sábado, 10 de dezembro de 2011

A descoberta do mundo - Clarice Lispector

A descoberta do mundo -
Clarice Lispector
Rocco, 1999

Transbordamento, esta a sensação de quem lê as letras do livro A descoberta do mundo, por parte de Clarice Lispector. Na verdade, toda a trajetória da autora construída em ordem cronológica, no cotidiano, no jornal do Brasil, de agosto de 1967 a dezembro de 1973. Não deixa de ser um extravazamento do que pensa a autora sobre os mais diversos temas simples e complexos da vida com a linguagem que até hoje não encontrei autor à altura de Clarice.

Insubstituível, Clarice Lispector é insubstituível !



A Rosa Branca

Corola alta: que extrema superfície. Catedral de vidro superfície da superfície, inatingível. Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e à nona se unem em coral - crianças sáias abrem bocas de manhã e entoam espírito, leve super´fície de espírito, superfície intocável de uma rosa.
Estendo minha mão esquerda que é mais fraca e delicada, mão escura que logo recolho sorrindo de pudor: não te poso tocar. Meu rude pensamento quisera poder cantar teu entendimento de elo e glória.
Tento liberar-me da memória, entender-te como te vê a aurora, como te vê uma cadeira, como te vê outra flor. (Não temas, não quero possuir-te.)
Alço-me, alço-me em direção de tua superfície que já é perfume. Alço-me até atingir minha própria tona, minha própria aparência  - empalideço nessa região assustada e fina, quase alcanço tua superfície divina... Numa queda ridícula caí.
Não abaixo minha cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dó-me o coração grosseiro como em amor por um homem. E das mãos tão grandes saem as palavras envergonhadas.

(A descoberta do mundo - Clarice Lispector - pág. 424)



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Clarice Lispector - saudade

Clarice Lispector

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que  presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

(Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo - Rio de Janeiro - Rocco: 1999)


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Luiz Ruffato - estive em Lisboa e lembrei de você

Luiz Ruffato -
 estive em Lisboa e lembrei de você
Companhia das Letras, 2009


estive em Lisboa e lembrei de você não foi presente. Comprei depois de uma conversa com um amigo que me relatou a maneira especial com que conheceu o autor Luiz Ruffato - em um voo, ao acaso -, com que trocamos sobre como anda a literatura no Brasil, novos e antigos autores, com que me fez pesquisar na rede o autor, suas entrevistas, e finalmente o livro "estive em Lisboa e lembrei de você". Não, também não estive em Lisboa mas ele esteve recentemente e certamente ainda não leu o livro (e nem contei que o adquiri) mas eu estou aqui, com o caro livro carinhosamente informado, adentrando nesta história que já se fez antes que dele, minha pois se um amigo encontra Luiz Ruffato e alegremente vem contar como foi esta história, sei que a literatura já faz parte de nossa caminhada e isto é compartilhar antes que livro, amizade.

Leitura leve, aprofundada no 'chão da fábrica', ou seria 'da vida'?!

O autor tece uma narrativa subjetiva entrelaçando os ambientes e personagens onde se constrói rapidamente a condição sócio-econômica do ambiente e seus vícios inerentes, oriundos de uma sociedade estagnada, que muitas vezes ama essa condição de estagnação por puro 'deixar-se ficar', assim como o passar de uma tarde de domingo, sem proposta concreta, sem perspectiva, visto a certeza da segunda-feira.

"Acendi um cigarro, ele trouxe uma garrafa de cerveja, dois copos, não podia ver ninguém bebendo sozinho, "Me dá aflição", brindamos, sumiu atrás da mulher, "Vou pedir pra ela fazer um tiragosto especial, 'xa com migo". Deste dia, rcordo borrões, a cheirosa maçã-de-peito acebolada, um esfomeado viralata desavergonhadamente submisso, o entra-e-sai de meninos e meninas magros e esfarrapados, "Seu Pimenta, me dá um litro de água-sanitária", "Seu Pimenta, a mãe mandou perguntar se o senhor pode vender uma garrafa de Coca-ola pra pagar no sábado", "Seu Pimenta, o senhor tem bomba-de-flit?". "Seu Pimenta, o pai pediu pra colocar isso na vaca"!Seu Pimenta, me dá uma caixa-de-fósforo" - seu Pimenta, o Chacon, levantava, entregava a mercadoria, anotava o fiado num bloquinho com papel-carbono, sentava, reavivava o colóquio, "Que nem o Flamengo de oitenta-e-um, nem o Santos de Pelé", nem o Santos!". No final da trde, o pessoal que labutava do outro lado da rua, virando areia e dimento, empurrando carrinho-de-mão lotado de massa pra uma construção no alto do barranco, apreceu, tomaram pinga, comeram jiló cozido e linguiça frita, jogaram conversa fora, e levei um baita susto quando acordei, o sol queimando a minha cara, terça-feira, no meu quarto na Taquara Preta, a cabeça latejando."


O livro relata a história de Serginho, em forma depoimento, nascido em Cataguases (MG), gravado em quatro sessões, sendo uma parte feita no Brasil, quando tinha vida de modesto operário da Seção de Pagadoria da Companhia Industrial Cataguases, quando tenta mudar de vida, parando de fumar. Namora 'amadoristicamente' e por azar do destino, engravida a visinha, Noemi, moça de idéia fraca que foi 'pega pelada em frente à Prefeitura' e que vendo ir para o brejo o casamento com Noemi, a exemplo do emprego, Serginho, de posse de umas raspas de herança deixada pela mãe, contempla o projeto de se bandear para Portugal, onde sacos de dinheiro estão supostamente à espera de quem não foge de trabalho duro.

"Resolvi explorar a experiência do seu Oliveira, que ultimamente, de dois em dois anos, viajava pra lá, encostei no balcão, pedi uma cerveja, um pratinho de azeitona, e desembainhei um questionário, "Como é que um sujeito chega em Portugal?", "De avião, ora pois", "Como é que é um avião por dentro?", "Apertado", "De onde sai o avião?", "Do Rio de Janeiro", "Quanto tempo demora a ida?", "Umas nove horas", "E a volta?", "Mesma coisa, ora pois", "Tem banheiro?", "Evidentemente", "Dá pra dormir?", "Até ronco", "Tem comida?", "A da TAP é boa", "E o país?", "O melhor lugar do mundo", "Onde um sujeito, que quiser ir, compra a passagem?", "Em Juiz de Fora", "Quando custa mais ou menos?", "Uns mil dólares, dependendo da época", "Mil dólares?", "Dependendo da época", "Que mais um sujeito, que quiser ir, precisa saber?", "Tem que tirar passaporte..", "Passaporte?", "Um documento universal", "Hum...", "E tem que trocar o dinheiro", "Onde o sujeito arruma o tal passaporte?", "Na Polícia Fedral, em Juiz de Fora", "E o quê que o senhor falou de dinheiro?", "Tem que trocar, levar euro", "E se o sujeito nem nunca viu um euro de perto?" "Guardo comigo umas notas, posso mostrar", e incentivou, com a minha cultura, a minha desenvoltura, a minha sáude, "Vá, Sérgio, empenhe-se, economize", pra, investindo em imóveis em Cataguases, garantir uma velhice tranquila, de papo-pro-ar, ..."

Que prosa!

