domingo, 30 de dezembro de 2012

Sinclair Lewis - Babbitt


"...escrever é tentar escapar de alguma coisa."
(Sinclair Lewis)

Babbitt / Sinclair Lewis, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, pela primeira vez concedido a um autor americano em 12 de dezembro de 1930, data que recebe o prêmio, pronuncia o importante discurso "O Medo Americano da Literatura", atacando as tradições aristocráticas e o academicismo dos críticos americanos.

Babbitt, nome do personagem principal, um homem burguês de meia idade, casado, três filhos, corretor de imóveis, desajustado à sua exemplar família e sua condição social, vive em Zenith, próspera cidade americana do interior, com seus clubes exclusivos, onde o autor expõe um retrato da situação econômico-social do homem americano empreendedor do início do século XX, que acaba por perdurar por todo esse século tornando o romance ainda atual.

Babbitt inicia a história expondo toda a sua insatisfação pessoal e desmotivação para a vida familiar embora acredite em si e no 'progresso' de sua nação. Em um dado momento de vida, inquieto na existência, passa a viver uma vida boêmia, época em que encontra uma amante tornando-se 'quase' um radical, apesar de demonstrar ser pouco conhecedor em essência das questões sociais intrínsecas à sua cidade, que tanto discursa conhecer.

Publicado em 1922, Babbitt desperta uma onda de polêmicas que o escritor não poderia ter imaginado. Em algumas regiões Lewis é visto como "deformador da vida americana". Todos os jornais reservam espaço para comentar o livro. As críticas variam muito e vão de extremo a extremo.
A maioria dos europeus passa a julgar a nação americana composta somente por babbitts. Revoltados, os americanos dizem que o escritor não apresenta um panorama, mas sim uma caricatura da América.
O romance foi originário de sua vivência em Cincinnati, Ohio, onde observa o comportamento e gíria de seus habitantes. Todo esse trabalho de "laboratório" resulta em Babbitt, cuja ação se passa na cidade fictícia de Zenith.

