domingo, 27 de dezembro de 2015

Stendhal - A cartuxa de Parma

Stendhal - A cartuxa de Parma

A cartuxa de Parma, Stendhal, Penguin - Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

A cartuxa de Parma é um digno retrato de sua época. Stendhal (pseudônimo usado na literatura pelo francês Henri-Marie Beyle) escreveu essa obra-prima de 617 páginas com rapidez inacreditável: apenas 53 dias!, e a publicou em 1839. O autor é conhecido também por outro é conhecido também por outro famoso romance, O vermelho e o negro - que não deve ser confundido com o filme O escarlate e o negro, de Jerry London (1983), protagonizado por Gregory Peck. Esse romance foi considerado pela crítica um exemplo antecipado do realismo literário. Sua marca registrada são a perspicácia e a delicadeza na análise psicológica dos personagens. Houve até quem o comparasse a O Príncipe, de Maquiavel, contextualizado em outra época.

No início do século XIX a Europa ainda respirava o cheiro de pólvora das guerras napoleônicas e vivia em grande instabilidade política, cenário perfeito para intrigas partidárias, arroubos de nacionalismo e, principalmente, ambições desenfreadas pelo poder.

A história, que curiosamente apenas no final faz alusão à cartuxa que lhe dá o título, acontece entre os campos de batalha franceses e a ensolarada região de Parma, na época um dos muitos reinos da Itália. A prosa ágil de Stendhal e a estrutura da trama dão ainda mais requinte às intrigas e conspirações de bastidores, potencializadas por recursos como cartas anônimas e envenenamentos. O livro demorou para emplacar, mas em compensação recebeu elogios de notáveis da época. Balzac o considerou o  mais significativo romance do seu tempo e até deu conselhos a Stendhal para que enxugasse o texto, tornando-o mais fluido e profundo. Para André Gide foi o maior romance francês. Para completar, Tolstói confessou que encontrou na obra de Stendhal inspiração para a sua monumental Guerra e Paz (1865-1869). Assim como o personagem central de A Cartuxa de Parma, Fabrice Del Parma, Fabrice Del Dongo vagueia pelo fronte da batalha de Waterloo perguntando-se se aquilo era realmente a guerra, mais tarde Pierre Bezukhov, em Guerra e Paz, caminhará perplexo, entre os canhões da Terceira Coalizão russa contra Napoleão, em busca de um sentido para a vida.
Nesse dia, o exército, que acabava de ganhar a batalha de Ligny, estava em plena marcha para Bruxelas; era véspera da batalha de Waterloo. Por volta do meio-dia, a chuva torrencial continuava e Fabrice ouviu o troar do canhão; essa felicidade o fez esquecer por completo os horríveis momentos de desespero que aquela prisão tão injusta acabava de provocar.
Andou até noite muito avançada, e como começava a ter algum bom senso foi tentar alojamento numa casa de camponês muito distante da estrada.
Esse camponês chorava e alegava que lhe tinham levado tudo; Fabrice lhe deu um escudo e ele encontrou aveia. (...)
Uma hora antes de o dia raiar, Fabrice estava na estrada e, com muitos afagos, conseguiu fazer seu cavalo pegar um trote. Por volta das cinco horas, ouviu o canhoneio: eram as preliminares de Waterloo. (p. 69).

Fonte: Cidade Nova - Dezembro 2015, n. 12, Na Estante, por Fernanda Pompermayer.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Omar Khayyam - Rubaiyat (de Franz Toussaint)

Omar Khayyan - Rubaiyat
Rubaiyat (Omar Khayyam); tradução Manuel Bandeira (de Franz Toussaint). - Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

Um mistério: assim este livro chega a minhas mãos.

Após uma mudança de espaço físico no trabalho, eis que sob a minha mesa aparece o livro Rubaiyat, com belíssima capa, impressionando a primeira vista.

Procuro pelo dono sem êxito. Resolvo levá-lo para leitura.

Basta ler uns versos para saber a jóia que ficou perdida em minha mesa.

Imaginá-lo sendo escrito no século XI por um poeta persa que se tornou um dos autores mais populares do mundo foi um imenso prazer.

Omar Khayyan é um fenômeno, e recriado por muitas mãos, o que de certa forma gera polêmicas acerca da tradução de suas obras.

Nesta edição Manuel Bandeira optou por trabalhar sobre a tradução francesa de Toussaint (1923), pois achava que a edição inglesa de FitzGerald (1859), que popularizou Omar Khayyam no Ocidente, sendo "primorosa" do ponto de vista literário, é, do ponto de vista da fidelidade ao texto original, "inaproveitável".

Assim segue a polêmica sobre quantas "quadras" Omar deixou. Seriam 206 conforme edição iraniana de 1461 ou 464 de acordo com a edição francesa de J.B. Nicolas (1857), que trabalhava na embaiada francesa em Teerã. Seriam as 178 da edição em Teerã, em 1943, ou as 121 da edição dinamarquesa de 1927?

Importante astrônomo, matemático e pensador em sua época, chegou a nós como poeta. Sua poesia sobreviveu à sua ciência e aos seus tradutores.

Há qualquer coisa intrigante e misteriosa que faz com qeu leitores de uma era eletrônica e globalizada se deliciem com essa poesia simples e intemporal, já alerta Affonso Romano de Sant´Anna na contra-capa do livro.

Melhor que saber sobre o autor é ler suas poesias, certamente.

Ah, não procures a felicidade!
A vida dura o tempo de um suspiro.
Djemchid e Kai--Kobad hoje são poeira.
A vida é um sonho; o mundo, uma
[miragem.

sábado, 3 de outubro de 2015

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens
A revista Cidade Nova, Julho 2015, seção NA ESTANTE, por Fernanda Pompermayer apresenta crítica literária ao livro Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupéry, Editora Via Leitura, São Paulo, 2015, 176 páginas.

"No Brasil Saint-Exupéry é sinônimo de O pequeno príncipe, até hoje na lista dos livros mais vendidos. Mas o escritor francês é maior do que o seu pequeno-grande personagem e Terra dos homens, publicado em 1939, é uma prova disso. Nele o aficionado aviador relata parte da sua vida, sempre mergulhando nas profundezas mais íntimas de seu ser e compartilhando com o leitor suas reflexões.

Em 1926 Saint-Exupéry faz seu primeiro voo pela Companhia Geral Aeropostal, precursora da Air France.

Naquele tempo os aviões ainda eram rudimentares e voavam com instrumentos básicos. Em contrapartida os voos a baixa altitude permitiam um contato quase direto com o território sobrevoado: montanhas, planícies, geleiras, oceanos... À noite o firmamento tornava-se companhia silenciosa dos pilotos, que perscrutavam sua rota entre os sinais emitidos pelas estrelas.

O autor de Terra dos homens foi um dos pioneiros nesse tipo de navegação aérea de alto risco, percorrendo as primeiras rotas recém-inauguradas entre a América e a África, sobrevoando o Sahara, depois atravessando o Atlântico e transpondo a cordilheira dos Andes, para chegar a Buenos Aires, Rio de Janeiro e Assunção.

Essas experiências marcaram a sua vida e a sua visão de mundo.

"Aprendemos mais a nosso respeito com a terra", afirma, "do que com todos os livros". Porque ela nos opõe resistência. O homem descobre a si mesmo medindo-se com o obstáculo".

A aviação o colocava em contato com o cosmo, regido por leis imutáveis, e com o mundo habitado, que ele aprendeu a respeitar com uma enorme carga de humanismo.

"Ainda tenho diante dos olhos a imagem da minha primeira noite de voo na Argentina, certa noite escura em que cintilavam, como estrelas, as raras luzes dispersas na planície. Cada assinalava, no oceano de trevas, o milagre da consciência. Naquela casa, liam, pensavam, trocavam confidências. Em outras, talvez, sondavam o espaço, quebravam a cabeça em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Ali, amavam. De longe em longe, aquelas lareiras piscavam no campo, exigindo seu alimento. Até as ais discretas, como a do poeta, a do professor, a do carpinteiro. Mas entre aquelas estrelas vivas, quantas janelas fechadas, quantas estrelas apagadas, quantos homens adormecidos..."
Precisamos ousar uma aproximação.
Precisamos tentar comunicarmo-nos com algumas luzes que ardem de longe em longe no campo" (pp.6-7).
"As pessoas caminham muito tempo lado a lado, cada qual encerrada em seu próprio silêncio, ou então trocam palavras vazias. Na hora do perigo, porém, elas se aproximam umas das outras. Descobrem que fazem parte da mesma comunidade. Ampliam-se com a descoberta de outras consciências. Contemplam-se com grandes sorrisos. Como prisioneiros libertados que se maravilham com a imensidão do mar" (p. 39).