Luiz Ruffato é autor do livro Leituras de Escritor (veja aqui postagem anterior).

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. De acordo com ele mesmo, já foi "pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista". Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a série Inferno provisório e o aclamado Eles eram muito cavalos, traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA e Machado de Assis.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Jo Van Gogh-Bonger - Biografia de Vicent van Gogh - por sua cunhada

Jo Van Gogh-Bonger -
Biografia de Vicent van Gogh -
por sua cunhada
"Seria realmente um livro notável se fosse possível ver em quantas coisas ele (Vicent) pensou,
e como ele sempre permaneceu fiel a si mesmo."
(Carta de Théo à sua mãe, 8 de setembro de 1890)

Jo Van Gogh-Bonger - Biografia de Vicent van Gogh - por sua cunhada - Seguido de Cartas de Théo a Vicent e de Cartas a Émile Bernard

Johanna van Gogh-Bonger expõe um retrato íntimo de Vicent van Gogh, reconhecido após a sua morte como um dos mais importantes pintores de todos os tempos, e que teve uma vida sombria, perpassada por crises de loucura e depressão, saga registrada na preciosa biografia escrita por sua cunhada, mulher de Théo, as cartas ao pintor e a correspondência de Vicent com o pintor Émile Bernard prefaciadas pelo filho Vincent Willen van Gogh (morto em 1974).

Compreender o contexto histórico cultural que Johanna vivenciou até a conclusão deste brilhante trabalho só se colocando como protagonista desta história em seu tempo histórico para saber a dimensão da façanha conseguida pela autora tão audaz:

15 de novembro de 1891.
Para dar (ao nenê) ar fresco e saudável, eu fui morar em Bussum - a fim de ganhar dinheiro para manter a nós dois, eu estou recebendo pensionistas -; agora devo tomar cuidado para não me deixar degradar ao nível de uma criada doméstica, com todas esta preocupações e tarefas que tenho de executar em casa; ao contrário, devo manter vivo meu espírito. Théo me ensinou muitas coisas a respeito da arte; não, é melhor que eu diga logo - ele me ensinou muitas coisas sobre a própria vida.
Além de cuidar da criança, ele me deixou outra tarefa a de zelar pela obra de Vincent - torná-la pública e fazer com que seja apreciada tanto quanto me for possível. Todos os tesouros que Théo e Vincent coletaram - a fim de preservá-los inviolados para a criança -, esta também é minha tarefa. Não é como se não tivesse um objetivo na vida, porém me sinto solitária e abandonada.

18 de novembro
Hoje, pela primeira vez, senti-me capaz de trabalhar de novo. Durante o primeiro semestre que passei aqui, tive de fazer um esforço tão grande somente para aprender as tarefas domésticas mais simples que não me sobrava tempo para pensar em nada mais.
De vez em quando, consigo ler alguma coisa - mas somente um romance comum ou um jornal. A "máquina doméstica" está agora em pleno funcionamento e, embora me conserve ocupada o dia inteiro, já não ocupa mais a totalidade de meus pensamentos e, pelo menos à noite, posso trabalhar de novo...

31 de março
Um dia lindo e ensolarado. Um melro está cantando alegremente na árvore que fica em frente a nossa casa. Como tudo isso me parece novo outra vez! - estes pássaros, flores e plantas. Só agora me dou conta que fui educada em uma casa na cidade e que nunca estive no campo quando era criança...

13 de maio
Domingo que vem será inaugurada a exposição de Vicent em Haia. O que nos trará esse dia? Satisfação ou desapontamento? Há quanto tempo eu venho esperando por ela; finalmente se tornará realidade...

"As cartas ocuparam um lugar muito importante em minha vida, desde o começo da doença de Théo. Na primeira noite solitária que eu passei em nossa casa, depois de retornar, eu peguei o maço de cartas. Sabia que nelas eu o encontraria de novo. Noite após noite, foram a minha consolação, depois daqueles dias horríveis."

"Quando me tornei a jovem esposa de Théo e entrei, no mês de abril de 1889, em nosso apartamento na Cité Pigalle, em Paris, encontrei, na parte inferior de uma pequena escrivaninha, uma gaveta chia de cartas escritas por Vicent e semana após semana, vi aumentarem de número os envelopes amarelos, sobreescritados com sua letra caraterística, que logo se tornaram bastante familiares para mim.

Após a morte de Vicent, Théo discutiu comigo o projeto de publicar estas cartas, mas a morte logo o levou também, antes que ele pudesse começar a execução de seu plano.

Passaram-se quase vinte e quatro anos desde a morte de Théo, antes que eu pudesse completar a publicação."


Johanna van Gogh-Bonger reproduziu este importantíssimo livro no começo do século XX e até então inédito no Brasil (cartas de Théo para Vicent e de Vicent para Émile Bernard) que revelam a saga, a vida, a enorme importância e o trágico destino dos irmãos Vicent e Théo van Gogh. São fatos e personagens (Gauguin, Pissarro, Degas, Monet, Lautrec e outros) que contribuíram com a definita revolução que mudou a cara da arte no final do século XX.

As cartas e a biografia de van Gogh foram traduzidas para o inglês pela própria Jo. As notas do tradutor William Guedes, que complementam e enriquecem esta edição, foram incluídas após os textos e são identificadas como "N. do T."; as notas de Vicent Willen van Gogh (o filho de Théo e Jo), que organizou a edição inglesa, foram incluídas como "N. do A.".


Você também poderá gostar de:
van Gogh - Obra Completa de Pintura
Ingo F. Walther - Rainer Metzger
Taschen









sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Rubem Alves - Variações sobre o Prazer

Variações sobre o Prazer - Rubem Alves
[Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette]

"Morre e transforma-te"
(Goethe)

"A cobra que não consegue livrar-se de sua casca morre. O mesmo acontece com os espíritos que são impedidos de mudar as suas opiniões; eles deixam de ser espírito."

Feliz por  saber que não sou a única que vê a vida como um quebra-cabeça de peças mal encaixadas. Assim inicia o autor a definir um projeto que despretenciosamente tentou fazer na aposentadoria e deixar com carinho aos amigos e leitores: escrever um livro. Explica no primeiro capítulo o 'Por que não consegui terminar o livro', fazendo uma bela referência a insistência que o ser humano tem de por meta para seus anseios como se ao final, ao alcançá-los, houvesse a tão esperada felicidade e a surpresa de que na vida o caminhar é o sentido melhor de que possamos levar da vida pois é o momento do 'estar feliz' quando nos permitimos apreciar a paisagem.

A poesia nos torna mais sábios, retirando-nos do torvelinho agitado com que a confusão da vida nos perturba. Drummond, escrevendo sobre Cecília Meireles, disse: "Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos. Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito "uma certa ausência do mundo"? Do mundo como teatro, em que cada espectador se sente impelido a tomar parte frenética no espetáculo, sim; mas não, porém, do mundo das essências, em que a vida é mais intensa porque se desenvolve em um estado puro, sem atritos, liberta das contradições da existência".

"Pois é isso que a poesia faz: ela nos convida a andar pelos caminhos da nossa própria verdade, os caminhos em que mora o essencial. Se as pessoas soubessem ler poesia é certo que os terapeutas teriam menos trabalho e talvez suas terapias se transformassem em concertos de poesia!"