Sinclair Lewis
A vida de sempre: o clube, as associações, a política, o bar, a barbearia. A rua principal da cidade, onde se concentram os homens para conversar, relembrar coisas do passado, discutir o comércio, falar do falecido mais recente ou do filho mais novo do homem da esquina.
Levantam-se cedo para sentir o ar puro e saudável. Cumprimentam os conhecidos que se cruzam pelas ruas. Perguntam às mulheres a que horas será o culto. Discutem os ensinamentos do Senhor. Observam as mesmas pessoas de sempre e são sempre observados por elas.
O sol se põe. E novamente os homens saem à rua. Concentram-se de novo na rua principal. Encontram-se no bar, onde bebem e jogam pôquer. No fim da noite, pouco mais de de horas, a maioria deles vai para casa. Cada qual com uma recordação e sonhos antigos. E a esperança de que nada se modifique no dia de amanhã. Até que cada um termine sua missão de viver. Numa cidade do interior.
Assim é Sauk Centre, Minnesota. Onde, antes de se tornarem adultas, as crianças nadam, pescam ou, montadas numa jangada, enfrentam as águas turbulentas do Sauk Lake. No inverno, esquiam. No verão, roubam melões.
Mas Harry Sinclair Lewis é uma criança diferente. Nascido em 7 de fevereiro de 1885, o mais novo dentre os três filhos do médico Edwin J. Lewis e da professora Emma F. Kermott sofre o primeiro abalo aos cinco anos, quando perde a mãe. Tem seis quando seu pai se casa de novo com Isabel Warner, uma mulher bastante enérgica. Na infância, não tem nem carinho nem afeto. É igual aos outros porque gosta de brincar e de imaginar mundos fantásticos. Mas Lewis prefere se divertir sozinho, distante de todos.
Lewis atinge a adolescência sem grandes novidades. A cidade quase não mudara. Nem o pensamento de seus habitantes. Aos quinze anos começa a escrever um diário, no qual faz descrições detalhadas "hora a hora", método que mais tarde reapareceria mais bem desenvolvido em seus livros. Como qualquer jovem, gosta de poesia. Cria versos que imitam Kipling, seu poeta predileto.
Em 1902, aos dezessete anos, matricula-se na Universidade de Yale, em Connecticut. É um bom aluno, mas conserva distância dos companheiros. Nos momentos de solidão escreve poesias e dedica-se à leitura de Walter Scott e Charles Dickens. Aos dezenove anos publica no Yale Literary Magzine seu poema Lancelot.
Continua colaborando em vários jornais, até que consegue uma vaga entre os redatores do Literaru. Mas o prazer de escrever não é suficiente para compensar a vida monótona que leva na universidade. Já está no último ano do curso quando resolve deixá-lo para participar da comunidade Helcon Hall, criada pelo escritor Upton Sinclair, em Nova Jersey. Durante o mês em que vive ali conhece os filósofos William James e John Dewey. Em seguida, viaja para Nova York, decidido a firmar-se como escritor. Não obtém êxito e parte para o canal do Panamá, que está em iníciode construção. Além de seus 22 anos, leva uma gramática da língua espanhola,a Bíblia e A Idade Difícil, de Henry James, e a vontade de conhecer outros povos. Mas essa experiência também não o satisfaz. Volta par Yale e forma-se em junho de 1908. No mesmo ano termina uma pequena história. O Caminho de Roma, que seria publicada somente três anos mais tarde em um jornal de Minneapolis.
Até 1910 leva uma vida incerta, viajando pelos Estados Unidos e fracassando como jornalista. De 1910 a 1914 trabalha em editoras de Nova York. Numa de suas férias escreve, sob encomenda, o livro infantil Hike and the Aeroplane. Em 1914 publica Our Mr. Wrenn.
O livro não é sucesso de venda, mas a crítica faz comentários favoráveis a seu respeito
Ainda em 194 casa-se com Grace Livingstone Hegger e vai viver em Port Washington No ano seguinte publica A Trilha do Falcão. Mas sua situação só melhora realmente quando seu conto Nature, Inc. aparece no jornal Saturday Evening Post.
Depois de ter mais alguns trabalhos publicados, que lhe rendem 3000 dólares, abandona o emprego e, junto com a esposa, parte para uma série de viagens pelos Estados Unidos.
Entre uma viagem e outra escreve contos, que são publicados e várias revistas. Além disso prepara Os Inocentes, que é laçado no ano de 1917 juntamente com O Emprego, considerado o melhor de seus primeiros livros.
Em1919,aos 34 anos, lança Free Air e inicia um novo romance. Essa dinâmica de trabalho tem um significado muito importante: Sinclair Lewis está conseguido romper o círculo vicioso de uma cidade de interior.
A mentira, a hipocrisia, a falsidade são coisas muito fortes para uma criança sensível. E desde muito cedo Lewis descobrira que a afetividade tão decantada das pequenas cidades não passava de fantasia produzida pela imaginação de alguns românticos. Pequenas contrariedades e a falta de afeto na infância levam-no a pensar em escrever um livro em que possa criticar o modo de vida de cidades iguais a Sauk Centre. Estava ainda cursando a Yale quando imaginou o roteiro de The Village Virus. Alguns anos depois, publicado em 1920, ano do nascimento de seu filho Wells, o escritor mostra o tédio e a aridez intelectual dos pequenos centros do Oeste americano.
Utilizando-se de uma cidadezinha qualquer, Lewis denuncia o modo de vida de um lugrejo de classe média da America provinciana. A sátira presente no romance rompe com a ficção americana anterior, que sempre procurava descrever a vida de uma pequena cidade como boa e inocente se comparada às grandes metrópoles.
Main Street dá-lhe também u método de trablaho, que seria utilizado em obras futuras. O escritor escolhe um determinado aspecto da vida social que possa ser estuado sistematicamente. scolhido o tema a sert tratado, Lewis passa a conviver com as pessoas que viriam aparecer no livro como personagens. Assim surge Babbitt.
Depois da publicação de Babbitt, Lewis volta ao Meio-Oeste para pesquisar novos assuntos, pois está pesando em escrever "romance do trabalho".mas acaba desistindo, porque não consegue encontrar uma linguagem adequada para falar dos trabalhadores.
Vai para Chicago, onde conhece Paul De Kruif, um jovem médico e grande pesquisador ligado ao Instituto Rockeffeler de Nova York. Juntos passam a discutir a possibilidade de um romance sobre a corrupção na medicina e nas pesquisas científicas. Com tal objetivo partem para o Caribe. Depois Lewis segue para a Inglaterra, onde começa a redigir Arrowsmith. Nessa obra o escritor revela todo o idealismo latente em sua personalidade.
Publicado em 1925, Arrowsmith traz uma inovação à ficção americana. Exceto por alguns poucos médicos que vêem a obra como uma caricatura, Arrowsmith tem grande aceitação por parte do público. O livro é comprado pelo cinema, e Lewis é contemplado com o Prêmio Pulitzer No entanto, para a admiração de muitos, o escritor recusa a honraria, afirmando que "tais prêmios tendem a legislar o gosto". Sua recusa afirma-o como um escritor idealista. Mas essa agradável imagem de idealista cai por terra no ano seguinte, 1926, quando é publicado Mantrap, um romance de aventura no Canadá, cuja crítica é bastante negativa.
Em 1927, aos 42 anos, lança Elmer Gantry. Logo depois de publicado o romance é proibido, o que causa um grande sucesso de vendas. Em 1928, enquanto os Estados Unidos ainda fervilham por causa de Elmer Gantry, Lewis parte para a Europa, onde se divorcia de sua esposa. Em Berlim conhece Dortohy Thompson, considerada a mais famosa jornalista da época. No dia 14 de maio, em Londres, casa-se com ela.
Poucos meses depois retorna aos Estados Unidos. No dia 20 de junho de 1930 nasce seu segundo filho, Michael. Ainda nesse ano o escritor é contemplado com o Prêmio Nobel, pela primeira vez concedido a um autor americano.
Logo no início do ano de 1931, Lewis escreve a seu editor propondo rompimento de contrato por achar que seus livros não são bem divulgados. O editor aceita talvez por acreditar que, com o término da década de 20, a visão da realidade americana de Sinclair Lewis já não corresponda aos fatos.
Mesmo depois disto os livros de Lewis continuam tendo boas tiragens. No entanto, ele já não tem a segurança de outrora. Seu segundo casamento fracassara. O primeiro filho morrera durnte a guerra. E Lewis entrega-se à bebida.
No processo de instabilidade, vive mudando de residência e de cidade. Além de não ser levado a sério por outros escritores busca compensar a solidão na companhia de mulheres muito mais jovens. Desse momento até sua morte publicaria ainda nove livros, sempre focalizando a vida americana. Apesar de só colher resultados desanimadores, trabalha ainda em mais um romance: World so Wide. Mas nao chega a vê-lo publicado. Umas das "práticas" da vida de interior - a bebida - acaba causando-lhe uma intoxicação orgânica. No dia 10 de janeiro de 1951, morre em Roma, aos 66 anos, distante de tudo.
Não foi muito grande a influência que teve sobre escritores mais jovens. No entanto, pode-se dizer que Sinclair Lewis trçou as linhas mestras dos autores da chamada "geração perdida", que se seguiu à Primeira Guerra, isto é, a contestação das verdades oficiais. Seus personagens vivem até hoje na tradição americana, caraterizando os traços gerais de toda uma classe.
Comparado a Scott Fitzgerald, William Faukner ou Ernest Hemingway, faltou-lhe a visão trágica da experiência humana. Mas ele sempre teve a "visão de um ardente e turvo inferno: o interior americano". Há em sua obra "o terror que nasce da repressão, da mesquinharia, das duras pilhérias do mundo que Lewis tinha absorvido dos poros". Parece que, no final de sua vida, o escritor se arrependera do caminho que escolhera desde a juventude. De acordo com sua segunda esposa, "algumas vezes ele se dirigia ao filho, pouco mais que uma criança, e lhe dizia: "Não seja um escritor; escrever é tentar escapar de alguma coisa. Você deverá ser um cientista".