Em outras obras, como O aviador (1926), Correio do Sul (1929) e Voo Noturno (1931), Saint-Exupéry também descreve suas experiências na aviação. Em Terra dos homens os relatos incluem um resgate milagroso. Após um pouso forçado, consequência da pouca visibilidade noturna numa viagem de Bengazi (Líbia) ao Cairo, ele e seu companheiro de voo, Prévot, passam 14 dias perdidos no deserto, sem água, sem comida, sem reparo. Quando as forças chegam ao fim e o físico começa a dar sinais de que a sobrevivência é questão de horas, uma miragem revela-se verdadeira. Um beduíno montado num camelo se materializa no horizonte. Pouco a pouco se aproxima e lhes oferece salvação.

"Quanto a você que nos salvou, beduíno da líbia, você se apagou para smepre de minha memória. Nunca recordarei seu rosto. Você é o homem, e aparece para mim com o rosto de todos os homens. Você nunca tinha nos visto, mas nos reconheceu. Você é o irmão bem-amado. Eu o reconhecerei em todos os homens." (p. 150).



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Krishna Monteiro - O que não existe mais

Krishna Monteiro -
o que não existe mais

Monteiro, Krishna - O que não existe mais - São Paulo : Tordesilhas, 2015.

Ganhei em um sorteio no Grupo do Facebook Livro Errante, o livro O que não existe mais, de Krishna Monteiro.

Hora certeira para se  ler sobre perdas.

Com o título contraditório, O que não existe mais alerta para o fato de que a ausência pode imundar a vida, preencher vivência, a ponto do não existir tornar-se mais vivo que a própria vida.

"Caminho em direção à escada, ao meu quarto. Passo em frente ao espelho, nele sinto meu reflexo preso, encerrado na moldura de marfim. E, ao contemplar meu terno bege, o verde de meus olhos, ao mirar o branco e a gordura de meus cabelos, o perfeito caimento da bengala a me apoiar, percebo que nunca, nunca poderei dizer: "Encerrado, ponto final, tu não existes mais". Não, o espelho traz consigo um veredicto: tu, pai, estás encerrado em mim. Olho para o corredor. O último lustre se apaga. E, ao deitar em minha cama, na última, derradeira vez que te vi depois de tua morte, dou-me conta, pai, concluo, pai, que tu sempre haverás de existir. Boa noite. E adeus."

A linguagem é filosófica, poética.

Assim são traçadas as sete histórias:
O que não existe mais
As encruzilhadas do doutor Rosa
Quando dormires, cantarei
Um âmbito cerrado como um sonho
Monte Castelo
O sudário
Alma em corpo atravessada

Impregnado de lembranças de vivências, cores, cheiros, nuances, vida que passa mas fica na lembrança dos que ficam. Nesses detalhes, o viver em essência.

"Se eu fosse você, largaria esta arma, poria no chão este revólver, lançaria por terra a bala de aço destinada a destruir teu crânio. Se eu fosse você, correria, cruzaria o chão do quarto em direção à janela, e, após escancarar cada uma de suas folhas e erguer a vidraça e ouvir o rangido das dobradiças que abotoam a madeira, então eu, se fosse você, botaria para fora meu pescoço neste breu anoitecido e sereno. Levantaria os braços, saudaria o mundo com a mais refinada das mesuras e respiraria uma a uma as múltiplas vozes que cavalgam o vento. Se eu fosse você, acenderia, tragaria este ar tão pleno de poeira, do peso e do cheiro das partículas, ar e recender polifonias, ar a exalar dissonâncias, ar a cheirar cacofonias, notas e acordes, ar a espargir em torno de si o perfume secreto das escalas, dos arpejos e dos timbres."

Detalha, destrincha, esmiuça a vivência humana.

Krishna Monteiro nasceu em 1973, no Paraná. Graduou-se em economia e fez mestrado em ciências políticas. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, em 2008 ingressou na carreira diplomática. Entre os anos de 2010 e 2012 trabalhou como vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Além disso, foi editor de textos literários da revista Juca - diplomacia e humanidades, publicada pelo Itamaraty, e ajudou a criar o blog Jovens Diplomatas. Atualmente, é cônsul adjunto do Brasil em Londres. O que não existe mais é sua estreia como escritor.




domingo, 16 de agosto de 2015

Carla Guedes - Voadoras

Carla Guedes

E lá vão as moças
Seguindo a Orquestra
Recolhendo mínimas,
Semínimas e sinonímias.
Sonhos na grama e no asfalto
Feito confete
Sonhos nas mãos e nos dedos
Grudados como
Purpurina.

A chuva faz que cai,
mas não cai
A chuva faz que vem,
mas não vem
Vem!
E chove.

[Pausa!]

Esboçam no dia um sorriso bobo
Que é pra cantarolar alegrias,
Recosturar fantasias,
E dar a cara pro vento
Nessa vida que anda numa corda
Bamba!
Na leveza da valsa, do riso, e batuque
Samba!
Estandarte é o coração.

E seguem as moças,
E deixam a Orquestra,
Espantando uma folia fora de época:
Solidão.

(Carla Guedes)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A.P. Tchekhov - A Dama do Cachorrinho e outros contos

A. P. Tchekhov -
A dama do cachorrinho e outros contos -

tradução de Boris Schnaiderman.

"A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fôra feliz com ele. O tempo passava, Gurov tratava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor."

Lendo lentamente as detalhistas e rebuscadas histórias de Tchekhov.
O autor constrói os ambientes com extrema precisão adentrando na alma dos personagens com extrema facilidade. Não o faz de forma fácil pois a leitura se faz cuidadosa para nada se perder do precioso autor.

O livro apresenta as seguintes histórias:
Nos banhos
Pamonha
Fantasiados
Caso com um clássico
A morte do funcionário
Do diário de um auxiliar de guarda-livros
Camaleão
Casa-se a cozinheira
Crime premeditado
Subtenente Prichibiéiev
Aflição
Um dia no campo (Cenazinha)
A corista
Criançada
Sonhos
Vanka
Um conhecido
Gente supérflua
Na primavera
Angústia
Senhoras
Gricha
O acontecimento
Bilhete premiado
Volódia
Tifo
Inimigos
Ilegalidade
Olhos mortos de sono
O sapateiro e a força maligna
Ventoinha
Volódia grande e Volódia pequena
Um caso clínico
Homem num estojo
Queridinha
A dama do cachorrinho

Volto para contar.





quarta-feira, 1 de julho de 2015

Charles Dickens - Grandes Esperanças

Charles Dickens - Grandes Esperanças

"O lar nunca fora um lugar muito agradável para mim, por causa do temperamento da minha irmã. Mas Joe o santificava, e antes eu acreditava no meu lar. Antes eu acreditava na sala de visitas de cerimônia, como um salão dos mais elegantes; acreditava na porta da frente, como um portal misterioso do templo sagrado cuja abertura solene era marcada por um sacrifício de aves assadas; acreditava na cozinha como um cômodo casto, ainda que não magnífico; acreditava na ferraria como o caminho reluzente da maturidade e da independência. No decorrer de um ano, tudo isso mudara. (...) A mudança ocorrera em mim; era um fato consumado. Bom ou mau, desculpável ou indesculpável, era um fato" (p.166).

Na Estante, por Fernanda Pompermayer, Cidade Nova - Junho 2015 - n. 6, pág. 44 resenha A obra de Dickens.


"Segundo o escritor inglês Bernard Shaw (1856-1950), Grandes Esperanças é uma obraa "absolutamente perfeita". É impossível não concordar. Essa é a impressão que se tem desde as primeiras páginas. Trata-se de um texto inebriante pela qualidade da narrativa, pela profundidade do conteúdo, e pela maestria de Dickens ao descrever ambientes, personagens, relações... Para quem gosta de ler, é um prato cheio, a degustação de um vinho de excelente safra e de incomparável buquê.
Quem já leu Charles Dickens deve ter gravado na memória os dramas de crianças órfãs maltratadas por padastros rancorosos (David Copperfield) ou exploradas pela revolução industrial na Inglaterra dos séculos 18-19 (Oliver Twist).  De fato, Dickens foi um dos precursores da crítica social na literatura inglesa. Quando ele começa a publicar seus romances, Londres já é uma metrópole com 1,5 milhão de habitantes, muitos deles migrantes do campo em busca de emprego na indústria têxtil. O trabalho infantil, em regime de escravidão, é a coisa mais normal do mundo e as más condições de vida algo tido como muito natural. Depois de escrever vários romances, entre dezembro de 1860 e agosto de 1861, Dickens se dedica a uma outra história, que publicará semanalmente na revista All the Year Round, como um folhetim.  É o que resultará, depois, no livro Grandes Esperanças, considerado pela crítica a sua obra-prima. O pano de fundo de uma Inglaterra fragmentada em classes - na qual a mobilidade social é um sonho desejado, mas raramente alcançado - continua presente. Assim como as agruras e privações a que são submetidos os pobres e outros degredados, como os presidiários, por exemplo.

