domingo, 23 de outubro de 2011

A canção - A cor do invisível - Mário Quintana


"Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
[mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as
[folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!"

(Mário Quintana - A cor do invisível - pág.22)

A cor do invisível - Mário Quintana

Quintana, Mário, 1906-1994
A cor do invisível / Mário Quintana. - São Paulo : Globo, 2005. - (coleção Mario Quintana / organização, plano de edição, fixação de texto, cronologia e bibliografia Tania Franco Carvalhal)

"Centenário Mário Quintana, 1906-2006"
Bibliografia

sábado, 22 de outubro de 2011

Victor Domingos - As Confissões de Dulce


Victor Domingos, autor do livro lançado em formato digital As Confissões de Dulce, uma narrativa que conquistou em 2005 o 2º prémio no Concurso Literário “D. Sancho I”. A obra já está disponível na Smashwords em edição multiformato, podendo ser lida no computador e na generalidade dos leitores portáteis de ebooks, incluindo por exemplo o Kindle, o iPad e o iPhone.

A História costuma relatar os feitos de reis e guerreiros, mas raramente se debruça sobre as dinâmicas das relações entre os intervenientes. Além disso, a importância da presença feminina é persistentemente negligenciada nos relatos históricos sobre a época que se seguiu à fundação de Portugal. As Confissões de Dulce contrariam essa tendência, abordando em ficção literária o lado humano da rainha D. Dulce, a esposa de D. Sancho I, filho de Afonso Henriques e o segundo rei de Portugal.

Esta obra, uma narrativa curta destinada a uma leitura descontraída, é disponibilizada numa variedade de formatos digitais (EPUB, Kindle, PDF, entre outros) que a tornam compatível com qualquer computador pessoal, bem como com os leitores portáteis de ebooks mais comuns, incluindo Kindle, iPad e iPhone. Existem também inúmeras aplicações para os sistemas iOS, Android, Symbian, Blackberry e Windows Phone 7 (como Stanza, Aldiko, WordPlayer, Mobipocket ou Freda), que permitem ler este livro em praticamente qualquer tablet ou smartphone.

O livro "As Confissões de Dulce" já se encontra também disponível à venda, na Apple iBookstore e na Amazon Kindle Store, na Amazon.co.uk , na Amazon.de e Amazon.fr . Na livraria Smashwords, é também possível adquirir o livro em versão multiformato, particularmente útil para quem usa outros dispositivos de leitura de ebooks.


É só conferir!


Victor Domingos
Victor Domingos (página no facebook), (Portugal, 1981) é licenciado em Psicologia e um eterno autodidata.

A sua obra de narrativa Ode a Um Poeta Naturalista (ArcosOnline.com, 2003) recebeu em 1999 o Prémio Literário Teixeira de Queirós. Em 2002, uma outra narrativa sua, intitulada Manual de Trigonometria Aplicada (Autores de Braga, 2002) seria o trabalho vencedor do Concurso Literário “Ecos da Memória”. Três anos mais tarde, viria a ser atribuído o 2º prémio, no Concurso Nacional de Contos “D. Sancho I”, à sua narrativa As Confissões de Dulce (Quasi Edições, 2006; Smashwords, 2011).

No campo da poesia, publicou a obra É preciso calar o monólogo (ArcosOnline.com, 2005). Tem também colaboração dispersa por variadas publicações, como a revista portuguesa Terra de Val de Vez (Nº18, 2007), a revista digital galega Andar21.net ou o portal brasileiro Alma de Poeta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Henrik Ibsen - Casa de Bonecas

Henrik Ibsen -
Casa de Bonecas



Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, um romance para se ler de um só  fôlego, sem intervalo.

Casa de Bonecas, a obra mais famosa de Ibsen, de 1879, é um drama social sobre casamento no qual uma mulher-boneca se recusa a obedecer ao marido e põe fim a um casamento aparentemente perfeito renunciando à confortável mentira e elegendo o risco de ser ela mesma, na busca de nova identidade, de uma nova moral. A peça fez grande sucesso e foi encenada em vários países da Europa e da América.

Impressionante como o ritmo da narrativa muda rapidamente, começada em forma de peça, em três atos, com seus personagens floreados pelas aparências sociais impregnadas de suas facetas sociais contaminadas (discurso paternalista, figura da mulher como um ser não-pensante, dependente material e psicologicamente da figura masculina) e transforma-se rapidamente no segundo e terceiros atos, forma em que é apresentada a narrativa, chegando-se ao desfecho final com a libertação feminina da personagem principal, Norma, a mulher-boneca, de toda sua máscara mal construída ao longo de uma caminhada sem identidade. O personagem masculino bem vestido em suas nuances de falso provedor do lar, tratando a figura feminina como a uma bonequinha totalmente controlável, sem identidade, próximo a figura do tratamento de um pai a uma filha mimada.

Consigo imaginar como o romance Casa de Bonecas pode ter impactado a sociedade de época. Afinal, a forte desconstrução da figura santificada feminina que chega a inadaptabilidade de uma felicidade construída no seio do lar, tendo o esposo, os filhos e as convenções sociais vigentes. A favor desta desconstrução de identidade feliz feminina neste meio social burguês decadente, o autor dá um desfecho trágico rompendo com todas as amarras das falsas máscaras de seus personagens. Assim são construídas as peças de Ibsen, com foco mais nos personagens do que nas situações, criando dramas realistas de conflitos psicológicos. Seu tema central é o dever do indivíduo para consigo mesmo. Na tarefa da auto-realização os personagens de Ibsen encaram as convenções antiquadas da sociedade burguesa. O individualismo anarquista de Ibsen deixou marcas profundas na geração mais jovem fora da Noruega, onde ele era considerado um escritor revolucionário. Em sua vida pessoal, entretanto, era visto como moralista e conservador.

"NORA (Pensativa.)
Ah, Torvald, omaior milagre de todos teria que acontecer.

HELMER
Diga o que seria isso!
NORA Nós dois, você e eu, teríamos que nos modificar a ponto de... Ah, Torvald, eu não acredito mais em milagres.

HELMER
Mas eu vou acreditar. Diga? Teríamos que nos modificar a ponto de...

NORA
De poder fazer do nosso casamento uma verdadeira vida em comum. Adeus. (Sai pelo vestíbulo.)

HELMER
 (Afunda-se nma cadeira, perto da porta, esconde o rosto nas mãos.)
Nora! Nora! (Olha em volta. Levanta-se.) Vazio. Foi emobra. (Uma esperança passa pelo seu pensamento.) O maior milagre de todos?
(Ouve-se o som de uma porta que bate lá embaixo.)

Henrik Ibsen é considerado o Shakespeare da era moderna, pelo realismo e pela profundidade psicológica com que retratou os problemas sociais, a injustiça e a hipocrisia das convenções sociais, colocando em xeque os valores da classe média européia, retratando o final do século XIX, a crise das instituições e a moral burguesa em cenas.