Contos da América do Sul

Contos da América do Sul / (tradução Thereza Christina F. Stummer]. - São Paulo : Paulus, 1995. - (lendas e contos)

Na mitologia maia, depois que Tezcatlipoca - deus da escuridão - enganou a todos e começou a destruir a criação de Quetzalcoatl - deus da luz - , este envelheceu repetidamente e viu-se obrigado a sair em busca de sua juventude perdida.
Somente reencontrando a juventude é que o deus da luz poderia lutar de igual para igual com Tezcatlipoca. Para tanto, Quetzalcoatl assumiu a forma de serpente emplumada e alçou vôo à procura de sua juventude.
Acompanhemos a serpente emplumada nessa viagem, buscando com ela reencontrar a juventude.

Nesta edição:
Os quatro sóis (Maia - Asteca)
O quinto sol (Asteca)
Os homens (Maia)
A viagem à terra de Anahuac (Asteca)
A partida da serpente emplumada (Tolteca - Maia)
Popocatepetl e Ixtla (Asteca)
O grande dilúvio (Huitchol - Iaghan)
Como a esperteza chegou a Anansi (Jamaica)
O casamento da aranha (Jamaica)
Como Anansi tornou a ficar rico e qual foi o seu castigo (Jamaica)
Anansi e a Morte (Jamaica)
O bicho preguiça e a chuva (Panamá)
Como o gambá adquiriu o seu cheiro nauseante (Haiti)
Como o tatu queria se defender (Popoloko)
O Cruzeiro do Sul e a Flor-de-Prata-sobre-a-Água (Kuna-Guarani)
Os dois irmãos (Tolipang)
As serpentes que roubaram a noite (Mundurucu)
Por que a onça faz barulho à noite (Rio Branco)
Como os cipós cresceram na floresta virgem (Guaraju)
A tartaruga que era mais forte do que todo mundo (Tolipang - Tupi)
(continua)


Contos Chineses


Contos Chineses / coordenação editorial Paulo Bazaglia; tradução Thereza Christina F. Stummer; desenho e capa Soares. - São Paulo: Paulus, 1996. (Lendas e contos).

