domingo, 23 de março de 2014

Alça de caixão


Segurei a fria alça no exato momento em que iria chocar-se no vaso grande de plantas. O funcionário da funerária parecia não notar que o caixão escorregara no piso liso e deslizara à esquerda onde certamente quebraria o vaso e iria de encontro ao muro branco do extenso corredor sob aquele escaldante sol. Algum transeunte se antecipou abrindo a porta que dava para um área coberta em frente às salas de atendimento onde estivera a exatamente uma semana também  observando dois homens rapidamente retirarem um caixão na mesma direção. Naquele dia a ideia de segurar uma alça de caixão seria absurda por imaginar que tal tarefa era para os extremamente fortes. Só não imaginara que a força física seria transposta com extrema facilidade. A necessidade é sempre um bom condutor, pensara. As pessoas sentadas observavam e pareciam baixar a cabeça para não olhar o suado homem da funerária à frente do caixão que pensava ainda o conduzir só. Minutos antes enquanto arrumávamos as flores no corpo soubera pelo mesmo que o cérebro é o que primeiro se desintegra. Estranha maneira de quebrar o silêncio ou agradecer a falta de ajuda para sua mão de obra. Desde que entrara na funerária somente ele e a atendente que encomendara as flores na cidade visinha atuavam: mostrou as possibilidades de caixão, separou as flores, agiu a papelada, procurou as chaves do carro enfrentando um trânsito caótico, arrumou o corpo e agora tentava sair o mais breve possível do hospital pois a hora avançava e  já aguardavam o corpo no templo. Mais uma porta foi aberta e ganhamos o escaldante sol rumo ao carro da funerária. Na tentativa de ajudar, vi meu dedo quase esmagado embaixo do caixão quando o mesmo foi solto no carro. Meu grito despertara o distraído porteiro do hospital que veio correndo ajudar. Transeuntes enquanto aguardavam o sinal abrir na movimentada rua observavam discretamente nosso movimento. O telefone tocara. Vai ter café aflita perguntara a voz. De imediato não entendi a pergunta e respondera que a prioridade no momento era confirmar o jazido no memorial mas certamente seria providenciado. Café para os visitantes, insistira a viúva. Lembrara das flores encomendadas. Naturais. Porquê indicara artificiais no enterro da irmã do falecido? Não saberia responder . Tais pensamentos eram perturbadores naquele momento. Embarcamos no carro da funerária no tumultuado trânsito. Chegamos ao templo e novamente somente a companhia do funcionário da funerária e o caixão. Minha irmã surgiu e alcançou a alça do caixão. Adentramos ao templo. A viúva correu em direção ao caixão em prantos. Já passara de uma hora da tarde. O enterro sairia ao fim da tarde. Lembrara que levantara às quatro horas da manhã, após uma noite sem sono e ganhara a rua rumo entretanto encontrara tão somente a escuridão. Horário de verão, lembrara. Quando enfim adentrara o hospital evitando o elevador cuja porta  abria em frente ao CTI, ganhando as escadas, o telefone tocara. Era o número do médico. Não atendera, ofegante subira as escadas parando em frente ao interfone no terceiro andar, na porta da sala de entrada da UTI. Na indecisão, a mão ganhara o aparelho de celular e confirmara o último número discado. O médico atendera e informara que necessitava conversar pessoalmente. Após informar que se encontrava na porta, escutara tão somente um 'aguarde'. Foram os minutos mais longos já vivenciados. Recebera a notícia e sentira todo o corpo tremer. A única pergunta que conseguira balbuciar foi se houvera sofrimento na partida. "Não, apenas se libertou, com suavidade". Não podia deixar de lembrar dos pássaros não libertos, engaiolados e de quando uma semana antes ouvira, naquele mesmo hospital: "liberte-os pois não posso mais prosseguir". Agora, apenas um longo dia e uma alça de caixão que não seria mais vista. Somente o vôo dos pássaros libertos naquele lindo pôr de sol onde enterrara meu pai.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Érico Veríssimo - Fantoches e outros contos



A revista Cidade Nova de janeiro do corrente ano na seção "na estante", por Fernanda Pompermayer (fernanda@cidadenova.org.br) apresentou um crítica literária sobre o livro de contos de Érico Veríssimo entitulado Fantoches e outros contos aqui reproduzida:

