sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Antonio Carlos Secchin


Antonio Carlos Secchin

O dia. Arcos da manhã
em nuvem. Riscos de luz
como vidros arriados.

Antonio Carlos Secchin morou em Cachoeiro de Itapemirim até 1959, ano em que sua família mudou-se para o Rio de Janeiro. Os primeiros poemas foram escritos aos 13 anos de idade, inspirados pela leitura assídua de Drummond, Bandeira e Pessoa. Quatro anos depois, ganhou menção honrosa em um concurso de poesia e ingressou na Faculdade de Letras da UFRJ, onde fez mestrado e doutorado, para, em 1992, tornar-se professor titular de literatura brasileira.

Sobre seu livro de estréia, Ária de estação, José Guilherme Merquior comentou: "Em Antonio Carlos Secchin já começa a boa poesia, a bem dizer, ainda indecisa entre a imaginação do símbolo e a verdade alegórica da geração de 70."

Secchin viveu quatro anos em Bordeaux, onde lecionou cultura e literatura brasileira. Em 1983, já de volta do Brasil, publicou o segundo livro de poesia, Elementos, que mereceu o seguinte comentário de Benedito Nunes: "A palavra poética, já não mais um elemento de integração órfica, é corruptora da linguagem: arruina-se até a anulação do significado no silêncio."

Com seu primeiro livro de ensaios, João Cabral: a poesia do menos, Antonio Carlos Secchin conquistou três prêmios, e um comentário elogioso e críticos que já se debruçaram sobre a minha obra, destaco Antonio Carlos Secchin. Foi quem melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta." Este foi o primeiro de uma série de trabalhos sobre a produção poética contemporânea, que o poeta vêm publicando em grandes jornais brasileiros e do exterior.

Em 1996, Secchin reuniu artigos e ensaios diversos no volume Poesia e desordem, livro que Antônio Houaiss aponta como uma "preciosa visão de conjunto da literatura brasileira a partir de Bandeira e Drummond, com uma amorosa obsessão por Cabral e um espantoso senso crítico de equilíbrio para com a pululação de tendências, certezas, manifestações incruentas ou cruentas de 'verdadeiras' poesias - caos aparente que Secchin deslinda com serenidade".

1952, nasce no dia 10 de junho, no Rio de Janeiro.


"A possibilidade de negociar com as palavras as frestas de perturbação e mudança de que elas e nós necessitamos continuarmos vivos: a isso dá-se o nome de estilo."
                                               
                                                                                    Antonio Carlos Secchin



"A crítica literária do autor encontra-se instrumentada não apenas por um esplêndido domínio verbl, como sublinha Antônio Houaiss, mas também pelo pleno conhecimento da matéria de que se ocupa, bem como por um outro tempero, o humor."

                                        Ivan Junqueira


Noturno
           a Ricardo Thomé

Os reis de Copa
ostentam eretas
espadas mestras
em frente ao mar.
Transatlânticos desejos
encalhados na areia.
Dramas de paus
e valentes seios
expostos à carícia
de dólares e brisas.
Eis Lizbeth, ou João Batista,
ouro puro do subúrbio,
ex-ás do cais do porto,
atual contorcionista
do pescoço de pilotos
à procura de conquistas.
O seu rosto é reformado
por algum cirurgião-artista,
pois queixo, nariz e olhos
revelam influência cubista.
Passeiam pares de bicicletas
sob um céu abotoado de estrelas.

Na luz plástica dos postes
passam famintas pombas pretas.
Fome de tudo, em meio à neblina:
saliva, esperma, cocaína.
O bigode roça a nuca sôfrega.
E enquanto o corpo exala e treme
passa, ácida, a patrulha
de um insone PM.
O amor é de lei
ou desviado? Pouco importa;
só sabe celebrar
os rituais de Marte.
Mas frente a íma tão terreno
caos e lei se entredevoram
em cabine ao abrigo do sereno.
Ao guarda rapaz apraz, ao menos,
a ronda noturna no planeta Vênus.



Obras do autor

POESIA: Ária de estação, 1973; Elementos, 1983; Diga-se de passagem, 1988.

OUTRAS: Movimento (novela), 1975; João Cabral: a poesia do menos (ensaio), 1985; Antologia da poesia brasileira (org.), 1994; Poesia e desordem (ensaios), 1996.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Alexei Bueno

Alexei Bueno
Sem ti é falso o jardim velho, e fica o frio,
E fica o mármore, o feijão, o olhar vazio,
E a melhor frase que uma boca não falou.


Alexei Bueno escreveu seus primeiros versos aos 10 anos de idade. Foi um leitor precoce, mergulhado desde cedo nos escritores brasileiros da escola romântica e na obra dos grandes poetas portugueses. Depois veio a descoberta dos clássicos da poesia universal. Ao mesmo tempo, nutria uma especial admiração pela poética épica, dramática e lírica. Tantas leituras não traduzem necessariamente influências. Todavia, ele percebe claramente uma proximidade entre seus versos e o Simbolismo e o pós-simbolismo.

Criado em Copacabana, Alexei Bueno fez os estudos secundários no Colégio Santo Inácio. Aos 16 anos de idade, editou por conta própria seus primeiros versos: O tempo anoitecido. Foi o princípio de um longo caminho, até A via estreita, de 1995, escolhido melhor livro de poesia do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte, e contemplado com o prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional. No mesmo ano, foi hóspede do Palácio do Marquês da Fronteira, em Lisboa, recolhendo material para uma antologia da poesia portuguesa contemporânea. Apreentou seus poemas em recitais na Casa de Fernando Pessoa, no Palácio da Fronteira e na Biblioteca Caluste Gulbenkian.

Conforme observa Ivan Junqueira, suas fontes poe´ticas remontam à Grécia antiga: "Alexei Bueno revela-se poeta de um verso extrema e concisamente medido, e, mais do que isso, herdeiro do que deve aqui ser entendido como uma espécie de prolongamento dessa tradição poética que nos vem desde Homero (...), aquele continuum literário que se estende do século VI a.c. aos dias de hoje." Antônio Carlos Secchin, ao resenhar seu livro A juventude dos deuses, confirma: "Como a visão do frontispício de algum templo grego, que nos oferece a altura rejuvenescedora das mais antigas verdades, este livro é definitivamente dotado da força da verdadeira poesia."

Poeta, tradutor e editor, Alexei Bueno formou-se em Antropologia pela UFRJ, mas não exerce a profissão. É diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro, e conselheiro editorial da Nova Aguilar e da Lacerda Editores. Faz palestras em universidades, bibliotecas, encontros e congressos culturais, e tem colaborado periodicamente em vários dos principais jornais e revistas do país, além de escrever para a jornais e revistas literárias de Portugal, México, Estados Unidos e Venezuela.

1963, nasce no dia 26 de abril no Rio de Janeiro.


"O fenômeno claríssimo chamado de "inspiração", muito bem determinado pelos gregos, é sem dúvida verdadeiro. Por ele, que não passa de um momento de total concentração, consciente e inconsciente, de todas as reservas intelectuais e emocionais do indivíduo, é que se explica a eclosão da obra em determinado momento e não em outro, às vezes com períodos de condensação criadora ou soluções de continuidade espantosos. Mas estou falando do meu caso pessoal."
Alexei Bueno


"É no nível da linguagem metafórica, na rica tradição da imagem, 
que o poeta Alexei Bueno tem construído sua obra."
Assis Brasil



UM RISO

Ouvimos longe um riso. É das estátuas?
As brancas chamas pétreas e autofátuas?
Não, elas se mantêm, lápide e herma,
Com a alta boca homotérmica e enferma.

Ouvimo-la ainda. São hienas
Entrando em granjas e espalhando penas
Hilariantes pela dentadura?
Não, carnes não berram na noite escura.

Segue o riso. Serão os que olham o ouro
Como um comum metal, e põem do couro
Da língua baba azul e sons de prata?
Não, estes são só em p´ropria casamata.

Ainda riem. Serão talvez os cítricos
E verdes anciãos apocalípticos
De si mesmos, rangendo com emoção
Seus dias? Não, não têm recordação.

