domingo, 13 de outubro de 2013

Alexandre Dumas Filho

Alexandre Dumas Filho

1824 - Em 27 de julho, nasce em Paris Alexandre Dumas, filho natural do escritor Alexandre Dumas.
1831 - Seu pai o reconhece legalmente como filho e reivindica sua guarda na justiça.
1840 - Manda imprimir uma coletânea de versos de sua autoria, intitulada Pecados da Minha Juventude.
1842 - Viaja à Itália em companhia do pai.
1844 - O pai se separa da esposa, e Alexandre Dumas passa a morar com ele. Apaixona-se pela cortesã Marie Duplessis.
1845 - Parte com o pai em uma viagem à Espanha e à África.
1847 - Escreve As Aventuras de Quatro Mulheres e um Papagaio. Recebe a notícia da morte de Marie Duplessis. É publicado o romance A Dama das Camélias.
1850 - Escreve o romance Tristan le Roux.
1852 - A Dama das Camélias (*) é encenada no palco pela primeira vez. Inicia um relacionamento com Nadine (Nadja Naryschkine).
1853 - Publica Diane de Lys. Giuseppe Verdi apresenta em Veneza a ópera La Traviata, baseada em A Dama das Camélias.
1855 - Publica Le Demi-Monde.
1857 - Em maio nasce a filha Jeanine. Publica A Questão do Dinheiro.
1858 - Publica O Filho Natural.
1859 - Publica Um Pai Pródigo.
1860 - Em novembro nasce a segunda filha, Colette.
1864 - Nadice fica viúva. Dumas e ela se casam. Dumas reconhece publicamente a paternidade das duas filhas de seu relacionamento com Nadine.
1867 - Escreve As Idéias de Mme. Aubray e o romance semi-autobiográfico L´Affaire Clémenceau.
1874 - Ingressa na Academia Francesa de Letras.
1876 - Publica A Estrangeira.
1885 - Escreve Denise.
1894 - É condecorado pela Legião de Honra.
1895 - Morre Nadine, sua esposa. Dumas casa-se com Henriette Régnier, 27 anos mais nova que ele. Morre em 27 de novembro, em Marly-le-Roy.


(*) A Dama das Camélias
Obra clássica do Romantismo, A Dama das Camélias conta a história de amor avassaladora de um jovem da alta burguesia francesa, Armand Duval, por uma belíssima plebéia do interior, Marguerite Gautier. Apesar do rico lirismo que reveste a narrativa, a ousadia realista do tema chocou - e ao mesmo tempo fascinou - a sociedade francesa da época.

(*) Os Três Mosqueteiros
Romance de capa e espada mais famoso de todos os tempos, Os Três Mosqueteiros mescla realidade e fantasia. Na França do século XVII um jovem pobre do interior, d´Artagnan, chega a Paris decidido a tornar-se um dos mosqueteiros do rei Luís XIII. Alia-se a Athos, Porthos e Aramis e, juntos, participam de guerras, duelos, romances perigosos e muitas intrigas.



Sob o reinado de Luís XVIII, neto de Luís XV, a França vive um momento político de grandes definições. Napoleão Bonaparte, em 1815, é finalmente derrotado pelos ingleses e enviado á ilha de Santa Helena. A França recupera seu prestígio internacional e vive um período economicamente próspero. Com a morte de Luís XVIII, em 1824, sobe ao trono seu irmão Carlos X.

Nesse ano, em 27 de julho, nasce em Paris Alexandre Dumas, conhecido como Dumas fils, filho natural do escritor Alexandre Dumas père - o célebre autor de O Conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros, entre outros -, e da costureira Marie-Catherine Labay.

Quando criança, Dumas é vítima de provocações maldosas dos colegas, que o chamam de "bastardo". A triste lembrança desse período o acompanharia até o fim da vida.

Quando Alexandre Dumas pai, em 1831, alcança o auge de sua reputação literária e, consequentemente, uma situação financeira estável, reconhece publicamente a paternidade e exige a guarda do filho. A mãe tenta fugir com a criança, mas não consegue.

O pequeno Dumas é bastante parecido com o pai, mas apenas nos traços. Sua constituição física é diferente, e ele possui uma expressão séria e pensativa e um temperamento calmo e disciplinado.

Alexandre Dumas esmera-se na educação do filho e o matricula em colégios renomados, como a Instituion Goubux e o Collège Bourbon. Ao descobrir que herdara do pai a imaginação brilhante e o talento intelectual, Dumas decide abandonar os estudos para dedicar-se à literatura. Com dezesseis anos manda imprimir uma coleção de versos intitulada Pecados da Minha Juventude.

Em janeiro de 1842, com dezesseis anos, acompanha o pai em uma viagem à Itália. No ano seguinte retorna ao colégio para concluir os estudos. Dumas filho tem, nessa época, enormes dívidas.

Em 1844 Dumas pai separa-se da esposa, e o filho passa a ser seu companheiro. Dumas o introduz na sociedade dos artistas e escritores franceses, e juntos vão ao teatro, a festas e a recepções de gala. É em uma dessas ocasiões que Dumas filho conhece Marie Duplessis, uma jovem cortesã da sua idade, por quem ele se apaixona. Mas Marie está gravemente doente, acometida por tuberculose. Duplessis é amante de altas personalidades, mas isso não o impede de sentir por ela um grande e verdadeiro amor. Dumas está deslumbrado por sua elegância e sua vida de luxo.

Logo depois Dumas parte na companhia do pai em uma demorada viagem à Espanha e à África. Em fevereiro de 1847, no caminho de volta, ao passar por Marselha ele recebe a notícia do falecimento de Marie. Nesse mesmo ano Dumas escreve As Aventuras de Quatro Mulheres e um Papagaio e vários outros romances. Inspirado em Marie Duplessis, ele cria a personagem Marguerite Gautier, na célebre obra A Dama das Camélias, que retrata o trágico relacionamento amoroso de uma cortesã com o jovem parisiense Armand Duval. Publicado em 1848, esse romance reflete a mudança de conceito sobre o amor e a família em meados do século XVIII.

A história tem uma repercussão discreta. Dumas decide adaptá-la para uma peça de teatro; porém, no início, as companhias teatrais e os atores se recusam a montá-la por considerá-la imoral. Finalmente, em 1852, ela é representada no Théâtre du Vaudeville e alcança êxito imediato, não só na França  mas também em outros países da Europa e na América do Norte. É como se o público se identificasse imediatamente com o drama da heroína. O sucesso estrondoso de A Dama das Camélias possibilita a Dumas saldar parte de suas dívidas e ajudar a mãe.

Há um fato curioso a respeito dos nomes dos personagens dessa obra. Próximo à sepultura de Marie Duplessis há um túmulo como nome "Marguerite Gautier" gravado na lápide. É possível que o nome da personagem de seu romance tenha vindo daí, durante uma visita de Dumas ao cemitério. Além disso, existe também uma semelhança entre o nome do personagem Armand Duval e o seu próprio, Alexandre Dumas.

Em 1852 Dumas Filho começa a ter um relacionamento com Nadine Naryschkine, casada com o embaixador da Rússia na França, príncipe Alexandre Naryschkine, vinte anos mais velho do que ela. Desse relacionamento nasceriam Jeanine, em 1857, e Marie Alexandrine Henriette, apelidada de Colette, em 1860. Com Jeanine, Dumas troca correspondências regularmente, ao longo da vida. É sua filha predileta. O relacionamento extraconjugal de Nadine contribuiria para encurtar os dias do embaixador. Depois da morte do marido, Nadine e Dumas Filho, que têm uma convivência já de doze anos, se casam. Dumas então reconhece publicamente suas duas filhas.

Em 1853 o compositor italiano Giuseppe Verdi apresenta em Veneza, com grande sucesso, a ópera La Traviata, uma adaptação da obra A Dama das Camélias. NO século XX, importantes atrizes, como Sarah Bernhardt e Greta Garbo, interpretariam no cinema e no teatro a personagem de A Dama das Camélias, Marguerite Gautier.

Embora o amor proibido tenha sido sempre um tema predominante no teatro francês, para Dumas ele é quase uma obsessão. As onze peças escritas antes de 1880 apresentam o tema do amor ilícito, entretanto Dumas se considera um moralista e um educador, posição que parece um tanto contraditória.

Dumas escreve outros romances que também são adaptados para o palco e que se transformam em peças notáveis por sua habil construção. Diana de Lys, de 1853, trata do mesmo tema de A Dama das Camélias e é baseado no relacionamento do escritor com a esposa do embaixador da Rússia. Le Demi-Monde, escrita em 1855, é considerada a melhor de todas as obras dramáticas de Alexandre Dumas Filho. Alguns críticos chegam a classificá-la como um modelo exemplar do teatro do século XIX. O tema difere das duas primeiras na medida em que retrata as tentativas de uma mulher inteligente porém socialmente discriminada de reintegrar-se na sociedade.

A pela gerou muita discussão, por retratar a falsidade e a frivolidade da sociedade francesa. Em suas peças posteriores, Dumas expressa sua revolta contra o moralismo romântico, a riqueza excessiva, o puritanismo da burguesia, ataca os preconceitos sociais e levanta questões sociais e psicológicas relacionadas a dramas familiares, prostituição, adultério, divórcio e condição feminina.

Com base em sua própria experiência de vida e na personalidade de seu pai, Dumas publica, em 1858, O Filho Natural e, em 1859, Um Pai Pródigo.

Em 1867 Dumas publica um romance semi-auto-biográfico, L´affaire Clémenceau, considerado uma de suas melhores obras.

Em 1874 Alexandre Dumas Filho é admitido na Academia Francesa de Letras. Durante mais de trinta anos dominaria os palcos franceses, com peças que defendem uma moral mais livre, com a igualdade sexual entre homem e mulher, o perdão à jovem que peca por amor, o ódio ao sedutor e à hipocrisia da sociedade que força o homem a matar a mulher adúltera. Em suas obras Alexandre Dumas enfatiza a importância do casamento e o propósito moral da literatura. Entusiasticamente aplaudido por uns e causticamente criticado por outros, Dumas provoca amplas e complicadas discussões e opiniões divergentes pela forma como trata a questão moral. Obviamente trata-se de um escritor sério e coerente, de um genuíno pensador, embora sua paixão pelo paradoxo e pelo efeito dramático por vezes lhe dê um ar de artificialidade. De uma maneira ou de outra, entretanto, seu sucesso é extraordinário e inegável.

Em 1894, é condecorado pela Legião de Honra (Légion d´Honneur), a mais alta ordem de mérito do Estado francês, concedida a civis e militares, por sua contribuição à nação.

Após a morte de Nadine, em 1895, Dumas casa-se com Henriette Régnier, que era sua amante havia oito anos. Alguns meses depois, em 27 de novembro, o escritor morre em Marly-le-Roy, deixando inacabada sua última peça, Le Retour de Thèbes.