Quem já leu A Psicanálise dos Contos de Fada, de Bruno Bettelheim, conhece a importância dos contos de fada na teoria moderna de psicanálise pós Freud. O autor mostra as razões, as motivações psicológicas, os significados emocionais, a função de divertimento, a linguagem simbólica do inconsciente que estão subjacentes nos contos infantis.
Quem não tem como recordação infantil os contos transmitidos de forma oral de geração a geração.
A literatura do povo chinês é uma das mais antigas do mundo.
Contudo, no que diz respeito aos contos clássicos, somente neste século é que começaram a aparecer as primeiras coletâneas de contos populares da China.
Na presente edição, apresentamos trinta e sete contos, que foram se originando ao longo de cinco mil anos de história. Quando acenamos para um período assim extenso, somos logo levados a considerar a riqueza da própria narrativa.
Riqueza e simplicidade... Sim, pois - como é característica dos orientais - nesses contos encontramos uma genuína simplicidade, brotada certamente de pessoas abertas à realidade concretado dia-a-dia. Daí as narrativas serem a um tempo ricas, simples e "fantasticamente realistas", tocando continuamente a história humana de alegrias e sofrimentos.

Nesta edição:
O rei do dedo de ouro
O lago Verde-oliva
O pastorinho e a Fiandeira
Nem aos pés
A folha de bordo vermelho
A pérola fosforescente
Os três fios de cabelo de ouro do Buda
O cervo de jade
A montanha da abóbora
As virgens do espelho
A cabana do dragão
A fada das ervas medicinais
A preguiçosa
Os quatro compadres que faziam versos
A planta milagrosa
Como o fazendeiro pão-duro comemorou o aniversário
A virgem da lua e a virgem do sol
O moleiro e o espírito celeste
Como Eul-Lang agarrou o sol
O horroroso
As lágrimas
A grande muralha
Os espelhos das fadas celestes
Como Lu Pan construiu a sua casa
Como Lu Pan e a irmã construíram uma ponte
A serpente listrada
O estudante e a garça-real
Pregdrag
O açougueiro corajoso
O sábio
As aventuras extraordinárias de mil artesãos
Senhorita Crisântemo
A princesa dos dragões e San-Lang
O Jovem-Serpente
A donzela que vivia dentro de uma casca de ostra
A árvore da lua
O rio Amarelo

sábado, 29 de dezembro de 2012

Os Contos de Grimm


Os contos de Grimm / Ilustrações:Janusz Grabianski; tradução do alemão Tatiana Belinky - São Paulo: Paulus, 1989.

Os contos infantis, com suas luzes puras e suaves, fazem nascer e crescer os primeiros pensamentos, os primeiros impulsos do coração. São também Contos do lar, porque neles a gente pode apreciar a poesia simples e enriquecer-se com sua verdade. E também porque eles duram no lar como herança que se transmite.
(Jakob e Wilhelm Grimm, 1812)

OS CONTOS DE GRIMM, após quase dois séculos, continua um clássico da literatura infanto-juvenil. Os Autores são dois irmãos, Jakob e Wilhelm Grimm, que passaram sua vida pesquisando e transcrevendo contos populares e lendas de seu país. As ilustrações são de Janusz Grabianski.

Os contos de Grimm parecem ser a preferência por jovens e adultos por seus personagens que ficaram no imaginário infantil. Assim, em mais uma versão, com os seguintes belos contos:

O Rei Sapo
A Gata Borralheira
O alfaiatezinho valente
Dona Ôla
Os músicos da cidade de Brema
Rapunzel
Branca de Neve
Mesinha-te-arruma, Burro de Ouro e Pula-porrete
A Bela Adormecida no bosque
Joãozinho e Mariazinha
Os setes corvos
Rumpelstilsequim
O lobo e os sete cabritinhos
Um-olhinho, Dois-olhinhos, Três-olhinhos
Alva-neve e Rosa-rubra
Monte Simeli
O Rei Barba-de-melro
Maninho e Maninha
Os três homenzinhos da floresta
A cobra branca
Chapeuzinho Vermelho
O pássaro de ouro
As três fiandeiras
As três penas
Jorinda e Joringel
Os doze irmãos
O camponês e o diabo
A morte madrinha carvão e fava
As moedas-estrelas
As andaças do Pequeno Polegar
O diabo dos três cabelos de ouro
Elza-esperta
Plegarzinho
Ave-achado
O ganso de ouro
Seis atravessam o mundo inteiro
Grete, a esperta
O pobre e o rico
A água da vida
O gênio da garrafa
O pobre aprendiz de moleiro e a gatinha
Os dois andarilhos
O alfaiateziho esperto
Os quatro irmãos habilidosos
João-de-ferro
João felizardo
Os presentes do povo miúdo
O gato-de-botas

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Contos de Perrault


Contos de Perrault / Charles Perrault; tradução: Maria Stela Gonçalves - São Paulo: Paulus, 2005


Charles Perrault, escritor, médico e advogado, viveu entre os anos 1628 e 1703. Sua obra Contos da mamãe gansa (1697) inaugurou o gênero literário "Contos de Fada" divulgando histórias tradicionais e outras que integravam o folclore europeu usando uma linguagem simples.
Perrault foi denominado "Homero burguês", pela propriedade com que retratou a sociedade de sua época, a partir da metamorfose de certos símbolos dos contos populares Seu trabalho consistiu em transformar os monstros e animais - aos quais os camponeses atribuíram poderes mágicos - em fadas. Utiliza o confronto dualista entre bons e maus, belos e feios, fracos e fortes, como exercício de crítica à corte. Não raramente, os personagens que representam as classes discriminadas se tornam superiores à nobreza pela inteligência.

