terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Honoré de Balzac

Honoré de Balzac
1799 - Em 20 de maio, nasce em Tours Honoré de Balzac, filho de Bernard François Balssa e Laure Sallambier.
1807-1813 - Estuda no Colégio dos Oratorianos de Vendôme.
1814 - A família Balzac instala-se em Paris.
1816-1819 - Balzac estuda Direito.
1819 - Muda-se para a mansarda da rua Lesdiguières. A família transfere-se para Villeparisis.
1820 - Balzac conclui a tragédia Cromwell.
1821 - Conhece Laure de Berny.
1822-1825- Funda uma editora e em dois anos está arruinado financeiramente.
1829 - Publica Os Chouans e A Fisiologia do Casamento.
1830 - Publica Cenas da Vida Privada. Colabora em diversos periódicos.
1831 - Obtém grande êxito com A Pele de Onagro e compõe mais nove romances. Começa a escrever A Mulher de Trinta Anos (*).
1832 - Candidata-se a deputado. Recebe a primeira carta anônima de "a estrangeira", a senhora Eveline Hanska.
1833 - Publica Pai Goriot, usando pela primeira vez o processo de "retorno de personagens". Planeja A Comédia Humana, conjunto de 95 romances, entre os quais Eugênia Grandet, editado nesse mesmo ano.
1835 - Encontra Eveline Hanska emViena.
1836 - Viaja à Itália.
1836-1840 - Publica 21 livros.
1841 - Em outubro, assina um contrato para editar A Comédia Humana.
1842 - Morre o conde Hanski.
1843 - Balzac viaja a São Petersburgo. Padece de várias enfermidades.
1846 - Adquire o palacete da rua Fortunée, em Paris.
1850 - Em março, casa-se com Eveline Hanska. Retorna a Paris. Adoece e, no dia 18 de agosto, morre. É enterrado três dias depois no Cemitério de Père-Lachaise. Victor Hugo pronuncia o discurso fúnebre.

(*) A Mulher de Trinta Anos
Em A Mulher de Trinta Anos Balzac levanta questões fundamentais da vida amorosa e sentimental das mulheres e revela sua perplexidade diante do fracasso do casamento.
Esse retrato da alma feminina é bastante atual; sua personagem principal, Júlia D´Aiglemont, é uma mulher malcasada, consciente da razão de seus sofrimentos e revoltada contra a instituição imperfeita do matrimônio.

Desde pequeno Balzac tinha um sonho: viver em sociedade entre aritocratas, imortalizado pela atividade literária. Como primeiro passo, o menino de Tours, filho de modesto funcionário público, resolve alterar sua linhagem. Julgando plebéia a ascendência do pai, Bernar François Balssa, liga-a artificialmente a antigos nobres franceses. Mal aprende a escrever, passa a asisnar Balzac e acrescenta entre o prenome e o sobrenome um "de", índice de nobreza na França: Honoré de Balzac. Armado assim de nobreza e tradição pensava poder conquistar importância e celebridade.

Não lhe importa a indiferença da mãe nem a falta de atenção do pai e dos irmãos. Só Laure, a irmã mais nova, emocionada, ouve-o falar de seus planos, da obra colossal que pretendia criar, do reconhecimento que acredita receberá um dia.

Em 1814 a família Balzac muda-se para Paris, onde Honoré poderia estudar. Com vinte anos diploma-se em Direito e vai estagiar no escritório do advogado Goyonnet de Merville, que mais tarde se transformaria no Derville de A Comédia Humana. Os anos de estágio não lhe servem como prática na profissão, mas fornecem-lhe material para vários romances. Logo se cansa da vida no cartório. Quer escrever o que vê. Ao comunicar seu desejo aos pais, causa estupefação geral. Exceto Laure, toda a família responde com ironia, desestimulando-o.

Honoré não dá ouvidos aos que tentam desanimá-lo e recusa-se a acompanhar a família, que está de mudança para Villeparisis, lugarejo próximo a Paris. Os pais de Balzac, ao perceberem que o filho não abriria mão de seus sonhos, fazem um trato com ele: iriam sustentá-lo durante um ano na capital. Terminado esse prazo, se não obtivesse êxito na literatura teria de trabalhar como advogado.

Para evitar que leve uma vida desregrada, os pais restringem-lhe a mesada ao mínimo essencial, obrigando-o a viver num quarto miserável, sob os cuidados de uma velha criada. Mas Balzac sente-se o homem mais feliz do mundo; está convencido de que se tornará um grande escritor: tem um nome aristocrático e um sótão em Paris.

Depois de um ano, passado entre leituras, passeios e dúvidas, Balzac conclui a tragédia Cromwell e leva-a à família e aos amigos. Todos acham a obra lamentável, mas ele não se dá por vencido. Talvez não fosse o teatro o gênero em que seu talento haveria de se revelar. Quem sabe se no romance teria algum êxito.

O prazo de um ano está terminado. Os pais anunciam que não mais sustentariam as fantasias do filho. Balzac, animado pela confiança da irmão e pela certeza de guardar dentro de si um universo a ser revelado, acha necessário dar-se tempo para amadurecer.

Os romances sentimentais estão na moda, publicados em fascículos mensais, segundo os modelos ingleses. Balzac sabe não ser esse o caminho da arte. Mas precisa de dinheiro para sobreviver. Temendo arruinar seu prestígio antes de alçar-se à posição de grande escritor, publica sob pseudônimo as composições elaboradas de 1822 a 1825.

A atividade incessante e o desgosto com as coisas que produz levam-no a buscar algum descanso em Villeparisis. Encontra ali o primeiro amor de sua vida: Laure de Berny, amiga da família, 22 anos mais velha que ele, casada com um fidalgo irascível, mãe de sete crianças. Amável e inteligente, atrai desde o início as simpatias de Balzac. percebendo, contudo, que provocaria uma tempestade se correspondesse aos sentimentos do admirador, tenta evitá-lo o quanto pode. E não pode muito. A mãe de Balzac e as três filhas mais velhas da amada tudo fazem para impedir a ligação. Mas o amor vence e resite por dez anos, transformando-se depois numa "amizade quase sublime". Em O Lírio do Vale, de 1835, Balzac celebra liricamente sua "dileta" sob o nome de senhora de Mortsauf, imagem da "perfeição terrestre", adorável criatura dotada das melhores qualidades físicas e espirituais.

Balzac, até então, não escrevera uma só linha da grande obra que projetara. As publicações folhetinescas esgotam-lhe tempo e energia. Precisa achar uma maneira de se manter com menor desgaste. Resolve transformar-se em editor, primeiro de obras alheias, depois das suas. Com recursos da família da senhora de Berny, monta uma editora; mas é obrigado a fechá-la e a volta a escrever para pagar as dívidas que contraíra. O desastre financeiro rende-lhe experiência e inspiração, que mais tarde lhe servirão como assunto de uma impiedosa sátira contra os meios editoriais.

Em meio a todas essas turbulências, Balzac encontra no escocês Walter Scott o modelo para a criação de uma obra verdadeiramente literária. Scott é famoso na época como o criador do romance histórico. Parte então para a Bretanha, ao norte da França, a fim de estudar de perto o cenário e pesquisar os documentos sobre a rebelião dos Chouans, monarquistas que se insurgiram contra a Revolução Francesa. Ao voltar a Paris, leva o manuscrito. Em 1829, aos trinta anos, publica-o, assinando seu nome pela primeira vez.

Os Chouans e A Fisiologia do Casamento abrem-lhe as portas dos mais importantes círculos literários. O êxito dos dois romances permite-lhe colaborar em periódicos e revistas de sucesso, ganhando muito mais. Consegue finalmente as condições materiais necessárias para se dedicar com sossego à realização das suas aspirações. Põe-se a escrever febrilmente, e em um único ano conclui, além de inúmeros artigos, dezenove novelas e romances e grande parte de Pequenas Misérias da Vida Conjugal, Beatriz, A Pele de Onagro e Catarina de Médicis. Com a ambição de se tornar um "historiador da sociedade contemporânea", Balzac abandona o romance histórico. De Walter Scott mantém apenas o processo narrativo: assim, o público pode visualizar facilmente os personagens e o ambiente, apresentados com minúcias.

Jovem cheio de planos e energia, Balzac monopoliza as atenções. Mais feio que bonito, com tendência à obesidade, veste-se ora em desalinho, ora com espalhafatoso dandismo. Tem o nariz disforme, rosto arredondado, cabelos longos e estranhos "olhos de ouro". Fala muito, e sempre de si próprio, dos livros que fizera e dos que planeja, das noites que passa em claro, tomando café incessantemente para se manter acordado e redigir. É a grandeza. Vai longe o tempo dos projetos cochichados a Laure, no escuro, para que a mãe não os escutasse.

A fama e o sucesso dá-lhe esperanças de vencer na política, e, em 1832, aos 33 anos, candidata-se a deputado. Mas não consegue os votos que esperava.

Em fins desse mesmo ano Balzac recebe uma carta da parte de uma mulher que apenas se assina "A Estrangeira" e lhe expressa admiração incondicional. Mais tarde descobre ser ela a condessa polonesa Eveline Hanska, casada e infeliz, muito mais velha que o romancista. Encontra-a pessoalmente pela primeira vez na Suíça e tornam-se amantes. Apesar de se avistarem esporadicamente, a relação entre ambos perdura até a morte de Balzac, e durante muitos anos se mantém somente através de volumosa correspondência.

A ligação com a senhora Hanska não o impede, porém, de viver efêmeras aventuras amorosas e de escrever. Nada no mundo o faria abandonar a literatura. Em 1834 termina Pai Goriot, iniciando o sistema de repetição de personagens de obra para obra. Percebe que poderia fazer romances sem começo nem fim, ligados uns aos outros como se fossem os diversos momentos da vida, preciosos fragmentos de um grande quadro social e psicológico. Ocorre-lhe a idéia de compor uma série de romances cíclicos, abrangendo todos os já escritos e excluindo apenas os que publicara sob pseudônimo. Um amigo, o marquês de Belloy, sugere-lhe que intitule o conjunto de A Comédia Humana, em contraposição à Divina Comédia, de Dante: nesta foram tratados os problemas espirituais do homem e da sociedade; naquela seriam analisados os dramas do mundo. Balzac esboça o plano: a obra iria se dividir em três partes: Estudo de Costumes, Estudos Filosóficos e Estudos Analíticos. A primeira compreenderia Cenas da Vida Privada, Cenas da Vida das Províncias (grupo a eu pertence Eugênia Grandet, publicado em 1833), Cenas da Vida Parisiense, Cenas da Vida Política e Cenas da Vida no Campo. Os Estudos Filosóficos (análise dos sentimentos) e os Analíticos (procura dos princípios) não foram sub-divididos Ao todo, A Comédia Humana engloba 95 romances, compostos de 1829 a 1848.

Seu objetivo inicial é elaborar uma espécie de tipologia social, mais científica do que artística, que supunha uma certa analogia da sociedade humana relativamente à vida animal. Desde logo o ousado projeto se revela, ao autor, incompatível com suas convicções religiosas. Limita-se a retratar os costumes de seu tempo, sublimando o poder e os perigos da imprensa, o papel da burocracia, a sede por dinheiro. Sobre esse pano de fundo da realidade social do século XIX, sua poderosa imaginação cria episódios e intrigas emocionantes.

Trabalhando quase 21 horas por dia (À Procura do Absoluto, As Ilusões Perdidas) e descansando pouquíssimo, ao cabo de um ano sua saúde está deteriorada. Engorda rapidamente, embora se alimente mal. Sente tonturas. Os editores, apesar dos lucros que usufruem com seus romances, continuam lhe pagando mal. Os credores vivem à sua porta. A senhora Hanska está presente só em cartas ou em encontros fugazes. Seu único consolo é a pilha de volumes que vai crescendo: O Contrato de Casamento, O Lírio do Vale (um de seus melhores romances, obra-prima de lirismo) e Memórias de uma Jovem Esposa.

