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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Lêdo Ivo

Ignoro o quinhão que me coube na partilha
de tantos bens dispersos entre a luz raiante
e a névoa que mascara a borra dos naufrágios.



Lêdo Ivo

Nasce no dia 18 de fevereiro, em Maceió - AL, faleceu em 23 de dezembro de 2012.

Mesmo tendo nascido numa família sem tradição literária, desde a infância Lêdo Ivo manifestou o desejo de ser escritor. Quando se mudou com a família para o Recife, aos 16 anos de idade, passou a colaborar com a imprensa local e participou de um grupo literário do qual fazia parte o escritor e crítico literário Willy Lewin.

sábado, 15 de setembro de 2018

Francisco de Oliveira Carvalho



Francisco de Oliveira Carvalho

O rio de meus avós já não passa pela aldeia dos meninos.


De sua terra natal, Francisco Carvalho recorda as tardes poeirentas do verão, os doidos de rua, as procissões das sextas-feiras santas, os sinos da matriz dobrando pelos mortos de malária, transportados em redes para o cemitério. Em vários de seus poemas existem vestígios desta época, para sempre impresso na sua alma.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Cassiano Ricardo Leite


Cassiano Ricardo

Não fui quem sou, quando nasci.
Nem sei quem sou, quando amo.



1895
Nasce no dia 26 de julho, em São José dos Campos - SP

1974
Morre em 14 de janeiro, no Rio de Janeiro - RJ



quarta-feira, 11 de abril de 2018

Mário Quintana

Mário Quintana
Jamais compreendereis a terrível simplicidade das minhas palavras porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves...



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Renata Pallottini

Renata Pallottini
Renata Pallottini começou a publicar seus poemas na revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, na qual ingressou aos 17 anos. Fez também o curso de Filosofia, formando-se em 1951. Um ano depois, lançou seu primeiro livro, Acalanto. Desde muito cedo, a poesia foi, para Renata Pallottini, sua "maneira peculiar de colocar-se no mundo, de interpretá-lo, de comunicar-se com ele".

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta

"Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las."

Anderson Braga Horta começou a conviver com a poesia ainda na infância, pois seus pais eram poetas. Entretanto, só desenvolveu o gosto pela literatura depois que se mudou para a casa dos aós, em Manhumirim, cidade próxima de Laginha, onde ficara sua família. O entusiasmo pela poesia foi despertado pelo "estonteante mergulho na poesia de Castro Alves, especialmente no Navio Negreiro". Posteriormente, a leitura das obras de Olavo Bilac, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimaraens e Augusto dos Anjos ampliou seu horizonte literário. Outros integrantes de sua "salada de versos": Camões, Guerra Junqueiro, Pessoa e Drummond.

sábado, 9 de setembro de 2017

Astrid Cabral

Astrid Cabral Félix de Souza

Rio Negro
contigo arrastas ao abismo
invisível carga de risos de meninos

1936, Nasce no dia 25 de setembro, em Manaus - AM

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Antonio Carlos Secchin


Antonio Carlos Secchin

O dia. Arcos da manhã
em nuvem. Riscos de luz
como vidros arriados.

Antonio Carlos Secchin morou em Cachoeiro de Itapemirim até 1959, ano em que sua família mudou-se para o Rio de Janeiro. Os primeiros poemas foram escritos aos 13 anos de idade, inspirados pela leitura assídua de Drummond, Bandeira e Pessoa. Quatro anos depois, ganhou menção honrosa em um concurso de poesia e ingressou na Faculdade de Letras da UFRJ, onde fez mestrado e doutorado, para, em 1992, tornar-se professor titular de literatura brasileira.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Alexei Bueno

Alexei Bueno
Sem ti é falso o jardim velho, e fica o frio,
E fica o mármore, o feijão, o olhar vazio,
E a melhor frase que uma boca não falou.


Alexei Bueno escreveu seus primeiros versos aos 10 anos de idade. Foi um leitor precoce, mergulhado desde cedo nos escritores brasileiros da escola romântica e na obra dos grandes poetas portugueses. Depois veio a descoberta dos clássicos da poesia universal. Ao mesmo tempo, nutria uma especial admiração pela poética épica, dramática e lírica. Tantas leituras não traduzem necessariamente influências. Todavia, ele percebe claramente uma proximidade entre seus versos e o Simbolismo e o pós-simbolismo.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes
fecha os olhos de dentro -
Acorda, esquecimento.