Riem, riem. Podem ser os astrônomos
Chupando os astros em gomos autônomos
De luz, pela boca branca dos cúmulos -
Nimbos! Não, eles só se acham em túmulos.

São as latas caindo? São os loucos?
São os porcos se emporcalhando aos poucos?
São na noite os penetras? São os joelhos
Dos fragelantes, sacros e vermelhos?

É Deus? Não, são, só os natimortos,
A rir, a rir, entre os dedinhos tortos
Gelando em baba e sangue contra o ar
DO haver, por não entrar, por não entrar!


Obras do autor

POESIA: O tempo anoitecido, 1979; As escadas da torre, 1984; Poemas gregos, 1985; Poesias, 1987; Nuctemeron, 1988: A decomposição de Johann Sebastian Bach, 1989; Magnificat, 1990; Lucernário, 1993; A via estreita, 1995; A juventude dos deuses, 1996; Entusiasmo, 1997; Em sonho, 1999.

ANTOLOGIA: A chama inextinguível, 1992.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - o Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes
fecha os olhos de dentro -
Acorda, esquecimento.

Arnaldo Antunes é poeta, músico, cantor, compositor e artista plástico. Surgiu em 1982, com o grupo de rock Titãs, no qual ficou por 10 anos - período em que lançou três livros de poemas. O primeiro CD solo, Nome, veio acompanhado de livro e vídeo, revelando as múltiplas trilhas que seguiria em sua carreira.

Em Arnaldo, a poesia assume uma linguagem pop, que tem a ver com o ritmo da grande metrópole. Ele explora as sonoridades de cada vocábulo, faz da própria letra impressa parte integrante do poema, trabalha as linhas e os espaços em branco da página. A poética de Antunes guarda proximidade com a obra do curitibano Paulo Leminski, porém suas raízes mais profundas estão no concretismo. Nos artigos "Derme/verme" (1991) e "Poesia Concreta" (1994), publicados em jornais de São Paulo, defendeu Augusto de Campos em sua polêmica com os poetas Bruno Tolentino e Régis Bonvicino.

Charles A. Perrone escreve sobre o trabalho do ex-titã: "Há na safra dos nascidos em 60 um nome mais que sobressaliente: Arnaldo Antunes. A poesia dele passará o umbral do novo século." O poeta se autodefine com simplicidade: "Tenho intersecção a tudo o que eu acabo produzindo - música, artes plásticas, literatura -, que é o tato com a palavra em si: eu não faço música instrumental, eu faço canção; eu não faço artes plásticas, faço instalações de poesia visual."

1960, nasce no dia 2 de setembro, em São Paulo - SP.


Obras do autor
POESIA: Ou e, 1983; Psia, 1986; Tudos, 1990; As coisas, 1992; 2 ou + corpos no mesmo espaço, 1996.
ARTIGO: 40 escritos, 2000.
DISCOS SOLO: Nome, 1993; Ninguém, 1995; O silêncio, 1996; Um som, 1998.


"Assim como a gente tem recursos de entonação com a fala, queria criar um similar de entonação gráfica."
"Nem só na poesia há poesia."
                                                                                       Arnaldo Antunes


INFERNO

Aqui a asa não sai do casulo, o azul
não sai da treva, a terra
não semeia, o sêmen
não sai do escroto, o esgoto
não corre, não jorra
a fonte, a ponte
devolve ao mesmo lado, o galo
cala, não canta a sereia, a ave
não gorgeia, o joio
devora o trigo, o verbo envenena
o mito, o vento
não acena o lenço, o tempo
não passa mais, adia,
a paz entedia, pára
o mar, sem maremoto,
como uma foto, a vida,
sem saída, aqui,
se apaga a lua, acaba
e continua.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Salgado Maranhão

Salgado Maranhão
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto

José Salgado Santos é o caçula entre seis irmãos - sendo quatro mulheres. Quando tinha 16 anos, emigrou com a família para Teresina, onde fez o curso secundário. Um dia, na biblioteca pública, descobriu Fernando Pessoa, e a poesia entrou definitivamente em sua vida. Depois, vieram as leituras de Maiakovski, João Cabral, Drummond, Joaquim Cardozo, Cecília Meireles e Murilo Mendes, "poetas inquestionáveis em qualquer idioma".

Em 1971, com 18 aos, trabalhava no jornal O Dia, de Teresina, quando recebeu a incubência de entrevistar Torquato Neto numa de suas visitas à cidade. Torquato apadrinhou o jovem poeta da província, ainda cultor de rimas e métricas neoparnasianas, apresentando-lhe os concretos e os modernistas.  E deu conselho: "Vá para o Rio de Janeiro, pois é lá que as coisas acontecem."

Dois anos depois, José Salgado Santos aportava em terras cariocas, onde passaram a chamá-lo de Maranhão. Ele incorporou o apelido, e adotou o nome artístico de Salgado Maranhão. Estudou Comunicação na PUC - curso que não chegou a concluir. Gostava mesmo era de participar dos eventos de poesia. Certa noite, ao assistir a uma apresentação da Nuvem Cigana, invadiu o espaço e interpretou alguns poemas seus. O poeta e compositor Júlio Barroso, que viu a apresentação, convidou-o para escrever na revista Música do Planeta Terra. Assim, Salgado Maranhão começou a ficar conhecido nos meios culturais da cidade. Em 1978, organizou, com Sérgio Natureza e Antônio Carlos Miguel, a antologia Ebulição da escrivatura, publicada pela editora Civilização Brasileira. Ao ler o livro, Paulinho da Viola lhe propôs uma parceria musical. Abria-se uma nova porta para sua poesia: Salgado Maranhão compôs mais de 100 músicas com Paulinho da Viola, Xangai, Ivan Lins, Vital Farias, Elton Medeiros e outros.

Ainda na faculdade, um padre jesuíta o apresentou à cultura oriental. Salgado Maranhão largou os estudos e foi aprender Tai chi chuan. Começou a dar aulas e se tornou massagista e terapeuta corporal.

O poeta recebeu o prêmio Ribeiro Couto de 1998, com O beijo da fera, e o prêmio Jabuti, de 199, com Mural de ventos. Para Jorge Wanderley "a palavra, na poesia de Salgado Maranhão, olha para suas companheiras, dialoga com suas anatomias de vizinhança, no interior mesmo de um discurso nobre e atento à sua elegante e marcada altitude". Olga Savary acrescenta: "Trata-se de um grande poeta e de um príncipe como pessoa. A mesma elegância como ser humano está presente em sua poesia."

1953, Nasce no dia 13 de novembro, em Caxias - MA.


"Salgado é um franco-atirador em meio aos cultores das dietas pós-concretas, frugalíssimas em matéria de aventura imagística."
Geraldo Carneiro

"Salgado Maranhão capta e nos revela, numa simples cicatriz, o próprio combate dos deuses."
Carlito Azevedo



PALAVRA

a palavra coexiste no dilúvio
ao açoite do sangue nas pedras.
a palavra é a pedra - e o arquétipo
que dança.
e o tempo do fogo flama
e a memória das águaslavras
en/canto e plenilúnio.

a palavra lavra o tempo
naja imaginária
submersa no invisível mar,
godiva do cais dos loucos
deusa do silêncio.

a palavra em si é cio
virtude
          a divertir em si é cio
virtude
          a divertir o vício
de saber saber.


Obras do autor
POESIA: punhos de serpente, 1989; Palávora, 1995; O beijo da fera, 1996; Mural de ventos, 1998.
ANTOLOGIA: Ebulição da escrivatura, 1978.



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Adriano Espínola

Adriano Espínola
"treme a noite com suas estrela pulsando solidão à distância"


Com 16 anos, Adriano Alcides Espínola participou de um festival intercolegial de poesia. Como prêmio, ganhou livros, inclusive Tijolo de barro, do cearense Horácio Dídimo, um dos seus primeiros heróis literários. Depois, vieram Oswald e Mário, Drummond e Bandeira, Whitman e Maiakovski, mais os cordelistas do Nordeste e o pessoal de sua geração: "Minha poesia resulta da obra de todos estes poetas, os quais, junto com as precárias percepção/experiências que pude ter das coisas, me ajudaram a encontrar meu ritmo, que é vário, e a escrever alguns versos toleráveis."

