terça-feira, 5 de setembro de 2017

Salgado Maranhão

Salgado Maranhão
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto

José Salgado Santos é o caçula entre seis irmãos - sendo quatro mulheres. Quando tinha 16 anos, emigrou com a família para Teresina, onde fez o curso secundário. Um dia, na biblioteca pública, descobriu Fernando Pessoa, e a poesia entrou definitivamente em sua vida. Depois, vieram as leituras de Maiakovski, João Cabral, Drummond, Joaquim Cardozo, Cecília Meireles e Murilo Mendes, "poetas inquestionáveis em qualquer idioma".

Em 1971, com 18 aos, trabalhava no jornal O Dia, de Teresina, quando recebeu a incubência de entrevistar Torquato Neto numa de suas visitas à cidade. Torquato apadrinhou o jovem poeta da província, ainda cultor de rimas e métricas neoparnasianas, apresentando-lhe os concretos e os modernistas.  E deu conselho: "Vá para o Rio de Janeiro, pois é lá que as coisas acontecem."

Dois anos depois, José Salgado Santos aportava em terras cariocas, onde passaram a chamá-lo de Maranhão. Ele incorporou o apelido, e adotou o nome artístico de Salgado Maranhão. Estudou Comunicação na PUC - curso que não chegou a concluir. Gostava mesmo era de participar dos eventos de poesia. Certa noite, ao assistir a uma apresentação da Nuvem Cigana, invadiu o espaço e interpretou alguns poemas seus. O poeta e compositor Júlio Barroso, que viu a apresentação, convidou-o para escrever na revista Música do Planeta Terra. Assim, Salgado Maranhão começou a ficar conhecido nos meios culturais da cidade. Em 1978, organizou, com Sérgio Natureza e Antônio Carlos Miguel, a antologia Ebulição da escrivatura, publicada pela editora Civilização Brasileira. Ao ler o livro, Paulinho da Viola lhe propôs uma parceria musical. Abria-se uma nova porta para sua poesia: Salgado Maranhão compôs mais de 100 músicas com Paulinho da Viola, Xangai, Ivan Lins, Vital Farias, Elton Medeiros e outros.

Ainda na faculdade, um padre jesuíta o apresentou à cultura oriental. Salgado Maranhão largou os estudos e foi aprender Tai chi chuan. Começou a dar aulas e se tornou massagista e terapeuta corporal.

O poeta recebeu o prêmio Ribeiro Couto de 1998, com O beijo da fera, e o prêmio Jabuti, de 199, com Mural de ventos. Para Jorge Wanderley "a palavra, na poesia de Salgado Maranhão, olha para suas companheiras, dialoga com suas anatomias de vizinhança, no interior mesmo de um discurso nobre e atento à sua elegante e marcada altitude". Olga Savary acrescenta: "Trata-se de um grande poeta e de um príncipe como pessoa. A mesma elegância como ser humano está presente em sua poesia."

1953, Nasce no dia 13 de novembro, em Caxias - MA.


"Salgado é um franco-atirador em meio aos cultores das dietas pós-concretas, frugalíssimas em matéria de aventura imagística."
Geraldo Carneiro

"Salgado Maranhão capta e nos revela, numa simples cicatriz, o próprio combate dos deuses."
Carlito Azevedo



PALAVRA

a palavra coexiste no dilúvio
ao açoite do sangue nas pedras.
a palavra é a pedra - e o arquétipo
que dança.
e o tempo do fogo flama
e a memória das águaslavras
en/canto e plenilúnio.

a palavra lavra o tempo
naja imaginária
submersa no invisível mar,
godiva do cais dos loucos
deusa do silêncio.

a palavra em si é cio
virtude
          a divertir em si é cio
virtude
          a divertir o vício
de saber saber.


Obras do autor
POESIA: punhos de serpente, 1989; Palávora, 1995; O beijo da fera, 1996; Mural de ventos, 1998.
ANTOLOGIA: Ebulição da escrivatura, 1978.



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.



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