Arnaldo Antunes é poeta, músico, cantor, compositor e artista plástico. Surgiu em 1982, com o grupo de rock Titãs, no qual ficou por 10 anos - período em que lançou três livros de poemas. O primeiro CD solo, Nome, veio acompanhado de livro e vídeo, revelando as múltiplas trilhas que seguiria em sua carreira.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Salgado Maranhão

Salgado Maranhão
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto

José Salgado Santos é o caçula entre seis irmãos - sendo quatro mulheres. Quando tinha 16 anos, emigrou com a família para Teresina, onde fez o curso secundário. Um dia, na biblioteca pública, descobriu Fernando Pessoa, e a poesia entrou definitivamente em sua vida. Depois, vieram as leituras de Maiakovski, João Cabral, Drummond, Joaquim Cardozo, Cecília Meireles e Murilo Mendes, "poetas inquestionáveis em qualquer idioma".

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vicente de Carvalho

"O mar é para  mim como o céu para um crente."

Vicente Augusto de Carvalho, nascido em Santos, litoral paulista, o "poeta do mar" - como viria a ser chamado - terminou os estudos longe de sua fonte de inspiração. Formou-se em Direito na Faculdade de São Paulo, em 1891.

terça-feira, 11 de março de 2014

Carla Guedes - Rosas



Já não tenho medo das rosas.
Lindas, rubras...
Antes meu medo era rubro
Rubro meu sangue
Colhido nos espinhos
Do medo perfurante
Da ausência e desilusão.

Murchas.
Rosas murchas,
Feitos sonhos murchos
Despetalados na praça.
Já não tenho medo das rosas.
Perfume com espinho dentro,
Sofreguidão com espinho dentro
Beleza, mesmo que dure
Só na paixão da entrega?

Já não me envergonham as rosas.
Faces rubras,
Sangue, sofreguidão e espinhos.
Porque hoje me enfeito de rosas
Mesmo que a carne grite,
Mesmo que os dedos gritem,
Porque sei, agora murchas,
Que eram lindas e inocentes.

Eram apenas rosas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ana Cristina Cruz César

Ana Cristina César
"Acho que existe sim um tipo de sensibilidade feminina, que é uma sensibilidade meio caótica, é uma sensibilidade mais sutil, é mais desorganizada. Ela é uma sensibilidade talvez meio histérica. A mulher é histérica por tradição."


A vidente se recolhe

Ardo de curiosidade pelo futuro,
me diz a moça mais oca da sala. Está escrito?
Isso me interessa, seu suspiro náutico,
porque não era ardor: a doçura da tolice singra a festa.
Adiante encontro um moço que me tolhe o passo e diz,
deixe-me levar, a dança... Ainda não.
Passo. Ainda não. Sigo o fio espiral do telefone
em curvas que roçam no batente várias portas.
Disco. Venha me buscar às tantas. Chegando
o fusca no portão, estou ali debaixo da garoa.
Vou guiar. Desço sem rilhar pneu.
Te levo para a sombra de árvore rendada na luz branca.
Manchas de umidade sob o parapeito. Ar de horto.
Veja a vista da cidade atrás da sombra.
Céu cortado por metade de holofotes em circulação.
Pó de maresia ao longe. Lagoa e jóquei, istmo, hotéis.
Daqui a cidade é brilho para adivinhar e rumoreja.
Também dou meu ombro de marmota recolhendo.

A mãe de Ana Cristina César era professora de literatura; o pai intelectual respeitado nos círculos políticos e religiosos, líder da Confederação Evangélica do Brasil, diretor da revista Paz e Terra e um dos criadores do ISER - Instituto Superior de Estudos Religiosos. Ana Cristina cresceu ouvindo os poemas e cânticos de sua igreja. Espécie de menina-prodígio, antes mesmo de aprender a escrever, já ditava seus poemas para a mãe.

O golpe militar de 64 transformou a vida da família da poetisa. A pressão dos pais de alunos contra os diretores e professores de esquerda do Colégio Bennett fez com que ela fosse transferida para outra escola. Nem bem concluiu o ginásio, Ana Cristina já participava de protestos estudantis. Seu namorado levou um tiro na perna, em manifestação diante da embaixada americana. O apartamento da família, na rua Toneleros, seria invadido algumas vezes pelas forças de repressão, em busca de seu pai.

