segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Henrik Ibsen

Henrik Ibsen
1828 - Em 20 de março, nasce Henrik Johan Ibsen, em Skien, Noruega.
1835 - Sua família muda-se para uma fazenda em Gjerpen.
1843 - A família muda-se para Skien.
           Em dezembro Ibsen vai para Grimstad para ser aprendiz de farmacêutico.
1846 - Em outubro nasce Hans Jacob Henriksen, filho ilegítimo de Ibsen e Else Sophie.
1849 - Conclui a obra Catilina.
1850 - Vai para Christiania (atual Oslo).
            Publica Catilina, sob o pseudônimo de Brynjolf Bjarme.
            Em setembro estréia a peça The Warror's Barrow.
1852 - É contratado como diretor de cena no Norwegian Theatre.
            Viaja para a Dinamarca e para a Alemanha.
1856 - Fica noivo de Suzannah Thoresen.
1857 - É contratado para o cargo de diretor do Christiania Norwegian Theatre.
1858 - Casa-se com Suzannah Thoresen.
1859 - Nasce Sigurd, seu filho.
1862 - O Christiania Norwegian Theatre vai à falência.
1863 - Publica The Pretenders.
1864 - Ibsen viaja para a Itália.
1866 - Escreve a peça épica Brand.
1867 - Escreve Peer Gynt.
1868 - Muda-se com a família para Dresden, onde vive por sete anos.
1869 - Viaja ao Egito para assistir à inauguração do canal de Suez.
1870 - Escreve Balloon-letter to a Swedish Lady.
1871 - Publica Poemas.
1873 - Publica The Emperor and the Galilean.
1875 - A família muda-se para Munique.
1877 - Publica Pillars of Society.
1879 - Ibsen escreve Casa de Bonecas. A peça dá ao autor projeção internacional.
1881 - A peça Ghosts provoca polêmica.
1882 - Escreve An Enemy of the People.
1886 - Escreve Rosmersholm.
1890 - Escreve Hedda Gabler.
1891 - Escreve The Master Builder.
1892 - Seu filho Sigurd casa-se com Bergliot.
1893 - Nasce Tancred, o neto de Ibsen.
1894 - Escreve Little Eyolf.
1895 - Muda-se para o apartamento onde viveria até o fim de sua vida.
1896 - Escreve John Gabriel Borkmann.
1899 - Escreve When the Dead Awaaken.
1900 - Sofre um derrame que o deixa com o lado esquerdo paralisado.
1901 - Um segundo derrame paralisa-lhe o lado direito.
1902 - É indicado para o Prêmio Nobel de Literatura.
1903 - Sofre o terceiro derrame e perde a capacidade manual de escrever.
1906 - Morre em 23 de maio. Em 1. de junho é sepultado com honras de Estado no cemitério Var Freisers.

Em 1814 a Noruega separou-se da Dinamarca e integrou-se à monarquia da Suécia. Tinha sua própria constituição - um poder executivo constituído por civis indicados, o legislativo eleito indiretamente pelo povo e um judiciário independente. Por isso, quando as revoluções estouraram na Europa em 1848, a Noruega não participou das rebeliões, embora tivesse sua porção de organizações revolucionárias e radicais. Um dos mais influentes desses grupos era liderado por Marcus Moller Thrane, e dele Henrik Ibsen fez parte durante um curto período de tempo. A prisão de Thrane e seus assistentes convenceu Ibsen a desistir das manifestações políticas, porém as idéias socialistas intensificaram seu espírito de revolta contras as autoridades e seu domínio absoluto e modificariam sua visão de liberdade pessoal - temas que apareceriam mais tarde em suas peças.

A obra literária de Ibsen foi particularmente influenciada pelo poeta dinarmaquês Adam Gottlob Oehlenschlager - cujas peças românticas enalteciam a era escandinava dos vikings e inspiraram os primeiros trabalhos de Ibsen - e pelo dramaturgo francês Eugene Scribe, que escreveu mais de quatrocentas peças, das quais Ibsen produziu pelo menos uma dúzia durante a época em que trabalhou no teatro.

Henrik Johan nasceu em Skien, uma pequena cidade costeira da Noruega, no dia 20 de março de 1828, filho de Knud Ibsen, um próspero comerciante local, e de Marichen Altenburg, que pertencia a uma família aristocrática de Skien. Em 1831 Knud comprou a casa de sua sogra, com dez cômodos, e uma destilaria, que também pertencia a ela e que precisava de extensas reformas. Em 1835 as dificuldades financeiras obrigaram-no a vender a casa e a destilaria para evitar falência. O abalo no estilo de vida deixou marcas profundas em Henrik, cujos estudos foram prejudicados. A família mudou-se para uma fazenda em Gjerpen, onde ele foi matriculado numa pequena escola local. Em 1843 voltaram para a cidade, porém a atmosfera familiar não era das mais favoráveis. O pai de Ibsen era um homem autoritário e dominador, além de alcoólatra. A mãe, submissa, buscava conforto na religião.

Mais tarde Ibsen se inspiraria nos pais para criar seus personagens de Brand, Casa de Bonecas e Ghosts. Quando estava com 16 anos, Ibsen mudou-se para Grimstad para ser aprendiz do farmacêutico Jens Reimann. Em 1846 seu senso de dever levou-o a assumir e a sustentar o filho Hans, nascido de um relacionamento com uma das criadas de Reimann. Em 1850 Ibsen mudou-se para Christiania (atual Oslo). Pretendia estudar medicina, porém seu sonho foi destruído ao ser reprovado nos exames de admissão à universidade. Foi então que ele passou a se dedicar à literatura, tendo chegado a ganhar algum dinheiro escrevendo para a publicação literária semanal Andhrimner. Nesse mesmo ano Ibsen escreveu duas peças, Catilina, uma tragédia que refletia a atmosfera do ano revolucionário de 1848, e The Burial Mound.

Em 1951 recebeu uma indicação para trabalhar no Den Nationale Scene, um pequeno teatro em Bergen. Para esse teatro Ibsen escreveu quatro peças baseadas no folclore e na história da Noruega, entre as quais Lady Inger of Ostraat (1885).  Em 1852 o teatro financiou para Ibsen uma viagem para a Dinamarca e para a Alemanha, com o propósito de que ele aprendesse mais e aperfeiçoasse suas técnicas de produtor e diretor de teatro.

Em 1856 Ibsen obteve seu primeiro sucesso popular, com The Feast at Solhaug, que resultou num convite para uma festa na residência da escritora Magdalene Thoresen, esposa de um pastor. Foi nessa oportunidade que conheceu a filha do casal. Suzannah Daae Thoresen, de quem ficou noivo pouco tempo depois.

Ibsen voltou para Christiania em 1857 para assumir o cargo de diretor artístico do Christiania Norwegian Theatre, recém-inaugurado. No ano seguinte, em Bergen, casou-se com Suzannah. O único filho do casal, Sigurd, nasceu em 1859, dois dias antes do Natal.

Depois de várias produções, o Norwegian Theatre foi à falência, e Ibsen foi indicado para dirigir o Christiania Theatre. São dessa época as sagas históricas The Vikings of Helgoland (1858) e The Pretenders (1863) e a sátira Love's Comedy 91862).

Em 1861, dívidas, doenças e menosprezo em relação a sua arte chegaram a fazer Ibsen pensar em suicídio. Nesse mesmo ano escreveu o poema Terje Vigen, baseado em histórias sobre as guerras napoleônicas. Em 1864 Ibsen recebeu como prêmio do governo norueguês uma viagem para o exterior. Foi para a Itália e, nos 27 anos seguintes, morou alternativamente em Roma, Dresden e Munique. Voltaria à Noruega apenas para breves visitas. Durante esse período Herink Ibsen escreveu a maior parte de suas principais obras, entre as quais Brand, em 1866, e Peer Gunt, em 1867, cujos temas se originaram da desilusão do escritor com seus conterrâneos. A peça Brand foi encenada com grande sucesso em toda a Escandinávia, o que lhe valeu uma pensão concedida pelo Parlamento da Noruega. Ibsen, que durante um período se sentiu abandonado por Deus e pelos homens, passou a sentir-se feliz e recompensado.

Ibsen considerava The Emperor and the Galilean sua peça mais importante - um drama sobre cristianismo e paganismo, porém houve outras que obtiveram mais destaque. Pillars of Society, de 1877, tratava de um homem de negócios rico e hipócrita cuja conduta perigosa quase resultou na morte de seu filho. Sua obra mais famosa, Casa de Bonecas,  de 1879, é um drama social sobre casamento no qual uma mulher se recusa a obedecer ao marido e põe fim a um casamento aparentemente perfeito. A peça fez grande sucesso e foi encenada em vários países da Europa e da América.