Henrik Ibsen - Vida e Obra

1828 - Em 20 de março, nasce Henrik Johan Ibsen, em Skien, Noruega.
1835 - Sua família muda-se para uma fazenda em Gjerpen.
1843 - A família muda-se para Skien. Em dezembro Ibsen vai para Grimstad para ser aprendiz de farmacêutico.
1846 - Emoutubro nasce Hans Jacob Henriksen, filho ilegítimo de Ibsen e Else Sophie.
1849 - Conclui a obra Catilina.
1850 - Vai para Chistiania (atual Oslo). Publica Vatilina, sob o pseudônimo de Brynjolf Bjarme. Em setembro estréia a peça The Warrior's Barrow.
1852 - É contratado como dietor de cena no Norwegian Theatre. Viaja para a Dinamarca e para a Alemanha.
1856 - Fica noivo de Suzannah Thoresen.
1857 - É contratado para o cargo de diretor do Christiania Norwegian Theatre.
1858 - Casa-se com Suzannah Thoresen.
1859 - Nasce Sigurd, seu filho.
1862 - O Christiania Norweian Theatre vai à falência.
1863 - Publica The Pretenders.
1864 - Ibsen viaja para a Itália.
1866 - Escreve a peça épica Brand.
1867 - Escreve Peer Gynt.
1868 - Muda-se com a família para Dresden, onde vive por sete anos.
1869 - Viaja ao Egito para assistir à inauguração do canal de Suez.
1870 - Escreve Balloon-letter to a Swedish Lady.
1871 - Publica Poemas.
1873 - Publica The Emperor and the Galilean.
1875 - A família muda-se para Munique.
1877 - Publica Pillars of Society.
1879 - Ibsen escreve Casa de Bonecas.  peça dá ao autor projeção internacional.
1881 - A peça Ghosts provoca polêmica.
1882 - Escreve An Enemy of the People.
1886 - Escreve Tosmersholm.
1890 - Escreve Hedda Gbler.
1891 - Escreve The Master Buider.
1892 - Seu filho Sigurd casa-se com Bergliot.
1893 - Nasce Tancred, oneto de Ibsen.
1894 - Escreve Litle Eyolf.
1895 - Muda-se para o apartamento onde viveria até o fim de sua vida.
1896 - Escreve John Gabriel Borkmann.
1899 - Escreve When the Dead Awaken.
1900 - Sofre um derrame que o deixa com o lado esquerdo paralisado.
1901 - Um segundo derrame paralisa-lhe o lado direito.
1902 - É indicado apra o Prêmio Nobel de Literatura.
1903 - Sofre o terceiro derrame e perde a capacidade manual de escrever.
1906 - Morre em 23 de maio. Em 1. de junho é sepultado com honras de Estado no cemitério Var Freisers.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sopra, Espírito!




Sopra, Espírito de Deus neste lugar
Poder e Tua graça,
Vem avivar


Sobre  o vale de ossos secos
Faz um exército se levantar

Sobre as feridas não tratadas,
Vem restaurar, e curar

Sobre os nossos corações
Vem, Senhor!
Sobre todas as nações


Vem, Senhor!


Sobre toda a terra estende a Tua glória


Ora, vem, Senhor Jesus!

domingo, 16 de outubro de 2011

Jorge Amado - Mar morto

Mar Morto - Jorge Amado

"Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia. Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus. O povo de Iemanjá tem muito que contar.
Vinde ouvir essas histórias e essas canções. Vinde ouvir a história de Guma e de Lívia que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela, a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e, dificilmente, um homem da terra entende o coração dos marinheiros. Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções e vai às festas de dona Janaína, mesmo assim ele não conhece todos os segredos do mar. Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem."
(Posfácio de Ana Maria Machado)

Reler Mar Morto, de Jorge Amado, é antes que reler um dos livros mais populares, escrito por encomenda do editor José Olympio, que tentava ajudar financeiramente o escritor baiano, recém-libertado da prisão no Rio de Janeiro, onde ficara detido por motivos políticos. É antes que reler as histórias da beira do cais da Bahia. O mar não é um mero cenário ou pano de fundo, mas protagonista dos grandes e pequenos dramas de pescadores, marinheiros, malandros, macumbeiros e prostitutas.

Ora doce e sereno, ora transbordante pela fúria, o mar da Bahia conduz a vida de Guma, jovem e destemido mestre de saveiro, dividido ente o amor de Lívia, que o faz desejar a estabilidade de um lar na parte alta da cidade, e o chamado de Iemanjá, que o atrai para as ondas e um dia o levará para as míticas terras de Aiocá, como levou seu pai.

O mar - um mundo de homens que saem para enfrentar o oceano - em suas batalhas pela sobrevivência - e das mulheres que o esperam, muitos deles repetindo o destino de pais e avós.


Praia Imbetiba - Macaé - RJ
Esta vista da praia de imbetiba, na cidade de Macaé, RJ, permeou minha infância (existiam dois trampolins nesta pedra à direita onde aprendi a pular e nadar no primeiro deles) e adolescência onde jovens passeavam bronzeadoas no fim de semana em frente a barracas de cachorro-quente em conversas animadas ou tomavam refrigerante e dançavam no extinto bar de madeira mocambo, ou simplesmente passeavam na brisa fresca em frente ao mar, em frente ao hotel panorama, que por vezes tinham grana para tomar um drink em ocasiões especiais.

Hoje esta mesma praia está verticalizada de hotéis muitas vezes vazios de clientes executivos mas cheios da presença da indústria nesta maravilhosa cidade eterna Princesinha do Atlântico mesmo que a queiram entitular a Rainha do Ouro Negro, a capital mundial do petróleo.

Foi olhando para esta paisagem no retorno do trabalho na última sexta-feira que não resisti em registrar a cena deste lindo céu lilás que sempre revigora nossos sonhos de saber que em oposição a tanto aço, a tanta necessidade da indústria se fazer presente para o crescimento deste país, a natureza estará lá falando mais forte. Neste pensamento, retorno ao tempo em que meu pai aos 19 anos chegou a esta cidade vindo da Bahia, a procura de trabalho deixando a Bahia onde o cacau já não imperava e a mão de obra se tornava escrava, depositando esperança na cidade de Macaé que bem o acolheu como a tantos trabalhadores que hoje vem de todas as partes do mundo e cada vez mais estarão aqui chegando devido as contingências cada vez mais evidentes de uma crise que se vislumbra a nível mundial onde o trabalho estará cada vez mais disputado, a mão de obra qualificada menos valorizada, escrava do sistema capitalista cada vez mais imperante.