Com a morte do conde Hanski, em 1841, Balzac pode unir-se a "A Estrangeira". Em seus sonhos de nobreza, ele a imagina sobrinha de Maria Leszczynska, a polonesa com que Luís XV se casara. Muitas vezes a própria Eveline Hanska tenta fazê-lov er que o parentesco com a rainha é mais uma de suas fantasias. Tendo conquistado a glória literária, só lhe falta pertencer realmente à aristocracia para sentir-se realizado.

O casamento tarda. Antes de levar para junto de si a mulher amada, Balzac quer pagar as dívidas e comprar uma casa que cobiçara nos seus primeiros dias de Paris, um belo palacete na rua Fortunée. Com a compra e a instalação, realizada com grande requinte, gasta dinheiro que não possui e tem de redobrar o trabalho. Está doente e enfraquecido; planeja vários romances; não executa nenhum. Sabendo que a ele restam poucos anos de vida, Eveline finalmente o desposa em 1850, em Berdtcheft.

"Não tenho mais força e poder senão para a felicidade, e, se esta não vier... nada mais desejarei no mundo", escreveria Balzac em Albert Savarus, de 1842. A felicidade não vem, nem há mais tempo. Acamado desde o retorno a Paris, não há como minorar o cansaço acumulado durante anos de trabalho incessante. Em 18 de agosto de 1850 seu estado se torna desesperador. O organismo debilitado já não reage. E Honoré de Balzac morre, aos 51 anos, sem ter sido um aristocrata, mas imortalizado como o grande retratista da burguesia do século XIX.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Shakespeare

William Shakespeare
1564 - Em abril, provavelmente no dia 23, nasce William Shakespeare, em Straford-on-Avon, Inglaterra.
1582 - Em 27 de novembro casa-se com Anne Hathaway.
1583 - Em maio nasce a filha Susanna.
1585 - Em fevereiro nascem os gêmeos Hamnet e Judith.
1592 - Depois de deixar Stratford e ir para Londres, William é reconhecido como um ator talentoso, bem como um grande poeta. Torna-se membro da companhia teatral Os Homens de Lord Chamberlain.
 1596 - O filho Hamnet morre com onze anos de idade. William torna-se "cavalheiro" quando seu pai recebe um brasão de armas do College of Heralds.
1597 - William compra uma casa à qual dá o nome de "The Great House of New Place" (A Grande Casa do Novo Lugar).
1599 - Em julho o Globe Theater é construído com as ruínas do The Theater.
1603 - Em mao a companhia teatral de Lord Chamberlain passa a se chamar Homens do Rei.
1613 - O Globe Theater pega fogo durante uma apresentação de Henrique VII. Shakespeare se aposenta e volta para sua terra natal.
1616 - Em 23 d abril, em Stratford, morre William Shakespeare, aos 52 anos. Em 26 de abril é sepultado na igreja de Stratford.


(*) Tragédias
A primeira grande obra de Shakespeare foi Romeu e Julieta, de 1594. Da segunda e maior fase da dramaturgia shakespeariana são Macbeth e Otelo, entre outras grandes tragédias. Reunidas em um só volume, aqui estão três dos mais consagrados trabalhos do autor, peças até hoje entusiasticamente aplaudidas nos palcos de todo o mundo.


Terceiro filho de John Shakespeare e Mary Arden, William Shakespeare nasceu emStratfor-on-Avon, a cinquenta qulômetros de Londres, em abril de 1564. Não há registro de seu nacimento, mas existena igreja local o registro de seu batismo, em 26 de abril. Na época, pr ser alto o índice de mortalidade de recém-nascidos, as crianças normalmente eram batizadas com dois ou três dias de vida. Dessa forma foi estabelecido, então, o dia 23 de abril como a data de seu nascimento.

William era neto de fazenderios, e seu pai era um próspero comerciante de couros que chegou a ser vereador na cidade de Stratford-on-Avon (o nome indica que a cidade se localiza às margens do rio Avon). William foi o terceiro filho de John e Mary, porém o primeiro que chegou à idade adulta. Londres e as regiões próximas, á época, eram constantemtne assoladas por epidemias de peste, e as duas irmãs mais velhas de William morreram ainda crianças.

Tudo que se sabe da juventude de Shakesperare é que ele provavelmente estudou na Stratford Grammar Shool, onde teria aprendido gramática e literatura latina. Grande parte de sua obra demonstra conhecimento do teatro romano, da história antiga e da mitologia clássic.

Não há registro de que Shakespeare tenha ido para a universidade. Sabe-se que William caosu-se com Anne Hathaway, oito anos mais velha que ele. Anne estava grávida de tr~es meses, e William, que estava com dexoito anos de idade, precisou de uma autorização especial para se casar, provavelmente na Temple Gafton Church. Antes de completar 21 anos William já era pai de três ciranças, sendo que duas eram um casal de gêmeos. Houve especulação de que fora um casamento sem amor e de que o relacionamento de William com a esposa estava longe de ser um mar de rosas.

No entanto, William sempre permaneceu leal - se não fiel - a Anne durante toda a vida, não tendo deixado nunca de visitá-la regularmente, depois que se mudou para Londres.

Nada se sabe sobre o período compreendido entre o nascimento dos gêmeos e a ascensão de William Shakespeare como ator, poeta e dramaturgo, em 1592. No entanto cogita-se que ele teria fugido de Stratford para Londres para escapar de um processo por ter caçado um veado em propriedade particular, e também que teria feito parte de um grupo de atores itinerantes e trabalhado como professor numa escola rural.

Em 1594 Shakespeare ingressou na companhia teatral de Lord Chamberlain, que mais tarde, no reinado de James I, receberia o nome de King´s Men (Homens do Rei).

Shakespeare permaneceu nessa companhia teatral até o final de sua carreira em Londres. Presume-se que, como ator, ele tenha representado o papel de personagens idosos, como o fantasma em Hamlet e o velho Adam em As You Kike It (comédia de 1599). Em 1596 a família de Shakespeare recebeu um brasão de armas, e em 1597 a condição financeira de William lhe permitiu adquirir uma imponente residência em Stratford, onde ele viveria até o final da vida.

Em 1599 tornou-se um dos sócios-proprietários do Globe Theatre. Em 1613 Shakespeare se aposentou e retornou a Stratford, depois que ocorreu um incêndio no Globe durante uma apresentação.

É graças á petulante declaração de um dramaturgo rival, Robert Greene, que hoje se sabe que em 1592 Shakespeare já adquirira reputação como ator e escritor. Numa publicação que circulava à época, Greene referiu-se e ele como "uma gralha emergente".

O trabalho inicial de Skakespeare para o teatro foi interrompido por uma epidemia de peste em Londres que levou as autoridades a fechar os teatros.

Nesse período, apoiado por Henry Wriothesley, prestigiado conde de Southampton, ele escreveu dois poemas narrativos eróticos: Vênus e Adônis, em 1593, e O Rapto de Lucrécia, em 1594, ale´m de 154 sonetos - publicados em 1609, embora já circulassem anteriormente em forma de manuscrito -, que expressavam agitação, frustração, homossexualismo e masoquismo. Essas obras estabeleceram a reputação de Shakespeare como um talentoso e popular poeta da Renascença.

Houve mais sessões especiais para apresentação das peças de Shakespeare nas cortes da rainha Elizabeth I e do rei James I do que para qualquer outro dramaturgo. Certa vez, porém, arriscou-se a perder as boas graças da corte quando, em 1599, sua companhia teatral apresentou "a peça de destituição e assassinato do rei Ricardo II", a pedido de um grupo de conspiradores contra a rainha Elizabeth. No inquérito que se abriu, a companhia foi absolvida de cumplicidade na conspiração.

Por volta de 1608 a produção dramática de Shakespeare diminuiu, e ele começou a passar mais tempo na residência da família em Stratford, onde desfrutava uma vida confortável, embora nunca tenha sido um homem rico.

Shakespeare foi pai de duas filhas. De Judith, a mais nova, não aprovava o namoro com Thomas Quiney, quatro anos mais jovem que ela e dono de uma taberna em Stratford. E não era sem motivo, pois, já comprometido com Judith, Thomas tinha um caso com uma mulher, que morreu ao dar à luz seu filho, na época do casamento com Judith. Shakespeare chegou a alterar seu testamento para que Thomas não pudesse se beneficiar da herança, cuja maior parte ficou para a filha Susanna, que foi quem deu a Shakespeare sua única neta, Elizabeth.

As histórias sobre a morte de Shakespeare não são comprovadas. A mais conhecida delas é a de que ele teria contraído uma febre fatal após um banquete com seus amigos escritores Michel Drayton e Ben Jonson. O registro de seu sepultamento data de 25 de abril de 1616, quando acabara de completar 52 anos.

A obra de Shakespeare é dividida em quatro períodos: o primeiro, até 1594; o segundo, de 1594 a 1600; o terceiro, de 1600 a 1608; e o quarto, após 1608. Ao longo desse tempo o estilo de Shakespeare evoluiu da retórica barroca ao lirismo despojado.

O primeiro período foi caracterizado, até certo ponto, em voga na época o gênero de peça histórica, e Shakespeare escreveu os afrescos Henrique VI entre 1589 e 1592 e Ricardo III entre 1592  1593. também se destacam nesse período as comédias ligeiras A Comédia de Erros, de 1592, A Megera Domada, escrita entre 1593 e 1594, e Os Dois Cavalheiros de Verona, de 1594, além da tragédia Tito Andrônico, de 1593-1594.

No segundo período o estilo e a abordagem de Shakespeare se tornaram altamente individualizados. Foi quando escreveu as peças históricas Ricardo II, Henrique IV e Henrique V, as comédias Sonho de Uma Noite de Verão, em 1595, O Mercador de Veneza, em 1596, Muito Barulho por Nada, em 1598, e As Alegres Comadres de Windsor, em 1600. Desse período são também as tragédias Romeu e Julieta, de 1594-1595, e Júlio César, de 1599.

As tragédias escritas no terceiro período são consideradas as obras de maior profundidade de Shakespeare. Nelas ele usa a linguagem poética como um instrumento extremamente dramático, capaz de registrar o pensamento e as várias dimensões de determinadas situações dramáticas: entre 1601 e 1606 escreveu Hamlet, Otelo, Macbeth e Rei Lear. São também desse período as comédias Tróilo e Créssida, Tudo Está Bem Quando Acaba Bem e Medida por Medida.

O quarto período é o do equilíbrio. Nele destacam-se as principais tragicomédias românticas do escritor: Tímon de Atenas, Cimbelina, Conto de Inverno e A Tempestade.

Nesse período Shakespeare escreveu também as peças históricas Antônio e Cleópatra e Coriolano.

Na opinião de muitos críticos, as tragicomédias significam o auge do amadurecimento de William Shakespeare, embora uma outra linha considere que essa evolução reflete simplesmente as mudanças de estilo no drama daquele período.

A obra dramática de Shakespeare funde uma visão poética e refinada com um forte caráter popular, no qual os assassinatos, as violações, os incestos e as traições são os ingredientes mais leves para o divertimento do público. Além disso, na época de Shakespeare os palcos consistiam em uma plataforma elevada ao redor da qual o público se sentava, como em uma arena. E a utilização dos temas antigos também contribuía para que os personagens de Shakespeare falassem ao coração da platéia.

Já houve cerca de trezentas adaptações das peças de Shakespeare para o cinema, entre elas diferentes versões de Hamlet, Otelo, Romeu e Julieta, Macbeth, Júlio César, Rei Lear e Sonho de Uma Noite de Verão. Até hoje suas peças são representadas nos teatros do mundo inteiro, sempre com muito sucesso.

Shakespeare é sempre atual. Sua mensagem atinge todas as classes sociais, religiões, ideologias políticas e estados da alma. Ele festeja o amor, os manjares, a bebida a música, a amizade, a conversação e a beleza variável e constante da Natureza. O homem que Shakespeare apresenta reflete sua experiência, senso comum e invulgar sabedoria.

