabam vivendo uma fantástica aventura que os leva através do rio Mississípi até cavernas misteriosas de um esconderijo, onde descobrem uma fortuna muito maior do qeu poderiam imaginar!
Considerado o livro mais importante de Mark Twain, foi apontado por Hemingway como o precursor da moderna literatura norte-americana.


No final do século XVIII a batalha de Yorktown, vencida por treze colônias norte-americanas revoltosas, marca o ponto final da guerra pela autonomia em relação à Coroa britânica. Nasce um novo país - os Estados Unidos da América -, reconhecido agora pela Grã-Bretanha como uma nação independente. Pelo menos assim ficara estabelecidos no tratado de paz assinado em Paris com o governo britânico.

Já no início do século XIX, de 1812 a 1814, desrespeitando as legítimas conquistas norte-americanas, a Grã-Bretanha provoca uma segunda guerra da Independência. Recharçadas as forças britânicas, o governo inglês assina na cidade belga de Gand, agora definitivamente, um tratado de paz ratificando a autonomia do novo Estado americano.

Nesse novo país, em 30 novembro de 1835, quando o cometa Halley cruza o firmamento, nasce numa cidade chamada Flórida, no Estado do Missouri, o sexto filho de John Marshall Clemens e Jane Lampton Clemens: Samuel Langhorne Clemens, que mais tarde adotaria o pseudônimo Mark Twain e se tornaria famoso por sus histórias inspiradas nas experiências da infância, às margens do Mississípi.
Em 1839 a família muda-se para uma cidade próxima, Hannibal, onde Sam passa a infância.

Na juventude, Sam tem uma forte ligação com o rio Mississípi, ao longo de cujas margens a cidade está localizada. As barcas atracam três vezes por dia na próspera cidade, e o sonho de infância de Sam é tornar-se timoneiro e trabalhar nesse grande rio.

Em 1848, um ano após a morte do pai, Sam, ainda garoto, torna-se aprendiz no Missouri Courier. Em 1851 passa a trabalhar no Hannibal Journal, que pertence a seu irmão Orion. É nesse jornal que Sam publica suas primeiras histórias e, na ausência de Orion, ocasionalmente o substitui na redação.

Em 1852 Sam publica vários contos no Saturday Evening Post da Filadélfia. Deixa Hannibal em 1853 e por um ano trabalha como tipógrafo em Nova York e na Filadélfia. Nesse período publica suas experiências da viagem no Hannibal Journal.

Em 1854 Sam fixa residência em Keokuk, no Iowa, onde seu irmão Orion funda o Keokuk Journal.
Em 1857 Sam conhece Horace Bixby, capitão de um navio que está de partida para a América do Sul e que lhe oferece um emprego como aprendiz de timoneiro. Depois de dois anos navegando, Sam tira licença de timoneiro.

Com o início da Guerra Civil, o tráfego no Mississípi é suspenso, e a carreira de timoneiro de Sam termina. Ele então ingressa num grupo miliciano voluntário com catorze homens, mas depois de duas semanas de treinamento o grupo de dissolve.

No verão de 1861 seu irmão Orion é designado pelo presidente Lincoln para ser o secretário do novo Território de Nevada, e Sam o acompanha como seu assistente.

Nessa época Nevada está sendo invadida por exploradores de ouro e prata, e Sam não demora a se envolver na mineração. Vai para as regiões mais promissoras, mas, sem conseguir ficar rico, é obrigado a trabalhar em um engenho de quartzo para ganhar a vida. Vez ou outra contribui com cartas bem-humoradas para o Territorial Enterprise, jornal mais famoso da região, e em setembro de 1862 é contratado como repórter, ganhando 25 dólares por semana.


Nesse período Sam é fortemente influenciado por Joseph Goodman, fundador do jornal, e por Dan De Quille, um escritor em ascensão. Ambos seriam seus amigos pro muitos anos. Depois de um ano e meio Sam deixa o Enterprise e vai para São Francisco, onde passa a trabalhar como repórter no Call, jornal local.

Durante quatro anos Sam escreve para o Golden Era, para o Californian e outras publicações. É figura central no cenário literário da cidade. Em 1866 passa quatro meses no Havaí como correspondente do Sacramento Union. Ao regressar a São Francisco Sam organiza uma palestra sobre suas experiências nas Ilhas Sandwich, primeiro nome dado ao arquipélago que forma o Havaí.

O sucesso desse empreendimento o leva a fazer seu primeiro ciclo de palestras por dois meses no norte da Califórnia e no oeste de Nevada. Pelo resto da vida Sam seria um dos palestrantes mais admirados e requisitados dos Estados Unidos.

No final de 1866 Sam deixa a Califórnia e via para Nova York. Em seguida embarca no Quaker City, que está de partida para a Europa, Rússia e Oriente Médio. Antes da viagem Sam toma as providências para publicar seu primeiro livro, A Famosa Rã Saltadora do Condado de Calaveras e outras Histórias, coletânea de contos publicados no início da carreira.

Graças às palestras e cartas escritas no Quaker City, Sam se torna uma celebridade. Ao voltar a Nova York, aceita o cargo de secretário do senador WIlliam M. Stewart e vai para Washington, D.C.

A Editora American Publishing Co. pede-lhe que escreva um livro sobre as experiências no Quaker City, que seria publicado em julho de 1869 com o título The Innocents Abroad.

Ao retornar a Nova York, Sam conhece Olivia (Livy) Langdon irmã de Jervis, um amigo do Quaker City. O ano seguinte, 1868, é movimentado para Sam.