Adriano Espínola, um dos fundadores, em 1979, do grupo literário Siriará, vê a poesia como "linguagem em estado de aventura, não obstante revelar-se a mais humilde das artes". Em 1989, já com quatro livros publicados, obteve o título de mestre em Poética pela UFRJ. Convidado para lecionar Literatura e Cultura Brasileira na Universidade Stendhal-Grenoble III, na França, só retornou ao Brasil em 1992, para morar novamente em Fortaleza. No mesmo ano, publicou uma série de crônicas no jornal O Povo e teve o livro-poema Táxi lançado na coleção World literature in translation, da Garland Publishing, em Nova York e Londres.

O lirismo, o apuro formal e o conteúdo humanístico são marcas da poesia de Adriano Espínola. Em sua obra, o poema surge da memória visual de algo concreto ou de uma sensação que perdura: "Então vem o duro trabalho de fazer e refazer, cortar e acrescentar palavras e versos". Mas existem os poemas que surgem praticamente prontos, "pequenos pássaros verbais, difíceis e raros, que já nascem cantando - eu tive a sorte de encontrar alguns".

1952, nasce no dia 1. de março, em Fortaleza - CE


"Tenho, enfim, mil razões para não ser poeta e uma só para sê-lo. É esta que me salva. Escrevo por um fio."

"Momento de intenso prazer: a construção do poema, seu desabrochar semântico/rítmico. Tudo entre parênteses - o mundo desabando - e, você (que é outro) ali firme, compondo o poema que tem que acabar, por cima de pau e pedra. Essa felicidade criadora, entretanto, busca obsessivamente seu fim, ao querer concluí-lo logo, arredondá-lo. Em seguida, faço o movimento contrário. Trato de esquecê-lo na gaveta, para retomá-lo um dia ou, quem sabe, anos depois."
(Adriano Espínola)

"Adriano Espínola é um mestre no verso livre. Os intertextos são frequentes, em especial a alusão a autores brasileiros e estrangeiros, destacando-se Rimbaud, com o desregramento de todos os sentidos."
(César Leal)


A RENDEIRA

Na teia da manhã que se desvela,
a rendeira compõe seu labirinto,
movendo sem saber e por instinto
a rede dos instantes numa tela.
Ponto a ponto, paciente, tenta ela
traçar no branco linho mais distinto
a trama de um desenho tão sucinto,
como a jornada humana se revela.
Em frente, o mar desfia a eternidade
noutra tela de espuma e esquecimento,
enquanto, entrelaçado, o pensamento
costura sobre o sonho a realidade.
Em que perdida tela mais extrema
foi tecida a rendeira a este poema?...

Obras do autor
POESIA: Fala, favela, 1981; O lote clandestino, 1982; Trapézio, 1984; Táxi ou poema de amor passageiro, 1986; Metrô, ou viagem até a última estação possível, 1993; Em trânsito, 1996; Beira-Sol, 1997.
ENSAIO: As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregório de Mattos, 2000.

Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

domingo, 3 de setembro de 2017

Adélia Prado

Adélia Prado
"De vez em quando Deus me tira a poesia
Olho pedra, vejo pedra mesmo."

Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em Divinópolis, interior de Minas Gerais, onde estudou, tornou-se professora, casou e teve cinco filhos. É dessa vida aparentemente rotineira que ela tira sua poesia. Escreveu os primeiros poemas aos 14 anos, sob o impacto da morte da mãe, concebidos segundo os modelos clássicos de versificação. A leitura da Bíblia e de grandes autores, como Alphonsus de Guimaraens, Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, marcaram a sua formação. "Quando eu li o verso livre de Drummond, eu disse "Meu Deus, a gente pode escrever desse jeito, isso é poesia...".

A poetisa começou a lecionar em 1955, se casou com José de Freitas em 1958, e sete anos mais tarde, mãe de quatro filhos (a mais nova nasceria em 1966), decidiu estudar Filosofia. Na época de sua formatura, e desta vez profundamente marcada pela morte do pai, ocorrida em 1972, passou a elaborar a poesia que serviu de base para seu primeiro livro.

Em 1973, enviou alguns poemas para apreciação do poeta Affonso Romano de Sant' Anna  que, por sua vez, os mostrou a Carlos Drummond de Andrade. Drummond sugeriu a um editor a publicação dos originais, que vieram a compor Bagagem, de 1976. Como ressalta o ensaísta Antônio Hohlfeldt, "o que surpreendeu, desde logo, é que não se tratava de um livro de estreante, mas de alguém que dominava completamente a linguagem poética". Aos 40 anos, Adélia estreava no meio literário.

Seu segundo livro, O coração disparado, ganhou o prêmio Jabuti de 1978, e no ano seguinte Adélia lançou Solte os cachorros, seu primeiro texto em prosa. Nesta época decidiu abandonar definitivamente o magistério, e em 1983, assumiu a Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Divinópolis, onde permaneceu por cinco anos.

A montagem de Dona doida: um interlúdio, espetáculo teatral dirigido por Naum Alves de SOuza e protagonizado por Fernanda Montenegro, em 1987, consagrou o nome de Adélia Prado, tornando-a conhecida em todo o país. Sem abrir mão do ritmo pacato do interior mineiro, a poetisa viu sua obra ser adaptada para o teatro, foi tema de um volume considerável de dissertações e teses universitárias, e tem participado de congressos nacionais e internacionais, apesar do seu proverbial medo de avião.

A poesia de Adélia Prado, carregada de religiosidade e erotismo, é fonte de inspiração para diversos autores contemporâneos. Nela, o mistério da criação se revela nas coisas simples da vida: "Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando. O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você."


1935, nasce no dia 13 de dezembro, em Divinópolis - MG


"A poesia não se esgota; quem se esgota sou eu, no tempo, ou pela morte, ou pela falta de talento. Ou seja, você precisa ter poemas novos para falar daquela experiência. A poesia é vida pura, é Eros."
(Adélia Prado)

"Não, não fui eu quem descobriu Adélia Prado, nem Drummond, nem (o editor) Pedro Paulo de Sena Madureira. Ela se revelou, se desvelou, teve coragem de ir à raiz do ser para desencravar sua linguagem. Apenas facilitamos sua passagem."
(Affonso Romano de Sant´Anna)

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita e só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher à beira-da-linha?"
(Trecho de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade)


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro um beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alaegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem
Mulher é desdobrável. Eu sou.


O poeta ficou cansado

Pois não quero mais der Teu arauto.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares,
já que Tua voz reboa
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na terra
e insistes em caixeiros-viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras.


Obras da autora
POESIA: Bagagem, 1976; O coração disparado, 1978; Terra de Santa Cruz, 1981; O pelicano, 1987; A faca no peito, 1988; Poesia reunida, 1999; Oráculos de maio, 1999.

PROSA: Solte os cachorros, 1979; Cacos para um vitral, 1980; Componentes da banda, 1984; O homem da mão seca, 1994; Manuscritos de Felipa, 1999; Prosa reunida, 1999.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - Volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

domingo, 27 de agosto de 2017

Milton Hatoum - A cidade ilhada

Milton Hatoum - A cidade ilhada


Um primor o livro A cidade ilhada, de Milton Hatoum.

A cada conto, uma grata surpresa.

Os detalhes sempre precisos do ambiente a que se passou a história, como também as reflexões ao meio a que pertence a mesma expondo todo o entrelaçamento dos conflitos na elaboração dos personagens.

No conto "Uma carta de Bancroft" o autor faz uma referência a Euclides da Cunha, em passagem de carta escrita pelo próprio, certamente uma sincera homenagem ao autor.

"Varandas da Eva", a primeira ida a um bordel. Quanta leveza de detalhes para o tema.

"Uma estrangeira da nossa rua", relato de um amor platônico na juventude.

Intrigante saber que o livro é baseado na biografia pessoal do autor que escreve com maestria os acertos e fracassos das possibilidades que a vida se apresenta em inusitadas situações cotidianas.

A cidade ilhada : contos / Milton Hatoum. - 1a. ed. - São Paulo : Companhia de Bolso, 2014.