Macaé é uma cidade que considero irmã da Bahia, similar em características de seu povo simples, alegre, que tem no mar um amplo campo de sustento. Foi talvez por isto que quando na adolescência li o livro de Jorge Amado, Mar Morto, me identifiquei tanto com seus personagens, suas lutas.

 O mar, cenário incontestável de esperança de continuidade de gerações muitas vezes traz surpresas, mostra sua força mas por vezes se deixa ficar e é nestes momentos que a vida simplesmente acontece, seja para um pescador, um marinheiro, um petroleiro.

Jorge Amado (1912 - 2001) foi um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX. Seus livros foram traduzidos para dezenas de idiomas e adaptados para o cinema, o teatro e a televisão. Entre seus livros mais famosos estão Capitães da Areia, Gabriela, cravo e canela, Dona Flor e e seus dois maridos, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua e Tenda dos Milagres.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mario Vargas Llosa - Sabres e Utopias - Visões da América Latina

Mario Vargas Llosa - Sabres e Utopias - Visões da América Latina

"A riqueza da América Latina está no fato de ela ser muitas coisas ao mesmo tempo, o que faz dela um microcosmo no qual coabitam quase todas as raças e culturas do mundo. Cinco séculos após a chegadas dos europeus às suas praias, serras e matas, os latino-americanos de origem espanhola, portuguesa, italiana, alemã, chinesa ou japonesa são tão oriundos do continente como os que têm seus ascendentes nos antigos astecas, toltecas, maias, quéchuas, aimarás ou caribes. E as marcas deixadas pelos africanos no continente, onde também estão há cinco séculos, estão presentes por todos os lados: nos tipos humanos, na fala, na música, na comida e até mesmo em certas formas de prática religiosa. Não é exagero dizer que não existe tradição, cultura, língua e raça que não tenha acrescentado alguma coisa a esse efervescente redemoinho de misturas e uniões que se realizam em todos os aspectos da vida na América Latina. Esse amálgama é o seu maior patrimônio: ser um continente que cerece de identidade justamente porque contém todas elas. E porque continua a se transformar todos os dias."
(Sabres e Utopias - p.317)
Vargas Llosa, Mario - Sabres e Utoias : Visões da América Latina / Mario Vargas Llosa; seleção e prefácio de Carlos Granés; tradução Bernardo Ajzenberg. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

"... A América Latina é e, ao mesmo tempo, não é a Europa. Não é Europa porque a América Latina é também o pré-hispânico e o africano que se fundiram ou convivem nela com o que nso chegou da Europa, bem como as diversas mestiçagens disso resultantes. Mas é Europa, por outro lado, porque dali vieram as línguas que a integram ao resto do mundo, as religiões, as crenças que organizaram a sua vida e a orte, as instituições que - boas ou ruins, bem ou mal aplicadas - regulam suas sociedades e foram as coordenadas dentro das quais os latino-americanos pensam, agem, gozam ou sofrem." (trecho de "Sabres e Utopias", pp.352-353).

Sabres e Utopias, um dos livros mais recentes de Vargas Llosa nos mostra que não só é um excelente romancista - "um dos melhores do mundo", nas palavras de John Updike -, mas também um crítico e ensaísta brilhante, e um exímio observador da história recente da América Latina.

Nos artigos reunidos neste livro, ele fala sobre os mais diversos temas: política, direitos humanos, literatura e artes plásticas, economia e História. Acima de tudo, Vargas Llosa se mostra um defensor aguerrido da democracia e liberdade.

"Conforme o ângulo de que é vista, a América Latina apresenta um panorama estimulante ou desolador. Da perspectiva política, não há dúvida de que este é o melhor momento de toda a sua história republicana. (...)
Esse processo de democratização política do continente não deve ser avaliado apenas com critérios estatísticos. O que ele tem de mais significativo é a sua natureza, ou seja, o fato de ser um processo autenticamente popular. Pela primeira vez em nossa história republicana, não foram as elites nem a pressão estrangeira o fator impulsionador para a formação de regimes civis e democráticos, mas sim, sobretudo, o povo, as amplas massas de mulheres e homens humildes já cansados de tanta demagogia e da brutalidade, seja das ditaduras militares, seja dos grupos e partidos revolucionários. (...)"


Ele ataca com precisão tanto os regimes militares de direita, corruptos e violentos, quanto as ditaduras de esquerda, que prometem utopias mas entregam somente repressão e autoritarismo.

Com respeito ao Brasil, ele faz análises impactantes sobre a situação política atual, constrói relatos comoventes sobre autores como Euclides da Cunha e Jorge Amado.

Vargas Llosa expressa "os riscos e esperanças frente a América Latina. Seus textos são construídos não por ordem cronológica mas por assuntos, tratando de temas polêmicos como revoluções, nacionalismo, populismo, indigenismo, corrupção - a maior das ameaças à credibilidade das democracias - até a descoberta das ideias liberais, sua defesa irrestrita do regime democrático e sua paixão pela literatura e pela arte latino-americanas."

Mário Vargas Llosa é jornalista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, e um dos mais importantes escritores da atualidade. Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, viveu em Paris na década de 1960 e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias ao longo dos anos.

Autor de uma extensa obra literária, foi vencedor dos prestigiosos prêmios Cervantes, Príncipe de Astúrias, PEN/Nabokov e Grinzane Cavour. O autorr divide seu tempo atualmente entre Londres, Paris, Madri e Lima. É autor, entre outros livros, dos romances Travessuras da menina má, Pantaleão e as visitadoras, Tia Julia e o escrevinhador e Elogio da madrasta, publicados no Brasil, pela Alfaguara.

Carlos Granés Maya nasceu em Bogotá, Colômbia, em 1975. É doutor em antropologia social pela Universidade Complutense de Madri e autor do livro La Revancha de la Imaginación: Antropología de los Procesos de Creación, Mario Vargas Llosa y José Alejandro Restrepo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Raul Bopp

Raul Bopp, 1962

"Jacarés em férias
mastigam estrelas que se derretem dentro d´água"

O gaúcho Raul Bopp, descendente de alemães criadores de gado, nasce no dia 4 de agosto, em Santa Maria - RS e morre em 2 de junho, no Rio de Janeiro, RJ. Aos 16 anos, fez sua primeira viagem, indo do Paraguai ao Mato Grosso a cavalo, só retornando ao Rio Grande do Sul quando decidiu estudar Direito. Mas seu anseio por viajar era tão grande, que ele deu um jeito de cursar a faculdade em cidades diferentes. Estudou em Porto Alegre, Recife, Belém e Rio de Janeiro.

Em Belém, começou a escrever Cobra Norato, onde narra as aventuras de um jovem depois de entrar no corpo da mitológica figura com formato de cobra sucuri, devoradora de quem invade seus domínios. Para descrever o vigor, a violência e o caos da floresta, Bopp recorreu a versos livres, sem obedecer aos critérios da poética estabelecida. Cobra Norato tem parentesco com o Macunaíma, de Mário de Andrade, e o Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, por suas origens comuns nas lendas da Amazônia, explorando o mito da viagem no tempo e no espaço.