Lógico que a vida nunca é terminada, assim o autor constrói o livro que entitula interminável, com capítulos que se denominam "Contra o método". O livro fala da necessidade (Eliot bem o relatou) de se desfazer na vida do 'fazer, fazer, fazer': "Uma ostra feliz não produz", seu livro que o diga...

"Sou esse intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim..."
(Fernando Pessoa - [Álvaro de Campos] Obra poética, p. 413)

O autor fala de escolha pois não podemos ter tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de "abrir mão" - a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.

Fala do prazer de vivermos com os 'pequenos' prazeres, como cuidar de um jardim, ouvir uma música, reler um livro pois muitas vezes a novidade não agrega valor a felicidade. Segundo Eliot:

"E ao final de nossas longas explorações chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez..."

Sem prazer não se vive... transforma-se em um morto ambulante. A narrativa de Rubem Alves é exatamente assim, fragmentada, com a percepção de que estamos juntos a construir estas páginas mas buscando a sapiência não confundida com a ciência do conhecimento, tão comum nos dias atuais. Onde se encontra a sabedoria, pergunta o autor? Ausente, responde. Não é saber científico. Não pode ser mensurada. Poucos poetas perceberam que a sabedoria foi enterrada pelos saberes. Manoel de Barros o disse:

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os saibás divinam.
[...]
(Manoel de Barros - Livro sobre nada, pp. 53,68).

Sábio é o que adivinha.

A Áquila paira no topo dos Céus,
O Órion, com seus cães, percorre o seu circuito.
Ó revolução perpétua de estrelas fixas,
Ó eterno retorno das mesmas estações,
Ó mundo de primavera e outono, de nascer e morrer!
O círculo sem fim de ideia e ação,
De invenão sem fim, de experimentação sem fim,
Traz conhecimento do movimento, mas não da tranquilidade;
Conhecimento da língua mas não do silêncio;
Conhecimento de palavras, e ignorância da Palavra.
Todo o nosso conhecimento nos leva mais próximos da
nossa ignorância,
Toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte,
Mas uma proximidade da morte que não é a proximidade
de Deus.
Onde está a vida que perdemos no viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?
O círculos dos Céus em vinte séculos
Levam-nos para mais longe de Deus e para mais perto
do pó.

(The Complete Poems and Plays, p. 96, minha tradução).

Muito bonito o que Rubem Alves diz sobre consciência: uma superfície que reflete como um espelho as nuvens, o céu, as árvores, os pássaros, local onde vive os saberes. Saberes são reflexos do que existe lá fora, no mundo. Mundo... reflexo, tão somente.

Bem, o livro resgata o prazer desde os promordiais tempos em que Deus fez os Jardins do Éden e simplesmente deixou-se contemplar. Falta ao homem viver esta contemplação em vida, este gozo no viver. Simplesmente adorar, por puro prazer.

Sempre que leio Rubem Alves (aqui Do Universo à Jabuticabeira) consigo imaginá-lo debruçado quase perdido sobre uma pilha de livros a escolher a melhor citação, o melhor trecho. Bem autêntico!  Um homem especial, que  bem soube encaixar a literatura à vida, aos amigos, ao mundo, levando leveza, poesia... transformou a literatura em um imenso prazer que bem soube gozar (ou goza) em vida.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A riqueza do mundo - Lya Luft



O que não é banal

O lixo na praia
a mulher parindo na calçada,
as multidões enlouquecidas,
as ilhas dos amantes.
Por um instante
a gente desliga os aparelhos
e vive.

Na luz que se filtra na mata,
poeirinhas, polens, saliva de fada
que ri à toa,
ou caspa de duende armando suas artes.
A ventania chega atropelando tudo:
recolhem-se crianças e coisas
e se olha a tempestade atrás da janela.

Logo ali o grande mundo mói a vida
com suas engrenagens cruéis:
mas aquele momento, naquela redoma
de vidro simples na chuva cotidiana,
ali é o castelo da Bela Adormecida
ou a casa dos sete anões.

(Nada é banal.
A gente é que esquece.)


"escrevo sobre o que nao sei direito", "escrevo para entender melhor e para dividir meus assombramentos com meu leitor" costuma dizer a autora do livro A riqueza do mundo, Lya Luft.

A riqueza do mundo, de Lya Luft é um livro áspero e poético, sempre questionador. Uma coletânea de ensaios breves, crônicas, artigos, não acadêmicos onde são abordados temas como o drama existencial humano, perplexidades, família, autoridade, guerras, miséria, política, entre outros. Como é vista a riqueza do mundo, seja natural, intelectual ou artísitca, afetiva ou econômica é tema indiscutível do livro.

Lya Luft é formada em Letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, foi educadora, atua como tradutora de alemão e inglês desde os 20 anos e já verteu para o português obras de autores consagrados como Virginia Woolf (ver aqui postagem de Entre os Atos), Gunter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 para Lete: Arte e crítica do esquecimento, de Harald Weinrich. É autora de uma infinidade de livros: As pareiras (1980), A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), Mulher no palco (1984), O quarto fechado (1984), Exílio (1987), O lado fatal (1988), A sentinela (1994), O rio do meio (1996 - Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes), Secreta irada (1997), O ponto cego (1999), Histórias do tempo (2000), Mar de dentro (2002), Perdas - Ganhos (2003), Pensar é transgredir (2004), Histórias de Bruxa Boa (2004), A volta da Bruxa Boa (2007), literatura infantil, Para não dizer adeus (2006), poesia, Em outras palavras (2006, crônicas, O silêncio dos amantes (2008), contos, Criança Pensa (2009), literatura infantil, parceria com Eduardo Luft, Múltipla Escolha (2010), Ensaios.

"E quando tudo me aborrecer de
verdade, quando eu ficar cansada
de minhas neuroses e manias,
quando as pessoas estiverem
demais distraídas, a paisagem
perder a graça, a mediocridade
instalar seu reinado e anunciarem
o coroamento da burrice - vou
espiar o letreiro que fala de uma
riqueza disponível para qualquer
um, e que botei como descanso de
tela no meu eternamente ligado
computador:
Escute a canção da vida."

Lyft, Lya,1938 - A riqueza do mundo - Rio de Janeiro: Record, 2011.

