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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O estigma de uma geração (por Gilberto Mendonça Teles)

Gilberto Mendonça Teles
Vinte anos depois da Semana da Arte Moderna, a poesia brasileira já havia conquistado o seu estatuto de modernidade.
Foi o tempo necessário para que o "espírito moderno" deixasse o litoral (Rio e São Paulo) e se expandisse pelo interior, ganhando as capitais dos estudos e indo aos poucos penetrando na mentalidade dos leitores, dos professores e estudiosos de poesia. Vinte anos depois, portanto, muita coisa já havia mudado na pregação modernista. Não era mais necessária a poesia-tese, como na Paulicea Desvairada. A ideologia programática dos manifestos ainda não se havia esgotado na prática poética. Certas técnicas de retórica e linguagem, desprezadas e combatidas inicialmente, porque repetidas e quase exauridas pelo modelo parnasiano, começam a ser reexaminadas e passam a adquirir novas funções diante do alargamento das concepções poéticas do século XX. Mas, infelizmente, a preguiça mental de professores e críticos já havia também assimilado os "modelos" postos em voga de que o Modernismo havia abolido a métrica, acabado com a rima, com o soneto, e mudado totalmente a construção dos poemas. A verdade (e isto está patente na obra  dos poetas da época) é que nem a métrica desapareceu, nem a rima, nem o soneto, mas tudo isso recebia tratamento novo de que os "estudiosos" não se deram conta, porque não examinavam diretamente as obras.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Lêdo Ivo

Ignoro o quinhão que me coube na partilha
de tantos bens dispersos entre a luz raiante
e a névoa que mascara a borra dos naufrágios.



Lêdo Ivo

Nasce no dia 18 de fevereiro, em Maceió - AL, faleceu em 23 de dezembro de 2012.

Mesmo tendo nascido numa família sem tradição literária, desde a infância Lêdo Ivo manifestou o desejo de ser escritor. Quando se mudou com a família para o Recife, aos 16 anos de idade, passou a colaborar com a imprensa local e participou de um grupo literário do qual fazia parte o escritor e crítico literário Willy Lewin.

sábado, 22 de setembro de 2018

Afonso Felix de Sousa



Afonso Félix de Souza

Palavras e palavras, esta a herança
que tive e vou deixando.

1925
Nasce no dia 5 de julho, em Jaraguá - GO.

Desde a idade escolar, os versos despertaram em Afonso Felix de Sousa uma espécie de fascínio, especialmente pelos românticos e parnasiano. Logo, começou a escrever sonetos, acrósticos e quadras metrificadas. Na adolescência, descobriu os simbolistas e, logo a seguir, os modernistas. Mudou-se com a família ara Goiânia, em 1943, e passou a publicar seus versos nos jornais locais, como O Popular, Folha de Goiás e Oeste. No final da década, começou a trabalhar no Banco do Brasil e participou da fundação da Associação Brasileira de Escritores de Goiás. Foi transferido para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Em 1959, Afonso Felix de Sousa se casou com a diplomata e também poetisa Astrid Cabral, com quem tem cinco filho.

sábado, 23 de setembro de 2017

Jorge Luis Borges

200 años de poesía argentina -
Jorge Monteleone

Jorge Luis Borges nació en Buenos Aires en 1899. Obra poética: Fervor de Buenos Aires, 1923; Luna de enfrente, 1925; Cuaderno San Martín, 1929; El hacedor, 1960; El otro, el mismo, 1964; Para las seis cuerdas, 1965; Elogio de la sombra, 1969; El oro de los tigres, 1972; Obras completas, 1974; La rosa profunda, 1975; La moneda de hierro, 1976; Historia de la noche, 1977; La cifra, 1981; Los conjurados, 1985. Cuentista y ensyista de vasta influencia en la literatura occidental del siglo XX. Falleció em Ginebra, Suiza, en 1986.


sábado, 9 de setembro de 2017

Astrid Cabral

Astrid Cabral Félix de Souza

Rio Negro
contigo arrastas ao abismo
invisível carga de risos de meninos

1936, Nasce no dia 25 de setembro, em Manaus - AM

sábado, 12 de dezembro de 2015

Omar Khayyam - Rubaiyat (de Franz Toussaint)

Omar Khayyan - Rubaiyat
Rubaiyat (Omar Khayyam); tradução Manuel Bandeira (de Franz Toussaint). - Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

Um mistério: assim este livro chega a minhas mãos.