Shakespeare sabia manejar a língua com inigualável mestria. A forma como falava de uma coisa fazia com que ela se materializasse. Condensava o Universo em monossílabos: "Ser ou não ser" é a questão mais complexa e profunda que se põe ao homem, traduzida pelas palavras mais curtas e simples. Sabia como tocar a alma humana.

Assim como conduz o homem aos limites da eternidade, Shakespeare remete-o para o comum da Humanidade. Ante o cadáver de Cordélia, o Rei Lear, atormentado pela dor, exclama: "Como é possível que um cão, um cavalo e um rato tenham vida, enquanto tu jazes inerte?". No auge do seu desespero, diz: "Não voltarás mais". E acrescenta:"Nunca mais, nunca mais,  nunca mais, nunca mias, nunca mais!" Em seguida, o dique que represava sua angústia cede com este pedido prosaico:"Por favor, desaperta-me este botão".

Só mesmo William Shakespeare poderia ter ousado empregar conceitos tão díspares em um momento tão dramático. Shakespeare sobrevive porque a seu respeito só se consegue dizer a penúltima palavra - nunca a última. Suas criações são tão opacas como as da própria vida. Seus personagens são imensamente desconcertantes.

Hamlet é dos personagens sobre a qual mais se tem escrito ao longos do séculos. No entanto, a única coisa que se sabe de Hamlet é que sua tragédia é ser Hamlet - como a de todos ser humano é ser o que é. Todas as épocas e todos os homens encontram sua imagem refletida no espelho universal de Shakespeare. Os ecos da sua paixão e da sua poesia ressoam no nosso espírito - e assim será, certamente, ainda por muito tempo.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Zola

Émile Edouard Charles Antoine Zola
1840 - Nasce em Paris, em 2 de abril, Émile Edouard Charles Antoine Zola, filho único de Francesco Zola e de Émile Aurélie Aubert.
1843 - A família muda-se para Aix-en-Provence.
1847 - Morre o pai, Francesco.
1852 - Tornase amigo do pintor Paul Cézanne, que estuda com ele no Collège Bourbon.
1858 - Muda-se para Paris com a mãe.
1959 - Primeira obra em prosa, As Costureirinhas de Provença.
1862 - Começa a trabalhar na Editora Hachette.
1864 - Publica Contos para Ninon.
1865 - Publica seu primeiro romance, A Confissão de Claude.
1866 - Demite-se da Editora para se dedicar à literatura.
1867 - Começa a escrever o romance Thérèse Raquin. Publica Os Mistérios de Marselha.
1868 - Passa a trabalhar no grandioso projeto História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império: Os Rougon-Macquart.
1870 - Casa-se com Alexandrine Méley.
1871 - Publica os dois primeiros volumes da série Os Rougon-Macquart: A Fortuna dos Rougon e A Presa.
1873 /1876 - Publica O Ventre de Paris, A Conquista de Plassans, O Crime do Abade Mouret e Sua Excelência Eugène Rougon.

Naná
Integrante de um ciclo de vinte romances, Naná descreve a trajetória da filha de uma lavadeira que, corrompida na adolescência, transforma-se na mais poderosa cortesã do Segundo Império francês. Escrito em 1880, provavelmente este seja o romance mais popular de Émile Zola, e um dos perfis de mulher mais explorados pelo cinema e pela literatura.


Filho único de Francesco Zola, um italiano que vivia em Aix-en-Provence, onde trabalhava na construção de um canal, e de Émilie-Aurélie Aubert, Émile Zola nasceu em Paris, em 2 de abril de 1840. Seu pai tinha 44 anos quando, em uma de suas viagens a Paris, conheceu Émilie, que ainda não completara vinte anos.

O menino mal conheceu o pai; em 1847 Francesco faleceu. Sozinha e com grande sacrifício, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer com que o filho estudasse.

Aos doze anos, no Collège Bourbon, tornou-se amigo do futuro grande pintor impressionista Paul Cézanne.

Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com a mãe para Paris, onde, graças a um amigo da família, conseguiu emprego na alfândega. O salário era muito bom, porém o mais penoso era ter de ficar preso no escritório. Além disso havia outro problema sério: o jovem não conhecia ninguém de Paris. Assim, sua única distração era escrever, para os amigos que deixara em Aix, longas queixas sobre a necessidade de ganhar a vida.

Nem a promoção a comissário da alfândega conseguiu entusiasmá-lo. Vivia sonhando com a natureza, as flores, os pássaros e as mulheres: enfim, a vida fora do escritório. E, de tanto sonhar, um dia descobriu que não poderia mais suportar "aquele mundo de comissários estúpidos". Largou tudo e foi morar em um sótão, alimentando-se de pão com alho e óleo, à maneira dos boêmios da época. Só não pensava em deixar Paris. Sentia que possuía talento literário, estava disposto a lutar para obter sucesso, e as probabilidades de consegui-lo eram maiores na capital. Em dezembro de 1859 concluía sua primeira obra em prosa, As Costureirinhas de Provença. Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito.  Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".

Enquanto a fama não vinha, distraía-se de várias maneiras: discutia literatura, escrevia poemas sob a influência de seus ídolos românticos, sonhava com o futuro e ainda encontrou tempo para se apaixonar por Alexandrine Méley, com quem se casaria em 1870.

Em 1862, com o objetivo de se aproximar um pouco mais do mundo literário, começou a trabalhar na Editora Hachette. Ali seu progresso foi rápido: logo tornou-se chefe de publicidade. Tinha um bom salário e a oportunidade de tomar contato com os escritores mais famosos da época. Por outro lado, aos poucos foi descobrindo que a literatura também era um comércio e que o valor de uma obra, em si, não bastava para imortalizar um autor sem ajuda de publicidade.

Enquanto trabalhava para vender os livros de outros, Zola escrevia também o seu: Contos para Ninon. Abandonara a poesia, pois a experiência lhe havia ensinado que os versos não vendiam bem. Recusado inicialmente por três editores, o manuscrito foi afinal publicado em 1864, e recebeu boa acolhida da crítica, embora não despertasse grandes polêmicas. Mas isso não importava. O fundamental era trabalhar muito para aumentar a renda e fazer-se conhecido. As dez horas diárias não lhe bastavam: Zola ainda escrevia artigos para o Petit Journal e para o Salut Public, de Lyon, além de redigir A Confissão de Claude, publicado em 1865. O livro foi vem recebido pela crítica, mas, como o anterior, não suscitou polêmicas. E Zola sabia que as polêmicas eram úteis ao sucesso de um escritor.

Por outro lado, começou a sentir que a Hachette lhe roubava um tempo precioso. Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.

Trocou o romantismo de seus anos de adolescência pelo realismo. Em 1867 começou a elaborar Thérèse Raquin, "um grande estudo fisiológico e psicológico". Entretanto, logo teve de interromper o trabalho para atender a uma encomenda: escrever o romance-folhetim Os Mistérios de Marselha. Apesar de não ganhar muito dinheiro com essa obra, com essa publicação Zola passou a ser conhecido em toda a região meridional da França.

Durante mais de dois anos Zola imaginou o projeto de sua nova obra. Um trabalho de muito fôlego composto de vários romances ligados entre si. Começou então a elaborar a História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império: Os Rougon-Macquart. O ano de 1870 surgia com ilimitada fé na ciência e no progresso, e parecia propiciar uma tarefa desse tipo.

Depois de convencer o editor Charpentier a financiar o projeto, o romancista afastou-se do mundo. Depois de viver enfiado nas bibliotecas por mais de uma ano, terminou a coleta de dados, foi para casa e começou a criar.

Não teria abandonado a mesa de trabalho não fosse a guerra franco-prussiana, em 1870, que o obrigou a refugiar-se em Bordeaux. Quando terminou o sítio dos inimigos, voltou a Paris. Mas em março do ano seguinte estourava a revolta dos operários, a Comuna. No meio de toda a agitação, míope e com um caderninho nas mãos, o escritor anotava tudo. Sua atitude despertou suspeitas, e ele acabou sendo preso pelos revoltosos. "Mas eu sou Émile Zola", protestou, "antigo republicano. Meus livros foram perseguidos pelo império! Sou um jornalista!" Seus protestos convenceram os líderes revolucionários, que o libertaram no dia seguinte. Mal deixou a cela, contudo, foi novamente preso, dessa vez pelos homens do governo. Soltaram-no graças à intervenção de Gustave Simon, filho do estadista Jules Simon. Ao sair da prisão, declarou: "A única coisa que me consola é não existir um terceiro governo que mande me prender amanhã".

Enquanto a revolução continuava lá fora, dentro de casa o escritor continuava seu trabalho. Apesar de todas as interferências, em 1871 apareceram os dois primeiros volumes da série: A Fortuna dos Rougon e A Presa. Zola estava ansioso por conhecer a opinião do público. Ficou preocupado ao notar uma reação negativa, e indignou-se quando teve notícias de que até cartas de denúncias estavam sendo enviadas ao procurador da República. Sua indignação, porém, só serviu para piorar as coisas: a publicação em folhetim de A Presa foi suspensa, sob acusação de obscenidade. Isso era demais para um autor que se considerava sério e puro. Sua defesa apareceria algum tempo depois no ensaio Da Moralidade na Literatura. Até 1876 publicou mais quatro volumes: O Ventre de Paris, A Conquista de Plassans, O Crime do Abade Mouret e Sua Excelência Eugène Rougon.

Estava com 36 anos e com uma enorme capacidade criadora. A crítica já acolhia com interesse suas obras. Entretanto, ainda não era um romancista de sucesso.

Em 1876 saiu A Taverna em folhetim, transformado em livro no ano seguinte, em dois volumes. Apesar de todas as críticas, o sucesso foi tão grande que, em poucas semanas, Émile Zola se transformou no mais célebre escritor francês.

O sucesso do romance não ficou apenas em frases elogiosas. O editor Charpentier reformulou os termos do contrato, para favorecer o escritor. Os jornais disputaram as obras seguintes de Zola, oferecendo fortunas para publicá-las em folhetim. Com todo esse dinheiro, o romancista comprou uma casa em Médan, e, enquanto os leitores ainda discutiam A Taberna, Zola começou a elaborar um novo livro, em estilo completamente diverso. Mas, como ele mesmo previra, Uma Página de Amor, de 1878, acabou decepcionando um público que cada vez mais desejava narrativas violentas.

O único consolo pelo fracasso foi a constante presença de um grupo de autores em sua casa. Dessas reuniões surgiu em 1880 Os Serões de Médan, com um conto de cada escritor; o de Zola chamava-se O Ataque do Moinho.

Nesse mesmo ano pôs-se a preparar um novo romance, Naná, em que descrevia a vida de uma cortesã. O sucesso foi enorme, sobretudo pelo tema ousado e pela criação realista dos personagens. Entretanto, como o escândalo havia sido responsável por grande parte desse êxito, os ataques vieram de maneira redobrada. Os que haviam elogiado A Taberna, por mostrar as fraquezas dos meios operários, rejeitaram Naná por denunciar os males de outras camadas sociais.

Em 1882 Zola publicou Panelada, e nos dois seguintes mais dois volumes da série dos Rougon: À Felicidade das Damas e A Alegria de Viver. Este tinha como tema a luta do grande comércio contra as pequenas lojas. Para escrever Germinal, publicado em 1885, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo do poço para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam. Descobriu as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, o sacrifício dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre o rosto deles, a dificuldade de empurrar uma vagoneta por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver.

A obra obteve enorme repercussão. Apesar de revelar um universo que muita gente não queria ver, Germinal é um livro tão poderoso que consagrou Zola como um dos maiores escritores de todos os tempos.

