sábado, 14 de abril de 2012

Maurice Druon - O menino do dedo verde


"- Aprendi - respondeu Tistu -  que a medicina não pode quase nada contra um coração muito triste. Aprendi que para a gente sarar é preciso ter vontade de viver. Doutor, será que não existem pílulas de esperança?
O Dr. Milmales ficu espantado com tanta sabedoria num garoto tão pequeno.
- Você aprendeu sozinho a primeira coisa que um médico deve saber.
- E qual é a segunda, doutor?
- É que para cuidar direito dos homens é preciso amá-los bastante."

O menino do dedo verde, de Maurice Druon (1918-2009), tradução de D. Marcos Barbosa / ilustrações de Marie Louise Nery - 87a. ed. - Rio de Janeiro:José Olympio, 2009.

Acabo de reler o belíssimo livro O menino do dedo verde, que desperta e resgata nobres sentimentos acerca da vida, do se fazer no mundo, um ensaio filosófico escrito poeticamente e com extrema leveza.
  
Assim como O pequeno príncipe, em que o autor é tradutor, O menino do dedo verde passou pela terra com sua misteriosa personagem. O autor se utiliza de Tistu, um menino do dedo verde e suas incríveis proezas orientado por um velho jardineiro mensageiro da paz para levar sérias reflexões acerca da vida humana, seja em um conglomerado de favelas, as realidades de um presídio, um hospital, um jardim zoológico ou ainda de uma fábrica de canhões. Enfim, em que condições sociais ainda há esperança de um mundo em que as flores não tem tido vez, distanciando o homem cada vez mais de sua essência, a busca da felicidade.

Maurice Druon, ex-ministro da Cultura, da Academia Francesa desde 1966, nasceu a 23 de abril de 1918, em Paris. Já em 1936arrebatava prêmios e menções honrosas por sua aplicação nos estudos secundários, complementados no Liceu Michelet, de onde saiu para a Sorbonne e a Escola de Ciências Políticas. Aspirante de Cavalaria no início da Segunda Guerra Mundial, participou ativamente da luta antinazista em 1940, quando chegou à Inglaterra via Espanha, a fim de se engajar nas chamadas Forças Francesas de Libertação. É quando participa de programas de radiofusao e- com o tio também escritor Joseph Kessel em 1943 - compõe a letra do canto Les partisans, ainda hoje ouvida com grande emoção pelo povo francês. Depois do desembarque aliado no continente europeu, Maurice Druon passa a correspondente de guerra não só no seu país, mas igualmente na Alemanha e Holanda.

Maurice Druon tem a sua obra marcada pela violência e vigor caracterísitcos de sua vida pessoal, e - segundo críticos de seu país - se distingue pela honestidade com que soube aliar ficção literária com História, onde o choque das armas e o trágico das paixões contam umafase importante na literatura francesa contemorânea. Escreveu uma infinidade de livros.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Manifesto - Carla Guedes

Auto-retrato - Carla Guedes

Assim me mostro de repente:
Rebelde, com causa anunciada.
Gesticulo, falo, trago o coração à tona
Desobedeço minhas próprias regras
Que é pra ver se ainda há esperança.

Jovens, tão jovens embora
De discurso tão fluido
E com tintas tão vivas nas mãos:
Querem escrever o futuro que escolheram
Pra chamar de seus.

Seus sonhos foram outros, talvez
Mais pintados de ouro que de suor.
Mas não se assustam, nem correm:
Se unem, irmanizam, e abraçam
Que é pra ver se ainda há esperança.

Escrevem panfletos, pregam nas praças,
Se preparam para o pior:
Privações, coações, não serem ouvidos
Mas nem por isso desistem
Porque não esperam, e sabem o porquê.

Avançam trôpegos, roucos, cansados
Por vezes até incompreendidos,
Por muitos até improváveis.
Mas fazem valer cada minuto da existência
Que é pra ver se ainda há esperança.

Encontrei este belo poema da poetisa e escritora Carla Guedes no site A arte procurando ser reposta. Retrato de uma geração.

terça-feira, 27 de março de 2012

Metáforas da Alma - Paulo Roberto de Aquino Ney

Metáforas da Alma -
Paulo Roberto de Aquino Ney
Metáforas da Alma, de Paulo Roberto de Aquino Ney, um livro que tenho um imenso carinho por falar de poesia com extrema sensibilidade, com elevadíssima linguagem. Retorno à poesia de Paulo Ney, como quem tem sede em uma longa caminhada desértica, uma ducha refrescante à alma ressequida de boas letras.
Difícil é selecionar apenas um poema. Inicio pelo primeiro:

ASAS
Nascem... renascem...
(todos os dias)
tantos poemas
entretecidos
dentro de mim,
que sempre e sempre,
sempre os navego,
do ponto cego
ao próprio ponto
que vê os idos
tempos sem fim.
E tu, Poeta,
sempre navegas
o teu poema?
E, se navegas,
acaso pregas
nas linhas cegas
os teus sinais?
Se não o fazes,
serão capazes
as tuas frases
originais?
E, quando escreves,
acaso dizes
as cicatrizes
do teu porão?
Se, tudo isso,
tu não consegues,
melhor que ancores
os teus escritos
(mesmo bonitos)
no porto-morto
da tua palma:
versos sem alma
não voam não!

Segundo prefácio de Arlete Parrílha Sendra, Metáforas da Alma cumpre a missão da poesia: abrir para o outro que está além-linguagem expressível. Não como recusa do dizer mas como metáforas possíveis do ato de dizer o que a alma armazena E a terrível saga da incompletude do dizer.

Paulo Roberto de Aquino Ney nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) no dia 18 de junho de 1943. Pertence ao Instituto Campista de Literatura, à Academia Campista de Letras e à Academia Fluminense de Letras. Possui quatro livros de poesia publicados: Estrelas de meu céu, Reminiscências, Degraus de Pedra e Sargaços.

sábado, 17 de março de 2012

Eduardo Galeano - Mulheres

Mulheres - Eduardo Galeano
Mulheres  / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - Porto Alegre: L&P, 1998, é um simpático livro que aborda como tema mulheres distintas e singular , sejam jovens ou não, mas todas com a característica de surpreender pela maneira de pensar, agir. Enfim, Maravilhosas mulheres por quem o autor teve um olhar diferenciado como a querer eternizá-las em suas letras.

PÁSSAROS PROIBIDOS

Nos tempos da ditadura militar, os presos políticos uruguaios não podem falar sem pedir licença, assoviar, sorrir, cantar, caminhar rápido nem cumprimentar outro preso. Tampouco podem desenhar nem receber desenhos de mulheres grávidas, casais, borboletas, estrelas ou pássaros.
Didaskó Pérez, professor, torturado e preso por ter idéias ideológicas, recebe num domingo a visita de sua filha Milay, de cinco anos. A filha traz para ele um desenho de pássaros. Os censores o rasgam na entrada da cadeia.
No domingo seguinte, Milay traz para o pai um desenho de árvores. As árvores não estão proibidas, e o desenho passa. Didaskó elogia a obra e pergunta à filha o que são os pequenos círculos coloridos que aparecem nas copas das árvores, muito pequenos círculos entre a ramagem:
- São laranjas? Que frutas são?
A menina o faz calar:
- Shhhh.
E em tom de segredo explica:
- Bobo. Não está vendo que são olhos? Os olhos dos pássaros que eu trouxe escondidos para você.