Após uma mudança de espaço físico no trabalho, eis que sob a minha mesa aparece o livro Rubaiyat, com belíssima capa, impressionando a primeira vista.

Procuro pelo dono sem êxito. Resolvo levá-lo para leitura.

Basta ler uns versos para saber a jóia que ficou perdida em minha mesa.

Imaginá-lo sendo escrito no século XI por um poeta persa que se tornou um dos autores mais populares do mundo foi um imenso prazer.

Omar Khayyan é um fenômeno, e recriado por muitas mãos, o que de certa forma gera polêmicas acerca da tradução de suas obras.

Nesta edição Manuel Bandeira optou por trabalhar sobre a tradução francesa de Toussaint (1923), pois achava que a edição inglesa de FitzGerald (1859), que popularizou Omar Khayyam no Ocidente, sendo "primorosa" do ponto de vista literário, é, do ponto de vista da fidelidade ao texto original, "inaproveitável".

Assim segue a polêmica sobre quantas "quadras" Omar deixou. Seriam 206 conforme edição iraniana de 1461 ou 464 de acordo com a edição francesa de J.B. Nicolas (1857), que trabalhava na embaiada francesa em Teerã. Seriam as 178 da edição em Teerã, em 1943, ou as 121 da edição dinamarquesa de 1927?

Importante astrônomo, matemático e pensador em sua época, chegou a nós como poeta. Sua poesia sobreviveu à sua ciência e aos seus tradutores.

Há qualquer coisa intrigante e misteriosa que faz com qeu leitores de uma era eletrônica e globalizada se deliciem com essa poesia simples e intemporal, já alerta Affonso Romano de Sant´Anna na contra-capa do livro.

Melhor que saber sobre o autor é ler suas poesias, certamente.

Ah, não procures a felicidade!
A vida dura o tempo de um suspiro.
Djemchid e Kai--Kobad hoje são poeira.
A vida é um sonho; o mundo, uma
[miragem.

domingo, 16 de agosto de 2015

Carla Guedes - Voadoras

Carla Guedes

E lá vão as moças
Seguindo a Orquestra
Recolhendo mínimas,
Semínimas e sinonímias.
Sonhos na grama e no asfalto
Feito confete
Sonhos nas mãos e nos dedos
Grudados como
Purpurina.

A chuva faz que cai,
mas não cai
A chuva faz que vem,
mas não vem
Vem!
E chove.

[Pausa!]

Esboçam no dia um sorriso bobo
Que é pra cantarolar alegrias,
Recosturar fantasias,
E dar a cara pro vento
Nessa vida que anda numa corda
Bamba!
Na leveza da valsa, do riso, e batuque
Samba!
Estandarte é o coração.

E seguem as moças,
E deixam a Orquestra,
Espantando uma folia fora de época:
Solidão.

(Carla Guedes)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Wislawa Szymborska

Wislawa Szymborska
[poemas]

Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigtório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mário Quintana - O Tempo




"O tempo é a insônia da eternidade"
(Mário Quintana - 80 anos de Poesia)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ana Cristina Cruz César

Ana Cristina César
"Acho que existe sim um tipo de sensibilidade feminina, que é uma sensibilidade meio caótica, é uma sensibilidade mais sutil, é mais desorganizada. Ela é uma sensibilidade talvez meio histérica. A mulher é histérica por tradição."