No ano seginte, 1886, lançou A Obra e começou a escrever A Terra, romance ambientado no campo, no qual pretendia pintar a vida dos camponeses, tal como fizera com os operários em Germinal. Publicado em 1887, A Terra logo transformou Zola num alvo de críticas violentas. Acusaram-no de indecente e de haver caluniado os camponeses. Os adversários do naturalismo não lhe davam folga.

Em 1888 o escritor conheceu Jeanne Rozerot, jovem de vinte anos com quem teve uma ligação amorosa, que resultou num casal de filhos. Nesse ano publicou O Sonho, obra em que demonstrou sua enorme facilidade de passar de temas violentos para assuntos mais amenos. Dois anos depois terminou A Besta Humana. Cansado da série Os Rougon-Macquart, os novos romances foram empobrecendo. Assim, os três últimos, publicados entre 1891 e 1893 - O Dinheiro, A Derrocada e O Dr. Pascal -, já não têm a força dos anteriores.

Quando terminou Os Rougon-Macquart, Zola estava com 53 anos. Havia escrito vinte romances, em 31 volumes, com 1200 personagens. Podia dar-se ao luxo de descansar. Mas ele queria continuar criando. O projeto da próxima obra já estava pronto: As Três Cidades, título que englobaria os romances Lourdes, Roma e Paris, publicados entre 1894 e 1898.

Em 1894 o capitão do Estado-Maior do Exército Alfred Dreyfus foi condenado à prisão perpétua na ilha do Diabo (Guiana Francesa), acusado de haver entregue à Alemanha documentos referentes à defesa nacional, um crime que não tinha cometido. As cartas que o capitão enviava do presídio gritavam por sua inocência com firmeza e convicção. O caso tornou-se público.

Três anos mais tarde Zola foi passar o inverno em Paris e tomou conhecimento de certos documentos relativos ao processo. Entusiasmou-se. Era a primeira vez, após trinta anos de literatura, que sentia uma motivação para agir muito superior à paixão por criar. Era preciso reparar a injustiça cometida diante de todo um povo.

O acaso acabou decidindo a maneira de entrar em ação: num passeio por Paris Zola encontrou-se com o diretor do jornal Le Figaro. Os dois conversaram sobre o caso e chegaram à mesma conclusão: Dreyfus era inocente. Pouco depois o jornal publicava um artigo do escritor referindo-se ao anti-semitismo (Dreyfus era judeu). No dia 14 de dezembro de 1897 Zola redigiu Carta à Juventude, em que fez um apelo para que os jovens lutassem pela revisão do processo.

Zola atacava, os adversários revidavam. Num artigo do Petit Journal, chegaram a colocar em dúvida a honra de seu pai. Com uma tiragem de mais de um milhão de exemplares, o jornal espalhava a mentira e o ódio nas vilas mais longínquas. Mesmo as pessoas que estavam convencidas da inocência do capitão Dreyfus continuavam caladas.

Zola, entretanto, não se deixou assustar. Em janeiro de 1898, publicou no Aurore a famosa carta J´Accuse (Eu Acuso), endereçada ao presidente da República, Félix Faure. Nela denunciava todas as partes obscuras do processo. A publicação abalou Paris. O escritor foi condenado a um ano de prisão e obrigado a pagar fiança.

A única solução era sair da França. Zola então partiu para a Inglaterra, onde começou a compor Fecundidade, o primeiro de seus Quatro Evangelhos. Só retornou a Paris para assistir à revisão do processo de Dreyfus. O capitão foi condenado novamente, e Zola, num artigo violentíssimo, fez explodir toda sua indignação. Finalmente, em 1899, Dreyfus foi libertado. E o romancista, por ter sido um dos grandes responsáveis por essa vitória, recebeu um convite de editores ingleses para escrever sobre o caso. No entanto, recusou, pois julgava o fato de interesse exclusivamente francês.

Em 1901 as associações operárias organizaram um banquete para festejar a publicação de seu segundo evangelho, Trabalho, e para homenageá-lo por sua atuação no caso Dreyfus. Em agosto do ano seguinte terminou a redação de Verdade, o terceiro evangelho. No mês seguinte foi a Paris. O apartamento desabitado havia alguns meses estava bastante úmido. Zola ligou o aquecedor e adormeceu ao lado da esposa. À noite Alexandrine acordou com o corpo extremamente fatigado. Cambaleando, sentindo um mal-estar geral, chegou até o banheiro e vomitou. Quando voltou ao quarto, viu Zola já acordado. Contudo, os dois não conseguiam conversar, pois ele também se sentia mal. Tentou levantar-se mas perdeu os sentidos. Alexandrine esforçou-se para ajudá-lo, mas desmaiou também.

Somente às nove horas da manhã do dia 29 de setembro é que os empregados decidiram arrombar a porta do quarto. Alexandrine foi transportada imediatamente para uma clínica e salvou-se. Zola, entretanto, morreu asfixiado pelo gás do aquecedor. Não houve tempo para que escrevesse o último dos quatro evangelhos: Justiça. Seu corpo foi enterrado em 5 de outubro no Cemitério de Montmarte, com honras nacionais.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Henry Fielding

Henry Fielding

1707 - Nasce em 22 de abril, em Sharpham Park, condado de Somerser, Henry Fielding, filho de Edmund e Sara Fielding.
1718 - Morre a mãe de Henry, Sara Fielding. Henry frequenta o colégio na cidade de Eton.
1726 - Inicia o curso de Direito em Leiden.
1728 - Muda-se para Londres. Encena sua primeira comédia, O Amor sob Diversas Máscaras.
1730 - Apresenta as comédias O Galante do Templo, A Farsa do Autor e Thomas Ressuscitado ou A História Completa da Vida e das Maravilhosas Ações de Tom Thumb.
1734 - Em novembro casa-se com Charlotte Cradock.
1736 - Estréia a peça burlesca Pasquin, com grande êxito.
1737 - Estréia a peça satírica Registro Histórico para 1736. Em novembro Fielding retoma os estudos de Direito. Funda o jornal O Campeão.
1740- Fielding passa a trabalhar no fórum londrino.
1741 - Samuel Richardson publica o romance Pamela.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

domingo, 13 de outubro de 2013

Alexandre Dumas Filho

Alexandre Dumas Filho

1824 - Em 27 de julho, nasce em Paris Alexandre Dumas, filho natural do escritor Alexandre Dumas.
1831 - Seu pai o reconhece legalmente como filho e reivindica sua guarda na justiça.
1840 - Manda imprimir uma coletânea de versos de sua autoria, intitulada Pecados da Minha Juventude.
1842 - Viaja à Itália em companhia do pai.
1844 - O pai se separa da esposa, e Alexandre Dumas passa a morar com ele. Apaixona-se pela cortesã Marie Duplessis.
1845 - Parte com o pai em uma viagem à Espanha e à África.
1847 - Escreve As Aventuras de Quatro Mulheres e um Papagaio. Recebe a notícia da morte de Marie Duplessis. É publicado o romance A Dama das Camélias.
1850 - Escreve o romance Tristan le Roux.
1852 - A Dama das Camélias (*) é encenada no palco pela primeira vez. Inicia um relacionamento com Nadine (Nadja Naryschkine).
1853 - Publica Diane de Lys. Giuseppe Verdi apresenta em Veneza a ópera La Traviata, baseada em A Dama das Camélias.
1855 - Publica Le Demi-Monde.
1857 - Em maio nasce a filha Jeanine. Publica A Questão do Dinheiro.
1858 - Publica O Filho Natural.
1859 - Publica Um Pai Pródigo.
1860 - Em novembro nasce a segunda filha, Colette.
1864 - Nadice fica viúva. Dumas e ela se casam. Dumas reconhece publicamente a paternidade das duas filhas de seu relacionamento com Nadine.
1867 - Escreve As Idéias de Mme. Aubray e o romance semi-autobiográfico L´Affaire Clémenceau.
1874 - Ingressa na Academia Francesa de Letras.
1876 - Publica A Estrangeira.
1885 - Escreve Denise.
1894 - É condecorado pela Legião de Honra.
1895 - Morre Nadine, sua esposa. Dumas casa-se com Henriette Régnier, 27 anos mais nova que ele. Morre em 27 de novembro, em Marly-le-Roy.

(*) A Dama das Camélias
Obra clássica do Romantismo, A Dama das Camélias conta a história de amor avassaladora de um jovem da alta burguesia francesa, Armand Duval, por uma belíssima plebéia do interior, Marguerite Gautier. Apesar do rico lirismo que reveste a narrativa, a ousadia realista do tema chocou - e ao mesmo tempo fascinou - a sociedade francesa da época.

(*) Os Três Mosqueteiros
Romance de capa e espada mais famoso de todos os tempos, Os Três Mosqueteiros mescla realidade e fantasia. Na França do século XVII um jovem pobre do interior, d´Artagnan, chega a Paris decidido a tornar-se um dos mosqueteiros do rei Luís XIII. Alia-se a Athos, Porthos e Aramis e, juntos, participam de guerras, duelos, romances perigosos e muitas intrigas.

Sob o reinado de Luís XVIII, neto de Luís XV, a França vive um momento político de grandes definições. Napoleão Bonaparte, em 1815, é finalmente derrotado pelos ingleses e enviado á ilha de Santa Helena. A França recupera seu prestígio internacional e vive um período economicamente próspero. Com a morte de Luís XVIII, em 1824, sobe ao trono seu irmão Carlos X.

Nesse ano, em 27 de julho, nasce em Paris Alexandre Dumas, conhecido como Dumas fils, filho natural do escritor Alexandre Dumas père - o célebre autor de O Conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros, entre outros -, e da costureira Marie-Catherine Labay.

Quando criança, Dumas é vítima de provocações maldosas dos colegas, que o chamam de "bastardo". A triste lembrança desse período o acompanharia até o fim da vida.

Quando Alexandre Dumas pai, em 1831, alcança o auge de sua reputação literária e, consequentemente, uma situação financeira estável, reconhece publicamente a paternidade e exige a guarda do filho. A mãe tenta fugir com a criança, mas não consegue.

O pequeno Dumas é bastante parecido com o pai, mas apenas nos traços. Sua constituição física é diferente, e ele possui uma expressão séria e pensativa e um temperamento calmo e disciplinado.

Alexandre Dumas esmera-se na educação do filho e o matricula em colégios renomados, como a Instituion Goubux e o Collège Bourbon. Ao descobrir que herdara do pai a imaginação brilhante e o talento intelectual, Dumas decide abandonar os estudos para dedicar-se à literatura. Com dezesseis anos manda imprimir uma coleção de versos intitulada Pecados da Minha Juventude.

Em janeiro de 1842, com dezesseis anos, acompanha o pai em uma viagem à Itália. No ano seguinte retorna ao colégio para concluir os estudos. Dumas filho tem, nessa época, enormes dívidas.

Em 1844 Dumas pai separa-se da esposa, e o filho passa a ser seu companheiro. Dumas o introduz na sociedade dos artistas e escritores franceses, e juntos vão ao teatro, a festas e a recepções de gala. É em uma dessas ocasiões que Dumas filho conhece Marie Duplessis, uma jovem cortesã da sua idade, por quem ele se apaixona. Mas Marie está gravemente doente, acometida por tuberculose. Duplessis é amante de altas personalidades, mas isso não o impede de sentir por ela um grande e verdadeiro amor. Dumas está deslumbrado por sua elegância e sua vida de luxo.

Logo depois Dumas parte na companhia do pai em uma demorada viagem à Espanha e à África. Em fevereiro de 1847, no caminho de volta, ao passar por Marselha ele recebe a notícia do falecimento de Marie. Nesse mesmo ano Dumas escreve As Aventuras de Quatro Mulheres e um Papagaio e vários outros romances. Inspirado em Marie Duplessis, ele cria a personagem Marguerite Gautier, na célebre obra A Dama das Camélias, que retrata o trágico relacionamento amoroso de uma cortesã com o jovem parisiense Armand Duval. Publicado em 1848, esse romance reflete a mudança de conceito sobre o amor e a família em meados do século XVIII.

