quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Krishna Monteiro - O que não existe mais

Krishna Monteiro -
o que não existe mais

Monteiro, Krishna - O que não existe mais - São Paulo : Tordesilhas, 2015.

Ganhei em um sorteio no Grupo do Facebook Livro Errante, o livro O que não existe mais, de Krishna Monteiro.

Hora certeira para se  ler sobre perdas.

Com o título contraditório, O que não existe mais alerta para o fato de que a ausência pode imundar a vida, preencher vivência, a ponto do não existir tornar-se mais vivo que a própria vida.

"Caminho em direção à escada, ao meu quarto. Passo em frente ao espelho, nele sinto meu reflexo preso, encerrado na moldura de marfim. E, ao contemplar meu terno bege, o verde de meus olhos, ao mirar o branco e a gordura de meus cabelos, o perfeito caimento da bengala a me apoiar, percebo que nunca, nunca poderei dizer: "Encerrado, ponto final, tu não existes mais". Não, o espelho traz consigo um veredicto: tu, pai, estás encerrado em mim. Olho para o corredor. O último lustre se apaga. E, ao deitar em minha cama, na última, derradeira vez que te vi depois de tua morte, dou-me conta, pai, concluo, pai, que tu sempre haverás de existir. Boa noite. E adeus."

A linguagem é filosófica, poética.

Assim são traçadas as sete histórias:
O que não existe mais
As encruzilhadas do doutor Rosa
Quando dormires, cantarei
Um âmbito cerrado como um sonho
Monte Castelo
O sudário
Alma em corpo atravessada

Impregnado de lembranças de vivências, cores, cheiros, nuances, vida que passa mas fica na lembrança dos que ficam. Nesses detalhes, o viver em essência.

"Se eu fosse você, largaria esta arma, poria no chão este revólver, lançaria por terra a bala de aço destinada a destruir teu crânio. Se eu fosse você, correria, cruzaria o chão do quarto em direção à janela, e, após escancarar cada uma de suas folhas e erguer a vidraça e ouvir o rangido das dobradiças que abotoam a madeira, então eu, se fosse você, botaria para fora meu pescoço neste breu anoitecido e sereno. Levantaria os braços, saudaria o mundo com a mais refinada das mesuras e respiraria uma a uma as múltiplas vozes que cavalgam o vento. Se eu fosse você, acenderia, tragaria este ar tão pleno de poeira, do peso e do cheiro das partículas, ar e recender polifonias, ar a exalar dissonâncias, ar a cheirar cacofonias, notas e acordes, ar a espargir em torno de si o perfume secreto das escalas, dos arpejos e dos timbres."

Detalha, destrincha, esmiuça a vivência humana.

Krishna Monteiro nasceu em 1973, no Paraná. Graduou-se em economia e fez mestrado em ciências políticas. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, em 2008 ingressou na carreira diplomática. Entre os anos de 2010 e 2012 trabalhou como vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Além disso, foi editor de textos literários da revista Juca - diplomacia e humanidades, publicada pelo Itamaraty, e ajudou a criar o blog Jovens Diplomatas. Atualmente, é cônsul adjunto do Brasil em Londres. O que não existe mais é sua estreia como escritor.




domingo, 16 de agosto de 2015

Carla Guedes - Voadoras

Carla Guedes

E lá vão as moças
Seguindo a Orquestra
Recolhendo mínimas,
Semínimas e sinonímias.
Sonhos na grama e no asfalto
Feito confete
Sonhos nas mãos e nos dedos
Grudados como
Purpurina.

A chuva faz que cai,
mas não cai
A chuva faz que vem,
mas não vem
Vem!
E chove.

[Pausa!]

Esboçam no dia um sorriso bobo
Que é pra cantarolar alegrias,
Recosturar fantasias,
E dar a cara pro vento
Nessa vida que anda numa corda
Bamba!
Na leveza da valsa, do riso, e batuque
Samba!
Estandarte é o coração.

E seguem as moças,
E deixam a Orquestra,
Espantando uma folia fora de época:
Solidão.

(Carla Guedes)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A.P. Tchekhov - A Dama do Cachorrinho e outros contos

A. P. Tchekhov -
A dama do cachorrinho e outros contos -

tradução de Boris Schnaiderman.

"A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fôra feliz com ele. O tempo passava, Gurov tratava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor."

Lendo lentamente as detalhistas e rebuscadas histórias de Tchekhov.
O autor constrói os ambientes com extrema precisão adentrando na alma dos personagens com extrema facilidade. Não o faz de forma fácil pois a leitura se faz cuidadosa para nada se perder do precioso autor.

O livro apresenta as seguintes histórias:
Nos banhos
Pamonha
Fantasiados
Caso com um clássico
A morte do funcionário
Do diário de um auxiliar de guarda-livros
Camaleão
Casa-se a cozinheira
Crime premeditado
Subtenente Prichibiéiev
Aflição
Um dia no campo (Cenazinha)
A corista
Criançada
Sonhos
Vanka
Um conhecido
Gente supérflua
Na primavera
Angústia
Senhoras
Gricha
O acontecimento
Bilhete premiado
Volódia
Tifo
Inimigos
Ilegalidade
Olhos mortos de sono
O sapateiro e a força maligna
Ventoinha
Volódia grande e Volódia pequena
Um caso clínico
Homem num estojo
Queridinha
A dama do cachorrinho

Volto para contar.





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