A beleza de Grandes Esperanças, além do encanto da pena de Dickens, está na profundidade de uma saga pessoal e familiar. A história de Philip Pirrip (Pip), o personagem principal, é uma experiência profundamente humana, em todas as suas nuances. Há o sonho de uma vida melhor, amor e ódio, amizade, respeito e desonestidade, inveja, ambição, orgulho e humildade. E principalmente dignidade. A experiência humana de Pip, que conhecemos como um garoto órfão e acompanharemos até a maturidade, passará por várias fases e por desdobramentos quase surreais para uma única pessoa... Mais do que uma biografia, são várias, todas expressões da alma humana. Dickens é filho de sua época, portanto, mesmo sem se deixar condicionar por um final feliz, os valores morais são sempre vencedores e têm a última palavra. É um livro de grandes sentimentos e, por isso, supera o tempo e atravessa a história.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

F. Scott Fitzgerald

F. Scott Fitzgerald
1896 - Em 14 de setembro, em Saint Paul, Minnesota, Estados Unidos, nasce Francis Scott Key Fitzgerald.
1913 - Entra para Universidade de Princeton. Logo abandona os estudos, sem obter o diploma.
1917 - É convocado para o Exército. Começa a escrever Este Lado do Paraíso.
1919 - É dispensado do Exército. Arruma emprego em uma agência de propaganda.
1920 - É publicada, com sucesso, sua primeira obra: Este Lado do Paraíso. Em abril, casa-se com elda Syre.
1821 - Publica contos em diversas revistas. Em outubro nasce Frances, a única filha que teria. Publica em capítulos, no Metropolitan Magazine, o romance Belos e Malditos.
1922 - Publica o livro Contos da Era do Jazz.
1923 - Escreve a peça para teatro O Vegetal ou De Presidente a Carteiro.
1924 - Viaja para a França com Zelda. Começa a trabalhar no romance O Grande Gatsby.
1925 - Publica O Grande Gatsby. Em Paris conhece Ernesst Hemingway, de quem se torna grande amigo.
1926 - Volta para os Estados Unidos. Sua esposa, Zelda, começa a dar sinais de desequilíbrio psíquico. Fitzgerald passa a ter problemas de alcoolismo.
1929-31 - Fitzgerald e a mulher viajam pela Europa. Os médicos diagnosticam esquizofrenia em Zelda.
1934 - Zelda tenta o suicídio. Publica o romance Suave é a Noite (*).
1939 - Começa a escrever, mas não termina, o romance O Último Magnata.
1947 - Sua esposa, Zelda, morre em um incêndio em uma clínica para doentes mentais. Morre em 22 de dezembro, em Hollywood, Califórnia, vítima de um ataque cardíaco.


(*) Suave é a Noite
Último romance de Scott Fitzgerald, Suave é a Noite é uma mistura perfeita de ironia, arrependimento e prazer lírico. Nele o autor deixa transparecer toda sua melancolia, envolvido pela tragédia pessoal, como a doença da esposa, Zelda, e o alcoolismo. Fitzgerald era ídolo da chamada geração perdida, que viveu na Paris dos anos 20.


Ostentar riquezas, ainda que na verdade inexistentes, era um símbolo de prestígio e de sucesso nos negócios naquele final do século XIX. Morar na rua principal fazia parte do jogo da ostentação. Mesmo que a casa não fosse um palacete,  mas uma vivenda modesta, como o número 589 da suntuosa Summit Avenue, em Saint Paul, Minnesota. A placa na entrada indicava o nome e a ocupação do morador: Edward Fitzgerald, despachante.

Embora, Saint Paul tivesse, nessa época, 200 mil habitantes, toda a elite local se conhecia, frequentava os mesmos lugares e encontrava nos comentários da vida alheia a maior distração. Um de seus assuntos favoritos era o casamento de Fitzgerald.

Ele estava com 37 anos quando esposou a rica herdeira de P.F. Mc Quillan, um comerciante que fez fortuna nos Estados Unidos em meados do século XIX. Edward, em contrapartida, tinha consigo apenas o orgulho de pertencer à mais fina aristocracia do sul e uma extraordinária incapacidade para tratar de negócios.

Os primeiros anos de casamento foram perturbados pela morte prematura de dois filhos do casal. Em setembro de 1896 nasceu o menino Francis, que, juntamente com sua irmã Annabel, constituiria toda a prole dos Fitzgerald.

Em um fracasso e outro, o casal peregrinou por várias cidades americanas, sempre buscando melhores oportunidades de negócios e tentando ostentar a mesma aparência de riqueza. De suas peregrinações, contudo, voltava constantemente a Saint Paul, onde passava longas temporadas.

Esses anos de instabilidade marcariam a fundo a personalidade de Francis e Annabel. Na Academia Newman, internato católico de Nova Jersey onde o menino estudou por algum tempo, revelou-se aluno medíocre, interessado menos nos estudos que nos esportes e na leitura de romances.

Mais tarde, em 1913, ao ingressar na Universidade de Princeton Francis Scott foi logo advertido por obter notas ruins, e só se distinguiu em inglês e filosofia. O interesse de Fitzgerald na universidade dividia-se entre as estudantes e as atividades extra-acadêmicas. Tornou-se rapidamente popular entre os colegas, porém não entre os mestres, que raras vezes tinham ocasião de encontrá-lo. As poucas "horas vagas" que lhe deixava a vida social e literária, preferia passá-las em companhia de um bom livro.

Certo dia, em janeiro de 1915, conheceu Ginevra King, por quem se apaixonou perdidamente. Pela primeira vez compreendeu o que era amar. A grande paixão, contudo, terminaria em janeiro de 1917.
Desiludido, Francis Scott abandonou a universidade sem ter obtido o diploma. Queria ser escritor. Convocado para o Exército no final desse mesmo ano, levava no bolso o rascunho de seu primeiro romance: Este Lado do Paraíso, que seria publicado em 1920.

Desmobilizado do Exército em fevereiro em 1919, Fitzgerald obteve emprego numa agência de propaganda. Ao mesmo tempo, procurava publicar seu romance e os contos que escrevia. Mas o caminho era árduo, quando a revista Smart-Set adquiriu uma de suas histórias por trinta dólares, que o autor gastou "num leque de plumas carmesim" para oferecer a uma "garota do Alabama". A garota era Zelda Sayre, com quem se casaria em abril de 1920.

A sorte parecia ter vindo ao seu encontro. Não apenas a Smart-Set, mas também a Scribner´s, a Redbook, a Esquire e outras revistas decidiram comprar seus escritos. Ao final desse ano, recebia por eles cerca de 20 mil dólares. Isso fortalecia sua tese de que escrever é a forma mais assombrosa de elevar-se da pobreza á fortuna, da obscuridade à fama.

Na década de 20 as revistas populares ilustradas proporcionavam um grande mercado para a ficção. Entre artigos de variedades, reportagens sensacionalistas e anúncios ousados, havia sempre lugar para um conto, onde se exprimia o conflito de gerações, a ruptura da juventude com valores de outros tempos, a crise moral do pós-guerra.

O fim da Primeira Guerra Mundial provocara nos jovens um sentimento de angústia, expressado numa vontade desenfreada de viver, de libertar-se, renegando o passado e adotando novas modas e novas escolas: é a fase do Dadaísmo e do Surrealismo,  na pintura; o início da "era do jazz", na música.

As histórias de Fitzgerald, reunidas sob o título Contos da Era do Jazz e publicadas em 1922, vinham refletir esse estado de espírito. Marcia Meadows, personagem de um dos contos, é exemplo típico da jovem emancipada e petulante de sua geração: lê Anatole France, diz "diabos" com frequência, atira livros no tio, ondula os cabelos e gosta de beijar. Quanto aos personagens masculinos, sua principal qualidade é a imaginação ousada e uma profunda vontade de vencer na vida.

Já famoso, Francis ganhava muito, mas gastava num ritmo incompatível com o que recebia. Levava, com a mulher, Zelda, uma vida de muitas festas e pouco trabalho. A permanente insatisfação com essa existência desregrada traduz-se nas várias mudanças e viagens do casal. Entre 1920 e 1922 estabelecem-se em Westport, Connecticut, viajam à Europa, mudam-se para Montgomery, Alabama, daí para Saint Paul e finalmente para Nova York. Nos catorze meses que passaram em Saint Paul nasceu a menina Frances, em 1921, filha única de Francis Scott Fitzgerald.

Como produto dessa fase surgiu Belos e Malditos, romance publicado em capítulos pelo Metropolitan Magazine a partir de setembro de 1921. O protagonista é um homem estragado pela riqueza ou pela promessa de riqueza. O enredo, um tanto melancólico e moralista, não agradou à crítica. Quanto ao público,  livro constituiu um fracasso total.

