segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Edmond Rostand

Edmond Rostand


1868 - Nasce em Marselha, em 1. de abril, Edmond Rostand.
1880-1890 - Nesse período complementa os estudos em Paris e forma-se em direito. Escreve os primeiros poemas.
1888 - Escreve sua primeira peça, A Luva Vermelha.
1890 - Publica seu primeiro livro de poesias, Divagações. Casa-se com a poetisa Rosemonde Etiennette Gérard.
1891 - Nasce seu primeiro filho, Maurice.
1893 - Escreve Os Dois Pierrôs.
1894 - Nasce o segundo filho, Jean. Escreve Os Românticos.
1895 - Escreve A Princesa Longínqua.
1897 - Escreve Samaritana. Estréia em Paris, em 27 de dezembro, Cyrano de Bergerac(*).
1900 - Escreve O Filhote de Águia.
1901 - É eleito membro da Academia Francesa.
1910 - Escreve Chantecler.
1914 - Rejeitado pelo Exército francês, retira-se para o campo.
1918- Em 2 de dezembro, aos cinquenta anos, Rostand morre de pneumonia.
1921 - É publicada, postumamente, A Última Noite de Dom João.

(*) Cyrano de Bergerac
Cyrano de Bergerac é uma criação imortal do dramaturgo francês Edmond Rostand, em que a nobreza de espírito, a espirituosidade, a coragem e o amor estão capturados para toda a eternidade. Ambientada no reino de Luís XIII, é a excitante e comovente história de um dos mais habilidoso espadachins da França, soldado e escritor de inteligência brilhante, que de fato viveu na França no século XVII.
Na peça de Rostand, Cyrano é um herói romântico que combate a covardia, a estupidez e a mentira. Sua agudeza de espírito, ousadia e sensibilidade converteram-no em um verdadeiro símbolo popular, até hoje representado nos palcos e telas de cinema do mundo inteiro.


A França da segunda metade do século XIX vive o Segundo Império, sob o governo de Luís Napoleão, que restabelece em se benefício o título imperial hereditário e adota o nome de Napoleão III. Desenvolve-se o mercado financeiro, e a influência da França se faz sentir no exterior. O país está entrando na civilização industrial da idade da máquina. Na política internacional, a França vive um período de instabilidade. um clima de pré-conflito ronda a região, abatendo-se sobre a Prússia, a Alemanha e a própria França, países que estão empenhados em ampliar suas fronteiras. A guerra franco-prussiana começa a se desenhar.

É nesse período, em 1868, que nasce em Marselha Edmond Rostand, de uma família provençal culta e rica. Seu pai, Eugène Rostand, é economista, tradutor e poeta, membro da Academia de Marselha.
Na literatura, os ideais românticos da arte aos poucos vão cedendo lugar ao princípio realista de que é necessário mostrar a vida como ela é, insistindo mais na denuncia de seu lado mau do que na exaltação de seu lado bom. O naturalismo - que procura incorporar ao gênero o estudo do comportamento patológico e das classes socialmente desfavorecidas - está em voga, banindo da literatura a antiga tradição de tratar de episódios medievais, louvar o patriotismo e exaltar a fé cristã.
Rostand é uma criança solitária e silenciosa, obcecada por literatura, em particular pelo teatro. Em 1880, aos doze anos, segue para Paris a fim de complementar os estudos. Nessa época escreve seus primeiros poemas. Dedica-se a literatura, história e filosofia e, muito jovem, forma-se em direito na Universidade de Paris, mas nunca exerceria a profissão.

Desde os primeiros meses na faculdade já frequenta assiduamente os meios intelectuais e artísiticos, decidido a brilhar no mundo das letras, que sobre ele exerce um irresistível fascínio. Nas rodas literárias, além de um grande estímulo para seguir a vocação, Rostand conhece a mulher com quem viria a se casar. Aos vinte anos, em 1888, escreve sua primeira peça, A Luva Vermelha, que obtém algum sucesso, e em 1890 lança um livro de poemas, Divagações. Nesse mesmo ano casa-se com a poetisa Rosemonde Etiennette Gérard, premiada pela Academia Francesa por seu livro de versos, As Flautas. No ano seguinte nasce seu primeiro filho, Maurice.

Em 1893 tenta novamente conquistar o público com a peça teatral Os Dois Pierrôs. Sem conseguir o mesmo êxito de A Luva Vermelha, só lhe resta esperar até o ano seguinte para realizar seu sonho.
Em 1894 nasce Jean, seu segundo filho. Nesse mesmo ano Edmond Rostand faz as pazes com o sucesso, quando Os Românticos, peça baseada em Romeu e Julieta, de Shakespeare, é encenada pela Comédie Française. Finalmente está aberto o caminho da fama para Rostand.

Embora os ideais românticos já estejam ultrapassados, Edmond Rostand inspira-se nos temas do Romantismo para escrever suas peças, sem deixar de lado o novo enquadramento psicológico da época. Essa habilidade, aliada a um genuíno talento poético e inteligente manejo dos vocábulos, garante o êxito de sua carreira de dramaturgo. Em 1895 escreve A Princesa Longínqua, história de amor entre um trovador e uma princesa da Idade Média.

Em 1897, aos 29 anos, escreve A Samaritana, peça de cunho religioso, tema de forte inspiração para os românticos. Os crítico não aprovam a peça, pois entendem que Jesus é apresentado de modo vulgar.

Mas a obra que imortalizaria Edmond Rostand como dramaturgo e ídolo do público francês, ainda em 1897, seria a história do herói romântico que se tornaria um verdadeiro símbolo popular: Cyrano de Bergerac.

A obra é baseada na história real de um soldado  que se destacara não tanto pela bravura, pela habilidade de espadachim ou pelo talento de escritor, mas sim pela agudeza de espírito, por sua língua ferina e também por seu nariz extraordinariamente grande. Hercule Savinien de Cyrano de Bergerac viveu na França no início do século XVII.

A inspiração para escrever a respeito da vida de Cyrano surge quando Rostand passa férias de verão na pequena cidade de Luchon. O escritor fica conhecendo um jovem que lhe fala de seu amor não correspondido e que lhe pede conselhos para conquistar a amada indiferente, uma vez que não possui o dom da retórica. Rostand passa a ensinar diariamente ao rapaz os rudimentos da arte de dizer reflexões, frases espirituosas, citações eruditas. Quando a moça finalmente se declara apaixonada e confessa ao próprio Rostand sua surpresa em saber que o rapaz é tão sábio, romântico e falanteador, o escritor imediatamente relaciona a situação com a infeliz história sentimental de Cyrano de Bergerac, que incapaz de conquistar para si próprio o afeto de Roxana, a mulher amada, conquista-a utilziado palavras apaixonadas em nome de outro, seu jovem amigo Cristiano.

Assim brota na mente de Rostand o embrião da peça que o tornaria célebre. Enquanto elabora mentalmente o esboço da obra, começa a procurar o intérprete ideal para o papel, que exige não só um ator talentoso mas também dotado de certas características físicas. Quando Sarah Bernhardr, considerada a maior atriz da época e que já interpretara no palco personagens de Rostand em duas peças, lhe apresenta Constant Coquelin, ator de sua companhia de teatro, o entusiasmo é recíproco. Autor e ator entendem-se de imediato, e Rostand lança-se ao trabalho com redobrado vigor.

A obra, seguindo a tradição romântica, é escrita em versos. Rostand trabalha febrilmente, e chega a compor em uma só tarde 250 versos. A estréia, entretanto, em 27 de dezembro de 1897, no Théatre de la Porte Saint-Martin, em Paris, é marcada por uma atmosfera de inquietação e nervosismo por parte dos atoresx. O clima é de pessimismo, e o público, hostil e apreensivo, aposta no fracasso: a época das peças escritas em versos já passara, e a história amorosa do galante mosqueteiro não parece um tema dos mais empolgantes. Mas os personagens crescem e dominam os intérpretes, isolando-os do público, despojando-os de sua própria pessoa, integrando-os num mundo maior, onde a ficção magicamente supera e enriquece a realidade. Constant Coquelin como que incorpora a alma do personagem, de tal forma que, durante muitos anos, o papel nos palcos franceses seria exclusivamente seu. E impossível imaginar outro intérprete para Cyrano de Bergerac. Coquelin tem 56 anso quando o interpreta pela primeira vez. O herói, na realidade, deveria ter vinte anos menos; todavia, essa diferença de idade acaba alterando a própria criação de Rostand. A condição do homem de meia-idade, apaixonado poe uma mulher muito jovem, assume uma conotação paternal.

A grandiosidade da obra acaba preponderando sobre o pessimismo e a tensão. A nobreza de sentimentos do personagem, sua coragem, ousadia e sensibilidade encarnam o próprio ideal do povo francês, e a peça revela-se um estrondoso sucesso. O público, em pé, aplaude e exige a presença do autor: graças a ele Cyrano está imortalizado como uma figura quase lendária. Dez dias depois da estréia, o presidente da República francesa, Félix Faure, comparece ao teatro e, no intervalo da peça, entrega pessoalmente a Coquelin a Legião de Honra, a mais alta comenda desde 1802, criada por Napoleão Bonaparte.

Para o teatro, Rostand escreve ainda, em 1900, O Filhote de Águia. De inspiração histórica - mais uma vez cumprido o ideal romântico de glorificar os valores pátrios -, a peça conta a epopéia do duque de Reichstadt, que deseja ressuscitar o império de seu pai, Napoleão, mas não se sente com forças para tão grande empreitada. Mais uma vez, nessa obra, Sarah Bernhardt mostra sua personalidade e seu talento. Apesar da rejeição dos críticos, por ter a obra sido inspirada nos ultrapassados modelos românticos, ela é aplaudida com entusiasmo pelo público, por seu tema interessante e envolvente.

Em março de 1901, aos 33 anos, Edmond Rostand é eleito membro d Academia Francesa. Mas sua saúde, já debilitada, não lhe permite desfrutar por mais tempo e glória duramente conquistada. Enfraquecido e cansado, parte para a casa de campo da família em Cambo, na região basca, onde passa quase nove anos em silêncio. Em 1910 volta aos palcos parisienses com Chantecler, história do mundo animal baseada nas fábulas de La Fontaine. Depois dessa peça, considerada pela crítica como o epílogo infeliz de uma carreira notável por uma única obra, Rostand escreve ainda A Última Noite de Dom João, publicada postumamente, em 1921.

Em 1914 tem início a Primeira Guerra Mundial, e Rostand procura se alistar no Exército francês. Recuperado, em virtude de sua saúde cada vez mais fraca, Rostand retira-se definitivamente para o campo.

De sensibilidade vibrante, vivíssima imaginação e inesgotável riqueza de expressão, Rostand começa a perder aos poucos suas melhores qualidades por um excesso de virtuosismo. Passa o resto da vida torturado por sonhos de glória inatingíveis.