Nesta Edição:

Os amores da régua e do compasso e os do Sol e da sombra
Anticontos à margem da Eneida
Os muros de Tróia
Contos e poemas Carta ao senhor Abade D´Aubignac
Diálogo do amor e da amizade
O espelho ou A metamorfose do orante
O corvo curvado pela cegonha ou O ingrato perfeito
O labirinto de Versalhes
A pintura
Crítica da ópera
Crítica da ópera ou Exame da tragédia intitulada ALCESTE, ou O triunfo de ALCIDES
O Banquete dos deuses pelo nascimento do senhor Duque de Borgonha
Júpiter
As gêmeas ou Metamorfose das nádegas de íris em astro
O holandês robusto
Metamorfose de um pastor em carneiro
Contos em versos
Grisélida
Pele de Asno
Os desejos ridículos
Histórias ou contos do tempo passado
A bela adormecida no bosque
Chapeuzinho vermelho
O barba azul
O mestre gato ou O gato de botas
As fadas
A gata borralheira ou O sapatinho de cristal
Ricardo do topete
O pequeno polegar
Tradução das fábulas de Faerne
Contos piedosos
O caniço do novo mundo ou A cana-de-açúcar

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Fábulas de Esopo


Fábulas de Esopo / adaptação de Regina Drummond; [desenhos e capa Soares]. - São Paulo: Paulus, 1996.

Fábulas de Esopo é um livro para todas as gerações. Se as fábulas são importantes para o imaginário infantil como pregam a teorias psicológicas modernas, não importa, ouvir ou contar uma fábula faz muito bem para quem participa deste prazeroso momento.

Esopo nasceu na Grécia, mais de 500 anos antes de Cristo. Era um escravo muito inteligente, que vivia salvando seu senhor de situações difíceis.
Contam que, certa vez, seu senhor garantiu a um amigo que seria capa de beber toda a água do mar. O amigo riu e debochou dele, e os dois acabaram apostando uma quantia fabulosa de dinheiro.
É claro qe o senhor estava bêbado! E, na manhã seguinte, ficou apavorado com o que fizera.
- Estou falido! - chorava. - Sou um homem pobre, agora! Como vou beber toda a água do mar?!
Esopo procurou consolá-lo:
- Calma, snehor! Tive uma idéia! Marque dia, hora, local. Sei como resolver o assunto.
Veio gente de longe para assistir à façanha. Juntaram-se na prais combinada, onde ficaram esperando, enquanto conversaram e riam. O senhor, apesar de já ter sido salvo em outras ocasiões pelo escravo, estava muito nervoso:
- É demais! Não vamos conseguir! Os deuses devem estar loucos!!! Primeiro eu, um homem sensato, aposto toda a minha fortuna numa bobagem; agora, vem você e me convence de que sou capaz de fazê-la!...
- Calma, senhor: vai dar tudo certo...
Na hora marcada, Esopo deu o sinal:
- Pode começar a beber!
E o senhor bebeu, bebeu e bebeu, mas não fez a menor diferença no volume da água do amr.
Foi então que Esopo exclamou!
- Ei esperem! Ele nunca conseguirá, porque o mar é alimentado por muitos rios. Vocês precisam, primeiro, secar as fontes que dão origem a estes rios.
E, pegando um copo aberto na lateral, ofereceu-o ao amigo com quem seu senhor apostara, dizendo:
- Beba.
Enquanto ele bebia, Esopo pegou uma ânfora cheia de água e começou a despejar no copo, devagar. Quanto mais ele bebia, mais água descia...
- Assim não vale! - protestou o outro. - Eu nunca vou conseguir!
- Entendeu, agora? Se vocês não secarem as fontes, meu amo jamais conseguirá beber a água do mar, já que à medida que ele vai bebendo, os rios vão despejando mais água... - E concluiu, categórico: - Sequem as fontes ou a aposta está desfeita!
Como ninguém conseguiu secar as fontes, o senhor também não precisou beber o que prometera.
Grato, ele concedeu a liberdade ao escravo.
Feliz, passou o resto da vida viajando por terra exóticas e distantes, e escrevendo as histórias que o tornaram famoso.
Nessas histórias ele apresenta, pela primeira vez, animais como personagens, e, através deles, elogia as virtudes e critica os defeitos humanos.
A este gênero criado por Esopo chamamos "fábula".

O livro Fábulas de Esopo apresenta as seguintes fábulas: 
A galinha dos ovos de ouro
O lobo e o cordeiro
O lobo e o burro coxo
A roa e a sempre-viva
A cigarra e a formiga
A raposa gulosa
As idades do homem
O leão e o ratinho
Um convidado para o jantar
A lebre e a tartaruga
O macaco e o golfinho
Uma disputa interessante
O deus Hemes e o lenhador
A águia e o escaravelho
A velhinha e o médico
Os dois burros de carga
Dois viajantes e um urso
A vaidade
Gedeão e Siringe
O contador de vantagens
Um rei para as rãs
As raposas da margem do rio

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Guy de Maupassant - Uma vida


"A vida não é tão boa nem tão má como as pessoas julgam"


Uma Vida - Guy de Maupassant - Tradução Roberto Domênico Proença, uma escolha perfeita para retornar aos clássicos.