Alexandre Dumas Filho está sepultado no cemitério de Montmartre, a pouca distância do túmulo de sua heroína, Marie Duplessis.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sábado, 12 de outubro de 2013

Gógol

Gógol

1809 - Em 19 de março, nasce na província de Poltava, Ucrânia, Nicolai Vassílievitch Gógol, filho de Vassíli Afanássievitch Gógol-Ianóvski e Maria Ivanovna.
1820 - É enviado ao liceu de Poltava, juntamente com seu irmão Ivan.
1821 - Morre seu irmão Ivan. É enviado para o liceu de Niêjin.
1825 - Morre o pai de Gógol.
1826 - Dirige A Estrela, revista elaborada pelos alunos do liceu de Niêjin.
1828 - Parte para a capital da Rússia, São Petersburgo, em companhia do amigo Danilévski.
1829 - Publica o poema Hans Kuchelgarten, sob o pseudônimo de V. Alov. Parte para a Alemanha em agosto. Em setembro reTorna a São Petersburgo.
1831 - Publica o conto A Noite de São João na revista mensal Letras Patrióticas. Em março passa a lecionar no Instituto Patriótico das Jovens Nobres. Em julho conhece o poeta Púchkin. Em setembro publica o primeiro volume de Noites na Fazenda perto de Dikanka.
1832 - Viaja para sua terra natal.
1834 - É nomeado professor-adjunto de História na Universidade de São Petersburgo.
1835 - Publica Arabescos e Mirgórod. Escreve O Inspetor Geral e começa Almas Mortas.
1836 - Estréia da peça O Inspetor Geral. Em junho parte para o exterior com o amigo Danilévski.
1842 - Publica Almas Mortas (*). Dá início ao segundo volume dessa obra.
1843 - Queima pela primeira vez manuscritos da segunda parte de Almas Mortas (*).
1846 - Começa a publicar Extratos de uma Correspondência.
1847 - Publica Confissões de um Autor.
1848 - Em janeiro viaja para a Terra Santa Chega a Jerusalém em 18 de fevereiro.
1849 - Termina de escrever a segunda parte de Almas Mortas.
1852 - Queima todos os seus manuscritos. Morre em 21 de janeiro.


(*) Almas Mortas
Publicado em 1842, Almas Mortas conta a história de um aventureiro que compra, a baixo preço. os camponeses russos mortos desde o último censo, mas ainda vivos nas listas do fisco. Uma trapaça que permite traçar um panorama da vida da província e um esboço do homem russo por inteiro, pelo seu lado negativo. Gógol iniciou um segundo volume de Almas Mortas, mas em um momento de angústia acabou queimando os manuscritos. Alguns anos depois retoma a continuação da obra e a conclui, mas pouco antes de morrer queima novamente os originais.


Amanhece em São Petersburgo. Acordado de seus sonhos, Nicolai Vassílievitch Gógol esfrega os olhos, passa água sobre o rosto e sente o impacto do primeiro dia na  capital. Corre até a janela para olhar o Nieva. Mas não há Nieva algum. Olha para Danilévski, que ainda dorme, para todos os cantos do pequeno quarto, e não pode conter a sensação de um ódio inexplicável. Nada é como imaginava.
No dia seguinte e nos outros será a mesma coia. Aquela sensação de perplexidade o acompanhará pelas ruas cheias de marasmo. E estará com ele quando voltar para casa, conversar com Dnailévski, olhar para o lugar onde deveria estar o rio Nieva e escrever para sua mãe.

O pai, Bassíli Afanássievitch Gógol-Ianósvki, falecido em 185, tinha sido um proprietário qeu empregava mais de cem "almas" - assim eram chamados os servos. A mãe, Maria Ivánovna, amava o marido e os filhos de maneira apaixonada. Era uma mulher de extraordinária sensibilidade. Transmitiu ao pequeno Gógol sua personalidade contraditória e um intenso sentimento religioso que o levaria ao misticismo.

Já na infância aconteciam coisas que o deixavam perdido entre a fé e o temor. muitas vezes ouvia vozes que chamavam seu nome - segundo crenças populares, isso significava presságio de morte. Então ele fugia e procurava alguém que pudesse protegê-lo. Quando as vozes o deixavam, sorria e encarava o mundo com coragem e felicidade.

Seu mundo começou no dia 19 de março de 1809, na província de Poltava, Ucrânia. Um universo fantástico bem maior que a paisagem estranhamento dividida: de um lado, enormes áreas desocupadas; de outro, grandes glebas de terra pertencentes a poucos proprietários. Para servi-los havia as "almas", que com seu suor semeavam a terra, sem nunca possuí-la.

Desde menino ouvia as canções do folclore russo, ia às feiras, assistia aos teatrinhos de fantoches, escutava lendas e fábulas e aos poucos, assimilava o modo de pensar de seu povo.

Em 1820 foi enviado ao liceu de Poltava, junto com seu irmão Ivan. Com as férias de verão vieram também os ventos  misteriosos que carregaram a vida de Ivan. Ficou sem saber o significado da vida e da morte, perdido entre o luto as lágrimas e o vazio.

Em 1821 Gógol seguiu para o liceu de Niêjin levando uma bagagem de sentimentos conturbados. Talvez por isso nunca tenha se integrado de fato aos colegas e professores. Após a morte do pai, parecia que nada mais havia a fazer em Niêjin. Gógol começou então a sonhar com São Petersburgo. Quando deixou Niêjin, em 1828, viveu durante seis meses com a mãe e os irmãos. Depois partiu para a capital em companhia do amigo Danilévski.

Gógol sabia que como simples escriturário nunca poderia realizar seus projetos. O emprego serviria apenas para satisfazer às necessidades mais urgentes, e logo percebeu que o salário não bastaria para fazê-lo sobreviver, e acabou pedindo ajuda à mãe.

Na verdade, ele já havia feito algumas tentativas de manter-se por si mesmo. Em 1829 publicou Hans Kuchelgarten. O poema, assinado com o pseudônimo de V. Alov, refletia as primeiras influências literárias. Contudo, a obra era inferior à produção dos poetas médios da época. A crítica reagiu de forma tão negativa que Gógol, tomado de desespero, correu às livrarias, recolheu os exemplares ainda existentes, levou-os para casa e queimou-os.

A essa experiência seguiu-se uma enorme angústia, que o fez partir para o exterior no primeiro navio que encontrou. Em agosto chegou à Alemanha; em setembro estava de volta a São Petersburgo, em péssima situação financeira. Mais tarde conseguiu emprego e foi morar com dois amigos.

Enquanto ia sobrevivendo apertadamente, o jovem Gógol prestava atenção no rumo que as coisas tomavam em seu país. Os intelectuais revelavam crescente preocupação com os problemas do povo russo, sobretudo com o analfabetismo da maior parte da população.

Reprimidos pela censura, tendo universidades e jornais sufocados por inspeções militares, os intelectuais viam a literatura como único meio de divulgar idéias novas. Assim, foi a partir de 1830 que a literatura russa conseguiu suas primeiras vitórias, apesar das repressões.

Essa mudança abriu novas perspectivas a Gógol, que passou a colaborar na revista Letras Patrióticas. Seu primeiro conto, A Noite de São João, saiu em fevereiro de 1831. Foi o suficiente para fazê-lo trabalhar intensamente em sua nova obra. Noites na Fazenda perto de Dikanka. Em março abandonou o emprego burocrático para dar aulas no Instituto Patriótico das Jovens Nobres.

Em julho desse mesmo ano conheceu o poeta Púchkin e, durante um mês, encontraram-se todos os dias. Púchkin não havia lido nada do jovem estreante; depois de alguns contato, percebeu-lhe a inexperiência, o espírito conturbado, a cultura deficiente. Mas também descobriu a maior característica literária de Gógol: saber mostrar como ninguém a superficialidade do homem vulgar.

Ainda em setembro desse ano, Gógol - agora quase um discípulo de Púchkin - publicou o primeiro volume de Noites na Fazenda perto de Dikanka. O segundo volume da obra, publicado em março de 1832, repetiu o êxito anterior. A obra é uma coleção de contos sobre os costumes populares de sua terra que se destaam o humor fantástico e a superstição.

Logo no início de abril Gógol resolveu visitar a terra natal, onde passou seis meses.

Em outubro retornou a São Petersburgo, levando consigo as irmãs, que iam estudar no Instituto Patriótico. Sentiu-se um pouco triste, angustiado, alguns dias após a chegada. Faltava-lhe inspiração. E assim passou todo o ano de 1833, queixando-se aos amigos sobre sua falta de imaginação.

Precisava atirar-se a uma obra que exigisse todos o seu potencial. Talvez uma História Universal em oito ou nove volumes. Mas para escrevê-la necessitava de maiores conhecimentos e de experiências mais intensas, que só conseguiria dando aulas. Em julho de 1834 obteve uma vaga de professor-adjunto na Universidade de São Petersburgo. No entanto apenas sua primeira aula causou boa impressão, pois as seguintes demonstraram claramente que ele havia esgotado todo seu conhecimento e todas suas idéias na aula de estréia.

No fim desse ano, consciente de seu fracasso Gógol demite-se. Mas não recaiu nas crises de angústia. Ao contrário, logo no início de 1835 pôs-se a trabalhar com vontade: em fevereiro sai o volume Arabescos, que reuniu dados biográficos, conferências e os contos A Perspectiva Nevski, Diário de um Louco e O Retrato. A mesma série de contos ambientados em São Petersburgo pertencem O Nariz, de 1835, e O Capote, de 1842, possivelmente inspirado nas experiências do escritor como frustrado funcionário público. O Nariz é a história de um homem que acorda e sente falta de seu nariz. O tema irreal e humorístico oculta um significado bastante verdadeiro, a perda da segurança cotidiana provocada por uma situação inesperada.

O Capote conta a história de um modesto funcionário que, com enorme sacrifício, consegue economizar dinheiro para comprar um capote. Porém a vestimenta logo é roubada. Vítima de um destino infeliz, ele adoece e morre. Seu fantasma passa a roubar capotes durante a noite.

Em março de 1835 foi publicado Mirgórod, coletânea de contos de inspiração popular com sabor humorístico. Dentre todos, o conto que recebeu a melhor acolhida por parte do público foi Taras Bulba, escrito nos padrões de uma novela histórica. Ainda nesse ano nasceu O Inspetor Geral, que sairia em 1836, e começou a elaborar Almas Mortas. Ainda em 1835 Gógol retornou à universidade. Queria fazer mais uma tentativa de firmar-se como professor e, ao mesmo tempo, prosseguir nos estudos que lhe possibilitariam escrever sua volumosa História Universal. Em dezembro desse ano demitiu-se de novo, abandonando para sempre o magistério e a obra histórica.

No ano seguinte, sua maior preocupação foi montar a comédia O Inspetor Geral, que estreou em abril. As opiniões do público e da crítica dividiram-se, embora ninguém tivesse percebido mais que o significado aparente da peça.

Gógol, que só prestava atenção ás críticas negativas, mergulhou novamente em crises de angústia. Em 6 de jnho de 1836 deixou São Peterburgo acompanhado de Danilé-vski. Após ter passado um longo período viajando pela Alemanha, França e Suíça, Gógol chegou a Roma em maro de 1837. Na bagagem levava os primeiros capítulos e Almas Mortas, sua obra mais importante.