Em 1926, o poeta chegou a São Paulo. A princípio se envolveu com o grupo Verde-Amarelo, tendência modernista de acento xenófobo, cujo principal nome era Plínio Salgado, mas logo se uniu a Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, sendo um dos responsáveis pela Revista de Antropofagia. Com a publicação de Cobra Norato e também de Urucungo - poemas negros, conquistou respeito e admiração. Oswald afirmou que, "em Cobra Norato, pela primeira vez, se realizou a poesia brasileira grandiosa e sem fraude".
Em 1932, o poeta ingressou na carreira diplomática. Serviu no Japão, em Los Angeles, Lisboa, Zurique, Barcelona, Guatemala, Berna, Viena e Lima, tendo sido embaixador na Áustria e no Peru. Ao se aposentar, em 1963, escreveu memórias de suas andanças pelo mundo e de sua participação no movimento modernista.
Aos 90 anos de idade, Raul Bopp partiu em sua última viagem.


Cobra Norato

Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

Vou andando caminhando caminhando
Me misturo no ventre do mato mordendo raízes

Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato

- Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar

A noite chega mansinho
Esrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra.

Agora sim
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo

Vou visitar a rainha Luzia
Quero me casar com a sua filha
- Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono escorregou nas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos


"Sentir-se-á, sempre, neste poema bizarro e vitalista (Cobra Norato), uma imagem de coisas brasileiras através da visão expressionista de um artista originalíssimo."
(Àlvaro Lins)


Obras do autor

POESIA: Cobra Norato, 1931; Urucungo - poemas negros, 1932; Poesias, 1947; Cobra Norato e outros poemas, 1954; Antologia poética, 1967; Putirum; poesias coisas do folclore, 1969; Mironga e outros poemas, 1978.

ARTIGOS E CRÍTICAS: América, 1942; Movimentos modernistas no Brasil, 1966.

PROSA: Notas de viagem: uma volta pelo mundo em trinta dias, 1960; Notas de um caderno sobre o Itamarati, 1960; Memórias de um embaixador, 1968; Coisas do Oriente, 1971; "Bopp passado a limpo" por ele mesmo, 1972; Samburá: notas de viagens & saldos literários, 1973; Vid e morte da antropofagia, 1977; Longitudes: crônicas de viagens, 1980.

EM COLABORAÇÃO: caminhos para o Brasil (com Américo R. Neto e Eng. Donald Derron), 1928; Geogragia mineral (com José Jobim), 1938. Sol e banana: notas sobre a economia no Brasil (com José Jobim), 1938.



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX

sábado, 8 de outubro de 2011

Conto de um hospital


Vagueando pelos corredores vazios onde até mesmo o enfermeiro cochilava um sono leve na cama improvisada embaixo do balcão da enfermaria os passos seguem até se depararem com a imagem em tela da intrigante venda nos olhos da mulher a amamentar o rebento. Talvez um quadro qualquer mas não para quem já havia naquele mesmo corredor presenciado o choro de uma mãe que perdera seu bebe quem sabe se foi a causa informada, o tão singelo ato de amamentar não concluído pela cria que se recusava a fisgar seu precioso leite. Mistérios que humanos não podem julgar ou adentrar em querer conhecer.

Melhor caminhar pelos corredores que ter gritos alucinantes em pesadelos anteriores, onde a sombra da morte ronda tantos quartos e por momentos ou falta de qualificação profissional enfermeiros anjos dão lugar a enfermeiros vampiros na noite a sugar o sangue de crianças inocentes que não podiam nem dormir o sono dos justos.

Momentos nobres são perceptíveis em um hospital - um coral em uma tarde ensolarada, quem sabe uma faxineira com um sorriso e uma fala mansa dê lugar ao aviso de silêncio que queira imperar no ambiente como a dizer: a saúde silencia em nosso país. Silencia a falta de recursos, a falta de diagnósticos, a falta de esperança.

Nestes momentos, a solidão é companheira e tão somente a presença de Deus pode tirar a desesperança reinante, pois os médicos, os enfermeiros, os profissionais da sáude são apenas membros auxiliares mas estão todos em coro a pedir socorro, tem olhos como da imagem, cegos de quem não querem ver, ou se veem não querem enxergar.



domingo, 4 de setembro de 2011

Rainer Maria Rilke -
Cartas do poeta sobre a vida



Rilke, Rainer Maria (1875-1926) - Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke / organização Ulrich Baer; tradução Milton Camargo Mota. - São Paulo : Martins 2007 (Coleção Prosa).

 "Pois arte é infância. Arte significa não saber que o mundo já é, e fazer um. Não destruir nada que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ter sol. Sem que se fale disso, involuntariamente. Nunca ter terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom. Insatisfação é juventude."
(sobre arte - Rainer Maria Rilke)

O poeta Rainer Maria Rilke, famoso pelos versos majestosos de seus poemas e de suas elegias, foi também um grande epistológrafo. Sua correspondência - que abrange as Cartas a um jovem poeta, reeditadas várias vezes no Brasil - conta com quase 11 mil missivas. A seleção, diretamente do original alemão, privilegia reflexões do poeta sobre o trabalho, a adversidade, a infância, a solidão, a doença, a morte, a linguagem, a arte, a fé, a moral, o amor a existência e quer ser um guia para a vida. Mas um guia ousado e refinado, como só as reflexões de um grande poeta conseguem ser.

"Afora minha voz que aponta além de mim, há ainda o som desse pequeno anseio que se origina em minha solidão e que ainda não dominei por completo, um tom tristesibilante que sobra através de uma fenda nessa solidão mal vedada - ele clama ai, e evoca os ouros até mim!"


Difícil selecionar o melhor de Rilker, cuja obra captou a imaginação de músicos, filósofos, artistas, escritores e amantes da poesia, e estabeleceu o alcance da poesia a pessoas raramente interessadas em elocuções humanas versificadas.

"Não há força no mundo exceto o amor, e, quando o carregamos em nós, simplesmente o temos, mesmo que fiquemos perplexos sobre como usá-lo: ele exerce seu efeito, irradia e ajuda para fora e além de nós. Não se deve jamais perder essa fé, é preciso simplesmente (e se não fosse nada mais) resistir nela!"

Rilke tem uma habilidade de tocar pessoas tão diferentes como se cada palavra tivesse sido escrita só para elas, talvez por isto a longa trajetória de sua vida ligada à peculiar e sistemática escrita, chamadas de realizações mais urgentes, pois não tinham a intenção de alcançar o público erudito leitor de poesia, mas tão somente interagir com as mais variadas camadas sociais (estima-se que sua correspondencia total, que ainda aguarda publicação e, em alguns caoss, a expiração dos direitos autorais mantidos pelos destinatários, abranja aproximadamente 11 mil cartas) que lhe solicitassem a palavra e que de certa forma faziam parte de seu crescimento quanto indivíduo e profissional visto que muito dos temas e filosofia meditados nas mesmas eram bases para seus futuros poemas e livros.