Em 2 de dezembro de 1918, quando a França comemora a vitória na Primeira Guerra, Edmond Rostand morre em Paris, aos cinquenta anos, em consequência de uma pneumonia. Sua imortal criação, Cyrano de Bergerac, contudo, continua percorrendo o mundo, empolgando platéias e fazendo a glória de muitos atores, tanto nos palcos quanto nas telas de cinema.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

domingo, 8 de setembro de 2013

Gustave Flaubert

Gustave Flaubert

1821 - Nasce Gustave Flaubert, em Ruão, Normandia, França, filho de Achille-Cléophas Flaubert e Justine Caroline Fleuriot.
1832 - Entra para o Colégio Real.
1836 - Conhece seu grande amor, Elisa Schlesinger, em Trouville.
1837-39 - Redige o drama Luis XI e as novelas Fantasia de Inferno, Paixão e Virtude e Memórias de um Louco.
1844 - Tem o primeiro ataque nervoso. Na primavera, o pai de Flaubert adquire a propriedade de Croisset.
1846 - Morrem o pai e a irmão do escritor. Flaubert instala-se em Croisset com a mãe e a sobrinha. Inicia o romance com Louise Collet.
1848 - Revolução contra o rei Luís Filipe. Morre Alfred Le Poittevin. Inicia As Tentações de Santo Antônio.
1849 - Viagem ao Oriente.
1852 - Golpe de Estado em Paris: ascensão de Napoleão Bonaparte. Flaubert retorna a Croisset. Inicia a escrita de Madame Bovary (*).
1856 - Madame Bovary  começa a ser publicada na Revue de Paris. Escreve Os Mercenários.
1857 - É aberto processo contra Flaubert, Absolvido, o escritor edita Madame Bovary com grande sucesso. Inicia o romance Salammbô.
1869 - Reescreve As Tentações de Santo Antônio. Publica A Educação Sentimental. Louis Bouillet morre em 18 de julho.
1870 - Caem Napoleão Bonaparte e a monarquia. Iniciada a Guerra Franco-Prussiana.
1872 - Morre a mãe do escritor.
1876 - Inicia o romance Um Coração Simples. Morre Louise Collet. Inicia Bouvard et Pécuchet.
1880 - Morre em 8 de maio, aos 58 anos.

(*) Madame Bovary
Madame Bovary é tido como o mais importante romance da literatura francesa. Nessa obra Flaubert narra a história do casamento, adultério e trágico fim de Emma Bovary, mulher que alimenta sonhos românticos e que, lentamente sufocada pela vida da província e pelo casamento tedioso, entregou-se a relações extraconjugais. A obra custou ao autor um processo por "ofensa à moral pública e religiosa e aos bons costumes".


Lá fora, o inverno. As flores do pátio morreram. As folhas dos plátanos foram ficando douradas e caíram. O pequeno rio gelado não é mais que um filete de vidro. Até mesmo a estátua de Corneille, sobre a ponte de pedra, está coberta de neve.

Ruão, 1821. O doutor Achille-Cléophas Flaubert não contempla a paisagem. Passa muitas vezes ante a janela embaçada. A sabedoria do médico-cirurgião se tornou inútil e a longa experiência profissional de nada lhe serve. Há horas que anda de um lado para o outro . De repente pára, apruma o ouvido, sorri: acaba de nascer seu segundo filho.

Os recém-nascidos são geralmente levados da maternidade para casa Mas a casa de Gustave Flaubert é o próprio hospital, o Hôtel-Dieu. Um lar sem dúvida pouco propício para o desabrochar do mundo alegre e puro de uma criança. Recompensa-o, no momento, ouvir histórias de fadas e relatos fantásticos ou brincar com os irmãos, Chille e Caroline.

Aos dez anos vai estudar no renomado Colégio Real. Gustave é uma criança distraída e desinteressada. Prefere cultivar e devorar romances em vez de estudar matérias obrigatórias. Nos intervalos da aula Gustave lê. Gosta de romances históricos, de aventuras maravilhosas, de poesias carregadas de sentimento que caracterizam o Romantismo. E um dia resolve escrever também. Compõe narrativas históricas e alguns contos, seguindo os padrões de suas leituras preferidas. Redige o semanário escolar Arte e Progresso.

Aos quinze anos descobre o teatro. Atraem-no as peças de Shakespeare, Alexandre Dumas, pai e Victor Hugo.

Decide, então, compor um drama em prosa, em cinco atos, Luiz XI. Pouco tempo mais tarde, no inverno de 1837, aos dezesseis anos, descontente com a aventura teatral, redige seu primeiro romance, Paixão e Virtude. Nessa obra imatura e juvenil vislumbram-se os germes de suas grandes criações: a heroína, Mazza, contém os traços que reaparecerão em Ema Bovary. A minúcia com que descreve a paisagem e o ambiente, o esforço para encontrar, em seu vocabulário de adolescente, a palavra exata, a preocupação de harmonizar temperamento e ação, enfim, todas as características do futuro Flaubert já se anunciam timidamente nessa primeria narrativa literária.

É nessa época que descobre o amor. Amor de adolescente por uma mulher casada, onze naos mais velha: Elisa Schlesinger. Tanto ela quanto o marido gostam muito de Flaubert. Levam-no a passeios de barco, convidam-no para jantar e se preocupam com seus problemas. Gustave nunca falou à amada de amor, nunca esboçou um gesto de carinho: adora Elisa em silêncio. Ela respeita-lhe os sentimento. Trinta anos mais tarde, numa carta apaixonada, Flaubert finalmente declarou que a amava. Embora viúva, não quis esposá-lo. O amor impossível e constante inspirou-lhe quatro livros: Memórias de um Louco (1838), Novembro (1842) e as duas versões de A Educação Sentimental. Na primeira versão, escrita em 1845, ainda sob o impacto de sua experiência amorosa, o jovem Flaubert confere um desenlace feliz a sua paixão, acreditando ainda que, para conquistar a felicidade, bastaria desejá-la com toda a força. Anos mais tarde, ao redigir a segunda versão da obra (1869), reconhece o engano de sua mocidade. Inicia o livro com uma saudosa evocação de Elisa Schlesinger (a sra. Arnoux do romance) e termina com a melancólica despedida de Frédéric Moreau (nome que atribui a si próprio no enredo).

Embora infeliz no amor e ávido de escrever, Flaubert compreende a necessidade de cumprir os desejos paternos: diplomar-se advogado. Vai para Paris em 1840, aos dezenove naos, estudar. Sem entender nada das aulas nem dos compêndios, cursa a faculdade. Deixa crescer a barba, fuma cachimbo sem parar, vai ao teatro sempre, frequenta bons restaurantes, gasta despreocupadamente todo o dinheiro que o pai lhe manda.

A reprovação nos exames, no entanto, abalam Flaubert, e o faz ter o primeiro ataque nervoso. E é esse ataque que faz com que os pais desistam de insistir para que ele conclua os estudos. Flaubert, então, abandona o curso e vai morar com a família na vila de Croisset, à margem do Sena. Ali passa o resto da vida, e assiste, no espaço de três meses, á morte do pai da irmã Caroline, falecida em 1846, aos 22 anos, após dar à luz uma menina.

Os anos passam. Em 1846 Gustave Flaubert conhece a flamejante Louise Collet. Separada do marido, mãe de uma adolescente, amante do filósofo Vítor Couisin, sucumbe de imediato á atração pelo escritor e com ele vive uma tempestuosa aventura.

A grande paixão de Flaubert, no entanto, continua sendo a literatura. Considera mais emocionante encontrar uma bela frase que amar uma bela mulher. Ao observar um fato interessante, ao experimentar novas emoções, fixa-as imediatamente num livro de notas, para usá-las mais tarde. Tal aspecto mostra o pendor de Flaubert para a escola literária realista, fato que o salva de criar nos exageros sentimentais característicos de alguns românticos decadentes.

Não é o caso de Flaubert. Sob a forma precisa e realista, revela um tédio em muito semelhante ao "mal do século" que, tendo sido desencadeado por Goethe, atingiria Chateaubriand, Alfred de Vigny, entre outros.

Demonstra ainda forte amor à natureza, lírico sentimento da paisagem, fantasias idílicas. Transfere para si os dramas vividos por seus protagonistas. Ao concluir Madame Bovary, declara: "Quando escrevi a cena de envenenamento senti na boca o gosto do arsênico, senti-me envenenado. Tanto que tive duas indigestões seguidas, duas indigestões reais...".

Flutuando entre um programa realista e o temperamento romântico, Flaubert acaba tão mergulhado na atividade literária que não cuida mais de Louise nem percebe as transformações políticas da França. Em 1848 rompe com a amante. O rei Luís Filipe entrega o poder a Napoleão Bonaparte. Flaubert acieta o fim da aventura maorosa sem sofrimentos e observa imperturbável os sangrentos episódios políticos. Quando muito se aborrece com a violência que testemunha. Não se envolve. Apenas registra alguns fatos que mais tarde relatará em suas obras. O que consegue sacudi-lo profundamente nada term a ver com a revolução ou com Louise Collet: a morte do amigo Le Poittevin. O próprio Flaubert fecha-lhe os olhos. É uma dor imensa, que abala sua saúde. Seguindo conselho médico, parte em viagem para o Oriente em outubro de 1849, onde pretende ficar por dois anos. Mas meses depois está de volta.

Antes de viajar, começara a redação de As Tentações de Santo Antônio, obra inspirada num quadro do pintor flamengo Bruegel, o amigo Du Camp não aprova a peça. Decepcionado, pois esperava uma reação mais entusiasmada, abandona a obra, para retomá-la apenas em 1869.

Aos trinta anos, o romancista pouco tem da beleza da juventude. A doença, o afã de escrever, a viagem ao Oriente e o desencanto amoroso aniquilaram-lhe a beleza. O rosto agora está sulcado de veias vermelhas. A boca oculta-se atrás de grossos bigodes. Os cabelos rareiam. Mesmo assim, Louise Coller ainda o procura. Entra, um dia, abruptamente, em sua casa de Croisset em busca do antigo calor e do casamento. Flaubert, irritado e impaciente, expulsa-a sem rodeios. Logo após, no entanto, reata com ela uma longa correspondência. Nela, muitos de seus planos e idéias ficam registrados para sempre.

Em junho de 1951, após longo período de inatividade, Flaubert inicia a composição da mais famosa de suas obras: Madame Bovary, que o tornará em pouco tempo um dos mais célebres romancistas da França. São cinco anos de trabalho, e finalmente Madame Bovary começa a ser publicada na Revue de Paris a partir de outubro de 1856, porém com cortes das cenas mais picantes. Alguns meses mais tarde, ainda que sem as cenas que certamente provocariam a cólera das autoridades, a cencura decide suspender a publicação de Madame Bovary e processar o autor. A justificativa oficial é a "imoralidade" da obra. A verdade, porém, é que o romance ataca a moral burguesa, posta a nu em sua fragilidade, convencionalismo e falsidade, através da caracterização da vida monótona e sem atrativos da província.

Flaubert tenta abafar o processo, recorrendo a amigos influentes. Em vão! Em janeiro de 1857, aos 36 anos, senta-se no banco dos réus. Oito dias depois, porém, é absolvido, e o livro, editado na íntegra, esgota-se em pouco tempo.

Muitos querem saber em quem Flaubert se inspirou para compor Ema Bovary. Diante da insistência de todos, declara: "Madame Bovary sou eu". A frase, encarada como gracejo na época, encerra muita verdade. Como Ema, Flaubert provoca fugir à mesquinhez cotidiana e sonhava com amores irreais, ansiando por uma existência mais plena.