Sumário
Varandas da Eva
Uma estrangeira da nossa rua
Uma carta de Bancroft
Um oriental na vastidão
Dois poetas da província
O adeus do comandante
Manaus, Bombaim, Palo Alto
Dois tempos
A casa ilhada
Bárbara no inverno (vida de exilados)
A ninfa do teatro Amazonas
A natureza ti da cultura
Encontros na península
Dançarinos na última noite

domingo, 4 de junho de 2017

quarta-feira, 12 de abril de 2017

D. H. Lawrence



D. H. Lawrence
1885 - Em 11 de setembro, em Eastwood, Inglaterra, nasce David Herbert Lawrence.
1897 - David é admitido na escola secundária de Norttingham.
1902 - Deixa a escola e arruma um emprego de escriturário.
           Torna-se amigo de Jessie Chambers.
           Escreve os primeiros poemas.
1905 - Passa nos exames de admissão à Universidade de Nottingham.
           Começa a escrever seu primeiro romance: Pavão Branco.
1909 - A revista English Review publica alguns poemas de Lawrence.
1910 - Em 9 de dezembro morre sua mãe, Lydia Lawrence.
1911 - Em janeiro é publicado O Pavão Branco.
1912 - Conhece Frieda von Richthofen, esposa de seu ex-professor de francês.
           Lawrence parte com Frieda para a Alsácia-Lorena; depois vão para a Itália.
1913 - É publicado O Intruso.
            Lawrence termina de escrever Filhos e Amantes e inicia outro romance: Crepúsculo na Itália.
1914 - Lawrence e Frieda partem para Londres, onde se casam.
           Começa a trabalhar no romance que daria origem a Mulheres Apaixonadas (*).
1916 - É publicado Crepúsculo na Itália.
1917 - Lawrence e Frieda são expulsos da Cornualha sob suspeita de espionagem.
1919 - Com apenas 20 libras no bolso, Lawrence parte com Frieda para a Itália.
1920-21 - Lawrence escreve duas coleções de poemas, vários contos e o romance O Mar e a Sardenha.
1922 - Lawrence e a mulher viajam para o Ceilão e depois para a Austrália.
1923 - Escreve Canguru.
           Viaja para os Estados Unidos e depois para o México, onde fixa residência.
1925 - Começa a escrever Ternura, título que mais tarde seria mudado para O Amante de Lady Chatterley.
            Passa a dedicar-se à pintura.
1926 - Escreve A Serpente Emplumada.
1927 - Visita a região da Toscana.
            Com problemas de saúde, vai para a Suíça e depois para a Alemanha a fim de se tratar.
1928 - Publicado em Florença o romance O Amante de Lady Chatterley.
            Em Londres é realizada uma exposição de seus quadros.
1929 - Viaja com Frieda para Paris.
            Agrava-se seu estado de saúde.
1930 - Morre em Vence, França, no dia 2 de março, vítima de uma meningite tuberculosa.


(*) Mulheres Apaixonadas
Um dos maiores prosadores da língua inglesa, Lawrence foi o primeiro escritor da Inglaterra a tratar da sexualidade com franqueza. Em Mulheres Apaixonadas, descreve a relação amorosa de dois amigos, Birkin e Gerald, com duas irmãs, Úrsula e Gudrun, na Inglaterra industrial das primeiras décadas do século XX.


Eastwood, perto de Nottingham, parecia mais uma aldeia do que uma cidade. Uma cidade de onde se extraía carvão havia séculos. No entanto, as minas eram quase um acidente na paisagem embelezada pelo arenito de cor viva, pelos carvalhos da floresta do lendário Robin Hood, pelas austeras colinas de calcário da província do Derbyshire.

Num dia qualquer, na segunda metade do século XIX, chegaram os capitalistas e as estradas de ferro. E o cenário aos poucos foi se modificando. Emprego não faltava, e os ganhos chegavam a ultrapassar as necessidades. Mas os homens de Eastwood não davam muita importância ao salário. Na verdade, desprezavam o dinheiro e as responsabilidades domésticas. Como desprezavam a claridade da superfície. Gostavam daquela vida, da camaradagem que os unia nos poços e se prolongava após o trabalho, no bar onde se sentavam para beber e conversar. Seu mundo era apenas aquilo: amizade, trabalho e um suor quase sempre negro. Depois vinha o resto: as mulheres e os filhos.

Na casa da família Lawrence viviam o casal e os cinco filhos. A mãe, uma ex-professora muito refinada, esforçava-se para dar aos filhos uma vida melhor. O pai era um homem rude, que as crianças quase não viam.

Nascido em 11 de setembro de 1885 David Herbert cresceu em um ambiente de conflitos e constante tensão entre os pais. Aos doze anos o menino foi admitido na escola secundária de Nottingham, depois de ganhar uma bosa de estudos. Não decepcionou: foi premiado em matemática, francês e alemão. Mais tarde passaria a dominar também o italiano e o espanhol.

Cinco anos depois deixou a escola e foi trabalhar como escriturário. Três meses mais tarde, acometido de uma grave pneumonia - que lhe arruinaria a saúde para o resto da vida -, teve de abandonar o emprego. Durante a convalescença começou a escrever poemas e conheceu Jessie Chambers, com quem manteria grande amizade. A jovem morava em  uma fazenda a poucos quilômetros da casa dos Lawrence. David a visitava com frequência e, além de lhe dar aulas de álgebra e francês, lia seus versos para ela.

Em 1902 tornou-se mestre-escola, e durante três anos lecionou para os filhos dos mineiros. Sua amizade com Jessie tornava-se cada vez mais sólida: com ela aprendeu a pintar e a tocar piano. Essa ligação quase platônica talvez lhe tenha aprimorado o espírito e aguçado a sensibilidade. Começou então a ler os grandes poetas: Baudelaire, Shakespeare, Cervantes, Maupassant.

Em 1905 passou nos exames para ingressar na Universidade de Nottingham, mas apenas a frequentaria no ano seguinte. Enquanto esperava começou a escrever O Pavão Branco, o primeiro romance. Absorvido por suas atividades didáticas, logo interrompeu o trabalho.

Ao deixar a universidade, em 1908, hesitou antes de decidir se aceitaria um posto na escola primária de Croydon. Sua mãe e Jessie censuram-no: não o queriam muito distante. Sem lhes dar ouvidos, partiu. A princípio seus métodos de ensino foram mal acolhidos, mas os bons resultados forçaram os superiores a admiti-los. Conquistada a confiança e a admiração de seus colegas, Lawrence encontrou a tranquilidade e o tempo necessários para retomar a literatura. Escreveu vários poemas e voltou a trabalhar na composição de O Pavão Branco.

Jessie não esqueceu o amigo. Ao contrário: ainda nesse ano de 1908 enviou alguns de seus poemas ao diretor da English Review. Em novembro de 1909 os versos foram publicados na revista, e Lawrence foi introduzido nos círculos literários de Londres. No ano seguinte a revista publicou um novo conjunto de poemas do jovem autor. E distante, muito distante de seu filho, a sra. Lydia Lawrence morreu de câncer no dia 9 de dezembro de 1910. As coisas agora tomavam novos rumos: em janeiro de 1911 foi publicado O Pavão Branco. Com esse livro, Lawrence conquistou os primeiros admiradores: George Eliot e Thomas Hardy. As dificuldades também começaram a surgir: algumas situações apresentadas no romance acarretaram-lhe a ameaça de  um processo por difamação. Sem se intimidar, continuou a escrever. Dessa vez a incomunicabilidade e a falta de calor entre as pessoas eram o tema de O Intruso, publicado em 1913. Entretanto seu espírito dinâmico o impedia a partir para outras terras, a conhecer novos ambientes.
Em 6 de abril de 1912 foi convidado a jantar na casa de Ernest Weekley, um ex-professor de francês, e aí conheceu Frieda von Richthofen, esposa do meste e mãe de três crianças. Entre conversas amenas e olhares sutis, Frieda e Lawrence enamoraram-se. Menos de um mês depois partiram juntos para Metz, na Alsácia-Lorena, onde o pai de Frieda era barão-governador de uma região militar. Na bagagem, além do manuscrito de Filhos e Amantes, Lawrence levava também um pouco de esperança e um pouco de angústia. Depois de uma entrevista tempestuosa com os pais de Frieda, o escritor acabou sendo aceito. Mas não se sentia à vontade ali e partiu com a mulher para a Itália, onde viveram por seis meses. Aí Lawrence terminou Filhos e Amantes e começou a escrever Crepúsculo na Itália.