"Na vida, sempre é possível despertar mais uma vez o senso de um começo para nós. Para isso são necessárias tão poucas mudanças externas, pois realmente mudamos o mundo a partir de nosso coração. Se ele apenas desejar ser novo e imensurável, o mundo será imediatamente o mesmo do dia de sua criação e infinito."

A força das cartas de Rilke resulta de sua consciência de que sua vida e seu "mundo", num sentido profundo, o ultrapassavam e o excediam. É isso que constitui a riqueza da vida para todos nós; é também o que pode torná-la difícil. A razão pela qual o mundo "nos ultrapassa" é que fazemos escolhas e formamos intenções que são simplesmente varridas pelo que acontece; recorremos a nomes e títulos e buscamos felicidade, mas todas esss formas de refúgio podem se revelar transitórias. Nossos modos de compartimentar o mundo e o fato de não vermos com equanimidade cada um de seus aspectos sem preferência julgamento ou distração, escreve Rilke em 5 de janeiro de 1921, "mostram que estamos errados, nos tornam culpados, nos matam." A noção de Rilke de "culpabilidade" permite-lhe formular uma visão da vida que é mais inegrada do que a maneira como ele de fato vivia; a força de suas palavras resulta da tensão entre essa ênfase na aceitação e suas preferências igualmente fortes em relação ao mundo à sua volta. Mundo que foi para o mesmo de difícil vivência, considerando suas próprias vivências, base para a troca com o outro que se fez tão presente na sua extensa missiva.

Rainer Maria Rilke (Praga, 1875-1926). Considerado o melhor poeta de língua alemã do século XX, foi secretário de Auguste Rodin e viajou por vários países, inclusive pela Rússia e pelo Norte da África. Suas principais obras são Sonetos a Orfeu, Elegias de Duíno e Cartas a um jovem poeta.

Ulrich Baer (Alemanha, 1966). Professor de literatura comparada e de língua e literatura alemãs na New York University, é autor de Remnants of song: Trauma and the experience of modernity in Charles Baudelaire and Paul Célan e Spectral evidence: The photography of trauma. É editor de 110 stories: New York writes after september 11.

sábado, 27 de agosto de 2011

Pierre Lévy

"Somos o que fazemos e experimentamos"
(Pierre Lévy)

Tenho um carinho especial por Pierre Lévy (página oficial do autor aqui) desde o ano de 2006 quando adentrei na leitura de alguns de seus livros "As Tecnologias da Inteligência" e "Cibercultura" como base de uma pesquisa para um trabalho acadêmico. Inovador, com uma clara visão de futuro sem tirar o pé do passado. Um verdadeiro filósofo da modernidade. Resolvi dividir neste espaço a fala de nosso caro palestrante, por mais difícil que seja tentar resumir sua retórica sem perder a profundidade de suas idéias.

Na época que estudei Pierre Lévy, o que mais chamou a atenção foi seu encorajamento frente as dificuldades que abarcam a vida do homem desde os tempos onde a técnica era iniciada tão somente em um manuseio de uma machadinha por um primitivo homem mas que já almejava uma vida coletiva até chegar as fortes transformações de nosso século, especificamente nesta última década com as tecnologias da inteligência afloradas pelos ciberespaços cada vez de mais acesso aos habitantes deste planeta levando maior democracia nestes coletivos vivos, que segundo o filósofo é o verdadeiro espaço da democracia.

Com a invenção da escrita, Lévy acredita que acelerou-se a evolução da humanidade através da invenção das cidades, do estado e impostos, primeiros governos, relacionados a sistemas de religiões complexos (maia, astecas). Assim, os sistemas de civilizações antigas possuiam sistemas de escritas que ajudavam a organizar a sociedade politicamente. O alfabeto foi portanto a grande invenção. Os profissionais da escrita e leitura (hierógrafos?) exerciam a habilidade para a casta (escribas) que trabalhavam para os altos sacerdócios. Eram especialistas em escrever. Assim, o alfabeto tornou a forma simples de democratizar a escrita pois o período de aprendizagem de 3 anos em detrimento aos sistemas antigos de símbolos que levavam em média 15 anos para aprendizagem. As civilizações baseadas no alfabeto tornaram-se mais fortes. Esta é a relação entre alfabeto e democracia. Quanto mais acesso a alfabetização, maior possibilidade de democratização.

Pierre Lévy nos convida a ter uma atitude responsável frente ao imenso fluxo de informação que circula em rede (orkut, facebook, twitter,...), onde todos estão interconectados, e não se sabe por vezes o que se fazer com este imenso mar de informações. Antes do meio digital, havia escolas, mídia, igrejas, que criavam e gerenciavam a informação para as pessoas onde todos traziam a afirmação de 'essa é a verdade e você pode acreditar nela' para quem pudesse absorvê-la. Havia, portanto, menos este problema de escolha a partir de qual informação você deseja gerenciar para construir a base de seu conhecimento. Estamos portanto, gerenciando nosso conhecimento ininterruptamente e as redes sociais auxiliam nestas escolhas a medida que elas são pontos de partida para minha experiência (definir interesse, estabelecer prioridade, mostrar fonte, filtrar/sintetizar e categorizar a informação), troca, avaliação e reavaliação destas escolhas. Manter o foco no que se quer sem perder a visão geral do que corre no mundo também é de primordial importância, confiando nas próprias escolhas. O que antes era trabalho de especialistas como bibliotecários agora se faz presente em nosso dia-a-dia através da categorização das informações que manuseamos em rede. Não somos somente autores, jornalistas, leitores... este é o novo estado de inteligência coletiva.

Quando escrevo este artigo, por exemplo, em meu blog 'Nós Todos Lemos", cita Pierre Lévy, estou exercitando a capacidade de síntese, de aprendizagem e compartilhando informação (diálogo criativo). É este o ciclo da responsabilidade pessoal de cada um em rede, onde nossas escolhas estão interferindo nas escolhas do próximo, na medida em que posso ser exemplo a ser seguido. A inteligência coletiva, segundo Pierre Lévy, não está acima de nós, ela surge da interação de cognições pessoais, da aprendizagem e intercomunicação interpessoais. é daí que vem a inteligência coletiva, a base é pessoal.

