sábado, 26 de novembro de 2011

Presente de um Poeta - Pablo Neruda




"Por ti junto aos jardins cheios de flores novas
me doem os perfumes da primavera.
Esqueci o teu rosto, não me lembro de tuas mãos,
como beijam os teus lábios?
Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques,
as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.
Esqueci tua voz, tua voz alegre, me esqueci dos teus olhos.
Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança
imprecisa. Estou perto da dor como uma ferida,
se me tocas me farás um dano irremediável.
Não me lembro mais do teu amor e no entanto te advinho
atrás de todas as janelas.
Por ti me doem os pesados perfumes do estio:
por ti volto a espreitar os signos que precipitam os desejos,
as estrelas em fuga, os objetos que caem."

De Para nacer he nacido

Presente de um poeta / Pablo Neruda; tradução de Thiago de Mello; pinturas de Dafni Amecke Tzitzivakos.

Edição: Lidia María Riba
Colaboração literária: Emilia de Zuleta
Desenho: Renata Biernat
Direção de arte: Trinidad Vergara
Neruda, Pablo, 1904-1973.
Pinturas de Dafini Amecke Tzitzivakos.
Cotia, SP: Vergara & Riba Editoras, 2004. (Coleção Melhor dos melhores)
Título original: Regalo de um poeta.
1a reimpr. da 3a. ed. de 2003.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vou chamar a polícia - Irvin D. Yalom



Irvin D. Yalom, 1931 - Vou chamar a polícia: e outras histórias de terapia e literatura / Irvin D. Yalom ; [tradução Lucia Ribeiro da Silva, Mauro Pinheiro]. - Rio de Janeiro: Agir, 2009.

O livro aborda temas complexos como a jornada do homem à busca de sua essência mas o faz de maneira farta em palavras que o autor doa em vida através de sua obra existencial que literalmente retira de sua caminhada, experiência e troca com o outro seja um amigo, um livro (para não falar alguns) escrito ou um divã.

Esse sujeito, ser em alta produtividade no mundo atual, que ao falar e identificar suas raizes de seus sintomas, embora silenciado pela ciência (o médico já não é um profeta na era moderna), nunca deixou de viver nas tradições orais, nas narrativas épicas e mitológicas, na poesia e no romance moderno - de Dom Quixote a Harry Potter. O que convencionamos chamar de literatura evidencia a necessidade que tem o homem de dar uma forma a seu sofrimento e de compreender melhor a complexidade dos dramas que o afligem. Médicos que se transformaram em escritores famosos, como Guimarães Rosa, Tchekhov, Conan Doyle, mesclam em seus escritos a vivência originada da medicina, a cuja prática ele foi compelido por circunstâncias familiares, e seu sonho adolescente de um dia se tornar um romancista.  Assim, Yahom investiga a relação entre a ficção e as histórias contadas por seus pacientes. As confissões que fazemos em uma sessão de terapia - a reconstrução de nossas vidas - pertencem ao terreno da verdade ou têm parentesco com a ficção? Nossas lembranças têm uma precisão fotográfica ou são interpretações subjetivas de acontecimentos passados? A realidade tem uma natureza objetiva ou é sempre única, impossível de ser compartilhada, fruto do psiquismo de cada um?

Nesta coletânea o autor resgata sua dívida com os grandes ficcionistas e pensadores, que jamais deixaram de considerar os nosso conflitos e a busca de um sentido para eles como inerentes à condição humana, independentes dos rumos da ciência e do saber acumulado nos laboratórios. Trabalha assim,  entre outros, por Epicuro, Sófocles, Shakespeare, Tólstói, Dostoiévski, Nietzsche, Sartre e Camus, Irvin Yalom transforma, por um lado, a fala de seus pacientes, em narrativas que a sensibilidade de clínico e as qualidades de escritor aproximam dos melhores romances. Um autor incomum.

"Paul e eu éramos muito amigos. Quando soubemos de um levante de judeus contra os nazistas na Eslováquia, resolvemos entrar para a Resistência de lá. Como eu não falava eslovaco, ele achou melhor ir na frente para sondar a situação. Se as perspectivas lhe parecessem boas, encontraria um canal clandestino e voltaria a Budapeste para me buscar. Fui com ele à principal estação ferroviária da capital e, quando o trem partiu, eu tinha certeza de que tornaria a vê-lo dali a umas duas semanas. Só que nunca mais o vi. Procurei notícias de Paul depois da guerra, mas não consegui o menor vestígio. Tenho certeza de que os nazistas o mataram."

"- A gente se acostuma, Irv; é difícil acreditar, mas a gente se acostuma. Hoje em dia, nem eu consigo acreditar que em algum momento aquilo aconteceu, mas, na verdade, houve época em que isso acontecia diariamente. Assisti a vários desses fuzilamentos em massa e sabia que, mesmo que os tiros não fossem fatais, as vítimas não teriam como escapar da morte depois de serem lançadas na água gelada."

(leia um capítulo aqui)

Desenhando o mapa da nossa vida psíquica construído por caminhos tortuosos, que Irvin D. Yalom tenta descortinar com sua narrativa em textos como "Vou chamar a polícia", que dá nome ao título do livro, descortina ainda, a posição do terapeuta, sua sinceridade, a exposição de seus próprios sentimentos, os limites de seu envolvimento com os pacientes e os benefícios de analisar, os resultados de cada sessão de terapia. Irvin oferece ao leitor os caminhos que trilhou ao longo de sua carreira seja como pedagogo, psiquiatra ou célebre romancista, autor do livro Quando Nietzsche Chorou, já resenhado aqui no blog.

Irvin D. Yalom nasceu em 1931, em Washington, D.C. Seus pais eram imigrantes russos que se estabeleceram nos Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Desde criança, Yalom demonstrava profundo interesse pelos livros. Talvez tenha vindo daí sua paixão pela escrita e a vontade de transofrmar em narrativa o precioso material que seu trabalho como psiquiatra lhe daria. Atualmente é professor emérito de Psiquiatria da Universidade de Stanford. No Brasil foram publicados, de sua autoria, Quando Nietzsche chorou, A cura de Schopenhauer, Mentiras no divã, Os desafios da terapia, O carrasco do amor, Mamãe e o sentido da vida e De frente para o sol.