Deixando-se provisoriamente o romance, Scott Fitzgerald decidiu tentar o teatro. As numerosas salas de espetáculos de Nova York viviam repletas, e o gênero parecia-lhe não apenas uma atividade lucrativa mas igualmente uma maneira de atingir um outro público. O Vegetal ou De Presidente a Carteiro, publicado em 1923, narra a história de um simples funcionário que da noite para o dia se torna presidente da República; mas, após uma breve experiência no cargo, prefere voltar a sua vida anterior e escolhe o ofício de carteiro, no qual encontra a felicidade. O espetáculo jamais conseguiu chegar à consagração dos famosos teatros da Broadway. Financeiramente, foi uma calamidade: em vez de lucros, trouxe-lhe apenas dívidas. Para saldá-las o escritor teve de trabalhar durante todo o inverno e produzir onze contos e artigos em seis meses.

Ao final desse período restavam-lhe alguns milhares de dólares suficientes para levá-lo com sua mulher à França, onde planejava elaborar um romance. Em fins de 1924 escrevia da Riviera para Edmund Wilson: "Meu livro é maravilhoso, bem como o ar e o mar. Recuperei minha saúde - não tenho mais tosse, nem rolo de um lado para o outro na cama a noite inteira".

A razão desse entusiasmo era O Grande Gatsby, publicado em 1925 e considerado por muitos a melhor obra de Fitzgerald.

O importante no livro não é a intriga propriamente dita, e sim o desespero dos personagens, que é também o drama de toda uma geração: oprimidos por uma existência rotineira na qual não vêem nenhum sentido, procuram uma fuga rompendo com as velhas convenções morais. Mas a tentativa só os leva a um grande vazio, que anula todo sentimento.

Sob esse aspecto, a obra de Fitzgerald revela um curioso conceito moral: a beleza sempre aparece associada ao pecado e à corrupção. O passado romântico do velho Oeste é apresentado como uma espécie de ideal místico, em oposição à frieza do Leste desenvolvido.

Nem toda crítica percebeu imediatamente o sentido de O Grande Gatsby, só vendo nele um medíocre melodrama: para o Herald Tribune, o romance não passa de uma "tragédia com gosto de leite desnatado", mas para o The New York Times é um livro "curioso, místico e glamouroso".

No plano financeiro, os resultados foram desanimadores. Um ano após a publicação, O Grande Gatsby não atingira 30 mil exemplares vendidos. No entanto, a venda dos direitos de filmagem e a adaptação do romance compensaram plenamente o fracasso de livraria e resolveram os problemass econômicos imediatos do autor.

"Mil festas e nada de trabalho". É como descreve Fitzgerald o ano de 1926. Perdido o fascínio da celebridade, o escritor entra em um período improdutivo; a bebida deixa de ser um hábito social para tornar-se um vício que o destrói física e moralmente. Entre São Rafael, Antibes e Capri, o casal peregrina sem muito objetivo, "em busca do eterno carnaval junto ao mar".

O único acontecimento enriquecedor é o encontro de Fitzgerald com Ernest Hemingway em Paris, durante o verão de 1925. Fitzgerald o chamava de sua "consciência artística". Foi uma amizade tensa, que terminou amargamente pelo final dos anos 30. Nessa ocasião, Fitzgerald comentou, com certo azedume: "Falo com a autoridade do fracasso. Ernest fala com a autoridade do sucesso". Pouco depois aparecia cruelmente retratado em As Neves do Kilimanjaro, de Hemingway.

De volta aos Estados Unidos em dezembro de 1926, o escritor e sua esposa passam por um longo período de insegurança e de perturbações mentais. As mudanças de domicílio são constantes, as viagens frequentes, a bebida excessiva e o trabalho reduzido ao mínimo necessário para cobrir as despesas. É quando Zelda começa a dar sinais de desequilíbrio psíquico, sofrendo as primeiras crises.
Durante os anos de 1929 a 1931, o casal perambulou pela Europa. Em abril de 1930 Zelda sofreu um colapso nervoso. Os especialistas franceses diagnosticaram esquizofrenia e recomendaram um longo período de tratamento numa clínica suíça. Em 1931 ela estava suficientemente recuperada para viajar através da França, Alemanha e Áustria. Por nove meses o casal viveu tranquilo; o próprio Fitzgerald proclamou esse período como o mais feliz de sua vida.

Ao regressar à América, porém, Zelda sofreria novas crises, e sua existência passaria a ser um permanente vaivém entre os diversos sanatórios. Em janeiro de 1934, acometida por uma violenta crise, ela tentou o suicídio.

Para a filha Frances, já adolescente, a vida familiar era das mais desorganizadas, com a mãe internada em caráter quase permanente e o pai alcoólatra passando frequente temporadas no hospital para tratar-se do excesso de bebidas. Quando um incêndio destruiu o andar superior da casa dos Fitzgerald, em Baltimore, ninguém pensou em consertá-la, e a família permaneceu ali durante muitos meses. Praticamente sem recursos, o escritor vivia de alguns artigos para revistas. Os direitos de seus livros rendiam-lhe a irrisória quantia de 50 dólares por ano.

Entre 1926 e 1934 publicou 49 histórias e uma dúzia de artigos, porém nenhum romance.

Para uma época de decadência, em que escrevia sob o efeito do álcool e premido por problemas da maior gravidade, Fitzgerald até produziu demais. Não poderia ficar esperando um momento de tranquilidade e equilíbrio para trabalhar; essa hora jamais chegaria. No auge de sua crise pessoal e familiar, Fitzgerald escreveu Suave é a Noite, o último romance que publicou em vida, no ano de 1934.

Na relação conflituosa entre Richard Diver, o personagem central, e Nicole, a sua esposa neurótica, estão presentes todos os dramas do autor. A fortuna de Nicole permite ao marido ceder á atração de uma vida fácil e abandonar a profissão. Quando se desagrega o casamento, tomba com ele o próprio Diver. O álcool aparece então como o único porto onde pode ancorar; não é, contudo, um porto seguro, e o barco permanecerá sem rumo, á deriva.

A sociedade descrita por Scott Fitzgerald está entregue ao ceticismo e, às vezes, ao desespero. A crise dos anos 20, particularmente a derrocada econômica de 1929, abalara a fé nas instituições, na moral e na religião. Apenas o dinheiro e o prazer imediato pareciam ter algum valor. O amor deixara de ter sentido; reduzira-se à mera satisfação de uma necessidade física, ou à possibilidade de uma fuga sem a eficácia do álcool.

Embora a maioria dos críticos se mostrasse favorável à obra, Suave é a Noite vendeu apenas 13 mil exemplares, menos que todos os romances anteriores do autor. A reputação de Fitzgerald, conhecido pelos leitores como um bêbado temperamental e desordeiro, não ajudava a promover o livro. Todavia, o que preocupava o escritor era a rejeição dos moralistas, e sim a recusa do público, aparentemente desinteressado de sua obra. Resolveu, como experiência, mudar o tema de seus livros, e, ainda em 1934, começou a redigir um romance sobre a história medieval: The Count of Darkness - O Conde das Trevas -, publicado em capítulos na revista Redbook; mas não conseguiu empolgar os leitores.
As dívidas, a cirrose, a luta para não beber e, finalmente, a tuberculose, terminaram por levá-lo ao desespero. Sua existência é uma contínua deterioração. Em 1935 alugou um quarto em Henderson, Califórnia, e ali viveu modestamente; quase não tinha o que comer, e possuía uma só camisa, que ele mesmo lavava, à noite, na pequena pia. Zelda encontrava-se internada em Asheville, na Carolina do Norte, e não havia mais esperanças de recuperá-la. De 1936 a 1937 Fitzgerald morava perto dela, tentando proporcionar-lhe algum alívio com sua presença. Sobrecarregado de problemas, porém, não tinha capacidade de ajudar ninguém. Desesperado continuava a beber descontroladamente, e por duas vezes chegou mesmo a tentar o suicídio.

Após a morte de sua mãe, em 1936, recebeu 42 mil dólares de herança. A quantia mal lhe bastou para pagar as numerosas dívidas. No ano seguinte assinou um contrato com a Metro-Goldwin Mayer e transferiu-se para Hollywood, onde trabalhava nos argumentos de vários filmes, entre os quais Madame Curie e... E o Vento Levou. Mas o trabalho não lhe interessava. O sentimento de frustração se mantinha. Sua única alegria era a filha Frances. "Scotty", como a chamava, era já uma estudante universitária e interessava-se por literatura.

Em 1939 Fitzgerald começou a trabalhar em O Último Magnata, um romance que não chegaria a terminar. Redigiu apenas seis capítulos, suficientes para revelar uma obra distinta de tudo que escrevera até então. Em vez de centralizar-se em um personagem e em seus dramas pessoais, o livro focaliza principalmente os conflitos econômicos, as intrigas e a luta pelo poder na indústria cinematográfica de Hollywood.