domingo, 27 de novembro de 2011

Alberto Moravia - Contos romanos


Contos romanos - Alberto Moravia
Berlendis & Vertecchia, 2002

O Palhaço

Naquele inverno, só para fazer alguma coisa, comecei a vagar pelos restaurantes tocando violão enquanto meu companheiro cantava. O companheiro chamava-se Milone apelidado "o professor" porque ensinara ginástica sueca. Tratava-se de um homenzarrão de mais ou menos cinquenta anos, não exatamente gordo, mas quadrado, com um rosto denso e ameaçador e um corpaço maciço que fazia com que as cadeiras rangessem quando se sentava. Eu tocava o violão do meu jeito, isto é, quase sem me mexer, com os olhos baixos, porque sou um artista e não um bufão; quem bancava o palhaço, ao contrário, era Milone. Começava meio sem querer, em pé, ereto, apoioado a uma parede, o chapeuzinho em cima dos olhos, os polegares sob a axila, a barriga fora das calças, o cinto embaixo da barriga: parecia um bêbado cantando ao luar. Depois, pouco a pouco, esquentava e, mesmo sem cantar de verdade, porque não tinha voz nem ouvido, acabava dando um espetáculo de si mesmo, ou melhor, como eu já disse, bancava o palhaço. Sua especialidade eram cançõezinhas sentimentais, as masi famosas, as quem normalmente comovem e enternecem, porém na sua boca aquelas canções nao comoviam, mas fazim rir, proque ele sabia torná-las ridículas, de um jeito todo seu, desagradável e triste. Eu não sei o que tinha aquele homem; se na juventude alguma mulher tinha aprontado com ele; ou talvez ele tivesse nascido daquele jeito, com um caráter que se comprazia em tornar ridículas as coisas boas e bonitas; o fato é que ele não era só um ator cômico, não, ele colocava não sei que raiva no que fazia e era necessária toda a obtusidade das pessoas enquanto comem para não perceberem que ele não era ridículo, mas dino de penas. Superava a si mesmo sobretudo quando se tratava de imitar os movimentos, as caretas e as afetações femininas. O que faz uma mulher, sorri maliciosamente? E ele, por baixo da aba do chapéu, esboçava um riso de escárnio, vulgar, de prostituta. Requebrava, como se diz, um pouco os quadris? E ele começava a dança do ventre, jogando para o lado as nádegas quadradas e maciças como um pacote. Tinha uma voz suave? E ele, apertando a boca, emitia uma voz de flauta, melosa, quase estomacal. Nunca tinha medida, ultrapassava sempre o limite, tornava-se obsceno, repugnante. De tal maneira, que eu sempre me envergonhava, porque uma coisa é acompanhar um cantor ao violão, outra coisa é servir de muleta a um palhaço. Eu me lembrava de ter tocado não muito tempo atrás as mesmas músicas cantadas seriamente por um excelente artista; e sentia pena de vê-las reduzidas àquilo, irreconhecíveis e indecnetes. Falei com ele numa ocasião em que estávamos batendo perna de rua em rua, de um restaurante a outro. "Mas o que as mulheres fizeram para você?" Normalmente, depois que bancava o palhaço, ficava distraído e sombrio, sabe-se lá com que pensamentos rodando pela sua cabeça. "As mulheres não me fizeram nada." "Eu estou dizendo isso", expliquei, "porque voê tira sarro delas com gosto." Desta vez ele nao disse nada e a conversa acabou por aí.
Teria abandonado Milone se nao tivesse mais interesse por ele; porque, ainda que possa parecer incrível, ele conseguia mais dinheiro com as suas vulgaridades do que muitos excelentes músicos ambulantes com as suas belas canções. Vagávamos principalmente por aqueles restaurantes não propriamente de luxo, quase cantinas, caseiros, mas caros, onde as pessoas vão para encher a pança e se divertir. logo que entrávamos, eu, muito de leve, dedilhava o violão, das mesas abarrotadas ouvia-se um só grito: "olha o professor... o professor está aí... venha até aqui, professor". Carrancudo, debochado, desvairado, puxa-saco, Milone se apresentava, dizendo: "Podem pedir", e aquele "podem pedir" já era tão ridículo ao seu modo, que todos morriam de rir. nisso chegava o macarrão e, enquanto o dono do restaruante esfalfava-se para servir, Milone, com uma voz idiota, anunciava: "Uma canção muito bonita: Quando Rosina desce do vilarejo... eu vou fazer a Rosina" Imaginem os clientes: quando o viam representando Rosina, com as gagues e as obscenidades de sempre, ficavam com os espaguetes pendurados no garfo, entre a boca e o prato. E não se tratava de grupos de açougueiros ou coisa parecida, eram todos grã-finos: os homens de terno azul escuro, engomados, uma pérola espetada na gravata; as mulheres de casaco de pele, cobertas de jóias, delicadas, preciosas. Falavam entre si, enquanto Milone bancava o palhaço: "É bom... é realmente bom", ou até mesmo alguém, alarmado, gritava: "Atenção, não contem por aí que nos o descobrimos... se não a coisa desanda". Entre as suas vulgaridades, Milone tinha uma canção em que, em uma determinada hora, para tornar o personagem mais ridículo, fazia com a boca um certo barulho que eu nem lhes conto. E você acreditam? Eram exatamente as madames mais afetadas que pediam bis para esta música.
É preciso dizer que, por ser ver tão aplaudido, o sucesso tinha subido à cabeça de Milone. Morava na casa de uma costureira, em um quarto mobiliado, escuro e úmiod, na via Cimarra. Agora, todas as vezes que eu ia pegá-lo alguma nova grosseria, uma nova vulgaridade. Acrescentava um certo escrúpulo mórbido, como se se tratasse de um grande ator preparando-se para a apresentação;  e eu, sentado na cama, olhando-o simular a dança do ventre na frente do espelho da cômoda, perguntava-me se, pro acaso, ele não fosse meio louco. "Mas não seria hora", perguntei-lhe num certo dia, "de inventar alguma coisa graciosa, comovente?" E ele:"´pra ver que você não entende nada... as pessoas quando comem querem rir e não se comover... e eu", acrescentou rancoroso, "faço elas rirem". Algum tempo depois, sempre por causa dessa mania de se aperfeiçoar, inventou de levar em uma maleta algumas roupas femininas pro exemplo, um chapeuzinho, uma echarpe, uma sainha para vestir na hora, para tornar a paródia mais cômica ainda. Esta idéia de travestir-se de mulher, nele, era quase uma mania; não podem imaginar que dureza era vê-lo chacoalhar-se com o chapeuzinho sobre os olhos e a saia amarrada na cintura, por cima das calças. Finalmente, não sabendo mais o que inventar, sugeriu que eu também bancasse o palhaço, mesmo continuando a dedilhar o violão. E aí eu me recusei.
Percorríamos o mairo número de restaurantes que conseguíamos, do meio-dia às rês e das oito às meia-noite. Visitávamos vários, dependendo do dia: um dia os restaurantes dos lados da piazza di Spagna; um dia aqueles ao redor da piazza Venezia; outro dia os restaurantes de Trastevere, outro dia ainda aqueles próximos da estação de trem. Entre um restaurante e outro, sempre correndo pelas ruas, não conversávamos: não havia intimidade entre nós. No fim da noite, íamos a uma cnatina e dividíamos o dinheiro. Depois, em silêncio, eu fumava um cigarro e Milone bebia um quarto de vinho. à tarde, Milone ensaiava os seus números à frente do espeçho; eu, por minha vez, dormia ou ia ao cinema.
Em uma noite de muito frio, depois de ter rodado as trattorias de Tratevere, entramos, mais para nos aquecermos do que para tocar, numa cantina atrás da piazza Mastai. Tratava-se de um espaço comprido, quase um corredor, com as mesas alinhadas ao longo da parede e, nas mesas, quase só gente pobre, bebendo vinho da casa e omendo comida embrulhaa me jornal. Não sei por que, a vaidade, já qeu não podia ser interesse, levou Milone a se exibir também naquela cantina. Escolheu então uma das suas músicas mais bonitas e, com os modos de sempre, reduziu-a, à força dos escárnios e das contorções, a uma porcria. Logo que acabou, recebeu um aplauso bastante frio e depois, de uma daquelas mesas, escutou-se uma voz: "Agora, quem vai cantar esta música sou eu".
Virei e vi que se aproximava um rapaz loiro, com um macacão de mecânico, bonito como um anjo, olhando para Milone com olhar furioso, como se quisesse comê-lo. "Você, comece a tocar", disse-me com autoridade, "do início." Milone, fingindo que estava candsado, deixou-se cair em uma cadeira perto da porta. O rapaz me fez sinal com a mão para começar e então se pôs a contar. Não digo que ele cantasse como um verdadeiro cantor, mas cantava com sentimento, com uma voz bonita, quente e tranquila, enfim, cantava como se deve cantar e como a música pedia para ser cantada. Além disseo, como eu já disse, era bonito, com aqueles seus cachos, especialmente se comparado a Milone, tão maciço e sórdido. Cantava virado para a cantina, olhando para uma mesa onde estava sentada uma moça sozinha, como se estivesse cantando para ela. Quando terminou, fez um gesto para Milone, com a mão estendida, como se dissesse: "è assim que se canta", e voltou para a mesinha onde o esperava a moça, que em seguida colocou os braços em volta do seu pescoço. Na cantina para dizer a verdade, aplaudiram por que ele tinha se incomodado em cantar. Mas eu o entendera; e, desta vez, Molone também tinha entendido.
Enquanto eu tocava, olhara frequantemnte para Milone; tinha visto ele passar muitas vezes a mão no rosto e sob os cabelos que lhe caíma na testa, como quem não está suprotanto ficr acordado e está caindo de sono. Mas não conseguia esconder uma expressão amarga que eu nunca tinha visto; a cada nova estrofe que o moço acertava, parecia que sua amargura crescia. Finalmente se levantou, espreguiçando-se e fingindo que bocejava e disse: "Bem, está na hora de ir dormi... estou com um sono...".
Despedimo-nos na esquina, com o habitual encontro marcado apr ao dia seguinte.  O que aconteceu durante a noite, reconstruí depois, mas são suposições. Eu disse que o sucesso tinha subido à cabeça de Milone, imaginando ser sabe-se lá que grande artista quando na verdade era um pobre coitado que bancava o palhaço para divertir as pessoas enquanto comim; de modo que foi grande o tombo que aquele rapaz doiro de macacão lhe deu com o seu gesto. Acredito qeu, enquanto o rapaz cantava, de repente, deve ter visto a si próprio como era e não como tinha aé então acreditado ser: um homenza~rrão de cinquenta anos que colocaa um babador e recitava a Vispa Teresa. Mas acho também que ele se julgava incapaz de cantar, mesmo tendo feito um pacto com o diabo. Ele, em suma, só conseguia fazer rir ridicularizando certas coisas. E estas certas coisas, por coincidência, eram exatamente aquelas que ele, na sua vida, nunca tinha conseguido ter.
Mas, como eu disse, são suposições. O certo é que a costureira que lhe alugava o quarto no dia seguinte o encontrou enforcado entre a janela e a cortina, no lugr em que geralmente ficavam penduradas as gaiolas doa passarinhos. Foram algunas transeuntes a notá-lo, da via Cimarra, vendo, através dos vidor, as pernas e os pés balançando no vazio. Despeitado como todo suicida, tinha fechado a porta à chave e apoiado na porta a cômoda com o espelho: talvez quisesse se ver, como quando ensaiava, enfiando o pescoço no laço. Em suma, tiveram que arrombar a porta, o espelho caiu e se quebrou. Levaram-no ao cemitério Verano e eu fui o único que o acompanhou, desta vez sem violão. A costureira recolocou o espelho, mas se consolou vendendo, a uma certa quantia o metro, a corda.