Guy de Maupassant tem uma linguagem simples, envolvente, construindo um perfil psicológico para seus personagens que apesar do estilo detalhista, esmiuçando a rotina dos mesmos, faz a construção de um tempo histórico bem detalhado, sem chegar a cansar a narrativa que transcorre de forma extraordiária.

O autor inicia o romance relatando a bela história de vida de Jeanne, história de tantas mulheres, ocorrida no final do século XIX. Guy de Maupassant deixa claro suas preferências naturalistas no início do livro citando Rousseau, e assim vai traçando sua exaltação à natureza em todo o transcurso do livro, com belas passagens como presente ao leitor, e transcorrendo a história sem deixar de nos lembrar da máxima (o homem é bom, a sociedade o corrompe).

Assim Jeanne, filha única do nobre barão Simon-Jacqes Le Perthius des Vauds, recém saída de um convento sentindo-se livre como a natureza: "Jeanne, que no dia anterior havia saído do convento, livre para sempre e propensa a usufruir todos os prazeres da vida com que vinha sonhando fazia muito tempo, ..." vê sua vida muda radicalmente em pouquíssimo tempo. Já casada vê seu mundo desmoronar. Seu amor, seus sonhos de juventude desde a noite de nupcia mal processada, verdadeira surpresa à cara jovem, a fazem viver em um estado de letargia de vida, mantendo as convenções sociais em um casamento de aparência após presenciar seu marido e a ama engravidada juntos. Por orientação do pároco amigo da família, nossa cara volta-se ao lar por cumprir seu papel social, apegada apenas ao filho que espera.

O forte papel que a igreja exercia na vida das pessoas, seja camponeses ou nobres é retratado no livro, através do relacionamento com a igreja, percorrido no livro por todo o trajeto da vida da personagem. As máscaras sociais vão sendo rompidas e clareando nossa personagem da realidade do mundo. Bela passagem quando Jeanne descobre no dia do enterro da mãe que ela também tivera um amante em vida, afastando a personagem cada vez mais da naturalidade no relacionamento afetivo homem x mulher que a mesma somente vê possível quanto ao ato de procriar o que reforça a teoria religiosa para sua confusa vida.

Assim sem estrutura psicológica, cria seu filho sem limites se transformando em um jogador que arruinará sua fortuna e dias de ventura. Mas a vida dá voltas e surpresas são reservadas à cara protagonista recebendo amparo na conturbada velhice e novas perspectivas através da vida que se renova sempre.