A história tem uma repercussão discreta. Dumas decide adaptá-la para uma peça de teatro; porém, no início, as companhias teatrais e os atores se recusam a montá-la por considerá-la imoral. Finalmente, em 1852, ela é representada no Théâtre du Vaudeville e alcança êxito imediato, não só na França  mas também em outros países da Europa e na América do Norte. É como se o público se identificasse imediatamente com o drama da heroína. O sucesso estrondoso de A Dama das Camélias possibilita a Dumas saldar parte de suas dívidas e ajudar a mãe.

Há um fato curioso a respeito dos nomes dos personagens dessa obra. Próximo à sepultura de Marie Duplessis há um túmulo como nome "Marguerite Gautier" gravado na lápide. É possível que o nome da personagem de seu romance tenha vindo daí, durante uma visita de Dumas ao cemitério. Além disso, existe também uma semelhança entre o nome do personagem Armand Duval e o seu próprio, Alexandre Dumas.

Em 1852 Dumas Filho começa a ter um relacionamento com Nadine Naryschkine, casada com o embaixador da Rússia na França, príncipe Alexandre Naryschkine, vinte anos mais velho do que ela. Desse relacionamento nasceriam Jeanine, em 1857, e Marie Alexandrine Henriette, apelidada de Colette, em 1860. Com Jeanine, Dumas troca correspondências regularmente, ao longo da vida. É sua filha predileta. O relacionamento extraconjugal de Nadine contribuiria para encurtar os dias do embaixador. Depois da morte do marido, Nadine e Dumas Filho, que têm uma convivência já de doze anos, se casam. Dumas então reconhece publicamente suas duas filhas.

Em 1853 o compositor italiano Giuseppe Verdi apresenta em Veneza, com grande sucesso, a ópera La Traviata, uma adaptação da obra A Dama das Camélias. NO século XX, importantes atrizes, como Sarah Bernhardt e Greta Garbo, interpretariam no cinema e no teatro a personagem de A Dama das Camélias, Marguerite Gautier.

Embora o amor proibido tenha sido sempre um tema predominante no teatro francês, para Dumas ele é quase uma obsessão. As onze peças escritas antes de 1880 apresentam o tema do amor ilícito, entretanto Dumas se considera um moralista e um educador, posição que parece um tanto contraditória.

Dumas escreve outros romances que também são adaptados para o palco e que se transformam em peças notáveis por sua habil construção. Diana de Lys, de 1853, trata do mesmo tema de A Dama das Camélias e é baseado no relacionamento do escritor com a esposa do embaixador da Rússia. Le Demi-Monde, escrita em 1855, é considerada a melhor de todas as obras dramáticas de Alexandre Dumas Filho. Alguns críticos chegam a classificá-la como um modelo exemplar do teatro do século XIX. O tema difere das duas primeiras na medida em que retrata as tentativas de uma mulher inteligente porém socialmente discriminada de reintegrar-se na sociedade.

A pela gerou muita discussão, por retratar a falsidade e a frivolidade da sociedade francesa. Em suas peças posteriores, Dumas expressa sua revolta contra o moralismo romântico, a riqueza excessiva, o puritanismo da burguesia, ataca os preconceitos sociais e levanta questões sociais e psicológicas relacionadas a dramas familiares, prostituição, adultério, divórcio e condição feminina.

Com base em sua própria experiência de vida e na personalidade de seu pai, Dumas publica, em 1858, O Filho Natural e, em 1859, Um Pai Pródigo.

Em 1867 Dumas publica um romance semi-auto-biográfico, L´affaire Clémenceau, considerado uma de suas melhores obras.

Em 1874 Alexandre Dumas Filho é admitido na Academia Francesa de Letras. Durante mais de trinta anos dominaria os palcos franceses, com peças que defendem uma moral mais livre, com a igualdade sexual entre homem e mulher, o perdão à jovem que peca por amor, o ódio ao sedutor e à hipocrisia da sociedade que força o homem a matar a mulher adúltera. Em suas obras Alexandre Dumas enfatiza a importância do casamento e o propósito moral da literatura. Entusiasticamente aplaudido por uns e causticamente criticado por outros, Dumas provoca amplas e complicadas discussões e opiniões divergentes pela forma como trata a questão moral. Obviamente trata-se de um escritor sério e coerente, de um genuíno pensador, embora sua paixão pelo paradoxo e pelo efeito dramático por vezes lhe dê um ar de artificialidade. De uma maneira ou de outra, entretanto, seu sucesso é extraordinário e inegável.

Em 1894, é condecorado pela Legião de Honra (Légion d´Honneur), a mais alta ordem de mérito do Estado francês, concedida a civis e militares, por sua contribuição à nação.

Após a morte de Nadine, em 1895, Dumas casa-se com Henriette Régnier, que era sua amante havia oito anos. Alguns meses depois, em 27 de novembro, o escritor morre em Marly-le-Roy, deixando inacabada sua última peça, Le Retour de Thèbes.

Alexandre Dumas Filho está sepultado no cemitério de Montmartre, a pouca distância do túmulo de sua heroína, Marie Duplessis.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sábado, 12 de outubro de 2013

Gógol

Gógol

1809 - Em 19 de março, nasce na província de Poltava, Ucrânia, Nicolai Vassílievitch Gógol, filho de Vassíli Afanássievitch Gógol-Ianóvski e Maria Ivanovna.
1820 - É enviado ao liceu de Poltava, juntamente com seu irmão Ivan.
1821 - Morre seu irmão Ivan. É enviado para o liceu de Niêjin.
1825 - Morre o pai de Gógol.
1826 - Dirige A Estrela, revista elaborada pelos alunos do liceu de Niêjin.
1828 - Parte para a capital da Rússia, São Petersburgo, em companhia do amigo Danilévski.
1829 - Publica o poema Hans Kuchelgarten, sob o pseudônimo de V. Alov. Parte para a Alemanha em agosto. Em setembro reTorna a São Petersburgo.
1831 - Publica o conto A Noite de São João na revista mensal Letras Patrióticas. Em março passa a lecionar no Instituto Patriótico das Jovens Nobres. Em julho conhece o poeta Púchkin. Em setembro publica o primeiro volume de Noites na Fazenda perto de Dikanka.
1832 - Viaja para sua terra natal.
1834 - É nomeado professor-adjunto de História na Universidade de São Petersburgo.
1835 - Publica Arabescos e Mirgórod. Escreve O Inspetor Geral e começa Almas Mortas.
1836 - Estréia da peça O Inspetor Geral. Em junho parte para o exterior com o amigo Danilévski.
1842 - Publica Almas Mortas (*). Dá início ao segundo volume dessa obra.
1843 - Queima pela primeira vez manuscritos da segunda parte de Almas Mortas (*).
1846 - Começa a publicar Extratos de uma Correspondência.
1847 - Publica Confissões de um Autor.
1848 - Em janeiro viaja para a Terra Santa Chega a Jerusalém em 18 de fevereiro.
1849 - Termina de escrever a segunda parte de Almas Mortas.
1852 - Queima todos os seus manuscritos. Morre em 21 de janeiro.


(*) Almas Mortas
Publicado em 1842, Almas Mortas conta a história de um aventureiro que compra, a baixo preço. os camponeses russos mortos desde o último censo, mas ainda vivos nas listas do fisco. Uma trapaça que permite traçar um panorama da vida da província e um esboço do homem russo por inteiro, pelo seu lado negativo. Gógol iniciou um segundo volume de Almas Mortas, mas em um momento de angústia acabou queimando os manuscritos. Alguns anos depois retoma a continuação da obra e a conclui, mas pouco antes de morrer queima novamente os originais.


Amanhece em São Petersburgo. Acordado de seus sonhos, Nicolai Vassílievitch Gógol esfrega os olhos, passa água sobre o rosto e sente o impacto do primeiro dia na  capital. Corre até a janela para olhar o Nieva. Mas não há Nieva algum. Olha para Danilévski, que ainda dorme, para todos os cantos do pequeno quarto, e não pode conter a sensação de um ódio inexplicável. Nada é como imaginava.
No dia seguinte e nos outros será a mesma coia. Aquela sensação de perplexidade o acompanhará pelas ruas cheias de marasmo. E estará com ele quando voltar para casa, conversar com Dnailévski, olhar para o lugar onde deveria estar o rio Nieva e escrever para sua mãe.

O pai, Bassíli Afanássievitch Gógol-Ianósvki, falecido em 185, tinha sido um proprietário qeu empregava mais de cem "almas" - assim eram chamados os servos. A mãe, Maria Ivánovna, amava o marido e os filhos de maneira apaixonada. Era uma mulher de extraordinária sensibilidade. Transmitiu ao pequeno Gógol sua personalidade contraditória e um intenso sentimento religioso que o levaria ao misticismo.

Já na infância aconteciam coisas que o deixavam perdido entre a fé e o temor. muitas vezes ouvia vozes que chamavam seu nome - segundo crenças populares, isso significava presságio de morte. Então ele fugia e procurava alguém que pudesse protegê-lo. Quando as vozes o deixavam, sorria e encarava o mundo com coragem e felicidade.

Seu mundo começou no dia 19 de março de 1809, na província de Poltava, Ucrânia. Um universo fantástico bem maior que a paisagem estranhamento dividida: de um lado, enormes áreas desocupadas; de outro, grandes glebas de terra pertencentes a poucos proprietários. Para servi-los havia as "almas", que com seu suor semeavam a terra, sem nunca possuí-la.

Desde menino ouvia as canções do folclore russo, ia às feiras, assistia aos teatrinhos de fantoches, escutava lendas e fábulas e aos poucos, assimilava o modo de pensar de seu povo.

Em 1820 foi enviado ao liceu de Poltava, junto com seu irmão Ivan. Com as férias de verão vieram também os ventos  misteriosos que carregaram a vida de Ivan. Ficou sem saber o significado da vida e da morte, perdido entre o luto as lágrimas e o vazio.

Em 1821 Gógol seguiu para o liceu de Niêjin levando uma bagagem de sentimentos conturbados. Talvez por isso nunca tenha se integrado de fato aos colegas e professores. Após a morte do pai, parecia que nada mais havia a fazer em Niêjin. Gógol começou então a sonhar com São Petersburgo. Quando deixou Niêjin, em 1828, viveu durante seis meses com a mãe e os irmãos. Depois partiu para a capital em companhia do amigo Danilévski.

Gógol sabia que como simples escriturário nunca poderia realizar seus projetos. O emprego serviria apenas para satisfazer às necessidades mais urgentes, e logo percebeu que o salário não bastaria para fazê-lo sobreviver, e acabou pedindo ajuda à mãe.

Na verdade, ele já havia feito algumas tentativas de manter-se por si mesmo. Em 1829 publicou Hans Kuchelgarten. O poema, assinado com o pseudônimo de V. Alov, refletia as primeiras influências literárias. Contudo, a obra era inferior à produção dos poetas médios da época. A crítica reagiu de forma tão negativa que Gógol, tomado de desespero, correu às livrarias, recolheu os exemplares ainda existentes, levou-os para casa e queimou-os.

A essa experiência seguiu-se uma enorme angústia, que o fez partir para o exterior no primeiro navio que encontrou. Em agosto chegou à Alemanha; em setembro estava de volta a São Petersburgo, em péssima situação financeira. Mais tarde conseguiu emprego e foi morar com dois amigos.

Enquanto ia sobrevivendo apertadamente, o jovem Gógol prestava atenção no rumo que as coisas tomavam em seu país. Os intelectuais revelavam crescente preocupação com os problemas do povo russo, sobretudo com o analfabetismo da maior parte da população.

Reprimidos pela censura, tendo universidades e jornais sufocados por inspeções militares, os intelectuais viam a literatura como único meio de divulgar idéias novas. Assim, foi a partir de 1830 que a literatura russa conseguiu suas primeiras vitórias, apesar das repressões.