A obra literária de Henrik Ibsen divide-se em três períodos: período romântico (1850-1873), período realista (1877-1890) e período simbolista (1892-1899).

As primeira obras de Henrik Ibsen foram caracterizadas pelo extenso uso de simbolismos, mitos e questões religiosas, em histórias escritas mais com a finalidade de ser lidas do que representadas no palco. Já suas peças mais famosas são marcadas por uma descrição realista da vida contemporânea, um trato psicológico profundo dos personagens e suas interações, sempre com tramas magistralmente tecidas, que criam uma atmosfera dramática de crescente tensão.

Em suas peças Ibsen focaliza mais os personagens do que as situações, e cria dramas realistas de conflitos psicológicos. Seu tema é o dever do indivíduo para consigo mesmo. Na tarefa da auto-realização os personagens de Ibsen encaram as convenções antiquadras da sociedade burguesa. O individualismo anarquista de Ibsen deixou marcas profundas na geração mais jovem fora da Noruega, onde ele era considerado um escritor revolucionário. Em sua vida pessoal, entretanto, era visto como moralista e conservador.

Henrik Ibsen é considerado o Skakespeare da eta moderna, pelo realismo e pela profundidade psicológica com que retratou os problemas sociais, a injustiça e a hipocrisia das convenções sociais, colocando em xeque os valores da classe média européia.

o único verdadeiro sucessor de Henrik Ibsen foi o escritor inglês George Bernard Shaw, que possuía o mesmo intelectualismo, o mesmo estilo e a habilidade de dramatizar idéias e conceitos em peças inteligentes.

Em 1889, durante um feriado em Grossensass, Ibsen conheceu Emilie Bardach, uma jovem da alta sociedade vienense. Algum tempo depois os dois trocaram correspondência. As cartas de Ibsen para Emilie foram publicadas logo depois de sua morte, levantando especulações sobre um possível relacionamento amoroso entre eles. Em 1881 Ibsen, autor já mundialmente famoso havia alguns anos, voltou a seu país, mas encontrou algumas adversidades.

Em março de 1900 Ibsen contraiu uma gripe bastante forte. Poucas semanas depois sofreu o primeiro derrame cerebral, que deixou paralisado o lado esquerdo do seu corpo. Recuperou-se parcialmente, porém no ano seguinte teve um segundo derrame, que dessa vez lhe afetou o lado direito. Um terceiro derrame ocorreu em 1903, e Ibsen ficou com os movimentos seriamente prejudicados, oque comprometeu sua capacidade de escrever. Em 1903 um terceiro derrame ocorreu, e os movimentos de Ibsen ficaram bastante prejudicados, inclusive sua capacidade de escrever. A partir de então seu estado de saúde começou a declinar acentuadamente, até que, no dia 23 de maio de 1906, uma quarta-feira, ele faleceu, às duas e meia da tarde, em seu leito. Uma semana depois foi sepultado no cemitério Var Freisers, com honras de Estado.



Fonte: Coleção obras-primas -  Grandes autores - vida e obra
 

domingo, 10 de setembro de 2017

Guy de Maupassant

Guy de Maupassant

1850 - Em 5 de agosto, no Castelo de Miromesnil, Toyrville-sur-Arques, França, nasce Henry-René-Albert-Guy de Maupassant.
1856 - Nasce seu irmão Hervé.
1859 - Maupassant inicia os estudos no Liceu Imperial Napoleão de Paris.
1862 - Seus pais se separam.
1863 - Passa a estudar no Instituto Eclesiástico de Yvetot, de onde seria expulso.
1864-69 - Guy vai para Paris para estudar Direito.
1870-71 - Serve ao Exército na guerra franco-prussiana como voluntário.
1872-80 - Trabalha como funcionário dos Ministérios da Marinha e da Educação.
1880 - Publica o livro de poesias Os Versos e a antologia Os Serões de Médan, editada por Émile Zola.
1881 - Publica o primeiro o livro de contos, A Casa Tellier.
1882 - Publica Mademoiselle Fifi.
1883 - Nasce o primeiro filho, fruto do relacionamento com Joséphine Litzelmann.
            Publica Uma Vida . (*)
1884 - Publica Miss Harriet, Clair de Lune e As Irmãs Rondoli.
1885 - Publica Contos do Dia e da Noite e o romance Bel-Ami.
            Começa a apresentar problemas de saúde.
1887 - Publica O Horla.
1888 - Publica Pedro e João.
1889 - Publica o romance Forte como a Morte.
            Morre Hervé, seu irmão.
1892 - Em 2 de janeiro, tenta o suicídio. É internado na clínica do dr. Esprit Blanche, em Paris.
1893 - Morre em 6 de julho, em Paris.

(*) Uma Vida
Com dezessete anos, radiante e aberta a todas as alegrias e oportunidades, Jeanne deixa o convento. Na ociosidade dos dias e na solidão das esperanças, de todos seus sonhos o mais impaciente é o do amor. Ela sabe de coisas sobre ele, sobre a agitação dos corações, o impulso das almas. Muitas vezes os pressentiu e esperou por eles. Quando ele surge, ela o reconhece sem dificuldade. O ser criado para ela! Julien! O mesmo eco desperta em seu coração. O casamento irá sela o amor deles.


Com a Revolução Industrial, ocorrida na Europa ocidental em meados do século XIX, novas oportunidades para a força de trabalho na França foram criadas. Os camponeses trocaram as aldeias e vilarejos por cidades maiores, onde se tornaram parte da chamada "pequena-burguesia", caracterizada por um poder aquisitivo maior e pelo interesse na educação e na cultura.

Curiosamente, com a abolição da monarquia e o estabelecimento da República, em 1870, na França, a consciência das diferenças de classes sociais aumentou. No novo Estado, o dinheiro exercia maior influência do que a posição social herdada. A burguesia rica, portanto, passou a ser considerada a aristocracia.

Outra consequência significativa desse importante período de transformação da humanidade ocorreu no modo de trabalho dos artesãos, que se viram forçados a trocar seus ofícios pelo trabalho monótono porém mais produtivo nas grandes fábricas.

Foi nessa época, em 5 de agosto de 1850, que nasceu em Tourville-sur-Arques, no Sena Marítimo, região no noroeste da França, Henry-René-Albert-Guy de Maupassant, filho de Gustave Maupassant e de Laure Le Poittevin, que descendia de uma família de alta burguesia normanda.

Embora seus pais fossem abastados, Guy teve uma infância infeliz, marcada pelas constantes desavenças e discussões entre os pais - Gustave era um  homem dissoluto e violento, e Laure uma mulher prepotente e neurótica. Os pais se separaram em 1862, quando Guy estava com onze anos, e ele e o irmão, Hervé, seis anos mais novo, foram criados pela mãe dominadora, no Castelo de Miromesnil, na Normandia. Vivendo entre o mar e o campo, Guy cresceu amando a natureza e as atividades ao ar livre.

Adorava pescar, e anos mais tarde, em Paris, passaria horas e horas remando no rio Sena. Guy teve uma educação primorosa: sua mãe, mulher extremamente culta, infundiu-lhe uma formação humanista, o que despertou seu interesse pela literatura. Realizou os primeiros estudos no Liceu Imperial Napoleão de Paris, e aos treze anos foi enviado para o Instituto Eclesiástico de Yvetot. Muito apegado à vida familiar, não conseguiu ambientar-se no internato e foi expulso por insubordinação. A fase do seminário despertou-lhe um sentimento anti-religioso que perduraria pelo resto de sua vida. Depois estudou no Liceu de Rouen, onde se formou em 1869.

Estimulado pela mãe a dedicar-se à carreira literária, aos dezenove anos partiu para Paris. Como voluntário, serviu ao Exército na guerra franco-prussiana de 1870 a 1871, mas não participou dos combates. Entre 1872 e 1880 trabalhou como funcionário dos Ministérios da Marinha e da Instruçã Pública, levando nas horas de folga intensa vida boêmia.

O avô materno de Guy era padrinho do escritor e jornalista francê Gustave Flaubert - amigo de infância da mãe de Guy e que, por sua vez, tomou-o sob sua proteção e introduziu-o na sociedade literária da época. Flaubert empenhou-se em treinar Maupassant na arte de escrever ficção e ensinou-lhe os fundamentos da estética realista. Foi ele o responsável por desenvolver em Maupassant a capacidade aguda de observação e o equilíbrio e a precisão de estilo.

Por intermédio de Flaubert, Maupassant conheceu vários escritores famosos da França e de outros países, entre eles Ivan Turguêniev, Alphonse Daudet, Émile Zola e Henry James. Frequentava com eles as reuniões dominicais da elite literária de Flaubert, que representava o centro do pensamento europeu.