Embora estivesse ainda muito abatido, pôs-se a trabalhar com afinco. Distante de seu país, as coisas lhe pareciam mais claras. Estava quase alcançando o equilíbrio emocional quando recebeu uma notícia que o deixou totalmente prostrado: o poeta Púchkin acabara de morrer num duelo. Gógol pensava apenas em morrer. Deitava-se na cama e ficava esperando a morte. E ela não chegava. Quando terminou o ano de 1838, levantou-se do leito e procurou encarar a vida com novo lento. Foi com esse ânimo que Jukóvski o encontrou no início de 1839. Gógol ficou  sabendo que suas irmãs haviam deixado o Instituto Patriótico e estavam precisando de emprego. Ajudado pelo amigo, retornou à Rússia poucos meses depois.

Chegou a Moscou em setembro, apreensivo e triste. Não se demorou na cidade. Poucos dias depois, tomou o caminho de São Petersburgo. Lembranças sombrias assaltaram-no. Sentiu que não poderia ficar ali por muito tempo. Mas não tinha recursos para lançar-se a nova viagem. Os amigos compadeceram-se dele. Poetas, romancistas, sonhadores, todos reuniram suas minguadas economias, e, ao fim de alguns messes, entregaram-lhe uma pequena fortuna: 4.000 rublos. Em junho de 1840 Gógol estava outra vez em Roma, bem longe dos críticos e dos nevoeiros russos.

Novamente foi tomado por presságios de morte. Depois de uma fase de crises respiratórias e distúrbios cardíacos, mandou chamar um padre, certo de que fosse morrer. Mas sobreviveu, e passou a acreditar que Deus o ressuscitara. Em agosto de 1841 viajou para a Rússia com o manuscrito completo de Almas Mortas. Seu estado nervoso, já bastante grave, piorou quando teve de enfrentar a censura, que pretendia fazer enormes cortes em seu livro. As objeções começavam pelo título, que, segundo os censores, ridicularizava o dogma cristão da imortalidade da alma. Apesar de todos os contratempos, a obra foi publicada graças à intervenção de alguns amigos.

Almas Mortas e um retrato fiel da Rússia da época, quando ainda reinava o regime de servidão. Os bens de um proprietário eram avaliados pela quantidade de "almas" (servos) que ele possuía e pelas quais pagava um imposto. O poeta Púchkin sugeriu ao escritor a seguinte situação: um esperto proprietário compra as "almas" mortas por um preço baixo e hipoteca-as como vivas, com grande lucro. Gógol aproveitou a idéia para levar o leitor a uma viagem por toda a Rússia, descrevendo as condições do povo.

Preocupado com a impressão negativa do povo russo que sua obra transmitia, Gógol decidiu escrever mais dois livros, nos quais os personagens seriam reabilitados.Em 1843 iniciou o segundo volume da obra. Todavia, acometido de uma de suas crises, queimou os manuscritos.

Emocionalmente, sobrevivia equilibrando-se numa tênue linha, cercado por medo, calafrios e angústias. Em 1846 começou a publicar Extratos e uma Correspondência, que provocou nos leitores e críticos uma reação bastante desfavorável. Era a primeira vez que um escritor se abria com tanta sinceridade. Mas essa honestidade, para a Rússia da época, significava escândalo.

Gógol já não sabia o que fazer. No ano seguinte publicou Confissões de um Autor, em que expressou seus protestos contra as críticas que vinha sofrendo. De nada adiantou. Todos estavam contra ele: amigos, inimigos, políticos, revolucionários, liberais, moderados, a família imperial e os literatos.

Suas crises tornaram-se cada vez mais violentas. Em janeiro de 1848 partiu para a Terra Santa. De retorno á Rússia, pôs-se a peregrinar pelo interior do país. Procurava conhecer melhor seu povo para dar continuidade a sua obra. Finalmente, em 1849 concluiu a segunda parte de Almas Mortas.

Já fazia algum tempo que o escritor estava estreitamente ligado ao padre Mateus Konstantinóvski, que professava a negação da Vida, da Arte e do Homem Criador. Gógol tentava resistir a suas influências, mas, cansado de lutar, passou a aceitar a ideia da morte como uma senda de salvação. Não só desistiu de publicar o livro como resolveu destruí-lo. Na noite de 11 de fevereiro de 1852 acordou o criado e mandou-o queimar os manuscritos. Depois caiu de cama e ficou inerte, esperando a chegada da morte. Deixou de se alimentar e de ingerir qualquer remédio, dizendo: "É preciso que vocês me deixem, porque sei que devo morrer". Em 21 de fevereiro, por fim, cumpriram-se os presságios.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Eça de Queirós

Eça de Queirós
1845 - Nasce em 25 de novembro, em Póvoa de Varzim, Portugal, José Maria Eça de Queirós, filho de José Maria Almeida Teixeira de Queirós e Carolina Augusta Pereira de Queirós.
1849 - Em 3 de setembro seus pais se casam. Eça é entregue aos avós paternos, após viver na casa de sua ama até os quatro anos de idade.
1855 - É matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto.
1861 - Eça de Queiróz faz o preparatório para ingressar no curso de Direito na Universidade de Coimbra.
1865 - Trava conhecimento com Antero de Quental, deflagrador da Questão Coimbrã.
1866 - Eça forma-se em Direito e vai para a casa paterna, em Lisboa. Participa das reuniões do Cenáculo. Funda e dirige o jornal de oposição O Distrito de Évora.
1871 - Realizam-se as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, logo proibidas pelo governo.
1872 - O escritor é nomeado cônsul nas Antilhas espanholas.
1874 - É transferido para o consulado de Newcastle-on-Tyne, na Grã-Bretanha.
1875 - Publica O Crime do Padre Amaro.
1878 - Assume o consulado de Bristol, também na Grã-Bretanha. Publica O Primo Basílio.
1880 - Publica O Mandarim.
1886 - Casa-se com Emília de Castro Pamplona, filha de seu amigo conde de Resende.
1887 - Publica A Relíquia. Nasce sua filha, Maria de Castro d´Eça de Queiróz.
1888 - Graças à influência política de seu amigo Oliveira Martins, é nomeado cônsul em Paris. Nasce o filho José Maria d´Eça de Queirós. Publica Os Maias.
1889 - Integra o grupo Vencidos da Vida. Fundo a Revista de Portugal, pela qual publica Correspondência de Fradique Mendes. Nasce o filho Antônio d´Eça de Queirós. 
1891 - Traduz As Minas do Rei Salomão.
1894 - Nasce o último filho, Alberto d´Eça de Queirós.
1900 - Publica A Ilustre Casa de Ramires. Eça de Queirós morre em Paris, em sua casa de Neuilly.
1901 - Publicação póstuma de A Cidade e as Serras (*).
1925 - Publicação póstuma de A Capital.


(*) A Cidade e as Serras
Romance publicado postumamente, A Cidade e as Serras é uma magnífica crítica dos tempos "modernos", uma sátira ao culto da tecnologia. 
Um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos, Eça de Queiroz retrata com elegância o estilo de vida que anuncia o século XX contrapondo o estilo de vida em Paris, mais requintado, às virtudes da vida rural portuguesa.


Sob o reinado de D. Maria II, que começará a reinar em 1834, aos quinze anos, Portugal atravessa um período político conturbado; revolução, insurreição, golpe de Estado, guerra civil.

Nesse período, em 25 de novembro de 1845, nasce em Póvoa de Varzim José Maria Eça de Queirós, cujos pais, Carolina Augusta Pereira de Queirós e dr. José Maria Almeida Teixeira de Queirós, não são oficialmente casados. O casamento só ocorreria quatro anos depois.

O menino não fica em sua terra natal. É levado à Vila do Conde para viver na casa de uma ama: a costureira Ana Joaquina Leal de Barros, com quem permaneceria até 1849.

Seu pai tenta ocultar as circunstâncias do nascimento do filho, por temer a censura oficial e para evitar problemas à manutenção de seu cargo público - de magistrado. Eça não convive também com seus irmãos, pois aos quatro anos de idade é transferido para a casa de seus avós paternos, onde viveria até 1855.

Aos dez anos é matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto. Aluno interno, tem como professor Joaquim da Costa Ramalho (pai do escritor Ramalho Ortigão, que se tornaria seu grande amigo). Em 1861, com dezesseis anos de idade, transfere-se para Coimbra e começa o curso preparatório para o ingresso na faculdade de Direito. Tímido e sensível, inicia-se na vida boêmia e romântica da cidade. Conhece, então, alguns moços que revolucionam as letras e a política portuguesa: Antero de Quental, Germano Meireles, Alberto Sampaio, Teófilo Braga. Na universidade é um aluno apagado, mas toma gosto pelo teatro estudantil, especializando-se na interpretação de um pai nobre nas várias peças de que participa.

Quanto ao resto, permanece à margem: aprecia apenas de longe a Questão Coimbrã (1865), uma ruidosa polêmica literária que acaba por envolver os principais escritores do país, entre eles Antero de Quental e Teófilo Braga, que torpedeiam o Romantismo ultrapassado do poeta Antônio Feliciano de Castilho.

Em 1866, com o diploma de advogado, o dr. José Maria Eça de Queirós deixa Coimbra e finalmente dirige-se para a casa dos pais, em Lisboa. Nesse mesmo ano estréia como escritor, publicando no jornal A Gazeta de Portugal o folhetim Notas Marginais.

No ano seguinte passa a dirigir o jornal de oposição Distrito de Évora. Também redator, Eça de Queirós mergulha na realidade de seu país. Em seus artigos começa a emergir o grande escritor realista. Esse realismo acentua-se ainda mais quando o escritor retorna a Lisboa, no final de 1867, e passa a participar do Cenáculo, um vigoroso núcleo intelectual. Reuniões de grupo, debates, idéias e teorias novas. Eça toma contato com o Positivismo e o Socialismo, revê e avalia o Romantismo. Entra para o círculo da geração realista - Antero de Quental, Oliveira Martins, Batalha Reis, Guerra Junqueiro e outros.

Em outubro de 1869, em companhia do galante aventureiro conde de Resende, visita o Oriente. Percorre a Palestina e, na qualidade de correspondente do Diário de Notícias, assiste à abertura do canal de Suez no Egito. Ao retornar a Lisboa, em 1870, inicia a publicação em capítulos, nesse periódico, de uma novela policial: O Mistério da Estrada de Sintra, com a colaboração do escritor Ramalho Ortigão, seu único amigo e companheiro de escola.

Convencido da impossibilidade de viver de seus escritos, aos 25 anos Eça tenta a carreira diplomática e classifica-se em primeiro lugar. Contudo, é preterido na indicação para cônsul no Brasil. A irreverência do escritor, então, explode em As Farpas, panfleto de crítica social e política cuja principal arma era o riso, escrito em parceria com Ramalho Ortigão.