Essa mudança abriu novas perspectivas a Gógol, que passou a colaborar na revista Letras Patrióticas. Seu primeiro conto, A Noite de São João, saiu em fevereiro de 1831. Foi o suficiente para fazê-lo trabalhar intensamente em sua nova obra. Noites na Fazenda perto de Dikanka. Em março abandonou o emprego burocrático para dar aulas no Instituto Patriótico das Jovens Nobres.

Em julho desse mesmo ano conheceu o poeta Púchkin e, durante um mês, encontraram-se todos os dias. Púchkin não havia lido nada do jovem estreante; depois de alguns contato, percebeu-lhe a inexperiência, o espírito conturbado, a cultura deficiente. Mas também descobriu a maior característica literária de Gógol: saber mostrar como ninguém a superficialidade do homem vulgar.

Ainda em setembro desse ano, Gógol - agora quase um discípulo de Púchkin - publicou o primeiro volume de Noites na Fazenda perto de Dikanka. O segundo volume da obra, publicado em março de 1832, repetiu o êxito anterior. A obra é uma coleção de contos sobre os costumes populares de sua terra que se destaam o humor fantástico e a superstição.

Logo no início de abril Gógol resolveu visitar a terra natal, onde passou seis meses.

Em outubro retornou a São Petersburgo, levando consigo as irmãs, que iam estudar no Instituto Patriótico. Sentiu-se um pouco triste, angustiado, alguns dias após a chegada. Faltava-lhe inspiração. E assim passou todo o ano de 1833, queixando-se aos amigos sobre sua falta de imaginação.

Precisava atirar-se a uma obra que exigisse todos o seu potencial. Talvez uma História Universal em oito ou nove volumes. Mas para escrevê-la necessitava de maiores conhecimentos e de experiências mais intensas, que só conseguiria dando aulas. Em julho de 1834 obteve uma vaga de professor-adjunto na Universidade de São Petersburgo. No entanto apenas sua primeira aula causou boa impressão, pois as seguintes demonstraram claramente que ele havia esgotado todo seu conhecimento e todas suas idéias na aula de estréia.

No fim desse ano, consciente de seu fracasso Gógol demite-se. Mas não recaiu nas crises de angústia. Ao contrário, logo no início de 1835 pôs-se a trabalhar com vontade: em fevereiro sai o volume Arabescos, que reuniu dados biográficos, conferências e os contos A Perspectiva Nevski, Diário de um Louco e O Retrato. A mesma série de contos ambientados em São Petersburgo pertencem O Nariz, de 1835, e O Capote, de 1842, possivelmente inspirado nas experiências do escritor como frustrado funcionário público. O Nariz é a história de um homem que acorda e sente falta de seu nariz. O tema irreal e humorístico oculta um significado bastante verdadeiro, a perda da segurança cotidiana provocada por uma situação inesperada.

O Capote conta a história de um modesto funcionário que, com enorme sacrifício, consegue economizar dinheiro para comprar um capote. Porém a vestimenta logo é roubada. Vítima de um destino infeliz, ele adoece e morre. Seu fantasma passa a roubar capotes durante a noite.

Em março de 1835 foi publicado Mirgórod, coletânea de contos de inspiração popular com sabor humorístico. Dentre todos, o conto que recebeu a melhor acolhida por parte do público foi Taras Bulba, escrito nos padrões de uma novela histórica. Ainda nesse ano nasceu O Inspetor Geral, que sairia em 1836, e começou a elaborar Almas Mortas. Ainda em 1835 Gógol retornou à universidade. Queria fazer mais uma tentativa de firmar-se como professor e, ao mesmo tempo, prosseguir nos estudos que lhe possibilitariam escrever sua volumosa História Universal. Em dezembro desse ano demitiu-se de novo, abandonando para sempre o magistério e a obra histórica.

No ano seguinte, sua maior preocupação foi montar a comédia O Inspetor Geral, que estreou em abril. As opiniões do público e da crítica dividiram-se, embora ninguém tivesse percebido mais que o significado aparente da peça.

Gógol, que só prestava atenção ás críticas negativas, mergulhou novamente em crises de angústia. Em 6 de jnho de 1836 deixou São Peterburgo acompanhado de Danilé-vski. Após ter passado um longo período viajando pela Alemanha, França e Suíça, Gógol chegou a Roma em maro de 1837. Na bagagem levava os primeiros capítulos e Almas Mortas, sua obra mais importante.

Embora estivesse ainda muito abatido, pôs-se a trabalhar com afinco. Distante de seu país, as coisas lhe pareciam mais claras. Estava quase alcançando o equilíbrio emocional quando recebeu uma notícia que o deixou totalmente prostrado: o poeta Púchkin acabara de morrer num duelo. Gógol pensava apenas em morrer. Deitava-se na cama e ficava esperando a morte. E ela não chegava. Quando terminou o ano de 1838, levantou-se do leito e procurou encarar a vida com novo lento. Foi com esse ânimo que Jukóvski o encontrou no início de 1839. Gógol ficou  sabendo que suas irmãs haviam deixado o Instituto Patriótico e estavam precisando de emprego. Ajudado pelo amigo, retornou à Rússia poucos meses depois.

Chegou a Moscou em setembro, apreensivo e triste. Não se demorou na cidade. Poucos dias depois, tomou o caminho de São Petersburgo. Lembranças sombrias assaltaram-no. Sentiu que não poderia ficar ali por muito tempo. Mas não tinha recursos para lançar-se a nova viagem. Os amigos compadeceram-se dele. Poetas, romancistas, sonhadores, todos reuniram suas minguadas economias, e, ao fim de alguns messes, entregaram-lhe uma pequena fortuna: 4.000 rublos. Em junho de 1840 Gógol estava outra vez em Roma, bem longe dos críticos e dos nevoeiros russos.

Novamente foi tomado por presságios de morte. Depois de uma fase de crises respiratórias e distúrbios cardíacos, mandou chamar um padre, certo de que fosse morrer. Mas sobreviveu, e passou a acreditar que Deus o ressuscitara. Em agosto de 1841 viajou para a Rússia com o manuscrito completo de Almas Mortas. Seu estado nervoso, já bastante grave, piorou quando teve de enfrentar a censura, que pretendia fazer enormes cortes em seu livro. As objeções começavam pelo título, que, segundo os censores, ridicularizava o dogma cristão da imortalidade da alma. Apesar de todos os contratempos, a obra foi publicada graças à intervenção de alguns amigos.

Almas Mortas e um retrato fiel da Rússia da época, quando ainda reinava o regime de servidão. Os bens de um proprietário eram avaliados pela quantidade de "almas" (servos) que ele possuía e pelas quais pagava um imposto. O poeta Púchkin sugeriu ao escritor a seguinte situação: um esperto proprietário compra as "almas" mortas por um preço baixo e hipoteca-as como vivas, com grande lucro. Gógol aproveitou a idéia para levar o leitor a uma viagem por toda a Rússia, descrevendo as condições do povo.

Preocupado com a impressão negativa do povo russo que sua obra transmitia, Gógol decidiu escrever mais dois livros, nos quais os personagens seriam reabilitados.Em 1843 iniciou o segundo volume da obra. Todavia, acometido de uma de suas crises, queimou os manuscritos.

Emocionalmente, sobrevivia equilibrando-se numa tênue linha, cercado por medo, calafrios e angústias. Em 1846 começou a publicar Extratos e uma Correspondência, que provocou nos leitores e críticos uma reação bastante desfavorável. Era a primeira vez que um escritor se abria com tanta sinceridade. Mas essa honestidade, para a Rússia da época, significava escândalo.

Gógol já não sabia o que fazer. No ano seguinte publicou Confissões de um Autor, em que expressou seus protestos contra as críticas que vinha sofrendo. De nada adiantou. Todos estavam contra ele: amigos, inimigos, políticos, revolucionários, liberais, moderados, a família imperial e os literatos.

Suas crises tornaram-se cada vez mais violentas. Em janeiro de 1848 partiu para a Terra Santa. De retorno á Rússia, pôs-se a peregrinar pelo interior do país. Procurava conhecer melhor seu povo para dar continuidade a sua obra. Finalmente, em 1849 concluiu a segunda parte de Almas Mortas.

Já fazia algum tempo que o escritor estava estreitamente ligado ao padre Mateus Konstantinóvski, que professava a negação da Vida, da Arte e do Homem Criador. Gógol tentava resistir a suas influências, mas, cansado de lutar, passou a aceitar a ideia da morte como uma senda de salvação. Não só desistiu de publicar o livro como resolveu destruí-lo. Na noite de 11 de fevereiro de 1852 acordou o criado e mandou-o queimar os manuscritos. Depois caiu de cama e ficou inerte, esperando a chegada da morte. Deixou de se alimentar e de ingerir qualquer remédio, dizendo: "É preciso que vocês me deixem, porque sei que devo morrer". Em 21 de fevereiro, por fim, cumpriram-se os presságios.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Eça de Queirós

Eça de Queirós
1845 - Nasce em 25 de novembro, em Póvoa de Varzim, Portugal, José Maria Eça de Queirós, filho de José Maria Almeida Teixeira de Queirós e Carolina Augusta Pereira de Queirós.
1849 - Em 3 de setembro seus pais se casam. Eça é entregue aos avós paternos, após viver na casa de sua ama até os quatro anos de idade.
1855 - É matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto.
1861 - Eça de Queiróz faz o preparatório para ingressar no curso de Direito na Universidade de Coimbra.
1865 - Trava conhecimento com Antero de Quental, deflagrador da Questão Coimbrã.
1866 - Eça forma-se em Direito e vai para a casa paterna, em Lisboa. Participa das reuniões do Cenáculo. Funda e dirige o jornal de oposição O Distrito de Évora.
1871 - Realizam-se as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, logo proibidas pelo governo.
1872 - O escritor é nomeado cônsul nas Antilhas espanholas.
1874 - É transferido para o consulado de Newcastle-on-Tyne, na Grã-Bretanha.
1875 - Publica O Crime do Padre Amaro.
1878 - Assume o consulado de Bristol, também na Grã-Bretanha. Publica O Primo Basílio.
1880 - Publica O Mandarim.
1886 - Casa-se com Emília de Castro Pamplona, filha de seu amigo conde de Resende.
1887 - Publica A Relíquia. Nasce sua filha, Maria de Castro d´Eça de Queiróz.
1888 - Graças à influência política de seu amigo Oliveira Martins, é nomeado cônsul em Paris. Nasce o filho José Maria d´Eça de Queirós. Publica Os Maias.
1889 - Integra o grupo Vencidos da Vida. Fundo a Revista de Portugal, pela qual publica Correspondência de Fradique Mendes. Nasce o filho Antônio d´Eça de Queirós. 
1891 - Traduz As Minas do Rei Salomão.
1894 - Nasce o último filho, Alberto d´Eça de Queirós.
1900 - Publica A Ilustre Casa de Ramires. Eça de Queirós morre em Paris, em sua casa de Neuilly.
1901 - Publicação póstuma de A Cidade e as Serras (*).
1925 - Publicação póstuma de A Capital.


(*) A Cidade e as Serras
Romance publicado postumamente, A Cidade e as Serras é uma magnífica crítica dos tempos "modernos", uma sátira ao culto da tecnologia. 
Um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos, Eça de Queiroz retrata com elegância o estilo de vida que anuncia o século XX contrapondo o estilo de vida em Paris, mais requintado, às virtudes da vida rural portuguesa.


Sob o reinado de D. Maria II, que começará a reinar em 1834, aos quinze anos, Portugal atravessa um período político conturbado; revolução, insurreição, golpe de Estado, guerra civil.

Nesse período, em 25 de novembro de 1845, nasce em Póvoa de Varzim José Maria Eça de Queirós, cujos pais, Carolina Augusta Pereira de Queirós e dr. José Maria Almeida Teixeira de Queirós, não são oficialmente casados. O casamento só ocorreria quatro anos depois.