Eduardo Galeano nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1940. Em sua cidade natal foi chefe do semanário Marcha e diretor do jornal Época. Em Buenos Aires, Argentina, fundou e dirigiu a revista Crisis. Esteve exilado na Argentina e Espanha desde 1973; no início de 1985 regressou ao Uruguai. Desde então reside em Montevidéu. É autor de vários livros, traduzidos em mais de vinte línguas, e de uma profusa obra jornalística. Recebeu o prêmio Casa das Américas em 1975 e 1978 e o prêmio Aloa dos editores dinamarqueses em 1993. A trilogia Memória do Fogo foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, USA) em 1989.
Em abril de 1999, foi distinguido com o Prêmio à Liberdade da Cultura, outorgado, em sua edição inaugural, pela Fundação Lannan, dos Estados Unidos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

La Fontaine - fábulas - ilustradas por Gustavo Doré



"Sirvo-me de animais para instruir os homens.
Algumas vezes oponho, através de uma dupla imagem
O vício à virtude, a tolice ao bom senso.
(...)
Uma moral nua provoca o tédio:
O conto faz passar o preceito com ele,
Numa espécie de fingimento, é preciso instruir e agradar
Pois contar por contar, me parece de pouca monta."
(Jean de La Fontaine)

La Fontaine fábulas, ilustradas por Gustavo Doré, Vol. I e II, editora Landy, 2003 é um livro para se ler antes de dormir como nos tempos infantis. Leitura leve, irreverente, para todas as faixas etárias. Consigo imaginar o impacto que o autor causava nos leitores da época em que escrevia e publicava seu maravilhoso trabalho, tão atual até os dias de hoje. Um livro imprescindível na estante.


FÁBULA VII

O VELHO, O RAPAZ E O BURRO

O mundo ralha de tudo,
Tenha ou não tenha razão,
Quero contar uma história
Em prova desta asserção.

Partiu um velho campônio
Do seu monte ao povoado;
Levava um neto que tinha,
No seu burrinho, montado.

Encontra uns homens que dizem:
"Olha aquela que tal é",
Montado o rapaz, que é forte,
E o velho trôpego a pé!

- Tapemos a boca ao mundo,
O velho disse: - Rapaz,
Desde do burro, que eu monto,
E vem cainhando atrás".

Monta-se, mas dizer ouve:
"Que patetice tão rata!
O tamanhão no burrinho,
E o pobre pequeno à pata!

- Eu me apeio, diz, prudente,
O velho de boa fé;
Vá o burro sem carrego,
E ambos vamos a pé".

Apeiam-se, e outros lhes dizem:
"Toleirões, calcando a lama!
De que lhes serve o burrinho?
Dormem com ele na cama?

- Rapaz, diz o bom do velho,
Se de irmos a pé murmuram,
Ambos no burro montemos,
A ver se ainda nos censuram".

Montam, mas ouvem de um lado:
"Apeiem-se, almas de breu,
Querem matar o burrinho?
Apost que não é seu!

Vamos ao chão, diz o velho,
Já não sei que hei de fazer!
O mundo está de tal sorte,
Que não se pode entender.

É mau se monto no burro,
Se o rapaz monta, mau é;
Se ambos montamos, é mau,
E é mau se vamos a pé!

De tudo me tem ralhado;
Agora que mais me resta?
Peguemos no burro às costas,
Façamos inda mais esta!

Pegam no burro; o bom velho
Pelas mãos o ergue do chão,
Pega-lhe o rapaz nas pernas,
E assim caminhand vão.

"Olhem dois loucos varrido!
Ouvem com grande sussurro, -
Fazendo mundo às avessa,
ornados burros do burro!"

O velho, então, pára, e exclama:
"Do que observo me confundo!
Por mais que a gente se mate,
Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,
Sirvam-nos estas lições;
É mais que tolo quem dá
Ao mundo satisfações".

CURVO SEM MEDO

Esta edição, traduzida por poetas brasileiros e portugueses, como Raimundo Corrêa, Machado de Assis, Bocage, Filinto Elísio entre outros, mais se enriquece com as ilustrações de Gustavo Doré, famoso ilustrador que também produziu criações para o D. Quixote, A Divina Comédia e Orlando Furioso, obras-primas da literatura universal.

São apresentados quatro livros com as mais belas fábulas:

Livro Primeiro
O lobo e o cão (Barão de Paranapiacaba)
O velho e a morte (Gonçalves Crespo)
O burro vestido com a pele do leão (Curvo Semmedo)
Ossos do ofício (João de Deus)
O rato anacoreta (Costa e Silva)
O leão e outros animais (Fernando Leal)
A raposa e as uvas (Bocage)
O bêbado e sua mulher (E. A. Vidal)
O leão que vai à guerra (Filinto Elísio)
O leão e o mosquito (J. I. D´Araujo)
O lobo e o grou (a cegonha) (Malhão)
Os animais enfermos da peste (Machado de Assis)
O leão velho (Bocage)
O rato da cidade e o do campo (Barão de Paranapiacaba)
O burro e os donos (Curvo Semmedo)
Os dois pombos (José Antonio de Freitas)
O lobo e o cordeiro (Barão de Paranapiacaba)
O homem e a sua imagem (Teófilo Braga)


Livro Segundo
O homem e o bosque (Costa e Silva)
A morte e o desgraçado (Gomes Leal)
O corvo e a raposa (Bocage)
A andorinha e os outros passarinhos (B. de Paranapiacaba)
O homem de meia idade (Couto Guerreiro)
O gato e o macaco (Garcia Monteiro)
A raposa e a cegonha (J. I. D´Araujo)
O veado enfermo (Filinto D´Almeida)
O leão vencido pelo homem (Bocage)
A panela de ferro e a panela de barro (Acácio Antunes)
Os lobos e as ovelhas (J. I. D´Araujo)
A ingratidão dos homens acerca da fortuna (Filinto Elísio)
As rãs que pedem rei (Barão de Paranapiacaba)
Os médicos (Curvo Semmedo)
O filósofo cita (J. Mariano de Oliveira)
O camelo (Couto Guerreiro)
O avarento que perdeu o tesouro (Ramos Coelho)
O leão caçando com o burro (Barão de Paranapiacaba)
A lebre e as rãs (E. A. Vidal)

Livro Terceiro
Os mateiros e mercúrio (Costa e Silva)
Os zangãos e as abelhas (Barão de Paranapiacaba)
O leão doente (Curvo Semmedo)
Os dois dragões (Júlio de Castilho)
A cerva e a vide (Couto Guerreiro)
O mono e o leopardo (Silva Ramos)
O leão e o caçador (Barão de Paranapiacaba)
O rato e o elefante (A. Lopes Cardoso)
A raposa derrabada (Curvo Semmedo)
Os ladrões e o asno (Gomes de Amorim)
O sol e o vento (Couto Guerreiro)
Os dois touros e a rã (Barão de Paranapiacaba)
A ostra e os pleiteantes (Filinto Elísio)
A leoa e a ursa (Raimundo Correa)
As orelhas da Lebre (Curvo Semmedo)
A águia e o mocho (Jaime Vitor)
O lavrador e seus filhos (Couto Guerreiro)
O gato e o rato velho (José Antonio de Freitas)
O sol e as rãs (Antonio Pitanga)
O carvalho e a cana (José Ignácio D´Araujo)