Em novembro de 1940 sofreu o primeiro ataque cardíaco. Morreu em mês mais tarde, em 21 de dezembro, vitimado por um segundo colapso. Não pôde ver o reconhecimento de sua obra, considerada um retrato perfeito da classe média alta americana dos anos 20 e 30, quando dinheiro e costumes apareciam indissoluvelmente ligados.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Macaé - RJ - Brasil - Praia Campista e plataforma - por Gladstone Peixoto



Macaé - RJ - Brasil
Nas lentes do meu amigo Gladstone Peixoto, um pedacinho da cidade de Macaé, que fica localizada no Estado do Rio de Janeiro, Brasil, a Princesinha do Atlântico, dita capital nacional do petróleo.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Muriel Barbery- A elegância do ouriço

A elegância do ouriço -
Muriel Barbery

"Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem."

Surpreendente o livro A elegância do ouriço! Linguagem leve, poética, aprofundada sobre a vivência humana, o sentido da vida, o estar no mundo. Trata com maestria as inter-relações.

"Qual é essa guerra que travamos, na evidência de nossa derrota? Manhã após manhã, já exaustos com todas essas batalhas que vêm, reconduzimos o pavor do cotidiano, esse corredor sem fim que, nas derradeiras horas, valerá como destino por ter sido tão longamente percorrido. Sim, meu anjo, eis o cotidiano: enfadonho, vazio e submerso em tristezas. As alamedas do inferno não são estranhas a isso; lá caímos um dia por termos ficado ai muito tempo. De um corredor às alamedas: então se dá a queda, sem choque nem surpresa. Cada dia reatamos com a tristeza do corredor e, passo após passo, executamos o caminho da nossa sombria danação.
Ele terá visto as alamedas? Como se nasce, depois de se ter caído? Que pupilas novas em olhos calcinados? Onde começa a guerra, e onde cessa o combate?
Então, uma camélia.

Sensível quando desnuda a alma humana seja através da história de Renée, zeladora de um prédio luxuoso no coração de Paris, tendo o coração amante da literatura (seu gato se chama Leon em homenagem a um escritor Russo) e da arte.

"Para que serve a Arte? Para nos dar a abreve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a Arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, apõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos."

A também moradora do prédio, a adolescente Paloma, que tem por projeto se suicidar no dia do seu aniversário colocando fogo no seu luxuoso apartamento caso não encontre um sentido para sua vida de inadaptação ao meio em que vive revelado em seu diário onde mantém anotações: os Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo desenvolve um raciocínio de pura filosofia.

"A eternidade nos escapa.
Nesses dias, em que soçobram no altar de nossa natureza profunda todas as crenças românticas, políticas, intelectuais, metafísicas e morais que os anos de instrução e educação tentaram imprimir em nós, a sociedade, campo territorial cruzado por grandes ondas hierárquicas, afunda no nada do Sentido. Acabam-se os ricos e os pobres, os pensadores, os pesquisadores, os gestores, os escravos, os gentis e os malvados, os criativos e os conscienciosos, os sindicalistas e os individualistas, os progressistas e suas cartas e risos, seus comportamentos e enfeites, sua linguagens e seus códigos, inscritos na carta genética do primata médio, significam apenas isto: manter o própria nível ou morrer."

Kakuro Ozu, novo morador do prédio, dono de gatos com nomes de personagens russos entra em cena contracenando com as caras protagonistas dando novo sentido a suas vidas e busca da felicidade.

Final surpreendente. Recomendadíssimo!

Muriel Barbery nasceu em Bayeux, em 1969. Ex-aluna da École Normale Supérieure, em Paris, atualmente leciona filosofia na Normandia, onde mora. Estreou na literatura com o romance Une gourmandise (2000), traduzido em doze línguas. Seu segundo livro, A elegância do ouriço, foi uma das grandes sensações literárias de 2006 na França.

sábado, 11 de abril de 2015

Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros

Leonardo Padura
O sonho virou pesadelo assim é o título da matéria "Na Estante" , por Fernanda Pompermayer (fernanda@cidadenova.org.br), na edição Cidade Nova, Março 2015, n. 3, que faz análise da obra literária O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, Editora Boitempo, São Paulo, 2013, 592 páginas. Vejamos:

A história de Leon Trostky, um dos pioneiros do socialismo soviético, inspirou várias biografias, filmes e outros relatos. O que o cubano Leonardo Padura fez em O homem que amava os cachorros foi escrever uma obra completa, muito interessante, no típico estilo romance histórico. São quase 600 páginas bem recheadas, que assustam os pouco inclinados a grandes empreitadas literárias e são a delícia dos leitores contumazes.
Até a página 200, mais ou menos, a história parece não decolar e o livro "não pega". Mas a perseverança e a teimosia do leitor são largamente premiadas com o que se desenrola daí para a frente, com os personagens bem situados, a trama engatilhada. E, mesmo sabendo o desfecho do livro, por ser um fato histórico, não dá mais para largá-lo.
O livro reconstrói a trajetória de Trotski, desde a expulsão da União Soviética por ordem de Stalin, a sua peregrinação de exilado, até sua última etapa, o México.
Paralelamente, o percurso do seu algoz, o catalão Ramón Mercader, passa pelos frontes da Guerra Civil Espanhola onde lutou, até os campos de treinamento da elite militar soviética, que o transformaram em "uma máquina obediente e impiedosa".
Talvez a grandeza maior deste livro esteja no incentivo à reflexão. Ela nos mostra um Trotski inconformado com o cerceamento de sua liberdade. Um idealista convencido de que ainda tem um pape a desempenhar no palco da história mundial. Portanto, um homem obstinado, que escreve, tenta incitar um rearranjo revolucionário paralelo ao que se instalou na Rússia, servindo-se dos ânimos inflamados que percorrem a Europa.
E em todo esse tempo de amarguras e desilusões, poucos consolos e constantes traições, Trotski pensa. Pensa no que fez, no que deixou de fazer, no que deveria ter feito, no que estão fazendo em nome da "sua" revolução.
"Com a esperança de que ainda fosse possível salvar a revolução, ele [Trotski] tentava desligar o marxismo da deformação stalinista (...) " E questiona: "O que restaria da experiência mais generosa jamais sonhada pelo homem? Nada. Ou restaria, para o futuro, a marca de um egoísmo que tinha usado e enganado a classe trabalhadora mundial permaneceria a lembrança da ditadura mais férrea e desprezível que o delírio humano poderia conceber. A União Soviética legaria ao futuro o seu fracasso e o medo de muitas gerações à procura de um sonho de igualdade que, na vida real, se transformara no pesadelo da maioria" (p. 213).
As dúvidas o atormentam: "A teoria marxista, que ele e Lenin utilizavam para validar todas as suas decisões, nunca considerara a circunstância de os comunistas, uma vez no poder, perderem o apoio dos trabalhadores. Pela primeira vez desde o triunfo de Outubro deveriam ter se interrogado (...) se era justo instaurar o socialismo contra ou à margem da vontade majoritária. A ditadura do proletariado deveria eliminar as classes trabalhadoras, mas deveria reprimir também os trabalhadores? A alternativa teria sido dramática e maniqueísta: não era possível permitir a expressão da vontade popular, porque esta poderia reverter o próprio processo. Mas a abolição dessa vontade privava o governo bolchevique da sua legitimidade essencial: chegado o momento em que as massas deixaram de acreditar, impôs-se a necessidade de fazê-las acreditar pela força. E aplicaram a força. A Revolução tinha começado a devorar os próprios filhos, e a ele coubera a triste honra de dar a ordem que abrira o banquete" (p.83).

