domingo, 12 de março de 2017

Granta 10 - António Lobo Antunes - Cartas de Guerra


Granta 10 - Medidas Extremas

NOTA DO EDITOR
Estas "cartas de guerra" foram escritas por Antônio Lobo Antunes entre janeiro de 1971 e janeiro de 1973, período em que participou da guerra colonial em Angola como médico do exército português. Contava, então, 28 anos, e não havia ainda publicado seu primeiro romance. As cartas foram escritas para sua primeira mulher, com quem se casara em agosto de 1970, e que engravidaria no mês seguinte. O que se segue é uma seleção de 12 cartas, em que fala de amor, medicina, literatura e guerra. As cartas fazem parte do volume D´este viver aqui neste papel descripto, organizado por suas filhas e publicado em Portugal pela Dom Quixote em 2005.

27.1.1971

Minha namorada querida
Aqui cheguei, finalmente, a Gago Coutinho, depois de uma viagem apocalíptica, como nunca pensei ter de fazer em qualquer época da minha vida: partimos às 3 horas da manhã dia 22, em autocarros tipo Claras de Luanda para Nova Lisboa, através de um cenário maravilhoso, mas que à 23a. hora começou a cansar-me. Chegámos de madrugada a Nova Lisboa, dormimos nas camionetas, e às 3 da tarde do dia 29 (ou 23?), depois de 600km de autocarro, meteram-nos no comboio para o Luso: 2 dias de viagem em vagões de 4a classe - essa famosa invenção dos ingleses para os habitantes do 3. mundo, e que a companhia dos caminhos de ferro de Benguela inglesmente adoptou -, em grandes molhos de pernas e braços, de armas e de cabeças. Essas carruagens possuem apenas 3 únicos bancos longitudinais: dois ao correr das janelas e o último, duplo, ao centro, como uma risca ao meio. Como faltavam vagões, assistiu-se então a um espetáculo indescritível: de todo o lado surgiam membros que pareciam não pertencer a nenhum corpo. Cheguei a coçar a minha cabeça com uma mão alheia. Aí dormia, ou fingia dormir, e comia conservas que inundavam o chão de latas e de molhos, e que me estragaram completamente as vísceras. Deportados judeus para um campo de concentração nazi. E depois veio o inferno, ou inferno maior, o sétimo inferno inversamente comparável ao 7. céu de Maomé: agarram em nós e meteram-nos em camionetas de cargas para os 500 km minados que separam Luso de Gago Coutinho: dois bate-minas à frente (duas berliets carregadas de sacos de areia) e depois uma extensa fila de carros, onde seguíamos de arma apontada numa tensão de ataque iminente. Felizmente não houve minas nem emboscadas, mas aconteceu-nos uma coisa horrível: a camioneta em que eu seguia, a última (por sorteio) partiu a direcção, a uma velocidade considerável, e esmagou-se numa vala. Éramos 21: três braços partidos, 2 pernas, várias outras lesões sortidas, e eu com 6 pontos no lábio e 3 na língua: ainda não a sinto. Caímos todos uns por cima dos outros, e pensei que tivesse sofrido mais do que isso porque o corpo dava-me a sensação de se encontrar multiplamente rachado. Mas tudo passou, continuo a resistir, e amo-te.
Isto é o fim do mundo: pântanos e areia. A pior zona de guerra de Angola: 126 baixas no batalhão que rendemos, embora apenas com dois mortos, mas com amputações várias. Minas por todo o lado. A Zâmbia quase à vista. Um clima com uma amplitude térmica de 30 e tal graus. E a minha vida via encher-se de aventuras arriscadas: em princípio ficarei aqui 4 meses, e irei, semanalmente, de avião, a Cessa e Mussuma, onde há 2 pelotões destacados. Nos 4 meses seguintes partirei para Ninda, ou Chiúme, onde estão as companhias operacionais, e andarei de um lado para o outro, na picada, de viatura. Virei de férias em Outubro. E em Novembro baixo de novo. Isto em princípio, porque tudo, claro, pode ser alterado. A instabilidade e improvisação caracterizam esta guerra.
Estou estafado e em tiras, mas bem disposto e com coragem. Hei-de voltar, e resistir,, para junto de ti e do nosso filho. A miséria do negro é assustadora. As senzalas inundam-se de esqueletos subalimentados, em contraste com a majestosidade da paisagem, de uma beleza terrível.
Minha querida, eu adoro-te. O teu telegrama, que me assustou ao recebê-lo (tive medo de qualquer novidade desagradável) foi para mim uma surpresa estupenda. Vamos a ver se consigo, agora que devo principiar a depositar um pouco o cansaço, o sono e a fome que trago em atraso, se começo a escrever à famíllia. Milhões de beijos, de ternuras e de abraços. E não deixes nunca de gostar de mim.
Meu amor meu amor meu amor eu gosto de tudo de ti. E tenho muitas e muitas saudades tuas. Lembra-te de mim. Cumprimentos meus ao nosso filho. Eu adoro-vos aos dois.
António