Com o passar dos dias a fama acaba por cansar Flaubert. E ele volta a Croisset em 1857 para trabalhar em Os Mercenários. Concluída a obra, viaja para o Oriente. Começa a escrever - e publicar em capítulos - aidna nesse ano a obra Salammbô, que não é sucesso nem de crítica nem de público. Como que para esquecer o fracasso de Salammbô, reescreve A Educação Sentimental.

Corre o ano de 1870. A França sofre a invasão prussiana. Eclode a guerra entre França e Alemanha. A queda da pátria representa, para Flaubert, apesar do seu indiferentismo político, "a chegada do fim do mundo". O escritor volta a padecer dos ataques epiléticos da juventude. O pai já não está presente para tratá-lo com sangrias e dietas. O amigo Bouilhet morrera, assim como a mãe de Gustave. Elisa Schlesinger, viúva, encontra-se recolhida a um asilo de loucos. Flaubert só tem a companhia da sobrinha, e, em visitas breves, a do romancista Émile Zola,  do jovem contista Guy de Maupassant e do escritor russo Ivan Turgueniev.

A vida, que para ele nunca tivera atrativos, é agora um tédio infinito. A única distração ainda é escrever. Aos 55 anos, Flaubert elabora um conto que é uma obra-prima: Um Coração Simples. A morte de Louise Coller o deixa mais só. Começa a escrever Bouvard et Pécuchet, mas não consegue concluí-lo. Padece de terríveis sofrimentos físicos. A mão não tem mais firmeza. A palavra certa não lhe ocorre mais. Finalmente, um ataque de apoplexia dá-lhe o golpe mortal. O tédio dissolve-se, a vida pára. Num dia de primavera de 1880, o romântico mestre de Realismo francês resolve suas inquietações. Mas não lhe havia sobrado tempo necessário para cumprir a promessa que fizera a um amigo: "Um dia, antes de morrer, resumirei minha vida, tentarei contar-me a mim mesmo".



sábado, 7 de setembro de 2013

Goethe

Johann Wolfgang Goethe
1749 - Em 28 de agosto, em Frankfurt-sobre-o-Meno, nasce Johan Wolfgang Goethe, filho de Johann Kaspar e Katharina Elizabeth Goethe.
1759 - Em janeiro, Frankfurt é invadida pelos franceses.
1765 - Em outubro, Goethe começa a cursar a universidade, emLeipzig.
1766 - COnhece Anette Schomkopf, inspiradora de seus primeiros poemas.
1768 - Gravemente enfermo, volta a Frankfurt.
1770 - Em Estrasburgo, estuda Direito, Medicina, História e Ciências Políticas. Conhece Herder.
1771 - Licencia-se em Direito. Em novembro, escreve a primeira versão do drama Gotz von Berlichingen.
1772 - Apaixona-se por Charlotte Buff.
1773 - Publica a segunda versão de Gotz von Berlichingen. Inicia Fausto: uma Tragédia.
1774 - Publica Os Sofrimentos do Jovem Werther.
1775 - Na Páscoa, fica noivo de Lili Schonemann. Em outubro, rompe o noivado. Em novembro, parte para Weimar, a convite do duque Carlos Augusto.
1776 - Estabelece-se em Weimar.
1779 - Encena o drama Ifigênia em Táurida.
1786 - Em setembro, viaja para a Itália. Conclui a última versão de Ifigênia.
1787 - Em junho, volta a Weimar.
1788 - Conhece Christiane Vulpius, mais tarde sua esposa. Conclui Torquato Tasso. Conhece Schiller.
1797 - Termina o poema Hermann e Dorotéia.
1805 - Morte de Schiller.
1808 - Goethe publica Fausto: uma Tragédia (*).
1819 - Termina Divã Oriental.
1832 - No dia 2 de fevereiro termina o Segundo Fausto. Morre no dia 22 de março.

(*) Fausto - Werther
Considerado a maior personalidade da literatura alemã, Goethe escreveu romances, ensaios, poesias, autobiografia e textos para teatro. Dentre os últimos, o poema dramático Fausto é, certamente, dos mais conhecidos. Poucas obras, de cunho universal, são mais humanas que o Fausto de Goethe, produto de longa meditação, de quase toda uma existência.
Já em Os Sofrimentos do Jovem Werther, resultado de uma frustada experiência amorosa, Goethe, influenciado por Rousseau, cria uma obra totalmente original, de permanente atualidade psicológica, em que pese o desfecho trágico do personagem principal.


O criado sobe as escadas e abre a porta do quarto. São seis horas da manhã. A pálida luz da vela obriga-o a tatear pelo aposento, com passos incertos. De repente, pára. Vê a pistola caída no chão. Pouco além, encontra-se o amo. O sangue empoçado ao redor da cabeça. Na escrivaninha, algumas folhas de papel: uma confissão desesperada de amor, uma paixão impossível pr Charlotte. O jovem Werther está morto. Não sofre mais.

Alemanha, 1774. Johann Wolfgang Goethe pensa na repercussão do trágico fim de Werther, que havia provocado uma comoção geral entre os jovens. Logo se multiplicam suicídios idênticos. O gesto se havia tornado, em pouco tempo, sedutor, e a moda, alarmante, a ponto de ficar conhecida como o mal do século. Goethe observa o que está acontecendo e sente-se profundamente amargurado. Afinal, Werther não tinha existido verdadeiramente, era apenas uma criatura da sua fantasia, um personagem de ficção.

Aos 25 anos, Goethe fica conhecido na Europa inteira, nos meiso cultos do Novo Mundo e até no Oriente, graças ao "caso Werther". Mas, apesar da fama, resta-lhe uma lembrança amarga do livro, condenado por todos aqueles que entendiam a vida como luta e conquista e não como renúncia e fuga, e pela Igreja, que o colocara no Índice dos Livros Proibidos.

Dois anos antes da publicação do livro, Goethe enconta Charlotte Buff. "Era uma dessas mulheres que, sme inspirar paixão violenta, exerci invencível encanto sobre cada um dos que a rodeavam." Goethe não escapa à atração dessa mulher, que, sendo casada, não corresponde aos seus sentimentos. Enquanto escreve Werther, é Charlotte quem lhe serve de modelo paa a personagem feminina do romance. Mas a obra se apóoia também em outro fator: a surpresa e o espanto causados pela morte de um colega da Universidade de Leipzig, que se suicida para escapar a uma paixão sem esperança. Werther é, portanto, o fruto de uma experiência real e dolorosa, transfigurada através da imaginação. Essa é a razão por que o autor se refere ao romance que lhe trouxera popularidade como a uma "confissão geral". Afirmação verdadeira para toda sua obra, tão interligadas estão, nela, vida e ficção.
A experiência amorosa que lhe inspirara Werther não fora a primeira nem a última. Dos quinze aos 74 anos Goethe apaixona-se por diversas mulheres.

Goethe nasce em 28 de agosto de 1749, na cidade de Frankfurt-sobre-o-Meno. O pai, conselheiro da corte de Frederico II (1712-1786), é homem austero e culto, entusiasmado pela ciência e amante das artes. A mãe, vinte anos mais jovem que o marido, é uma pessoa alegre e disposta e tem especial talento para contar histórias. Wolfgang diria anso mais tarde que herdara do pai "a conduta séria da vida" e, da mãe, "a natureza alegre e o gosto de narrar".

Aos dez anos de idade Goethe presencia a ocupação de Frankfurt pelos franceses. O menino ouve falar a língua e entusiasma-se com as referências e os elogios feitos aos escritores franceses: Molière, Racine, Voltaire. A cultura francesa, e não a alemã, portanto, é que incentiva a vocação literária de Goethe, que já ensaia os primeiros versos.

Precocidade intelectual, sim, mas também precocidade sentimental. Aos doze anos o garoto tenta o namoro coma filha de uma atriz. Apesar da insistência, a menina não quer saber dele. Três anos depois, volta a se apaixonar: Gretchem. Goethe passa as noites insone e agitado pela paixão, mas ainda não terá êxito. Em 1765 viaja para Leipzig, onde inicia os estudos de Direito e conhece Anette Schomkopf. E dessa vez tudo parece ir bem: é correspondido em sua paixão. Mas, com o passar do tempo, a vida de Leipzig vai aborrecendo Goethe. Não está satisfeito nem com o que escreve nem com o ambiente tradicionalista  e acanhado, que não reconhece seu talento. Afasta-se de tudo e prende-se desesperadamente a Anette. Torna-se impaciednte, violento, provoca cenas de ciúme que deixam a amada cada vez mais desgostosa. Enfim, ela o abandona. Leipzig perde todo e qualquer atrativo para o jovem romancista. Volta a Frankfurt, doente e abatido. Durante a convalescença, sente-se invadido por uma religiosidade mística que fundamentaria sua posições artísticas e literárias posteriores, particularmente o Fausto: uma Tragédia, As Afinidades Eletivas e o Segundo Fausto. Reanima-se definitivamente a perspectiva de uma nova viagem.

Estrasburgo, 1770. O olhar segue as linhas da catedral e colhe silenciosamente as íntimas conexões daquela obra-prima da arquitetura gótica. Gostaria de ficar ali, deslumbrado, para sempre, observando o jogo de formas e luz, revelação plástica de uma poderosa genialidade.

Com a intenção de prosseguir os estudos iniciados em Leipzig, encontra em Estrasburgo os elementos decisivos de sua formação cultural. A catedral, cuja visão tanto o impressionara, despertaria o gosto e o interesse pelas obras alemãs medievais. E um acontecimento ainda mais decisivo o aguardava: o relacionamento com um professor de universidade, Herder. Sob a influência desse filósofo, Goethe liberta-se dos rígidos padrões clássicos franceses, interessando-se pela cultura grega, pelo Oriente, pela Idade Média e por Shakespeare. Herder também lhe abre os horizontes para a valorização da poesia popular.

Na época, os jovens intelectuais percebem que Herder não é o expositor de um rígido sistema filosófico, e sim o fermento de novas idéias para a cultura alemã e universal. Reúnem-se, então, em torno dele. O grupo, conhecido por "geração de 1750" - Goethe, Schiller, Klinger, Lenz, entre outros -, inicia um movimento sem precedentes, o Sturm und Drang (denominação extraída do título da peça de Klinger, que significa "Tempestade e Ímpeto"). O movimento opõe-se ao Iluminismo, que domina a cultura européia da época. Este afirma o predomínio da razão sobre os demais valores do homem e do mundo. Aquele coloca a vida como valor supremo e recusa todas as normas que, embora válidas racionalmente, podem limitar o desenvolvimento individual. O Sturm und Drang rompe de modo violento com conceitos e esquemas que regulam as relações individuais e sociais, políticas e morais. Repercute profundamente na arte, proclamando a liberdade absoluta do artista, cuja produção haveria de ser expressão do seu poder criador e não fruto da obediência a preceitos e técnicas formais preestabelecidas. A genialidade do artista é que ditaria as normas para suas obras. O ímpeto com que os iniciadores do movimento defendem essas idéias suscita, na Alemanha, uma verdadeira revolução em todos os campos da cultura e da vida. Na literatura a aceitação é completa e apaixonada.

São então publicados Werther e os primeiros dramas de Goethe. Em seguida, aparece Os Bandoleiros, escrito por Schiller. De um momento para outro, "a geração de 1750" projeta no exteriro uma literatura que nunca fora significativa. E agora os papéis se invertem: os escritores alemães passam a influir sobre a produção de outros povos.