A crítica teceu elogios a Filhos e Amantes, mas o público a censurou violentamente. Aliás as censuras acompanharam a vida literária de Lawrence, inúmeras vezes acusado de imoral e de pornográfico. Impassível, ele continuou denunciando o puritanismo falso e hipócrita da sociedade inglesa de seu tempo.

Em julho de 1914 - depois de receberem a notícia de que Weekley concedera o divórcio - Lawrence e Frieda partiram para Londres, onde se casaram no mês seguinte. Logo o romancista começou a trabalhar em As Irmãs - projeto que depois evoluiu para duas grandes obras: O Arco-íris e Mulheres Apaixonadas. Mas a guerra explodiu antes que os romances fossem publicados. Para Lawrence, o conflito representou um longo período de humilhação. Por ser alemã, Frieda foi posta sob vigilância e o casal decidiu refugiar-se no campo. Sem recursos, o escritor tentou colaborar na Times, mas não conseguiu. A publicação de Crepúsculo na Itália em 1916 foi um alívio para suas dificuldades financeiras. Em contrapartida, O Arco-íris, editado em 1915, foi censurado e apreendido alguns meses depois.

Os ganhos com a publicação dos livros Amores, em 1916, e Look! We Have Come Through - Olhe! Conseguimos, - em 1917, não foram suficientes para melhorar sua vida.

Para agravar a situação, no fim de 1917 o casal foi expulso da Cornualha sob suspeita de espionagem. Lawrence e Frieda seguiram então para Londres, onde formaram uma comunidade de amigos.
Ao fim da guerra, Lawrence e Frieda deixaram Londres, com 20 libras oferecidas por um amigo. Em novembro de 1919, alimentados de novas esperanças, desembarcaram na Itália. Seguiram para a Sicília e instalaram-se numa fazenda, onde permaneceram por dois anos, intercalados por uma longa viagem à Alemanda, Áustria e Itália, entre abril e setembro de 1921.

Esse foi um período fecundo: Lawrence escreveu duas coleções de poemas - Birds, Beasts and Flowers - Pássaros, Animais e Flores - e Tortoises -, vários contos e o romance Sea and Sardinia - O Mar e a Sardenha - inspirado numa rápida viagem. A Oxford Universty Press, interessada nas teorias do escritor, encomendou-lhe um ensaio sobre a evolução histórica da Eurpean History - Movimentos na História Européia -, trabalho assinado por Lawrence H. Davidson. O escritor ocultava-se sob pseudônimo por ressentir-se ainda da violenta reação da crítica contra Mulheres Apaixonadas. Concluída durante a estada do escritor na Cornualha, a obra foi rejeitada por vários editores ingleses, até finalmente ser impressa nos Estados Unidos em 1921.

Provocou um escândalo na Inglaterra e recebeu os adjetivos mais desairosos. Sem conseguir compreender as teses de Lawrence, os críticos o atacavam. Aos poucos, porém, foram silenciando. E a calmaria que se seguiu à tempestade de censuras propiciou o lançamento, em 1922, de A Vara de Araão.
Lawrence começou a voltar-se para a literatura americana. Quando planejava uma viagem aos Estados Unidos, recebeu um convite da milionária Mabel Dodge-Luban para passar uma temporada no Novo México. Todavia, uma crise de bronquite o impediu de aproveitar a oportunidade.

No início de 1922, já restabelecido, partiu com Frieda para o Ceilão. Algum tempo depois passaria uma curta temporada na Austrália. Em seguida viveu com Frieda num aglomerado de mineiros em Nova Gales do Sul. Nessa época instalou-se às margens do lago Chapala, nas proximidades de Guadalajara, México, onde escreveu A Serpente Emplumada, que só seria publicada em 1926.

O México vivia uma época de convulsões políticas, e Frieda, apavorada com a violência geral, suplicou-lhe que voltassem à inglaterra. Lawrence acabou cedendo. Em Nova York, já arrependido, mandou a mulher continuar a viagem sozinha. Enviou alguns artigos e ensaios para a revista Adelphi e voltou para Jalisco, no México.

Frieda escrevia-lhe incesssantemente, pedindo-lhe que fosse ao seu encontro. A força do amor foi grande, e ele retornou à Inglaterra, onde escreveu St. Mawr e outros Contos, The Woman who Rode Away - A Fugitiva - e Reflections on the Death of a Porcupine - Reflexões sobre a Morte de um Porco-Espinho -, todas publicadas no decorrer de 1925.

Em fins de 1925, sob o título de Tenderness - Ternura - , Lawrence iniciou na Itália o romance O Amante de Lady Chatterley. A obra não absorvia todo o interesse de Lawrence, que, nessa época, estava se dedicando à pintura e começando a executar uma série de quadros, mais tarde expostos em Londres.

Por problemas de saúde, seu trabalho começou a ser interrompido com frequência. Em abril de 1927, quando visitava a Toscana, uma nova e mais grave recaída o obrigou a emigrar para a Suíça e para a Alemanha, onde alguns  médicos consideravam irreversível a sua situação.

Sem se abater, em outubro retornou a Florença e trabalhou duramente em Tenderness, agora denominado John Thomas e Lady Jane, título propositadamente provocativo, já que na tradição popular inglesa esses nomes designam os órgãos sexuais do homem e da mulher. A ideia evoluiu e o romance finalmente recebeu o título definitivo: O Amante de Lady Chatterley, publicado em Florença em 1928.

O Amante de Lady Chatterley trata da relação entre um homem e uma mulher. O livro foi acusado de inverossímil, mas, na verdade, conta a própria história da vida de Lawrence com Frieda. A imprensa não poupou severas críticas: "esgoto da pornografia francesa", "o livro mais sujo da literatura inglesa". O governo britânico imediatamente proibiu na Inglaterra, e durante 32 anos manteve a proibição.

O romance, contudo, circulava às escondidas, e da forma que Lawrence mais deplorava: era visto e lido de uma maneira que tornava o sexo um assunto furtivo, proibido, ou uma brincadeira efêmera. O verdadeiro sentido de seu pensamento - a busca da pureza primitiva, que faz de O Amante de Lady Chatterley um dos maiores romances ingleses - durante muito tempo passou despercebido da crítica e do público.

Em 1928 Lawrence estava com tuberculose. Angustiado via multiplicarem-se, à sua revelia, as edições espúrias de seu último romance com o texto adulterado.

Inquieto com o alarmante estado de saúde do escritor, o amigo Richard Aldington, também escritor, levou-o para a ilha de Port-Gross. Aí Lawrence escreveu artigos, notas e comentários para os jornais, aproveitando o escândalo e a consequente curiosidade suscitada pelo livro.
Em 1929 viajou para Paris e hospedou-se na casa do escritor e amigo Aldous Huxley. Trabalhando duro, ainda conseguiu publicar uma edição popular e integral do romance. Em abril viajou para a Espanha. Enquanto isso sua exposição de pintura fazia sucesso em Londres, a despeito de a imprensa considerá-la "o maior insulto jamais feito ao público londrino".

Depois de passar quinze dias na Ligúria com Hurley, Lawrence partir para Florença, onde foi acometido de uma violenta hemoptise. Atendendo aos apelos de Frieda, procurou um médico, que o aconselhou a fazer um tratamento no sanatório de Vence, na França.

Certo de que logo se restabeleceria, escreveu a todos os amigos anunciando sua alta. Foi um desfile de visitas na casa em que  Huxley o acomodou juntamente com Frieda, em uma vila de Vence.
Os dias arrastaram-se tristemente para Lawrence. Ele precisava levantar-se do leiro e caminhar, sentir o ar puro, ver pessoas. Dar a mão a Frieda e com ela conversar longamente. Tudo isso ele fez. Até ser acometido por uma fatal meningite tuberculosa.