Viaja à Califórnia e Nevada para fazer palestras, publica vários contos em diferentes publicações e começa  a namorar Livy. No final do ano, com 33 anos, ficam noivos em segredo. Durante os dois anos seguintes, Sam viaja incansavelmente, fazendo palestras e escrevendo inúmeras histórias.

Com o casamento, em 1870, a vida de Sam se estabiliza. O casal fixa resid~encia na cidade de Buffalo, em Nova York, numa casa comprada pelo pai de Livy, e Sam trabalha como editor no Express. Também escreve uma coluna mensal para a revista literária Galaxy.

Além de toda essa atividade, Sam assina um contrato para escrever Roughing It, umanarrativa de suas experiências em Nevada e na Califórnia. Nesse período, entretanto, o jovem casal é atingido por uma série de infortúnios. O pai de Livy morre. Depois, a maior amiga de Lily morre quando está hospedada na casa deles. E o primeiro filho, Langdon, nasce prematuramente. Com a saúde precária, morreria com dois anos de idade.

Em 1871 Sam muda-se para Hartford com a família. Com uma vida sempre muito ativa, viaja à Inglaterra pela primeira vez.

Em março de 1872 nasce a filha Susy. Numa segunda viagem à Inglaterra, em 1873, Sam trava conhecimento om escritores famoso, entre eles Lewis Carrol, autor de Alice no País das Maravilhas. Nesse ano publica seu primeiro livro de ficção, The Gilded Age.

Em junho de 1874 nasce a segunda filha, Clara. A terceira, Jean, nasceria em 1880. Na residência em Hartford, Sam dedica-se a escrever romances e histórias e a fazer um ou outra palestra. É o apogeu literário de Sam, ou Mark Twain. O pseudônimo surge em função da expressão "mrk two!", ou seja, "marca: duas", dita sonoramente pelos marinheiros para indicar a profundidade de duas braças, que permitia navegar em segurança no Mississípi. Mark se inspira nas experiências da infância em Hannibal para escrever seus romances mais famosos - As Aventuras de Tom Sawyer, publicado em 1876, Velhos Tempos no Mississípi, em 1883, e As Aventuras de Huckleberry Finn, em 1885.

Entre 1878 e 1879 a família passa um ano e meio na Europa, para que Sam possa reunir material para escrever A Tramp Abroad, que seria publlicado em 1880. Um ano depois é publicado O Príncipe e o Mendigo, a primeira tentativa de Sam de escrever ficção histórica com um tom sério, uma marca que contrasta com o estilo bem-humorado do início da carreria. Entre 1884 e 1885 Sam continua a fazer palestras pelos Estados Unidos. Escreve o romance histórico, embora satírico, Um Americano na Corte do Rei Arthur, publicado em 1889.

Insatisfeito com seus editores, funda a própria editora: a Charles L. Webster & Company. A empresa opera por dez anos, mas depois começa a enfrentar dificuldades e crises e finalmente fecha em 1894. Incapaz de manter o estilo de vida extravagante que a família leva em Hartford, Sam vende sua casa em 1891 e muda-se para a Europa.

A família vive entre França, Alemanha, Suíça e Itália. Apesar das dificuldades financeiras, Sam consegue terminar inúmeros romances e contos. Os principais são O Conde Americano (1892), Viagens de Tom Sawyer (1894), Pudd´nhead Wilson (1894), Personal Recollections of Joan of Arc (1895) e The Man That Corrupted Hadleyburg (1898).

Entre 1895 e 1896, Sam viaja com a família para uma série de palestras ao redor do mundo, o que lhe fornece material para o livro Following the Equator (1897).

Em 1896 um golpe terrível atinge mais uma vez a família, quando a filha mais velha, Susy, morre em Hartford.

No final de 1903, pouco depois de Sam comprar uma casa em Tarrytown, em Nova York, Livy fica gravemente doente e passa um longo período de isolamento em Maine, antes de ser recomendada a procurar um clima mais quente e ir para Florença, na Itália.

Sam e a esposa permanecem afastados a maior parte do tempo até a morte de Livy, em Florença, em junho de 1904. No ano seguinte ele janta na Casa Blanca com o presidente Theodore Roosevelt, que lhe oferece um banquete para comemorar seu 70. aniversário.

Em 1908 Sam muda-se pela última vez, para uma residência em Redding. Nessa casa, no ano seguinte morre Jean, a filha caçula. Logo depois Sam escreve A Morte de Jean, sua última obra completa, em que ele fala sobre a tragédia da morte e de seus sentimento com relação à perda de outros membros da família.

A saúde de Sam deteriora rapidamente após a morte da filha. Em janeiro de 1910 ele procura um clima mais salutar nas Bermudas, embora pressinta que não viverá muito mais.

Em 21 de Abril Sam entra em coma, em Stormfield. No final da tarde tem uma parada cardíaca e morre, aos 74 anos de idade, no m~es em que o cometa Halley, que aparece a cada 75 anos, é avistado mais uma vez cruzando o céu.

Cumpria-se o que Sam sempre dizia em profético tom bem-humorado: "Vim ao mundo com o cometa e irei embora com ele".

Em 23 de abril o cortejo fúnebre percorre a cidade de Nova York até a igreja presbiteriana Brick, onde é realizado o velório. Sam é sepultado ao lado da esposa e dos filhos no Cemitério Woodlawn, em Elmira, Nova York.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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