A vidente se recolhe

Ardo de curiosidade pelo futuro,
me diz a moça mais oca da sala. Está escrito?
Isso me interessa, seu suspiro náutico,
porque não era ardor: a doçura da tolice singra a festa.
Adiante encontro um moço que me tolhe o passo e diz,
deixe-me levar, a dança... Ainda não.
Passo. Ainda não. Sigo o fio espiral do telefone
em curvas que roçam no batente várias portas.
Disco. Venha me buscar às tantas. Chegando
o fusca no portão, estou ali debaixo da garoa.
Vou guiar. Desço sem rilhar pneu.
Te levo para a sombra de árvore rendada na luz branca.
Manchas de umidade sob o parapeito. Ar de horto.
Veja a vista da cidade atrás da sombra.
Céu cortado por metade de holofotes em circulação.
Pó de maresia ao longe. Lagoa e jóquei, istmo, hotéis.
Daqui a cidade é brilho para adivinhar e rumoreja.
Também dou meu ombro de marmota recolhendo.

A mãe de Ana Cristina César era professora de literatura; o pai intelectual respeitado nos círculos políticos e religiosos, líder da Confederação Evangélica do Brasil, diretor da revista Paz e Terra e um dos criadores do ISER - Instituto Superior de Estudos Religiosos. Ana Cristina cresceu ouvindo os poemas e cânticos de sua igreja. Espécie de menina-prodígio, antes mesmo de aprender a escrever, já ditava seus poemas para a mãe.

O golpe militar de 64 transformou a vida da família da poetisa. A pressão dos pais de alunos contra os diretores e professores de esquerda do Colégio Bennett fez com que ela fosse transferida para outra escola. Nem bem concluiu o ginásio, Ana Cristina já participava de protestos estudantis. Seu namorado levou um tiro na perna, em manifestação diante da embaixada americana. O apartamento da família, na rua Toneleros, seria invadido algumas vezes pelas forças de repressão, em busca de seu pai.

Ana Cristina viajou para a Inglaterra e foi viver na casa de uma família protestante. Estudou seis meses numa escola para meninas, conheceu Londres e viajou pela Europa, o que seria um ponto de mutação em sua v ida, como "perder a infância". De volta ao Brasil, em 1971, estudou Letras na PUC, onde se formou quatro anos depois. Armando Freitas Filho viu em Ana Cristina César as características da poesia marginal carioca de sua geração: "O tom coloquial, longe das dicções solenes, sisudas e premeditadas."

Em 1979, Ana Cristina voltou à Inglaterra, para fazer mestrado em tradução. Ao retornar para o Rio de Janeiro, foi morar sozinha na Gávea e iniciou um ritmo frenético de trabalho, fazendo traduções e trabalhando para a Rede Globo como leitora e avaliadora de novelas. Mas nada preenchia o grande vazio que sentia na época. Ítalo Mariconi, um de seus amigos mais próximos, nota que, em 1983, o quadro de depressão se agravara: "Nosso jantar, no restaurante Real, na praia do Leme, foi uma choradeira mútua. Não tive presença de espírito para notar que o papo dela de suicídio era à vera." Em fins de setembro, Ana tentou se matar. Foi internada e, uma semana depois de sair da clínica, na casa dos pais, em Copacabana, atirou-se de uma janela do sétimo andar. Caio Fernando Abreu comentou o comportamento de Ana Cristina César poucos dias antes, na festa de aniversário dele: "Lenta, concentrada. Ana não dizia nada, apenas tocava, um por um, todos os objetos do meu quarto. E me olhava. Profunda, atentíssima, remota. Parecia uma despedida."

"Nela o coloquial vinha emmpacotado numa outra economia do verso, numa outra dinâmica das relações de som e sentido entre as frases poe´ticas, deixando transparecer um tipo de foramção literária rara no Brasil."

(Ítalo Moriconi)


Obras da autora
POESIA: Cenas de abril, 1979; Luvas de pelica, 1980; A teus pés, 1982.
OUTRAS: Literatura completa (cartas), 1979; Escritos no Rio (texto; jornalísticos), 1993; Correspondência incompleta (cartas), 1999.

