quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Varlam Chalámov - Contos de Kolimá





Varlam Chalámov - Contos de Kolimá


NA ESTANTE, por Fernanda Pompermayer, Cidade Nova, Outubro 2016 - n.10

"Se você já leu Recordações da casa dos mortos, de Dostoiévski, ou Arquipélago Gulag, de Alexander Sljenítsin, não pense que Contos de Kolimá é só mais um relato da vida nos campos de trabalhos forçados da Sibéria.
Nos anos negros da era stalinista, milhões de cidadãos russos e dos países satélites que formavam a União Soviética foram hóspedes do complexo prisional siberiano. O fato de conhecer algum dissidente do regime ou de fazer qualquer menção que configurasse contrariedade ao governo já era suficiente para ser considerado "contrarevolucionário" e, portanto, preso e deportado.
Em 1924 o escritor russo Varlam Chalámov (1907-1982) difundiu cópias da carta que Lênin escrevera aos membros do Comitê Central do Partido Comunista, chamando a atenção para a monopolização que Stálin provocava na Rússia. Não deu outra: foi condenado a cumprir pena de três anos em Kolimá, região desolada no nordeste da Sibéria. Em 1937 foi preso novamente, dessa vez por 17 anos.
Contos de Kolimá é o primeiro livro da série de seis que relatam o ciclo completo da experiência de Chalámov em Kolimá.
O autor conta que, sob qualquer temperatura, os trabalhadores eram obrigados a caminhar até seus locais de trabalho. "Mesmo sem termômetro", relata, "Os prisioneiros antigos mediam o frio quase com exatidão: se há nevoeiro gelado, na rua faz quarenta graus abaixo de zero; se o ar da respiração sai com ruído, então , quarenta e cinco graus, o cuspe congela no ar".
O fundamentalismo de uma ideologia levado às últimas consequências foi capaz de extirpar da alma dos algozes qualquer resquício de respeito pelo ser humano. A selvageria e a brutalidade atingiram requintes inimagináveis. Fome, frio, descaso, humilhações, imundície, agressões físicas e fuzilamentos substituíam o pão cotidiano (que faltava!).
Se os ossos podiam congelar, também o ce´rebro podia congelar e embotar, também a alma podia congelar. No frio intenso, não era possível pensar em nada. Tudo ficava simples.
Segundo a escritora Irina P. Sirotínskaia, "O livro é endereçado à alma de todos os homens.
Chalámov, intencionalmente, rejeita toda literariedade pensada que posa afastar o escritor do leitor, uma literariedade "sacrílega para um tema como esse'". Esse tema - continua Sirotínskaia - "exige que o leitor tome parte na criação, na dor, nas emoções, na raiva. É infinitamente sincero, infinitamente verídico".
Narrativa forte, impactante, palavras amargas, descrições sinistras?
Com certeza. Contos de Kolimá, obra-prima de Chalámov, não é um livro para passar o tempo. É um relato meticuloso de uma parte da História que felizmente ficou para trás. Mas sua leitura é também uma brecha que se abre para conhecermos e refletirmos sobre o significado de uma época recente. Ela é reveladora das consequências antropológicas da exacerbação de uma ideologia, do culto à personalidade e da sede desenfreada de poder. Assim como o Holocausto judaico, é uma experiência "para não esquecer".
Como afirma o escritor Boris Schnaiderman na apresentação do livro, "esses contos de Chalámov enquadram-se, com toda a certeza, entre os documentos humanos mais fortes que o atribulado século 20 nos legou"."

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