Livro Quarto
O congresso dos ratos (Barão de Paranapiacaba)
O menino e o mestre-escola (João C. de Menezes e Souza)
A fortuna e o rapaz (Couto Guerreiro)
O passarinho, o açor e a cotovia (Maximiliano D´Azevedo)
O pastor e o mar (Filinto Elísio)
O marido, a mulher e o ladrão (Hipólito de Camargo)
O velho, o rapaz e o burro (Curvo Semmedo)
O macaco (Barão de Paranapiacaba)
O mergulhão, a silva e o morcego (Couto Guerreiro)
A torrente e o rio (Silva Ramos)
O cisne e o cozinheiro (Filinto Elísio)
O porco, a cabra e o carneiro (J. I. D´Araujo)
A cotovia e os filhos (Curvo Semmedo)
O milhafre e o rouxinol (Barão de Paranapiacaba)
Os dois galos (Couto Guerreiro)
O estatuário e a estátua de Júpiter (Raimundo Corrêa)
O doido que vende siso (Barão de Paranapiacaba)
O elefante e o macaco de Júpiter (Dr. Brasílio Machado)
O homem e a cobra (Costa e Silva)
Os peixes e o pastor que toca flauta (J.I.D´Araujo)

La Fontaine nasceu em 1621 em Château-Thierry. Em 1647 foi para Paris, onde iniciou carreira literária. Frequentou a Corte de Luis XIV e os meios literários parisienses. Chegou a frequentar um grupo de que faziam parte Racine, Boileau e Moliére. Escreveu contos, cultivou a poesia, também escreveu a comédia "Climene". Mas são as suas Fábulas que ganharam fama. Para escrevê-las tomou temas de Esopo e Fedro e da mitologia clássica. Tratou esses temas de modo reinventivo. Como bom poeta que foi, soube manejar o verso com brilho, o que resultou em um belo conjunto, atraente pela leveza e pelo espírito irreverente e irônico que nele imprimiu. Por isso suas fábulas resistiram ao tempo e continuam a atrair leitores de todo o mundo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Augusto dos Anjos - Cem Anos de Poesia

Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS
Vês, Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O eijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Augusto dos Anjos nasceu no dia 20 de abril, em Cruz do Espírito Santo, PB e morreu em 12 de novembro, em Leopoldina, MG.
Augusto dos Anjos era filho de usineiros que entraram em decadência no rastro das transformações políticas e econômicas causadas pela Abolição e pela Proclamação da República. Formou-se em Direito, no Recife, onde tomaria conhecimento das doutrinas materialistas e evolucionistas de Comte, Darwin e Spencer, que marcariam a sua visão do mundo e a sua poesia. Formou-se em 1907, retornando à terra natal como professor do Liceu Paraibano. Em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde lecionou no Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II.
Publicou seu primeiro poema, o soneto Sau-dade, aos 15 anos. Se amigo Orris Soares descreve o poeta, na época: "Apresentava uma magreza esquálida, faces reentrantes, olhos funods, olheiras violáceas e testa descalvada." Augusto dos Anjos estava condenado pela crítica ao ostracismo. Os modernistas, por exemplo, consideravam seus poemas verborrágicos, de profundo mau gosto. Foi o público leitor quem deu fama póstuma ao poeta. Carlos Augusto Correa ressalta "a maneira inaugural como o poeta desnaturalizou o cimento de uma ideologia caduca e parnasianíssima, e soube trazer para o bojo do poema, numa espécie de síntese rejuvenescida, o material científico e filosófico de sua época."
Seu único livro publicado em vida, Eu, financiado por ele e pelo irmão Odilon, é hoje um dos mais lidos no Brasil, com mais de 40 edições, que vem apresentadas por nomes como Álvaro Lins, Francisco de Assis Barbosa, M. Cavalcanti Proença, Alceu Amoroso Lima, Otto Maria Carpeaux e Manuel Bandeira. Ferreira Gullar observa que "a necessidade de não se desprneder do vivido, de não traí-lo, de não disfarçá-lo com delicadezas, de erguê-lo de sua vulgaridade à condição de poesia e o salto que a sua obra significa". E enfatiza: "Há poetas que escreveram muitos livros mas só alguns poemas realmente significativos. E poucos são aqueles que conseguiram realmente criar uma obra poética, um universo poético próprio. Augusto dos Anjos é um destes."
Em Augusto dos Anjos há uma ausência de poemas de amor carnal, que, para ele, não era amor, não passava de "comércio físico nefando". O amor-amizade, no qual acreditava, encontrou-o em 1910, ao se casar com Esther Fialho, com quem teve dois filhos.
Em 1914, já tuberculoso, mudou-se para Leopoldina, em Minas Gerais, onde foi nomeado diretor do Grupo Escolar. Meses depois, morreu como viveu: na obscuridade. Um amigo, ainda enlutado, ao encontra-se por acaso com Olavo Bilac, recitou versos de Augusto dos Anjos. Ao terminar, Bilac exclamou: "Era este o poeta que morreu? Ah, então fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa."
A história provou o contrário.

VANDALISMO

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva gúlgida e nas colunatas
Verem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E ergendo os gládios e brandido as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

"E a minha obscuridade bem o contata; esta mesma obscuridade que herdei dos meus antepassados, e que tem sido o fanal da minha modesta existência, porque nela fulge a luz do dever, hoje tão infelizente ofuscada pelos falsos reflexos das convenções transitórias."
(Augusto dos Anjos)

"Augusto dos Anjos morreu aos 30 anos. Não creio, porém, ue, se vivesse mais, atenuasse as arestas de sua expressão formal. Esta lhe er congênita e persistiria sem dúvida, como persistiu na maturidade de Euclides da Cunha, em cuja prosa deparamos com o mesmo ímpeto explosivo e indomável."
(Manuel Bandeira)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Manoel de Barros

Manoel de Barros
"Tudo que não invento é falso."

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.

Manoel de Barros nasceu no dia 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá, MT. Na primeira infância, Manoel de Barros foi criado numa fazenda, no Pantanal mato-grossense. Aos oito anos, porém, o pai o mandou para o Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro, internato onde permaneceu até completar o curso secundário. Manoel tinha saudades de casa, não conseguia se concentrar nos estudos, e era considerado um mau aluno. Aos poucos, começou a se interessar pelos livros. Leu Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e padre Antônio Vieria. "Só aos 13 anos descobri a forma de escrever. E foi lendo o padre Vieira. Descobri a sintaxe que produz o equilíbrio sonoro das palavras."
Após o internato, Manoel de Barros mudou-se para uma pensão no bairro do Catete e ingressou na Faculdade de Direito, onde participou ativamente da militância política de esquerda. Nesta época, tornou-se membro do Partido Comunista, que só viria a abandonar anos mais tarde. Na faculdade, experimentou o desregramento dos sentidos proposto por Rimbaud e identificou-se com a obra de Oswald de Andrade - uma vez que, para ambos, a poesia estava justamente nos desvios das normas da linguagem.
Depois de formado, Manoel de Barros voltou para o pantanal. Em seguida, fez longas viagens pela América do Sul e conheceu Nova York, onde ingressou em cursos de cinema e de história da arte. O primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, de 1937, produzido artesanalmente pelo autor e alguns amigos, teve apenas 21 exemplares impressos.
Com a morte do pai, em 1949, Manoel de Barros herdou as terras de Cuiabá. Tornou-se fazendeiro, mas não abandonou o verso: fundiu seu interesse pelo estudo da filologia do universo telúrico do pantanal, abolindo tanto as fronteiras entre os reinos vegetal, mineral e animal, quanto as que existem entre as categorias gramaticias.
O poeta só alcançou o reconhecimento na década de 80, pelas mãos de Millôr Fernandes e Antônio Houaiss, e teve seus poemas reunidos sob o título Gramática expositiva do chão. "A evolução de meu trbalho em relação ao primeiro livro é linguística. Também me tornei mais fragmentado, o que é consequência do mundo moderno, sem ideologias. Com o tempo, a gente perde a unidade divina", explica o próprio poeta.
Em 1996, com seu Livro sobre nada, Manoel de Barros ganhou o prêmio Nestlé e passou a viajar pelo Brasil por conta de um reconhecimento cada vez maior. Nos últimos anos, vem publicando vários livros infantis num reencontro do "alquimista do verso" com o menino pantaneiro. Surpreendendo a cada livro, Manoel ressalta sua identificação com a obra do romancista mineiro Guimarães Rosa, a quem disse uma vez: "Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."