(Estou postagem está em rascunho a meses e não recordo mesmo o motivo de não tê-la liberado - talvez sua incompletude para uma autora tão vasta - uma postagem para retornar e retornar e alimentar o tópico sempre).

domingo, 26 de agosto de 2012

Coleção Mário Quintana



Da sabedoria dos livros
Não penses compreender a vida nos autores,
Nenhum disto é capaz.
Mas, à medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderás.
(Espelho Mágico, p. 39 - Coleção Mário Quintana, Globo, 2005)
A Coleção Mário Quintana está a bastante tempo me observando da prateleira. Simples, convidativa, como um amigo a dar o ombro em um momento necessário. Assim é Mário Quintana, uma prosa boa sem fim que estará de braços abertos como um amigo se faz ouvir. Hoje acordei precisando de poesia, simples, amiga. Ninguém melhor do que Mário Quintana para nos acompanhar.

A coleção é composta pelos livros: Espelho Mágico, Sapato Florido, Baú de Espantos e Canções.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Poemário


Drumundiana


E agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu nome foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixa de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se encontrasse...

(Alice Ruiz - Poemário)

Nota: Paródia do poema "José", 
de Carlos Drummond de Andrade

A PONTA DO ICEBERG: vitalidade e expansão, assim define Antônio Miranda, um amante das boas letras, em especial poesia, quando se refere as expectativas da poesia tendo em vista a atual proliferação dos Blogs gerando a multiplicação dos estilos, no livro Poemário, compêndio de poesia da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, edição 2008, gentilmente presenteado.

Alice Ruiz (Brasil) entre outros autores compõem este maravilhoso livro onde os homenageados são Affonso Romano de Sant´anna, Reynaldo Jardim, Thiago de Mello e Wladimir Diaz-Pino:

Alice Spíndola (Brasil)
Amparo Osório (Colômbia)
Antônio Carlos Secchin (Brasil)
Antônio Cisneros (Peru)
Antônio Vicente Petroforte (Brasil)
Aricy Curvello (Brasil)
Aristóteles Espanã (Chile)
Betty Chiz (Uruguai)
Carlos Ortega Guerreiro (México)
Daniel Chirom (Argentina)
Diego Mendes Sousa (Brasil)
Eduardo García (Espanha)
Eduardo Mora-Anda (Equador)
Elena Medel (Espanha)
Emilia Currás (Espanha)
Enrique Hernández d´Jesús (Venezuela)
Fábio Morabito (México)
Fabrício Carpinejar (Brasil)
Fernando Pinto do Amaral (Portugal)
Frederico Barbosa (Brasil)
Gilberto Mendonça Teles (Brasil)
Hector Collado (Panamá)
Henryk Siewierski (Polônia)
Jorge Tufic (Brasil)
José Carlos Capinan (Brasil)
José Carlos Irigoyen (Peru)
José Geraldo Neres (Brasil)
Juan Carlos Pajares (Espanha)
Juan Carlos Reche (Espanha)
Katia Chiari (Panamá)
Lourdes Sarmento (Brasil)
Luiz Otavio Oliani (Brasil)
Manoel Orestes Nieto (Panamá)
Manuel Pantigoso (Peru)
Márcia Theóphilo (Itália)
Márcio Almeida (Brasil)
Marcos Caiado (Brasil)
Margot Ayala de Michelagnoli (Paraguai)
Maria Romeu (México)
Mathias Lockart (Argentina)
Miguel Ángel Zapata (EUA)
Miguel Márquez (Venezuela)
Moacir Amâncio (Brasil)
Ricardo Corona (Brasil)
Roberto Bianchi (Uruguai)
Ronaldo Werneck (Brasil)
Rubenio Marcelo (Brasil)
Rui Mascarenhas (Brasil)
Susana Cabuchi (Argentina)
Susy Morales (Peru)
Silvio Beck (Brasil)
Testa Garibaldo (Panamá)
Trina Quiñomes (Venezuela)
Vadinho Velhinho (Cabo Verde)
Veronica Volkow (México)
Viviane Mosé (Brasil)
Wilfredo Machado (Venezuela)
William Ospina (Colômbia)
Zélia Bora (Brasil)

I Bienal Internacional de Poesia : Poemário / Biblioteca Nacional de Brasília, 2008


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Manoel de Barros

Manoel de Barros
"Tudo que não invento é falso."