O Sturm und Drang é um movimento de caráter nacional que desencadeia o Romantismo, Goethe é a figura mais destacada, por sua força vital e criadora, ao mesmo tempo reflexiva e turbulenta. Torna-se a personalidade mais notável de Estrasburgo, e sua fama ultrapassa as fronteiras da Alemanha. Suas obras são discutidas e aplaudidas. É o começo impetuoso de uma projeção literária que não haveria de declinar.

Durante o período em que vive em Estrasburgo, Goethe costuma fazer excursões para coletar documentos sobre a poesia popular. Numa dessas buscas, conhece Friederike Brion, a filha do vigário de uma aldeia das proximidades. Friederike reúne a graça da mulher citadina e a vitalidade ingênua da camponesa. Mas as tarefas que o haviam levado ao encontro com a jovem acabam por obrigá-lo a abandonar Friederike. Deve continuar o trabalho em outros lugares. A imagem de Friederike continuaria em sua memória, e ele a imortalizaria na personagem feminina de Fausto, Margarida.

Goethe viaja muito e frequenta meios sociais cultos. Durante o inverno de 1774 está de novo em Frankfurt. Certa noite é convidado a assistir a um concerto na casa de um rico negociante. Não presta atenção à música, nem mesmo às conversas cultas sobre literatura. Só tem olhos e ouvidos para Lili Schonemann, filha do anfitrião, de apenas dezesseis anos. Torna a vê-la alguns dias depois e percebe que Lili corresponde aos seus sentimentos. O poeta fica de tal modo inflamado que quer casar-se imediatamente. Porém a família de Goethe se opõe, porque a moça não pertence à nobreza.

Perturbado pelo motivo e pela oposição, fica num estado de profundo abatimento, e prefere não lutar por seu amor.

Deixa Lili, embora viesse a reconhecer, no fim d vida, que nunca estivera tão perto da verdadeira felicidade quanto na época daquele amor por Lili.

O fracasso na vida amorosa faz oposição a sua fama. Em 1775 o duque Carlos Augusto convida-o para administrar o ducado de Weimar. Não se afasta, porém, de sua produção literária, agora inspirada pro Charlote de Stein, por quem se apaixona. Mas Charlote não o ama. Extenuado pelo trabalhho, abandona Weimar em setembro de 1786. Viaja para a Itália, realizando o sonho cultivado desde a infância, quando contemplava as vistas de Roma nos quadros da sala da casa paterna. Durante os dois anos que passa na península Itálica, busca o segredo de uma vida simples, ardente, colorida, como a descrita nas Elegias Romanas. Em 1787 regressa a Weimar. Numa manhã ensolarada uma jovem bate à porta de sua casa: vai em busca de um favor para o seu irmão. Seu nome é Christiane Vulpius, tem 23 anos e é operária numa fábrica de flores artificiais. Goethe contempla as linhas delicadas do seu rosto e os longos cabelos ondulados. Sente o coração tocado pela beleza e pela simplicidade da moça. Surge mais uma paixão amorosa: essa se tornaria real e duradoura. Christiane torna-se a companheira de Goethe, de quem tem um filho no dia de Natal de 1789. O casal teria ainda mais quatro filhos, que morreriam logo após o nascimento. Mas somente dezoito anos depois Goethe resolveria casar-se com ela.

Em Weimar, o duque lhe havia retirado a maior parte das funções administrativas. Agora só se ocupa dos assuntos culturais. Sua grande preocupação é o teatro, que dirige a partir de 1791. Leva à cena algumas de suas peças. O público não as aprova. Faltam a seus dramas vibração e emoção, ao contrário do que acontece com os de Schiller, ídolo das platéias. Schiller é admirador de Goethe, e manifesta o desejo de poder desfrutar sua amizade. Com essa intenção é que lhe escreve uma carta em junho de 1794, convidando-o a colaborar numa revista que fundara. Goethe aceita o convite "co alegria e de todo o coração". Trocam correspondências assídua, e as cartas mostram a influência benéfica que cada um exerce sobre o outro. Nesse período a produção literária de Goethe aumenta, é fértil e intensa. Escreve Hermann e Dorotéia e Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, entre outros.

Em 1805 os dois amigos adoecem simultaneamente. Goethe recupera-se aos poucos, mas o estado de Schiller se agrava. Quando Goethe recebe a notícia da morte do amigo, confessa que acabara de perder metade de sua existência. Para se consolar, tenta concluir um drama que Schiller deixara inacabado, Demetrius.

Em 1808, aos 59 anos, publica Fausto: uma Tragédia. É uma reelaboração da História do Dr. Johannes Fausto, trabalho de autor anõnimo publicado em Frankfurt em 1587. Goethe dá nova dimensão à lendária figura do Fausto, que vendeu a alma ao diabo. Reúne todas as audácias de que é capaz, não apenas o mal como o bem, demonstrando que o diabólico e o celestial se insinuam nas relações humanas de forma terrível e perigosa. Assim como a de Fausto, a vida de Goethe também oscilara entre a sombra e a luz.

Em 22 de março de 1832, aos 83 anos, Goethe está sentado em uma poltrona, ao lado da cama. Seu estado de saúde havia piorado nos últimos dias, por causa de um resfriado. Começa a amanhecer, mas o quarto ainda está escuro. Goethe respira com dificuldade. Faz um sinal ao criado, como se estivesse pedindo algo. O criado aproxima-se e ouve suas últimas palavras. "Abram a janela do quarto, para que entre mais luz".

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O que me sobra

Lixo Extraordinário
Hoje o dia foi extremamente longo e proveitoso porque me dediquei parte dele à família e outra parte ao trabalho que foi bastante rendoso. No retorno para casa ainda fiz um sacolão no centro da cidade, voltei de táxi porque obviamente o dono do carro branco da casa como das últimas vezes não foi me buscar e o filho motorista também não podia (o que é diferente de não queria, menos mal). Após arrumar as coisas na geladeira, lavar ovos e sucos, uma tentativa falha de passar, um banho, um café, encher a máquina, descobri que o lixo não fora tirado pelos homens da casa. Já saindo para a rua para colocar créditos para os bons filhos eis que o saco de lixo rasga e derrama um caldo frio em meus pés que voltaram ao tanque, à toalha de banho, enfim, ganhei a rua, o quarteirão, a farmácia. Chego em casa, alguns minutos vãs tentando ver se a cria pequena nota a presença de 'alguém' que entrou em casa, neste caso, eu, e enfim, pensei: subindo para descansar. Minha eterna mania de retirar a lixeira do banheiro foi maior á subida da escada. Enfim, olhei o lixo e pensei: vai que o lixeiro ainda não passou... caminhei ao portão novamente e depositei o lixo sob os outros e quando passo a chave no portão notei que algo, parecia um bicho agachou e começou revirá-lo. Abri o portão e vi que uma mulher pequena, baixa, morena, uns trinta e poucos anos já ganhava o lixo da vizinha do outro lado da rua. Ela me olhou e disse: não tenho vergonha não, vivo disto. Então eu falei: a senhora recicla... tenho material aqui para reciclar. Lembrei que talvez fizesse também como no documentário lixo extraordinário.Ela voltou e disse: Deus do céu, não acredito. Eu fechei o portão e trouxe meu material de reciclagem que levo à empresa mas ela se decepcionou. E eu mais ainda com ela porque o lixo estava destroçado. Ela pegou um potinho de creme com um dedo no fundo e me mostrou: olhe este, é disto que vivo. Este está bonzinho. Não entendi bem, mas notei que ela precisava de coisas que continham restos. Talvez material de higiene. Então voltei e catei os restos de cremes que estavam no tanque a  mais de ano e ninguém usava para amaciar as mãos enquanto usa a área de serviço, peguei mais algum shampoo, potes, desodorantes e umas roupas. Ela brilhou o olho e me agradeceu tanto tanto que acho que em um culto não ouvi tanto o nome de Deus. Fiquei pensando que eu reclamava por ter lixo para colocar para fora e tantos não reclamam por carregar para dentro de suas casas o lixo dos outros. A mulher agachada no lixo me aguardava e parecia uma loba, essa foi a impressão. Sua lembrança resgatou uma caixa perdia em minha memória estudantil.  Uma vez na faculdade de Letras o colega de classe, Sabino, que virou prefeito da cidade de Rio das Ostras escreveu uma poesia vencedora do concurso de poesia, sobre o Lobishomem que era assim, um homem no lixo. Depois que ela se foi fiquei pensando que ela levou cremes e roupa mas será que queria comida... nem deu tempo de perguntar, ela parecia ter ganho o trabalho de uma semana em minha porta e foi somente o que me sobra, como tantas outras coisas.  


terça-feira, 25 de junho de 2013

Oscar Wilde

Oscar Wilde

1854 - Em 16 de outubro, em Dublin, nasce Oscar Fingal O´Flahertie Wills Wilde.
1864 - É matriculado na Portor School, de Enniskillen.
1871 - Em outubro é transferido para o Trinity College, de Dublin.
1874 - Ganha a medalha de ouro Berkeley no Trinity. Em outubro entra, como bolsista, no Magdalen College, de Oxford.
1875 - Viaja à Itália.
1876 - Em 19 de abril morre Sir William Robert Wills Wilde, seu pai.
1879 - Fixa residência em Londres. Apaixona-se por Lily Langtry.
1880 - Escreve o drama em cinco atos Vera, ou Os Niilistas.
1881 - Publica Poemas.
1882 - Realiza conferências nos Estados Unidos e no Canadá.
1883 - Visita Paris pela primeira vez. Escreve A Duqueza de Pádua.
1884 - Casa-se com Constante Lloyd e fixa residência na Tite Street, Chelsea. Atua como crítico literário em diversas revistas.
1987 - Passa a dirigir a revista feminina Womans´s Word.
1890 - Começa a sair em capítulos, no Lippincott´s Magazine, O Retrato de Dorian Gray (*).
1891 - A Duqueza de Pádua e apresentada na Alemanha e nos Estados Unidos.
1892 - Escreve O Leque de Lady Windermere. Proibida à última hora a apresentação de Salomé.
1893 - É apresentada com sucesso a peça Uma Mulher sem Importância.
1895 - Em janeiro estréia Um marido Ideal; em fevereiro, A Importância de Ser Honesto. Em abril tem início seu julgamento. No mês seguinte é condenado a dois anos de trabalhos forçados.
1896 - Conclui a obra De Profundis. Morre sua mãe, Jane  Francesca.
1897 - Em maio Wilde é posto em liberdade. Começa a escrever Balada da Prisão de Reading.
1898 - Em abril, em Gênova, morre sua esposa, Constance.
1900 - Em 30 de novembro, em Paris, Wilde morre de meningite.


(*) O Retrato de Dorian Gray
Único romance de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray foi considerado amoral, segundo os rígidos padrões da época. O jovem Dorian, dono de uma beleza inigualável, é tetratado por um amigo pintor. 
Como por encanto, apenas o retrato carrega as marcas do tempo, enquanto Dorian permanece com a aparência dos vinte anos. Torna-se dependente de sua juventude, mas se esquece de alimentar as virtudes de caráter. O retrato vai então assumindo um aspecto sombrio e assustador para Dorian.