Em 1880, depois de colaborar em jornais parisienses, Maupassant publicou um pequeno volume de poesias dedicado a Flaubert - Os Versos. No mesmo ano, seu conto Bola de Sebo, publicado na antologia Os Serões de Médan, alcançou grande sucesso.

Em 1881 conheceu Frank Harris, que o descreveria com as seguintes palavras: "Maupassant não dava a impressão de ser um homem genial; de estatura média, era robusto e bonito. Tinha o rosto quadrado, o perfil grego, a mandíbula forte, os olhos azul-acinzentados, os cabelos e o bigode escuros, quase negros. Seus modos eram impecáveis, embora num primeiro momento parecesse sempre um pouco reservado, relutante em falar sobre si mesmo e sobre suas obras".

A primeira obra de Maupassant foi um livro de poesias, mas ele se tornou mais conhecido pelo brilhantismo de seus contos. A Casa Tellier, de 1881, atingiu doze edições em dois anos.

Com a publicação de Mademoiselle Fifi, ele se transformou repentinamente no escritor da moda. Pediu demissão do emprego público e passou a se dedicar exclusivamente às letras. Seguiu-se um período de dez anos de grande fecundidade, quando escreveu praticamente a maior parte de suas obras mais importantes, incluindo seis romances, cerca de trezentos contos, peças, livros de viagem e crônicas jornalísticas.

Em 1883 concluiu seu primeiro romance, Uma Vida, sobre a existência frustante de uma esposa normanda. Em meados de um ano foram vendidos 25 mil exemplares.

Nesse ano nasceu seu primeiro filho, fruto do relacionamento com Joséphine Litzelmann. Guy teria outros dois filhos com a jovem, porém nunca quis reconhecer a paternidade, embora jamais deixasse de se preocupar ocm o bem-estar deles e de atender a todas as suas necessidades.

Seu segundo romance, Bel-Ami, publicado em 1885, que retrata um jornalista inescrupuloso, teve 37 edições em quatro meses. Seu editor, Havard, deu a ele um contrato para escrever novas obra-primas, e em muito esforço Guy criou obras de extraordinário estilo e profundidade.

A partir de 1885, no auge de sua expansão criadora, começou a sentir os sintomas da doença mental que terminaria por matá-lo. Acreditando que a cura para os seus males estivesse nas drogas, passou a viver um inferno particular, marcado por alucinações, obsessão por doenças e pela morte. Seus últimos contos são inspirados na idéia fixa de suicídio, na obsessão pelo invisível, pela angústia. O pessimismo, a hostilidade e a solidão lhe inspiraram fantasias que estão presentes em O Medo.

A história de horror mais perturbadora de Maupassant, O Horla, de 1887, é sobre loucura e suicídio. No ano seguinte Maupassant escreveu o que muitos consideram seu melhor trabalho - Pedro e João, um estudo psicológico de dois irmãos. O romance foi considerado imoral, uma vez que o herói se sai bem praticando o mal.

Com a aversão natural pela sociedade, Maupassant apreciava o isolamento, a solidão e a meditação. O êxito obtido com suas primeiras obras permitiu-lhe não só levar uma vida confortável como também realizar seus sonhos: o luxo, a inesgotável atividade amorosa, as longas e solitárias viagens pelo mar em seu iate Bel-Ami e o ingresso na sociedade de Cannes e de Paris, onde ganhou fama de sedutor inveterado. O sucesso financeiro permitiu-lhe, também, adquirir uma garçonnière - local destinado especialmente a encontros amorosos clandestinos -, um apartamento em Paris, uma casa de campo em Etretat e duas residências de veraneio na Costa Azul.

Curiosamente era mais orgulhoso de suas conquistas amorosas do que de suas obras literárias. Conheceu a Argélia, a Itália, a Inglaterra, a Sicília, e a cada viagem um novo livro era escrito. Toda essa atividade não o impediu de fazer amizade com as maiores celebridades literárias de seu tempo: Alexandre Dumas, filho, tinha por ele uma afeição paternal; em Aix-les-Bains Guy de Maupassant conheceu o filósofo e historiador Hippolyte-Adolphe Taine, a quem cativou de imediato. Sua amizade com Edmond e Jules Goncourt não durou muito; sua natureza franca e prática reagiu contra o clima de bisbilhotice, escândalo, duplicidade e criticismo que os dois irmãos criaram ao seu redor.

Guy abominava a comédia humana, a farsa social.

Duas das principais características de Maupassant são a economia de detalhes e a ausência de julgamento moral. Os contos de Maupassant são concisos: embora suas descrições sejam específicas, não há palavras supérfluas; cada uma delas é cuidadosamente utilizada para sugerir o melhor significado possível. Maupassant não fazia comentários sobre seus personagens ou sobre suas ações. Ao contrário da maioria dos escritores, especialmente de sua época, Maupassant não elogiava nem criticava seus personagens. Era objetivo e permitia que os personagens revelassem sua natureza e personalidade através de suas próprias palavras e ações.

Os personagens de Maupassant geralmente são vítimas infelizes da ganância, do desejo ou do orgulho. Suas obras mostram o realismo da crueldade entre os seres humanos, bem como as dificuldades de relacionamento familiar e as ironias da vida. Com relação às mulheres, ele era particularmente impiedoso. Raramente um personagem feminino é digno de admiração.

Ao contrário de Zola, obra de Maupassant não pretende ter alguma fundamentação teórica ou filosófica. Ele se limita a analisar a superfície dos fatos exteriores, e o que resulta dessa análise, por trás da ironia, é uma profunda amargura com a obstinação, a avareza e a estupidez de seus personagens. Por outro lado, suas obras são quase todas pessimistas; mesmo em suas páginas mais sensuais há um clima de grande melancolia.

Guy de Maupassant influenciaria grandes mestres do conto, entre os quais William Somerset Maugham e O. Henry.

Seu estilo de vida dissoluto e o excesso de trabalho e esforço mental contribuíram para enfraquecer sua saúde. Aos 37 anos teve complicações por sífilis, doença congênita de que ele e seu irmão eram vítimas e que levaria Hervé à morte em 1889. Passou a ter recorrentes problemas de visão, e suas faculdades mentais começaram a falhar aos quarenta anos, levando-o à demência.

Os críticos acompanharam a evolução da doença mental de Maupassant através de suas histórias semi-auto-biográficas, com temas psicológicos, algumas das quais podem ser comparadas às visões sobrenaturais de Edgar Allan Poe.

Em toda sua obra Maupassant permaneceu fiel ao ideal de simplicidade e clareza, traduzido por uma linguagem límpida e segura. Seus contos, envolvidos pela atmosfera de pessimismo, paixões, infelicidades e sensualidade, revelam uma grande paixão pela humanidade. A passagem para o romance obrigou-o a depurar e a aprofundar o perfil psicológico de seus personagens, a fim de construir o que denominou "os capítulos do sentimento". Entre seus trabalhos - a maioria deles inspirados em sua experiência pessoal de vida, suas observações de infância e adolescência, sua vida de burocrata e os longos passeios de barco a remo pelo Sena - destacam-se os contos de Mademoiselle Fifi 91882), Clair de Lune (1884), Contos do Dia e da Noite (1885) e os romances Uma Vida (1883), Bel-Ami (1885) e Forte como a Morte (1889).

Nos últimos anos de vida Maupassant desenvolveu um gosto exagerado pela solidão e um constante medo da morte e mania de perseguição. No dia 2 de janeiro de 1892 fez três tentativas de suicídio, cortando a garganta. Foi internado pelos amigos na clínica do doutor Esprit Blanche, em Passy, Paris. Ali passou dezoito meses praticamente inconsciente a maior parte do tempo, embora tivesse ocasionais crises de violência que obrigavam os enfermeiros a colocá-lo em camisa-de-força.

Guy de Maupassant morreu no dia 6 de julho de 1893, aos 43 anos de idade, e foi sepultado no Cemitério de Montparnasse, em Paris.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.



sábado, 9 de setembro de 2017

Astrid Cabral

Astrid Cabral Félix de Souza

Rio Negro
contigo arrastas ao abismo
invisível carga de risos de meninos

1936, Nasce no dia 25 de setembro, em Manaus - AM

No Colégio das Dorotéias, Astrid Cabral era sempre solicitada a decorar poemas em louvor a Deus, a Maria e aos santos, para recitar nas festas religiosas. Brincava com os textos, modificando-os, trocando palavras. Daí a escrever seus próprios versos foi uma questão de tempo.  A poetisa cresceu na casa dos avós professores, tendo à mão clássicos das literaturas brasileira, portuguesa e francesa. Admirava vários autores, mas a grande paixão de sua infância foi Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol. No ginásio, deixou-se seduzir pelo verso livre modernista.