(Volto... fui ali comer uma pizza de banana que hoje é sexta-feira e a semana foi difícil... e lógico, ler o livrinho que como a pizza está quentinho quentinho - acabou de chegar!)

Uau! Maravilhoso o livro! parada somente para um cafezinho de chaleira. Resgatando questões antigas... Muito bom!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Eu tomo conta do mundo - Clarice Lispector

Clarice Lispector

"Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo teraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante à noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho,  se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.
Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapose magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.

Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas."
(A descoberta do mundo - Clarice Lispector).

"Se não for prá te adorar... para que nasci..."




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Antônio Lobo Antunes - 60 crônicas - As coisas da vida



Antônio Lobo Antunes
As coisas da vida
60 crônicas


As pessoas crescidas

"As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcadas na parede pelo lápis da mãe. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu garinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e a autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de cintos.

Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinham o riso desmontável: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir no almoço, com uma escovinha especial. Acontece-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a troçarem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas."


Sessenta crônicas, assim tecidas pela narrativa de Lobo, o Antônio Antunes. Um charme construído como sua trajetória de riquíssima vida. Ser cronista, uma faceta menos conhecida do autor, porém uma seleção de sessenta textos já publicados principalmente no jornal Público e na revista Visão de Portugal, um escritor diferente e genial.

Ele fala de si, de relacionamentos e despedidas, num completo entrelaçamento entre realidade e ficção. Como resultado, cria textos brilhantes, em que pequenas passagens da vida ganham dimensão universal. As crônicas são organizadas em sete grandes temas - infância, literatura, relacionamentos amorosos, humor, cenas do cotidiano, guerra em Angola e memórias.

Antônio Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa. Formado em medicina, com especializaçao em psiquiatria, serviu como médico do Exército português em Angola nos últimos anos da guerra naquele país, entre 1970 e 1973.

Autor de uma obra extensa, de repercussão mundial, Lobo Antunes recebeu diversos prêmios literários, como o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1999, por Exortação aos crocodilos. Em 2007, recebeu o Prêmio Camões de literatura, o maior reconhecimento dado a um autor de língua portuguesa vivo, e, em 2008, o Prêmio Juan Rulfo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Clarice Lispector - A descoberta do mundo

 Cavaleiros - Macaé - RJ - Brasil
As águas do mar

"Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: não está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fato não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorregando - espantada de pé, fertilizada.

Agora o frio se transforma em frígido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos, com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

E era isto que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secando pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opões resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão amigo quanto o ser humano."

(A descoberta do mundo, págs 470, 471 - Clarice Lispector)


sábado, 19 de novembro de 2011

Manual de Trigonometria Aplicada - Victor Domingos


Manual de Trigonometria Aplicada - Victor Domingos
Uma linguagem universal... para falar de emoções.

Acaba de ser lançado em formato digital o livro Manual de Trigonometria Aplicada, uma narrativa que conquistou em 2002 o 1º prémio no Concurso Literário “Ecos da Memória”. A obra está disponível em diversos formatos nas principais lojas internacionais, podendo ser lida no computador e na generalidade dos leitores portáteis de ebooks, incluindo por exemplo o Kindle, o iPad e o iPhone.

A obra começa com uma misteriosa carta e apresenta-nos a história de um engenheiro que parece ter encontrado na trigonometria e na matemática em geral uma forma muito pessoal de se exprimir e de refletir sobre a sua própria vida. A narração traça o seu percurso afetivo, o qual se revela afinal muito mais humano e mais sensível do que o título da obra poderia indiciar... Afinal, sempre ouvimos dizer que a matemática é uma linguagem universal, e afinal pode servir até para falar de emoções e sentimentos.

Difícil de definir e de enquadrar nos géneros literários mais convencionais, o livro surpreende entre outros aspectos pela densidade psicológica da personagem principal. Esta inquietante narrativa junta de forma singular o género epistolar com um certo tipo de 'suspense' que normalmente se associa sobretudo à literatura policial.

A quando da primeira edição desta obra, o escritor brasileiro Antônio Mariano Lima publicou em 2003 uma crítica no jornal A União, manifestando notável entusiasmo:

"Misto de gênero epistolar (...) expõe, pelo vigor da prosa inquieta, um criador para cuja trajetória vale ficar atento. As dúvidas e constatações do protagonista, um engenheiro, alojadas no curioso título da obra, nos remetem ao dilema da natureza humana, a luta entre a razão e a sensibilidade. Para triunfo da arte, entretanto, aqui, malgrado os esforços do personagem em suas referências matemáticas, a segunda leva vantagem. O que temos é um itinerário afetivo de ocorrências e percepções de um mundo particular que a cada linha o personagem busca construir e nele reencontrar-se. Ou, mais precisamente, a descoberta do universo através da linguagem de que nos fala Sartre em seu Diário de uma guerra estranha."

O livro "Manual de Trigonometria Aplicada" já se encontra disponível à venda internacionalmente na Apple iBookstore (para iPad, iPhone e iPod touch) e também nas diversas livrarias online da Amazon (para os dispositivos e aplicações Kindle): Amazon Kindle Store, Amazon.co.uk, Amazon.de e Amazon.fr. A obra passa assim a estar disponível nos principais canais de distribuição de ebooks a nível internacional. Uma das principais vantagens é que o acesso a este livro está agora bem mais facilitado para os utilizadores dos dispositivos de leitura mais populares, como o Kindle, o iPad, o iPhone e o iPod touch. Esses utilizadores podem assim obter o livro através das lojas que provavelmente já utilizam com regularidade e com cuja interface já estarão mais familiarizados.

Seguem abaixo os endereços para algumas das principais livrarias on-line onde já é possível adquirir esta obra:

Apple iBookstore, Amazon.com , Amazon.co.uk , Amazon.deAmazon.fr , Smashwords.