"Gosto de fazer remontamentos de imagens. E oralidades remontadas. Faço colagem. Tentei uma gramática do êxtase, mas não encontrei."

"Não conto nada na reta, escrevo sempre nas linhas tortas, como digo aliás num poema. Na minha poesia parece que tem muita coisa de fora, mas é tudo de dentro. Sou muito preparado de conflitos."
'Não acredito em inspiração. Primeiro anoto tudo em meu pequeno caderinho, juntando minhas experiências existenciais e linguísticas. Quando termina esta fase, que dura dois, três, quatro anos, vou aos cadernos para catar os poemas e dar-lhe a forma definitiva."
(Manoel de Barros)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Livro - objeto de desejo



História da Literatura Ocidental - Otto Maria Carpeaux (1900 - 1978) Editora Leya / Livraria Cultura - 04 Volumes - 3.040 páginas - Lançamento original de 1947.


Livro, eterno objeto de desejo. Pensando nos motivos que me levaram a aquisição no término do ano passado, da coleção de Otto Maria Carpeaux - História da literatura Ocidental lembrei de que talvez não seja apenas o conhecimento simplesmente da capacidade narrativa do autor Otto (conhecer  "O Livro de Ouro da História da Música, do referido autor, já é um bom motivo), como também talvez não apenas o gosto que tenho por temas que envolvam história. Procurando ainda justificativas para minha aquisição lembrei de um artigo de um jornal da UFRJ,  que faz referência a que as vendas de livros são feitas por influência da internet, ou do que nela absorvemos (veja artigo que publiquei aqui - Literatura - arte sem limite):

"Mercado a crescer que tem dependido e muito das redes sociais que tem feito este papel de escoar a produção literária, através da internet, como informa a Câmara Brasileira do Livro (CBL), que apenas 0,87% dos livros do Brasil são vendidos desta forma (também boca a boca dos autores e leitores)."


Talvez minha decisão tenha sido baseada em um conjunto de fatores e  me deixei influenciar definitivamente por um blog que divulga literatura, o Mundo de K e antecipei esta aquisição que terá utilização a médio prazo mas que é um eterno investimento para quem é amante das letras e pretende um dia ter uma biblioteca.

 
Otto Maria Carpeaux, um autor que vale a pena investir!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Carlos Ruiz Zafón - A sombra do vento



Após anos de paquera, chego ao livro A sombra do vento. Na verdade, queria começar pelo livro O jogo do anjo entretanto para a leitura destes livros de Carlos Ruiz Zafón, melhor utilizar esta sequência, fui previamente informada por um grande leitor familiar. Esta época do ano é ótima para priorizarmos leituras de longos romances e a escolha de Carlos Ruiz Zafón é certamente estimulante, viável.

O autor Carlos Ruiz trabalha maravilhosamente o romance A sombra do vento com seu jogo intrincado de ritmo eletrizante e um suspense magnífico que prende o leitor por toda a trama. O tema do livro não é para ninguém botar defeito, especialmente aos ligados à arte de uma boa leitura ou simplesmente apreciar os livros como objetos especiais, cada qual com seu mistério, com sua história que leva a imaginação a patamares fora da normalidade da vida cotidiana. Assim trata o autor de forma especial os livros e inicia com a história do livro de nome similar, a sombra do vento, que é dado de presente a um menino de 10 anos, Daniel Sempere, levado por seu pai a um misterioso lugar no coração do centro histórico: o Cemitério dos Livros Esquecidos. O jovem literalmente adentrar na história do maldito livro, modificando sua estrutura de vida através de suspense e busca aguçada por desvendar os mistérios que inicia sua vida com a chegada deste presente recebido, levando-o a procurar pistas do desaparecido autor do livro que o fascina, transformando-o em homem ao iniciá-lo no mundo do amor, do sexo e da literatura.

O suspense, ambientado na Espanha franquista da primeira metade do século XX, nas trevas do pós-guerra,  compõe a bela história valorizando o tão amado livro impresso, como protagonista, e seu poder místico, onde as construções literárias são bem amarradas deixando o leitor sedento do instante posterior, e já desejando conhecer o livro posterior O jogo do Anjo tão logo saudoso deixe esta excelente narrativa.

"- Daniel, bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos.
Salpicando os corredores e as plataformas da biblioteca se podia ver, perfiladas, uma dezena de figuras. Algumas delas se viraram para cumprimentar de longe, e reconheci o rosto de vários colegas de meu pai do grêmio dos livreiros de sebo. À luz de meus dez anos aqueles indivíduos pareciam uma conspiração de uma confraria secreta de alquimistas, com as costas viradas para o mundo. Meu pai ajoelhou-se ao meu lado e sustentando o olhar me disse, com essa voz delicada das promessas e confidências.
- Este lugar é um mistério. Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vo~cê vê, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito cresce e a pessoa se fortalece. Faz já muitos anos que meu pai me trouxe aqui pela primeira vez, este lugar já era velho. Quase tão velho quanto a própria cidade. Ninguém sabe ao certo desde quando existe ou quem o criou. Conto a você o que me contou meu pai. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, nós, guardiãos, os que conhecemos este lugar, garantimos que ele venha para cá. Neste lugar, os livros dos quais já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, viverão para sempre, esperando chegar algum dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja, nós os vendemos e compramos, mas na verdade os livros não têm dono. Cada livro que você vê aqui foi o melhor amigo de um homem. Agora só tem a nós, Daniel. Você acha que poderá guardar este segredo?"

sábado, 21 de janeiro de 2012

avante, soldados: para trás - deonísio da silva

avante, soldados: para trás -
deonísio da silva
São Paulo: Leya,
2010, 168p.
"O romance consegue recontar os pequenos grandes dramas do viver cotidiano, criando personagens complexos e contraditórios, através dos quais consegue enfatizar o absurdo desta e de toda guerra" - José Saramago.

Continuo com a prosa de Deonísio da Silva no livro Avante soldados: para trás. A curiosidade de ler um romance de Deonísio me fez interromper a leitura do livro A sombra do vento e adentrar nas letras do autor, que flui facilmente. O tema do romance que era para ser de difícil acesso é colocado levemente, apesar das descrições presentes dos horrores da guerra, mais especificamente a Guerra do Paraguai - a retirada da Laguna, um dos episódios mais dramáticos da história brasileira, relatado neste livro, vencedor do Prêmio Inernacional Casa de las Américas.
A fome, as táticas de guerrilha da cavalaria inimiga e os efeitos devastadores do cólera são vivamente traçados neste romance que por vezes tem certa ironia nos seus relatos. O autor entremeia com personagens hilários as histórias que remontam além do campo de batalha onde é desvendado um Brasil do século XIX, primitivo e rude, onde as relações sociais, econômicas e culturais são detalhadamente descortinadas.