(O palhaço - págs, 72-79 - Alberto Moravia - Contos Romanos)

Alberto Moravia (Roma, 1907-1990) desde muito jovem tornou-se um escritor famoso e um jornalista de primeiro plano, um dos mais importantes escritor italiano do século XIX. Muitos de seus romances tornaram-se filmes de sucesso. Contos romanos é semelhante a um tabuleiro de que os personagens são peças, um pouco esquesitas em seus diferenes vícios, feiúras e deformidades, com as quais Moravia desenvolve o seu peculiar jogo literário, não com pouca comicidade derivada do desajuste dos protagonistas e da repetição das situações. O livro apresenta ainda umas da localização do histórico das referências dos contos.
Contos romanos /Alberto Moravia ; apresentação Loredana Caprana ; tradução Alessandra Caramori ; Ilustrações Marco Giannotti ; revisão da tradução Eugenio Vinci de Moraes. - São aulo : Berlendis & Vertecchia, 2002. (Letras Italianas)

Bem, outros palhaços continuam por lá, ou seria por cá... é só conferir por aqui!

sábado, 26 de novembro de 2011

Presente de um Poeta - Pablo Neruda




"Por ti junto aos jardins cheios de flores novas
me doem os perfumes da primavera.
Esqueci o teu rosto, não me lembro de tuas mãos,
como beijam os teus lábios?
Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques,
as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.
Esqueci tua voz, tua voz alegre, me esqueci dos teus olhos.
Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança
imprecisa. Estou perto da dor como uma ferida,
se me tocas me farás um dano irremediável.
Não me lembro mais do teu amor e no entanto te advinho
atrás de todas as janelas.
Por ti me doem os pesados perfumes do estio:
por ti volto a espreitar os signos que precipitam os desejos,
as estrelas em fuga, os objetos que caem."

De Para nacer he nacido

Presente de um poeta / Pablo Neruda; tradução de Thiago de Mello; pinturas de Dafni Amecke Tzitzivakos.

Edição: Lidia María Riba
Colaboração literária: Emilia de Zuleta
Desenho: Renata Biernat
Direção de arte: Trinidad Vergara
Neruda, Pablo, 1904-1973.
Pinturas de Dafini Amecke Tzitzivakos.
Cotia, SP: Vergara & Riba Editoras, 2004. (Coleção Melhor dos melhores)
Título original: Regalo de um poeta.
1a reimpr. da 3a. ed. de 2003.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vou chamar a polícia - Irvin D. Yalom



Irvin D. Yalom, 1931 - Vou chamar a polícia: e outras histórias de terapia e literatura / Irvin D. Yalom ; [tradução Lucia Ribeiro da Silva, Mauro Pinheiro]. - Rio de Janeiro: Agir, 2009.

O livro aborda temas complexos como a jornada do homem à busca de sua essência mas o faz de maneira farta em palavras que o autor doa em vida através de sua obra existencial que literalmente retira de sua caminhada, experiência e troca com o outro seja um amigo, um livro (para não falar alguns) escrito ou um divã.

Esse sujeito, ser em alta produtividade no mundo atual, que ao falar e identificar suas raizes de seus sintomas, embora silenciado pela ciência (o médico já não é um profeta na era moderna), nunca deixou de viver nas tradições orais, nas narrativas épicas e mitológicas, na poesia e no romance moderno - de Dom Quixote a Harry Potter. O que convencionamos chamar de literatura evidencia a necessidade que tem o homem de dar uma forma a seu sofrimento e de compreender melhor a complexidade dos dramas que o afligem. Médicos que se transformaram em escritores famosos, como Guimarães Rosa, Tchekhov, Conan Doyle, mesclam em seus escritos a vivência originada da medicina, a cuja prática ele foi compelido por circunstâncias familiares, e seu sonho adolescente de um dia se tornar um romancista.  Assim, Yahom investiga a relação entre a ficção e as histórias contadas por seus pacientes. As confissões que fazemos em uma sessão de terapia - a reconstrução de nossas vidas - pertencem ao terreno da verdade ou têm parentesco com a ficção? Nossas lembranças têm uma precisão fotográfica ou são interpretações subjetivas de acontecimentos passados? A realidade tem uma natureza objetiva ou é sempre única, impossível de ser compartilhada, fruto do psiquismo de cada um?