Mesmo que um leitor não possua um Kindle ou um dispositivo Apple, poderá ser adquirido na livraria Smashwords este livro em versão multiformato (inclui PDF, EPUB, MOBI, e outros). Os vários formatos disponíveis são particularmente úteis para quem usa outros dispositivos de leitura de ebooks e permitem por exemplo, a leitura deste livro num simples smartphone Android ou Symbian, ou mesmo em qualquer computador pessoal. E, para quem ainda assim prefere mesmo ler em papel, o formato PDF (disponibilizado através da Smashwords) permite até a impressão do livro na sua própria casa.

Victor Domingos é também autor do livro As Confissões de Dulce (veja aqui postagem anterior).

As Confissões de Dulce - Victor Domingos


  

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Irvin D. Yalom - Quando Nietzsche chorou




Quando Nietzsche chorou / Irvin D. Yalom; tradução de Ivo Korytowski. - Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.


"Viver com segurança é perigoso"

"Quando Nietzsche chorou", conforme postagem anterior (haja choro) em que mencionei o filme, que certamente difere em muito do conteúdo do nobre livro. Fica a sutileza do tema, entretanto, não puxando brasa para a leitura do livro, mas o livro é para uma vida. Belíssimo!

Felicíssima pelo retorno do amado livro Quando Nietzsche chorou o que permitirá uma releitura (assim que possível trago uma foto do estimado) agora com maior observação aos pontos neste raro (literalmente falando pois em rede não encontrei) livro de história comovente e bem forjada onde há o entralaçamento entre ficção e realidade. Irvin Yalom leva o leitor a participar de discussões profundas das dores da alma através de diversos encontros que ocorreram entre os irresistíveis personagens doutor Josef Breuer, o filósofo Friedrich Nietzsche e o jovem médico Sigmund Freud.

No final do século XIX Josef Breuer está envolvido em uma atmosfera de glórias, após curar uma paciente através de seu novo método de tratamento, a "terapia através da conversa". O que deveria ser seu melhor momento se revela num grande tormento - ele tem obsessivas fantasias sexuais com Anna O., a paciente recém-curada, e em decorrência disso sofre de insônia e pesadelos.

De férias em Veneza, Breuer encontra a jovem russa Lou Salomé que lhe pede um favor: tratar da depressão suicida de seu amigo Friedrich Nietzsche.

21 de Outubro de 1882
"Doutor Breuer,
Preciso vê-lo para um assunto da maior urgência. O futuro da filosofia alemã está em jogo. Encontre-me amanhã cedo às nove horas no Café Sorrento."
                                                                                                    Lou Salomé"

O filósofo alemão já tentara tratamento com dezenas de médicos em toda a Europa e quase sempre seu orgulho e a natureza de seu sofrimento se configurariam em obstáculos intransponíveis. O que se estabelece entre eles é uma relação na qual as funções de médico e paciente se confundem, pois Breuer encontra na filosofia de Nietzsche algumas respostas para suas próprias dores existenciais.

"Terá sido apenas a duas semanas que tentei manipulá-lo para revelar algum pequeno fragmento de si, que reclamei com Max e Frau Becker sobre o sigilo dele, que levei meu ouviso aos lábios dele para ouvir: "Ajude-me, ajude-me", que lhe prometi: "Conte comigo"?
Por que, então negligenciei-o hoje? Terei ficado ganancioso? Esse processo de aconselhamento - quanto mais se estende, menos o compreendo. Porém, é irresistível. Cada vez mais, penso em minhas conversas com Nietzsche; às vezes chegam a interromper uma fantasia com Bertha. Essas sessões se tornaram o centro de meu dia. Sinto-me ansioso pela minha sessão e, com frequência, mal consigo esperar pela próxima. Será por isso que deixei Nietzsche  me desnudar hoje?
No futuro - quem sabe quando, talvez daqui a cinquenta anos? -, esse tratamento através da conversa poderá tornar-se corriqueiro. "Médicos da angústia" se tornarão uma especialidade típica. E as faculdades de medicina, ou talvez os departamentos de filosofia, os treinarão.
O que deveria contar o currículo do futuro "Médico da angústia"? No momento, posso estar certo de uma caderia essencial: "relacionamento"! É aí que a coisa complica. Assim como os cirurgiões precisam primeiro aprender anatomia, o futuro "médico da angústia" precisa primeiro entender o relacionamento entre o que aconselha e o aconselhado.
Observar um relacionamento não é fácil quando eu mesmo faço parte dele. Entretanto, noto tendências impressionantes.
Acreditava que pudesse ajudá-lo. Isso não mais ocorre. Tenho pouco a lhe oferecer. Ele tem tudo a me oferecer."

Bela passagem o encontro de Breuer e Nietzsche acerca da memória paterna:

"- Acima de tudo, acho que sinto falta de sua atenção. Ele sempre foi minha principal platéia, mesmo no finalzinho da vida, quando sofreu grande confusão mental e perda de memória. Eu não deixava de lhe contar meus sucessos, meus triunfos de diagnósticos, minhas descobertas nas pesquisas, mesmo minhas doações de caridade. Mesmo depois de morrer, continuou sendo minha platéia. Durante anos, imagineio-o espiando por cima de meus ombros, observando e aprovando minhas realizações. Quanto mais sua imagem se desvanece, mais luto contra o sentimento de que minhas atividades e meus sucessos são todos evanescentes, de que não têm significado real.
- Está dizendo, Josef, que se seus sucessos pudessem ser registrados na mente efêmera de seu pai, 'então' possuiriam significado?
- Sei que é irracional. Parece muito com a questão do som de uma árvore que cai numa floresta vazia. A atividade não observada terá um significado?
- A diferença é, claramente, que a árvore não tem ouvidos, enquanto é você próprio que confere significado.
- Friedrich, você é mais auto-suficiente do que eu... mais do que qualquer pessoa que conheci! Lembro-me de ter admirado, em nosso primeiro encontro, sua capacidade de florescer sem qualquer reconhecimento dos colegas.
- Há muito tempo, Josef, aprendi que é mais fácil enfrentar uma má reputação do que uma má consciência. Ademais, não sou ganancioso; não escrevo para a turba. E sei ser paciente. Talvez meus discípulos ainda não tenham nascido. Somente o depois de amanhã me pertence. Alguns filósofos nascem postumamente!