Aos 16 anos, Astrid já publicava artigos e crônicas em jornais de Manaus. Participou do Clube da Madrugada, movimento renovador da literatura amazonense dos anos 50. Foi para o Rio de Janeiro, em 1955, estudar Letras Neolatinas na Universidade do Brasil. Em 1962, começou a dar aulas na Universidade de Brasília, mas sua carreira de professora foi interrompida pelo golpe de 64. Em 1988, com a lei de anistia, seria reintegrada. Neste ínterim, dedicou-se à tradução e fez concurso para oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores (1968). Serviu na Embaixada no Líbano (1970-72) e no Consulado em Chicago (1986-91).

Casada com o poeta Afonso Felix de Sousa, Astrid Cabral só publicou seu primeiro livro, Ponto de luz, em 1979. Na década seguinte, ganharia vários prêmios literários com outros três livros. Lélia Coelho Frota apresenta a poetisa como "mestra em recortar fragmentos do cotidiano". Fausto Cunha observa que, "num país em que as mulheres estão produzindo excelente poesia, Astrid consegue destacar-se como uma das mais poderosas revelações destes últimos anos, por sua fala pessoall e sua temática às vezes crua e irônica."

A arte de Astrid está à margem de facções ou escolas literárias: não se vincula à Geração de 45, nem aos modernistas, tampouco aos concretistas. É uma poesia que, no dizer de Tenório Telles, "denuncia os descaminhos da modernidade nos trópicos, seu caráter desagregador e trágico". Para Astrid Cabral, a poesia é um testemunho da vida humana, de cada um e de todos: "Poesia é a palavra em apoteose, a linguagem verbal elevada à máxima potência, de som e significado."


"Escrever poemas foi um passo à frene no comecinho da adolescência. Era uma forma prazerosa de conversar comigo mesma. Sentia haver coisas tão íntimas que só podiam ser ditas em silêncio. Achava que os versos no papel eram o cofre perfeito para os segredos do coração."

                                                                                                                   Astrid Cabral

"Embora Astrid Cabral tenha nascido no estado do Amazonas, sua poesia nada tem de caudalosa ou fluvial: é contida, delicada, refinada - em suma, a poesia de uma artista do verso."
Lêdo Ivo


COMUNHÃO

Debulho feijões de corda
como quem debulha auroras.

As vagens entre meus dedos
outra falagens mais finas.

Terra sol chuvisco lua
no verde ambíguo distingo.

Sinto a seiva das neblinas
toco a saliva do orvalho.

Penso no abismo da ueda
entre paisagem e panela.

Caninos trincando auroras
antecipo a comunhão.


Obras da autora

POESIA: Ponto de cruz, 1979; Torna-viagem, 1981; Visgo da terra, 1986; Lição de Alice, 1986; 
Rês desgarrada, 1994; De déu em déu (poemas reunidos), 1998; Intramuros, 1998.

FICÇÃO: Alameda, 1963.

INFANTIL: Zé Pirulito, 1982.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Antonio Carlos Secchin


Antonio Carlos Secchin

O dia. Arcos da manhã
em nuvem. Riscos de luz
como vidros arriados.

Antonio Carlos Secchin morou em Cachoeiro de Itapemirim até 1959, ano em que sua família mudou-se para o Rio de Janeiro. Os primeiros poemas foram escritos aos 13 anos de idade, inspirados pela leitura assídua de Drummond, Bandeira e Pessoa. Quatro anos depois, ganhou menção honrosa em um concurso de poesia e ingressou na Faculdade de Letras da UFRJ, onde fez mestrado e doutorado, para, em 1992, tornar-se professor titular de literatura brasileira.

Sobre seu livro de estréia, Ária de estação, José Guilherme Merquior comentou: "Em Antonio Carlos Secchin já começa a boa poesia, a bem dizer, ainda indecisa entre a imaginação do símbolo e a verdade alegórica da geração de 70."

Secchin viveu quatro anos em Bordeaux, onde lecionou cultura e literatura brasileira. Em 1983, já de volta do Brasil, publicou o segundo livro de poesia, Elementos, que mereceu o seguinte comentário de Benedito Nunes: "A palavra poética, já não mais um elemento de integração órfica, é corruptora da linguagem: arruina-se até a anulação do significado no silêncio."

Com seu primeiro livro de ensaios, João Cabral: a poesia do menos, Antonio Carlos Secchin conquistou três prêmios, e um comentário elogioso e críticos que já se debruçaram sobre a minha obra, destaco Antonio Carlos Secchin. Foi quem melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta." Este foi o primeiro de uma série de trabalhos sobre a produção poética contemporânea, que o poeta vêm publicando em grandes jornais brasileiros e do exterior.

Em 1996, Secchin reuniu artigos e ensaios diversos no volume Poesia e desordem, livro que Antônio Houaiss aponta como uma "preciosa visão de conjunto da literatura brasileira a partir de Bandeira e Drummond, com uma amorosa obsessão por Cabral e um espantoso senso crítico de equilíbrio para com a pululação de tendências, certezas, manifestações incruentas ou cruentas de 'verdadeiras' poesias - caos aparente que Secchin deslinda com serenidade".

1952, nasce no dia 10 de junho, no Rio de Janeiro.


"A possibilidade de negociar com as palavras as frestas de perturbação e mudança de que elas e nós necessitamos continuarmos vivos: a isso dá-se o nome de estilo."
                                               
                                                                                    Antonio Carlos Secchin



"A crítica literária do autor encontra-se instrumentada não apenas por um esplêndido domínio verbl, como sublinha Antônio Houaiss, mas também pelo pleno conhecimento da matéria de que se ocupa, bem como por um outro tempero, o humor."

                                        Ivan Junqueira


Noturno
           a Ricardo Thomé

Os reis de Copa
ostentam eretas
espadas mestras
em frente ao mar.
Transatlânticos desejos
encalhados na areia.
Dramas de paus
e valentes seios
expostos à carícia
de dólares e brisas.
Eis Lizbeth, ou João Batista,
ouro puro do subúrbio,
ex-ás do cais do porto,
atual contorcionista
do pescoço de pilotos
à procura de conquistas.
O seu rosto é reformado
por algum cirurgião-artista,
pois queixo, nariz e olhos
revelam influência cubista.
Passeiam pares de bicicletas
sob um céu abotoado de estrelas.

Na luz plástica dos postes
passam famintas pombas pretas.
Fome de tudo, em meio à neblina:
saliva, esperma, cocaína.
O bigode roça a nuca sôfrega.
E enquanto o corpo exala e treme
passa, ácida, a patrulha
de um insone PM.
O amor é de lei
ou desviado? Pouco importa;
só sabe celebrar
os rituais de Marte.
Mas frente a íma tão terreno
caos e lei se entredevoram
em cabine ao abrigo do sereno.
Ao guarda rapaz apraz, ao menos,
a ronda noturna no planeta Vênus.



Obras do autor

POESIA: Ária de estação, 1973; Elementos, 1983; Diga-se de passagem, 1988.

OUTRAS: Movimento (novela), 1975; João Cabral: a poesia do menos (ensaio), 1985; Antologia da poesia brasileira (org.), 1994; Poesia e desordem (ensaios), 1996.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Alexei Bueno

Alexei Bueno
Sem ti é falso o jardim velho, e fica o frio,
E fica o mármore, o feijão, o olhar vazio,
E a melhor frase que uma boca não falou.


Alexei Bueno escreveu seus primeiros versos aos 10 anos de idade. Foi um leitor precoce, mergulhado desde cedo nos escritores brasileiros da escola romântica e na obra dos grandes poetas portugueses. Depois veio a descoberta dos clássicos da poesia universal. Ao mesmo tempo, nutria uma especial admiração pela poética épica, dramática e lírica. Tantas leituras não traduzem necessariamente influências. Todavia, ele percebe claramente uma proximidade entre seus versos e o Simbolismo e o pós-simbolismo.

Criado em Copacabana, Alexei Bueno fez os estudos secundários no Colégio Santo Inácio. Aos 16 anos de idade, editou por conta própria seus primeiros versos: O tempo anoitecido. Foi o princípio de um longo caminho, até A via estreita, de 1995, escolhido melhor livro de poesia do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte, e contemplado com o prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional. No mesmo ano, foi hóspede do Palácio do Marquês da Fronteira, em Lisboa, recolhendo material para uma antologia da poesia portuguesa contemporânea. Apreentou seus poemas em recitais na Casa de Fernando Pessoa, no Palácio da Fronteira e na Biblioteca Caluste Gulbenkian.

Conforme observa Ivan Junqueira, suas fontes poe´ticas remontam à Grécia antiga: "Alexei Bueno revela-se poeta de um verso extrema e concisamente medido, e, mais do que isso, herdeiro do que deve aqui ser entendido como uma espécie de prolongamento dessa tradição poética que nos vem desde Homero (...), aquele continuum literário que se estende do século VI a.c. aos dias de hoje." Antônio Carlos Secchin, ao resenhar seu livro A juventude dos deuses, confirma: "Como a visão do frontispício de algum templo grego, que nos oferece a altura rejuvenescedora das mais antigas verdades, este livro é definitivamente dotado da força da verdadeira poesia."