Diz-me como estás e onde estás, se tens estudado, o que te tem acontecido, os progressos da criança, tudo. Conta-me de tudo. E vai dizendo aos outros de mim, porque estou sem grande ânimo para escrever. Diz-lhes isso também. Vamos a ver se arranjo coragem para lhes mandar notícias.
Gosto tanto tanto tanto de ti!
Milhões de beijos!


31.1.71

Minha jóia querida
Começou a guerra a sério para nós. Uma das companhias, colocada em Ninda, foi atacada por morteiros e metralhadoras e as consequências, embora relativamente pouco importantes para nós (um morteiro caiu na pista de aviação e dois na parada), dão um bocado que pensar. Os dois aviõezitos da força aérea passaram a tossir por cima de nós e foram bombardear presumíveis acampamentos inimigos. Entretanto, encontrou-se, por aqui, papelada vária anunciando ataques para os dias 3, 4 e 5, em que se comemora o aniversário do MPLA. Para mim, o problema maior é o das viagens de avião que farei terça ou quarta, pois além de tudo o mais, têm caído aqui chuvadas gigantescas: em cinco minutos fica tudo alagado de charcos e poças imensas, como se chovesse durante horas e horas. E as trovoadas, fantásticas de intensidade, desabam em cima de nós numa cadência de Apocalipse. E ainda só passaram 15 dias, o que me faz começar a pensar que estou a pagar um preço muito caro pela possibilidade de voltar a viver aí um dia - que me parece cada vez mais distante.
Continuo sem notícias, mas a verdade é que também não tem havido avião. E de resto, escrever à família tira-me a vontade de escrever seja o que for a mais. Vamos a ver se amanhã, segunda-feira - é hoje um triste domingo chuvoso e sem esperança - começo, de novo, a pensar no livro, embora viva habitado por uma lassidão imensa. Apetece-me, apenas, sentar-me sem fazer nada à espera que o tempo passe. Que vontade eu tenho de me ir embora daqui! O comando distribuiu as coisas de tal forma que apenas aí poderei ir em Outubro, o que mais me agrava a tristeza. Curiosamente, nasceu-me ontem uma poesia, mas consegui afogá-la, sem a escrever, dentro da minha cabeça, e, hoje, já me esqueci dela. (Estou, de resto, vagamente arrependido.)
Meu amor eu tenho  muitas saudades tuas, e de tudo o que me liga a ti. Sinto-me tão só, no entanto, e tão submergido, que tenho quase a certeza de que não te voltarei a ver. Tudo me faz falta neste deserto estúpido e, não sei porquê, levo o tempo a pensar na nossa casa do Arco do Cego, nos móveis, nos cheiros e nas coisas. Já não sei o que é vestir outra roupa que não sejam fardas e fardas. Os atiradores vão começar a sair e eu só espero não me virem chamar para o helicóptero das evacuações: à força de viver com estes tipos custa-me um bocado a admitir que lhes possa suceder qualquer coisa...
Desculpa-me esta carta tão desanimada e desanimadora, mas o cinzento do tempo não me ajuda: esperemos dias melhores. Uma coisa, entretanto, que o Jorge disse, numa carta, começo eu a compreender: não voltarei a ser a pessoa que fui, nunca mais.
Milhões e milhões e milhões de beijos
António