Engajado politicamente, Eça de Queiros participa agora das Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense. Prefere uma palestra sobre "O Realismo como Nova Expressão de Arte". A nova corrente é definida de forma entusiástica, pelo jovem escritor, como arte de participação e denúncia dos males sociais. Seis dias depois de iniciadas as conferências, uma portaria ministerial as interrompe abruptamente. Em meio às polêmicas do Cassino Lisbonense, dá prova dessa orientação estética no conto Singularidades de uma Rapariga Loura, que seria publicado em 1874.

Em 1871 Eça de Queirós consegue sua nomeação como cônsul nas Antilhas espanholas, mas só no ano seguinte assume o posto, no qual permaneceria até 1874. Depois é transferido para Newcastle-on-Tyne, na Grã-Bretanha. É aí que termina de escrever a primeira versão de O Crime do Padre Amaro. Mas a atitude perfeccionista de Eça faz com que reescreva o romance, que afinal é publicado em 1875. O Primo Basílio, romance situado na longínqua Lisboa, é publicado em 1878. E Eça de Queirós confessa estar vivendo para a arte: "Eu por aqui - não fazendo, não pensando, não vivendo senão arte. Acabei O Primo Basílio".  Nessa vertiginosa atividade literária, o escritor planeja publicar um vasto inquérito sobre a sociedade portuguesa - as Cenas da Vida Real. Mas acaba abandonando o projeto: falta-lhe a "verificação", própria da estética naturalista, conforme a definiu em sua conferência no Cassino.

Apesar do sucesso obtido com O Primo Basílio, o escritor e diplomata vive do ordenado de cônsul, insuficiente para saldar suas numerosas dívidas. "Salva-me, salva-me duma situação que me arruína, me enterra cada dia mais, me preocupa a ponto de me tornar estúpido", escreveria ele a seu amigo Ramalho Ortigão. Além das preocupações financeiras, afligem-no problemas de saúde; à anemia crônica juntam-se nevralgias dolorosas e fortes abalos de nervos.

Seus vaivéns diplomáticos prosseguem em 1878, quando é transferido de Newcastle para Bristol. Eça, contudo, sente-se só na Inglaterra. Não tem com quem polemizar ou simplesmente trocar idéias. Consola-se escrevendo contos e artigos para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Aos 33 anos de idade Eça pensa em se casar, constituir família, conforme confissão em uma carta a seu amigo Ramalho Ortigão: "precisava duma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna (não muita)... que me adotasse como se adota uma criança...".

Essa mulher seria Emília de Castro Pamplona, filha do conde de Resende, seu companheiro de viagem ao Oriente. Com ela se casaria em fevereiro de 1886, aos 40 anos de idade, no oratório particular da casa da jovem, em Ovídio.

Em 1888, dois anos após o casamento, Eça de Queirós assume o último posto de sua carreira diplomática e segue para Paris, dessa vez para sempre. Instala-se em Neuilly, "num recinto ameno e silencioso". Atenua-se agora, também, a irreverência do escritor, sócio da Academia Real de Ciências desde 1883 e à qual não comparece sequer uma vez. Gradativamente Eça de Queirós vai abandonando o Realismo mais esquemático, incursionando para o que chama de "fantasia"; mostra, a essa altura, certa influência da literatura inglesa. As obras A Relíquia e Os Maias, anteriormente ao seu casamento, são publicadas em 1887 e 1888.

Em 1889 Eça funda a Revista de Portugal, e nela publica Correspondência de Fradique Mendes. O padrão do escritor, exilado em sua torre diplomática, é Fradique Mendes, seu personagem ficticio. A irreverência social e o sarcasmo, que o compensam ideologicamente como escritor e cidadão, colidem com as atividades da diplomacia e sua vida burguesa. Seu irreverente personagem Fradique Mendes é a imgem de um escritor realizado, com prestígio mundano.

O Eça de Queirós demolidor da moral burguesa dos tempos do Cenáculo aspira agora a uma "disciplina intelectual, econômica, moral e doméstica". E o grupo que realizara a Questão Coimbrã, em 1865, nem de longe parece o mesmo. Seus integrantes são, agora, na década de 1880, os Vencidos da Vida: Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro e... Eça de Queirós. Não são os combativos jovens dos tempos antigos: reúnem-se festivamente em torno de uma mesa de hotel ou de um restaurante para discussão de temas contemporâneos.

O vencidismo fora uma posição "mais intelectual" como o próprio Eça afirmara várias vezes. Mas, segundo o parecer dos outros, seus integrantes estavam mesmo era em crise de desalento. E é nessa atmosfera de vencidismo que ele publica A Ilustre Casa de Ramires, iniciada em 1894, e A Cidade e as Serras - canto realista das maravilhas da vida rural.

Com a morte da sogra em 1890, Eça de Queirós herda uma quinta em Santa Cruz do Douro. Além de célebre, tornara-se rico.

A última visita que Eça de Queirós faz a Portugal é em 1900. Envelhecido e doente, parece despedir-se de seu país. Aos 55 anos Eça está acabado. Seu amigo Antero de Quental suicidara-se em 1892. Oliveira Martins havia morrido em 1894. O desaparecimento dos amigos e companheiros de sua geração pressagiava também seu próprio fim. Os médicos recomendam-lhe repouso e se possível, que deixe a vida agitada de Paris. Em julho de 1900 Eça parte para Glion, próximo a Genebra; escolhera o local julgando que ali respiraria uma grande paz. Mas não suporta mais de quinze dias de isolamento. Regressa a Paris, onde as febres, suores e insônia voltam a persegui-lo.

O escritor passa seus últimos dias como um "pequeno-burguês retirado", segundo suas próprias palavras. Ironicamente, registra ainda: "faço também literatura, uma literatura complicada, porque com o vício de misturar trabalho, acho-me envolvido na composição, revisão e acepilhação geral de cinco livros".

Na tarde de 16 de agosto de 1900, em meio ao calor abafado do verão parisiense, morre um dos maiores ficcionistas da literatura portuguesa, acometido por enterocolite, um mal hereditário que o perseguira desde a juventude.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Machado de Assis

Machado de Assis
1839 - Aso 21 de junho, nasce no Rio de Janeiro Joaquim Maria Machado de Assis, filho de Francisco de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis.
1851 - Machado de Assis fica órfão de pai.
1855 - Trabalha como aprendiz de tipógrafo na firma de Francisco de Paula Brito. Publica o primeiro poema: Meu Anjo.
1856 - Trabalha na Imprensa Nacional.
1858 - Trabalha como revisor de provas na casa Francisco de Paula Briot. Publica o primeiro ensaio crítico: O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura.
1860 - É contratado como redator no Diário do Rio de Janeiro.
1861 - Estréia como comediógrafo: Hoje Avental, Amanhã Luva.
1864 - Publica Crisálidas, primeira coletânea poética.
1867 - Conhece Carolina Augusta Xavier de Novais. Trabalha no Diário Oficial.
1869 - Casa-se com Carolina Augusta.
1870 - Publica Contos Fluminenses e Falenas.
1872 - Publica Ressurreição.
1873 - Publica Histórias da Meia-Noite.
1874 - Publica A Mão e a Luva.
1876 - Publica Helena.
1878 - Publica Iaiá Garcia. Parte para um retiro em Nova Friburgo.
1881 - Publica Memórias Póstumas de Brás Cubas.
1891 - Publica Quincas Borba.
1897 - Preside a sessão de abertura da Academia Brasileira de Letras. É demitido da Secretaria da Indústria.
1898 - Volta a trabalhar como secretário do ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas.
1900 - Publica Dom Casmurro.
1904 - Publica Esaú e Jacó (*). No dia 20 de outubro, Carolina morre.
1908 - Em maio ausenta-se do ministério, doente. Em julho publica Memorial de Aires (*). No dia 29 de setembro, morre.

(*) Esaú e Jacó - Memorial de Aires
Machado explora, em Esaú e Jacó, o conflito das relações entre os gêmeos Pedro e Paulo com a jovem Flora, que nutre diferentes sentimentos de afeto por um e por outro.
Último romance de Machado, Memorial de Aires é a história de dois idílios: o do casal Aguiar e o da viúva Fidélia com Tristão. Obra intimista, é narrada pelo conselheiro Aires, personagem também presente em Esaú e Jacó.


Daqui a pouco será crepúsculo. O sol, em fins de tarde de outubro, estará brilhando morno sobre o Rio de Janeiro. Irá bater com sua luz nas janelas fechadas de um prédio antigo, no Cosme Velho. Ninguém o atenderá, porque o dono da casa, viúvo e solitário, terá saído para um último passeio e não vai voltar.

Machado morre de madrugada, após cinco meses de dores e quatro anos de solidão. Perguntam-lhe se não quer fazer vir um padre. E ele, que não entra na igreja desde o dia de seu casamento, responde a custo, pois que a língua ulcerada lhe dói e pesa na boca:" Não. Isso seria uma hipocrisia". É 29 de setembro. 1908. Faltam quinze minutos para as 4 da manhã.

O dia se faz. As cores transbordam, luminosas. As ruas se povoam. Em frente à casa do Cosme Velho, movimento de carros e pessoas, médicos, agentes funerários, empregados federais. Antes de escurecer, o morto deve estar pronto para ser velado no salão da Academia Brasileira de Letras.

A brisa de junho sopra fria no Morro do Livramento, naquele dia de 1839. Maria Leopoldina, lavadeira de profissão, começa a recolher as roupas do varal, quando as dores levam-na ao leito. A casinha pobre ganha um novo habitante: Joaquim Maria Machado de Assis. Joaquim, em homenagem ao padrinho. Maria, por causa da madrinha, dona da Chácara do Livramento. Machado, que é o sobrenome dos avós maternos. Assis, o nome do pai.

Os anos correm depressa no Morro do Livramento. Joaquim vai vivendo um pouco no casarão da madrinha, ouvindo descrições de festas aristocráticas narradas pelas senhoras que chegam de saias farfalhantes, outro pouco na casinha dos pais, conversando com Francisco sobre histórias de almanaque ou escutando a mãe contar-lhe passagens da infância em Portugal. Depois de nascida a irmã, as conversas com a mãe vão ficando raras. A solidão ganha um peso  maior para aquele menino gago e tímido.


Num curto espaço de tempo, morrem-lhe a mãe e a irmã A madrinha serve-lhe de esteio. Depois ganha uma madrasta: Maria Inês, mulata meiga e delicada, que sabe ler e cozinha com perfeição. Transmite ao pequeno todos os seus conhecimentos. Quando esgotados, sugere ao marido que coloque o menino na escola.

Em 1851, morre-lhe o pai. Maria Inês emprega-se como cozinheira no Colégio de São Cristóvão. Nas oras vagas faz balas, que o menino vende na rua. Um dia ele vai à padaria da sra. Gallot. Ela e se empregado, ambos franceses, gostam do pequeno e lhe ensinam seu idioma. Mais tarde, valendo-se desse aprendizado, traduziria o ensaio Literatura perante a Restauração, de Lamartine, o romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, e várias outras obras da literatura francesa.