Poeta, tradutor e editor, Alexei Bueno formou-se em Antropologia pela UFRJ, mas não exerce a profissão. É diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro, e conselheiro editorial da Nova Aguilar e da Lacerda Editores. Faz palestras em universidades, bibliotecas, encontros e congressos culturais, e tem colaborado periodicamente em vários dos principais jornais e revistas do país, além de escrever para a jornais e revistas literárias de Portugal, México, Estados Unidos e Venezuela.

1963, nasce no dia 26 de abril no Rio de Janeiro.


"O fenômeno claríssimo chamado de "inspiração", muito bem determinado pelos gregos, é sem dúvida verdadeiro. Por ele, que não passa de um momento de total concentração, consciente e inconsciente, de todas as reservas intelectuais e emocionais do indivíduo, é que se explica a eclosão da obra em determinado momento e não em outro, às vezes com períodos de condensação criadora ou soluções de continuidade espantosos. Mas estou falando do meu caso pessoal."
Alexei Bueno


"É no nível da linguagem metafórica, na rica tradição da imagem, 
que o poeta Alexei Bueno tem construído sua obra."
Assis Brasil



UM RISO

Ouvimos longe um riso. É das estátuas?
As brancas chamas pétreas e autofátuas?
Não, elas se mantêm, lápide e herma,
Com a alta boca homotérmica e enferma.

Ouvimo-la ainda. São hienas
Entrando em granjas e espalhando penas
Hilariantes pela dentadura?
Não, carnes não berram na noite escura.

Segue o riso. Serão os que olham o ouro
Como um comum metal, e põem do couro
Da língua baba azul e sons de prata?
Não, estes são só em p´ropria casamata.

Ainda riem. Serão talvez os cítricos
E verdes anciãos apocalípticos
De si mesmos, rangendo com emoção
Seus dias? Não, não têm recordação.

Riem, riem. Podem ser os astrônomos
Chupando os astros em gomos autônomos
De luz, pela boca branca dos cúmulos -
Nimbos! Não, eles só se acham em túmulos.

São as latas caindo? São os loucos?
São os porcos se emporcalhando aos poucos?
São na noite os penetras? São os joelhos
Dos fragelantes, sacros e vermelhos?

É Deus? Não, são, só os natimortos,
A rir, a rir, entre os dedinhos tortos
Gelando em baba e sangue contra o ar
DO haver, por não entrar, por não entrar!


Obras do autor

POESIA: O tempo anoitecido, 1979; As escadas da torre, 1984; Poemas gregos, 1985; Poesias, 1987; Nuctemeron, 1988: A decomposição de Johann Sebastian Bach, 1989; Magnificat, 1990; Lucernário, 1993; A via estreita, 1995; A juventude dos deuses, 1996; Entusiasmo, 1997; Em sonho, 1999.

ANTOLOGIA: A chama inextinguível, 1992.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - o Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes
fecha os olhos de dentro -
Acorda, esquecimento.

Arnaldo Antunes é poeta, músico, cantor, compositor e artista plástico. Surgiu em 1982, com o grupo de rock Titãs, no qual ficou por 10 anos - período em que lançou três livros de poemas. O primeiro CD solo, Nome, veio acompanhado de livro e vídeo, revelando as múltiplas trilhas que seguiria em sua carreira.

Em Arnaldo, a poesia assume uma linguagem pop, que tem a ver com o ritmo da grande metrópole. Ele explora as sonoridades de cada vocábulo, faz da própria letra impressa parte integrante do poema, trabalha as linhas e os espaços em branco da página. A poética de Antunes guarda proximidade com a obra do curitibano Paulo Leminski, porém suas raízes mais profundas estão no concretismo. Nos artigos "Derme/verme" (1991) e "Poesia Concreta" (1994), publicados em jornais de São Paulo, defendeu Augusto de Campos em sua polêmica com os poetas Bruno Tolentino e Régis Bonvicino.

Charles A. Perrone escreve sobre o trabalho do ex-titã: "Há na safra dos nascidos em 60 um nome mais que sobressaliente: Arnaldo Antunes. A poesia dele passará o umbral do novo século." O poeta se autodefine com simplicidade: "Tenho intersecção a tudo o que eu acabo produzindo - música, artes plásticas, literatura -, que é o tato com a palavra em si: eu não faço música instrumental, eu faço canção; eu não faço artes plásticas, faço instalações de poesia visual."

1960, nasce no dia 2 de setembro, em São Paulo - SP.


Obras do autor
POESIA: Ou e, 1983; Psia, 1986; Tudos, 1990; As coisas, 1992; 2 ou + corpos no mesmo espaço, 1996.
ARTIGO: 40 escritos, 2000.
DISCOS SOLO: Nome, 1993; Ninguém, 1995; O silêncio, 1996; Um som, 1998.


"Assim como a gente tem recursos de entonação com a fala, queria criar um similar de entonação gráfica."
"Nem só na poesia há poesia."
                                                                                       Arnaldo Antunes


INFERNO

Aqui a asa não sai do casulo, o azul
não sai da treva, a terra
não semeia, o sêmen
não sai do escroto, o esgoto
não corre, não jorra
a fonte, a ponte
devolve ao mesmo lado, o galo
cala, não canta a sereia, a ave
não gorgeia, o joio
devora o trigo, o verbo envenena
o mito, o vento
não acena o lenço, o tempo
não passa mais, adia,
a paz entedia, pára
o mar, sem maremoto,
como uma foto, a vida,
sem saída, aqui,
se apaga a lua, acaba
e continua.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Salgado Maranhão

Salgado Maranhão
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto

José Salgado Santos é o caçula entre seis irmãos - sendo quatro mulheres. Quando tinha 16 anos, emigrou com a família para Teresina, onde fez o curso secundário. Um dia, na biblioteca pública, descobriu Fernando Pessoa, e a poesia entrou definitivamente em sua vida. Depois, vieram as leituras de Maiakovski, João Cabral, Drummond, Joaquim Cardozo, Cecília Meireles e Murilo Mendes, "poetas inquestionáveis em qualquer idioma".

Em 1971, com 18 aos, trabalhava no jornal O Dia, de Teresina, quando recebeu a incubência de entrevistar Torquato Neto numa de suas visitas à cidade. Torquato apadrinhou o jovem poeta da província, ainda cultor de rimas e métricas neoparnasianas, apresentando-lhe os concretos e os modernistas.  E deu conselho: "Vá para o Rio de Janeiro, pois é lá que as coisas acontecem."

Dois anos depois, José Salgado Santos aportava em terras cariocas, onde passaram a chamá-lo de Maranhão. Ele incorporou o apelido, e adotou o nome artístico de Salgado Maranhão. Estudou Comunicação na PUC - curso que não chegou a concluir. Gostava mesmo era de participar dos eventos de poesia. Certa noite, ao assistir a uma apresentação da Nuvem Cigana, invadiu o espaço e interpretou alguns poemas seus. O poeta e compositor Júlio Barroso, que viu a apresentação, convidou-o para escrever na revista Música do Planeta Terra. Assim, Salgado Maranhão começou a ficar conhecido nos meios culturais da cidade. Em 1978, organizou, com Sérgio Natureza e Antônio Carlos Miguel, a antologia Ebulição da escrivatura, publicada pela editora Civilização Brasileira. Ao ler o livro, Paulinho da Viola lhe propôs uma parceria musical. Abria-se uma nova porta para sua poesia: Salgado Maranhão compôs mais de 100 músicas com Paulinho da Viola, Xangai, Ivan Lins, Vital Farias, Elton Medeiros e outros.

Ainda na faculdade, um padre jesuíta o apresentou à cultura oriental. Salgado Maranhão largou os estudos e foi aprender Tai chi chuan. Começou a dar aulas e se tornou massagista e terapeuta corporal.

O poeta recebeu o prêmio Ribeiro Couto de 1998, com O beijo da fera, e o prêmio Jabuti, de 199, com Mural de ventos. Para Jorge Wanderley "a palavra, na poesia de Salgado Maranhão, olha para suas companheiras, dialoga com suas anatomias de vizinhança, no interior mesmo de um discurso nobre e atento à sua elegante e marcada altitude". Olga Savary acrescenta: "Trata-se de um grande poeta e de um príncipe como pessoa. A mesma elegância como ser humano está presente em sua poesia."

1953, Nasce no dia 13 de novembro, em Caxias - MA.