O olhar de Lawrence estava fixado em sua companheira. Talvez Frieda quisesse dizer alguma coisa. Mas não havia tempo para mais nada. Huxley aproximou-se e fechou os olhos do amigo. Frieda foi até a janela para contemplar o que restou da paisagem. Era o dia 2 de março de 1930. David Herbert Lawrence tinha pouco mais de 44 anos.




sábado, 8 de abril de 2017

Italo Calvino - Fábulas Italianas


Italo Calvino - Fábulas Italianas

Calvino, Italo - Fábulas italianas: coletadas na tradição popular durante os últimos cem anos e transcritas a partir de diferentes dialetos - Italo Calvino; tradução Nilson Moulin. - São Paulo : Companhia das Letras, 2006.

Trabalho fenomenal de Italo Calvino, que teve como impulso inicial o desafio para produção do livro pela necessidade que surgiu de uma exigência editorial: pretendia-se, ao lado dos grandes livros de contos populares estrangeiros, uma antologia italiana. Mas que texto escolher? Existiria um "Grimm italiano"? se pergunta o autor, na introdução do livro.

O autor ao terminar o complexo trabalho, mas antes tem a real visão de que é "um salto no escuro, como pular de um trampolim e mergulhar num mar em que há um século e meio só se atreve a entrar quem é atraído não pelo prazer esportivo de nadar em ondas insólitas, mas por um apelo do sangue, como para salvar algo que se agita lá no fundo e que, caso contrário, se perderia sem voltar à tona".

Longa introdução o autor resenha todo o trabalho para conseguir catalogar e priorizar toda a narrativa encontrada desta arte popular visando resgatar, retratar a história escrita e contada do povo italiano.

"São, tomadas em conjunto, em sua sempre repetida e variada casuística de vivências humanas, uma explicação geral da vida nascida em tempos remotos e alimentada pela lenta ruminação das consciências camponesas até nossos dias; são o catálogo do destino que pode caber a um homem e a uma mulher, sobretudo pela parte de vida que juntamente é o perfazer-se de um destino: a juventude, do nascimento que tantas vezes carrega consigo um auspício ou uma condenação, ao afastamento da casa, às provas para tornar-se adulto e depois maduro, para confirmar-se como ser humano. E, neste sumário desenho, tudo: a drástica divisão dos vivos em em reis e pobres, mas sua paridade substancial; a perseguição do inocente e seu resgate como termos de uma dialética interna a cada vida; o amor encontrado antes de ser conhecido e logo depois sofrimento enquanto bem perdido; a sorte comum de sofrer encantamentos, isto é, ser determinado por forças complexas e desconhecidas, e o esforço para libertar-se e autodeterminar-se como um dever elementar, junto ao de libertar-se libertando; a fidelidade a uma promessa e a pureza de coração como virtudes basilares que conduzem à salvação e ao triunfo; a beleza como sinal de graça, mas que pode estar oculta sob aparências de humilde feiura como um corpo de rã; e sobretudo a substância unitária do todo: homens animais plantas coisas, a infinita possibilidade de metamorfose do que existe."

Explica ainda que o trabalho de natureza híbrida é também "científico" pela metade ou, em três quartos, sendo a quarta parte fruto de arbítrio individual.

Surpreendente é sua conclusão após o minucioso trabalho de que "as fábulas são verdadeiras."

Quem é capaz de duvidar?

São elas:
Joãozinho Sem Medo;
Corpo Sem Alma;
O Pastor que não crescia nunca;
Nariz de Prata;
A barba do conde;
A menina vendida com as peras;
O príncipe canário;
Os Biellenses, gente dura;
A linguagem dos animais;
As três casinhas;
A terra que não se morre nunca;
As três velhas;
O príncipe-Caranguejo;
O menino no saco;
A camisa do homem feliz;
Uma noite no paraíso;
Jesus e são Pedro no Friul;
O anel mágico;
O braço de morto;
A ciência da preguiça;
Bela Testa;
Luna;
O corcunda Sapatim;
O Ogro com penas;
Belinda e o Monstro;
A rainha Marmota;
O filho do mercador de Milão;
O palácio dos macacos;
O palácio encantado;
Cabeça de búfula;
A filha do sol;
O florentino;
O presente do vento do norte;
A moça-maça;
Salsinha;
O Pássaro Bem Verde;
Grãozinho e o boi;
A água na cestinha;
Catorze;
João Bem Forte que a quinhentos deu a morte;
Galo-cristal;
O soldado napolitano;
Belmel e Belsol;
Chico Pedroso;
O amor das três romãs;
José Peralta que, quando não arava, tocava flauta;
Corcunda, manca e de pescoço torto;
A falsa avó;
O ofício de Francisquinho;
Crie, Croc e Mão de Gancho;
A primeira espada e a última vassoura;
Os cinco desembestados;
Eiro-eiro, burro meu, faça dinheiro;
Leombruno;
Os três órfãos;
O reizinho feito à mão;
O rei-serpente;
Cola-peixe;
Grátula-Bedátula;
Desventura;
A cobra Pepina;
Dono de grãos-de-bico e favas;
O sultão com sarna;
Alecrina;
Diabocoxo;
A moça-pomba;
Jesus e são Pedro na Sicília;
O relógio do barbeiro;
A irmão do conde;
O casamento de uma rainha com um bandido;
Pelo mundo afora;
Um navio carregado de...;
O filho do rei no galinheiro;
A linguagem dos animais e a mulher curiosa;
O bezerrinho com chifres de ouro;
A velha da horta;
A rainhazinha com chifres;
Yufá;
O homem que roubou os bandidos;
Santo Antônio dá o fogo aos homens;
Março e o pastor;
Pule no saco!

JOÃOZINHO SEM MEDO

"Era uma vez um menino chamado Joãozinho Sem Medo, pois não tinha medo de nada. Andava pelo mundo e foi parar em uma hospedaria, onde pediu abrigo.
- Aqui não tem lugar - disse o dono -, mas, se você não tem medo posso mandá-lo para um palácio.
- Por que eu sentiria medo?
- Porque ali a gente sente e ninguém saiu de lá a não ser morto. De manhã, a Companhia leva o caixão para carregar quem teve a coragem de passar a noite lá.
Imaginem Joãozinho! Levou um candeeiro, uma garrafa, uma linguiça, e lá se foi.
À meia-noite, comia sentado à mesa quando ouviu uma voz saindo da chaminé:
-Jogo?
E Joãozinho respondeu:
- Jogue logo!
Da chaminé desceu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho.
Depois a voz tornou a perguntar:
- Jogo?
E Joãozinho:
- Jogue logo!
E desceu outra perna de homem. Joãozinho mordeu a linguiça.
- Jogo?
- Jogue logo!
E desceu um braço. Joãozinho começou a assoviar.
- Jogo?
- Jogue logo!
Outro braço.
- Jogo?
- Jogue!
E caiu um corpo que se colou nas pernas e nos braços, ficando de pé um homem sem cabeça.
- Jogo?
- Jogue!
Caiu a cabeça e pulou em cima do corpo. Era um  homenzarrão gigantesco e Joãozinho levantou o copo dizendo:
- À saúde!
O homenzarrão disse:
- Pegue o candeeiro e venha.
Joãozinho pegou o candeeiro mas não se mexeu.
- Passe na frente! - disse Joãozinho.
- Você! disse o homem.
- Você! disse Joãozinho.
Então o homem se adiantou e de sala em sala atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escadaria havia uma portinhola.
- Abra! Disse o homem a Joãozinho.
- Você! - disse Joãozinho.
Então o homem se adiantou e de sala em sala atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escadaria havia uma portinhola.
- Abra! - disse o homem a Joãozinho.
E Joãozinho:
- Abra você!
E o homem abriu com um empurrão. Havia uma escada em caracol.
- Desça - disse o homem.
- Primeiro você - disse Joãozinho.
Desceram a um subterrâneo, e o homem indicou uma laje no chão.
- Levante!
- Levante você! - disse Joãozinho, e o homem a ergueu como se fosse  uma pedrinha.
Embaixo havia três tijelas cheias de moedas de ouro.
- Leve para cima! - disse o homem.
- Leve para cima você! - disse Joãozinho. E o homem levou uma de cada vez para cima.
Quando foram de novo para a sala da chaminé, o homem disse:
- Joãozinho, quebrou-se o encanto! - Arrancou-se uma perna, que saiu esperneando pela chaminé. - Destas tigelas uma é sua. - Arrancou-se um braço, que trepou pela chaminé.
- Outra é para a Companhia que virá buscá-lo pensando que você está morto. - Arrancou-se também o outro braço, que acompanhou o primeiro. - A terceira é para o primeiro pobre que passar. - Arrancou-se outra perna e ele ficou sentado no chão. - Pode ficar com o palácio também. - Arrancou-se o corpo e ficou só a cabeça no chão. - Porque se perdeu para sempre a estirpe dos proprietários deste palácio, - E a cabeça se ergueu e subiu pelo buraco da chaminé.
Assim que o céu clareou, ouviu-se um canto: Miserere mei, miserere mei, e era a Companhia com o caixão que vinha recolher Joãozinho morto. E o veem na janela, fumando cachimbo.
Joãozinho Sem Medo ficou rico com aquelas moedas de ouro e morou feliz no palácio. Até um dia aconteceu que, virando-se, viu sua sombra e levou um susto tão grande que morreu.