O menino não fica em sua terra natal. É levado à Vila do Conde para viver na casa de uma ama: a costureira Ana Joaquina Leal de Barros, com quem permaneceria até 1849.

Seu pai tenta ocultar as circunstâncias do nascimento do filho, por temer a censura oficial e para evitar problemas à manutenção de seu cargo público - de magistrado. Eça não convive também com seus irmãos, pois aos quatro anos de idade é transferido para a casa de seus avós paternos, onde viveria até 1855.

Aos dez anos é matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto. Aluno interno, tem como professor Joaquim da Costa Ramalho (pai do escritor Ramalho Ortigão, que se tornaria seu grande amigo). Em 1861, com dezesseis anos de idade, transfere-se para Coimbra e começa o curso preparatório para o ingresso na faculdade de Direito. Tímido e sensível, inicia-se na vida boêmia e romântica da cidade. Conhece, então, alguns moços que revolucionam as letras e a política portuguesa: Antero de Quental, Germano Meireles, Alberto Sampaio, Teófilo Braga. Na universidade é um aluno apagado, mas toma gosto pelo teatro estudantil, especializando-se na interpretação de um pai nobre nas várias peças de que participa.

Quanto ao resto, permanece à margem: aprecia apenas de longe a Questão Coimbrã (1865), uma ruidosa polêmica literária que acaba por envolver os principais escritores do país, entre eles Antero de Quental e Teófilo Braga, que torpedeiam o Romantismo ultrapassado do poeta Antônio Feliciano de Castilho.

Em 1866, com o diploma de advogado, o dr. José Maria Eça de Queirós deixa Coimbra e finalmente dirige-se para a casa dos pais, em Lisboa. Nesse mesmo ano estréia como escritor, publicando no jornal A Gazeta de Portugal o folhetim Notas Marginais.

No ano seguinte passa a dirigir o jornal de oposição Distrito de Évora. Também redator, Eça de Queirós mergulha na realidade de seu país. Em seus artigos começa a emergir o grande escritor realista. Esse realismo acentua-se ainda mais quando o escritor retorna a Lisboa, no final de 1867, e passa a participar do Cenáculo, um vigoroso núcleo intelectual. Reuniões de grupo, debates, idéias e teorias novas. Eça toma contato com o Positivismo e o Socialismo, revê e avalia o Romantismo. Entra para o círculo da geração realista - Antero de Quental, Oliveira Martins, Batalha Reis, Guerra Junqueiro e outros.

Em outubro de 1869, em companhia do galante aventureiro conde de Resende, visita o Oriente. Percorre a Palestina e, na qualidade de correspondente do Diário de Notícias, assiste à abertura do canal de Suez no Egito. Ao retornar a Lisboa, em 1870, inicia a publicação em capítulos, nesse periódico, de uma novela policial: O Mistério da Estrada de Sintra, com a colaboração do escritor Ramalho Ortigão, seu único amigo e companheiro de escola.

Convencido da impossibilidade de viver de seus escritos, aos 25 anos Eça tenta a carreira diplomática e classifica-se em primeiro lugar. Contudo, é preterido na indicação para cônsul no Brasil. A irreverência do escritor, então, explode em As Farpas, panfleto de crítica social e política cuja principal arma era o riso, escrito em parceria com Ramalho Ortigão.

Engajado politicamente, Eça de Queiros participa agora das Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense. Prefere uma palestra sobre "O Realismo como Nova Expressão de Arte". A nova corrente é definida de forma entusiástica, pelo jovem escritor, como arte de participação e denúncia dos males sociais. Seis dias depois de iniciadas as conferências, uma portaria ministerial as interrompe abruptamente. Em meio às polêmicas do Cassino Lisbonense, dá prova dessa orientação estética no conto Singularidades de uma Rapariga Loura, que seria publicado em 1874.

Em 1871 Eça de Queirós consegue sua nomeação como cônsul nas Antilhas espanholas, mas só no ano seguinte assume o posto, no qual permaneceria até 1874. Depois é transferido para Newcastle-on-Tyne, na Grã-Bretanha. É aí que termina de escrever a primeira versão de O Crime do Padre Amaro. Mas a atitude perfeccionista de Eça faz com que reescreva o romance, que afinal é publicado em 1875. O Primo Basílio, romance situado na longínqua Lisboa, é publicado em 1878. E Eça de Queirós confessa estar vivendo para a arte: "Eu por aqui - não fazendo, não pensando, não vivendo senão arte. Acabei O Primo Basílio".  Nessa vertiginosa atividade literária, o escritor planeja publicar um vasto inquérito sobre a sociedade portuguesa - as Cenas da Vida Real. Mas acaba abandonando o projeto: falta-lhe a "verificação", própria da estética naturalista, conforme a definiu em sua conferência no Cassino.

Apesar do sucesso obtido com O Primo Basílio, o escritor e diplomata vive do ordenado de cônsul, insuficiente para saldar suas numerosas dívidas. "Salva-me, salva-me duma situação que me arruína, me enterra cada dia mais, me preocupa a ponto de me tornar estúpido", escreveria ele a seu amigo Ramalho Ortigão. Além das preocupações financeiras, afligem-no problemas de saúde; à anemia crônica juntam-se nevralgias dolorosas e fortes abalos de nervos.

Seus vaivéns diplomáticos prosseguem em 1878, quando é transferido de Newcastle para Bristol. Eça, contudo, sente-se só na Inglaterra. Não tem com quem polemizar ou simplesmente trocar idéias. Consola-se escrevendo contos e artigos para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Aos 33 anos de idade Eça pensa em se casar, constituir família, conforme confissão em uma carta a seu amigo Ramalho Ortigão: "precisava duma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna (não muita)... que me adotasse como se adota uma criança...".

Essa mulher seria Emília de Castro Pamplona, filha do conde de Resende, seu companheiro de viagem ao Oriente. Com ela se casaria em fevereiro de 1886, aos 40 anos de idade, no oratório particular da casa da jovem, em Ovídio.

Em 1888, dois anos após o casamento, Eça de Queirós assume o último posto de sua carreira diplomática e segue para Paris, dessa vez para sempre. Instala-se em Neuilly, "num recinto ameno e silencioso". Atenua-se agora, também, a irreverência do escritor, sócio da Academia Real de Ciências desde 1883 e à qual não comparece sequer uma vez. Gradativamente Eça de Queirós vai abandonando o Realismo mais esquemático, incursionando para o que chama de "fantasia"; mostra, a essa altura, certa influência da literatura inglesa. As obras A Relíquia e Os Maias, anteriormente ao seu casamento, são publicadas em 1887 e 1888.

Em 1889 Eça funda a Revista de Portugal, e nela publica Correspondência de Fradique Mendes. O padrão do escritor, exilado em sua torre diplomática, é Fradique Mendes, seu personagem ficticio. A irreverência social e o sarcasmo, que o compensam ideologicamente como escritor e cidadão, colidem com as atividades da diplomacia e sua vida burguesa. Seu irreverente personagem Fradique Mendes é a imgem de um escritor realizado, com prestígio mundano.

O Eça de Queirós demolidor da moral burguesa dos tempos do Cenáculo aspira agora a uma "disciplina intelectual, econômica, moral e doméstica". E o grupo que realizara a Questão Coimbrã, em 1865, nem de longe parece o mesmo. Seus integrantes são, agora, na década de 1880, os Vencidos da Vida: Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro e... Eça de Queirós. Não são os combativos jovens dos tempos antigos: reúnem-se festivamente em torno de uma mesa de hotel ou de um restaurante para discussão de temas contemporâneos.

O vencidismo fora uma posição "mais intelectual" como o próprio Eça afirmara várias vezes. Mas, segundo o parecer dos outros, seus integrantes estavam mesmo era em crise de desalento. E é nessa atmosfera de vencidismo que ele publica A Ilustre Casa de Ramires, iniciada em 1894, e A Cidade e as Serras - canto realista das maravilhas da vida rural.

Com a morte da sogra em 1890, Eça de Queirós herda uma quinta em Santa Cruz do Douro. Além de célebre, tornara-se rico.

A última visita que Eça de Queirós faz a Portugal é em 1900. Envelhecido e doente, parece despedir-se de seu país. Aos 55 anos Eça está acabado. Seu amigo Antero de Quental suicidara-se em 1892. Oliveira Martins havia morrido em 1894. O desaparecimento dos amigos e companheiros de sua geração pressagiava também seu próprio fim. Os médicos recomendam-lhe repouso e se possível, que deixe a vida agitada de Paris. Em julho de 1900 Eça parte para Glion, próximo a Genebra; escolhera o local julgando que ali respiraria uma grande paz. Mas não suporta mais de quinze dias de isolamento. Regressa a Paris, onde as febres, suores e insônia voltam a persegui-lo.

O escritor passa seus últimos dias como um "pequeno-burguês retirado", segundo suas próprias palavras. Ironicamente, registra ainda: "faço também literatura, uma literatura complicada, porque com o vício de misturar trabalho, acho-me envolvido na composição, revisão e acepilhação geral de cinco livros".

Na tarde de 16 de agosto de 1900, em meio ao calor abafado do verão parisiense, morre um dos maiores ficcionistas da literatura portuguesa, acometido por enterocolite, um mal hereditário que o perseguira desde a juventude.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Machado de Assis

Machado de Assis
1839 - Aso 21 de junho, nasce no Rio de Janeiro Joaquim Maria Machado de Assis, filho de Francisco de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis.
1851 - Machado de Assis fica órfão de pai.
1855 - Trabalha como aprendiz de tipógrafo na firma de Francisco de Paula Brito. Publica o primeiro poema: Meu Anjo.
1856 - Trabalha na Imprensa Nacional.
1858 - Trabalha como revisor de provas na casa Francisco de Paula Briot. Publica o primeiro ensaio crítico: O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura.
1860 - É contratado como redator no Diário do Rio de Janeiro.
1861 - Estréia como comediógrafo: Hoje Avental, Amanhã Luva.
1864 - Publica Crisálidas, primeira coletânea poética.
1867 - Conhece Carolina Augusta Xavier de Novais. Trabalha no Diário Oficial.
1869 - Casa-se com Carolina Augusta.
1870 - Publica Contos Fluminenses e Falenas.
1872 - Publica Ressurreição.
1873 - Publica Histórias da Meia-Noite.
1874 - Publica A Mão e a Luva.
1876 - Publica Helena.
1878 - Publica Iaiá Garcia. Parte para um retiro em Nova Friburgo.
1881 - Publica Memórias Póstumas de Brás Cubas.
1891 - Publica Quincas Borba.
1897 - Preside a sessão de abertura da Academia Brasileira de Letras. É demitido da Secretaria da Indústria.
1898 - Volta a trabalhar como secretário do ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas.
1900 - Publica Dom Casmurro.
1904 - Publica Esaú e Jacó (*). No dia 20 de outubro, Carolina morre.
1908 - Em maio ausenta-se do ministério, doente. Em julho publica Memorial de Aires (*). No dia 29 de setembro, morre.

(*) Esaú e Jacó - Memorial de Aires
Machado explora, em Esaú e Jacó, o conflito das relações entre os gêmeos Pedro e Paulo com a jovem Flora, que nutre diferentes sentimentos de afeto por um e por outro.
Último romance de Machado, Memorial de Aires é a história de dois idílios: o do casal Aguiar e o da viúva Fidélia com Tristão. Obra intimista, é narrada pelo conselheiro Aires, personagem também presente em Esaú e Jacó.


Daqui a pouco será crepúsculo. O sol, em fins de tarde de outubro, estará brilhando morno sobre o Rio de Janeiro. Irá bater com sua luz nas janelas fechadas de um prédio antigo, no Cosme Velho. Ninguém o atenderá, porque o dono da casa, viúvo e solitário, terá saído para um último passeio e não vai voltar.