Nesta coletânea o autor resgata sua dívida com os grandes ficcionistas e pensadores, que jamais deixaram de considerar os nosso conflitos e a busca de um sentido para eles como inerentes à condição humana, independentes dos rumos da ciência e do saber acumulado nos laboratórios. Trabalha assim,  entre outros, por Epicuro, Sófocles, Shakespeare, Tólstói, Dostoiévski, Nietzsche, Sartre e Camus, Irvin Yalom transforma, por um lado, a fala de seus pacientes, em narrativas que a sensibilidade de clínico e as qualidades de escritor aproximam dos melhores romances. Um autor incomum.

"Paul e eu éramos muito amigos. Quando soubemos de um levante de judeus contra os nazistas na Eslováquia, resolvemos entrar para a Resistência de lá. Como eu não falava eslovaco, ele achou melhor ir na frente para sondar a situação. Se as perspectivas lhe parecessem boas, encontraria um canal clandestino e voltaria a Budapeste para me buscar. Fui com ele à principal estação ferroviária da capital e, quando o trem partiu, eu tinha certeza de que tornaria a vê-lo dali a umas duas semanas. Só que nunca mais o vi. Procurei notícias de Paul depois da guerra, mas não consegui o menor vestígio. Tenho certeza de que os nazistas o mataram."

"- A gente se acostuma, Irv; é difícil acreditar, mas a gente se acostuma. Hoje em dia, nem eu consigo acreditar que em algum momento aquilo aconteceu, mas, na verdade, houve época em que isso acontecia diariamente. Assisti a vários desses fuzilamentos em massa e sabia que, mesmo que os tiros não fossem fatais, as vítimas não teriam como escapar da morte depois de serem lançadas na água gelada."

(leia um capítulo aqui)

Desenhando o mapa da nossa vida psíquica construído por caminhos tortuosos, que Irvin D. Yalom tenta descortinar com sua narrativa em textos como "Vou chamar a polícia", que dá nome ao título do livro, descortina ainda, a posição do terapeuta, sua sinceridade, a exposição de seus próprios sentimentos, os limites de seu envolvimento com os pacientes e os benefícios de analisar, os resultados de cada sessão de terapia. Irvin oferece ao leitor os caminhos que trilhou ao longo de sua carreira seja como pedagogo, psiquiatra ou célebre romancista, autor do livro Quando Nietzsche Chorou, já resenhado aqui no blog.

Irvin D. Yalom nasceu em 1931, em Washington, D.C. Seus pais eram imigrantes russos que se estabeleceram nos Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Desde criança, Yalom demonstrava profundo interesse pelos livros. Talvez tenha vindo daí sua paixão pela escrita e a vontade de transofrmar em narrativa o precioso material que seu trabalho como psiquiatra lhe daria. Atualmente é professor emérito de Psiquiatria da Universidade de Stanford. No Brasil foram publicados, de sua autoria, Quando Nietzsche chorou, A cura de Schopenhauer, Mentiras no divã, Os desafios da terapia, O carrasco do amor, Mamãe e o sentido da vida e De frente para o sol.

(Volto... fui ali comer uma pizza de banana que hoje é sexta-feira e a semana foi difícil... e lógico, ler o livrinho que como a pizza está quentinho quentinho - acabou de chegar!)

Uau! Maravilhoso o livro! parada somente para um cafezinho de chaleira. Resgatando questões antigas... Muito bom!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Eu tomo conta do mundo - Clarice Lispector

Clarice Lispector

"Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo teraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante à noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho,  se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.
Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapose magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.

Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas."
(A descoberta do mundo - Clarice Lispector).

"Se não for prá te adorar... para que nasci..."




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Antônio Lobo Antunes - 60 crônicas - As coisas da vida



Antônio Lobo Antunes
As coisas da vida
60 crônicas


As pessoas crescidas

"As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcadas na parede pelo lápis da mãe. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu garinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e a autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de cintos.

Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinham o riso desmontável: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir no almoço, com uma escovinha especial. Acontece-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a troçarem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas."


Sessenta crônicas, assim tecidas pela narrativa de Lobo, o Antônio Antunes. Um charme construído como sua trajetória de riquíssima vida. Ser cronista, uma faceta menos conhecida do autor, porém uma seleção de sessenta textos já publicados principalmente no jornal Público e na revista Visão de Portugal, um escritor diferente e genial.

Ele fala de si, de relacionamentos e despedidas, num completo entrelaçamento entre realidade e ficção. Como resultado, cria textos brilhantes, em que pequenas passagens da vida ganham dimensão universal. As crônicas são organizadas em sete grandes temas - infância, literatura, relacionamentos amorosos, humor, cenas do cotidiano, guerra em Angola e memórias.

Antônio Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa. Formado em medicina, com especializaçao em psiquiatria, serviu como médico do Exército português em Angola nos últimos anos da guerra naquele país, entre 1970 e 1973.

Autor de uma obra extensa, de repercussão mundial, Lobo Antunes recebeu diversos prêmios literários, como o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1999, por Exortação aos crocodilos. Em 2007, recebeu o Prêmio Camões de literatura, o maior reconhecimento dado a um autor de língua portuguesa vivo, e, em 2008, o Prêmio Juan Rulfo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Clarice Lispector - A descoberta do mundo

 Cavaleiros - Macaé - RJ - Brasil
As águas do mar

"Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: não está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fato não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorregando - espantada de pé, fertilizada.

Agora o frio se transforma em frígido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos, com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

E era isto que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secando pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opões resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão amigo quanto o ser humano."

(A descoberta do mundo, págs 470, 471 - Clarice Lispector)


sábado, 19 de novembro de 2011

Manual de Trigonometria Aplicada - Victor Domingos


Manual de Trigonometria Aplicada - Victor Domingos
Uma linguagem universal... para falar de emoções.

Acaba de ser lançado em formato digital o livro Manual de Trigonometria Aplicada, uma narrativa que conquistou em 2002 o 1º prémio no Concurso Literário “Ecos da Memória”. A obra está disponível em diversos formatos nas principais lojas internacionais, podendo ser lida no computador e na generalidade dos leitores portáteis de ebooks, incluindo por exemplo o Kindle, o iPad e o iPhone.

A obra começa com uma misteriosa carta e apresenta-nos a história de um engenheiro que parece ter encontrado na trigonometria e na matemática em geral uma forma muito pessoal de se exprimir e de refletir sobre a sua própria vida. A narração traça o seu percurso afetivo, o qual se revela afinal muito mais humano e mais sensível do que o título da obra poderia indiciar... Afinal, sempre ouvimos dizer que a matemática é uma linguagem universal, e afinal pode servir até para falar de emoções e sentimentos.