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.

Manoel de Barros nasceu no dia 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá, MT. Na primeira infância, Manoel de Barros foi criado numa fazenda, no Pantanal mato-grossense. Aos oito anos, porém, o pai o mandou para o Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro, internato onde permaneceu até completar o curso secundário. Manoel tinha saudades de casa, não conseguia se concentrar nos estudos, e era considerado um mau aluno. Aos poucos, começou a se interessar pelos livros. Leu Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e padre Antônio Vieria. "Só aos 13 anos descobri a forma de escrever. E foi lendo o padre Vieira. Descobri a sintaxe que produz o equilíbrio sonoro das palavras."
Após o internato, Manoel de Barros mudou-se para uma pensão no bairro do Catete e ingressou na Faculdade de Direito, onde participou ativamente da militância política de esquerda. Nesta época, tornou-se membro do Partido Comunista, que só viria a abandonar anos mais tarde. Na faculdade, experimentou o desregramento dos sentidos proposto por Rimbaud e identificou-se com a obra de Oswald de Andrade - uma vez que, para ambos, a poesia estava justamente nos desvios das normas da linguagem.
Depois de formado, Manoel de Barros voltou para o pantanal. Em seguida, fez longas viagens pela América do Sul e conheceu Nova York, onde ingressou em cursos de cinema e de história da arte. O primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, de 1937, produzido artesanalmente pelo autor e alguns amigos, teve apenas 21 exemplares impressos.
Com a morte do pai, em 1949, Manoel de Barros herdou as terras de Cuiabá. Tornou-se fazendeiro, mas não abandonou o verso: fundiu seu interesse pelo estudo da filologia do universo telúrico do pantanal, abolindo tanto as fronteiras entre os reinos vegetal, mineral e animal, quanto as que existem entre as categorias gramaticias.
O poeta só alcançou o reconhecimento na década de 80, pelas mãos de Millôr Fernandes e Antônio Houaiss, e teve seus poemas reunidos sob o título Gramática expositiva do chão. "A evolução de meu trbalho em relação ao primeiro livro é linguística. Também me tornei mais fragmentado, o que é consequência do mundo moderno, sem ideologias. Com o tempo, a gente perde a unidade divina", explica o próprio poeta.
Em 1996, com seu Livro sobre nada, Manoel de Barros ganhou o prêmio Nestlé e passou a viajar pelo Brasil por conta de um reconhecimento cada vez maior. Nos últimos anos, vem publicando vários livros infantis num reencontro do "alquimista do verso" com o menino pantaneiro. Surpreendendo a cada livro, Manoel ressalta sua identificação com a obra do romancista mineiro Guimarães Rosa, a quem disse uma vez: "Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."

"Gosto de fazer remontamentos de imagens. E oralidades remontadas. Faço colagem. Tentei uma gramática do êxtase, mas não encontrei."