Guy de Maupassant - Com a Revolução Industrial, ocorrida na Europa ocidental em meados do século XIX, novas oportunidades para a força de trabalho na França foram criadas. os camponeses trocaram as aldeias e vilarejos por cidades maiores, onde se tornaram parte da chamada "pequena-burguesia", caracterizada por um poder aquisitivo maior e pelo interesse na educação e na cultura. Curiosamente, com a abolição da monarquia e o estabelecimento da República, em 1870, na França, a consciência das diferenças de classes sociais aumentou. No novo Estado, o dinheiro exercia maior influência do que a posição social herdada. A burguesia rica, portanto, passou a ser considerada a aristocracia.
Outra consequência significativa desse período de transformação da humanidade ocorreu no modo de trabalho dos artesãos, que se viram forçados a trocar seus ofícios pelo trabalho monótono porém mais produtivo nas grandes fábricas.
Foi nessa época, em 5 de agosto de 1850, que nasceu em Tourville-sur-Arques, no Sena Marítimo, região no noroeste da França, Henry-René-Albert-Guy de Maupassant, filho de Gustave Maupassant e de Laure Le Poittevin, que descendia de uma família da alta burguesia normanda.
Embora seus pais fossem abastados, Guy teve uma infância infeliz, marcada pelas constantes desavenças e discussões entre os pais - Gustave era um homem dissoluto e violento, e Laure uma mulher prepotente e neurótica. Os pais se separaram em 1862, quando Guy estava com onze anos, e ele e o irmão, Hervé, seis anos mais novo, foram criados pela mãe dominadora, no Castelo de Miromesnil, na Normanda. Vivendo entre o mar e o campo, Guy cresceu amando a natureza e as atividades ao ar livre.
Os personagens de Guy de Maupassant geralmente são vítimas infelizes da ganância, do desejo ou do orgulho. Suas obras mostram o realismo da crueldade entre os seres humanos, bem como as dificuldades de relacionamento familiar e as ironias da vida. Com relação às mulheres ele era particularmente impiedoso. Raramente um personagem feminino é digno de admiração. Ao contrário de Zola, a obra de Maupassant não pretende ter alguma fundamentação teórica ou filosófica. Ele se limita a anlaisar a superfície dos fatos exteriores, e o que resulta dessa análise, por trás da ironia, é uma profunda amargura com a obstinação, a avareza e a estupidez de seus personagens. Por outro lado, suas obras são quase todas pessimistas; mesmo em suas páginas mais sensuais há um clima de grande melancolia.
Guy de Maupassant influenciaria grandes mestres do conto, entre as quais William Somerset Maugham e O. Henry.
Seu estilo de vida dissoluto e o excesso de trabalho e esforço mental contribuiram para enfraquecer sua saúde. Aos 37 anos teve complicações por sífilis, doença congênita de que ele e seu irmão eram vítimas e que levaria Hervé à morte em 1889. Passou a ter recorrentes problemas de visão, e suas faculdades mentais começaram a falhar aos quarenta anos, levando-o à demência.
Os críticos acompanharam a evolução da doença mental de Maupassant através de suas histórias semi-auto-biográficas, com temas pesicológicos, algumas das quais podem ser comparadas às visões sobrenaturais de Edgar Allan Poe
Em toda sua obra Maupassant permaneceu fiel ao ideal de simplicidade e clareza, traduzido por um linguagem límpida e segura. Seus contos, envolvido pela atmosfera de pessimismo, paixões, infelicidade e sensualidade, revelam uma grande paixão pela humanidade. A passagem para o romance obrigou-o a depurar e a aprofundar o perfil psicológico de seus personagens, a fim de construir o que denominou "os capítulos do sentimento". Entre seus trabalhos - a maioria deles inspirados em sua experiência pessoal de vida, suas observações de infância e adolescência, sua vida de burocrata e os longos passeios de barco a remo pelo Sena - destacam-se os contos de Mademoiselle Fifi (1882), Clair de Lune (1884), Contos do Dia e da Noite (1885) e os romances Uma Vida (1883), Bel-Ami (1885) e Forte como a Morte (1889).
Nos últimos anos de vida Maupassant desenvolveu um gosto exagerado pela solidão e um constante medo da morte e mania de perseguição. No dia 2 de janeiro de 1892 fez três tentativas de suicidio, cortando a garganta. Foi internado pelos amigos da clínica do doutro Esprit Blanche, em Passy, Paris. Ali passou dezoito meses praticamente inconsciente a maior parte do tempo, embora tivesse ocasionais crises de violência que obrigavam os enfermeiros a colocá-lo em camisa-de-força.
Guy de Maupassant morreu no dia 6 de julho de 1893, aos 43 anos de idade, e foi sepultado no Cemitério de Montparnasse, em Paris.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Vila


Gênero: Suspense
Ano de Lançamento: 2004

Numa aldeia tranquila e isolada na Pensilvânia, encontra-se um pacto entre o povo da aldeia e as criaturas que residem na floresta circundante: o povo da cidade não entra na floresta, e as criaturas não entram na vila. O pacto permanece fiel por muitos anos, mas um dia...

Bem, contar o andamento de um filme de suspense é inimaginável. Fazer a releitura do filme que assisti no ano de 2006 quando fazia alguns projetos na área de psicopedagogia, muito interessante. Um filme é como um livro, quanto mais se lê e especialmente após um período de tempo considerável, a vivência fala mais forte, as percepções, enfim, as entrelinhas que o autor deixou de presente e que por uma única leitura não possamos ter observado.

Conforme  tive a oportunidade de comentar no grupo Livros & Filmes, no facebook, uma reedição (ou renovação) do grupo "Nós Todos Lemos", o filme faz refletir sobre onde mora a violência (intrínseca ao ser humano). Quando a questão da violência é tratada de forma isolada, quais consequências podem trazer ao ser humano ou grupo, quando para combatê-la umas das armas é ignorá-la como procedente da essência humana.

Interessante é a atualidade do filme por tratar questões que são inerentes a humanidade e não tão somente da era moderna. Melhor, se for feito um paralelo do filme com a atualidade podemos nos assustar ao percebermos que estamos muitas vezes por criar como forma de proteção inúmeras vilas em nossas vidas. A internet, por exemplo, não seria uma vila onde as pessoas se sentem mais seguras ao se relacionar com outras? Tais relacionamentos seriam por afinidade, temas de interesse, outros, enfim, está construída a suposta 'vila segura' , ou seria aldeia, mas o espaço está criado e não redime ao ser humano a responsabilidade de saber até onde vai sua vivência nesta ilha online para que não perca o contacto com a realidade, esta do dia-a-dia, onde imaginamos haver tantas e tantas formas de violência.

Vale a pena refletir!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mário Quintana - O Tempo




"O tempo é a insônia da eternidade"
(Mário Quintana - 80 anos de Poesia)

domingo, 21 de outubro de 2012

Ernest Hemingway - Por quem os sinos dobram




Por quem os sinos dobram/Ernest Hemingway; tradução de Luís Peazê. - 7a ed. - Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 2009.