sexta-feira, 13 de março de 2015

Gabriel García Márquez - Eu não vim fazer um discurso

Gabriel García Márquez

A revista Cidade Nova, na sessão de literatura, por Fernanda Pompermayer, apresenta a obra do mestre Gabriel García Márquez, "Eu não vim fazer um discurso", editora Record, Rio de Janeiro, 2011.
"Em época de posses ministeriais e parlamentares o que mais se ouve é discurso. E aí o título do grande escritor colombiano García Márquez traz té um alívio: Eu não vim fazer um discurso. Aliás, traria, se não fosse um blefe, um feliz blefe. Na verdade a obra consiste  na coletânea de discursos feitos pelo Prêmio Nobel de Literatura em diversas ocasiões e latitudes. Incluindo, claro, o de Estocolmo, quando da entrega do Nobel. Mas ouvir discursos do autor de Cem anos de solidão é música suave agradabilíssima para ouvidos afeitos à literatura. E, no caso desse livro, é quase um diálogo com Gabo, como era chamado pelos mais íntimos.
São "conversas" que abarcam quase 60 anos de sua experiência e do eu pensamento como jornalista e escritor. Ele carrega no peito - e transborda em palavras - o sofrimento de um homem latino-americano que atravessou o século XX. Que viveu os tempos de um "primeiro mundo" de abundância e felicidade para alguns e de um "terceiro mundo" de exploração, fome e abandono à própria sorte para milhões outros. E com essa consciência e sentimentos - que ele descreve como "o nó da nossa solidão" - avança no tempo e entra no século XXI.
Em 1970, no Ateneu de Caracas, descreve como começou a escrever: com um conto para o jornal El Espetador, de Bogotá. Ao inaugurar, em Paris (1999), o seminário "América Latina e Caribe diante do novo milênio", prova que nunca ala por falar... "Nos anos quarenta" - inicia calmamente - "O escritor italiano Giovanni Papini enfureceu nossos avós com um frase envenenada: "A América é feita das sobras da Europa"." Cita Simón Bolivar ao definir que nós, latino-americanos, "somos um pequeno gênero humano". Acredita na redenção e no futuro de um continente cujos primeiros haitantes europeus, em sua grane maioria eram degredados, e por isso finaliza sua fala conclamante: "Não esperem nada do século XXI, pois e o século XXI que espera tudo de vocês. Um século que não veio pronto de fábrica, veiopronto para ser forjado por vocês á nossa imagem e semelhança, e que só será tão pacífico e nosso como vocês forem capazes de imaginá-lo."
O discurso de Estocolmo, em 8 de dezembro de 192, foi á altura da sua obra-prima. E, em consonância com ela, intitulado: A solidão da América Latina. O colombiano revista cinco séculos de história de exploração, discriminação e abandono, recapitulado métodos, etapas, eventos O clima era de Guerra Fria, ditaduras militares em muitos países da América Latina e da África, disparidade econômica brutal entre o norte e o sul do mundo. Nesse contexto, o Colombiano ergueu a voz e se fez ouvir, sem se preocupar com eufemismos.
"A interpretação da nossa realidade a partir de esquemas alheios só contribui para tornar-nos cada vez mais solitários. Talvez a Europa venerável fosse mais compreensiva se tratasse de nos ver em seu próprio passado. Se recordasse que Londres precisou de trezentos anos para construir sua primeira muralha e de outros trezentos anos para ter um bispo, que Roma se debateu nas trevas da incerteza durante vinte séculos até que um rei etrusco a implantasse na História, e que em pleno século XVI os pacíficos suíços de hoje, que nos deleitam com seus queijos mansos e seus relógios impávidos, ensanguentaram a Europa com seus  mercenários". "E ainda assim, " - concluiu - "diante da opressão, do saqueio e do abandono, nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios, nem as pestes, nem os cataclismos, nem mesmo as guerras eternas através dos séculos e séculos, conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte."



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Tim Maia - filme

Tim Maia

Esperava mais poesia na história de um ícone da música brasileira, uma das vozes mais cristalinas que já encantou multidões.
A  abordagem do filme que passa da infância à vida adulta do cantor Tim Maia pode ser realista mas não creio que a vida do nosso caro cantor tenha sido somente confusão, desencontros e um final com a total decadência do cantor.
Tim Maia foi por décadas querido pelo público.
Ninguém pode negar a história de um homem mas creio que a forma como se conta uma história em que as abordagens não sejam focadas nas lentes onde o negativo é tido como ênfase merece ser revisto.
Esperava mais desta história como sei que o foi pois um cantor que compõe tão belas canções não pode ser somente o controverso personagem focado pela lente deste filme.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Lígia Guedes Joaquim - "Cartas e pássaros"



Cartas e Pássaros

Título: Cartas e pássaros
Autora: Lígia Guedes Joaquim
Gênero: Contos
Editora: MdM Editora

Gosto de acompanhar aqui no blog "Nós Todos Lemos"  as etapas para a edição do livro "Cartas e pássaros".
O livro encontra-se praticamente pronto seguindo para impressão neste mês corrente.
Por ter sofrido uma importante perda familiar em início de setembro de 2014 o projeto ficou parado pois seria lançado em final de outubro de 2013, aguardando que eu pudesse me recompor.
Lançar um livro tem uma trilha que exige paciência e persistência.
Aos poucos o projeto vai tomando o formato desejado.
O processo de escrita não é mágico como muitos pensam. Vem de um esforço contínuo.
A escrita poucas vezes vem pronta.
Muitas vezes temos um tema a desenvolver mas não encontramos a inspiração adequada e por outras vezes ela flui com facilidade quando adentramos em área conhecida.
Tenho um conto no livro que na verdade é um sonho que tive. Acordei no meio da noite e a impressão do sonhado foi tão real que peguei caneta e papel e destrinchei as palavras como chegaram ao papel. Guardei o escrito e repassei ele ao livro mas confesso que por mais louco que seja não reli o conto em nenhum momento para exatamente deixá-lo em sua forma integral.
Por vezes podemos misturar lembranças da infância com um personagem que encontramos ao acaso da vida na rua. As cenas são de inúmeras possibilidades como em uma colcha de retalhos que podemos costurar e deixar o colorido da forma que quisermos, o estampado com a aparência desejada que certamente retratará  nosso estado de espírito do momento.

Escolhi a foto abaixo para a aba do livro.
Lígia Guedes Joaquim
A foto foi feita por Julius Mack fotografia, um amigo.
O local onde foi feita a foto (em uma estação ferroviária) já não há acesso a pedestres ou transeuntes.
A minha cidade, Macaé, sempre foi palco de trabalho aos pescadores e ferroviários. Somente com a chegada da indústria de petróleo na década de 80 a cidade ganhou novos rumos tornando-se a capital mundial do petróleo pois a produção de óleo do Brasil se processa em 80% aqui na minha terra.
Trato do tema no livro "Cartas e pássaros" em alguns contos, o olhar dos trabalhadores do mar sejam pescadores ou industriários em suas labutas.
Na verdade alguns textos aqui do blog estão presentes no livro.
Aguardem portanto que em breve teremos livro à venda.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ricardo Lísias - O céu dos suicidas

Ricardo Lísias
O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias é um romance de fácil e rápida leitura.
Hilário por apresentar humor embutido na narrativa de repetições que reforçam e compõem o personagem principal, um colecionador na juventude, reforçando suas angústias existenciais.
O autor empresta seu nome ao personagem que  passa por um sofrimento que se agrava ao longo da narrativa quando não aceita o fato de que seu amigo que se suicidara não tem um lugar ao céu. Pelo menos do ponto de vista da procurada aceitação espiritual para o amigo através das religiões por que procura uma resposta, ou um céu ao morto.
Percorre o caminho de alívio a suas angústias quando tenta encontrar nos locais onde o amigo morto percorreu resposta ao seu sentimento, a culpa por não ter prestado ajuda ao moribundo quando o procurara em vida.
Assim, passa da faculdade ao manicômio onde André, seu melhor amigo vivera, encontrando nos outros respostas a si mesmo, seja através da não aceitação da fala alheia quanto da necessidade de um contacto físico, um alento de um idoso qualquer, um médico, uma transeunte, como alívio de suas dores.
A medida que avança à busca de respostas de significação de vida à vida do amigo morto também percorre essa busca à suas necessidade de existência.
Assim vai tecendo a trama que de certa forma tem uma narrativa exagerada até chegar ao ápice das angústias e sofrimentos físicos e psíquicos do conturbado personagem.




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Isabel Allende - Contos de Eva Luna

Isabel Allende
Recebi hoje do grupo do facebook Bolsa-Leitura, coordenado por minha amiga leitora compulsiva Maria Luiza, o livro da autora Isabel Allende: Contos de Eva Luna.
Contos são sempre uma proposta irrecusável.
Seja comprado, emprestado ou doado.

Cada relato, um personagem incrível, uma prosa onde a sátira vem discretamente associada a vivência e peripécias do mesmo.

O excelente livro Contos de Eva Luna é composto por 23 contos:
Duas palavras
Menina perversa
Clarisa
Boca de sapo
O ouro de Tomás Vargas
Se tocasse meu coração
Presente para uma noiva
Tosca
Walimai
Ester Lucero
Maria, a boba
O mais esquecido do esquecimento
O pequeno Heidelberg
A mulher do juiz
Um caminho para o norte
O hóspede da professora
Com o devido respeito
Vida interminável
Um milagre discreto
Uma vingança
Cartas de amor atraiçoado
O palácio imaginado
Somos feitos de barro

Isabel Allende
Biografia:
Isabel Allende nasceu em 1942, casou-se duas vezes e teve dois filhos. Trabalhou incansavelmente e sem conhecer o desânimo desde os dezessete anos, primeiramente como jornalista e depois como escritora.
Quando publicou Casa dos Espíritos converteu-se imediatamente num dos poucos nomes-chave da narrativa contemporânea em língua espanhola. Sua obra, publicada em mais de vinte idiomas, tem alcançado sucesso absoluto. Nos últimos oito anos publicou outros romances: De Amor e de Sombra e Eva Luna.
Agora, Conos de Eva Luna reflete maravilhosamente um traço essencial de seu caráter: o entusiasmo pela vida.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Doador de Memórias


Sinopse:
Uma pequena comunidade vive em um mundo aparentemente ideal, sem doenças nem guerras, mas também sem sentimentos. Uma pessoa é encarregada a armazenar estas memórias, de forma a poupar os demais habitantes do sofrimento e também guiá-los com sua sabedoria. De tempos em tempos esta tarefa muda de mãos e agora cabe ao jovem Jonas (Brenton Thwaites), que precisa passar por um duro treinamento para provar que é digno da responsabilidade.