"Não conto nada na reta, escrevo sempre nas linhas tortas, como digo aliás num poema. Na minha poesia parece que tem muita coisa de fora, mas é tudo de dentro. Sou muito preparado de conflitos."
'Não acredito em inspiração. Primeiro anoto tudo em meu pequeno caderinho, juntando minhas experiências existenciais e linguísticas. Quando termina esta fase, que dura dois, três, quatro anos, vou aos cadernos para catar os poemas e dar-lhe a forma definitiva."
(Manoel de Barros)

sábado, 26 de novembro de 2011

Presente de um Poeta - Pablo Neruda




"Por ti junto aos jardins cheios de flores novas
me doem os perfumes da primavera.
Esqueci o teu rosto, não me lembro de tuas mãos,
como beijam os teus lábios?
Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques,
as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.
Esqueci tua voz, tua voz alegre, me esqueci dos teus olhos.
Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança
imprecisa. Estou perto da dor como uma ferida,
se me tocas me farás um dano irremediável.
Não me lembro mais do teu amor e no entanto te advinho
atrás de todas as janelas.
Por ti me doem os pesados perfumes do estio:
por ti volto a espreitar os signos que precipitam os desejos,
as estrelas em fuga, os objetos que caem."

De Para nacer he nacido

Presente de um poeta / Pablo Neruda; tradução de Thiago de Mello; pinturas de Dafni Amecke Tzitzivakos.

Edição: Lidia María Riba
Colaboração literária: Emilia de Zuleta
Desenho: Renata Biernat
Direção de arte: Trinidad Vergara
Neruda, Pablo, 1904-1973.
Pinturas de Dafini Amecke Tzitzivakos.
Cotia, SP: Vergara & Riba Editoras, 2004. (Coleção Melhor dos melhores)
Título original: Regalo de um poeta.
1a reimpr. da 3a. ed. de 2003.

sábado, 9 de julho de 2011

El Puente - Mário Benedetti



Para cruzarlo o para no cruzarlo

ahí está el puente

en la otra orilla alguien me espera

con un durazno y un país



traigo conmigo ofrendas desusadas

entre ellas un paraguas de ombligo de madera

un libro con los pánicos en blanco

y una guitarra que no sé abrazar



vengo con las mejillas del insomnio

los pañuelos del mar y de las paces

las tímidas pancartas del dolor

las liturgias del beso y de la sombra



nunca he traído tantas cosas

nunca he venido con tan poco



ahí está el puente
para cruzarlo o para no cruzarlo
yo lo voy a cruzar

sin prevenciones

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país.

(Mário Benedetti)

Mário Benedetti nasceu em 1920 em Paso de los Toros. Em 1973, teve que sair de Montevidéu depois do golpe militar e foi viver em Madri. Com a redemocratização do país, voltou ao Uruguai, dividindo seu tempo entre os dois países. É autor de mais de 50 livros, entre eles, Quem de nós, Correio do Tempo, O amor, as mulheres e a vida, já resenhados aqui onde Nós Todos Lemos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um cemitério de pássaros
(para Lígia Guedes) - Bento Moura

"...por toda a minha vida..."
Técnica mista o 40 cm - SP, 2011
por Bento Moura

Ninho_Niño
por Bento Moura
interessa no mundo?
da valia dos escombros
Senão em risos opacos, vozes disjuntas


Interessa qualquer coisa transmutada
Dito nomes, feito símbolos


Interessa qualquer coisa assim
Feito aceno breve, sorrateiro
Reluzente de esgar

De bruma partida nos olhos contritos -
debruados numa valsa, numa dúvida
vago esgar de peito caindo, caindo


Noite ida, noite ida
Dei prá acalentar a escuridão
como se fosse um pedaço de beijo


Ou um tombo de mariposa no abismo
Na vidraça
Na vidraça um pardal


Enxague
retalhada voz sentida
aquietada, estática


era para ser uma janela


No degrau do quintal
quando amanhece e o dia
se faz claro sobre as asas deixadas


vazias
perdidas
como os acenos perdidos - e onde as asas eram quase asas de voar.


(Bento Moura)

Recebi esta belíssima homenagem de Bento Moura que me deixou extremamente emocionada pelo carinho.

Receber este belo poema é como receber uma delicada flor e passar um período a admirar, a exalar seu perfume e tão somente depois chegar a tocar suas delicadas pétalas.