Machado morre de madrugada, após cinco meses de dores e quatro anos de solidão. Perguntam-lhe se não quer fazer vir um padre. E ele, que não entra na igreja desde o dia de seu casamento, responde a custo, pois que a língua ulcerada lhe dói e pesa na boca:" Não. Isso seria uma hipocrisia". É 29 de setembro. 1908. Faltam quinze minutos para as 4 da manhã.

O dia se faz. As cores transbordam, luminosas. As ruas se povoam. Em frente à casa do Cosme Velho, movimento de carros e pessoas, médicos, agentes funerários, empregados federais. Antes de escurecer, o morto deve estar pronto para ser velado no salão da Academia Brasileira de Letras.

A brisa de junho sopra fria no Morro do Livramento, naquele dia de 1839. Maria Leopoldina, lavadeira de profissão, começa a recolher as roupas do varal, quando as dores levam-na ao leito. A casinha pobre ganha um novo habitante: Joaquim Maria Machado de Assis. Joaquim, em homenagem ao padrinho. Maria, por causa da madrinha, dona da Chácara do Livramento. Machado, que é o sobrenome dos avós maternos. Assis, o nome do pai.

Os anos correm depressa no Morro do Livramento. Joaquim vai vivendo um pouco no casarão da madrinha, ouvindo descrições de festas aristocráticas narradas pelas senhoras que chegam de saias farfalhantes, outro pouco na casinha dos pais, conversando com Francisco sobre histórias de almanaque ou escutando a mãe contar-lhe passagens da infância em Portugal. Depois de nascida a irmã, as conversas com a mãe vão ficando raras. A solidão ganha um peso  maior para aquele menino gago e tímido.


Num curto espaço de tempo, morrem-lhe a mãe e a irmã A madrinha serve-lhe de esteio. Depois ganha uma madrasta: Maria Inês, mulata meiga e delicada, que sabe ler e cozinha com perfeição. Transmite ao pequeno todos os seus conhecimentos. Quando esgotados, sugere ao marido que coloque o menino na escola.

Em 1851, morre-lhe o pai. Maria Inês emprega-se como cozinheira no Colégio de São Cristóvão. Nas oras vagas faz balas, que o menino vende na rua. Um dia ele vai à padaria da sra. Gallot. Ela e se empregado, ambos franceses, gostam do pequeno e lhe ensinam seu idioma. Mais tarde, valendo-se desse aprendizado, traduziria o ensaio Literatura perante a Restauração, de Lamartine, o romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, e várias outras obras da literatura francesa.

Vender doces na rua não condiz nem com a timidez nem com a fragilidade de Joaquim Maria. A madastra encontra-lhe outro emprego, parece que de "sacristia" ou coroinha na igreja da Lampadosa - os biógrafos não conseguiram apurar com segurança. O certo é que, por volta dos quinze anos, tem um emprego, e, nas horas de folga, passeia pela cidade, demorando-se no Largo do Rossio, a espiar as vitrinas de livros. A livraria e tipografia de Francisco de Paula Brito é o que o atrai de modo especial, não tanto pelos livros expostos mas pelas discussões que ali são travadas. Um dia o dono da loja o vê, hesitante na soleira, e o anima a entrar. Dá-lhe um emprego de aprendiz de tipógrafo e a oportunidade de estrear como poeta, publicando, em seu jornal A Marmota, os primeiros versos de amor do jovem amigo: Meu Anjo.

Passado algum tempo, o trabalho na oficina do Largo do Rossio não tem mais mistérios; Machado quer subir mais um degrau. Em 1856, deixa Paula Brito e emprega-se na Imprensa Nacional, ainda na condição de aprendiz de tipógrafo, porém com a esperança de melhor futuro.

Essa esperança fica abalada quando o diretor do jornal, Manoel Antônio de Almeida, o chama para passar-lhe uma reprimenda. Machado fora surpreendido lendo durante o expediente. Todavia, o sermão não chega a ser rude. Almeida, que garantiria a imortalidade com o romance Memórias de um Sargento de Milícias, compreende a sede intelectual do funcionário, percebe-lhe a sensibilidade. Torna-se seu amigo e, sem o saber, seu discípulo.

Baseado nos diálogos literários com Manuel Antônio Almeida, nos debates do círculo de A Marmota, que ele continua a frequentar, e nas aulas de gramática e conhecimentos gerais com o Padre Silveira Sarmento, em 1858 Machado publica o ensaio O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura, marco inicial de uma atividade crítica que prologaria até 1879 e se pautaria sempre pelo bom gosto, pela honestidade, pela agudez da análise.

Ainda em 1858, Machado começa a colaborar no Paraíba, jornal de Petrópolis, e volta à firma Paula Brito na função de revisor de provas. Havia subido um degrau.

Em 1859 passa para o Correio Mercantil, em igual função. Ao sair pela segunda vez da casa Paula Brito, não deixa, porém, o convívio do A Marmota, onde é sempre recebido com estímulo e afeto. Com Eleutério de Sousa funda, no mesmo ano a revista Espelho, na qual começa sua brilhante carreira de cronista, registrada em vários periódicos do Rio de Janeiro.

Em 1860 consegue uma vaga de redator no Diário do Rio de Janeiro. Escrever em um jornal conceituado, dirigido a um público exigente, obriga-o a dar um tratamento cuidadoso e perspicaz aos fatos, força-o a apurar o estilo. À estréia do cronista segue-se a do comediógrafo. Em 1861 apresenta duas peças medíocres: Hoje Avental, Amanhã Luva e Desencantos. A última representa a aplicação de uma teoria enunciada no opúsculo Queda que as Mulheres Têm para os Tolos, também de 1861, segundo a qual os tolos vençam na vida, enquanto os talentosos fracassam. Mais tarde, retoma o tema em Memórias Póstumas de Brás Cubas e desenvolve-o no conto Teoria do Medalhão.

O teatro machadiano, que compreende treze peças, na maioria escritas no período de 1861 a 1866, é encarado como a parte mais fraca de sua produção literária. Assim como a poesia, constitui uma espécie de exercício, uma busca da forma mais adequada à expressão de seu pensamento.

É desse período a publicação, no Diário do Rio de Janeiro, da tradução de Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, apresentada pelo próprio Machado com a nota de 15 de março de 1866: "Começamos hoje a publicação do romance de Victor Hugo Os Trabalhadores do Mar, há tanto tempo anunciado na imprensa européia e ansiosamente esperado pelos admiradores do grande poeta".
Entre a publicação de Crisálidas, em 1864, e o sucesso da tradução de Os Trabalhadores do Mar, em 1866, Machado vai levando a vida.

No ano seguinte conhece Carolina Augusta Xavier de Novais, cuja mãe morrera em Portugal. Carolina viera, junto com os irmãos Adelaide e Miguel, unir-se a Faustino, o outro irmão, poeta que vive no Rio de Janeiro. Está longe de ser bela. O rosto severo ostante as marcas dos 23 anos vazios de amor. Dedicara a vida à família e à leitura. Conhece bem os clássicos portugueses, é versada em gramática. De índole afetuosa, recatada e doce, cativa a todos os que a conhecem. Cativa Machado também.

Em princípios de 1867, os dois solitários se encontram junto à cabeceira de Faustino, que luta contra uma enfermidade. Encontram-se e amam-se. Assessor de diretoria no Diário Oficial, Machado, além do ordenado ganha com as colaborações para vários periódicos. Tem talento, educação e um belo futuro. Mesmo assim, Adelaide e Miguel se opõem: não querem um mulato na família. Mas o obstáculo é vencido, e eles se casam em 12 de novembro de 1869.

"A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de casados", informa o Memorial de Aires (1908). Os proventos do marido são suficientes apenas para o necessário; nenhum luxo. Os ataques epilépticos voltam. Carolina tenta minorar-lhe o sofrimento. Lê e revisa-lhe os manuscritos, corrigindo os possíveis deslizes gramaticais, sugerindo modificações. As primeiras obras revisadas por ela constituem a estréia de Machado em dois gêneros que ele maneja com maestria: o conto e o romance. No ano seguinte ao casamento, Machado publica Contos Fluminenses, seguidos do romance Ressurreição (1872) e de Histórias da Meia-Noite (1873). Juntamente com os romances A Mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), esses trabalhos constituem a chamada "fase inicial" de Machado, já revelando seu talento de narrador. Nos três últimos romances há um forte toque autobiográfico. Todos eles giram basicamente em torno dos mesmos temas: ambição e orgulho, o drama íntimo de Machado com relação à madrasta. Em 1860 ele se mudara de São Cristóvão para o centro, afastando-se cada vez mais de Maria Inês, a ponto de ela ter de recorrer à caridade alheia para sobreviver. Em 1874 a mulata morre. Ferido na consciência, o enteado procura desabafar, projetando-se em seus personagens.

Em fins de 1878 Machado, acompanhado de Carolina, parte para nova Friburgo, por recomendação médica. A estada em Friburgo o faz rever certos valores e posições e enveredar por novos caminhos. De volta ao Rio de Janeiro, Machado inicia a elaboração de Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado primeiro em folhetim, depois pela Garnier, em 1881.

Em 1882 publica o conto O Alienista, sátira mais feroz que a de Brás Cubas. O protagonista do conto, ao perceber a falência de seu raciocínio, incapaz de distinguir entre loucos e sãos, recolhe-se ao hospício e suicida-se mentalmente.

A loucura é um dos temas constantes na obra machadiana, ao lado dos problemas da dúvida (Esaú e Jacó), do bem e do mal (Singular Ocorrência), da ânsia da perfeição (Trio em Lá Menor, Cantiga de Esponsais) da autodefinição da personalidade (O Espelho), do despertar dos instintos na adolescência (Missa do Galo), tratados nos contos e nos romances da maturidade.

Escrevendo sobre adultério, morte, sadismo, alienação, Machado não se demora em cenas chocantes. A sobriedade e a sutileza são características suas, numa época em que os realistas se desdobram em detalhes grosseiros. Ele prefere sugerir a declarar.

Ao contrário de Brás Cubas, Machado conquista a glória e o amor, tem amigos e discípulos, e só lamenta não ter filhos - porque teme transmitir não "o legado da nossa miséria", mas a tragédia de sua doença, que o carinho de Carolina ajuda a suportar.

Leva uma vida calma, perturbada apenas pelos ataques epilépticos.

Em abril de 1897 Machado conduz a sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras. Pena que a alegria desse momento seja empanada pela demissão de Machado. O governo decide confiar a direção da Secretaria a um técnico. O escritor fica inativo por quase um ano, até que, em novembro de 1898, é reincorporado como secretário do ministro da Viação.

A volta ao trabalho restitui-lhe a calma necessária para compor Dom Casmurro (1900), o mais pessoal de seus romances, uma análise profunda do ciúme.

Carolina ainda revisa o manuscrito de Dom Casmurro, mas não pode ler Esaú e Jacó. Está doente. Procura esconder do marido as dores de estômago, agravadas por uma receita errada fornecida pelo farmacêutico. Em fins de 1903, não pode continuar ocultando. Ao começar o ano-novo, o casal parte para Nova Friburgo, na esperança da cura. Ali ficam um mês, ela esforçando-se por parecer melhor, ele esmerando-se por parecer confiante. Ambos sabendo que não haveria mais tempo. Em 20 de outubro de 1904, à beira do 35. aniversário de um casamento tranquilo, Carolina morre.

A maneira que Machado tem de falar na mulher sem cansar os amigos nem desvelar sua intimidade é contar episódios da vida conjugal como se fossem coisas de ficção. A idéia tarda em criar corpo. Só em 1907, entre estudos de grego e expedientes no Ministério da Viação, onde era diretor geral de contabilidade desde 1902, ele começa a escrever Memorial de Aires. Um relato de ancião, a passo lento. Quadros da vida de Carmo e Aguiar (na verdade Machado e Carolina). Percalços da aventura amorosa de Fidélia e Tristão. E um final feliz. A vida é pacata, mas sorri. E o velho Machado faz as pazes com ela, um pouco antes de se despedir.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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