Ana Cristina viajou para a Inglaterra e foi viver na casa de uma família protestante. Estudou seis meses numa escola para meninas, conheceu Londres e viajou pela Europa, o que seria um ponto de mutação em sua v ida, como "perder a infância". De volta ao Brasil, em 1971, estudou Letras na PUC, onde se formou quatro anos depois. Armando Freitas Filho viu em Ana Cristina César as características da poesia marginal carioca de sua geração: "O tom coloquial, longe das dicções solenes, sisudas e premeditadas."

Em 1979, Ana Cristina voltou à Inglaterra, para fazer mestrado em tradução. Ao retornar para o Rio de Janeiro, foi morar sozinha na Gávea e iniciou um ritmo frenético de trabalho, fazendo traduções e trabalhando para a Rede Globo como leitora e avaliadora de novelas. Mas nada preenchia o grande vazio que sentia na época. Ítalo Mariconi, um de seus amigos mais próximos, nota que, em 1983, o quadro de depressão se agravara: "Nosso jantar, no restaurante Real, na praia do Leme, foi uma choradeira mútua. Não tive presença de espírito para notar que o papo dela de suicídio era à vera." Em fins de setembro, Ana tentou se matar. Foi internada e, uma semana depois de sair da clínica, na casa dos pais, em Copacabana, atirou-se de uma janela do sétimo andar. Caio Fernando Abreu comentou o comportamento de Ana Cristina César poucos dias antes, na festa de aniversário dele: "Lenta, concentrada. Ana não dizia nada, apenas tocava, um por um, todos os objetos do meu quarto. E me olhava. Profunda, atentíssima, remota. Parecia uma despedida."

"Nela o coloquial vinha emmpacotado numa outra economia do verso, numa outra dinâmica das relações de som e sentido entre as frases poe´ticas, deixando transparecer um tipo de foramção literária rara no Brasil."

(Ítalo Moriconi)


Obras da autora
POESIA: Cenas de abril, 1979; Luvas de pelica, 1980; A teus pés, 1982.
OUTRAS: Literatura completa (cartas), 1979; Escritos no Rio (texto; jornalísticos), 1993; Correspondência incompleta (cartas), 1999.

(Estou postagem está em rascunho a meses e não recordo mesmo o motivo de não tê-la liberado - talvez sua incompletude para uma autora tão vasta - uma postagem para retornar e retornar e alimentar o tópico sempre).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Manifesto - Carla Guedes

Auto-retrato - Carla Guedes

Assim me mostro de repente:
Rebelde, com causa anunciada.
Gesticulo, falo, trago o coração à tona
Desobedeço minhas próprias regras
Que é pra ver se ainda há esperança.

Jovens, tão jovens embora
De discurso tão fluido
E com tintas tão vivas nas mãos:
Querem escrever o futuro que escolheram
Pra chamar de seus.

Seus sonhos foram outros, talvez
Mais pintados de ouro que de suor.
Mas não se assustam, nem correm:
Se unem, irmanizam, e abraçam
Que é pra ver se ainda há esperança.

Escrevem panfletos, pregam nas praças,
Se preparam para o pior:
Privações, coações, não serem ouvidos
Mas nem por isso desistem
Porque não esperam, e sabem o porquê.

Avançam trôpegos, roucos, cansados
Por vezes até incompreendidos,
Por muitos até improváveis.
Mas fazem valer cada minuto da existência
Que é pra ver se ainda há esperança.

Encontrei este belo poema da poetisa e escritora Carla Guedes no site A arte procurando ser reposta. Retrato de uma geração.

terça-feira, 27 de março de 2012

Metáforas da Alma - Paulo Roberto de Aquino Ney

Metáforas da Alma -
Paulo Roberto de Aquino Ney
Metáforas da Alma, de Paulo Roberto de Aquino Ney, um livro que tenho um imenso carinho por falar de poesia com extrema sensibilidade, com elevadíssima linguagem. Retorno à poesia de Paulo Ney, como quem tem sede em uma longa caminhada desértica, uma ducha refrescante à alma ressequida de boas letras.
Difícil é selecionar apenas um poema. Inicio pelo primeiro:

ASAS
Nascem... renascem...
(todos os dias)
tantos poemas
entretecidos
dentro de mim,
que sempre e sempre,
sempre os navego,
do ponto cego
ao próprio ponto
que vê os idos
tempos sem fim.
E tu, Poeta,
sempre navegas
o teu poema?
E, se navegas,
acaso pregas
nas linhas cegas
os teus sinais?
Se não o fazes,
serão capazes
as tuas frases
originais?
E, quando escreves,
acaso dizes
as cicatrizes
do teu porão?
Se, tudo isso,
tu não consegues,
melhor que ancores
os teus escritos
(mesmo bonitos)
no porto-morto
da tua palma:
versos sem alma
não voam não!