Difícil de definir e de enquadrar nos géneros literários mais convencionais, o livro surpreende entre outros aspectos pela densidade psicológica da personagem principal. Esta inquietante narrativa junta de forma singular o género epistolar com um certo tipo de 'suspense' que normalmente se associa sobretudo à literatura policial.

A quando da primeira edição desta obra, o escritor brasileiro Antônio Mariano Lima publicou em 2003 uma crítica no jornal A União, manifestando notável entusiasmo:

"Misto de gênero epistolar (...) expõe, pelo vigor da prosa inquieta, um criador para cuja trajetória vale ficar atento. As dúvidas e constatações do protagonista, um engenheiro, alojadas no curioso título da obra, nos remetem ao dilema da natureza humana, a luta entre a razão e a sensibilidade. Para triunfo da arte, entretanto, aqui, malgrado os esforços do personagem em suas referências matemáticas, a segunda leva vantagem. O que temos é um itinerário afetivo de ocorrências e percepções de um mundo particular que a cada linha o personagem busca construir e nele reencontrar-se. Ou, mais precisamente, a descoberta do universo através da linguagem de que nos fala Sartre em seu Diário de uma guerra estranha."

O livro "Manual de Trigonometria Aplicada" já se encontra disponível à venda internacionalmente na Apple iBookstore (para iPad, iPhone e iPod touch) e também nas diversas livrarias online da Amazon (para os dispositivos e aplicações Kindle): Amazon Kindle Store, Amazon.co.uk, Amazon.de e Amazon.fr. A obra passa assim a estar disponível nos principais canais de distribuição de ebooks a nível internacional. Uma das principais vantagens é que o acesso a este livro está agora bem mais facilitado para os utilizadores dos dispositivos de leitura mais populares, como o Kindle, o iPad, o iPhone e o iPod touch. Esses utilizadores podem assim obter o livro através das lojas que provavelmente já utilizam com regularidade e com cuja interface já estarão mais familiarizados.

Seguem abaixo os endereços para algumas das principais livrarias on-line onde já é possível adquirir esta obra:

Apple iBookstore, Amazon.com , Amazon.co.uk , Amazon.deAmazon.fr , Smashwords.

Mesmo que um leitor não possua um Kindle ou um dispositivo Apple, poderá ser adquirido na livraria Smashwords este livro em versão multiformato (inclui PDF, EPUB, MOBI, e outros). Os vários formatos disponíveis são particularmente úteis para quem usa outros dispositivos de leitura de ebooks e permitem por exemplo, a leitura deste livro num simples smartphone Android ou Symbian, ou mesmo em qualquer computador pessoal. E, para quem ainda assim prefere mesmo ler em papel, o formato PDF (disponibilizado através da Smashwords) permite até a impressão do livro na sua própria casa.

Victor Domingos é também autor do livro As Confissões de Dulce (veja aqui postagem anterior).

As Confissões de Dulce - Victor Domingos


  

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Irvin D. Yalom - Quando Nietzsche chorou




Quando Nietzsche chorou / Irvin D. Yalom; tradução de Ivo Korytowski. - Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.


"Viver com segurança é perigoso"

"Quando Nietzsche chorou", conforme postagem anterior (haja choro) em que mencionei o filme, que certamente difere em muito do conteúdo do nobre livro. Fica a sutileza do tema, entretanto, não puxando brasa para a leitura do livro, mas o livro é para uma vida. Belíssimo!

Felicíssima pelo retorno do amado livro Quando Nietzsche chorou o que permitirá uma releitura (assim que possível trago uma foto do estimado) agora com maior observação aos pontos neste raro (literalmente falando pois em rede não encontrei) livro de história comovente e bem forjada onde há o entralaçamento entre ficção e realidade. Irvin Yalom leva o leitor a participar de discussões profundas das dores da alma através de diversos encontros que ocorreram entre os irresistíveis personagens doutor Josef Breuer, o filósofo Friedrich Nietzsche e o jovem médico Sigmund Freud.

No final do século XIX Josef Breuer está envolvido em uma atmosfera de glórias, após curar uma paciente através de seu novo método de tratamento, a "terapia através da conversa". O que deveria ser seu melhor momento se revela num grande tormento - ele tem obsessivas fantasias sexuais com Anna O., a paciente recém-curada, e em decorrência disso sofre de insônia e pesadelos.

De férias em Veneza, Breuer encontra a jovem russa Lou Salomé que lhe pede um favor: tratar da depressão suicida de seu amigo Friedrich Nietzsche.

21 de Outubro de 1882
"Doutor Breuer,
Preciso vê-lo para um assunto da maior urgência. O futuro da filosofia alemã está em jogo. Encontre-me amanhã cedo às nove horas no Café Sorrento."
                                                                                                    Lou Salomé"

O filósofo alemão já tentara tratamento com dezenas de médicos em toda a Europa e quase sempre seu orgulho e a natureza de seu sofrimento se configurariam em obstáculos intransponíveis. O que se estabelece entre eles é uma relação na qual as funções de médico e paciente se confundem, pois Breuer encontra na filosofia de Nietzsche algumas respostas para suas próprias dores existenciais.

"Terá sido apenas a duas semanas que tentei manipulá-lo para revelar algum pequeno fragmento de si, que reclamei com Max e Frau Becker sobre o sigilo dele, que levei meu ouviso aos lábios dele para ouvir: "Ajude-me, ajude-me", que lhe prometi: "Conte comigo"?
Por que, então negligenciei-o hoje? Terei ficado ganancioso? Esse processo de aconselhamento - quanto mais se estende, menos o compreendo. Porém, é irresistível. Cada vez mais, penso em minhas conversas com Nietzsche; às vezes chegam a interromper uma fantasia com Bertha. Essas sessões se tornaram o centro de meu dia. Sinto-me ansioso pela minha sessão e, com frequência, mal consigo esperar pela próxima. Será por isso que deixei Nietzsche  me desnudar hoje?
No futuro - quem sabe quando, talvez daqui a cinquenta anos? -, esse tratamento através da conversa poderá tornar-se corriqueiro. "Médicos da angústia" se tornarão uma especialidade típica. E as faculdades de medicina, ou talvez os departamentos de filosofia, os treinarão.
O que deveria contar o currículo do futuro "Médico da angústia"? No momento, posso estar certo de uma caderia essencial: "relacionamento"! É aí que a coisa complica. Assim como os cirurgiões precisam primeiro aprender anatomia, o futuro "médico da angústia" precisa primeiro entender o relacionamento entre o que aconselha e o aconselhado.
Observar um relacionamento não é fácil quando eu mesmo faço parte dele. Entretanto, noto tendências impressionantes.
Acreditava que pudesse ajudá-lo. Isso não mais ocorre. Tenho pouco a lhe oferecer. Ele tem tudo a me oferecer."