"Cronistas e historiadores de encomenda não foram senão os escribas dos regimes de dominação cuja imagem ideológica, aliás, lhes cabia construir, mascarando-a na exlatação cívica. A revolução a realidade ou a sua impugnação dá-se, então, pela literatura. Por isso, a verdadeira identidade das nações latino-americanas deve ser mais facilmente encontrada nos personagens fictícios dos narradores que nos docmentos historicametne maliciosamente distorcidos." anuncia o prefácio de Flávio Loureiro Chaves, professor da UFRGS, um dos melhroes intérpretes da literatura brasileira.

O autor cumpriu seu papel recriando, sem maniqueísmos ou ranços nacionalistas, os horrores da guerra: a presença silenciosa do inimigo, os ataques de surpresa, as torturas físicas e psíquicas de um exército despreprado, os gestos de loucura e a permanente tensão. Tudo isto através de uma linguagem que os olhos correm rapidamente através das páginas chegando ao término do livro com a sensação de quem estava a ouvir uma história relatada em um fim de tarde, à beira de uma sombra. O sentido da vida, através do relato dos soldados quase filósofos, seres que não abdicam de sua humanidade, seja romântico, corajoso, ético, lírico, cético, simples, enfim, uma série de caraterísticas afloradas em seus personagens: o coronel Camisão, Agripino, o cabo Argemiro, Mercedes, o paraguaio, a professora Lili e Yolanda, personagens cativantes, ternos, inspiradores.

"- As cabeças são dos nosso - explica o chefe do pelotão interceprado -, as xongas são do inimigo.
Respira um pouco e completa:
- Braços e pernas não fui eu quem quis trazer. Não pude impedir alguns excessos dos meus homens, e eles esquartejaram algumas residentas, essas mulheres que acompanham os soldados paraguaios. Estruparam as pobres próximas antes. Também isso não pude impedir.
O comandante dá um berro no meio da noite:
- Mas para que um espetáculo desses?
- Ainda não terminou - diz o cabo Argemiro.
Com efeito, chega outro soldado com mais um saco muito sujo de sangue. Há movimentos dentro dele. O coronel Camisão, um pouco perplexo, interrompe sua fala exasperada e seus conselhos e admoestações sobre "a arte de bem guerrear, sem exageros" e aguarda a surpresa. O soldado levanta a volsa à altura dos ombros e despeja uma porção de sapos que, ainda mais espantados que os militares ali reunidos, saem pulando em todas as direções. Os soldados, assustados, começam a atirar nos sapos. Outros disparam a si mesmos, fugindo apavorados. Está desfeita a preleção, desmanchada a avaliação do ataque, instalada a anarquia geral, ainda que momentânea.
Logo estão todos reunidos outra vez. Riem. Uns debocham dos outros, proclamam o medo alheio. Em meio ao burburinho geral, o comandante quer saber de quem foi a "ideia malsã" de trazer as cabeças dos nosso e não as dos inimigos. Entreolham-se todos. Há um tom de vacilação na autoridade do coronel em muitos dos olhares. O subcomandante Juvêncio dá um passo à frente, pigarreia e explica:
- Foi uma forma que encontrei de verificar quem morreu de fato, para saber ao certo quem desertou."

Bom livro, não somente aos que se interessam por história, mas aos que gostam de uma boa prosa.

domingo, 15 de janeiro de 2012

deonísio da silva - contos reunidos

contos reunidos - Deonísio da Silva.
 - São Paulo: Leya, 2010. 608p.

Farta a prosa de Deonísio da Silva onde em 86 contos extravasa todo seu extrato da palavra. Surpreendente a variedade de vozes que habitam os contos do catarinense, vencedor do Prêmio Literário Casa de las Américas com o romance Avante, soldados: para trás.

Magníficos contos ora líricos, dramáticos, hilariantes ou irônicos o autor ultrapassa as formas tradicionais de narração comprovando o pleno domínio da técnica da narrativa curta. Um merecido premiado escritor.
É só conferir:

A antiga vida vadia de Brandina

Era difícil acreditar na sua beleza antiga, quando o que se podia notar eram uns seios murchos, penduricalhos incompetentes na barriga fofa. O vestido comprido não mais mostrava as coxas famosas. Apenas se podia vislumbrar, sob a saia, uns ossos encardido e rangedores, cobertos por pele de pouca tintura.
Parecia a Marta de um desses quadros das histórias sagradas ilustradas, que apresentam Nosso Senhor e Maria. Marta sempre aparece trabalhando.
Impregnara-se do vício santo de cuidar de crianças: criara muito mais netos do que filhos propriamente.
No rodízio feito da casa de um genro para a casa de uma nora, justificava a sua filosofia de velha, proferida na boca murcha pela falta de dentes. Contava-lhes então inúmeras histórias acerca das particularidades do nascimento e da criação de cada um dos dezessete filhos, enfatizando as peripécias que haviam conspirado contra a existência do ser humano no mundo. Escutavam as histórias fantásticas, sem acreditar. Julgavam-na caduca já. Se insistia, resmungavam que, pelo jeito, tinha passado o seu tempo de nova no Inferno. Doía-lhe a incredulidade, mas calava. Antigamente brigara, embrabecera os braços. Agora não mais. Seus gestos eram semrpe de ternura.
Filhos da contestação juvenil - que já começava a apontar também na roça -, os netos iam aos poucos se recusando a aceitar sua super-realidade antiga.
Eram poucos os velhos que a rodeavam - os mais estavam no cemitério - quando ela também foi. Acalentava o nenê da filha, em cuja casa estava hospedada por força de seu histórico rodízio, quando caiu no fogo do chão, por sobre o qual estavam dependuradas em correntes as panelas de ferro, cozinhando a oia para os da roça. Não encontrou forças para escapulir, mas conseguiu jogar a criança a salvo. No esperneio, derrubou a comida quante por cima de si mesma. Os gritos decerto foram muitos, mas a roça era longe e os vizinhos mais ainda. Quando o pessoal chegou, o pequeno chorava num canto. No meio do fogo, a velha, muiro mais assada do que São Lourenço, seu santo de mair devoção.
Então, pouco a pouco, suas histórias tornaram-se fantásticas na boca daqueles que as haviam negado. Erigiram-lhe um oratório, o que levou um velho remanescente a recordar a vida vadia que ela levava antes de juntar-se a um fecundo fazendeiro. Talvez o velho assim procedesse apenas para valorizar ainda mais o seu perdão. Disseram que o velho era caduco, Brandina...