O doador de memórias remete a outro filme com sinopse aqui no blog: A vila.
Apesar da comparação absurda, os filmes tem tema em comum: poderia uma sociedade ditada por regras humanas estar em paz em um ambiente sem violência e sendo feliz é a proposta de questionamento.
Assim como em A Vila, O doador de memórias relata uma comunidade que tem limites em termos espaciais para viver, que tem regras ordenadas pelos mais velhos visando viverem em harmonia, sem violência e de forma igualitária.
Seria possível excluir do homem seu instinto natural, seus sentimentos, suas percepções e ainda assim construir um ambiente feliz de convívio mútuo, onde o conceito de felicidade é ditado por regras já pré definidas, interroga a narrativa do filme O doador de memórias.
As regras estipuladas pelo homem quando este está fugidio de seu instinto são regras seguras, caminhos seguros questiona o filme.
Assim como em A Vila pode ser questionado em quantas espaços "protegidos" tem o homem procurado se isolar visando a busca por segurança.
Bom filme para refletir o quão humanos somos nos erros e acertos. O quão de erros já nos guiaram a caminhos melhores mas o quão de erros ainda não temos percepção de vislumbrar pois o homem vive em comunidades diversificadas, onde o belo é a diversidade, mesmo que para isto ainda amadureça e saiba conviver em harmonia consigo e com o próximo.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Henry Fielding - vida e obra

Henry Fielding
1707 - Nasce em 22 de abril, em Sharpham Park, condado de omerset, Henry Fielding, filho de Edmund e Sara Fielding.
1718 - Morre a mãe de Henry, Sara Fielding. Henry frequenta o colégio na cidade de Eton.
1726 - Inicia do curso de Direito em Leiden.
1728 - Muda-se para Londres. Encena sua primeira comédia, O Amor sob Diversas Máscaras.
1730 - Apresenta as comédias O Galante do Templo, A Farsa do Autor e Thomas Ressucitado ou A História Completa da Vida e das Maravilhosas Ações de Tom Thumb.
1734 - Em novembro casa-se com Charlotte Cradock.
1736 - Estréia a peça burlesca Pasquin, com grande êxito.
1737 - Estréia a peça satírica Registro Histórico para 1736. Em novembro Fielding retoma os estudos de Direito.
1740 - Fielding passa a trabalhar no fórum londrino.
1741 - Samuel Richardson publica o romance Pamela. Morre Charlotte.
1743 - Apresenta a peça O Dia do Casamento.
1746 - m novembro casa-se com Mary Donald e transfere residência para Twickenham, perto de Londres.
1749 - Em fevereiro publica Tom Jones (*), a história de um Enjeitado, em seis
partes.
1751- Edita seu último romance, Amélia.
1754 - A conselho médico, Fielding viaja para Lisboa em junho para tratar da saúde, fortemente abalada. Morre em Lisboa em 8 de outubro. É enterrado no cemitério dos Ciprestes.


(*) Tom Jones
Este romance conta a história de um enjeitado criado por uma família da nobreza rural que se torna um jovem de grande fascínio pessoal e que atrai a paixão de diversas mulheres. Mas torna-se vítima das mais variadas formas de preconceito e desperta, em muitos, a inveja e o ciúme. Sua verdadeira origem é revelada no final, após profunda análise do cotidiano inglês de meados do século XVIII.


Filho de família aristocrática, da qual não herdou títulos nem bens, Henry Fielding nasceu em 22 de abril de 1707 na cidade de Sharpham Park, Somersetshire, Inglaterra. Seus pais foram Sara Fielding, que morreu em 1718, e Edmund Fielding.

Henry recebeu uma educação esmerada. Depois de concluir os estudos intermediários em Eton, seguiu para Leiden, cidade da Bélgica, para cursar Direito.

Em 1728 Fielding mudou-se para Londres e foi tomado pela indecisão, não sabia que profissão abraçar: poderia ser escritor ou cocheiro. A primeira seria mais agradável,mais cômoda; a segunda renderia mais dinheiro e consideração social.

Se tivesse chegado a Londres alguns anos antes, teria encontrado os homens de letras em outra situação, dividindo espaço na corte com os fidalgos e manipulando a opinião pública por meio de livros e jornais. Contudo, apesar dessa liberdade, muitas vezes os escritores tinham de se curvar ás exigências de políticos poderosos, que podiam pô-los em dificuldades.

Assim, Robert Walpole, que se tornou ministro em 1721,havia estabelecido restrições á liberdade dos literatos ligados ao governo, considerando que seus pareceres, muito teóricos e apaixonados sobre os atos do Estado, eram a causa principal de instabilidade e de insatisfações. Dispensou-os e mandou-os ganhar o pão por conta própria. Empregou escrivães medíocres porém confiáveis, capazes de compilar suas idéias e as dos demais políticos sem alterações sutis. Destituída do antigo poder, a arte de escrever passou a ser vista como um mau ofício, desempenhado por gente de baixa categoria social e de escassos dotes intelectuais.

De qualquer forma, Henry tinha de se sustentar, e diante das opções que se apresentavam, decidiu-se pela literatura. Começou então a redigir para o teatro.

Sua primeira comédia, O Amor sob Diversas Máscaras, de 1728, não teve a menor repercussão. Henry só começou a ser conhecido em 1730, quando apresentou O Galante do Templo e A Farsa do Autor, com êxito suficiente para se dedicar ao teatro como meio de vida. Durante sete anos elaborou volumosa produção, da qual a obra mais famosa é a peça Thomas Ressuscitado ou A História Completa da Vida e das Maravilhosas Ações de Tom Thumb, representada pela primeira vez em 1730 e ampliada no ano seguinte sob o título Tragédia das Tragédias ou A Vida de Tom Thumb, o Grande. A peça narra as incríveis aventuras de um rapaz absurdamente pequeno que, por causa de seu tamanho, é carregado nos ares por um corvo, devorado por um gigante e envolvido em dezenas de outras peripécias semelhantes. Essas situações serviam apenas de pretexto a Fielding para atacar personalidades políticas da época, atraindo para si os olhares irados da censura oficial. Conta-se que Tom Thumb foi motivo de uma das duas únicas gargalhadas que o amargo romancista Jonathan Swift deu em toda sua vida, que demonstrou, assim, reconhecer o grande valor de Henry Fielding.

O sucesso como comediógrafo, contudo, não proporcionou a Fielding melhores meio de subsitência. O que lhe valia era a facilidade em fazer amigos. Era um rapaz alegre, excelente contador de histórias, dotado de inteligência, humor e vitalidade, e não lhe faltavam companheiros, alguns dos quais ricos e bem instalados, que se sentiam honrados em dividir a casa com ele. Nem a morte da mãe, quando Fielding tinha apenas onze anos, nem a penúria do lar paterno, nem o segundo casamento do pai - que indiretamente contribuíra para o rapaz abandonar os estudos de Direito e ir tentar a vida em Londres - haviam conseguido tirar sua alegria de viver.

Em 1734 Fielding se casa com Charlotte Cradock e passa a desfilar pelos jardins e avenidas de Londres ostentando roupas caras, carruagens e criados. Não lhe passava pela cabeça que poderia aproveitar a fortuna da esposa para se estabelecer na vida e assegurar uma velhice tranquila. Esbanjou até o último centavo, tudo que Charlotte tinha, e ao fim de dois anos viu-se obrigado a trabalhar para comer. Muitos de seus gastos não revertiam em benefício próprio, mas em favor dos amigos, não só daqueles que o haviam ajudado nos tempos de miséria mas também dos mais recentes.

O esgotamento de uma mina que esperava fosse eterna levou-o novamente para o teatro. Pasquin, de 1736, permitiu-lhe recuperar por algum tempo a euforia financeira, representava um violento ataque ao ministro Walpole. No ano seguinte repetiu a dose, com uma sátira mais ferina, Registro Histórico para 1736. O ministro então resolveu fechar-lhe a boca e promulgou o Licensing Act, decreto que autorizava o Parlamento inglês a recusar qualquer obra teatral que julgasse indecorosa ou agressiva. Com essa restrição, em 1737 Fielding decidiu retomar os estudos, interrompidos quando se transferira para Londres. Nesse mesmo ano foi nomeado magistrado de uma corte criminal e fundou um jornal, O Campeão, no qual atuou até junho de 1740.