"Salgado é um franco-atirador em meio aos cultores das dietas pós-concretas, frugalíssimas em matéria de aventura imagística."
Geraldo Carneiro

"Salgado Maranhão capta e nos revela, numa simples cicatriz, o próprio combate dos deuses."
Carlito Azevedo



PALAVRA

a palavra coexiste no dilúvio
ao açoite do sangue nas pedras.
a palavra é a pedra - e o arquétipo
que dança.
e o tempo do fogo flama
e a memória das águaslavras
en/canto e plenilúnio.

a palavra lavra o tempo
naja imaginária
submersa no invisível mar,
godiva do cais dos loucos
deusa do silêncio.

a palavra em si é cio
virtude
          a divertir em si é cio
virtude
          a divertir o vício
de saber saber.


Obras do autor
POESIA: punhos de serpente, 1989; Palávora, 1995; O beijo da fera, 1996; Mural de ventos, 1998.
ANTOLOGIA: Ebulição da escrivatura, 1978.



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Adriano Espínola

Adriano Espínola
"treme a noite com suas estrela pulsando solidão à distância"


Com 16 anos, Adriano Alcides Espínola participou de um festival intercolegial de poesia. Como prêmio, ganhou livros, inclusive Tijolo de barro, do cearense Horácio Dídimo, um dos seus primeiros heróis literários. Depois, vieram Oswald e Mário, Drummond e Bandeira, Whitman e Maiakovski, mais os cordelistas do Nordeste e o pessoal de sua geração: "Minha poesia resulta da obra de todos estes poetas, os quais, junto com as precárias percepção/experiências que pude ter das coisas, me ajudaram a encontrar meu ritmo, que é vário, e a escrever alguns versos toleráveis."

Adriano Espínola, um dos fundadores, em 1979, do grupo literário Siriará, vê a poesia como "linguagem em estado de aventura, não obstante revelar-se a mais humilde das artes". Em 1989, já com quatro livros publicados, obteve o título de mestre em Poética pela UFRJ. Convidado para lecionar Literatura e Cultura Brasileira na Universidade Stendhal-Grenoble III, na França, só retornou ao Brasil em 1992, para morar novamente em Fortaleza. No mesmo ano, publicou uma série de crônicas no jornal O Povo e teve o livro-poema Táxi lançado na coleção World literature in translation, da Garland Publishing, em Nova York e Londres.

O lirismo, o apuro formal e o conteúdo humanístico são marcas da poesia de Adriano Espínola. Em sua obra, o poema surge da memória visual de algo concreto ou de uma sensação que perdura: "Então vem o duro trabalho de fazer e refazer, cortar e acrescentar palavras e versos". Mas existem os poemas que surgem praticamente prontos, "pequenos pássaros verbais, difíceis e raros, que já nascem cantando - eu tive a sorte de encontrar alguns".

1952, nasce no dia 1. de março, em Fortaleza - CE


"Tenho, enfim, mil razões para não ser poeta e uma só para sê-lo. É esta que me salva. Escrevo por um fio."

"Momento de intenso prazer: a construção do poema, seu desabrochar semântico/rítmico. Tudo entre parênteses - o mundo desabando - e, você (que é outro) ali firme, compondo o poema que tem que acabar, por cima de pau e pedra. Essa felicidade criadora, entretanto, busca obsessivamente seu fim, ao querer concluí-lo logo, arredondá-lo. Em seguida, faço o movimento contrário. Trato de esquecê-lo na gaveta, para retomá-lo um dia ou, quem sabe, anos depois."
(Adriano Espínola)

"Adriano Espínola é um mestre no verso livre. Os intertextos são frequentes, em especial a alusão a autores brasileiros e estrangeiros, destacando-se Rimbaud, com o desregramento de todos os sentidos."
(César Leal)


A RENDEIRA

Na teia da manhã que se desvela,
a rendeira compõe seu labirinto,
movendo sem saber e por instinto
a rede dos instantes numa tela.
Ponto a ponto, paciente, tenta ela
traçar no branco linho mais distinto
a trama de um desenho tão sucinto,
como a jornada humana se revela.
Em frente, o mar desfia a eternidade
noutra tela de espuma e esquecimento,
enquanto, entrelaçado, o pensamento
costura sobre o sonho a realidade.
Em que perdida tela mais extrema
foi tecida a rendeira a este poema?...

Obras do autor
POESIA: Fala, favela, 1981; O lote clandestino, 1982; Trapézio, 1984; Táxi ou poema de amor passageiro, 1986; Metrô, ou viagem até a última estação possível, 1993; Em trânsito, 1996; Beira-Sol, 1997.
ENSAIO: As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregório de Mattos, 2000.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

domingo, 3 de setembro de 2017

Adélia Prado

Adélia Prado
"De vez em quando Deus me tira a poesia
Olho pedra, vejo pedra mesmo."

Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em Divinópolis, interior de Minas Gerais, onde estudou, tornou-se professora, casou e teve cinco filhos. É dessa vida aparentemente rotineira que ela tira sua poesia. Escreveu os primeiros poemas aos 14 anos, sob o impacto da morte da mãe, concebidos segundo os modelos clássicos de versificação. A leitura da Bíblia e de grandes autores, como Alphonsus de Guimaraens, Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, marcaram a sua formação. "Quando eu li o verso livre de Drummond, eu disse "Meu Deus, a gente pode escrever desse jeito, isso é poesia...".

A poetisa começou a lecionar em 1955, se casou com José de Freitas em 1958, e sete anos mais tarde, mãe de quatro filhos (a mais nova nasceria em 1966), decidiu estudar Filosofia. Na época de sua formatura, e desta vez profundamente marcada pela morte do pai, ocorrida em 1972, passou a elaborar a poesia que serviu de base para seu primeiro livro.

Em 1973, enviou alguns poemas para apreciação do poeta Affonso Romano de Sant' Anna  que, por sua vez, os mostrou a Carlos Drummond de Andrade. Drummond sugeriu a um editor a publicação dos originais, que vieram a compor Bagagem, de 1976. Como ressalta o ensaísta Antônio Hohlfeldt, "o que surpreendeu, desde logo, é que não se tratava de um livro de estreante, mas de alguém que dominava completamente a linguagem poética". Aos 40 anos, Adélia estreava no meio literário.

Seu segundo livro, O coração disparado, ganhou o prêmio Jabuti de 1978, e no ano seguinte Adélia lançou Solte os cachorros, seu primeiro texto em prosa. Nesta época decidiu abandonar definitivamente o magistério, e em 1983, assumiu a Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Divinópolis, onde permaneceu por cinco anos.

A montagem de Dona doida: um interlúdio, espetáculo teatral dirigido por Naum Alves de SOuza e protagonizado por Fernanda Montenegro, em 1987, consagrou o nome de Adélia Prado, tornando-a conhecida em todo o país. Sem abrir mão do ritmo pacato do interior mineiro, a poetisa viu sua obra ser adaptada para o teatro, foi tema de um volume considerável de dissertações e teses universitárias, e tem participado de congressos nacionais e internacionais, apesar do seu proverbial medo de avião.

A poesia de Adélia Prado, carregada de religiosidade e erotismo, é fonte de inspiração para diversos autores contemporâneos. Nela, o mistério da criação se revela nas coisas simples da vida: "Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando. O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você."


1935, nasce no dia 13 de dezembro, em Divinópolis - MG


"A poesia não se esgota; quem se esgota sou eu, no tempo, ou pela morte, ou pela falta de talento. Ou seja, você precisa ter poemas novos para falar daquela experiência. A poesia é vida pura, é Eros."
(Adélia Prado)

"Não, não fui eu quem descobriu Adélia Prado, nem Drummond, nem (o editor) Pedro Paulo de Sena Madureira. Ela se revelou, se desvelou, teve coragem de ir à raiz do ser para desencravar sua linguagem. Apenas facilitamos sua passagem."
(Affonso Romano de Sant´Anna)

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita e só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher à beira-da-linha?"
(Trecho de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade)


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro um beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alaegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem
Mulher é desdobrável. Eu sou.


O poeta ficou cansado

Pois não quero mais der Teu arauto.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares,
já que Tua voz reboa
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na terra
e insistes em caixeiros-viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras.


Obras da autora
POESIA: Bagagem, 1976; O coração disparado, 1978; Terra de Santa Cruz, 1981; O pelicano, 1987; A faca no peito, 1988; Poesia reunida, 1999; Oráculos de maio, 1999.

PROSA: Solte os cachorros, 1979; Cacos para um vitral, 1980; Componentes da banda, 1984; O homem da mão seca, 1994; Manuscritos de Felipa, 1999; Prosa reunida, 1999.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - Volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

domingo, 27 de agosto de 2017

Milton Hatoum - A cidade ilhada

Milton Hatoum - A cidade ilhada


Um primor o livro A cidade ilhada, de Milton Hatoum.