Excelente médico, a reputação do dr. William Robert Wills Wilde levou-o a ser nomeado cirurgião-oculista da rainha Vitória. Sua mulher, Jane Francesca Elgee, tinha porte de rainha e ideais revolucionários. De sua pena saíram torrentes de retórica e um escrito bastante inflamdo - Jacta Alea Est -, firmado com o pseudônimo Speranza, que lhe deu notoriedade.

O dr. Wilde tinha 36 anos quando se casou com Jane, de 25. Dessa união nasceram três filhos: William, Oscar - em 16 de outubro de 1854 - e Isola, Jane queria que o segundo filho fosse uma menina. Recusou-se a aceitar o nascimento de mais um homem: por isso vestia-o com roupas femininas e tratava-o como a uma garota.

A casa dos Wilde, em Merrion Square, Dublin, era um centro aberto aos boêmios e literatos. Os boêmios, a convite de William. Os outros eram convidados de Jane, que estava decidida a se tornar inspiradora dos gênios literários.

Embora nunca tenha sido visto estudando com afinco, Oscar sempre obteve notas brilhantes. De 1864 a 1871 frequentou a Portora Royal School, tradicional col´gio protestante onde estabeleceu as bases de sua formação clássica. Durante os sete anos que ali passou, destacou-se não só pela inteligência mas pelos cabelos compridos, pela excentricidade das atitudes e das roupas. Não era muito querido dos colegas, mas parecia não se importar com isso. No fim do curso ganhou a medalha de ouro como melhor aluno do ano.

Em outubro de 1871 foi  para o Trinity College, em Dublin, onde continuou a trajetória iniciada em Portora. Ao sair, levava uma medalha de ouro e a amizade do professor John Pentland Mahaffy, considerado o maior helenista de seu tempo.

Três anos depois Wilde partiu para Oxford. Ganhou uma bolsa de estudos no Magdalen College e repetiu c om a mesma facilidade seu brilhante desempenho. Em 1875 realizou uma peregrinação de arte pela Itália: visitou Milão, Pádua, Veneza e Verona. Em novembro desse mesmo ano fez sua estréia como autor na revista da Universidade de Dublin, com a peça Chorus of Cloud Maidens (Coro das Donzelas de Nuvens), uma adaptação de As Nuvens, de Aristófanes.

O período de Oxford terminou com uma grande vitória:  o Prêmio Newdigate de Poesia, em 1878, por seu poema Ravena. Na verdade, mais do que a obra em si, o que impressionou os membros da universidade foi a apresentação segura e a declamação dos versos, num estilo muito aplaudido.

Quando saiu de Oxford, Wilde estabeleceu-se em Londres e atirou-se à luta pela glória. Apresentava-se em público com seus longos cachos, casaco de veludo, camisa larga de colarinho baixo, gravata de cores extravagantes. Na mão ou na lapela, sempre um lírio ou um girassol. Graças a algumas importantes amizades, Wilde penetrou na alta sociedade, apesar de não possuir dinheiro suficiente que lhe permitisse manter um ritmo de elegância e brilho social. Foi nesse ambiente que conheceu a deslumbrante Lily Langtry, famosa em Londres pela beleza. Por seu intermédio viveu sua primeira aventura em busca do belo e do amor. Sob a pressão da necessidade financeira, em 1880 escreveu uma peça - Vera - , que não obteve o  menor sucesso, e no ano seguinte uma coletânea de versos - Poemas -, que recebeu a consagração do público; em quatro semanas passou por quatro edições. Deixando o fracasso e êxito, Wilde partiu para Nova York na véspera do Natal de 1881, a fim de realizar uma série de conferências na América do Norte. Atravessou os Estados Unidos em todas as direções; falou aos mais variados auditórios; esteve preso por quebra de contrato e foi roubado por jogadores de pôquer.

Do Estados Unidos dirigiu-se para o Canadá, onde visitou Quebec, Montreal e Toronto. Antes de terminar sua aventura norte-americana, conheceu Marie Prescott e seu marido, que no ano seguinte montaram a peça Vera. Em janeiro de 1883 voltou à Inglaterra. Em seguida viajou para Paris, onde passou três meses e conheceu muita gente importante. Sarah Bernhardt, por exemplo, demonstrou simpatia e admiração pelo visitante. Mas a pessoa mais importante que ele conheceu em Paris foi Robert Sherad, que se tornaria seu maior amigo. Apesar da intensa vida social, Wilde conseguiu terminar duas obras em Paris: o poema A Esfinge e a peça A Duquesa de Pádua, recusada pelo teatro.
Em agosot de 1883 foi pela segunda vez aos Estados Unidos, para assistir à estréia de Vera. No entanto, o melodrama não foi bem-recebido pelo público e saiu de cartaz na primeira semana de exibição. De volta à Grã-Bretanha Wilde recomeçou seu trabalho de conferencista. Numa dessas conferênicas, em Dublin, conheceu Constance, única herdeira de uma grande fortuna. Além de bela e rica, a moça era amável, tranquila, de natureza suave e submissa. No dia 29 de maio de 1884 Wilde e Constance casaram-se na Igreja de St. James, Paddington. Do casamento nasceram dois filhos: Cyril em 1885, que morreria em ação durante a Primeira Guerra Mundial, e Vyvyan em 1886, que sessenta anos mais tarde iria dirigir a publicação do texto integral de De Profundis.

Em 1886 Wilde conheceu o jovem Robert Ross, em Oxford, e logo em seguida, levado por ele, iniciou as "experiências" homossexuais que se tornariam um hábito a partir de 1889.

Até aí o casamento ia bem. Wilde era um marido apaixonado e um pai dedicado. Pela primeira vez consentiu em ser assalariado, com a função de dirigir a revista feminina Woman´S World.

De 1887 a 1889 ocupou-se dessa tarefa, além de ter colaborado em vários periódicos de projeção nos meios literários. Como um chefe de família suburbano, viajava de trem, obedecia aos horários e deixou de fumar por exigência da revista. Era eficiente e consciencioso, sentia-se feliz. Entretanto, a monotonia desse tipo de vida começava a pesar sobre ele. Dessa forma, passou a chegar mais tarde ao emprego e a sair mais cedo. Em 1889 terminou o contrato, e ninguém falou em renová-lo. Seu orçamento ficou abalado, e ele viu-se obrigado-o a fazer inúmeras visitas às casas de penhor.

Esse período marcou o início de sua pordução literária mais intensa. Colaborou em várias revistas de projeção e escreveu O Retrato de Dorian Gray, para o Lippincott´s Magazine. O primeiro capítulo apareceu em junho de 1890. Em março de 1891 a obra saiu em volume.

É a história de um jovem belíssimo, Dorian Gray, que apaixonadamente cultua a beleza e o prazer. Basílio Hallward, um pintor seu amigo, presenteia-o com um retrato que o reproduz no auge da juventude. Em virtude de certo voto mágico, as vicissitudes não deformam o rosto vivo e perfeito de Dorina Gray; apenas o retrato sofre a passagem do tempo.

O romance não foi bem-recebido pelos críticos, principalmente pelos moralistas, que o consideraram uma obra "envenenadora dos costumes".

O escritor, no entanto, afirmava que sua obra era moralmente perfeita. Os críticos, porém, parecem não se ter dado ao trabalho de analisar profundamente as idéias do escritor. Wilde, por sua vez, tinha outras preocupações. Além de pregar a "arte pela arte" e de afirmar a superioridade do artista, ele estava começando a se interessar seriamente pelo teatro.

Foi George Alexander, do St. James Theatre, quem reavivou em Wilde a idéia de se tornar famoso como teatrólogo, apesar das infelizes experiências anteriores. Com cem libras adiantadas por Alexander, o escritor partiu para a região dos Lagos, na Escócia, de onde retornou com o texto de O Leque de Lady Windermere, em 1892. Animado com o sucesso, começou a escrever Salomé, única obra de um dramaturgo inglês escrita em francês. Sarah Bernhardt ia representá-la, em Paris. Entretanto, às vésperas da estréia, a censura proibiu o espetáculo. Em 1894 Salomé foi publicada em língua inglesa, e dois anos depois Sarah Bernhardt finalmente pôde representar nos palcos franceses essa peça, considerada um estudo sobre a maldade, uma obra-prima de sadismo.

O sucesso de uma peça constituiu estímulo suficiente para Wilde continuar escrevendo. Seu tempo e mais o dinheiro ganho com os direitos autorais eram dedicados a divertir Alfred Douglas, conhecido como Bosie, um belo jovem de vinte anos que ele conhecera em 1891. Naquela época o culto do homossexualismo estava em moda entre os rapazes, sobretudo entre os mais dotados de qualidades artísticas. Desse grupo, Bosie era líder absoluto. A segunda comédia de Wilde, Uma Mulher sem Importância, foi apresentada pela Companhia de Berbohm Tree no verão de 1893, com enorme sucesso. Durante os ensaios Tree recebeu uma cópia de uma carta de Wilde em que elogiava os lábios róseos de Alfred Douglas. Considerando-a perigosa, mostrou-a ao escritor, que, sem dar importância ao fato, atirou-a para um lado. Era o início de seus aborrecimentos. Pouco depois começou  a ser ameaçado por chantagistas.

Enquanto toda Londres comentava sobre Oscar Wilde e o "menino" com quem andava, o escritor concluía a peça Um Marido Ideal, que estrearia no início de 1895. Mal saíra de cartaz quando Wilde passou a trabalhar em The Importance of Being Earnest. Essa é a última e a melhor de suas comédias. Na noite de estréia, 14 de fevereiro de 1895, um grande público atravessou ruas cobertas de neve para chegar até o teatro.

Nesse mesmo mês, sentindo-se ofendido pelo pai de Bosie, John Sholto Douglas - o marquês de Queensberry -, que o acusara de sodomia, Wilde resolveu levá-lo ao tribunal por crime de difamação. O marquês foi intimado a apresentar-se a julgamento em Old Bailey. E, enquanto procurava provas para preparar sua defesa, Wilde irresponsavelmente partiu com Bosie para o sul da França.

No julgamento, o aristocrata foi declarado inocente, e o escritor, sob a acusação de praticar delitos contra pessoas do sexo masculino, foi detido. Seu advogado pediu permissão para prestar fiança, mas o magistrado a negou, baseando sua recusa na gravidade do caso. Entretanto, o julgamento foi adiado e Wilde ganhou liberdade por três semanas. Os amigos aconselharam-no a fugir para o continente. Aturdido e exausto, ele deixou-se ficar. Não tinha dinheiro nem para pagar o advogado. Seus livros foram retirados do mercado, e suas peças, dos teatros. Sua casa foi vendida e, durante o leilão dos bens, pilhada pelas pessoas presentes.

No dia 25 de maio de 1895 Oscar Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. Suas obras não podiam sequer ser mencionadas em sociedade. Nada ficou de seus dias de glória, luxo e elegância.

A única coisa que lhe amenizava o sofrimento na prisão eram as eventuais visitas do amigo Robert Sherard, da esposa, Constance, e do advogado R.S.Haldane, que se havia interessado pro ele. Haldane conseguiu-lhe pena, tinta e alguns livros. Wilde havia cumprido quase metade da pena quando soube da morte de sua mãe.