A internet possibilita um espaço de obquidade pois a informação está ao mesmo tempo em toda parte. Este é um poder de transformação totalmente novo na comunicação humana feita através da automação e transformação dos símbolos nestes espaços vivos. É quando se dá a evolução política. A liberdade de publicação (blog, mídia social, etc), relativamente sem barreira econômica, quando comparado as barreiras antigas, há um grande progresso e na maior parte dos casos, sem pedir permissão e editor, etc, que até pouco tempo controlavam a circulação das informações. É só liberdade de expressão o que as redes proporcionam e isto é maravilhoso e surpreendente, mesmo que ainda haja algum tipo de 'controle' subentendido nos espaços utilizados. Poder publicar com liberdade e ter livre acesso a grande gama de informações, de outros países e não somente através das mídias, mas diretamente através dos atores sociais, de pessoas, diretamente, acessar as fontes diretamente, os editores, o ator cultural, político e econômico. Fim do monopólio da informação. Carregavam os pacotes que eram a informação e agora perderam esse controle pois as informações circulam por todos os lados e estão de acesso a todos.

Considerando que o primeiro site na web surgiu em 1994 e que no final do sé. XX, 1 ou 2% da população global está conectada à internet e agora, 12 anos mais tarde, 30% já faz esta conecção. É uma grande transformação. A web não mudou. A grande mudança é a grande corrida atrás deste tipo de mídia. Sem risco de sofrermos contradição até o meio deste século haverá mais pessoas conectadas, afirma o filósofo e que 55% dessas pessoas não são de origem européia ou americana. Não há mais centro. Acabou. A alfabetização é o grande problema, ainda, para que todos tenham acesso , estejam conectados, mas também afirma o estudioso que o fato de nem todos ficarem futuramente conectados também faz parte da democracia, da opção de escolhas tão salutar.

Lévy deixa ainda uma mensagem de reflexão acerca da atual luta que o ser humano trava, que é a luta pela transparência simétrica, que está nas grandes empresas, corporações, para que sejam transparentes. Esta é a luta pela democracia pois em geral as pessoas não confiam na opacidade. Cada vez mais o poder está baseado na confiança. Para se ter poder, segundo o filósofo, é necessário ser transparente, onde se escolhe atuar (de onde vem o dinheiro? qual sua filiação política?) É mais importante a transparência do que a objetividade. O melhor é falar tudo (!). A força é baseada na confiança.

A internet, afirma Pierre Lévy, é como uma vila global, espaço público, onde nossa vida poderá ser cada vez mais transparente. Fazemos a diferença neste espaço quando somos capazes de marcar, ajudar o outro a trilhar os caminhos também. Deixamos rastros de informações para que outras pessoas possam deixar também e conhecer caminhos. Formar comportamentos na internet, isto fazemos transformando as paisagens e ajudando o outro a ver conforme vemos.

"É necessário olhar como os pássaros voando para a história da humanidade."
(Pierre Lévy)

Artigo de Pierre Lévy (A esfera pública do século XXI)

Entrevista de Pierre Lévy (Controle redes sociais e futuro dos livros)

Pierre Lévy é um dos pensadores mais representativos da revolução digital no mundo contemporâneo. Nasceu na Tunísia e realizou seus estudos na França, onde fez doutorado em Sociologia e em Ciências da Informação e da Comunicação. É professor titular da cadeira de Pesquisa em Inteligência Coletiva, da Universidade de Ottawa, no Canadá. Presta serviço a vários governos, organismos internacionais e grandes empresas, sobre as implicações culturais das novas tecnologias. Seus livros já foram publicados em mais de 20 países.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A arte de escrever - Schopenhauer

"A pena está para o pensamento como a bengala está para o andar. Da mesma maneira que se caminha com mais leveza sem bengala, o pensamente mais pleno se dá sem a pena. Apenas quando uma pessoa começa a ficar velha ela gosta de usar bengala e pena."(Arthur Shopenhauer)

O livro A arte de escrever apresenta abordanges sobre a literatura e seus vários aspectos distribuídos nos temas: 'sobre a erudição e os eruditos', 'pensar por si mesmo', 'sobre a escrita e o estilo', 'sobre a leitura e os livros' e 'sobre a linguagem e as palavras', sob a visão de Arthur Shopenhauer  nas contudentes, atuais e até engraçadas críticas.

Shopenhauer ataca a literatura de consumo, procura estabelecer distinções entre os bons autores e os que escrevem por dinheiro, condena o hábito de ler apenas novidades deixando de lado os clássicos e faz considerações sobre a degradação da língua pela literatura decadente.

Reler Shopenhauer é antes que analisar suas duras críticas ao ato de ler desmensuradamente, refletir nas sábias colocações do filósofo: "Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados."


Shopenhauer valoriza a reflexão intercalada com uma boa leitura (afinal não compramos tempo junto com um bom livro) quanto a arte de 'não ler'.

 "Seria bom comprar livros se fosse possível comprar, junto com eles, o tempo para lê-los, mas é comum confundir a compra dos livros com a assimilação de seu conteúdo.

Diminuí meu ritmo de leitura recentemente e lógico que me agarrei a Shopenhauer para me sentir bem pois nem é preciso dizer que sou viciada em ler. Tem um momento em que o autor chega a dizer: "Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para ter lido tanto". Tornando minha fala contraditória, como bem lembra o autor, pois logo que falo já entro em erro, digamos que me opornunizei ao ato de pensar melhor.

"Assim como as atividades de ler e aprender, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento  próprio, as de escrever e ensinar em demasia também desacostumam os homens da clareza e profundidade do saber e da compreensão, uma vez que não lhes sobra tempo para obtê-lo."

Schopenhauer, Arthur, 1788-1860
A arte de escrever / Arthur Schopenhauer; tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Sussekind. - Porto Alegre : L&PM, 2008. 176 p.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O que é poesia?

O que é Poesia? / Edson Cruz, organizador. Rio de Janeiro: Confraria dos Vento:  Calibán, 2009. 144p.

Livro prático que se lê em dois tempos, de conteúdo aprofundado através da fala de seus muitos autores literalmente chamados de "poetas à queima-roupa" por se arriscarem a responder perguntas espinhosas, e ingênuas, legítimas e difíceis. E o responderam, as três perguntas ora concentradas no livro:

O que é poesia para você?
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?

As respostas as mais variadas surpresas, profundas, outras aleatórias, técnicas, sensíveis, próprias das percepções, vivências de cada autor mas com um quê poético que só um verdadeiro poeta sabe adentrar no jogo onde cada palavra colocada pode faz a diferença na emoção de quem lê.

Ficaremos com a intrigante pergunta inicial (O que é poesia para você?):

Márcio-André: É quando o mundo se curva diante de uma palavra: o espaço se comprime, o tempo se expande, passado e futuro sonham-se mutuamente enquanto presente e tudo passa a ter um sentido tão pleno e arrebatador que pouco pode-se resguardar além de algumas palavras.