Livro: Fantoche e outros contos
Autor: Érico Veríssimo
Editora: Companhia das letras, São Paulo, 2007
Páginas: 352
Preço: R$46,33

O longa "O tempo e o vento", de Jayme Monjardim, trouxe à memória dos brasileiros o escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), m dos nossos autores clássico do século 20. O talento de Érico talvez tenha se perdido no tempo, levado pelo vento... mas nem por isso deixa de ser real e autêntico.
Além de sua obra-prima homônima ao filme - que é retratada por Monjardim apenas em parte - Érico escreveu dezenas de outros livros. O primeiro deles foi Fantoches, ainda em 1932, reunindo os seus primeiros contos, como se fossem peças de teatro. Depois vieram os romances Clarissa (1933), Música ao longe (1935) e muitos outros. Érico enveredou inclusive pela literatura infantil, escreveu diários de viagem e por fim suas memórias, em Solo de clarineta. Fantoches e outros contos é uma reedição do original Fantoches, acrescido de outros contos mais tardios. O volume conta com uma característica muito especial: para a edição comemorativa dos 40 anos da publicação de Fantoches, Érico, escritor mais maduro, apontou sobre o livro várias observações, inclusive ilustradas por ele mesmo, come espírito crítico e com o grande senso de humor que o caracterizou - dá para entender o talento e a veia humorística do filho, Luis Fernando Veríssimo.
A primeira parte da versão atual apresenta o livro original com os fac-símiles das páginas anotadas por Érico. "Há uns vinte anos, relendo os contos que formam o presente volume, tive  sensação de ser pai de mim mesmo. Torando a l~e-los agora, vinte anos mais tarde, sinto-me como se eu fosse o meu próprio avô..." (Érico Veríssimo, 1972).
Na segunda parte (Outros contos), o autor dá um show com contos mais maduros e reflexivos. Só para dar água na boca:

As mãos de meu filho. "Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas em voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros. Beethoven."

O navio das sombras. "É noite escura e o cais está deserto. Ivo ergue a gola do sobretudo. Sente muito frio, e o silêncio enorme e hostil enche-o de um vago medo. Vai viajar. Mas é estranho... Tudo parece diferente do que ele sempre imaginara. O grande transatlântico se desenha sem contornos certos contra o céu de fuligem. Não se vê um só vulto humano no cais. Advinha-se, entretanto, na treva, a presença rígida e gelada dos guindastes."

A ponte. "O médico tinha prometido vir às cinco da tarde com a interpretação da radiografia. Mário esperava-o, angustiado, na biblioteca de seu apartamento, imaginando o pior. Era um sábado de maio e ele estava sozinho desde as três, tentando concentrar-se na leitura de uma novela. Impossível. Tinha a atenção vaga e inquieta e, além da dor habitual no estômago, a garra do medo agora lhe oprimia o peito, dificultava-lhe a respiração."

O grande Érico Veríssimo toca o fundo da alma de quem o lê. Por isso, é imperdível.

terça-feira, 11 de março de 2014

Carla Guedes - Rosas



Já não tenho medo das rosas.
Lindas, rubras...
Antes meu medo era rubro
Rubro meu sangue
Colhido nos espinhos
Do medo perfurante
Da ausência e desilusão.

Murchas.
Rosas murchas,
Feitos sonhos murchos
Despetalados na praça.
Já não tenho medo das rosas.
Perfume com espinho dentro,
Sofreguidão com espinho dentro
Beleza, mesmo que dure
Só na paixão da entrega?

Já não me envergonham as rosas.
Faces rubras,
Sangue, sofreguidão e espinhos.
Porque hoje me enfeito de rosas
Mesmo que a carne grite,
Mesmo que os dedos gritem,
Porque sei, agora murchas,
Que eram lindas e inocentes.

Eram apenas rosas.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A Menina que roubava livros - filme



O filme A menina que roubava livros é uma leitura fiel à narrativa do livro, no tom correto: sério, poético, delicado e reflexivo. Recomendo!

domingo, 2 de março de 2014

Clarice Lispector - primeiro esboço


Clarice Lipector, primeiro esboço, by Lígia.
Quem sabe um dia ainda acredito que posso desenhar e entro em um curso, quem sabe.

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