Bela passagem o encontro de Breuer e Nietzsche acerca da memória paterna:

"- Acima de tudo, acho que sinto falta de sua atenção. Ele sempre foi minha principal platéia, mesmo no finalzinho da vida, quando sofreu grande confusão mental e perda de memória. Eu não deixava de lhe contar meus sucessos, meus triunfos de diagnósticos, minhas descobertas nas pesquisas, mesmo minhas doações de caridade. Mesmo depois de morrer, continuou sendo minha platéia. Durante anos, imagineio-o espiando por cima de meus ombros, observando e aprovando minhas realizações. Quanto mais sua imagem se desvanece, mais luto contra o sentimento de que minhas atividades e meus sucessos são todos evanescentes, de que não têm significado real.
- Está dizendo, Josef, que se seus sucessos pudessem ser registrados na mente efêmera de seu pai, 'então' possuiriam significado?
- Sei que é irracional. Parece muito com a questão do som de uma árvore que cai numa floresta vazia. A atividade não observada terá um significado?
- A diferença é, claramente, que a árvore não tem ouvidos, enquanto é você próprio que confere significado.
- Friedrich, você é mais auto-suficiente do que eu... mais do que qualquer pessoa que conheci! Lembro-me de ter admirado, em nosso primeiro encontro, sua capacidade de florescer sem qualquer reconhecimento dos colegas.
- Há muito tempo, Josef, aprendi que é mais fácil enfrentar uma má reputação do que uma má consciência. Ademais, não sou ganancioso; não escrevo para a turba. E sei ser paciente. Talvez meus discípulos ainda não tenham nascido. Somente o depois de amanhã me pertence. Alguns filósofos nascem postumamente!

Freud, não menos importante, entretanto, em início de carreira (na época) tem participação menos atuante na referida ficção. Deixo aqui minha contribuição ao ilustre o qual sou grande admiradora pelo fato do nobre ter sido grande leitor chegando ao ponto de receber castigo paterno por ter gasto além que suas parcas economias na compra de livros, livros e mais livros (isto aos 17 anos, ainda um jovem estudante iniciante nas letras).

Era isto, inté!
Irvin D. Yalom é Psicoterapeuta e professor de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, com vários títulos na área acadêmica.

domingo, 13 de novembro de 2011

Virginia Woolf - Entre os Atos

Entre os Atos - Virginia Woolf - tradução Lya Luft
prefácio Antônio Bivar
Novo Século Editora, 2008

"Não possuímos as palavras...
Elas estão por trás dos olhos, não sobre os lábios."

"Os livros são o espelho da alma."

Entre os Atos, de Virginia Woolf, é um livro para se ler detalhadamente, minuciosamente, sentindo cada compasso, cada ritmo ao percorrer suas páginas. Virgínia magistralmente coloca o mundo como representação onde cada ser expõe sua máscara na atuação do palco improvisado que se constrói ininterruptamente na história humana.

Bem poderia ter lido o aviso no belo prefácio de Lya Luft: Virginia se despede. Exagero? não aos sentidos.

"O último romance escrito por Virgínia Woolf, Entre os Atos, foi publicado postumamente, quatro meses depois de seu suicídio numa sexta-feira, 28 de março de 1941. Nascida em 25 de janeiro de 1882, Virgínia estava com 59 anos, dois meses e dois dias, quando afogou-se no Rio Ouse, meia milha da Monk´s House, sua residência campestre emRodmell, no condado de Sussex (distante pouco mais de uma hora de trem de Londres). A última pessoa que a viu foi John Hubbard, empegado de uma fazenda local. Hubbard contou que era por volta das 11h30 da manhã quando Virginia, de sobretudo e bengala, passou por ele em direção ao rio.
Virginia largou a bengala, enfiou pedras nos bolsos do casaco e entrou no rio. Deixara, em casa, cartas para o marido Leonard e para a irmã Vanesa 9que moraa a poucos quilômetros, na Fazenda Charleston). Nas cartas ela explicava ter certeza de estar ficando loucanovamente. E desta vez sem esperança de cura. creditava que nunca mais ficaria boa e não achava certo continuar dando trabalho aos outros. Para o marido ela escreveu: "Querido, tenho a certeza de que estou enlouquecendo de novo. De modo que estou fazendo o que me parece melhor. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida e que semmim você poderá trabalhar. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Se alguém pudese me salvar, teria sido você." E termina: "Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos."
(Lya Luft)


Pointz Hall, título original, o romance só ganhou o nome de "Entre os Atos" (Between the Acts) no dia da entrega para publicação e teve escrita simultânea a uma biografia para um amigo, Roger Fry, que a deixou, segundo páginas de seu diário, tensa por ter que abandonar seu livro original pelos encargos da proximidade da guerra que logo estourou. Segundo leitura de seu diário, Virginia nos anos que escreveu "Entre os Atos" parecia vivíssima e ágil. Por ocasião de Janeiro de 1939 Virginia se encontra com o pai psicanálise e ganha desse um narciso de presente. Desde 1924, em tradução de James Strachey, a editora de Virginia e Leonard Woolf vinha publicando as obras de Freud, já velho e doente por ocasião dessa visita.

"Aos leitores de "Entre os Atos" (em mais uma excelente tradução de Lya Luft) fica a forte impressão de que Virginia Woolf encerrou brilhantemente sua jornada de romancista fazendo perfeito uso da dialética da história. Não apenas a história de sua Inglaterra mas a história da humanidade, a luta da civilização contra a selvageria. Como escreveu John Lehmann: "Apesar de rude e fragmentada, Entre os Atos é a obra mais vigorosa e bem amarrada de Virginia Woolf. E o estranho simbolismo dá ao romance beleza e uma aterrorizante profundidade."
(Antônio Bivar - Membro do The Virginia Woolf - Society of Great Britain)


A narrativa de Virginia Woolf tem grande estilo, onde enlaça o humano neste conflito belamente montado que por vezes a beleza da força de suas singelas imagens são avassaladoras, seja nos contrastes de um ajuntamento de borboletas ou de uma tempestade.

"Baixou o jornal, e todos olharam para o céu a fim de constatar se o céu obedecia ao meteorologista. O tempo, sem dúvida, mostrava-se instável. Num momento, o jardim aparecia verde; noutro, cinzento. li vinha o sol - ilimitado êxtase de alegria, abraçando cada flor, cada folha. Depois, afastava-se compadecido, cobrindo a face como se não quisesse ver os sofrimentos humanos. Nas nuvens havia negligência, falta de simetria e ordem, quando se adensavam ou se esgarçavam Era a uma lei própria que obedeciam? Ou a lei nenhuma? Alguma não passavam de mechas de cabelo branco. Uma delas, bem no alto, muito distante, solidificara-se em dourado alabastro; era um mármore imortal. Por baixo dela haviz azul, azul puro, azul negro, azul jamais filtrado até a terra, esquivando-se a qualquer registro. Jamais caía sobre o mundo como o sol, a combra ou a chuva; antes, ignorava completamente essa esferazinha de terra colorida. Nenhuma flor jamais sentia esse azul; nenhum jardim."
(Entre Atos - Virgínia Woolf - págs.34,35)


Nascida em Londres, em 1882, Virginia Woolf tornou-se uma das mais importantes escritoras inglesas, conhecida também por suas posições feministas.Influenciada por Proust e Joyce, Virginia superou os limites impostos pela ficção realista, integrando à narrativa uma simultaneidade de eventos, criando uma nova concepção do tempo narrativo. Em 1941, após uma grave crise de depressão, Virgínia suicida-se no rio Ouse. Deixou ensaios, contos, biografias, uma extensa correspondência e romances como A Viagem, Noite e dia, O quarto de Jacob, As Ondas, entre outros.

 
(Lendo e construindo)

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