Deonísio da Silva diz-se jardineiro e botânico das palavras. Publicou sete romances, diversos livros de ensaios e infantojuvenis, totalizando 33 obras. Seu livro de estreia, Exposição de motivos, foi levado à televisão por Antunes Filho, em teleteatro, e recebeu do Ministério da Educação o prêmio de melhor livro do ano (1976). Desde então, o reconhecimento pela importância de sua obra só têm expandido fronteiras: além do Prêmio Internacional Casa de las Américas pelo romance Avante, soldados: para trás (1992), foi também laureado pela Biblioteca Nacional por outro romance referencial, Tereza D´Ávila: namorada de Jesus (1997), já adaptado para o teatro. É ademais autor de obras de referência, como A língua nossa de cada dia e De onde vêm as palavras. Doutor em Letras pela USP, é professor titular e pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Barco a seco - Rubens Figueiredo

Barco a seco: romance / Rubens Figueiredo - São Paulo: Companhia das Letras: 2001

"Existe um limite para tudo. Não é medo, não é convenção. Pelo menos, não é só isso. Marcas invisíveis deslizam no chão, atravessam nosso caminho. Uma fronteira, um litoral, nem saemos em que nossos pés tropeçam, nem imaginamos em que parede nosso ombro esbarra. Só um louco pode supor que o céu tem o tamanho dos seus olhos. Só uma criança pode acreditar que o mundo inteiro cabe no prato da sua fome.


Assim inicia a história de um órfão criado numa família pobre que não é a sua, que se beneficia de circunstâncias que a vida lhe apresenta para melhorar de vida. Especializa-se num pintor, já desaparecido, cujos quadros, feitos sobre pedaços de barcos e tapas de caixa de charuto, retratam o mar de forma obsessiva. O personagem passa a reconstituir a face genuína do pintor, aproveitando o acaso e olhar arguto, habituado a perceber toda abertura para a sobrevivência, conduzindo-o à esfera do comércio de pinturas, a uma galeria de arte onde a conveniência e o interesse de alguns fazem do jovem um perito se especializando num pintor obscuro. Igualmente fascinado pelo mar, resiste ao impulso que ameaça fundir definitivamente sua imagem à do pintor.

"Assim, mesmo depois de ser sacudido, me encolhi e tentei ficar bem quieto o fundo, esperando o mais que pude. Quando afinal vim à tona, tossi, cuspi, respirei com toda a força da garganta. Senti que tinha areia entranhada até o vão embaixo das unhas, e então me veio à mente o pintor Emílio Vega. Reconheci o absurdo disso também. Acusei o teatro patético que meu pensamento encenava para mim mesmo. Ainda assim, não consegui conter aquele surto sentimental, tão fora de propósito, que aos meus olhos me humilhava até a raiz, como se eu pedisse arrego, como se eu estivesse pronto para morrer dali a pouco."


O romance tem um prosa caudalosa e reflexiva onde conflitos são postos à clara pelo narrador através do personagem central. Em cena a experiência de um passado que insiste em manter abertos seus traumas sem render-se à realidade do presente. Seu centro, o fascínio do mar cuja presença, à margem da cidade, parece contestar a solidez da terra firme. Excelente narrativa que vai aos poucos desvendando a história daqueles que necessitam utilizar a arte para vencer a sobrevivência diária.

"Pior ainda, passei a recordar com estranheza, quase com uma ponta de escândalo, como eu vivera até pouco tempo, até um ano, um ano e meio antes. Isso me desorientava por alguns momentos, pois eu sempre fizera questão de me manter familiarizado com minhas maiores dificuldades, mesmo que já estivessem extintas.Lembrar aquele tempo, evocar as semanas mais árduas constituía um dever, uma reverência que eu cumpria à risca para aplacar uma divindade feroz."

Rubens Figueiredo nasceu em 1956, no Rio de Janeiro, cidade onde mora. Formado em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é professor de português e tradutor de obras de Tchekhov, Turguêniev e Tóstói, entres outras. É autor de sete livros, dos quais O livro dos lobos (contos, 1994), As palavras secretas (conto, 1998, prêmio Jabuti) e Contos de Pedro (contos, 2006) e o recnete Passageiro do fim do dia (romance ,2010). O livro Barco a seco recebeu o prêmio Jabuti de 2002.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mário Benedetti - A borra do café

Mário Benedetti / A borra do café; tradução Ari Roitman e Paulina Wacht. - Rio de Janeiro: Record, 1998.

"Para onde vão as névoas, a borra do café, os calendários de outro tempo?"
(Júlio Cortázar)

"Rita teve então um gesto que pôs o ponto final, agora sim, na minha infância: me beijou. Foi na bochecha, ao lado da comissura dos lábios, e ela prolongou um pouquinho aquele contato. Tenho a impressão de que aquilo foi o meu primeiro esboço de felicidade. (...) Então eu também a beijei na bocheca, perto dos lábios, e ela sorriu, boníssima. Acho que gostou. Senti uma agitação nova, uma euforia quase heróica. Não era ainda, por razões óbvias, uma excitação sexual, mas digamos que fosse uma emoção pré-erótica."
(Mário Benedetti)

Iniciar bem o ano é ter acesso a um romance de Mário Benedetti. Uma conversa que se extende, tendo a infância que o personagem Cláudio percorre , em sua iniciação adolescente, em sua puberdade, os bairros de Montevidéu, graças à mobilidade doméstica da família, que mudava de lugar constantemente. Poderia ser a construção de sua  biografia por estar impregnado do passado como se fosse a vida em si, e o faz, metaforicamente, sem sair desse exílio em que vive e que nunca abandona.

São fatos cotidianos de Montevidéu que o autor explora, fáceis mas não simples, transparentes mas não vazios, líricos mas não piegas, contados todos com a poesia que é característica de sua obra narrativa. O livro transmite otimismo, é cálido e intranscendente, está escrito em sua contra-capa. Nada complicado, nada rebuscado, nada pretencioso. É, enfim, um desses que se tem que ler, não por nada, mas apenas porque sim, o que não é pouco. Digo, por ser de Benedetti, já se tem motivo suficiente.

Mário Benedetti nasceu em 1920 em Paso de los Toros. Em 1973, teve que sair de Montevidéu depois do golpe militar e foi viver em Madri. Com a redemocratização do país, voltou ao Uruguai, dividindo seu tempo entre os dois países. É autor de mais de 50 livros, entre eles, Quem de nós, Montevideanos, Correio do Tempo , A trégua, O amor, as mulheres e a vida, entre outros.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Aluísio Azevedo - O cortiço

O cortiço - Aluísio Azevedo - São Paulo: Saraiva, 2009 (Clássicos Saraiva)

Encerro o ano com um romance brasileiro, o clássico O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Impressionante narrativa em que o autor expõe abertamente toda a rotina do espaço criado, o cortiço, e sua gente simples, suas lutas diárias e a engrenagem que envolve as relações deste espaço vivo com o exterior onde cada habitante luta por si e pelos demais, chegando a se isolar das demais camadas sociais por instinto de proteção deste espaço.

"- Aguenta! Aguenta!
De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais, estava direito! "Jogassem lá as cristas, que o mais homem ficaria com a mulher!", mas agora tratava-se de defender a estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida.
- Não entra! Não entra!
E berros atroadores respondiam às pranchadas, que lá fora se repetiam ferozes.
A polícia era o grande terror daquela gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropício; à capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de ódio velho."

Muitas histórias são relatadas no percurso da narrativa tendo como ponto central a vida de João Romão, negociante português, proprietário do cortiço, que ambiciona enriquecer e projetar-se socialmente  que custo for, até mesmo da exploração de Bertoleza, escrava a que se une visando atingir seus objetivos. Outros portugueses tem foco na narrativa, como Miranda, proprietário do sobrado visinho ao cortiço, principal inimigo de João Romão por possuir status social e as terras que faltam à sua ambição de domínio do completo espaço físico que compõe aquelas paragens. Rita Baiana, mulata alegre também figura como personagem central, onde transforma com seu jeito contagiante os moradores da comunidade o cortiço, chegando a transformar o sério português Jerônimo, funcionário exemplar da pedreira anexa ao cortiço, seduzido por seus encantos, chegando a corromper-se ao sistema.