Freud, não menos importante, entretanto, em início de carreira (na época) tem participação menos atuante na referida ficção. Deixo aqui minha contribuição ao ilustre o qual sou grande admiradora pelo fato do nobre ter sido grande leitor chegando ao ponto de receber castigo paterno por ter gasto além que suas parcas economias na compra de livros, livros e mais livros (isto aos 17 anos, ainda um jovem estudante iniciante nas letras).

Era isto, inté!
Irvin D. Yalom é Psicoterapeuta e professor de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, com vários títulos na área acadêmica.

domingo, 13 de novembro de 2011

Virginia Woolf - Entre os Atos

Entre os Atos - Virginia Woolf - tradução Lya Luft
prefácio Antônio Bivar
Novo Século Editora, 2008

"Não possuímos as palavras...
Elas estão por trás dos olhos, não sobre os lábios."

"Os livros são o espelho da alma."

Entre os Atos, de Virginia Woolf, é um livro para se ler detalhadamente, minuciosamente, sentindo cada compasso, cada ritmo ao percorrer suas páginas. Virgínia magistralmente coloca o mundo como representação onde cada ser expõe sua máscara na atuação do palco improvisado que se constrói ininterruptamente na história humana.

Bem poderia ter lido o aviso no belo prefácio de Lya Luft: Virginia se despede. Exagero? não aos sentidos.

"O último romance escrito por Virgínia Woolf, Entre os Atos, foi publicado postumamente, quatro meses depois de seu suicídio numa sexta-feira, 28 de março de 1941. Nascida em 25 de janeiro de 1882, Virgínia estava com 59 anos, dois meses e dois dias, quando afogou-se no Rio Ouse, meia milha da Monk´s House, sua residência campestre emRodmell, no condado de Sussex (distante pouco mais de uma hora de trem de Londres). A última pessoa que a viu foi John Hubbard, empegado de uma fazenda local. Hubbard contou que era por volta das 11h30 da manhã quando Virginia, de sobretudo e bengala, passou por ele em direção ao rio.
Virginia largou a bengala, enfiou pedras nos bolsos do casaco e entrou no rio. Deixara, em casa, cartas para o marido Leonard e para a irmã Vanesa 9que moraa a poucos quilômetros, na Fazenda Charleston). Nas cartas ela explicava ter certeza de estar ficando loucanovamente. E desta vez sem esperança de cura. creditava que nunca mais ficaria boa e não achava certo continuar dando trabalho aos outros. Para o marido ela escreveu: "Querido, tenho a certeza de que estou enlouquecendo de novo. De modo que estou fazendo o que me parece melhor. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida e que semmim você poderá trabalhar. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Se alguém pudese me salvar, teria sido você." E termina: "Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos."
(Lya Luft)


Pointz Hall, título original, o romance só ganhou o nome de "Entre os Atos" (Between the Acts) no dia da entrega para publicação e teve escrita simultânea a uma biografia para um amigo, Roger Fry, que a deixou, segundo páginas de seu diário, tensa por ter que abandonar seu livro original pelos encargos da proximidade da guerra que logo estourou. Segundo leitura de seu diário, Virginia nos anos que escreveu "Entre os Atos" parecia vivíssima e ágil. Por ocasião de Janeiro de 1939 Virginia se encontra com o pai psicanálise e ganha desse um narciso de presente. Desde 1924, em tradução de James Strachey, a editora de Virginia e Leonard Woolf vinha publicando as obras de Freud, já velho e doente por ocasião dessa visita.

"Aos leitores de "Entre os Atos" (em mais uma excelente tradução de Lya Luft) fica a forte impressão de que Virginia Woolf encerrou brilhantemente sua jornada de romancista fazendo perfeito uso da dialética da história. Não apenas a história de sua Inglaterra mas a história da humanidade, a luta da civilização contra a selvageria. Como escreveu John Lehmann: "Apesar de rude e fragmentada, Entre os Atos é a obra mais vigorosa e bem amarrada de Virginia Woolf. E o estranho simbolismo dá ao romance beleza e uma aterrorizante profundidade."
(Antônio Bivar - Membro do The Virginia Woolf - Society of Great Britain)


A narrativa de Virginia Woolf tem grande estilo, onde enlaça o humano neste conflito belamente montado que por vezes a beleza da força de suas singelas imagens são avassaladoras, seja nos contrastes de um ajuntamento de borboletas ou de uma tempestade.

"Baixou o jornal, e todos olharam para o céu a fim de constatar se o céu obedecia ao meteorologista. O tempo, sem dúvida, mostrava-se instável. Num momento, o jardim aparecia verde; noutro, cinzento. li vinha o sol - ilimitado êxtase de alegria, abraçando cada flor, cada folha. Depois, afastava-se compadecido, cobrindo a face como se não quisesse ver os sofrimentos humanos. Nas nuvens havia negligência, falta de simetria e ordem, quando se adensavam ou se esgarçavam Era a uma lei própria que obedeciam? Ou a lei nenhuma? Alguma não passavam de mechas de cabelo branco. Uma delas, bem no alto, muito distante, solidificara-se em dourado alabastro; era um mármore imortal. Por baixo dela haviz azul, azul puro, azul negro, azul jamais filtrado até a terra, esquivando-se a qualquer registro. Jamais caía sobre o mundo como o sol, a combra ou a chuva; antes, ignorava completamente essa esferazinha de terra colorida. Nenhuma flor jamais sentia esse azul; nenhum jardim."
(Entre Atos - Virgínia Woolf - págs.34,35)


Nascida em Londres, em 1882, Virginia Woolf tornou-se uma das mais importantes escritoras inglesas, conhecida também por suas posições feministas.Influenciada por Proust e Joyce, Virginia superou os limites impostos pela ficção realista, integrando à narrativa uma simultaneidade de eventos, criando uma nova concepção do tempo narrativo. Em 1941, após uma grave crise de depressão, Virgínia suicida-se no rio Ouse. Deixou ensaios, contos, biografias, uma extensa correspondência e romances como A Viagem, Noite e dia, O quarto de Jacob, As Ondas, entre outros.