Vender doces na rua não condiz nem com a timidez nem com a fragilidade de Joaquim Maria. A madastra encontra-lhe outro emprego, parece que de "sacristia" ou coroinha na igreja da Lampadosa - os biógrafos não conseguiram apurar com segurança. O certo é que, por volta dos quinze anos, tem um emprego, e, nas horas de folga, passeia pela cidade, demorando-se no Largo do Rossio, a espiar as vitrinas de livros. A livraria e tipografia de Francisco de Paula Brito é o que o atrai de modo especial, não tanto pelos livros expostos mas pelas discussões que ali são travadas. Um dia o dono da loja o vê, hesitante na soleira, e o anima a entrar. Dá-lhe um emprego de aprendiz de tipógrafo e a oportunidade de estrear como poeta, publicando, em seu jornal A Marmota, os primeiros versos de amor do jovem amigo: Meu Anjo.

Passado algum tempo, o trabalho na oficina do Largo do Rossio não tem mais mistérios; Machado quer subir mais um degrau. Em 1856, deixa Paula Brito e emprega-se na Imprensa Nacional, ainda na condição de aprendiz de tipógrafo, porém com a esperança de melhor futuro.

Essa esperança fica abalada quando o diretor do jornal, Manoel Antônio de Almeida, o chama para passar-lhe uma reprimenda. Machado fora surpreendido lendo durante o expediente. Todavia, o sermão não chega a ser rude. Almeida, que garantiria a imortalidade com o romance Memórias de um Sargento de Milícias, compreende a sede intelectual do funcionário, percebe-lhe a sensibilidade. Torna-se seu amigo e, sem o saber, seu discípulo.

Baseado nos diálogos literários com Manuel Antônio Almeida, nos debates do círculo de A Marmota, que ele continua a frequentar, e nas aulas de gramática e conhecimentos gerais com o Padre Silveira Sarmento, em 1858 Machado publica o ensaio O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura, marco inicial de uma atividade crítica que prologaria até 1879 e se pautaria sempre pelo bom gosto, pela honestidade, pela agudez da análise.

Ainda em 1858, Machado começa a colaborar no Paraíba, jornal de Petrópolis, e volta à firma Paula Brito na função de revisor de provas. Havia subido um degrau.

Em 1859 passa para o Correio Mercantil, em igual função. Ao sair pela segunda vez da casa Paula Brito, não deixa, porém, o convívio do A Marmota, onde é sempre recebido com estímulo e afeto. Com Eleutério de Sousa funda, no mesmo ano a revista Espelho, na qual começa sua brilhante carreira de cronista, registrada em vários periódicos do Rio de Janeiro.

Em 1860 consegue uma vaga de redator no Diário do Rio de Janeiro. Escrever em um jornal conceituado, dirigido a um público exigente, obriga-o a dar um tratamento cuidadoso e perspicaz aos fatos, força-o a apurar o estilo. À estréia do cronista segue-se a do comediógrafo. Em 1861 apresenta duas peças medíocres: Hoje Avental, Amanhã Luva e Desencantos. A última representa a aplicação de uma teoria enunciada no opúsculo Queda que as Mulheres Têm para os Tolos, também de 1861, segundo a qual os tolos vençam na vida, enquanto os talentosos fracassam. Mais tarde, retoma o tema em Memórias Póstumas de Brás Cubas e desenvolve-o no conto Teoria do Medalhão.

O teatro machadiano, que compreende treze peças, na maioria escritas no período de 1861 a 1866, é encarado como a parte mais fraca de sua produção literária. Assim como a poesia, constitui uma espécie de exercício, uma busca da forma mais adequada à expressão de seu pensamento.

É desse período a publicação, no Diário do Rio de Janeiro, da tradução de Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, apresentada pelo próprio Machado com a nota de 15 de março de 1866: "Começamos hoje a publicação do romance de Victor Hugo Os Trabalhadores do Mar, há tanto tempo anunciado na imprensa européia e ansiosamente esperado pelos admiradores do grande poeta".
Entre a publicação de Crisálidas, em 1864, e o sucesso da tradução de Os Trabalhadores do Mar, em 1866, Machado vai levando a vida.

No ano seguinte conhece Carolina Augusta Xavier de Novais, cuja mãe morrera em Portugal. Carolina viera, junto com os irmãos Adelaide e Miguel, unir-se a Faustino, o outro irmão, poeta que vive no Rio de Janeiro. Está longe de ser bela. O rosto severo ostante as marcas dos 23 anos vazios de amor. Dedicara a vida à família e à leitura. Conhece bem os clássicos portugueses, é versada em gramática. De índole afetuosa, recatada e doce, cativa a todos os que a conhecem. Cativa Machado também.

Em princípios de 1867, os dois solitários se encontram junto à cabeceira de Faustino, que luta contra uma enfermidade. Encontram-se e amam-se. Assessor de diretoria no Diário Oficial, Machado, além do ordenado ganha com as colaborações para vários periódicos. Tem talento, educação e um belo futuro. Mesmo assim, Adelaide e Miguel se opõem: não querem um mulato na família. Mas o obstáculo é vencido, e eles se casam em 12 de novembro de 1869.

"A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de casados", informa o Memorial de Aires (1908). Os proventos do marido são suficientes apenas para o necessário; nenhum luxo. Os ataques epilépticos voltam. Carolina tenta minorar-lhe o sofrimento. Lê e revisa-lhe os manuscritos, corrigindo os possíveis deslizes gramaticais, sugerindo modificações. As primeiras obras revisadas por ela constituem a estréia de Machado em dois gêneros que ele maneja com maestria: o conto e o romance. No ano seguinte ao casamento, Machado publica Contos Fluminenses, seguidos do romance Ressurreição (1872) e de Histórias da Meia-Noite (1873). Juntamente com os romances A Mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), esses trabalhos constituem a chamada "fase inicial" de Machado, já revelando seu talento de narrador. Nos três últimos romances há um forte toque autobiográfico. Todos eles giram basicamente em torno dos mesmos temas: ambição e orgulho, o drama íntimo de Machado com relação à madrasta. Em 1860 ele se mudara de São Cristóvão para o centro, afastando-se cada vez mais de Maria Inês, a ponto de ela ter de recorrer à caridade alheia para sobreviver. Em 1874 a mulata morre. Ferido na consciência, o enteado procura desabafar, projetando-se em seus personagens.

Em fins de 1878 Machado, acompanhado de Carolina, parte para nova Friburgo, por recomendação médica. A estada em Friburgo o faz rever certos valores e posições e enveredar por novos caminhos. De volta ao Rio de Janeiro, Machado inicia a elaboração de Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado primeiro em folhetim, depois pela Garnier, em 1881.

Em 1882 publica o conto O Alienista, sátira mais feroz que a de Brás Cubas. O protagonista do conto, ao perceber a falência de seu raciocínio, incapaz de distinguir entre loucos e sãos, recolhe-se ao hospício e suicida-se mentalmente.

A loucura é um dos temas constantes na obra machadiana, ao lado dos problemas da dúvida (Esaú e Jacó), do bem e do mal (Singular Ocorrência), da ânsia da perfeição (Trio em Lá Menor, Cantiga de Esponsais) da autodefinição da personalidade (O Espelho), do despertar dos instintos na adolescência (Missa do Galo), tratados nos contos e nos romances da maturidade.

Escrevendo sobre adultério, morte, sadismo, alienação, Machado não se demora em cenas chocantes. A sobriedade e a sutileza são características suas, numa época em que os realistas se desdobram em detalhes grosseiros. Ele prefere sugerir a declarar.

Ao contrário de Brás Cubas, Machado conquista a glória e o amor, tem amigos e discípulos, e só lamenta não ter filhos - porque teme transmitir não "o legado da nossa miséria", mas a tragédia de sua doença, que o carinho de Carolina ajuda a suportar.

Leva uma vida calma, perturbada apenas pelos ataques epilépticos.

Em abril de 1897 Machado conduz a sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras. Pena que a alegria desse momento seja empanada pela demissão de Machado. O governo decide confiar a direção da Secretaria a um técnico. O escritor fica inativo por quase um ano, até que, em novembro de 1898, é reincorporado como secretário do ministro da Viação.

A volta ao trabalho restitui-lhe a calma necessária para compor Dom Casmurro (1900), o mais pessoal de seus romances, uma análise profunda do ciúme.

Carolina ainda revisa o manuscrito de Dom Casmurro, mas não pode ler Esaú e Jacó. Está doente. Procura esconder do marido as dores de estômago, agravadas por uma receita errada fornecida pelo farmacêutico. Em fins de 1903, não pode continuar ocultando. Ao começar o ano-novo, o casal parte para Nova Friburgo, na esperança da cura. Ali ficam um mês, ela esforçando-se por parecer melhor, ele esmerando-se por parecer confiante. Ambos sabendo que não haveria mais tempo. Em 20 de outubro de 1904, à beira do 35. aniversário de um casamento tranquilo, Carolina morre.

A maneira que Machado tem de falar na mulher sem cansar os amigos nem desvelar sua intimidade é contar episódios da vida conjugal como se fossem coisas de ficção. A idéia tarda em criar corpo. Só em 1907, entre estudos de grego e expedientes no Ministério da Viação, onde era diretor geral de contabilidade desde 1902, ele começa a escrever Memorial de Aires. Um relato de ancião, a passo lento. Quadros da vida de Carmo e Aguiar (na verdade Machado e Carolina). Percalços da aventura amorosa de Fidélia e Tristão. E um final feliz. A vida é pacata, mas sorri. E o velho Machado faz as pazes com ela, um pouco antes de se despedir.

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

domingo, 6 de outubro de 2013

Melville

Melville
1819 - Em 1. de agosto, nasce em Nova York Herman Melville.
1830 - O empório de Allan Melville vai à falência, e a família se muda para Albany.
1832 - Morre Allan Melville. Herman deixa a escola e arranja um emprego em um banco.
1834 - Passa a trabalhar como guarda-livros do irmão mais velho, Gansevoort.
1835 - Frequenta o Colégio Clássico de Albany.
1837 - O irmão Gansevoort vai à falência, e a família se muda para Lansingburgh.
1839 - Herman consegue emprego como camareiro no navio mercante St. Lawrence.
1841 - Embarca no baleeiro Acushmet com destino aos mares do Sul.
1842 - Em julho, o Acushnet aporta nas ilhas Marquesas (atual Polinésia Francesa). Herman e um amigo abandonam o navio para explorar a ilha.
1843 - Alista-se na Marinha e embarca no United States.
1846 - Publica Taipi - Paraíso de Canibais, sobre a vida da Polinésia.
1847 - Publica Omu, uma narrativa das aventuras nos mares do Sul. Em agosto, casa-se com Elisabeth Shaw.
1849 - Publica Mardi e Redburn.
1850 - Publica White Jacker.
1851 - Publica Moby Dick (*).
1852 - Publica Pierre ou As Ambiguidades.
1853 - Publica Bartleby, o Escriturário.
1854 - Publica As Encantadas.
1855 - Publica Israel Potter e Benito Cereno.
1856 - Faz uma viagem à Europa e à África. Publica Piazza Tales.
1857 - Publica The Confidence Man.
1866 - Publica Battle-Pieces e Aspectos da Guerra.
1867 - O segundo filho, Stanwix, que fora para o mar em 1869, morre num hospital em São Francisco.
1891 - Escreve Billy Budd, só publicado em 1924. Morre de infarto em 28 de setembro, em Nova York.