A cada conto, uma grata surpresa.

Os detalhes sempre precisos do ambiente a que se passou a história, como também as reflexões ao meio a que pertence a mesma expondo todo o entrelaçamento dos conflitos na elaboração dos personagens.

No conto "Uma carta de Bancroft" o autor faz uma referência a Euclides da Cunha, em passagem de carta escrita pelo próprio, certamente uma sincera homenagem ao autor.

"Varandas da Eva", a primeira ida a um bordel. Quanta leveza de detalhes para o tema.

"Uma estrangeira da nossa rua", relato de um amor platônico na juventude.

Intrigante saber que o livro é baseado na biografia pessoal do autor que escreve com maestria os acertos e fracassos das possibilidades que a vida se apresenta em inusitadas situações cotidianas.

A cidade ilhada : contos / Milton Hatoum. - 1a. ed. - São Paulo : Companhia de Bolso, 2014.

Sumário
Varandas da Eva
Uma estrangeira da nossa rua
Uma carta de Bancroft
Um oriental na vastidão
Dois poetas da província
O adeus do comandante
Manaus, Bombaim, Palo Alto
Dois tempos
A casa ilhada
Bárbara no inverno (vida de exilados)
A ninfa do teatro Amazonas
A natureza ti da cultura
Encontros na península
Dançarinos na última noite

domingo, 4 de junho de 2017

quarta-feira, 12 de abril de 2017

D. H. Lawrence



D. H. Lawrence
1885 - Em 11 de setembro, em Eastwood, Inglaterra, nasce David Herbert Lawrence.
1897 - David é admitido na escola secundária de Norttingham.
1902 - Deixa a escola e arruma um emprego de escriturário.
           Torna-se amigo de Jessie Chambers.
           Escreve os primeiros poemas.
1905 - Passa nos exames de admissão à Universidade de Nottingham.
           Começa a escrever seu primeiro romance: Pavão Branco.
1909 - A revista English Review publica alguns poemas de Lawrence.
1910 - Em 9 de dezembro morre sua mãe, Lydia Lawrence.
1911 - Em janeiro é publicado O Pavão Branco.
1912 - Conhece Frieda von Richthofen, esposa de seu ex-professor de francês.
           Lawrence parte com Frieda para a Alsácia-Lorena; depois vão para a Itália.
1913 - É publicado O Intruso.
            Lawrence termina de escrever Filhos e Amantes e inicia outro romance: Crepúsculo na Itália.
1914 - Lawrence e Frieda partem para Londres, onde se casam.
           Começa a trabalhar no romance que daria origem a Mulheres Apaixonadas (*).
1916 - É publicado Crepúsculo na Itália.
1917 - Lawrence e Frieda são expulsos da Cornualha sob suspeita de espionagem.
1919 - Com apenas 20 libras no bolso, Lawrence parte com Frieda para a Itália.
1920-21 - Lawrence escreve duas coleções de poemas, vários contos e o romance O Mar e a Sardenha.
1922 - Lawrence e a mulher viajam para o Ceilão e depois para a Austrália.
1923 - Escreve Canguru.
           Viaja para os Estados Unidos e depois para o México, onde fixa residência.
1925 - Começa a escrever Ternura, título que mais tarde seria mudado para O Amante de Lady Chatterley.
            Passa a dedicar-se à pintura.
1926 - Escreve A Serpente Emplumada.
1927 - Visita a região da Toscana.
            Com problemas de saúde, vai para a Suíça e depois para a Alemanha a fim de se tratar.
1928 - Publicado em Florença o romance O Amante de Lady Chatterley.
            Em Londres é realizada uma exposição de seus quadros.
1929 - Viaja com Frieda para Paris.
            Agrava-se seu estado de saúde.
1930 - Morre em Vence, França, no dia 2 de março, vítima de uma meningite tuberculosa.


(*) Mulheres Apaixonadas
Um dos maiores prosadores da língua inglesa, Lawrence foi o primeiro escritor da Inglaterra a tratar da sexualidade com franqueza. Em Mulheres Apaixonadas, descreve a relação amorosa de dois amigos, Birkin e Gerald, com duas irmãs, Úrsula e Gudrun, na Inglaterra industrial das primeiras décadas do século XX.


Eastwood, perto de Nottingham, parecia mais uma aldeia do que uma cidade. Uma cidade de onde se extraía carvão havia séculos. No entanto, as minas eram quase um acidente na paisagem embelezada pelo arenito de cor viva, pelos carvalhos da floresta do lendário Robin Hood, pelas austeras colinas de calcário da província do Derbyshire.

Num dia qualquer, na segunda metade do século XIX, chegaram os capitalistas e as estradas de ferro. E o cenário aos poucos foi se modificando. Emprego não faltava, e os ganhos chegavam a ultrapassar as necessidades. Mas os homens de Eastwood não davam muita importância ao salário. Na verdade, desprezavam o dinheiro e as responsabilidades domésticas. Como desprezavam a claridade da superfície. Gostavam daquela vida, da camaradagem que os unia nos poços e se prolongava após o trabalho, no bar onde se sentavam para beber e conversar. Seu mundo era apenas aquilo: amizade, trabalho e um suor quase sempre negro. Depois vinha o resto: as mulheres e os filhos.

Na casa da família Lawrence viviam o casal e os cinco filhos. A mãe, uma ex-professora muito refinada, esforçava-se para dar aos filhos uma vida melhor. O pai era um homem rude, que as crianças quase não viam.

Nascido em 11 de setembro de 1885 David Herbert cresceu em um ambiente de conflitos e constante tensão entre os pais. Aos doze anos o menino foi admitido na escola secundária de Nottingham, depois de ganhar uma bosa de estudos. Não decepcionou: foi premiado em matemática, francês e alemão. Mais tarde passaria a dominar também o italiano e o espanhol.

Cinco anos depois deixou a escola e foi trabalhar como escriturário. Três meses mais tarde, acometido de uma grave pneumonia - que lhe arruinaria a saúde para o resto da vida -, teve de abandonar o emprego. Durante a convalescença começou a escrever poemas e conheceu Jessie Chambers, com quem manteria grande amizade. A jovem morava em  uma fazenda a poucos quilômetros da casa dos Lawrence. David a visitava com frequência e, além de lhe dar aulas de álgebra e francês, lia seus versos para ela.

Em 1902 tornou-se mestre-escola, e durante três anos lecionou para os filhos dos mineiros. Sua amizade com Jessie tornava-se cada vez mais sólida: com ela aprendeu a pintar e a tocar piano. Essa ligação quase platônica talvez lhe tenha aprimorado o espírito e aguçado a sensibilidade. Começou então a ler os grandes poetas: Baudelaire, Shakespeare, Cervantes, Maupassant.

Em 1905 passou nos exames para ingressar na Universidade de Nottingham, mas apenas a frequentaria no ano seguinte. Enquanto esperava começou a escrever O Pavão Branco, o primeiro romance. Absorvido por suas atividades didáticas, logo interrompeu o trabalho.

Ao deixar a universidade, em 1908, hesitou antes de decidir se aceitaria um posto na escola primária de Croydon. Sua mãe e Jessie censuram-no: não o queriam muito distante. Sem lhes dar ouvidos, partiu. A princípio seus métodos de ensino foram mal acolhidos, mas os bons resultados forçaram os superiores a admiti-los. Conquistada a confiança e a admiração de seus colegas, Lawrence encontrou a tranquilidade e o tempo necessários para retomar a literatura. Escreveu vários poemas e voltou a trabalhar na composição de O Pavão Branco.

Jessie não esqueceu o amigo. Ao contrário: ainda nesse ano de 1908 enviou alguns de seus poemas ao diretor da English Review. Em novembro de 1909 os versos foram publicados na revista, e Lawrence foi introduzido nos círculos literários de Londres. No ano seguinte a revista publicou um novo conjunto de poemas do jovem autor. E distante, muito distante de seu filho, a sra. Lydia Lawrence morreu de câncer no dia 9 de dezembro de 1910. As coisas agora tomavam novos rumos: em janeiro de 1911 foi publicado O Pavão Branco. Com esse livro, Lawrence conquistou os primeiros admiradores: George Eliot e Thomas Hardy. As dificuldades também começaram a surgir: algumas situações apresentadas no romance acarretaram-lhe a ameaça de  um processo por difamação. Sem se intimidar, continuou a escrever. Dessa vez a incomunicabilidade e a falta de calor entre as pessoas eram o tema de O Intruso, publicado em 1913. Entretanto seu espírito dinâmico o impedia a partir para outras terras, a conhecer novos ambientes.
Em 6 de abril de 1912 foi convidado a jantar na casa de Ernest Weekley, um ex-professor de francês, e aí conheceu Frieda von Richthofen, esposa do meste e mãe de três crianças. Entre conversas amenas e olhares sutis, Frieda e Lawrence enamoraram-se. Menos de um mês depois partiram juntos para Metz, na Alsácia-Lorena, onde o pai de Frieda era barão-governador de uma região militar. Na bagagem, além do manuscrito de Filhos e Amantes, Lawrence levava também um pouco de esperança e um pouco de angústia. Depois de uma entrevista tempestuosa com os pais de Frieda, o escritor acabou sendo aceito. Mas não se sentia à vontade ali e partiu com a mulher para a Itália, onde viveram por seis meses. Aí Lawrence terminou Filhos e Amantes e começou a escrever Crepúsculo na Itália.