 
(Lendo e construindo)

domingo, 6 de novembro de 2011

Van Gogh - Obra completa de pintura


 I Volume - Etten, Abril de 1881 - Paris, Fevereiro de 1888.


Leio o título desta postagem clandestina basicamente para medir o nível de visitação familiar a este espaço porque fiz uma rápida visita aos estimados livros que vão além de minhas poucas prateleiras e ops, Vicent van Gogh!


Auto-Retrato
Paris, Primavera de 1887
Óleo sobre cartolina, 42 x 33 ,7cm
Chicago, The Art Institute of Chicago

"Os Retratos"

"O trabalho é o que mais me distrai e se conseguisse lançar mão a ele com todas as minhas forças, talvez me curasse de vez. o facto de não terr modelos, e várias outras razões é que impedem que isso aconteça." Quando van Gogh escreveu estas palavras (retirada da carta 602), acabara de recuperar de um acesso loucura, o primeiro que tivera em Saint-Rémy. Uma paranóia repentina apoderara-se dele quando estava em frente ao cavalete, a começar a pintar a ominosa "Entrada para uma Pedreira", de que os críticos, desde então, se têm servido como prova documental da instabilidade psíquica do artista. Durante cinco semanas de Julho e Agosto, van Gogh esteve mergulhado numa escuridão mental. Tetntara engolir tinta da que usava para pintar. Esse incidente tem sido frequentemente visto como uma tentativa de suicidio. No entanto, parece-nos antes um processo regressivo de apropriação, uma ânsia infantil de absorver o material que dominava tanto o seu trabalho como a sua vida. Como é obvio, os administradores do hospício tiraram-lhe todos os materiais com que pintav. Assim que recuperou as faculdades mentais, van Gogh decidiu começar tudo de novo.
Receoso, evitava toda e qualquer excitação, tendo o cuidado de não sair do hospício. Limitado aos motivos selecionados no interior do edifício e sentindo a necessidade de se justificar não só diante dos administradores, mas também diante de si próprio, va Gogh optou pelo óbvio: começou a pintar uma série de retratos. Ao todos, pintou seis, os únicos do período de Saint-Rémy. Distinguem-se não só por serem casos isolados, mas também por constituírem manifestações bem conseguidas da arte de pintar retratos. Van Gogh buscava os olhos do retrato, o espelho da alma onde encontraria refletida uma imagem de si próprio. O olhar fixo dos retratos passou a ter mais importância do que anteriormente. Van Gogh foi o modelo de três dos retratos, evitando assim o problema que lamentara na Carta 602 (a falta de modelos) e fazendo da necessidade uma virtude.

O auto-retrato da página 534 (acima), a cabeça muito magra de van Gogh manifesta ainda sinais evidentes dos últimos conflitos. Não é só o contraste de cores que faz com que o seu rosto pareça mais pálido do que o habitual; o verde amarelado descorado, ao que parece, retrata fielmente o seu aspecto naquela altura. "Comecei-o no dia em que me levantei pela primeira vez", escreveu ele na Carta 604, "quando estava magro e pálido", um pobre diabo." Ao contrário do que normalmente acontece nos seus auto-retratos, van Gogh faz-se aqui acompanhar dos atributos do artista não só para nos revela qual a sua profissão, mas també pela capacidade que a paleta e a bata tê de disfarçar a realidade e encorajar o pintor. O seu olhar fixo e circunspecto revela alguma relutância em se cruzar com o nosso, sugerindo que o mundo da tela é um local mais clamo do que o do exterior. Ao registrar este olhar, van Gogh recorreu a um dos truques mais antigos em pintura: os seus olhos não afocam as coisas de uma forma paralela, conferindo esta divergência palpável uma certa ambiguidade ao objecto observado. Ficamos com a sensação de que aqueles olhos observam antes, introsectivamente, mundos imaginários, onde a visão literal não é necessária, e não tanto coisas reais. Simultaneamente cautelosos e visionários, são olhos que reflectem a alma de um homem que recebera o rótulo de louco.


"Vicent van Gogh era filho de um pastor protestante holandês, Theodorus van Gogh, e de sua mulher, Anna Cornelia. O seu primeiro filho morera à nascença; exatamente um ano depois dessa data, a 30 de Março de 1853, um outro rapaz via a luz do dia. A este filho saudável foram dados os nomes do primeiro nado-morto, Vicent Wilem, em homenagem aos dois avós. Por isso o primeiro dia de vida de Vicent van Gogh já trazia um agoiro. Este facto curioso não deve ter perturbado muito os pais, mas desde então um verdadeiro exército de psicanalistas tem tentado responder ao fascínio permanente de uma criança que nasceu no aniversário da sua morte, por assim dizer. E também poderá acontecer que o gasto de Vicent pelo paradoxal tenha surgido desta notável coincidência."

Lindíssimo, obra completíssima que faz uma descrição da vida e obra de Van Gogh em relato seja através de  uma carta, um fato familiar que mencione, enfim, de forma socio-cultural unindo  neste livro amplo material de pesquisa nas 733 páginas, pois voltando a Van Gogh, melhor pouca prosa e muita contemplação. Será?

"Quando penso no passado - quando penso no futuro, em todas as dificuldades quase insuperáveis, na vasta e árdua labuta pela qual não sinto qualquer gosto e que eu, gostaria de evitar, quando penso nos olhos de tanta gente a olhar espantado para mim - pessoas que saberão qual a razão por que não tive êxito, pessoas que não farão as censuras costumeiras porque, experimentadas e habituadas em todas as coisas boas e decentes em tudo o que é ouro requintado, dirão através das suas expressões: nós ajudámos-te, fomos uma luz no teu caminho - fizemos o que podíamos por ti; queria-lo sinceramente? Qual é a nossa recompensa? Onde está o fruto do nosso trabalho?"