PS. Supiro pelos teus retratos. Tira-os, em qualquer sítio, uma centena, pelo menos, e manda-mos com a máxima urgência. Eu adoro-te mais do que pensava poder vir, um dia, a gostar de alguém.
Saudades ao Toino, também ele me faz falta.



2.2.71

Minha joia adorada

Continua a chover impiedosamente, e, com grande espanto meu, está frio. Dentro de alguns meses, ao que me disseram, no tempo do cacimbo, teremos aqui temperaturas negativas: começo a arrepender-me de ter deixado o pijama grosso no Vera Cruz, juntamente com umas ceroulas e uma camisola interior.
Ontem, o outro batalhão foi-se embora e ficámos sozinhos neste deserto de meu tempo. Começo a sentir o cheiro de serapilheira dos negros. Matilhas incomensuráveis de cães diversos vagueiam livremente no quartel, trazidos por sucessivos batalhões que por aqui passaram. A maioria deles vive cheia de pústulas, e muitos coxeiam. Por proposta minha vão ser arrebanhados num molho de trelas e largados o mais longe possível por um grupo de combate qualquer, para evitar doenças ae mordeduras de animais não vacinados. O poema do outro dia continua a perseguir-me, a mim, o algoz dos cães, faz-se sozinho na minha cabeça, maça-me e insiste, e até arranjou um título para si mesmo. Chama-se HELDERBERG COLLEGE, que é o nome impresso numa caixa de cartão que apodrece no topo de um armário do meu quarto, e começa assim:
e senti, então um grande medo de morrer.
Mas eu, claro (já me conheces!), não me dou por achado (acho piada a esta expressão) nem lhe ligo nenhuma.
Levo já algumas horas de voo nestes pássaros precários, quer em evacuação de feridos quer em visitas aos destacamentos. Hoje, estava em Ninda, fazendo a consulta dos nativos quando ouvi um estrondo abafado e uma subida de fumo. Uma mina tinha acabado de rebentar debaixo de uma viatura nossa, com sei feridos, felizmente pouco graves. O ataque, à morteirada, acabou por ter poucas consequências, devido a uma sorte incrível. Havia estilhaços por todo o lado. Um deles foi entrar no quarto de um oficial e partiu o fio do candeeiro meio metro acima da cabeça dele. A rádio  Zâmbia, que ouvimos todas as noites, declarou ter feito 3 mortos e 16 feridos, e anuncia para amanhã, dia 4, aniversário do MPLA, o nosso total aniquilamento. Entretanto acabo de receber um maço de cartas, que vê todas juntas: muitas de ti, três da minha velha , uma do Manuel, outra da tia Gogó. Gostava realmente de ler o livro do Cortázar, embora me faltem o tempo e a disposição. Daqui até ao fim da semana, se as condições melhorarem, vamos ver se começo a pensar noutras coisas para além dos doentes e da minha própria sobrevivência.
As tuas cartas foram para mim uma grande alegria. As minhas saudades são muitas, o meu amor por ti muito grande, enorme, e só espero sair daqui vivo para to poder dizer boca a boca. Estou hoje mais calmo e com mais coragem, apesar de ter voado, desde as 7 da manhã, perto de cinco horas, por vezes debaixo de temporais incríveis. (Tudo tremia naquela merda.) Quero que saibas que te amo muito e muito. Tudo.
António

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