Nos últimos dias de cárcere Wilde escreveu a obra que encerra sua produção em prosa, publicada anos mais tarde sob o título De Profundis. Era uma longa carta de reprovação endereçada a Alfred Douglas, a quem acusava de ter contribuído para sua queda e ruína. Apesar de não demonstrar nenhum arrependimento pela conduta que provocara sua condenação, o autor descreve a si mesmo como um homem de caráter fraco, de natureza benevolente e comodista. Em outros trechos, discute assuntos de arte e filosofia e fala de suas crenças e descrenças.

Uma vez em liberdade, era certo que não poderia continuar na Inglaterra. Os poucos amigos que lhe restavam cuidavam de preparar sua instalação na França. Wilde não tinha mais lar. A esposa e os filhos estavam distantes, com as identidades disfarçadas.

Foi vive sozinho em Berneval, vila pesqueira na costa da França, com o nome de Sebastian Melmoth. Para distrair-se, voltou a trabalhar. Escreveu duas cartas sobre a vida no cárcere e começou a Balada da Prisão de Reading. Depois de muitas cartas e telegramas, acabou concordando em encontrar-se com Bosie: tomou um trem para Nápoles e, após uma curta permanência no Hotel Royal, alugou uma casa em Posillipo, a Villa Giudice, onde viveu com Alfred durante três meses.

Seu tempo em Posillipo foi gasto também na complementação e na revisão da Balada da Prisão de Reading, se melhor poema. Escrita numa linguagem simples, com frases curtas e imagens puras, a Balada impressiona por um realismo vivo, no qual é descrito o horror dos condenados em suas celas.
Como nenhuma firma respeitável quisesse editá-lo, o poema foi entregue a Smithers - que trabalhava com livros e pornografia e "publicava tudo aquilo de que os outros tinham medo". A obra foi impressa sem o nome do autor. As duas primeiras edições, de oitocentos exemplares, esgotaram-se rapidamente.

Wilde estava em Paris quando, na primavera de 1898, já separado de Bosie, soube da morte de Constance. Em março do não seguinte faleceu seu pai, com quem não mantinha relações de amizade havia muito tempo. Meses depois encontrou-se com Robert Sherard; às vezes avistava-se com Douglas, que nessa época vivia e Paris. O círculo de amigos diminuía cada vez mais. As pessoas respeitáveis sentiam-se ofendidas por sua embriaguez e outros hábitos. No outono de 1900 o escritor começou a queixar-se de dores de cabeça, que, com o passar dos dias, pioraram até se tornar insuportáveis.

Mesmo após uma pequena operação no ouvido, que serviu para amenizar as dores, sua situação continuava delicada. Alguns dias depois o abscesso do ouvido provocou uma inflamação no cérebro.
No dia 30 de novembro de 1900 Wilde entrou em coma e perdeu a consciêcica. Seu último desejo havia sido atendido: ser recebido na Igreja Católica Romana. Eram quase duas horas da tarde quando faleceu.

O serviço fúnebre realizou-se na Igreja de Saint-Germain-des-Prés. O cortejo entrou na igreja por uma obscura porta lateral. Os sinos não repicaram. Foi rezada uma missa simples. Os restos mortais foram levados para o Cemitério de Bagneux, nos arredores de Paris. Por nove anos apenas uma inscrição com o nome e as datas indicava seu túmulo. Somente em 1909, quando todas suas dívidas foram pagas, é que o trasladaram para um lugar de honra no Pére Lachaise. Sobre o túmulo foi erguido um monumento. Wilde seria lembrado para sempre.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Euclides da Cunha


Euclides da Cunha


CRONOLOGIA

1866 - Nasce Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, no município de Cantagalo, Rio de Janeiro.
1869 - Morre sua mãe.
1871 - Inicia os estudos em São Fidélis, no Rio de Janeiro.
1877 - Vai morar com os avós paternos, em Salvador, no Bahia.
1883 - Publica seus primeiros artigos no jornal estudantil O Democrata, do Colégio Aquino, do Rio de Janeiro.
188- Cursa o primeiro ano de Engenharia na Escola Politécnica.
1886 - Transfere-se para a Escola Militar da Praia Vermelha.
1888 - Após um incidente com o ministro da Guerra, dá baixa no Exército e muda-se para São Paulo, onde começa a colaborar no jornal A Província de S. Paulo.
1889 - Retorna à Escola Politécnica no Rio.
           Proclama a República, é reintegrado no Exército.
1890 - Casa-se com Ana Sólon Ribeiro.
1891 - Diploma-se em Matemática e em Ciências Físicas e Naturais.
1894 - É enviado para a cidade de Campanha, em Minas Gerais.
1896 - Desliga-se do Exército e passa a trabalhar na Superintendência de Obras de São Paulo.
1897 - Volta a colaborar no jornal O Estado de S. Paulo, antigo A Província de S. Paulo, que o envia a Canudos para cobrir os acontecimentos.
1899 - De volta de Canudos, escreve grande parte do livro Os Sertões em São José do Rio Pardo, SP.
1902 - Em dezembro é publicada a primeira edição de Os Sertões (*).
1903 - Em julho, é publicada a segunda edição de Os Sertões.
            É eleito para a Academia Brasileira de Letras.
            É nomeado membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
1904 - Ocupa o cargo de chefe da Comissão de Saneamento de Santos.
            É nomeado chefe da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus.
1905 - Passa todo o ano no Amazonas.
1906 - Trabalha como adido ao gabinete do barão do Rio Branco.
1907 - Publica Contrastes e Confrontos e Peru Versus Bolívia.
1909 - Termina de escrever À Margem da História.
            É nomeado para o cargo de professor de Lógica no Ginásio Nacional.
            Morre em 15 de agosto, assassinado pelo amante de sua mulher.


(*) Os Sertões
Em 1897 o jornal O Estado de S. Paulo enviou o jornalista e engenheiro Euclides da Cunha ao sertão da Bahia para cobrir a rebelião de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro. A descrição do que presenciou transformou-se num clássico da literatura brasileira, hoje publicado em onze idiomas em dezenas de países. A obra trata da natureza e da estrutura social do mundo sertanejo nordestino. De estilo bem-elaborado e prolixo, Os Sertões constitui a primeira análise sociológica sobre as populações camponesas carentes do Brasil.


À época do Império, na segunda metade do século XIX, o Brasil vive sérias questões políticas externas, como o rompimento de relações diplomáticas em 1863 com o Reino Unido e a intervenção brasileira no Uruguai em 1864. Um dos efeitos dessa intervenção resultaria no maior conflito armado já ocorrido no continente americano: a Guerra do Paraguai, que duraria cinco anos.

No auge do conflito, em 20 de dezembro de 1866, nasce no município de Cantagalo, então Província do Rio de Janeiro, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e de Eudóxia Rodrigues Pimenta da Cunha. Euclides e a irmã, Adélia, mal chegam a conhecer a mãe, que morre de tuberculose quando Euclides está com apenas três anos de idade.

Órfão de mãe, Euclides passa a infância e a adolescência na casa de parentes. Primeiro mora com duas tias, em Teresópolis e São Fidélis, onde inicia seus estudos. Depois, antes de se mudar para a casa de um tio que mora no Rio de Janeiro, passa dois anos em Salvador, com os avós paternos.

Ainda jovem, Euclides e alguns colegas fundam o jornal estudantil O Democrata, no qual publica suas primeiras produções literárias. As 84 poesias escritas nessa época trazem a forte influência de Castro Alves, Gonçalves Dias e Fagundes Varela.

Aos dezenove anos, Euclides decide seguir a carreira de engenheiro civil. Contudo, depois de cursar por um ano a Escola Politécnica, forçado talvez por motivos econômicos, transfere-se para a Escola Militar da Praia Vermelha. A revista da escola - A Família Acadêmica - tem nele um assíduo colaborador. Defensor extremado dos ideais republicanos, Euclides envolve-se, em seu primeiro no como militar, num incidente que seria comentado nos jornais antimonarquistas e chega a repercutir até nas tribunas do Senado Federal.

Inconformado com a proibição do diretor de impedir as manifestações dos estudantes no desembarque de Lopes Trovão - republicano que passara um período na Europa pro pressão do governo monárquico -, Euclides sai do alinhamento quando o ministro da Guerra passa a tropa em revista, atira-lhe aos pés o espadim e, diante dos oficiais boquiabertos, grita um viva à República.

Recolhido á enfermaria como insubordinado e afetado das faculdades mentais, seu desligamento dos quadros do Exército por incapacidade física sem maiores consequências, é conseguido graças à intervenção de alguns amigos seus junto ao imperador. Euclides transfere-se para a cidade paulista de Descalvado, onde seu pai é proprietário de uma pequena fazenda. Encontra boa acolhida entre os membros do Partido Republicano Paulista, que lhe franqueiam as páginas do jornal A Província de S. Paulo, para o qual escreve artigos de natureza política, assinando-se Proudhon.

Em 15 de novembro de 1889 o Brasil acorda sob um novo regime de governo. Cai o império, a monarquia já não dirige o destino do país. Um governo provisório é empossado: o marechal Deodoro da Fonseca exerceria o poder até novembro de 1891. Sem conseguir superar os obstáculos iniciais do regime republicano, Deodoro renuncia. É sucedido por seu vice, o também marechal Floriano Peixoto, mas levantes, revoltas e tentativas de golpe vão minando seu governo.

Euclides volta para o Rio de Janeiro e é reintegrado no Exército. Promovido a alferes-aluno, matricula-se na Escola Superior de Guerra, de onde sai em 1892 como primeiro-tenente da arma de artilharia e coadjuvante de ensino teórico na Escola Militar. Em 1893 irrompe a Revolução Federalista; a guerra civil se estenderia até 1895, já no governo de Prudente de Morais, empossado em novembro de 1894. Nessa época já está casado com Ana Sólon Ribeiro, de apenas dezesseis anos, filha do major Frederico Sólon Ribeiro, que fora o encarregado de entregar ao imperador deposto a ordem de abandonar o país no dia seguinte ao da Proclamação da República. A comprovada lealdade ao novo regime, porém, não impede Euclides de protestar, pelas páginas da Gazeta de Notícias, contra a proposta de um senador cearense de executar sumariamente todos os presos políticos recolhidos na ilha das Cobras, e em outros presídios, em represália à colocação de uma bomba, que não chegara a explodir, na escadaria da redação do jornal O Tempo. Entre os presos está seu sogro, então elevado à patente de general.

Em virtude desse protesto, é enviado para a cidade de Campanha como auxiliar da Diretoria de Obras Militares de Minas Gerais. Encarregado da construção de um quartel, recebe dos campanhenses uma inusitada homenagem para um jovem de 28 anos: a inauguração de uma praça com seu nome, em reconhecimento pelos serviços prestados.

Desiludido com a República, cujos ideais, porém, continua a defender, e decidido a abandonar a carreira militar, passa a dedicar a maior parte do tempo ao estudo de problemas brasileiros e de teorias socialistas, pelas quais já vinha se interessando havia algum tempo.

Desligado do Exército em julho de 1896, Euclides é nomeado engenheiro-ajudante de primeira classe na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo, a princípio em São Carlos do Pinhal.

Nesse período de transição e consolidação do novo regime, destacam-se os movimentos de cunho político e religioso que levam à Campanha de Canudos, no sertão da Bahia.