(Vicent Van Gogh)


Jarra com Papoilas, Lóios, Peónias e Crisântemos
Paris, Verão de 1886
Óleo sobre tela, 99 x 79 cm
Otterlo, Rijksmuseum Kroller-Muller

A Formação de um artista (1853-1883)
Os Anos em Nuenen (1883-1885)
A Vida na Cidade (1885-1888)
Pintura e Utopia (Arles, Fevereiro de 1888 a Maio de 1889)
Quase um Grito de Medo (Saint-Rémy, Maio de 1889 a Maio de 1890)
O Fim (Auvers-sur-Oise, Maio a Julho de 1890
Vicent van Gogh (1853-1890) Uma Cronologia


Em tempo: andei cochilando na postagem. A capa do livro que consultei em rede (imagem inicial - pra inglês ver) não é o que tenho aqui (idioma nacional). Bem, vou corrigir e volto logo logo.


Vicent van Gogh - Obra Completa de Pintura - Ingo F. Walther - Rainer Metzger - I Volume - Etten, Abril de 1881 - Paris, Fevereiro de 1888, 733 págs. Editora Taschen

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O palhaço ->Selton Mello


Hoje resolvi me presentear duplamente (um livro, em breve conto) ...fui assistir o palhaço!

Sinopse:

Benjamim (Selton Mello) e Valdemar (Paulo José) formam a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Benjamim é um palhaço sem identidade, CPF e comprovante de residência. Ele vive pelas estradas na companhia da divertida trupe do Circo Esperança. Benjamim acha que perdeu a graça... parte em busca de sua identidade, literalmente.

Na construção desta trupe, as facetas sociais apresentadas em forma de personagens como Justo, o delegado, os vários prefeitos, gente simples do povo e as possibilidades da busca de se viver andarilhamente, 'enterrando o morto', como chamam, quando 'batem a estaca' do circo em um terreno abandonado. As relações de poder são expostas nos bastidores dos fazedores de alegria e até mesmo aquele que leva a arte do riso pode se perguntar: e quem me faz sorrir?



Bem, falar em palhaço é falar as palavras do elogio da Bobagemafinal o amor é contagioso!

Confira com a palhaçada: site O palhaço , Blog O palhaço , Circonteúdo ,  Family Circus .

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Quando Nietzsche Chorou



Surpresa ao encontrar o filme Quando Nietzsche Chorou, título similar ao do livro que estou paquerando uma releitura desde uns anos anteriores, visto que continua emprestado o que de certa forma impossibilita minha leitura assim como capacidade de construção de uma resenha. Falo título similar pois o fato de ser de mesmo título não significa que o conteúdo seja fiel à história apresentada no rico livro.

Cá estou com o filme Quando Nietzsche Chorou para confirmar se a qualidade da construção da história é de igual valor a excelente obra literária de Irvin D. Yalom, título que traça paralelo entre ficção e realidade e apresenta personagens históricos como Josef Breuer, um dos pais da psicanálise, o jovem Sigmund Freud e o filósofo Friedrich Nietzsche, obra esgotada no mercado.

Possível que só retorne com as impressões do filme  após uma releitura do livro entretanto asseguro que é um filme para ser visto e revisto pois a mensagem, intrínseca, terá sua chave desvendada somente com o tempo e a vivência que a tudo descortina na infalível ampulheta do tempo onde lutar contra a passagem das horas observando que caminhamos todos infalivelmente para a morte é mediar quais caminhos e relações estão sendo construídos nesta vida terrena onde o paradoxo da solidão humana é ponto importante a ser observado passando muitas vezes desapercebido por muitos.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Mas Viveremos

Carlos Drummond de Andrade
 - Alguma Poesia
 (contra-capa)

Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.

Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.

Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e esperança.

Já não distinguirei, na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.

Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados,
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.

Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.

Voltava a noite, mais noite, mais completa.
E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas
oceanos e oceanos e oceanos.

Mas um livro, por baixo do colchão
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando,
e teu retrato, amigo, consolava.

Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.

No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei se vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.

Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.

Mas viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.

Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.

Pouco importa os dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se taçam
sinais da praia ao rubro couraçado.

Ele chegará, ele viaja o mundo.
E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.

Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
Essa rosa, esse canto, essa palavra.





domingo, 30 de outubro de 2011

Luiz Ruffato - Leituras de escritor

Luiz Ruffato - Leituras de escritor
Leituras de escritor / Luiz Ruffato (organização) ; ilustração Mariana Zanetti. 2. ed. - São Paulo : Comboio de Corda, 2009. - (Coleção Leituras de escritor).

Luiz Ruffato, autor do livro Leituras de escritor, 'Um leitor privilegiado', assim definido pelos editores que compõem o prefácio do caprichado livro de excelente conteúdo tanto quanto é observado o carinho com que foi graficamente preparado onde ao término de cada um dos 14 contos dos autores selecionados é apresentado um breve resumo sobre o autor e sobre o conto apresentado. Tudo isto para oferecer a jovens leitores, ou seja, nós (afinal, somos jovens ainda!), uma antologia com textos curtos do esforço de nosso caro escritor renomado em trazer o melhor da produção alheia que dizem respeito às nossas inquietações criativas.

Os temas do livro Leituras de escritor, de Luiz Ruffato,  preferencialmente faz referência a crianças ou adolescentes como protagonistas, fragrados em momentos-chave de suas existências, assim como temas de injustiça social "Menina", de Ivan Ângelo (1936), e "Frio", de João Antônio (1937-1996), além de "O primeiro baile", da neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923), "Paco Yunque", do peruano César Vallejo (1892-1938), e "Porque somos muito pobres", do mexicano Juan Rulfo (1917-1986) e outros temas mais específicos como racismo ou o conceito de loucura, e ainda o insólito que impregna o real e ainda uma dose de lirismo. Presentes ainda na antologia o brasileiro Machado de Assis (1836-1908), "Conto de Escola" e o  russo Anton Tchekhov (1860-1904) , "Vanka"e o italiano Luigi Pirandello (1867-1936).