Micheliny Verunschk: A poesia para mim é a forma mais eficaz de alcançar algo inatingível, a essência do real ou, antes, o real em essência. É também o único modo pelo qual posso enxergar o mundo. Ela está um degrau acima da filosofia e um degrau abaixo do amor.

Nicolas Behr: Poesia é tudo o que você está sentindo agora.

Eunice Arruda: A poesia, para mim, é uma das formas de viver. Que está incorporada em meus dias. Significa captar, no cotidiano (ou em outra dimensão que não ouso nomear), as emoções. Os pensamentos. Para depois devolvê-los ao mundo transformados em outra linguagem: a da poesia. Mas, muitas vezes, abandonei este caminho - a estrada real - para conhecer o atalho. Visitar a cor de outras ramagens.

Glauco Mattoso: a poesia é uma metralhadora na mão dum palhaço. Seu poder de fogo pode ser apenas intencional, e seu efeito apenas hilário, mas o franco-atirador, ao expor-se em sua ridícula revolta, no mínimo consegue provocar alguma reação, ainda que meramente divertindo o público, e alguma reflexão sobre o papel patético dos idealistas e visionários, que, no fundo, somos todos nós.


Autores na antologia:

Affonso Romano de Sant´Anna, Amador Ribeiro Neto, Ana Elisa Ribeiro, André Vallias, Aníbal Beça, Antonio Cícero, Augusto de Campos, Bárbara Lia, Carlito Azevedo,  Carlos Felipe Moisés, Claudio Daniel, Claudio Willer, Eunice Arruda, Fabiano Calixto, Felipe Fortuna, Flávia Rocha,  Floriano Martins, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Horácio Costa, Jair Cortés, João Miguel Henriques,  João Rasteiro, Jorge Rivelli, Jorge Tufic, José Kozer, Luis Serguilha, Luiz Roberto Guedes, Marcel Ariel, Márcio-André, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nicolas Behr, Nicolau Saião, Ricardo Aleixo, Ricrdo Corona, Ricrdo Silvestrin, Rodolfo Hãsler, Rodrigo Petronio, Sebastião Nunes,  Tavinho Paes, Victor Paes, Virna Teixeira, Washington Benavides.

sábado, 9 de julho de 2011

El Puente - Mário Benedetti



Para cruzarlo o para no cruzarlo

ahí está el puente

en la otra orilla alguien me espera

con un durazno y un país



traigo conmigo ofrendas desusadas

entre ellas un paraguas de ombligo de madera

un libro con los pánicos en blanco

y una guitarra que no sé abrazar



vengo con las mejillas del insomnio

los pañuelos del mar y de las paces

las tímidas pancartas del dolor

las liturgias del beso y de la sombra



nunca he traído tantas cosas

nunca he venido con tan poco



ahí está el puente
para cruzarlo o para no cruzarlo
yo lo voy a cruzar

sin prevenciones

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país.

(Mário Benedetti)

Mário Benedetti nasceu em 1920 em Paso de los Toros. Em 1973, teve que sair de Montevidéu depois do golpe militar e foi viver em Madri. Com a redemocratização do país, voltou ao Uruguai, dividindo seu tempo entre os dois países. É autor de mais de 50 livros, entre eles, Quem de nós, Correio do Tempo, O amor, as mulheres e a vida, já resenhados aqui onde Nós Todos Lemos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um cemitério de pássaros
(para Lígia Guedes) - Bento Moura

"...por toda a minha vida..."
Técnica mista o 40 cm - SP, 2011
por Bento Moura

Ninho_Niño
por Bento Moura
interessa no mundo?
da valia dos escombros
Senão em risos opacos, vozes disjuntas


Interessa qualquer coisa transmutada
Dito nomes, feito símbolos


Interessa qualquer coisa assim
Feito aceno breve, sorrateiro
Reluzente de esgar

De bruma partida nos olhos contritos -
debruados numa valsa, numa dúvida
vago esgar de peito caindo, caindo


Noite ida, noite ida
Dei prá acalentar a escuridão
como se fosse um pedaço de beijo


Ou um tombo de mariposa no abismo
Na vidraça
Na vidraça um pardal


Enxague
retalhada voz sentida
aquietada, estática


era para ser uma janela


No degrau do quintal
quando amanhece e o dia
se faz claro sobre as asas deixadas


vazias
perdidas
como os acenos perdidos - e onde as asas eram quase asas de voar.


(Bento Moura)

Recebi esta belíssima homenagem de Bento Moura que me deixou extremamente emocionada pelo carinho.

Receber este belo poema é como receber uma delicada flor e passar um período a admirar, a exalar seu perfume e tão somente depois chegar a tocar suas delicadas pétalas.

Assim foi. Estou meses a apreciar, a compreender cada palavra, sentir a emoção com que foi escrita, enfim, somente agora venho postá-la, visto já estar familiarizada com cada letra que se fez frase, que formou idéia e especialmente emoção. E olha que vindo de um artista como Bento...

Tem momentos que a emoção substitui as palavras. Este poema é um belo presente que já se fez inseparável e somente agora compartilho aos amigos.

domingo, 19 de junho de 2011

Pablo Neruda - A poesia

(Pablo Neruda)

Tem momentos em nossas vidas que a reflexão nos leva a nos desligarmos de leituras longas. Somente a poesia talvez cumpra este papel de reconecção, de completude, velhas companheiras de caminhada.

Observava o quão lindo é o encontro do homem com a poesia tão bem expresso nas palavras de Pablo Neruda, grande conhecedor dos sentimentos humanos, através desta belíssima poesia:

E foi nessa idade... Chegou a poesia
para me buscar. Não sei, não sei de onde
saiu, de inverno ou rio.
Não sei como nem quando,
não, nao eram vozes, não eram
palavras, nem silêncio,
porém desde uma rua me chamava,
desde os ramos da noite,
de repente entre os outros,
entre fogos violentos
ou regressando sozinho,
ali estava sem rosto
e me tocava.
Eu não sabia o que dizer, minha boca
não sabia
nomear,
meus olhos eram cegos,
e algo golpeava em minha alma,
febre ou asas perdidas,
e me fui fazendo só,
decifrando
aquela queimadura,
e escrevi a primeira linha vaga,
vaga, sem corpo, pura
tontice, pura sabedoria
de quem não sabe nada,
e vi de repente
o céu
degranado e aberto,
planetas,
plantações palpitantes,
a sombra perfurada,
crivada
de flechas, fogo e flores,
a noite esmagadora, o universo.

E eu, mínimo ser,
ébrio do grande vazio
constelado,
à semelhança, à imagem
do mistério,
me senti parte pura
do abismo,
rolei com as estrelas,
meu coração se desatou no vento.

(De Memorial de Isla Negra - Pablo Neruda)

sábado, 11 de junho de 2011

Festival Varilux de Cinema Francês 2011



Está ocorrendo desde o dia 8 de junho o "Festival Varilux de Cinema Francês", até o dia 16 de junho do corrente ano.