(*) Moby Dick
A descrição feita por Herman Melville, em 1851, da caça à baleia-branca é uma alegoria da luta do homem contra as forças da natureza, avassaladoras e destruidoras, que, no entanto, se encontram presentes dentro do próprio homem. Nem a obra nem o autor foram compreendidos à época, o que fez de Moby Dick um fracasso.
O tempo se encarregaria de fazer justiça: Moby Dick é considerado por muitos, hoje, o maior romance já escrito nos Estados Unidos.


No primeiro dia de agosto de 1819, em Nova York, Maria Gansevoort Melville dá a luz ao terceiro filho, Herman. Depois dele outros cinco viriam. Tanto o avô paterno de Herman, de nobre família escocesa, quanto o materno, descendente de holandeses, haviam sido heróis na Revolução Americana de 1787.

O pai de Herman, Allan Melville, é dono de um empório, que, em 1830, vai à falência. A família então é obrgidada a se abrigar na casa de um parente, em Albany. Dois anos depois Allan morre deixando Maria e os oito filhos em péssima situação financeira. Gansevoort, o mais velho, envolve-se num negócio de peles, procurando ajudar na manutenção da casa; as meninas vão para a Academia Feminina de Albany. Com treze anos Herman arranja emprego num banco, depois de abandonar a escola.

Sai do estabelecimento bancário em 1834 para trabalhar como guarda-livros do irmão. As coisas seguem equilibradas até 1837, quando o negócio de Gansevoort também vai á falência. Herman passa a lecionar em Pittsfield, Massachusetts.

No ano seguinte a família transfere-se para a cidade vizinha de Lansingburgh, procurando melhores condições de vida. Herman vai para a Academia de Eengenharia, com o intuito de obter um emprego no canal Erie, mas desiste alguns meses depois.

Em 1839 publica no Democratic Press e no Lansigburgh Advertiser sua primeira composição literária, Fragmentos Literários de uma Escrivaminha, com o pseudônimo de L. A. V. É um trabalho simples, que revela um autor de estilo ainda indefinido mas com inclinações românticas.

Está com vinte anos de idade e sem perspectiva. Não se decide pro profissão alguma e seente-se frustrado por não poder ajudar no sustento da família. Tentando ajudá-lo, Gansevoort arranja-lhe um emprego de camareiro num navio mercante, o St. Lawrence. Em 5 de julho de 1839 Herman embarca rumo a Liverpool, na Inglaterra.

Algumas decepções o aguardam: os marujos não têm o menor refinamento. A vida a bordo é inglória e exaustiva. E Liverpool é uma cidade cheia de pobres que dormem famintos pelas ruas. Toda sua decepcionante experiência seria relatada mais tarde no livro Redburn, publicado em 1849. Além dos aspectos meramente descritivos da viagem, Herman acrescentaria à obra alguns episódios não acontecidos de fato, como uma visita do herói a Londres e uma epidemia a bordo.

Três meses depois da partida o St. Lawrence aporta de volta em Nova York, trazendo inúmeros imigrantes irlandeses. Herman desembarca frustrado e sai à procura de emprego. Consegue dar algumas aulas em Greenbush, no Etado de Nova York, mas pouco tempo depois a escola fecha, e ele vai para o colégio de Brunswick, perto de Albany. Ali fica até 1840, quando resolve tentar a sorte no Oeste.

No fim do ano, sem um vintém no bolso, retorna a Nova York. Volta a perambular pelas ruas, e seus passeios acabam por levá-lo a New Bedford, considerada a capital mundial dos baleeiros.
Em janeiro de 1841 Herman embarca no Acushnet, um veleiro com 35 metros de comprimento, equipado com oficina mecânica, carpintaria, sala de costura, e repleto de provisões. A tripulação é formada por imediatos, arpoadores e marinheiros. Todos eles participam da caça à baleia, tarefa perigosa e emocionante cuja finalidade é a extração do óleo. A experiência vivenciada no Acushnet inspiraria Herman a escrever dez anos depois sua obra-prima - Moby Dick -, cujo título original era A Baleia-Branca.

Ao deixar os Açores o Acushnet segue para o Atlântico Sul, fazendo uma escala no Peru em junho de 1841 e tomando depois o rumo do cabo Horn, e extremo meridional da América do Sul.
Num relato sobre as ilhas Encantadas (as Galápagos), Herman afirma ter visitado também, durante essa viagem, o arquipélago de João Fernandes. Nessa silhas, pertencentes ao governo chileno, teria vivido, de 1704 a 1709, o marinheiro Alexandre Selkirk, que inspirou a Daniel Defoe o famoso personagem Robison Crusoé.

Em julho de 1842 o Acushnet chega às ilhas Marquesas e apota em Nuku-Hiva, a ilha mais importante do arquipélago, que então se encontra sob domínio francês. Alguns dias depois Herman e seu amigo Richard Tobias Greene - "Toby" - abandonam o navio e começam a explorar a ilha com a intenção de encontrar a tribo dos hapaas, considerada amistosa aos marinheiros brancos. Escalam as latas colinas que circundam a baía de Taiohae e acabam nas mãos dos taipis, que, segundo se conta, são antropófagos.

Após alguns dias Toby tem permissão da tribo para procurar medicamentos para Herman, que está com a perna ferida. Não volta mais: engaja-se num baleeiro que está à procura de marinheiros desgarrados e vai embora. Um mês depois o baleeiro australiano Lucy Ann encontra Herman.

Essa experiência é relatada em seu livro Taipi - paraíso dos Canibais, publicado em 1846. Nesse romance em forma de reportagem o escritor conta o que lhe acontecera desde o momento em que deixa seu posto no Acushmet até o dia em que, salvo dos antropófagos, embarca no Lucy Ann. Descreve o modo de vida dos taipis a flora e a fauna da ilha. Somente na segunda parte do livro - após a partida de Toby - é que ele narra uma série de acontecimentos que fogem ao mero documentário.

A úncia pessoa com que Melville conveersa no Lucy Ann é o Dr. Long ou Long Ghost (Fantasma Comprido). Os marinheiros não querem trabalhar, aguardam apenas uma ocasião propícia para desertar. A primeira tentativa nesse sentido acontece em uma ilha das Marquesas, quando dez homens tentam fugir, mas não conseguem.

Enquanto o Lucy Ann vai navegando nesse clima caótico, Herman - com o pretexto da perna machucada - passa o tempo todo lendo os livros de seu amigo Fantasma Comprido. Somente suspende a leitura quando o navio chega a Papeete, no Taiti. Outra vez a tripulação se amotina, e dessa vez o capitação é subjugado e enviado a terra. Os marinheiros não querem prosseguir viagem no Lucy Ann, por isso solicitam ao cônsul inglês permissão para ficar na ilha. Em resposta são trancafiados nos cárceres do navio francês Reine-Blanche, inclusive Herman e o Fantasma.

Quase diariamente as autoridades da ilha procuram os rebeldes para tentar convencê-los a retornar seus postos no velho baleeiro australiano. Mas os marujos preferem permanecer encarcerados. Por fim, no dia 15 de outubro de 1842, recuperam a liberdade. O Lucy Ann já vai longe, tripulado por aventureiros que nada sabem sobre as duras condições do trabalho a bordo.

Livres, sem possibilidade imediata de embarcar em outro navio, Herman e o Fantasma passeiam pela ilha, observando a vida dos habitantes locais, que cultuam a indolência e a embriaguez e rejetam tenazmente qualquer sugestão de trabalho. Comem frutas silvestres, abundantes em seus campos férteis, e dormem em toscas tapera.

Avesso à indolência e a hábitos ociosos, é com imensa alegria que Herman, em janeiro de 1843, sobe a bordo de um baleeiro que havia aportado na ilha. Sente só uma tristeza: a de deixar o bom amigo Fantasma, que optara pela boa vida na ilha. Quatro anos mais tarde o romancista reviveria toda essa aventura em seu livro Omu (1847).

Segundo o relato do escritor, o baleeiro navega algum tempo pelos mares do Sul, antes de aportar em Honolulu, onde a tripulação desembarca para uma escala de quatro meses. O Havaí, bem como o Taiti, constituiam, na época, objeto de acirradas disputas entre ingleses, franceses e americanos, todos interessados no controle da região. Para não ser ludibriados pelos rivais na disputa do arquipélago, os Estados Unidos mantêm na ilha um destacamento naval. Em 17 de agosto de 1843 Herman alista-se na Marinha norte-americana em Honolulu e embarca no United States, um navio com 450 tripulantes, divididos numa hierarquia de graus e funções.

Quando o United States chega a Boston, em outubro de 1844, Herman é dispensado. A impressão que lhe ficara do rígido ambiente disciplinar da fragata americana seria exposta em White Jacket (Jaqueta Branca) em 1850.

Aos 25 anos de idade Herman já tem outras expectativas. Depois de quase quatro anos sem ver nenhum membro da família, sua primeira providência é visitar a mãe em Lansingburgh. O irmão mais velho é secretário da legação americana em Londres. As irmãs continuam solteiras.

Atenuada a emoção dos contatos familiares, põe-se a escrever. Não quer mais saber de lecionar. Afinal, tem aventuras suficientes para escrever vários livros. O primeiro é Taipi - Paraíso de Canibais (1846). A experiência serve para mostrar-lhe as dificuldades ligadas ao ramo editorial: ninguém quer publicá-lo. A conselho de um amigo, envia os manuscritos para Gansevoort. Alguns meses depois o irmão manda-lhe boas notícias: o editor John Murray comprara Taipi. As cinco libras que chegam com a carta são apenas uma parte do pagamento das cem que lhe serão enviadas nos próximos sete meses.

Mas o editor manifesta a intenção de cortar várias passagens do livro, pondo em dúvida sua veracidade. No auge das discussões, aparece o velho amigo Toby, que comprova as situações relatadas no romance. As coisas se resolvem, e Herman aproveita para acrescentar à edição americana a História de Toby, onde conta o que acontecera ao amigo depois de sua partida de Nuku-Hiva.

Tudo parece ir muito bem quando, subitamente, em 12 de maio de 1846, Gansevoort morre. E Herman continua a escrever. Seu livro seguinte, Omu )no dialeto das ilhas Marquesas, omoo significa "vagabundo"), encontra outro tipo de dificuldade: o editor recusa-se a publicar uma obra que afirma que o cristianismo falhara na Polinésia. Acaba sendo impresso, em 1847, pela Harper & Brothers, de Nova York.

Em agosto de 1847 Herman casa-se com Elisabeth Shaw, filha de um oficial de justiça, amigo da família. O ex-aventureiro decide-se por uma tranquila vida doméstica. Fixa residência em Nova York e retoma um livro que iniciara pouco antes do casamento: Mardi. No prefácio esclarece que resolvera escrever um verdadeiro romance de aventuras polinésias para verificar se não era possível fazer à fantasia passar por realidade - justamente o inverso do que havia feito nos dois primeiros livros.