" Era João Romão quem fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, qando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco.  sobre este cobre, quase sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava aos que garantiam a dívida com penhores de ouro ou prata.
Não obstnte, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em alugá-las: aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação.
O Miranda rebenava de raiva.
- Um cortiço! - exclamava ele, possesso. - Um cortiço! Maldito seja aquele venderio de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das janelas!... Estragou-me a casa, o malvado!"

O livro O cortiço é um retrato da condição social de um povo. Envolvente do início ao final. Excelente.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Orhan Pamuk - A maleta do meu pai


A maleta do meu pai, de Orhan Pamuk; tradução Sérgio Flaksman. - São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

"Acredito que a literatura seja o tesouro mais valioso que a humanidade acumulou em sua busca de compreender a si mesma."

Orhan Pamuk em A maleta do meu pai escreve um hino de amor à literatura  através da semeadura das palavras deixada em seus textos, dos sete romances escritos ao longo dos mais de trinta anos dedicados às letras.

O livro é composto por três ensaios do autor: a maleta do meu pai, discurso da cerimônia de entrega do prêmio nobel de literatura de 2007; em kars e frankfurt, discurso da cerimônia de entrega do friedenspreis de 2005 e o autor implícito, conferência pyterbaugh  sobre literatura mundial

"Todos os escritores que dedicaram a vida à literatura conhecem essa realidade: qualquer que seja o nosso objetivo inicial, o universo que acabamos criando depois de anos e anos escrevendo cheios de esperança, vai dar, no final, em um lugar muito diferente. Ele nos levará para longe da mesa em que trabalhamos com tristeza ou indignação, para o outro lado dessa tristeza e dessa indignação, para um outro mundo. Será que meu pai não poderia ter chegado ele também a esse outro mundo?"

Orhan Pamuk discorre na construção do texto, de uma linguagem acessível a todo e qualquer indivíduo, com a simpliscidade de quem está em um grande diálogo humanitário. Conta histórias, essencialmente de passagens de sua vida, que estão intimamente ligada à literatura. Começa tendo seu pai  como protagonista quando este lhe entrega uma maleta com seus escritos e pede que seja lido somente após sua morte.

"Já me referi aos dois sentimentos essenciais que me dominaram quando fechei a maleta do meu pai e a pus de lado: a sensação de ser um náufrago perdido na província e o medo de não ser autêntico."

"Mas com se podia intuir pela maleta do meu pai e pelas cores desbotadas da nossa vida em Istambul, o mundo tinha um centro, que ficava muito longe de nós."

Lógico que ele ultrapassa os conflitos internos que é conhecer o texto paterno e descobrir no pai um verdadeiro escritor, alguém que ele não enxergou ao longo de sua caminhada não por culpa própria, mas pelo próprio pai ter negado este lado em sua trajetória, deixando-se levar pela vida comum, não se prendendo à literatura como trilha única do caminhar. Fato extremamente oposto à sua trajetória de vida totalmente ligada à literatura.

"Para mim, ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura."

Sobre o ato de escrever interessante ver o autor utilizar de toda a sinceridade chegando a dizer que escreve porque tem raiva das pessoas, escreve porque não consegue fazer um trabalho normal : "Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever! Escrevo porque sou incapaz de fazer um trabalho normal, como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros como os que eu escrEvo. Escrevo porque sinto raiva de todos vocês, sinto raiva de todo mundo. Escrevo porque adoro passar o dia sentado à mesa escrevendo. Escrevo porque só consigo participar da vida real quando a modifico."

"Todos conhecemos a alegria da leitura de um romance: todos já experimentamos a emoção de enveredar pelo caminho que leva ao mundo de outra pessoa, ingressar naquele mundo de corpo e alma e sentir o desejo de mudá-lo à medida que vamos nos impregnando da cultura do herói, da relação que ele mantém com os objetivos que compõem o seu mundo, das palavras que o autor usa, das decisões que torna e das coisas que resolve assinalar à medida que a história se desenrola."

"É na leitura dos romances que as sociedades modernas, as tribos e nações pensam mais profundamente acerca de si mesmas."

"Na maior parte das vezes, a nossa felicidade ou infelicidade não deriva da vida propriamente dita, mas do significado que lhe damos."

"O segredo é encontrar esperança suficiente para chegar ao fim do dia e, se o livro ou o trecho que está lendo for bom, encontrar nele alguma alegria, e felicidade, ainda que só por um dia."

"Se estou me sentindo pessimista, posso pensar sobre o quanto aquilo tudo me entedia. De qualquer maneira, uma voz dentro de mim vai surgir, dizendo-me para voltar para minha sala e me sentar diante da mesa. Não tenho idéia do que a maioria das pessoas faz nessas circunstâncias, mas é isso que transforma as pessoas em escritores."
  

Um autor transparente como seus escritos. Fantástico!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Ópera dos Mortos - Autran Dourado

Ópera dos Mortos / Autran Dourado. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.


"O tempo seria só a noite e o sol, as duas metades impossíveis de parar."

"Por que Quinquina demorava tanto? Engraçado eu casar Por que engraçado? eu bem que podia casar. Emmanuel bem que quis. Não agora, antes, quando nada ainda tinha acontecido. Papai fazia planos pra mim. Depois me esqueceu, se entregou àquela maluqueira. Pra que precisava daquilo, se tinha tanto? Não, eles não podiam ter feito aquilo com ele. Com ela. Ele não merecia. Tão bom, tão calado, tristinho. Pra sempre tinha de odiar. Não esqueço, ninguém deve esquecer. Agora somos os dois sozinhos no mundo, disse o pai. Quando o enterro da mamãe saiu. Depois é que a gente chorou, a gente não podia guardar por mais tmepo o choro engolido. Pra ninguém ver que a gente tinha chorado. Na frente deles. Ninguém pode saber, esta morte é só da gente, tudo que eles dizem é fingimento. Você não viu? Com aquela cambada só mesmo assim."
(pág. 43, 44)


Em Ópera dos Mortos, Autran Dourado magistralmente disseca a vida interiorana onde sua linguagem desliza na amplidão do tempo, da vida e da condição humana. Sobretudo, do absurdo da existência de todos os homens na vastidão do mundo.

"Lucas Procópio Honório Cota chegara àquelas paragens em um tempo já azulado na memória. Quando o ouro ali secou, alguns ficaram, fazendeiros, "incestuosos, demarcadores, ladrilhando com seus filhos e escravos este chão deserto". Naquele lugar vingara Lucas Procópio, homem poderoso, sem limites, que espalhava filhos pelos campos afora. Ergueu ali a casa com linhas retas e pesadas, tal qual sua natureza. João Capriano Honório Cota, único filho legítimo de Lucas Procópio, somou àquela espinha o assobradado de janelas arredondadas, tentando suaviszar sua herança. Pai e filho eram distintos um do outro, o sobrado não deixava mentir. João Capistrano, fazendeiro de café, levava uma vida de aparência tranquila, mas guardava o momento certo para realizar seu projeto. E, então, todos veriam quem ele era. Para aquele novo  tempo que João Capistrano preparava, chegaram ao sobrado ornamentos vários e um relógio-armário de contornos chineses dourados, que fez a cidade parar para admirá-lo. Só não vinham os filhos para encher os quartos construídos no andar de cima. A vida só lhe deu Rosalina. Tantos frutos não vingados, só serviam para alimentar a terra vermelha do cemitério."

