terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ana Cristina Cruz César -100 Anos de Poesia

Ana Cristina César
"Acho que existe sim um tipo de sensibilidade feminina, que é uma sensibilidade meio caótica, é uma sensibilidade mais sutil, é mais desorganizada. Ela é uma sensibilidade talvez meio histérica. A mulher é histérica por tradição."


A vidente se recolhe

Ardo de curiosidade pelo futuro,
me diz a moça mais oca da sala. Está escrito?
Isso me interessa, seu suspiro náutico,
porque não era ardor: a doçura da tolice singra a festa.
Adiante encontro um moço que me tolhe o passo e diz,
deixe-me levar, a dança... Ainda não.
Passo. Ainda não. Sigo o fio espiral do telefone
em curvas que roçam no batente várias portas.
Disco. Venha me buscar às tantas. Chegando
o fusca no portão, estou ali debaixo da garoa.
Vou guiar. Desço sem rilhar pneu.
Te levo para a sombra de árvore rendada na luz branca.
Manchas de umidade sob o parapeito. Ar de horto.
Veja a vista da cidade atrás da sombra.
Céu cortado por metade de holofotes em circulação.
Pó de maresia ao longe. Lagoa e jóquei, istmo, hotéis.
Daqui a cidade é brilho para adivinhar e rumoreja.
Também dou meu ombro de marmota recolhendo.

A mãe de Ana Cristina César era professora de literatura; o pai intelectual respeitado nos círculos políticos e religiosos, líder da Confederação Evangélica do Brasil, diretor da revista Paz e Terra e um dos criadores do ISER - Instituto Superior de Estudos Religiosos. Ana Cristina cresceu ouvindo os poemas e cânticos de sua igreja. Espécie de menina-prodígio, antes mesmo de aprender a escrever, já ditava seus poemas para a mãe.

O golpe militar de 64 transformou a vida da família da poetisa. A pressão dos pais de alunos contra os diretores e professores de esquerda do Colégio Bennett fez com que ela fosse transferida para outra escola. Nem bem concluiu o ginásio, Ana Cristina já participava de protestos estudantis. Seu namorado levou um tiro na perna, em manifestação diante da embaixada americana. O apartamento da família, na rua Toneleros, seria invadido algumas vezes pelas forças de repressão, em busca de seu pai.

Ana Cristina viajou para a Inglaterra e foi viver na casa de uma família protestante. Estudou seis meses numa escola para meninas, conheceu Londres e viajou pela Europa, o que seria um ponto de mutação em sua v ida, como "perder a infância". De volta ao Brasil, em 1971, estudou Letras na PUC, onde se formou quatro anos depois. Armando Freitas Filho viu em Ana Cristina César as características da poesia marginal carioca de sua geração: "O tom coloquial, longe das dicções solenes, sisudas e premeditadas."

Em 1979, Ana Cristina voltou à Inglaterra, para fazer mestrado em tradução. Ao retornar para o Rio de Janeiro, foi morar sozinha na Gávea e iniciou um ritmo frenético de trabalho, fazendo traduções e trabalhando para a Rede Globo como leitora e avaliadora de novelas. Mas nada preenchia o grande vazio que sentia na época. Ítalo Mariconi, um de seus amigos mais próximos, nota que, em 1983, o quadro de depressão se agravara: "Nosso jantar, no restaurante Real, na praia do Leme, foi uma choradeira mútua. Não tive presença de espírito para notar que o papo dela de suicídio era à vera." Em fins de setembro, Ana tentou se matar. Foi internada e, uma semana depois de sair da clínica, na casa dos pais, em Copacabana, atirou-se de uma janela do sétimo andar. Caio Fernando Abreu comentou o comportamento de Ana Cristina César poucos dias antes, na festa de aniversário dele: "Lenta, concentrada. Ana não dizia nada, apenas tocava, um por um, todos os objetos do meu quarto. E me olhava. Profunda, atentíssima, remota. Parecia uma despedida."

"Nela o coloquial vinha emmpacotado numa outra economia do verso, numa outra dinâmica das relações de som e sentido entre as frases poe´ticas, deixando transparecer um tipo de foramção literária rara no Brasil."

(Ítalo Moriconi)


Obras da autora
POESIA: Cenas de abril, 1979; Luvas de pelica, 1980; A teus pés, 1982.
OUTRAS: Literatura completa (cartas), 1979; Escritos no Rio (texto; jornalísticos), 1993; Correspondência incompleta (cartas), 1999.

(Estou postagem está em rascunho a meses e não recordo mesmo o motivo de não tê-la liberado - talvez sua incompletude para uma autora tão vasta - uma postagem para retornar e retornar e alimentar o tópico sempre).

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