Euclides reinicia sua colaboração nos jornais com dois artigos sob o título único de A Nossa Vendéia, publicados em março e julho de 1897 em O Estado de S. Paulo. E é dando vivas à República que Euclides segue rumo a Canudos em agosto desse mesmo ano, como repórter do jornal e como adido ao Estado-Maior do Ministério da Guerra. Contudo, testemunha ocular das atrocidades cometidas, antes mesmo de deixar Canudos já tem em mente o plano de escrever uma obra de ataque às expedições enviadas para massacrar os sertanejos revoltosos.

De volta a seu emprego na Superintendência de Obras Públicas, Euclides logo é transferido de São Carlos do Pinhal para a cidade de São José do Rio Pardo, onde, entre 1898 e 1901, cuida da reconstrução de uma ponte sobre o rio Pardo.

Nesse período conclui a redação do livro que o consagraria como um dos maiores escritores da língua portuguesa, Os Sertões, que viria a ser publicado em dezembro de 1902, quando Euclides já estava residindo em Lorena. Com o sucesso imediato da obra vem consagração nacional, traduzida em sua eleição para a Academia Brasileira de Letras e em sua indicação para sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Essas distinções, contudo, não resultam em algo mais prático: um trabalho condizente, ao menos, com sua folha de serviços. Nem mesmo o sucesso de seu livro, com duas edições em menos de sete meses, lhe abre novas perspectivas de um emprego estável. Ao contrário, tendo seus vencimentos reduzidos, deixa o cargo na Superintendência de Obras e volta a colaborar na imprensa, como solução provisória para a sobrevivência da família. Provisória também é sua mudança para Guarujá, como chefe da seção da Comissão de Saneamento de Santos. Em 1904, de volta ao Rio, a iniciativa do barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, de nomeá-lo para chefiar a Missão de Reconhecimento do Alto Purus faz crer que seu valor começa, afinal, a ser reconhecido. Mas é justamente essa missão - levada a cabo com o escrúpulo e a seriedade com que Euclides se desincumbe de todas as tarefas que lhe são confiadas - que cria a série de circunstância que culminariam com sua morte.

Euclides se ausenta de casa durante mais de um ano: parte para o Amazonas em dezembro de 1904 e permanece lá durante todo o ano de 1905. Ao voltar, no início do 1906, encontra a mulher grávida de alguns meses e sua casa frequentada pelos irmãos Dilermando e Dinorá, amigos de Sólon, seu filho mais velho.

A primeira reação de Euclides ante a situação inesperada é a de fechar os olhos diante da evidência. Registra como seu filho, que morre pouco depois de nascer, não dá importância aos comentários que apontam o jovem Dilermando Cândido de Assis como seu rival e mergulha mais do que nunca nos trabalhos de que o incumbe o Itamarati, como adido sem função fixa ao gabinete de Rio Branco. Sua vontade, revelada mais de uma vez aos amigos, que nada sabem do que se passa, é voltar para o Amazonas, como fiscal das obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ou ir para a Venezuela, a fim de cuidar d demarcação de fronteiras em litígio. Mas esses projetos de fuga não se concretizam. Por insistência do escritor Coelho Neto, Euclides concorda em se inscrever no concurso para professor de Lógica no Ginásio Nacional. Tira o segundo lugar, mas assim mesmo é nomeado para o cargo. Catedrático, dá apenas dez aulas, a última no dia 13 de agosto de 1909. De personalidade contraditória, "misto de celta, de tapuia e grego", como se define em uns versos escritos a um amigo, a resolução de medir forças com um rival vinte anos mais moço, e além disso campeão de tiro, é mais do que um gesto desesperado, capaz de lavar sua honra: é um verdadeiro suicídio. Euclides não se sente mais com forças para viver. Além da situação familiar insustentável, os primeiros sintomas da tuberculose, que já vitimara sua mãe, começam a se manifestar.

Sem forças físicas e emocionais para adotar a linha de conduta otimista que ele próprio transmite em Uma Comédia Histórica - "levar as coisas a rir mesmo quando elas são de fazer-nos chorar" - e decidido a pôr termo a uma situação que já se prolonga por mais de três anos, Euclides cai morto numa troca de tiros com o amante de sua mulher numa casa da Estrada de Santa Cruz, junto à estação da Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, no dia 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade. O rigor científico, as preocupações humanísticas e a extraordinária habilidade poética são as características mais marcantes na produção literária de Euclides da Cunha. Sua obra-prima, Os Sertões, não é um frio relatório ou um conjunto de artigos jornalísticos neutros, mas a denúncia apaixonada da miséria e do isolamento da população do sertão nordestino e da ignorância, descaso e desumanidade com o que o governo central tratou o levante popular de Canudos.

Traduzido para mais de dez idiomas, Os Sertões assegurou ao seu autor projeção mundial e o reconhecimento como um dos grandes clássicos da literatura brasileira.

Leia mais sobre Euclides da Cunha na postagem Caravanas Euclidianas: Euclides da Cunha - Os Sertões - O Enigma dos Sertões, feita aqui no Blog "Nós Todos Lemos".


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sobressalto - Kenneth Cook


Sobressalto - Kenneth Cook
"um homem sentia que tinha que ou beber ou explodir seus miolos"
(ainda não tinha passado por sua cabeça que escolher o primeiro não evitaria o segundo)


Sobressalto, Kenneth Cook, tradução Maria Alice Stock. - São Paulo : Grua Livros, 2010.
 
Simplesmente surpreendente o livro Sobressalto, de Kenneth Cook, que adquiri após a dica de um caro leitor do Blog.
Leitura de um só fôlego, de adentrar madrugada com os olhos pregados nas páginas ávidos por acompanhar o rumo que leva o personagem principal, o jovem professor John Grant, em sua trajetória pelo semi-deserto australiano, naqueles cinco dias em que estivera em um pesadelo em vida.
A narrativa envolvente, econômica em palavras e um excelente poder de visualização, acompanha a trajetória desse professor  que parte rumo a seis semanas de férias em Sidney, onde pretende encontrar Robyn, uma mulher que imunda seus sonhos, após período escolar na minúscula Tibonga, passando por Bundanyabba, uma pequena cidade mineradora onde ocorre o todo o desfecho do romance.
Como em um pesadelo, após experimentar o jogo, Grant passa dias, sem o desejar, em companhia de sujeitos que não conhece, caçando cangurus, curando uma ressaca com outra, onde a cerveja é sempre servida gelada, em detrimento de água, bem escassa, que já não se recorda existir após ultrapassar o limite do seu senso moral. Assim vê surgir um Grant rude, que vivencia um mundo rude e selvagem esmagado pelo calor e encharcado de suor, poeira e cerveja, um mundo em que as pessoas têm jeitos de viver que lhe são complemente estranhos:
 
"Traço peculiar esse das pessoas do oeste, pensou Grant, eu você pudesse dormir com suas esposas, espoliar suas filhas, aproveitar-se deles, defrauda-los, fazer quase qualquer coisa que significaria no mínimo ostracismo na sociedade normal, e eles nem pareceriam notar. Mas recuse-se a beber com eles e você de imediatamente se torna um inimigo mortal. Que diabos...".
 
O romance foi publicado pela primeira vez em 1961 quando Kenneth Cook tinha trinta e dois anos. Era seu segundo romance e um sucesso editorial, publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos, traduzido para várias línguas, e adotado como leitura obrigatória nas escolas. Após quatro décadas de sua publicação o livro retém seu frescor, sua narrativa ainda envolve, e sua visão sombria ainda inquieta.

Kenneth Cook nasceu em Sidney, em 1929, e morreu em 1987. Escreveu 21 livros, vários roteiros e também trabalhou como diretor de cinema. De sua estada como jornalista em Broken Hill, pequena cidade no coração outback, o deserto australiano, vieram as observações que deram origem a Sobressalto, seu mais famoso livro, ou Ware in Fright. Chegou às telas em 1971, em um filme que ficou mundialmente conhecido pelo nome de Outback.
 

terça-feira, 14 de maio de 2013

1. Concerto de Orquestra de Macaé 2013



Nunca é tarde para anunciar que ocorreu nos dias 19 e 20 de Maio do corrente ano, o  Encontro de Orquestras de Macaé, realizado ao ar livre, no Parque da Cidade, na cidade de Macaé, a Princesinha do Atlântico.

O grande espetáculo  reuniu a Orquestra Tabajara, criada há 79 anos em João Pessoa, capital da Paraíba, considerada patrimônio da música brasileira como a mais antiga orquestra em atividade no mundo, segundo o Guinness Book (o Livro dos Recordes). Outras atrações: a Cia. Filarmônica com o espetáculo The Beatles Song, interpretando clássicos dos Beatles; a Sanfônica de São Paulo, com um grupo de sanfoneiros que fez um concerto em homenagem aos cem anos de Luiz Gonzaga; a Rio Renascence Consort, que faz ressurgir a magia das danças e canções que encantaram príncipes, reis e rainhas.


O evento contou com a Rio Camerata, cujo repertório abrange mais de quatro séculos de música, do Barroco aos nossos dias; e a Banda Sinfônica Nova Aurora, parte da Sociedade Municipal Nova Aurora, fundada em Macaé, em 1873, e que mantém a tradição das bandas de música da cidade.

O público foi brindado com muita música clássica ou erudita, porém, associada às diversas formas e tipos de sons feitos por diferentes formações orquestrais, desmitificando o conceito de que a música orquestral instrumental é feita somente para grupos sociais elitizados.

O Primeiro Encontro de Orquestras de Macaé foi efetivamente um local de encontro de gerações, com público diversificado a apreciar e celebrar os 'bons tempos' musicais.


terça-feira, 16 de abril de 2013

Charles Dickens

Charles Dickens

"Minha prece de moribundo foi que os homens possam pelo menos aproximar-se mais uns dos outros do que quando eu, pobre-coitado, estive entre eles".
(Charles Dickens)



1812 - Nasce em 17 de fevereiro, em Portsmouth, Inglaterra, Charles John Huffam Dickens, 
segundo filho de John e Elisabete Dickens.
1822 - A família Dickens transfere-se para Londres.
1824 - John Dickens é preso por causa de dívidas. Charles trabalha numa fábrica de graxa.
1827 - Charles emprega-se como aprendiz na casa de um procurador judicial.
1831 - Dickens torna-se repórter parlamentar.
1833 - Sua primeira crônica é publicada no Monthly Magazine.
1835 - Aparecem, em dois volumes, os Esboços de Boz.
1836 - Charles casa-se com Catherine Hogarth em 2 de abril.
1837 - É coroada a rainha Vitória. Dickens publica As Aventuras do Sr. Pickwick.
1838 - Surge Oliver Twist em fascículos mensais.
1838-39 - Publica Vida e Aventuras de Nicholas Nickleby.
1840-41 - Publica A Loja de Antiguidades e Barnaby Rudge.
1842 - Em janeiro, Dickens viaja para os Estados Unidos. Ao regressar, publica Notas Americanas.
1843-44 - Edita seu primeiro  conto de Natal e Martin Chuzzlewitt.
1844 - Viaja a Itália.
1845 - Publica Carrilhões e Uma História de Duendes.
1849-50 - Surge a obra-prima David Copperfield.
1852 - Publica A Casa Sombria.
1854 - Publica Tempos Difíceis.
1856 - Dickens adquire a mansão de Gad´s Hill.
1857 - Conhece a jovem atriz Ellen Ternan.
1858 - Separa-se de Catherine.
1859 - Publica Um Conto de Duas Cidades (*).
1864-65 - Publica Nosso Amigo Comum.
1867 - Em novembro, faz sua segunda viagem aos Estados Unidos.
1869 - Inicia O Mistério de Erwin Droog.
1870 - Charles Dickens é apresentado à rainha Vitória.
Morre no dia 9 de junho. É sepultado na ala dos poetas da Abadia de Westminster, em Londres.