O autor trabalha bem a questão da identidade, através da história de uma casta, começada em um tempo-já-lenda, já-história, na vastidão das Minas Gerais, e de seu absurdo destino. Excelente linguagem transcorre a narrativa.

"Se um dia João Capistrano sonhara uma vida diferente para si, fora em vão. Seu sonho, a vida política, durou até que sofresse a primeira traição. Passou a odiar a cidade inteira. Fechou-se em sua fortaleza e fez parar o relógio-armário, a vida, no dia em que sua mulher morreu. O destino de Rosalina estava ali traçado, no silêncio do relógio, nas engrenagens e areias daquele tempo próprio da gente Honório Cota. Quando João Capistrano morreu, Rosalina parou mais uma engenagem do tempo. Agora só as noites e os dias marcariam o passar da vida. "

E segue a história de Rosalina. Perspiscaz a observação do autor quanto a vida interiorana que segue em ritmo lento, onde nem sempre a comunicação é feita unicamente pela fala, por vezes pouco explorada:

"Uma das razões por que Rosalina não o mandou embora foi exatamente o que disse José Feliciano: a gente carece de ouvir voz humana, pra sair das sombras. Um homem não é só, um lago de silêncio, necessita de ouvir a música da fala humana. Se a gente não cuida muito do que dizem as palavras, se não cheira o seu sumo, ouve apenas, a fala humana é rude e bárbara, cheia de ruídos estranhos, de altos e baixos. Atente agora não só com os ouvidos bem abertos, ouça com o corpo, com a barriga se possível, com o coração, e veja, ouça a doce modulação do canto. Só o canto, a música."

"Dona Rosalina era várias, não se fixava em nenhuma das mutas donas Rosalinas que ele todo dia ia descobrindo e juntando para um dia quem sabe poder entnder. Ele queria entender dona Roslaina para melhor viver no sobrado, não estar sempre em sobressalto, pesando as palavras, cauteloso. Dona Rosalina sumia como por encanto entre os seus dedos, visonha. Dissimulada, os olhos líquidos, quando a gente pensava que a tinha presa, ela escapulia. Que nem um guará que ele quisera caçar. Aqueles guarás do sertão, ariscos, matreiros, coriscando por entre as moitas, se confundindo com os matos, parecendo estar em todos os lugares e em lugar nenhum. Seu major Lindolfo era sempre ligeiro na pontaria. Quando ele mirava, dava no pinguelo, o estrondo ecoava, via: tinha se enganado, o guará não estava mais ali não, mas noutro matinho lá longe, como se risse, brincando, da certeza, da aflição da gente. Dona Rsalina era que nem um guará, ele tentava pegar o guará naquele casarão. Sempre escondida num lugar qualquer do sobrado, perdida no tempo. Não a pessoa de dona Rosalina, que esta era até mito parada e silente, naquele serviço quieto e vagaroso de fazer flor. Ele não sabia ainda que buscava nela a outra pessoa: a sombra, a alma de dona Rosalina."

O autor trabalha a personagem Rosalina de forma ilária, chegando horas a comicidade, quando literalmente despe a personagem. É um interior literário desvendado magicamente pelo autor. Excelente livro.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Contos de Aprendiz


"Não, não é conto. Sou apenas um
sujeito que escuta algumas vezes, que
outras não escuta, e vai passando."

(do conto "Flor, telefone, moça")

Carlos Drummond de Andrade pisa em terra estranha das letras poéticas tão consagradas em sua vida ao criar os Contos de aprendiz entretanto é esta ousadia que o faz grande. Um autêntico sempre estará ousando em que terreno for,  pois a confiança em si é o que de melhor pode doar ao mundo e neste quesito ele o faz com simpliscidade e leveza. A começar pela capa que já nos remete à infância, assim segue sua prosa como nos tempos em que nos permitíamos fechar nos adolescentes quartos e desfiar horas de prosa sem chegar a lugar algum, tecendo o fio da vida com alegria.

Contos: A salvação da alma; Sorvete; A doida; Presépio; Câmara e cadeia; Beira rio; Meu companheiro;  Flor, telefone, moça; A baronesa, O gerente, Nossa amiga; Miguel e seu furto; Conversa de velho com criança; Extraordinária conversa com uma senho ra de minhas relações; Um escritor nasce e morre.

Carlos Drummond de Andrade, 1902-1987. Contos de Aprendiz / prefácio, José Castello. - 55a. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle



Sherlock Holmes, edição completa / Sir Arthur Conan Doyle; [tradução de Louisa Ibañez... et al.]. - Rio de Janeiro: Agir, 2007. Agir. Este livro é meu desafio nesta noite que pretendo terminar ao raiar a luz do novo ano se preciso for, mas estarei lá, ao final das 930 páginas. Necessito deste livro mais do que ele necessita de minha presença como leitora mesmo sabendo ser a porcentagem mínima da casa que ainda não o venceu. Não por isto. Olho para o livro e me lembro do autor de O sol se põe em São Paulo  que relata que nossas leituras nos constituem. Tenho refletido sobre a quantas andam nossas lupas familiares. Gostaria de ter lido este livro talvez em minha infância em que tive acesso somente a clube de leitura e com ele Agatha Christie. Lembro de alguns títulos e o quanto ficava fascinada com o suspense, com os detalhes não notados durante o trajeto da leitura e o desfecho perfeito final, tudo tão distante da dura vida real que por vezes não tem desfecho algum. Vivemos em um mundo cada vez mais sem diagnóstico, muita análise, muita pesquisa, pouca conclusão, é um campo vasto que aqui estou querendo adentrar a quantas andam as letras de Holmes, já eternizado, parecendo quem sabe um primo de House, tão exaustivamente investigativos nestes tempos modernos, entretanto, tão amados familiarmente.

Conhecimentos de Sherlock Holmes

1. Literatura: zero.
2. Filosofia: zero.
3. Astronomia: zero.
4. Política: fracos.
5. Botânica: variáveis. Versados nos efeitos de beladona, ópio e venenos em geral. Não sabe nada sobre jardinagem e horticultura.
6. Geologia: práticos, mas limitados. à primeira vista, sabe reconhecer solos diferentes. Quando chega de suas caminhadas, mostra-se manchas e respingos nas calças e, por sua cor e consistência, me diz em que parte de Londres as recebeu.
7. Qímica: profundos.
8. Anatomia: acurados, mas pouco sistemáticos.
9. Literatura sensasionalista: imensos. Ele parece conhecer todos os detalhes de cada horror perpetrado neste século.
10. Toca bem violino.
11. É perito em esgrima e boxe, além de hábil espadachim.
12. Tem um bom conhecimento prático das leis inglesas.

Quando cheguei a este ponto da minha lista, joguei-a no fogo, desanimado.
"Se eu só posso descobrir o objetivo desse homem conjugando todas estas habilidades e encontrando uma profissão que as utilize", disse para mim mesmo, "é melhor desistir já da tentativa."

Assim tem início o encontro de dois homens que se conhecem ao acaso e que por interesse comum em economia pós-guerra, passam a morar conjuntamente nos aposentos da famosa Baker Street, 221 B.

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