Vanka (Anton Tchekhov), ilustração por Mariana Zanetti
"Vanka Jukov, de nove anos, e que fora deixado três meses antes em casa do sapateiro Aliákhin, para que aprendesse o ofício, não se deitara para dormir na noite de Natal. Depois de esperar que os patrões e aprendizes saíssem para a missa, tirou do armário m frasco de tinta, uma caneta com pena enferrujada, estendeu na frente uma folha amassada de papel e pôs-se a escrever. Antes de traçar a primeira letra, olhou algumas vezes, assustado, para as portas e janelas, espiou de viés o ícone escuro, ladeado por prateleiras com formas de sapato, e emitiu um suspiro entrecortado. O papel estava sobre um banco e ele de joelhos, ao lado.
"Querido vovô, Constantin Macáritch!", escreveu. "Te escrevo uma carta. Dou-lhe os parabéns pelo Natal e desejo a ti tudo o que te possa dar Deus, Nosso Senhor. Não tenho pai nem mãezinha, só me ficou você no mundo."

 Luiz Ruffato no prefácio 'Leitura como alumbramento' faz um rápido relato da trajetória da vida de um menino, antes pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista formado em comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, até se fazer autor de vários livros.

Frio / João Antônio
Menina / Ivan Ângelo
O jardim selvagem / Lygia Fagundes Telles
Porque somos muito pobres / Juan Rulfo
Casa tomada / Julio Cortázar
Tarde de sábado / Erskine Caldwell
Galinha cega / João Alphonsus
Paco Yunque / César Vallejo
O primeiro baile / Katherine Mansfield
Um artista d fome / Franz Kafka
Objetos sólidos / Virginia Woolf
A heresia cátara / Luigi Pirandello
Vanka / Anton Tchekhov
Conto de escola / Machado de Assis

Luiz Ruffato (veja aqui endereço no facebook, ou  releituras) é mineiro de Cataguases, reside há vários anos na cidade de São Paulo. Contista, romancista, poeta e ensaísta. Autor de vários livros, entre eles, o traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA e Machado de Assis, "Eles eram muitos cavalos".

Mariana Zanetti (veja aqui endereço no facebook) é arquiteta e artista plástica, ilustradora de livros para jovens e crianças, entre os quais Zoo, de Fabrício Corsaletti, e O anjo do lago, de Socorro Aciolly.

domingo, 23 de outubro de 2011

A canção - A cor do invisível - Mário Quintana


"Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
[mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as
[folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!"

(Mário Quintana - A cor do invisível - pág.22)

A cor do invisível - Mário Quintana

Quintana, Mário, 1906-1994
A cor do invisível / Mário Quintana. - São Paulo : Globo, 2005. - (coleção Mario Quintana / organização, plano de edição, fixação de texto, cronologia e bibliografia Tania Franco Carvalhal)

"Centenário Mário Quintana, 1906-2006"
Bibliografia

sábado, 22 de outubro de 2011

Victor Domingos - As Confissões de Dulce


Victor Domingos, autor do livro lançado em formato digital As Confissões de Dulce, uma narrativa que conquistou em 2005 o 2º prémio no Concurso Literário “D. Sancho I”. A obra já está disponível na Smashwords em edição multiformato, podendo ser lida no computador e na generalidade dos leitores portáteis de ebooks, incluindo por exemplo o Kindle, o iPad e o iPhone.

A História costuma relatar os feitos de reis e guerreiros, mas raramente se debruça sobre as dinâmicas das relações entre os intervenientes. Além disso, a importância da presença feminina é persistentemente negligenciada nos relatos históricos sobre a época que se seguiu à fundação de Portugal. As Confissões de Dulce contrariam essa tendência, abordando em ficção literária o lado humano da rainha D. Dulce, a esposa de D. Sancho I, filho de Afonso Henriques e o segundo rei de Portugal.

Esta obra, uma narrativa curta destinada a uma leitura descontraída, é disponibilizada numa variedade de formatos digitais (EPUB, Kindle, PDF, entre outros) que a tornam compatível com qualquer computador pessoal, bem como com os leitores portáteis de ebooks mais comuns, incluindo Kindle, iPad e iPhone. Existem também inúmeras aplicações para os sistemas iOS, Android, Symbian, Blackberry e Windows Phone 7 (como Stanza, Aldiko, WordPlayer, Mobipocket ou Freda), que permitem ler este livro em praticamente qualquer tablet ou smartphone.

O livro "As Confissões de Dulce" já se encontra também disponível à venda, na Apple iBookstore e na Amazon Kindle Store, na Amazon.co.uk , na Amazon.de e Amazon.fr . Na livraria Smashwords, é também possível adquirir o livro em versão multiformato, particularmente útil para quem usa outros dispositivos de leitura de ebooks.


É só conferir!


Victor Domingos
Victor Domingos (página no facebook), (Portugal, 1981) é licenciado em Psicologia e um eterno autodidata.

A sua obra de narrativa Ode a Um Poeta Naturalista (ArcosOnline.com, 2003) recebeu em 1999 o Prémio Literário Teixeira de Queirós. Em 2002, uma outra narrativa sua, intitulada Manual de Trigonometria Aplicada (Autores de Braga, 2002) seria o trabalho vencedor do Concurso Literário “Ecos da Memória”. Três anos mais tarde, viria a ser atribuído o 2º prémio, no Concurso Nacional de Contos “D. Sancho I”, à sua narrativa As Confissões de Dulce (Quasi Edições, 2006; Smashwords, 2011).

No campo da poesia, publicou a obra É preciso calar o monólogo (ArcosOnline.com, 2005). Tem também colaboração dispersa por variadas publicações, como a revista portuguesa Terra de Val de Vez (Nº18, 2007), a revista digital galega Andar21.net ou o portal brasileiro Alma de Poeta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Henrik Ibsen - Casa de Bonecas

Henrik Ibsen -
Casa de Bonecas



Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, um romance para se ler de um só  fôlego, sem intervalo.