Segundo prefácio de Arlete Parrílha Sendra, Metáforas da Alma cumpre a missão da poesia: abrir para o outro que está além-linguagem expressível. Não como recusa do dizer mas como metáforas possíveis do ato de dizer o que a alma armazena E a terrível saga da incompletude do dizer.

Paulo Roberto de Aquino Ney nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) no dia 18 de junho de 1943. Pertence ao Instituto Campista de Literatura, à Academia Campista de Letras e à Academia Fluminense de Letras. Possui quatro livros de poesia publicados: Estrelas de meu céu, Reminiscências, Degraus de Pedra e Sargaços.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Manoel de Barros

Manoel de Barros
"Tudo que não invento é falso."

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.

Manoel de Barros nasceu no dia 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá, MT. Na primeira infância, Manoel de Barros foi criado numa fazenda, no Pantanal mato-grossense. Aos oito anos, porém, o pai o mandou para o Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro, internato onde permaneceu até completar o curso secundário. Manoel tinha saudades de casa, não conseguia se concentrar nos estudos, e era considerado um mau aluno. Aos poucos, começou a se interessar pelos livros. Leu Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e padre Antônio Vieria. "Só aos 13 anos descobri a forma de escrever. E foi lendo o padre Vieira. Descobri a sintaxe que produz o equilíbrio sonoro das palavras."
Após o internato, Manoel de Barros mudou-se para uma pensão no bairro do Catete e ingressou na Faculdade de Direito, onde participou ativamente da militância política de esquerda. Nesta época, tornou-se membro do Partido Comunista, que só viria a abandonar anos mais tarde. Na faculdade, experimentou o desregramento dos sentidos proposto por Rimbaud e identificou-se com a obra de Oswald de Andrade - uma vez que, para ambos, a poesia estava justamente nos desvios das normas da linguagem.
Depois de formado, Manoel de Barros voltou para o pantanal. Em seguida, fez longas viagens pela América do Sul e conheceu Nova York, onde ingressou em cursos de cinema e de história da arte. O primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, de 1937, produzido artesanalmente pelo autor e alguns amigos, teve apenas 21 exemplares impressos.
Com a morte do pai, em 1949, Manoel de Barros herdou as terras de Cuiabá. Tornou-se fazendeiro, mas não abandonou o verso: fundiu seu interesse pelo estudo da filologia do universo telúrico do pantanal, abolindo tanto as fronteiras entre os reinos vegetal, mineral e animal, quanto as que existem entre as categorias gramaticias.
O poeta só alcançou o reconhecimento na década de 80, pelas mãos de Millôr Fernandes e Antônio Houaiss, e teve seus poemas reunidos sob o título Gramática expositiva do chão. "A evolução de meu trbalho em relação ao primeiro livro é linguística. Também me tornei mais fragmentado, o que é consequência do mundo moderno, sem ideologias. Com o tempo, a gente perde a unidade divina", explica o próprio poeta.
Em 1996, com seu Livro sobre nada, Manoel de Barros ganhou o prêmio Nestlé e passou a viajar pelo Brasil por conta de um reconhecimento cada vez maior. Nos últimos anos, vem publicando vários livros infantis num reencontro do "alquimista do verso" com o menino pantaneiro. Surpreendendo a cada livro, Manoel ressalta sua identificação com a obra do romancista mineiro Guimarães Rosa, a quem disse uma vez: "Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."

"Gosto de fazer remontamentos de imagens. E oralidades remontadas. Faço colagem. Tentei uma gramática do êxtase, mas não encontrei."

"Não conto nada na reta, escrevo sempre nas linhas tortas, como digo aliás num poema. Na minha poesia parece que tem muita coisa de fora, mas é tudo de dentro. Sou muito preparado de conflitos."
'Não acredito em inspiração. Primeiro anoto tudo em meu pequeno caderinho, juntando minhas experiências existenciais e linguísticas. Quando termina esta fase, que dura dois, três, quatro anos, vou aos cadernos para catar os poemas e dar-lhe a forma definitiva."
(Manoel de Barros)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Mas Viveremos

Carlos Drummond de Andrade
 - Alguma Poesia
 (contra-capa)

Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.

Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.

Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e esperança.

Já não distinguirei, na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.

Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados,
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.

Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.

Voltava a noite, mais noite, mais completa.
E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas
oceanos e oceanos e oceanos.

Mas um livro, por baixo do colchão
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando,
e teu retrato, amigo, consolava.

Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.

No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei se vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.

Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.

Mas viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.

Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.

Pouco importa os dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se taçam
sinais da praia ao rubro couraçado.

Ele chegará, ele viaja o mundo.
E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.

Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
Essa rosa, esse canto, essa palavra.





quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Raul Bopp

Raul Bopp, 1962

"Jacarés em férias
mastigam estrelas que se derretem dentro d´água"

O gaúcho Raul Bopp, descendente de alemães criadores de gado, nasce no dia 4 de agosto, em Santa Maria - RS e morre em 2 de junho, no Rio de Janeiro, RJ. Aos 16 anos, fez sua primeira viagem, indo do Paraguai ao Mato Grosso a cavalo, só retornando ao Rio Grande do Sul quando decidiu estudar Direito. Mas seu anseio por viajar era tão grande, que ele deu um jeito de cursar a faculdade em cidades diferentes. Estudou em Porto Alegre, Recife, Belém e Rio de Janeiro.

Em Belém, começou a escrever Cobra Norato, onde narra as aventuras de um jovem depois de entrar no corpo da mitológica figura com formato de cobra sucuri, devoradora de quem invade seus domínios. Para descrever o vigor, a violência e o caos da floresta, Bopp recorreu a versos livres, sem obedecer aos critérios da poética estabelecida. Cobra Norato tem parentesco com o Macunaíma, de Mário de Andrade, e o Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, por suas origens comuns nas lendas da Amazônia, explorando o mito da viagem no tempo e no espaço.

Em 1926, o poeta chegou a São Paulo. A princípio se envolveu com o grupo Verde-Amarelo, tendência modernista de acento xenófobo, cujo principal nome era Plínio Salgado, mas logo se uniu a Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, sendo um dos responsáveis pela Revista de Antropofagia. Com a publicação de Cobra Norato e também de Urucungo - poemas negros, conquistou respeito e admiração. Oswald afirmou que, "em Cobra Norato, pela primeira vez, se realizou a poesia brasileira grandiosa e sem fraude".
Em 1932, o poeta ingressou na carreira diplomática. Serviu no Japão, em Los Angeles, Lisboa, Zurique, Barcelona, Guatemala, Berna, Viena e Lima, tendo sido embaixador na Áustria e no Peru. Ao se aposentar, em 1963, escreveu memórias de suas andanças pelo mundo e de sua participação no movimento modernista.
Aos 90 anos de idade, Raul Bopp partiu em sua última viagem.


Cobra Norato

Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

Vou andando caminhando caminhando
Me misturo no ventre do mato mordendo raízes

Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato

- Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar

A noite chega mansinho
Esrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra.

Agora sim
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo

Vou visitar a rainha Luzia
Quero me casar com a sua filha
- Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono escorregou nas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos


"Sentir-se-á, sempre, neste poema bizarro e vitalista (Cobra Norato), uma imagem de coisas brasileiras através da visão expressionista de um artista originalíssimo."
(Àlvaro Lins)


Obras do autor

POESIA: Cobra Norato, 1931; Urucungo - poemas negros, 1932; Poesias, 1947; Cobra Norato e outros poemas, 1954; Antologia poética, 1967; Putirum; poesias coisas do folclore, 1969; Mironga e outros poemas, 1978.

ARTIGOS E CRÍTICAS: América, 1942; Movimentos modernistas no Brasil, 1966.

PROSA: Notas de viagem: uma volta pelo mundo em trinta dias, 1960; Notas de um caderno sobre o Itamarati, 1960; Memórias de um embaixador, 1968; Coisas do Oriente, 1971; "Bopp passado a limpo" por ele mesmo, 1972; Samburá: notas de viagens & saldos literários, 1973; Vid e morte da antropofagia, 1977; Longitudes: crônicas de viagens, 1980.

EM COLABORAÇÃO: caminhos para o Brasil (com Américo R. Neto e Eng. Donald Derron), 1928; Geogragia mineral (com José Jobim), 1938. Sol e banana: notas sobre a economia no Brasil (com José Jobim), 1938.



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX

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