Assim foi. Estou meses a apreciar, a compreender cada palavra, sentir a emoção com que foi escrita, enfim, somente agora venho postá-la, visto já estar familiarizada com cada letra que se fez frase, que formou idéia e especialmente emoção. E olha que vindo de um artista como Bento...

Tem momentos que a emoção substitui as palavras. Este poema é um belo presente que já se fez inseparável e somente agora compartilho aos amigos.

domingo, 19 de junho de 2011

Pablo Neruda - A poesia

(Pablo Neruda)

Tem momentos em nossas vidas que a reflexão nos leva a nos desligarmos de leituras longas. Somente a poesia talvez cumpra este papel de reconecção, de completude, velhas companheiras de caminhada.

Observava o quão lindo é o encontro do homem com a poesia tão bem expresso nas palavras de Pablo Neruda, grande conhecedor dos sentimentos humanos, através desta belíssima poesia:

E foi nessa idade... Chegou a poesia
para me buscar. Não sei, não sei de onde
saiu, de inverno ou rio.
Não sei como nem quando,
não, nao eram vozes, não eram
palavras, nem silêncio,
porém desde uma rua me chamava,
desde os ramos da noite,
de repente entre os outros,
entre fogos violentos
ou regressando sozinho,
ali estava sem rosto
e me tocava.
Eu não sabia o que dizer, minha boca
não sabia
nomear,
meus olhos eram cegos,
e algo golpeava em minha alma,
febre ou asas perdidas,
e me fui fazendo só,
decifrando
aquela queimadura,
e escrevi a primeira linha vaga,
vaga, sem corpo, pura
tontice, pura sabedoria
de quem não sabe nada,
e vi de repente
o céu
degranado e aberto,
planetas,
plantações palpitantes,
a sombra perfurada,
crivada
de flechas, fogo e flores,
a noite esmagadora, o universo.

E eu, mínimo ser,
ébrio do grande vazio
constelado,
à semelhança, à imagem
do mistério,
me senti parte pura
do abismo,
rolei com as estrelas,
meu coração se desatou no vento.

(De Memorial de Isla Negra - Pablo Neruda)

sábado, 14 de maio de 2011

Cora Coralina



Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (Cora Coralina) nasceu no dia 20 de agosto, em Goiás, GO 1889 e morreu em 10 de abril, em Goiânia, GO, em 1985.


TODAS AS VIDAS


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo,
Benze quebranto,
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro,
Ogã; pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d´água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.

"Amo a terra em místico amor consagrado, num esponsal sublimado procriador e fecundo."


Cora Coralina começou a escrever aos 14 anos de idade. Desde então, nunca mais abandonou a literatura, paixão que lhe garantiu o repúdio da sociedade local. A poesia não fazia parte das tarefas corriqueiras de uma mulher no interior de Goiás em princípios do século XX.

Resolveu dedicar-se com afinco à literatura depois de uma desilusão amorosa. Tinha 18 anos quando se apaixonou por um rapaz que estudava no Rio de Janeiro e estava passando férias em Goiás. A mãe dele cortou o relacionamento e antecipou o retorno do filho. Como diria Cora anos depois: "as mulheres do passado, não sabenod ser carinhosas - que que aquele tempo de dureza e severidade não ajudava - tornavam-se cruéis".

Apesar do preconceito, Cora aprendeu métrica, leu grandes poetas da língua portuguesa, como Camões, Bilac, Tomás Antônio Gonzaga, Garret e Gregório de Matos, e passou a colaborar para o Anuário Histórico e para um semanário publicado em sua cidade.

Em junho de 1911, a poetisa conheceu o novo chefe de polícia local, Cantídio, um homem que era 21 anos mais velho do que ela. A mãe de Cora proibiu terminantemente o namoro, de modo que, na madrugada do dia 25 de outubro daquele mesmo ano, o casal fugiu para o interior de São Paulo. Cora estava grávida de dois meses. O casal teve seis filhos - Paraguassu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Maria Isis e Vicência -, 16 netos e 29 bisnetos.