Para quem sempre vivera na maior liberdade, era difícil ajustar-se a horários e métodos. Os amigos dividiram-se em correntes opostas. Uns confiavam no êxito do advogado Fielding; outros prognosticavam para breve sua desistência da função. Os últimos ganharam a aposta ao fim de alguns meses. O escritor abandonou o emprego, por motivo de saúde. Com uma mulher para sustentar, a quem ele não só amava como se sentia na obrigação de retribuir os anos de fartura, Fielding estava disposto a abandonar a vida de farras e a dedicar-se seriamente ao trabalho. Mas a libertinagem anterior lhe havia dilapidado a saúde. Ataques de gota o prendiam ao leito por semanas a fio, impedindo seu comparecimento ao fórum. E ele achou que era mais honesto demitir-se.

Charlotte faleceu em 1742, e Fielding foi tomado por profunda depressão. Seus amigos temiam qeu ele adotasse alguma medida desvairada, mas seu temperamento forte e alegre não lhe permitiu, porém, entregar-se por muito tempo ás lamentações. Refeito do abalo, voltou a escrever no mesmo tom satírico que o caracterizava.

Em 1743 Fieding tentou obter a aprovação de uma comédia, continuação de A Virgem Desmascarada, porém mais uma vez Walpole negou autorização por considerá-la ofensiva a uma personalidade da época. Fielding passou a escrever panfletos políticos, tratados, ensaios, e, nesse mesmo ano, retomou a carreira teatral com O Dia do Casamento. O êxito ajudou a Henry a conseguir uma certa folga financeira.

Depois do segundo casamento, em 1746, com Mary Donald, antiga cidadezinha próxima a Londres. Após dois anos regressou á capital como juiz de paz e foi morar no bairro de Westminster.
Apesar do trabalho exaustivo, Fielding encontrava tempo para escrever. Depois do ato de Walpole que lhe restringira a liberdade de comediógrafo, voltara-se para o romance. Ocupava-se de uma obra que haveria de fazer corar Samuel Richardson, seu vizinho, que jamais faltava ao culto dominical, empenhava-se em resolver problemas de consciência de consulentes afligidos por questões morais e religiosas e, nas horas vagas escrevia romances e investia furioso contra Fielding, a quem ele considerava um incurável libertino. Richardson inaugurou uma corrente moralista e austera, mais preocupada com o mundo ideal possível e com a análise psicológica das personagens.

Depois de ter lutado na vida como aprendiz de impresor e operário, e a duras penas ter conseguido fundar sua própria tipografia, Richadson recebeu um convite para escrever um livro destinado à leitura das jovens provincianas que iam trabalhar em Londres. A obra Pamela ou A Virtude Recompensada, de 1741, obteve imenso sucesso em toda a Inglaterra, transpôs o canal da Mancha, cativou o público francês e provocou entusiasmados elogios do enciclopedista Diderot. O romance relata as desventuras de Pamela Andrews, camponesa educada por uma senhora da nobreza que, antes de morrer, confia a moça aos cuidados de seu filho. O primeiro objetivo do rapaz é seduzi-la, mas, comovido por suas lágrimas, acaba se arrependendo e casando-se com a virtuosa donzela. Fielding não pôde deixar de rir do moralismo pregado por Richardson e do endeusamento de valores tão instáveis como dinheiro e posição social. Sem perda de tempo, elaborou duas paródias do romance, Defesa da Vida da Sra. Shamela Andrews, em 1741, e As Histórias das Aventuras de Joseph Andrews e Seu Amigo Abraham Adams, em 1742, que suscitou a admiração da crítica. Na primeira parte desse livro, Fielding apenas parodia Pamela, narrando ironicamente a luta do belo criado Joseph Andrews em defesa da própria virtude, ameaçada pelas artimanhas da patroa. No desenrolar da obra, contudo, o autor se afasta da intenção inicial e acaba retratando com graça e talento toda uma camada social, vergastando-lhe as hipocrisias e futilidades.

Com Pamela, Richardson pretendia criar um romance psicológico, diversificado do relato de aventuras a´te então existente na Inglaterra. Fielding, por sua vez, procurou considerar de outro modo o problema moral. Para ele, as boas ações não deveriam ser fruto de normas e de repressão, mas partir espontaneamente de um impulso generoso de amor pelo próximo e do desejo de semear o bem. Virtude, a seu ver, era mais a habilidade de resolver os próprios problemas do que promover, á força, a felicidade alheia.

Seis anos após a sátira de Fielding, Richardson procurou penitenciar-se por Pamela, publicando a história da virtude perseguida e arrasada: Clarisse Harlowe. Essa obra, que se celebrizou como a melhor de Richardson, agradou ao público da época pela agudeza da análise psicológica. Fielding, entretanto, não permaneceu silencioso diante da nova aventura melodramática do rival e escreveu, em 1749, um romance que ficou marcado na história da literatura inglesa como uma produção genial: Tom Jones, a História de um Enjeitado, biografia de um jovem exuberante de energia, ingênuo e violento que retratava o próprio Fielding em oposição ao austero Richardson. Recém-nascido, Tom Jones é deixado na casa do sr. Allworthy, que o cria como a um filho. Depois de adulto, por intriga de Blifil, sobrinho de seu protetor, Tom é obrigado a abandonar o lar e entregar-se a uma vida errante e dissipada. Enfrenta problemas sem conta, envolve-se em muitas tramas amorosas, despedaça corações, ajuda as pessoas em dificuldades e, por fim, é acusado de um crime. A obra muito se aproxima das novelas cavaleirescas e dos romances à maneira do Dom Quixote. Tom Jones levou alguns críticos a considerarem Fielding  como o criador do romance inglês, o que de certa forma é exagero.

O romance se divide em dezoito "livros", ou partes, cada uma delas precedida por um prólogo, no qual o autor expõe sus idéias, comenta a ação, dialoga com o leitor e vangloria-se de ter sido o primeiro escritor a estabelecer esses capítulos iniciais.

Os críticos da época atacaram Tom Jones por considerá-lo um estímulo à licenciosidade. Ao apresentar um personagem simático  dissoluto, que, apesar de seus erros, conquista a felicidade impunemente, o autor estaria desencorajando o exercício da virtude e, de certa forma, aconselhando o vício. Na França o livro chegou a ser proibido. Na verdade, o conceito de moral de Fielding não poderia ser compreendido em seu tempo. Tom Jones é apenas um apaixonado pela vida, corajoso e bom, mas fraco e indisciplinado - um pequeno selvagem. Suas boas ações brotam naturalmente, e por isso o escritor se inclina a lhes dar um valor maior do que se fossem fruto de educação e tende a perdoar os erros do personagem.

Não só a personalidade do protagonista provocou a ira dos críticos e moralistas. Nos prólogos iniciais de cada parte Fielding alude muitas vezes a seu inimigo Richardson, que o considera devasso. Combate os costumes patriarcalistas, como o de se forçar uma jovem a casar contra a vontade, e defende  a rebelião familiar. Zomba dos moralistas, escarnece dos clérigos, taca os críticos com violência, demonstrando por eles profundo desprezo.

Exausto pelo combate ao crime, aborrecido com a má vontade da crítica, enfraquecido pelas doenças, Fielding via apagar-se rapidamente a alegria de viver. Num estado lastimável, ainda encontrou forças, em 1751, para escrever um último romance, Amélia, no qual presta homenagem a sua segunda mulher, a quem involuntariamente causara grandes desgostos. Falta em Amélia o brilhantismo de Joseph Andrews ou de Tom Jones, mas a obra é dotada de um etilo mais apurado e de uma análise mais profunda dos personagens. Embora ainda se volte abertamente contra certas leis inglesas que considerava injustas, como a prisão por dívidas, e denuncie graves males sociais, Fielding atenua, em Amélia, o tom impiedoso de sua sátira.

Foi aconselhado pelos médicos a deixar a Inglaterra e a procurar em Lisboa um clima propício a sua saúde debilitada. Ao abandonar a pátria, trêmulo de emoção e de tristeza, escreveu: "Hoje, quarta-feira, 24 de junho de 1754, o sol mais triste que já vi levantou-se e encontrou-me acordado. No brilho desse sol eu ia ver, pensava, pela última vez, dizendo-lhes um último adeus, os objetos queridos, pelos quais eu sentia a ternura de uma mãe: não estava de forma alguma endurecido pela doutrina da escola filosófica que me ensinou a suportar a dor e a desprezar a morte. Ao meio-dia em ponto fui advertido de que o carro me esperava. Abracei meus filhos um após o outro e subi no carro, um pouco resolutamente; minha mulher, que se conduziu como uma verdadeira heroína e como um filósofo, embora seja, ao mesmo tempo, a mais terna das mães, seguiu-me juntamente com a filha mais velha; alguns amigos me acompanharam, outros se despediram de mim, e ouvi fazerem de minha coragem um conceito de elogios, os quais sabia muito bem não merecer por nenhum direito". Se o homem Henry Fielding - que três meses depois, em 8 de outubro, morreria sozinho e amargurado num quarto de Lisboa - pensava não merecer os elogios naquela hora da partida, os escritor os ganhou para sempre por sua obra magistral, ainda hoje entre a vida breve de um homem e a imortalidade de um grande artista.

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