Italo Calvino (1923-85) nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, e foi para a Itália logo após o nascimento. Participou da resistência ao fascismo durante a guerra e foi membro do Partido Comunista até 1956. Publicou sua primeira obra, A trilha dos ninhos de aranha, em 1947.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Mario Vargas Llosa - O herói discreto



Mario Vargas Llosa - O herói discreto
Na estante, Revista Cidade Nova - Março 2017 - n. 3 - pág. 47, Andrea Russo Vilela

"Neste mês de março (dia 28), o escritor peruano Mario Vargas Llosa completa 81 anos. Devo admitir que é um de meus autores favoritos. Ou melhor, favorito ainda é pouco para descrevê-lo e, em homenagem ao seu aniversário, gostaria de apresentá-lo a partir de como ele próprio definiu seu ofício em texto publicado no Correio Braziliense: "Escrever é um trabalho que requer perseverança, horários, impor-se uma disciplina e respeitá-la, e creio que isso é fundamental. A razão pela qual me submeto com tanta facilidade a essa disciplina em meu trabalho é porque não tenho a sensação de que seja um trabalho, e sim um prazer".
Nascido em 28 de março de 1936, em Arequipa, Vargas Llosa é um intelectual de grande vulto e um dos mais importantes nomes da literatura latino-americana e mundial na atualidade. Jornalista, acadêmico (doutor em Filosofia e Letras), dramaturgo e cidadão engajado em questões políticas peruanas, já escreveu mais de 40 romances publicados (traduzidos para 30 idiomas), além de peças para teatro e ensaios. Vencedor de prêmios como Príncipe de Astúrias (1993) e Miguel de Cervantes 2006), ele foi agraciado com o Nobel de Literatura em 2010 pelo conjunto de sua obra e "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual".
Confesso a dificuldade de escolher apenas uma de suas obras para indicar. Vargas Llosa tem estilo enraizado. Não é escritor com foco só na ficção, vai além disso. Transforma realidade e fatos históricos, que marcam um determinado espaço e tempo em ficção, sem distorcê-los. Tudo está ligado: literatura, realidade, história e ficção são indissolúveis. Ele os costura de forma a dar impressão de que nasceram juntos.
Como, ao apresentá-lo, detive-me em seus livros mais antigos, indico um romance mais atual: O herói discreto (2013), que aborda questões bastante pertinentes ao atual cenário brasileiro: honestidade - ou melhor, a falta dela -, ganância, egocentrismo e impunidade. Duas histórias seguem paralelas. A primeira é a do empresário do ramo dos transportes Felícito Yanaqué, pai de dois filhos e casado com Gertrudes. Correto e austero, é vítima de extorsão feita por meio de uma carta anônima com ameaças à sua empresa e sua família.
O empresário se recusa a ceder à chantagem, procura a polícia e o caso se torna assunto da pacata cidade de Piura, ao norte do Peru. A segunda história se passa na capital, Lima, onde Ismael Carrera, 80 anos, viúvo, empresário bem-sucedido e proprietário de uma seguradora sofre um infarto, fica à beira da morte e escuta seus dois filhos discutirem sobre sua suposta morte ao lado de seu leito no hospital.
Recuperado, resolve se vingar e escandaliza a família casando-se com Arminda, antiga empregada doméstica da família.
Duas histórias aparentemente sem ligação se entrelaçam no final - e surpreendem o leitor. O livro é um melodrama carregado de humor, suspense e mistério. As questões sociais, o amor, o ódio na relação entre pai e filhos, as fraquezas humanas, a traição, a vingança e o perdão permeiam as duas histórias e nos questionam sobre o que é certo e errado. A leitura é fácil e flui prazerosamente. Desarme-se e dispa-se de preconceitos e julgamentos para desfrutar o enredo. Mas, ao concluir a  leitura da última página, reflita e tire as suas conclusões sobre as complexas relações humanas e como você vem lidando com elas.
Vargas Llosa mais uma vez aponta temas polêmicos e nos conta com maestria a história real de uma vida fictícia. Boa leitura!"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Elena Ferrante - A filha perdida

Elena Ferrante - A filha perdida

Na Estante, por Andrea Russo VilelaRevista Cidade Nova - Fevereiro 2017n. 2pág. 47.

"Dediquei alguns dias de minhas férias para conhecer um pouco da obra e da trajetória literária de uma nova escritora que vem dando o que falar. Se nome, ou melhor, pseudônimo, é Elena Ferrante, uma italiana que optou por manter sua identidade em segredo.

Elena concede poucas entrevistas, sempre por escrito e intermediada por seus editores italianos. Como ela mesma afirma, optou pelo anonimato para preservar sua liberdade de escrita e, de certa forma, não deixar sua imagem influenciar na recepção de seus livros pelo público. As obras dela abordam o universo feminino a partir de uma narrativa realista, seca, dura, sem amarras ou meias palavras. Elena retrata mulheres comuns, mães, filhas, amigas, mas de forma nada romanceada. O feminino de Ferrante não tem nada de cor de rosa. Escreve desde 1991, data do primeiro romance, L´amore molesto (Um estranho amor), sucesso de crítica e vendas. A obra inspirou uma adaptação para o cinema.

No Brasil a produção literária de Elena desembarcou em 2015 com a série Napolitana, que publicou as obras A amiga genial, História do novo sobrenome e Dias de abandono.

Qual o motivo de seu sucesso?

Elena consegue seduzir, envolver, transportar, provocar, encantar, causar angústia e raiva à medida que o leitor avança página a página.

Escolhi como indicação para este mês o livro A filha perdida, que aborda a temática da maternidade sob o ponto de vista um tanto quanto peculiar: o amor, a felicidade e a realidade que envolvem as agruras de ser mãe. O dilema de ser o que a sociedade espera de toda mulher: boa mãe - e o preço do julgamento quando não se segue ou se enquadra nos padrões tidos como "corretos".
Como mãe de uma garota de 18 anos, à medida que fui avançando na leitura, duas questões mexeram muito comigo: todas as mulheres realmente nasceram para ser mães?
O amor pelos filhos é fato, nada se assemelha, e ele é pulsante, forte e vigoroso, mas não pode subjugar a essência da mãe.
A leitura é simples, fluida e potente.
Cenas e falas aparentemente banais são complexas e significativas.
A honestidade de sentimentos da protagonista pode despertar em você ideias que já passaram pela sua cabeça - mas não se sinta mal, a história vale a pena.

Em A filha perdidaElena Ferrante narra a história de Leda, uma professora universitária, carente e carregada de vaidade intelectual, chegando na faixa dos 50 anos, mãe de duas jovens já adultas que resolvem morar com o pai no Canadá.
Após a partida das filhas, Leda resolve tirar férias e segue para uma praia.

Você pode se perguntar se ela vive a síndrome do ninho vazio ou se sente-se livre da responsabilidade materna. Porém nada é tão simples na ótica de Ferrante. A história seria fácil se esse fosse o tema, mas o ponto central vai muito além de saber o que fazer com a liberdade de não estar mãe. Na praia, Leda observa uma família italiana grande e muito barulhenta que a faz lembrar da própria família. Dois membros dessa família destacam-se por estarem sempre juntas: Nina, uma jovem mãe, e Eleba, sua filhinha que não se separa da boneca (atenção a esta boneca no contexto da história).