Após a mudança para o interior paulista, Cora colaborou para diversos jornais, entre eles O Democrata, do qual seu marido era um dos redatores. Esporadicamente, também contribuía para o periódico A Informação Goiana, impresso no Rio de Janeiro mas distribuído no estado de Goiás.
Somente aos 75 anos Cora publicou seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Doze anos depois, em 1976, lançou Meu livro de cordel, sem grande repercussão. Em 1979, ao ser "descoberta" por Carlos Drummond de Andrade, a obra de Cora Coralina ganhou projeção nacional: "Se há livros comovedores", escreveu Drummond a respeito da estréia da autora, "este é um deles. (...) Cora Coralina: gosto muito desse nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira."

"Escrever é uma recriação da vida, e, recriando a vida, eu me comunico. Não invento, não sou uma criadora, sou uma recriadora da vida. Esta é a marca mais viva do meu espírito junto à minha capacidade de dizer uma mentira."
(Cora Coralina)

"Seu Vintém de cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida!"
(Trecho de carta de Carlos Drummon de Andrade)



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Mário Quintana - O Aprendiz de feiticeiro


Mundo

E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em
                                   [caracteres desconhecidos,
Uma data ilegível e maravilhosa.
Quem viria bater à minha porta?
Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos
                                                    [e incertezas,
Outro amar sob estranhos zodíacos...
Outro...
E o temor de construir mitologias novas!

(O Aprendiz de feiticeiro - Mário Quintana)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Da Preguiça como Métodos de Trabalho - Mário Quintana

Para Mário Quintana, o leitor não deve ser desperto, pois eles são, "por natureza, dorminhocos. Gostam de ler dormindo".

Num país como o nosso, ninguém é levado a sério com ideias originais: "O lugar-comum é a base da sociedade, a sua política, a sua filosofia, a segurança das instituições". Ainda na crônica inicial do livro há referência ao leitor "semidesperto" e um ambíguo elogio: "A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro".

Da preguiça como método de trabalho, de Mário Quintana é uma obra com estilos variados, inclassificável. Surpreendente, despretensioso. Chega mansamente e ao final deixa o leitor deslumbrado. Mário Quintana reúne uma miscelânea com contos, aforismos, crônicas, fábulas, trovas, comentários e entrevistas. Cócegas para o cérebro. A ternura, presente na vida e obra do poeta, extensão certa aos amigos como Cecília Meireles, Érico Veríssimo e Manuel Bandeira. É só conferir no obra. Quintana, poeta em tempo integral. Onde a preguiça?

"O verdadeiro poeta, tudo quanto ele toca, se transforma em poesia."

Mário Quintana é um desses raros poetas. Como não quer nada, vai traçando sua poética visão de vida. Com leveza, senso de humor e simplicidade, escreve um livro que é bom ter por perto. Afinidade imediata. Como quem conquistou um amigo, ou quem sabe, foi cativado.

"Um engano em bronze é um engano eterno."
(Mário Quintana)

Coleção Mário Quintana, Organização, plano de edição, cronologia e bibliografia: Tania Franco Carvalhal, Fixação de texto: Lucia Rebello e Suzana Kanter

Quintana, Mário, 1906-1994. Da preguiça como método de trabalho / Mário Quintana; [prefácio Carlos Jorge Appel] - 2. ed. - São Paulo : Globo, 2007. - (Coleção Mário Quintana)
A Rua dos Cataventos / Canções / Sapato Florido / O aprendiz de Feiticeiro / Espelho Mágico / Apontamentos de História Sobrenatural / Esconderijos do tempo / Baú de Espantos / A Cor do Invisível / Caderno H / Porta Giratória / Da Preguiça como Método de Trabalho / A Vaca e o Hipogrifo / O Batalhão das Letras / Preparativos de Viagem / Velório sem Defunto / Nova Antologia Poética / 80 Anos de Poesia

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