Casa de Bonecas, a obra mais famosa de Ibsen, de 1879, é um drama social sobre casamento no qual uma mulher-boneca se recusa a obedecer ao marido e põe fim a um casamento aparentemente perfeito renunciando à confortável mentira e elegendo o risco de ser ela mesma, na busca de nova identidade, de uma nova moral. A peça fez grande sucesso e foi encenada em vários países da Europa e da América.

Impressionante como o ritmo da narrativa muda rapidamente, começada em forma de peça, em três atos, com seus personagens floreados pelas aparências sociais impregnadas de suas facetas sociais contaminadas (discurso paternalista, figura da mulher como um ser não-pensante, dependente material e psicologicamente da figura masculina) e transforma-se rapidamente no segundo e terceiros atos, forma em que é apresentada a narrativa, chegando-se ao desfecho final com a libertação feminina da personagem principal, Norma, a mulher-boneca, de toda sua máscara mal construída ao longo de uma caminhada sem identidade. O personagem masculino bem vestido em suas nuances de falso provedor do lar, tratando a figura feminina como a uma bonequinha totalmente controlável, sem identidade, próximo a figura do tratamento de um pai a uma filha mimada.

Consigo imaginar como o romance Casa de Bonecas pode ter impactado a sociedade de época. Afinal, a forte desconstrução da figura santificada feminina que chega a inadaptabilidade de uma felicidade construída no seio do lar, tendo o esposo, os filhos e as convenções sociais vigentes. A favor desta desconstrução de identidade feliz feminina neste meio social burguês decadente, o autor dá um desfecho trágico rompendo com todas as amarras das falsas máscaras de seus personagens. Assim são construídas as peças de Ibsen, com foco mais nos personagens do que nas situações, criando dramas realistas de conflitos psicológicos. Seu tema central é o dever do indivíduo para consigo mesmo. Na tarefa da auto-realização os personagens de Ibsen encaram as convenções antiquadas da sociedade burguesa. O individualismo anarquista de Ibsen deixou marcas profundas na geração mais jovem fora da Noruega, onde ele era considerado um escritor revolucionário. Em sua vida pessoal, entretanto, era visto como moralista e conservador.

"NORA (Pensativa.)
Ah, Torvald, omaior milagre de todos teria que acontecer.

HELMER
Diga o que seria isso!
NORA Nós dois, você e eu, teríamos que nos modificar a ponto de... Ah, Torvald, eu não acredito mais em milagres.

HELMER
Mas eu vou acreditar. Diga? Teríamos que nos modificar a ponto de...

NORA
De poder fazer do nosso casamento uma verdadeira vida em comum. Adeus. (Sai pelo vestíbulo.)

HELMER
 (Afunda-se nma cadeira, perto da porta, esconde o rosto nas mãos.)
Nora! Nora! (Olha em volta. Levanta-se.) Vazio. Foi emobra. (Uma esperança passa pelo seu pensamento.) O maior milagre de todos?
(Ouve-se o som de uma porta que bate lá embaixo.)

Henrik Ibsen é considerado o Shakespeare da era moderna, pelo realismo e pela profundidade psicológica com que retratou os problemas sociais, a injustiça e a hipocrisia das convenções sociais, colocando em xeque os valores da classe média européia, retratando o final do século XIX, a crise das instituições e a moral burguesa em cenas.

Henrik Ibsen - Vida e Obra

1828 - Em 20 de março, nasce Henrik Johan Ibsen, em Skien, Noruega.
1835 - Sua família muda-se para uma fazenda em Gjerpen.
1843 - A família muda-se para Skien. Em dezembro Ibsen vai para Grimstad para ser aprendiz de farmacêutico.
1846 - Emoutubro nasce Hans Jacob Henriksen, filho ilegítimo de Ibsen e Else Sophie.
1849 - Conclui a obra Catilina.
1850 - Vai para Chistiania (atual Oslo). Publica Vatilina, sob o pseudônimo de Brynjolf Bjarme. Em setembro estréia a peça The Warrior's Barrow.
1852 - É contratado como dietor de cena no Norwegian Theatre. Viaja para a Dinamarca e para a Alemanha.
1856 - Fica noivo de Suzannah Thoresen.
1857 - É contratado para o cargo de diretor do Christiania Norwegian Theatre.
1858 - Casa-se com Suzannah Thoresen.
1859 - Nasce Sigurd, seu filho.
1862 - O Christiania Norweian Theatre vai à falência.
1863 - Publica The Pretenders.
1864 - Ibsen viaja para a Itália.
1866 - Escreve a peça épica Brand.
1867 - Escreve Peer Gynt.
1868 - Muda-se com a família para Dresden, onde vive por sete anos.
1869 - Viaja ao Egito para assistir à inauguração do canal de Suez.
1870 - Escreve Balloon-letter to a Swedish Lady.
1871 - Publica Poemas.
1873 - Publica The Emperor and the Galilean.
1875 - A família muda-se para Munique.
1877 - Publica Pillars of Society.
1879 - Ibsen escreve Casa de Bonecas.  peça dá ao autor projeção internacional.
1881 - A peça Ghosts provoca polêmica.
1882 - Escreve An Enemy of the People.
1886 - Escreve Tosmersholm.
1890 - Escreve Hedda Gbler.
1891 - Escreve The Master Buider.
1892 - Seu filho Sigurd casa-se com Bergliot.
1893 - Nasce Tancred, oneto de Ibsen.
1894 - Escreve Litle Eyolf.
1895 - Muda-se para o apartamento onde viveria até o fim de sua vida.
1896 - Escreve John Gabriel Borkmann.
1899 - Escreve When the Dead Awaken.
1900 - Sofre um derrame que o deixa com o lado esquerdo paralisado.
1901 - Um segundo derrame paralisa-lhe o lado direito.
1902 - É indicado apra o Prêmio Nobel de Literatura.
1903 - Sofre o terceiro derrame e perde a capacidade manual de escrever.
1906 - Morre em 23 de maio. Em 1. de junho é sepultado com honras de Estado no cemitério Var Freisers.

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