A partir daí a protagonista não consegue mais parar de observá-las, enquanto tece pré-julgamentos ao comportamento delas que a incomoda a ponto de causar inveja. 

Leda revive memórias relacionadas às suas filhas, ao seu casamento, ao relacionamento com a própria mãe e a ela mesma enquanto filha. Ela nos mostra todos os seus questionamentos, entre eles o que é na verdade ser mãe. A filha perdida é um romance curto, mas carregado de significado que fará você reavaliar escolhas e questionar julgamentos."


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ransom Riggs - Contos Peculiares


Ransom Riggs - Contos Peculiares

Contos Peculiares, de Ransom Riggs, belíssima ilustração por Andrew Davidson, Millard Nullings (org.), edições Syndrigast.


Surpreendente! 

O livro tem como conto inicial  o primoroso "Os esplêndidos canibais" que já faz valer a aquisição da obra.

Os esplêndidos canibais aborda temas como educação financeira, convivência social, entre outros temas, como valores morais, que são fortemente apontados na história que se passa na aldeia de Swampmuck onde viviam de forma bastante humilde os peculiares que deixaram vender seus membros para um grupo de canibais em troca de melhores condições financeiras para suas vidas apresentando novo status social, com casas cada vez maiores e melhores em detrimento cada vez maior de seus corpos físicos e sua liberdade cada vez mais comprometida em detrimento da mutilação a que estavam expostos. Final surpreendente por esboçar claramente a alma humana e suas fraquezas.

O leitor fica preso à narrativa que utiliza a técnica de suspense crescente quanto ao destino dos personagens.

Li somente os contos: Os esplêndidos canibais,  A princesa da língua bifurcada e A primeira ymbryne, excelente história, o que já foi suficiente para qualificar como um dos melhores livros de contos já lidos.

Por certo um belo livro de cabeceira com a capa e o material gráfico impecáveis. 

O tom do livro remonta a nostalgia das histórias do livro "As Mil e Uma Noites", por ser uma coletânea de folclore passado de geração a geração desde tempos imemoriais, portadores de um conhecimento secreto, onde há informações importantes para a sobrevivência de um peculiar neste mundo hostil, conforme aponta na apresentação sob clima de suspense ao leitor.

Demais histórias:
A mulher que era amiga de fantasmas;
Cocobolo;
As pombas (da Catedral) de St. Paul; 
A menina que domava pesadelos;
O gafanhoto;
O garoto que podia controlar o mar;
A história de Cuthbert.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Marie Kondo - A mágica da arrumação


Marie Kondo - A mágica da arrumação

Sempre gostei do tema organização. Foi algo que desenvolvi de forma natural pelo hábito de querer ver os objetos nos lugares devidos e de encontrá-los quando necessito deles.

Certa vez, no meu trabalho na indústria, crescíamos a passos largos. Eram recordes após recordes e o espaço físico de trabalho continuava o mesmo apesar do crescimento de recursos humanos e materiais.
Era época de implantar a qualidade total no ambiente de trabalho. O tema 5S surgiu como uma luva às nossas necessidades de melhoria e otimização do espaço físico.
Desenvolvi o trabalho com mérito "5S - Uma forma de conviver melhor" que me rendeu uma viagem a Bahia para apresentação em um Seminário de Qualidade e uma ida à Caixa Econômica Federal sede no Rio de Janeiro para também apresentá-lo.

Gosto de ler temas de organização em blog pela rede social, mais por pura curiosidade.

Surpresa fiquei quando encontrei o livro "A mágica da arrumação" no quarto de minha filha.
Ela comprou pois necessita muito controlar toda a bagunça a que vive rodeada.
É uma pessoa um pouco compulsiva e vive enchendo os armários e gavetas de itens de que gosta e em seguida acredita que doar quase todos, esvaziar tudo dá uma sensação de organização. O problema é até quando novos itens retornarão em sua vida, em sua rotina de vida.
Já havíamos conversado sobre como um ser humano não tendo a habilidade nata de classificar e organizar seus pertences, ainda assim, pode se esmerar e usar técnicas que o ajudarão a se organizar.

Obvio que li o livro em dois tempos. A linguagem é leve e aborda detalhes do dia-a-dia com muita habilidade.

A autora Marie Kondo, palestrante e consultora, aos 30 anos conta como gosta do tema desde os 5 anos de idade e que na juventude teve oportunidade de pesquisar sobre organização o que a tornou especialista no tema.
Seu método é simples, porém transformador. Em vez de basear-se em critérios vagos, como "jogue fora tudo o que você não usa a um ano", ele é fundamentado no sentimento da pessoa por cada objeto que possui.
O ponto principal da técnica é o descarte. O objeto a ser dispensado passa pelo crivo da análise do tema alegria. O objeto te proporciona alegria? Permaneça com ele. Se a resposta for negativa, se desfaça. Doa ou jogue fora.
A partir do que te trás felicidade, a segunda etapa é partir para a classificação e organização.
Rodeado pelo que você ama, você se tornará mais feliz e motivado a criar o estilo de vida com que sempre sonhou.
E isto passa pelo quesito livros, inclusive ela dá a dica para após a leitura do livro dela, fazer a mesma pergunta e seguir adiante organizando não somente a estante, mas a própria vida.

A mágica da arrumação / Marie Kondo; tradução de Marcia Oliveira; Rio de Janiero: Sextante, 2015

- Por que não consigo manter minha casa organizada?;
- Em primeiro lugar, descarte;
- Como organizar por categoria;
- Arrumando suas coisas para ter uma vida sensacional;
- A mágica da organização transforma sua vida.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

David Gilmour - O clube do filme


David Gilmour - O clube do filme

Livro autobiográfico, em que o crítico cinematográfico Canadense David Gilmour discorre sobre como utilizou de sua paixão, a arte, especificamente, o cinema, para aproximar-se do filho adolescente, onde o rapaz poderia deixar de estudar desde que juntos assistissem a três filmes semanais. 
Jogou todas as fichas. Vislumbrava o tempo que teriam juntos para discutir a arte cinematográfica que tanto de realidade poderia fazer um jovem enxergar além de suas decepções amorosas e vida desregrada mas não somente: vislumbrava um tempo de convivência, de resgatar um tempo certamente quase perdido em relação à educação do filho que se absteve durante uma vida de trabalho e separação familiar.
No desenvolvimento da obra, há momentos em que o autor discorre demasiadamente em detalhes da narrativas e em outros onde seriam importante maiores detalhes para entendimento de passagem de fase de desenvolvimento do personagem central, o filho, há um pulo no espaço de tempo, ficando a reflexão da superação do personagem quanto a suas angústias para entendimento do leitor. Necessitando do leitor um entendimento, para compreender o amadurecimento do personagem por si só. Amadurecimento este que fica na forma como foi mostrada, a desejar.
O livro é uma amostra, um laboratório das relações humanas, voltadas para o papel da educação que os pais deveriam exercer sobre a vida dos filhos, não esperando somente que a escola ou sociedade o cumpra.
Essa sensação de laboratório podemos ver ao longo da narrativa, como tentativa e erro, onde o pai busca acertar mas escrever a obra foi talvez uma forma de se redimir das incertezas que vivenciou em relação à educação do filho.
Talvez o ponto fraco da narrativa seja a exclusividade da narrativa centrada no pai e filho e deixando outros personagens como mero coadjuvantes, ou seja, a mãe do menino, a esposa do depoente, e pasmem vocês, a somente citada irmã do rapaz problemático somente nos agradecimentos. Sim, é uma família um tanto invisível, certamente.
Certamente a expectativa de discorrer uma lista de filmografia desperta o interesse pelo livro. Nesta parte, por ser longa, nem todos os filmes são detalhados, ficando apenas a dica ao leitor dos melhores e piores filmes, pelo crítico cinematográfico, autor da obra. Vale entretanto, reflexões acerca dos detalhes que podem prender uma pessoa a um filme, como simplesmente pelo prazer de diversão e não tão somente pela mensagem intrínseca da obra.

O Clube do Filme - David Gilmour; tradução de Luciano Trigo. - Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

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