Filmes como Copacabana, O Pai dos Meus Filhos, Vênus Negra, Xeque Mate, Os Nomes do Amor, Um Gato em Paris, Lobo estão na programação, no CINEMAGIC, em Macaé, RJ.

(Copacabana)

Se você estiver passando por alguma das 22 cidades brasileiras: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Campos, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Juiz de Fora, Macaé, Maceió, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Santos, São Luis, São Paulo, Vitória, vale conferir!

(Lobo)




sexta-feira, 27 de maio de 2011

Elo - Carla Guedes


(Imagem Grafite: L Guedes)

Sentir a causa inteligente que me move
vai além do crivo cerrado da razão.
É abrir as comportas da alma, e, num dilúvio,
inundar-se da comoção
de ser pedaço.

[Pedaço do todo, partes que conjuntas
constroem o vitral colorido
das vidraças sagradas
do templo da natureza.]

Sentir a ação primeira
é impelir-se a ser correnteza
E nos fortes elos da corrente, de mãos dadas,
calcar rumo ao tão perto coração desamparado
do próximo.

É descobrir-se candeia e altear-se
perante a estrada sombria e escura,
Ser grato pelo pão singelo à mesa
que nos dá a força propulsora
do passo.

É contemplar sem abismos o crepúsculo avermelhado
e o cosmo salpicado de astros que vagueiam pelo infinito.
buscar a felicidade nas oportunidades oferecidas,
acreditando que a vida não está presa a esmo
do acaso.

É sentir o infinito pulsando dentro de si,
e descobrir que o elo
com a causa primeira das outras coisas todas
é de fato o sentimento motivo da criação:
o amor.

(Carla Guedes - Verso in' verso)

sábado, 21 de maio de 2011

Um Homem de Família

"Um Homem de Família"
Lançamento: 2000 (EUA)
Direção:        Brett_Ratner
Atores:          Nicolas Cage, T Leoni, Josef Sommer, Jeremy Piven.
Duração:       125 min
Gênero:         Comédia

Sinopse

Jack Campbell é um investidor de Wall Street jovem e solteiro vivendo uma vida de rico em Nova Iorque. Ele se surpreende quando sua ex-namorada, Kate, tentou ligar para ele após anos sem se verem.
Após uma conversa com o seu mentor na empresa, Jack resolve não atender no momento. Naquela noite de natal, ele resolve ir a pé até a sua casa, passando por uma loja de conveniências. No caminho acaba convencendo um vencedor da loteria, irritado, chamado Cash a não atirar no vendedor. Ele oferece ajuda à Cash antes de ir dormir em sua cobertura.
Tudo muda num passe de mágica quando na manhã seguinte ele acorda em um quarto no subúrbio de Nova Jersey com Kate, a sua atual esposa, com quem anteriormente ele havia deixado de se casar e ainda com duas crianças que ele se quer conhecia. Jack percebe então que esta é justamente a vida que ele teria se não tivesse se transformado em um investidor financeiro quando jovem. Ao inves disso, ele tem uma vida modesta, onde ele é um vendedor de pneus e kate é uma advogada não-remunerada.

O filme Um Homem de Família faz profundas reflexões acerca da essência da busca da vivência do ser humano: ser feliz. Na história específica, as facetas que compoem esta busca na vida de um homem são expressas por seu relacionamento com o trabalho e a família.

 A divertida história se passa em dois mundos na vida deste homem (Nicolas Cage): no topo do capitalismo (a vida de um alto executivo) e seu relacionamento empresariado como na vida de um trabalhador de nível social mediano, ou seja, um vendedor de pneus e seus relacionamentos sociais e familiar (mulher e dois filhos).

 Ponto alto na sutileza com que é tratado um tema tão importante quanto relacionamento amoroso e familiar x vida profissional, o valor da amizade, entre outros.



Bom filme!

sábado, 14 de maio de 2011

Cora Coralina



Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (Cora Coralina) nasceu no dia 20 de agosto, em Goiás, GO 1889 e morreu em 10 de abril, em Goiânia, GO, em 1985.


TODAS AS VIDAS


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo,
Benze quebranto,
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro,
Ogã; pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d´água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.

"Amo a terra em místico amor consagrado, num esponsal sublimado procriador e fecundo."


Cora Coralina começou a escrever aos 14 anos de idade. Desde então, nunca mais abandonou a literatura, paixão que lhe garantiu o repúdio da sociedade local. A poesia não fazia parte das tarefas corriqueiras de uma mulher no interior de Goiás em princípios do século XX.

Resolveu dedicar-se com afinco à literatura depois de uma desilusão amorosa. Tinha 18 anos quando se apaixonou por um rapaz que estudava no Rio de Janeiro e estava passando férias em Goiás. A mãe dele cortou o relacionamento e antecipou o retorno do filho. Como diria Cora anos depois: "as mulheres do passado, não sabenod ser carinhosas - que que aquele tempo de dureza e severidade não ajudava - tornavam-se cruéis".

Apesar do preconceito, Cora aprendeu métrica, leu grandes poetas da língua portuguesa, como Camões, Bilac, Tomás Antônio Gonzaga, Garret e Gregório de Matos, e passou a colaborar para o Anuário Histórico e para um semanário publicado em sua cidade.

Em junho de 1911, a poetisa conheceu o novo chefe de polícia local, Cantídio, um homem que era 21 anos mais velho do que ela. A mãe de Cora proibiu terminantemente o namoro, de modo que, na madrugada do dia 25 de outubro daquele mesmo ano, o casal fugiu para o interior de São Paulo. Cora estava grávida de dois meses. O casal teve seis filhos - Paraguassu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Maria Isis e Vicência -, 16 netos e 29 bisnetos.

Após a mudança para o interior paulista, Cora colaborou para diversos jornais, entre eles O Democrata, do qual seu marido era um dos redatores. Esporadicamente, também contribuía para o periódico A Informação Goiana, impresso no Rio de Janeiro mas distribuído no estado de Goiás.
Somente aos 75 anos Cora publicou seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Doze anos depois, em 1976, lançou Meu livro de cordel, sem grande repercussão. Em 1979, ao ser "descoberta" por Carlos Drummond de Andrade, a obra de Cora Coralina ganhou projeção nacional: "Se há livros comovedores", escreveu Drummond a respeito da estréia da autora, "este é um deles. (...) Cora Coralina: gosto muito desse nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira."

"Escrever é uma recriação da vida, e, recriando a vida, eu me comunico. Não invento, não sou uma criadora, sou uma recriadora da vida. Esta é a marca mais viva do meu espírito junto à minha capacidade de dizer uma mentira."
(Cora Coralina)

"Seu Vintém de cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida!"
(Trecho de carta de Carlos Drummon de Andrade)



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

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