Em Mardi Herman Melville coloca suas dúvidas em relação aos valores de seu tempo: "O mal é a doença crônica do universo". Essa afirmação seria o ponto chave de toda sua obra. Publicado em 1849, Mardi decepciona críticos e leitores, que esperavam uma sequência das ingênuas aventuras dos livros anteriores, e não uma crítica dos valores estabelecidos da época.

Todavia, antes da publicação, Herman já começara a escrever outro livro, que, segundo ele, tinha tudo para ser um sucesso estrondoso. Como nascera seu primeiro filho - Malcom - e ele estava mesmo precisando de dinheiro, dedica-se à composição de Redburn, o relato de sua primeira vigem de barco de Nova York a Liverpool.

É ali, entre plantas, árvores e animais, que começa a elaborar A Baleia-Branca, cujo título seria depois alterado para Moby Dick. É a história do capitão Acab, comandante do baleeiro Pequod, contra Moby Dick, a baleia branca. Acab tinha vivido uma vida de solidão durante quarenta anos. Casara-se muito tarde e em seguida partira para o mar. Seu maior desejo era vingar-se da baleia que lhe arrancara uma perna.

Todas as experiências de Herman no baleeiro Acushnet estão presentes no livro. No entanto, o sentido mais profundo da obra é a eterna procura do homem, o combate instintivo e intenso contra as forças do mal, o anseio de pureza, e por fim a amarga desilusão: a terra não é nem nunca virá a ser um paraíso. Tudo isso Herman combina com uma excitante história de aventuras, que é publicada na Inglaterra em 1851, mesmo ano do nascimento de seu segundo filho, Stanwix.

Em 1852 Herman publica um livro controverso: Pierre ou As Ambiguidades. É ridicularizado e denunciado como louco e imoral. Aliás, para a maioria dos leitores, o próprio Melville está louco. Na verdade, o escritor está sofrendo um forte depressão nervosa. Sempre acreditara nos ensinamentos de Cristo e na bondade dos homens. Agora está em crise com suas crenças.

Nem o nascimento da filha Elisabeth, em 1853, consegue melhorar seu ânimo. Ao contrário: as coisas andam difíceis, e há mais uma criança para sustentar. Pede a ajuda de amigos para arranjar um emprego fixo, mas nada consegue. Passa então a escrever uma série de contos, que publica anonimamente nas revistas literárias.

Dois anos depois, em 1855, nasce Frances, seu quarto filho. Nessa época Herman escreve uma pequena obra-prima: Benito Cereno. No ano seguinte reúne vários contos, alguns ainda inédiots, outros já publicados em revistas, e edita-os sob o título Piazza Tales (Contos da Praça).

Faz-lhe falta viajar, dar uma volta ao mundo, deixar por algum tempo a quietude e a rotina de Arrowhead. Então, em 1856 Herman novamente se põe a caminho, pelo mar, e visita o norte da África e a Europa. Ao retornar, relata as impressões da viagem em Diário dos Estreitos, no qual fala em detalhes de Gibraltar, Dardanelos e Bósforo.

Mal Herman conclui essa obra, explode nos Estados Unidos a Guerra Civil (1861-1865), que ele descreve como um trágico espetáculo em Do Alto de uma Casa e Réquiem. Em 1857 lança o romance The Confidence Man (Um Homem de Confiança), em que se percebe claramente a intensa misantropia em que vive. Mas o escritor já não tem entusiasmo pela vida. Apenas por amor à família esforça-se para obter um emprego como inspetor da Alfândega de Nova York, em 1866. No início do ano seguinte, recebe um duro golpe: seu filho Malcolm, de apenas dezoito anos, tira a própria vida com um tiro.

Herman só volta a escrever muito tempo depois, para iniciar a composição de sua última obra de fôlego: Clarel, um relato em versos baseado numa viagem que fizera á Terra Santa em 1857. No poema está expressa a idéia de que não adianta sonhar com uma ordem social se a ignorância e o orgulho não foram superados dentro de cada ser humano.

Nenhum editor se dispõe a arriscar seu capital para publicar a obra. É Peter Gansevoort, tio do escritor, quem acaba financiando a edição, em 1876.

Em 1888, com 68 anos, Herman se aposenta da Alfândega. Sente-se já no fim da vida. "Eles falam da dignidade do trabalho. Pura mistificação. O trabalho, para dizer a verdade, é uma necessidade para nossa pobre condição terrestre. A dignidade encontra-se no lazer. Aliás, noventa e nove por cento de todo trabalho realizado neste mundo e tolo ou inútil".

Livre dos compromissos burocráticos, Herman dedica seus últimos anos à elaboração de Billy Budd, mais uma história do mar, que só seria publicada postumamente. Pouco tempo depois de concluí-la, Herman Melville parte para sua última e inadiável viagem. Em 28 de setembro de 1891 sofre um ataque cardíaco fatal. Nenhum jornal publica a notícia de sua morte. Somente muitos anos mais tarde ele receberia os aplausos que amais lhe tributaram em vida, e um escritor consagrado como Camus diria: "Para avaliar o gênio de Melville, é indispensável admitir que suas obras traçam uma experiência espiritual de intensidade sem igual e que são em parte simbólicas. Seus livros admiráveis são desses excepcionais que podem ser lidos de diferentes maneiras, ao mesmo tempo evidentes e misteriosos, obscuros e, todavia, límpidos como água cristalina. A criança e o sábio encontram neles alimento".

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

sábado, 5 de outubro de 2013

Emily Bronte

Emily Bronte
1812 - Em 29 de dezembro o reverendo Patrick Bronte casa-se com maria Branwell.
1818 - Em 30 de julho, em Thornton, Yorkshire, nasce Emily Jane, filha do reverendo Patrick Bronte e Maria Branwell.
1820 - Em abril, a família muda-se para Haworth.
1821 - Morre Maria Branwell, a mãe.
1824 - Emily e as três irmãs mais velhas vão estudar em Cowan Bridge.
1825 - Em maio, morre a irmã Maria. No mês seguinte, Elizabeth, outra irmã.
1826 - As crianças ganham soldadinhos de chumbo de presente, ponto de partida para os relatos de Angria e Gondal.
1829 - Têm início os jornais de Angria.
1831 - Charlotte vai estudar em Roe Head.
1835 - O irmão Patrick vai estudar em Londres. Charlotte e Emily partem para Roe Head, a primeira como professora, a segunda como aluna. Nesse mesmo ano, Emily volta para Haworth.
1837 - Emily vai lecionar em Law Hill, mas volta para casa alguns meses depois.
1842 - Em fevereiro, viaja com Charlotte para Bruxelas. Em novembro, regressa à Inglaterra.
1846 - Em maio, é publicada a coletânea de poemas de Currer, Ellis e Acton Bell, respectivamente Charlotte, Emily e Anne. Os manuscritos de Agnes Grey, de Anne, e de O Morro dos Ventos Uivantes (*), de Emily, são aceitos.
1847 - Em outubro, é publicado Jane Eyre, de Charlotte. Em dezembro é publicado O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily, e Agnes Grey, de Anne.
1848 - Em 24 de setembro, morre Patrick Branwell. Em 19 de dezembro, morre Emily Jane Bronte.

(*) O Morro dos Ventos Uivantes
Único romance de Emily Bronte, publicado em 1847 sob o pseudônimo de E. Bell, O Morro dos Ventos Uivantes é uma obra dramática em qeu, sobre uma aparente reconstrução da realidade, se superpõem as visões fantasmagóricas de um reino imaginário. A técnica de narração de Bronte gera uma tensa expectativa em torno do tema romântico. É um verdadeiro hino ao amor louco e impossível entre Heathcliff e Catharine.


No silêncio, um ou outro estalido de lenha queimando na lareira e o ruído incessante das agulhas de tricô. Emily ergue os olhos da costura, passeia-os pelas roupas não remendadas e observa o perfil de Charlotte, pequena e míope, tricotando. Desvia o olhar para Anne, calada, imersa na tarefa de pregar botões. Não são quatro horas da tarde, mas o céu está escuro. A noite desce cedo em Haworth, para as três, mas a escuridão não impede o trabalho.

As recordações afloram à cabeça de Emily.

Quando chegaram a Haworth, em 1820, eram oito, ao todo: irmã Maria, nascida em 1813, a irmão Elizabeth, que estava com cinco anos, a irmã Charlotte, de quatro anos, o irmão Patrick, de três anos, a irmão Anne, de quatro meses, o pai e a mãe. Emily estava com dois anos e não entendi bem por que o pai decidira mudar-se para um lugar tão solitário, batido pelos ventos uivantes. A partir da mudança, a família começou a diminuir. Primeiro morreu a mãe. Tia Branwell fora morar com eles. Para as crianças, as brincadeiras quase inexistiam. Por isso pensaram que faria pouca diferença ir para a escola dos filhos de clérigos, em Cowan Bridge. Enganaram-se. Se em casa viviam vigiados e reprimidos, tinham ao menos comida e conforto. No internato, sofriam castigos, alimentavam-se mal e não dormiam de frio. Quando Emily foi para a escola, encontrou Maria, a irmã mais velha, tossindo incessantemente e queixando-se de fortes dores no peito. Num dia de fevereiro, viu-a ser mandada às pressas para casa, onde morreu três meses depois. Elizabeth, a segunda, também acabou sucumbindo às condições do internato e faleceu no verão.

O reverendo Bronte tirou os demais filhos do colégio e levou-os de volta para Haworth. Em casa, encontraram uma agradável surpresa: a presença da nova empregada Thabitha - Taby, como a chamavam -, cuja alegria e cujas histórias ajudavam a amenizar a austeridade imposta pela tia e pelo pai. Afeiçoaram-se de tal modo a ela que, anos mais tarde, quando Taby se tornou mais morosa no desempenho de suas tarefas, em consequência de um acidente, Emily saiu de seu silêncio para impedir que o pai a despedisse. Posteriormente, imortalizou-a como a fiel Nelly Dean, em O Morro dos Ventos Uivantes.

Contente por ter quem a ajudasse nos serviços caseiros, a tia abrandou a vigilância às poucas brincadeiras das crianças. Desde que não fizessem barulho nem desordem, podiam dispor de seu tempo livre como quisessem. Geralmente reuniam-se no quarto grande e liam alto os contos de As Mil e Uma Noites, revistas presbiterianas, jornais e peças de Shakespeare.

Um dia, o pai viajara para Leeds e retornara trazendo um presente para Patrick. As crianças se aglomeraram em volta da caixa de madeira, respiração suspensa, à espera do conteúdo. Patrick então levantou a tampa e foi tirando, um por um, doze soldadinhos de chumbo. Charlotte, por ser a mais velha, escolheu primeiro o que lhe pareceu mais bonito, e batizou-o "Duque de Wellington". Depois Emily tomou o soldadinho que julgou mais parecido com ela mesma - tristonho e sério -, e deu-lhe o nome de "Gravey". Anne escolheu por último - o "mensageiro". Patrick guardou os restantes, declarando que todos poderiam brincar. Em Haworth, ninguém dormiu, procurando um tema para a nova brincadeira. Lembraram-se das histórias que haviam lido, dos relatos da Taby, com quem passavam tardes inteiras conversando na cozinha.