A crítica teceu elogios a Filhos e Amantes, mas o público a censurou violentamente. Aliás as censuras acompanharam a vida literária de Lawrence, inúmeras vezes acusado de imoral e de pornográfico. Impassível, ele continuou denunciando o puritanismo falso e hipócrita da sociedade inglesa de seu tempo.

Em julho de 1914 - depois de receberem a notícia de que Weekley concedera o divórcio - Lawrence e Frieda partiram para Londres, onde se casaram no mês seguinte. Logo o romancista começou a trabalhar em As Irmãs - projeto que depois evoluiu para duas grandes obras: O Arco-íris e Mulheres Apaixonadas. Mas a guerra explodiu antes que os romances fossem publicados. Para Lawrence, o conflito representou um longo período de humilhação. Por ser alemã, Frieda foi posta sob vigilância e o casal decidiu refugiar-se no campo. Sem recursos, o escritor tentou colaborar na Times, mas não conseguiu. A publicação de Crepúsculo na Itália em 1916 foi um alívio para suas dificuldades financeiras. Em contrapartida, O Arco-íris, editado em 1915, foi censurado e apreendido alguns meses depois.

Os ganhos com a publicação dos livros Amores, em 1916, e Look! We Have Come Through - Olhe! Conseguimos, - em 1917, não foram suficientes para melhorar sua vida.

Para agravar a situação, no fim de 1917 o casal foi expulso da Cornualha sob suspeita de espionagem. Lawrence e Frieda seguiram então para Londres, onde formaram uma comunidade de amigos.
Ao fim da guerra, Lawrence e Frieda deixaram Londres, com 20 libras oferecidas por um amigo. Em novembro de 1919, alimentados de novas esperanças, desembarcaram na Itália. Seguiram para a Sicília e instalaram-se numa fazenda, onde permaneceram por dois anos, intercalados por uma longa viagem à Alemanda, Áustria e Itália, entre abril e setembro de 1921.

Esse foi um período fecundo: Lawrence escreveu duas coleções de poemas - Birds, Beasts and Flowers - Pássaros, Animais e Flores - e Tortoises -, vários contos e o romance Sea and Sardinia - O Mar e a Sardenha - inspirado numa rápida viagem. A Oxford Universty Press, interessada nas teorias do escritor, encomendou-lhe um ensaio sobre a evolução histórica da Eurpean History - Movimentos na História Européia -, trabalho assinado por Lawrence H. Davidson. O escritor ocultava-se sob pseudônimo por ressentir-se ainda da violenta reação da crítica contra Mulheres Apaixonadas. Concluída durante a estada do escritor na Cornualha, a obra foi rejeitada por vários editores ingleses, até finalmente ser impressa nos Estados Unidos em 1921.

Provocou um escândalo na Inglaterra e recebeu os adjetivos mais desairosos. Sem conseguir compreender as teses de Lawrence, os críticos o atacavam. Aos poucos, porém, foram silenciando. E a calmaria que se seguiu à tempestade de censuras propiciou o lançamento, em 1922, de A Vara de Araão.
Lawrence começou a voltar-se para a literatura americana. Quando planejava uma viagem aos Estados Unidos, recebeu um convite da milionária Mabel Dodge-Luban para passar uma temporada no Novo México. Todavia, uma crise de bronquite o impediu de aproveitar a oportunidade.

No início de 1922, já restabelecido, partiu com Frieda para o Ceilão. Algum tempo depois passaria uma curta temporada na Austrália. Em seguida viveu com Frieda num aglomerado de mineiros em Nova Gales do Sul. Nessa época instalou-se às margens do lago Chapala, nas proximidades de Guadalajara, México, onde escreveu A Serpente Emplumada, que só seria publicada em 1926.

O México vivia uma época de convulsões políticas, e Frieda, apavorada com a violência geral, suplicou-lhe que voltassem à inglaterra. Lawrence acabou cedendo. Em Nova York, já arrependido, mandou a mulher continuar a viagem sozinha. Enviou alguns artigos e ensaios para a revista Adelphi e voltou para Jalisco, no México.

Frieda escrevia-lhe incesssantemente, pedindo-lhe que fosse ao seu encontro. A força do amor foi grande, e ele retornou à Inglaterra, onde escreveu St. Mawr e outros Contos, The Woman who Rode Away - A Fugitiva - e Reflections on the Death of a Porcupine - Reflexões sobre a Morte de um Porco-Espinho -, todas publicadas no decorrer de 1925.

Em fins de 1925, sob o título de Tenderness - Ternura - , Lawrence iniciou na Itália o romance O Amante de Lady Chatterley. A obra não absorvia todo o interesse de Lawrence, que, nessa época, estava se dedicando à pintura e começando a executar uma série de quadros, mais tarde expostos em Londres.

Por problemas de saúde, seu trabalho começou a ser interrompido com frequência. Em abril de 1927, quando visitava a Toscana, uma nova e mais grave recaída o obrigou a emigrar para a Suíça e para a Alemanha, onde alguns  médicos consideravam irreversível a sua situação.

Sem se abater, em outubro retornou a Florença e trabalhou duramente em Tenderness, agora denominado John Thomas e Lady Jane, título propositadamente provocativo, já que na tradição popular inglesa esses nomes designam os órgãos sexuais do homem e da mulher. A ideia evoluiu e o romance finalmente recebeu o título definitivo: O Amante de Lady Chatterley, publicado em Florença em 1928.

O Amante de Lady Chatterley trata da relação entre um homem e uma mulher. O livro foi acusado de inverossímil, mas, na verdade, conta a própria história da vida de Lawrence com Frieda. A imprensa não poupou severas críticas: "esgoto da pornografia francesa", "o livro mais sujo da literatura inglesa". O governo britânico imediatamente proibiu na Inglaterra, e durante 32 anos manteve a proibição.

O romance, contudo, circulava às escondidas, e da forma que Lawrence mais deplorava: era visto e lido de uma maneira que tornava o sexo um assunto furtivo, proibido, ou uma brincadeira efêmera. O verdadeiro sentido de seu pensamento - a busca da pureza primitiva, que faz de O Amante de Lady Chatterley um dos maiores romances ingleses - durante muito tempo passou despercebido da crítica e do público.

Em 1928 Lawrence estava com tuberculose. Angustiado via multiplicarem-se, à sua revelia, as edições espúrias de seu último romance com o texto adulterado.

Inquieto com o alarmante estado de saúde do escritor, o amigo Richard Aldington, também escritor, levou-o para a ilha de Port-Gross. Aí Lawrence escreveu artigos, notas e comentários para os jornais, aproveitando o escândalo e a consequente curiosidade suscitada pelo livro.
Em 1929 viajou para Paris e hospedou-se na casa do escritor e amigo Aldous Huxley. Trabalhando duro, ainda conseguiu publicar uma edição popular e integral do romance. Em abril viajou para a Espanha. Enquanto isso sua exposição de pintura fazia sucesso em Londres, a despeito de a imprensa considerá-la "o maior insulto jamais feito ao público londrino".

Depois de passar quinze dias na Ligúria com Hurley, Lawrence partir para Florença, onde foi acometido de uma violenta hemoptise. Atendendo aos apelos de Frieda, procurou um médico, que o aconselhou a fazer um tratamento no sanatório de Vence, na França.

Certo de que logo se restabeleceria, escreveu a todos os amigos anunciando sua alta. Foi um desfile de visitas na casa em que  Huxley o acomodou juntamente com Frieda, em uma vila de Vence.
Os dias arrastaram-se tristemente para Lawrence. Ele precisava levantar-se do leiro e caminhar, sentir o ar puro, ver pessoas. Dar a mão a Frieda e com ela conversar longamente. Tudo isso ele fez. Até ser acometido por uma fatal meningite tuberculosa.

O olhar de Lawrence estava fixado em sua companheira. Talvez Frieda quisesse dizer alguma coisa. Mas não havia tempo para mais nada. Huxley aproximou-se e fechou os olhos do amigo. Frieda foi até a janela para contemplar o que restou da paisagem. Era o dia 2 de março de 1930. David Herbert Lawrence tinha pouco mais de 44 anos.




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