(*) Um Conto de duas Cidades
A narrativa de Um Conto de Duas Cidade tem início em 1775, quando começam a germinar os movimentos que culminariam na Revolução Francesa.
Camponeses e artesãos conformam-se diante das injustiças e abusos por parte da nobreza, pois sabem que o tempo da vingança está próximo. Neste clássico da literatura inglesa do século XIX, Dickens toma como referência a Revolução Francesa para apontar os problemas sociais e políticos da Inglaterra, pois teme que a história se repita em seu país.


No início do século XIX, a Inglaterra tem uma tarefa a cumprir: conquistar mercados para o escoamento de suas riquezas naturais industrializadas. Através de uma rede de estradas e canais de navegação e de uma grande frota mercantil, a Inglaterra realiza em tempo relativamente curto uma revolução industrial que a transforma na "oficina do mundo".


 A Revolução Industrial propicia à coroa britânica o acúmulo de grandes riquezas e à classe média considerável fortuna, mas simultaneamente acarreta graves problemas sociais e administrativos. As cidades inglesas não comportam o acúmulo de gente que para lá se desloca em busca de trabalho. Há dificuldades de abastecimento de água, carência de esgotos e de habitações. As fábricas que se multiplicam têm, no entanto, urgência de todos os braços disponíveis. Homens, mulheres e crianças mourejam nos tornos e teares mecânicos desde o nascer do sol até noite alta.

Criança ainda, Charles Dickens, nascido em 1812, sente na carne as agruras da Revolução Industrial. Seu pai, John, escriturário da Tesouraria da Marinha na cidade de Portsmouth, não tem habilidade para controlar seus minguados proventos. Vive de empréstimos, sem conseguir saldá-los. Um dia os credores se impacientam com ele. Às pressas, resolve mudar-se para Londres, levando consigo a família.

Num sótão de uma rua pobre da cidade grande, sem saúde para brincar com outros meninos, Charles lê Tom Jones, de Fielding, Dom Quixote,de Cervantes, As Mil e Uma Noites (contos árabes medievais anônimos). Não pode ficar muito tempo imerso nesse mundo de sonhos e aventuras:  as dívidas do pai não permitem: perseguido por credores, JOhn Dickens acaba preso. A esposa, Elisabete Dickens, vê-se obrigada a vender vários pertences da casa, entre os quais os livros. Sem meios para se sustentar, transfere-se para a prisão de Marshalsea, onde o marido cumpre pena.

O menino não acompanha a família: está com doze anos mas precisa trabalhar. Vive na casa de parentes, e durante eis meses cola rótulos em potes de graxa É seu primeiro contato com a Revolução Industrial.

Com a morte da mãe, Jolhn Dickens recebe uma pequena herança: salda as dívidas e pode sair da prisão. Charles então manifesta o desejo de estudar.  O pai concorda. Elisabete, sempre contrária às iniciativas do filho, não aprova a idéia: o menino na escola representa um gasto a mais, um ganho a menos. Mas Charlis insite, chora e ganha a questão. Entra na Wellington House Academy, mas a estabilidade financeira da família não permite que ele continue na escola por muito tempo Tem de arrumar um novo trabalho. Quer ser ator, mas precisa ganhar dinheiro. Emprega-se, então, como aprendiz na casa de um procurador judicial.

´Para quem sonha com o palco, não é agradável passar os dias ouvindo queixas. Decide então aprender estenografia para conseguir uma ocupação mais atraente. Assim, aos vinte anos, estenógrafo diplomado, Dickens começa a trabalhar no jornal True Sun. A vida de repórter é dura. Viaja pelas províncias inglesas em incômodas caleças, ás vezes fica sem comer e frequentemente redige á luz de vela. Mas graças à veia humorística e à sede de aventuras, também se diverte, anotando episódios pitorescos.

Nessa época, a antiga aristocracia rural e a emergente burguesia industrial lutam pelo poder político.
Dickens acompanha de perto as contendas e rixas entre os candidatos e eleitores de ambas as facções. Tudo o que vê conta ao amigo Kolle, companheiro de redação, que se empolga com a maneira com que Dickens conta suas experiências. É Kolle quem apresenta Dickens a várias pessoas da alta sociedade londrina. Dickens conhece Mary Beadnell, por quem se apaixona, mas os pais da moça não aprovam o namoro e mandam-na para Paris.

Para curar a mágoa, Dickens escreve. Timidamente, valendo-se da escuridão da noite, envia ao Monthly Magazine uma pequena crônica, sem assinatura. Um mês mais tarde verifica, surpreso, que seu escrito não só fora aproveitado como é lido por muita gente. O sucesso leva-o então a redigir uma série de crônicas, em linguagem leve e fácil, narrando fatos reais ou fictícios da classe média londrina. Assina-as sob o pseudônimo Boz, no Morning Chronicle, o jornal londrino de maior circulação na época.

A popularidade de Boz o leva a ser convidado a fazer os textos de alguns desenhos do famoso artista Robert Seymour para publicá-los em capítulos mensais.

Boz aceita o convite, mas impõe que, em vez de redigir de acordo com os desenhos, quer que seus textos sejam ilustrados. Nascem, assim, As Aventuras do Sr. Pickwick, publicadas em 1837. A Inglaterra ri e chora com as "aventuras". E Dickens casa-se com Catherine Hogarth, filha do redator-chefe do Morning Chronicle. Não parece ter sido amor o motivo do casamento. Triste e apática, Catherine não se harmoniza com o espírito irrequieto e fértil do escritor. Mary Hogarth, a bela cunhado de dezessete anos, ajuda-o a carregar o fracasso conjugal: inteligente, vivaz, alegre, Dickens confia-lhe seus sonhos e problemas. Mas sua presença no mundo é breve. Um dia, sem nenhum sintoma de doença, Mary Hogarth cai e morre - simplesmente. O romancista fica tão abalado que suspende a série "Pickwick", encerra-se em si mesmo, emudece. Só mais tarde, em 1840, amenizada a mágoa, imortalizada a cunhada como a pequena Nell, na obra A Loja de Antiguidades. Durante meses os leitores acompanham emocionados a história da menina, e, ao sab~e-la enferma, enviam a Dickens torrentes de cartas, suplicando-lhe que poupe a gentil criatura. Foram inúteis os rogos. Como Mary, também a jovem personagem morre, provocando violente comoção no país inteiro.

Mal termina As Aventuras do Sr. Pickwick, Dickens começa a publicar, em 1838, Oliver Twist, em fascículos mensais ilustrados. O rápido êxito faz o escritor concluir um livro e iniciar outro, sem interrupção. A necessidade de sentir-se amado, a ânsia de reconhecimento público, a vaidade exacerbada não lhe permitem descansar. Após Oliver Twist, escreve, ainda em 1838, Vida e Aventuras de Nicholas Nickleby, A Loja de Antiguidades, em 1840, e Barnaby Rudge, 1841.

Após tanta atividade, Dickens resolve viajar para os Estados Unidos. A príncípio recebido como ídolo, provoca antipatia da imprensa local ao declarar, num banquete em sua homenagem, que os ediotres americanos não pagam direitos autorais aos romancistas ingleses que publicam. Somando à reação da imprensa algumas peculiaridades que lhe pareceram desagradáveis, Dickens retorna à Inglaterra e redige uma série de crônicas (Notas Americanas, 1842) e um romance (Martin Chuzzlewitt, 1843-1844) criticando asperamente os Estados Unidos.

É época de Natal, o coração de Dickens se enternece mais que de costume. Tanto se dispõe a interpretar as emoções populares da época natalina, e escreve seu primeiro conto de Natal. Uma mensagem de amor, que ele entrega à cidade de Londres, partindo em seguida para a Itália, de onde só retorna um ano depois, para ler em público um conto de Natal: Carrilhões, uma História de Duendes, inspirado pelos sinos de Gênova. Feliz com o êxito da leitura, dirige-se a Paris, onde é recebido pelos grandes escritores franceses de então: Victor Hugo, George Sand, Théophile Gautier e Alphone de Lamartine, entre outros.

Novamente em Londres, Dickens redige sua obra-prima, em 1849, aos 37 anos: David Copperfield, uma quase autobiografia.

O anos seguintes são de produção literária: escreve em 1852 A Casa Sombria. Em 1854, publica Tempos Difíceis.

É nessa época, no ano de 1856, que Dickens concretiza um sonho antigo: adquire uma mansão, a Gad´s Hill. O menino que pregara rótulos em potes de graxa vencera na vida. Famoso, rico, admirado, querido, realiza até a ambição de ser ator. Depois do êxito com a leitura dramática de Carrilhões, Uma História de Duendes, Dickens apresenta-se em uma série de espetáculos semelhantes. O amigo Wilkie Collins escreve a peça Abismo Gelado, cujos papéis principais são interpretados por Dickens e suas filhas mais velhas e por Collins.

Na representação desse drama, em 1857, Dickens conhece a jovem atriz Ellen Ternan e se apaixona por ela: está com 45 anos. Catherine fica sabendo de sua paixão por Ellen. Dickens teme qe o público descubra e o acuse de hipócrita, ele que tanto falara em nome da virtude. O medo de perder a estima dos leitores leva-o a publicar nos jornais uma longa declaração explicando por que se separava da esposa.

Dá como justificativa a invencível incompatibilidade de gênios - estranhamente constatada após vinte anos de casamento e dez filhos.

Corre o ano de 1859, e Dickens conclui Um Conto de Duas Cidades, livro que toma como ponto de referência a Revolução Francesa para mostrar o problemas sociais e políticos da Inglaterra, pois teme que a situação do país visinho se repita em seu país natal. O relacionamento com Ellen continua intenso. A nova paixão lhe dá mais despesas, as quais procura cobrir com um trabalh incessante. E a saúde vai se debilitando. Hemorragias constantes interrompem-lhe as atividades. Uma espécie de paralisia dificulta-lhe os movimentos da perna esquerda. Ainda vive onze anos entre um palco e outro, um romance e outro. Uma segunda viagem aos Estados Unidos, aos 65 anos, traz-lhe reconhecimento e prestígio.

Em 1870 é apresentado pessoalmente à rainha Vitória, numa penosa audiência que o obriga a manter-se várias horas de pé, com fortes dores na perna. No dia 9 de junho desse mesmo ano falece repentinamente. Seu último romance, O Mistério de Erwin Drood, que começara a escrever no ano anterior, fica sem conclusão.

Como chorara com suas histórias, a Inglaterra chora sua morte. Toda a vida, toda a obra de Dickens pode ser resumida na frase do personagem Stephen, o mineiro pobre de Tempos Difíceis: "Minha prece de moribundo foi que os homens possam pelo menos aproximar-se mais uns dos outros do que quando eu, pobre-coitado, estive entre eles".

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