Inventaram epopéias, tramaram enredos e, um dia, resolveram escrevê-los. Patrick sugeriu que registrassem as histórias em forma de jornal. Ele cortava as páginas, do tamanho dos soldadinhos, e Charlotte desenhava as letras, que mais se pareciam com caracteres de imprensa, de tão iguais e miúdas que eram. Emily e Anne, sentindo-se rejeitadas porque os irmãos não aproveitaram nenhuma de suas sugestões, decidiram criar separadamente suas próprias histórias, situando-as na ilha imaginária de Gondal, no Pacífico. Como testemunho desse tempo feliz, restou somente cerca de uma centena de pequenos jornais de Angria e uma ou outra página dos relatos de Gondal - ponto de partida de três carreiras literárias.

Alguns anos mas tarde, Charlotte entrou para o colégio em Roe Head. Patrick, em vez de estudar desenho em Londres, para onde o pai o enviara, acreditando em seu talento, começara a beber desmedidamente. Emily, a essa altura, já se voltara para dentro de si, disfarçando com uma máscara de indiferença as emoções que a sacudiam. O tempo passou entre estudos e os relatos de Taby.
Charlotte concluíra o colégio e voltara para casa, mas os professores gostaram tanto dela e de seu talento que a convidaram para lecionar com eles em Roe Head. Charlotte aceitou o convite e levou Emily consigo.

Entre as companheiras tagarelas e vivas, a irmã mais nova sentia-se uma estrangeira. Não conseguia participar das confidências, não suspirava por nenhum rapaz, não sonhava com vestidos da moda. Cumpria os deveres, como estava habituada, compunha alguns poemas e, sozinha em seu quarto, chorava de saudade do cão Tiger. Charlotte percebeu que Emily ia definhando, e chegou a temer que morresse, caso não voltasse a tempo para Haworth. Mandou-a de volta. Ao chegar em casa, Emily encontrou Patrick cada vez mais se consumindo na bebida, e Anne pronta para ir ocupar seu lugar em Roe Head. Mas sentia-se melhor. Tinha outra vez para si o uivo dos ventos e os toques do sino. No casarão vazio desempenhava mudamente suas tarefas. Jamais se queixava de coisa alguma, nem da mordida que um cão supostamente raivoso lhe dera no braço. Ela mesma cauterizara o ferimento e, em consequência da queimadura, ficara com o braço deformado. Ninguém teria sabido, se Charlotte, meses depois, não insistisse em perguntar por que andava com roupas de mangas compridas em pleno verão.

Nos intervalos dos afazeres domésticos, compunha poemas que escondia, e lia livros e as cartas de Chalotte em que esta confessava suas decepções e amarguras. Por meio da correspondência, Emily ficou sabendo que o irmã enviara alguns versos aos poetas Wordworth e Southey, e estava muito aborrecida com o parecer desanimador de ambos. Censurava-a também por não ter conseguido vencer a timidez. Foi por isso que Emily resolveu empenhar-se numa segunda tentativa de ajustamento ao mundo e aceitou um ugar de professora numa escola em Law Hill, próxima a Haworth. Apesar de seus esforços, fracassou novamente. O trabalho não constituíra a principal razão de sua desistência, pois estava habituada a serviços pesados. A timidez, o mutismo, a impossibilidade de se comunicar com as pessoas é que a levaram outra vez de volta para casa.

Charlotte era a mais que tinha mais iniciativa de todos os irmãos. E decidiu abrir uma escola perto de Haworth.

Como precisava aperfeiçoar-se em línguas estrangeiras e tinha algumas amigas em Bruxelas, decidiu partir e levar também Emily.

No dia em que embarcaram para a Bélgica nevava muito. Com um empréstimo cedido pela tia, as duas moças viajaram acompanhadas do pai, que, deixando-as num pensionato feminino, retornou ao presbitério.

Emily não conseguira entender por que antipatizara com o professor Héger. Cumpria os deveres, estudava com esforço, mas encolhia-se quando era obrigada a falar com ele. Charlotte não compartilhava a opinião da irmão acerca do professor. Parecia, ao contrário, procurar ocasião para conversar com ele ou simplesmente observá-lo ao trabalho. Resolveu até permanecer em Bruxelas além do prazo estabelecido no princípio da viagem, dando aulas de inglês em troca de estudo e sustento. Emily intuía vagamente que um afeto mais profundo estava nascendo entre Charlotte e Héger. Mas ele era casado.

Os planos de Charlotte em permanecer perto do professor não se concretizaram: em novembro de 1842 as duas moças receberam uma carta do pai, chamando-as urgentemente. A tia havia falecido.
taby estava doente, a casa precisava de cuidados. Para Emily, que estava com 24 anos, a dor causada pela morte da tia era compensada pela alegria de se reencontrar com a natureza. O mesmo não aconteceu com Charlotte, que, alguns meses depois, retornou a Bruxelas, alegando que não podia deixar inacabado o trabalho que iniciara. Pelas cartas, Emily compreendeu que a irmão não era feliz na Bélgica. A esposa do professor percebera o afeto entre o marido e a jovem e usava de mil artifícios para separá-los. Magoada e desiludida, Charlotte regressou a Haworth no final de 1843.

Como o dinheiro era escasso e eles precisavam sobreviver, as irmãs decidiram abrir uma escola. Fizeram planos, programas, horários, mas não encontraram alunos. Emily convenceu-se de que ninguém matricularia os filhos por causa da reputação de Patrick, mas não ousou dizer nada. Jamais acusara alguém, muito menos o irmão, cujos defeitos ela desculpava e encobria. Nunca teve uma palavra áspera para com ele, nem na noite terrível em que Patrick, bêbado, tentara matar o reverendo. As irmãs presenciaram a cena pálidas de susto, mas Emily se colocara entre ambos. Usara de toda a sua força moral e física para evitar o crime.

Muitas das brigas descritas em O Morro dos Ventos Uivantes são reconstituições desse e de outros tristes espetáculos.

Engavetado o projeto da escola, Anne e Patrick foram trabalhar como preceptores das crianças de uma abastada família, e Emily ficou em Haworth com Charlotte. Sozinhas em casa, as duas conversaram o dia inteiro, trabalhavam juntas, escreviam. Acalentaram até a esperança de revive os tempos de Angria, quando Anne e Patrick retornassem no ano seguinte. Mas a razão de seu regresso era tão triste que qualquer possibilidade de recuperar a felicidade caiu por terra. Patrick fora despedido por andar de amores com a esposa de seu patrão e bebia mais que do antes.

Um dia Charlotte descobriu os poemas ocultos de Emily e pediu-lhes permissão para publicá-los, juntamente com os seus e os de Anne. Emily a princípio recusou, mas acabou vencida pela argumentação de que aquele seria um meio de ganhar o dinheiro que tanta falta lhes fazia. Se os versos fossem aceitos, teriam o caminho aberto para a publicação de um romance em fascículos, como era moda, e garantiriam sua subsistência. Além do mais, Charlotte assegurou-lhe que usariam pseudônimo.

Em janeiro de 1846, uma pequena editora da província resolveu publicar o livro por conta das próprias autoras, que, para isso, empregariam a herança deixada pela tia. Poucos exemplares foram vendido, mas a crítica elogiou o trabalho e prognosticou um grande futuro para Ellis Bell, pseudônimo de Emily Bronte. O fracasso dos poemas naquela época não fez as três irmãs abandonarem a idéia de escrever um romance. Desde os relatos da Angria, sentiam que era importante escrever. Cada qual começou a compor sua narrativa. Enquanto a irmã mais velha trabalhava em O Professor, tanto libertar-se da mágoa pelo amor frustrado em Bruxelas, Anne lembrava passagens da infância em Agnes Grey, e Emily narrava com cores sombrias a atmosfera de Haworth em O Morro dos Ventos Uivantes. Concluíram suas obras quase simultaneamente e mandaram-nas para o mesmo editor, que recusou apenas o romance de Charlotte.

No entanto, esta acabou conquistando a fama antes das outras. O pai convalescia de uma operação da vista. Patrick continuava sua vida desregrada, Emily e Anne cuidavam da casa e Charlotte, à cabeceira do reverendo, recordava-se a si mesma em Jane Eyre. Publicado no ano seguinte, assinado com o pseudônimo de Currer Bell, o romance atingiu enorme sucesso. As revistas especializadas não se cansaram de louvar o talento do autor. Os leitores chegaram a solicitar à editora que revelassem quem era ao romancista. O pai, quando soube, experimentou uma alegria que nunca sentira. A história melodramática e simples fez chorar muita gente na Inglaterra.

Quando foi lançado O Morro dos Ventos Uivantes, em 1846, sob o pseudônimo de Ellis Bell, Emily contava 28 anos. O romance de Charlotte encontrava-se na segunda edição. Os leitores, que haviam vibrado com as desventuras de Jane Eyre, não podiam compreender a violência da obra de Emily, posteriormente considerada a mais talentosa das irmãs Bronte e uma das maiores romancistas da literatura universal.

Emily sacode a cabeça como que tentando livrar-se das lembranças do passado. Ela está com trinta naos, mas sente-se extremamente cansada e deprimida. Era tarde para reavivar os sonhos antigos. Nunca poderiam coltar aos dias de Angria. Patrick morrera havia três meses, embrigado, aos 31 anos. Anne definha dia a dia. Para Emily, a vida não tem mais sentido. Havia semanas que uma febre não a deixava. Quase não tem forças para cuidar da casa. Charlotte desconfia de seus males, pede-lhe que se deixe examinar pelo médico. Ela se recusa: não quer provocar compaixão nem inspirar cuidados. Sabe que a qualquer momento cairá para sempre. Não acredita em sua obra. Parece-lhe que jamais poderá revelar seu mundo interior, suas esperanças não alcançadas.

Cansada de tantas recordações, Emily Bronte lentamente se levanta de sua cadeira, acaricia com o olhar os cabelos opacos das irmãs, sente vontade de fazer um gesto de carinho, e, no entanto, teme parecer ridícula. Ao erguer-se, esbarra na caixa de costura, que cai no tapete, esparramando carretéis e tesouras, dedais e botões. Em silêncio, abaixa-se para apanhá-los e descobre entre eles um soldadinho de baioneta quebrada e pintura gasta. Enquanto sobe os degraus para dirigir-se ao seu quarto, deixa rolar uma lágrima amarga e solitária pelo último dos heróis de chumbo: era 19 de setembro de 1848, duas horas da tarde. Ela deixa o mundo da mesma maneira que viveu: em silêncio, introspectiva, com sentimentos borbulhando no peito, o coração comprimido pelas emoções, mas sem conseguir externá-las. Se não fosse por O Morro dos Ventos Uivantes, ninguém saberia que alma inquieta existiu dentro de um corpo frágil e de um espírito iluminado!

Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.

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