Iniciei a leitura do livro Por quem os sinos dobram e confesso que a linda narrativa deslumbrou já no primeiro capítulo. Especialmente pela profundidade com que o autor desnuda os personagens. São relatos fiéis dos conflitos humanos mesmo em meio ao cumprimento fiel de seus papéis, seja um oficial de guerra ou um cidadão civil quando o quadro de atuação é a guerra e seus embates. 

A narrativa transcorre com Robert Jordan e sua missão de exterminar uma ponte sobre um rio em campo inimigo. O autor constrói os ambientes com extrema fidelidade, não somente pela própria experiência em vida quando teve a oportunidade de ser voluntário na primeira guerra mundial. É típico do autor a construção do ambiente indo além dos detalhes físicos mas perpassando o emocional, o psicológico do meio em que é construída a narrativa (fácil entender quem já leu O velho e o Mar).

Um livro inesquecível.

Hemingway, Ernest, 1899-1961, jornalista, novelista e contista norte-americano, foi o representante não apenas do seu país, mas também do nosso tempo, com cuja magnífica obra granjeou o Prêmio Nobel de 1954. Participou da Primeira Guerra Mundial como voluntário, com apenas 19 anos, junto aos exércitos francês e italiano, o que lhe permitiu melhor avaliar a alegria de viver e a exaltação da luta, que é a manifestação da própria vida, além de toda a sordidez da guerra, carnificina anônima, anárquica, insensata. Mais tarde, foi correspondente na Europa de jornais da América. A sua condição de combatente e jornalista proporcionou-lhe elementos preciosos para vários dos seus trabalhos literários, entre os quais sobressaem Adeus às Armas, pungente retrato de conflitos humanos gerados pela Primeira Guerra Mundial, e Por Quem os Sinos Dobram, extraordinária e comovente história cujo pano de fundo é a guerra civil espanhola.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ana Cristina Cruz César -100 Anos de Poesia

Ana Cristina César
"Acho que existe sim um tipo de sensibilidade feminina, que é uma sensibilidade meio caótica, é uma sensibilidade mais sutil, é mais desorganizada. Ela é uma sensibilidade talvez meio histérica. A mulher é histérica por tradição."


A vidente se recolhe

Ardo de curiosidade pelo futuro,
me diz a moça mais oca da sala. Está escrito?
Isso me interessa, seu suspiro náutico,
porque não era ardor: a doçura da tolice singra a festa.
Adiante encontro um moço que me tolhe o passo e diz,
deixe-me levar, a dança... Ainda não.
Passo. Ainda não. Sigo o fio espiral do telefone
em curvas que roçam no batente várias portas.
Disco. Venha me buscar às tantas. Chegando
o fusca no portão, estou ali debaixo da garoa.
Vou guiar. Desço sem rilhar pneu.
Te levo para a sombra de árvore rendada na luz branca.
Manchas de umidade sob o parapeito. Ar de horto.
Veja a vista da cidade atrás da sombra.
Céu cortado por metade de holofotes em circulação.
Pó de maresia ao longe. Lagoa e jóquei, istmo, hotéis.
Daqui a cidade é brilho para adivinhar e rumoreja.
Também dou meu ombro de marmota recolhendo.

A mãe de Ana Cristina César era professora de literatura; o pai intelectual respeitado nos círculos políticos e religiosos, líder da Confederação Evangélica do Brasil, diretor da revista Paz e Terra e um dos criadores do ISER - Instituto Superior de Estudos Religiosos. Ana Cristina cresceu ouvindo os poemas e cânticos de sua igreja. Espécie de menina-prodígio, antes mesmo de aprender a escrever, já ditava seus poemas para a mãe.

O golpe militar de 64 transformou a vida da família da poetisa. A pressão dos pais de alunos contra os diretores e professores de esquerda do Colégio Bennett fez com que ela fosse transferida para outra escola. Nem bem concluiu o ginásio, Ana Cristina já participava de protestos estudantis. Seu namorado levou um tiro na perna, em manifestação diante da embaixada americana. O apartamento da família, na rua Toneleros, seria invadido algumas vezes pelas forças de repressão, em busca de seu pai.

Ana Cristina viajou para a Inglaterra e foi viver na casa de uma família protestante. Estudou seis meses numa escola para meninas, conheceu Londres e viajou pela Europa, o que seria um ponto de mutação em sua v ida, como "perder a infância". De volta ao Brasil, em 1971, estudou Letras na PUC, onde se formou quatro anos depois. Armando Freitas Filho viu em Ana Cristina César as características da poesia marginal carioca de sua geração: "O tom coloquial, longe das dicções solenes, sisudas e premeditadas."

Em 1979, Ana Cristina voltou à Inglaterra, para fazer mestrado em tradução. Ao retornar para o Rio de Janeiro, foi morar sozinha na Gávea e iniciou um ritmo frenético de trabalho, fazendo traduções e trabalhando para a Rede Globo como leitora e avaliadora de novelas. Mas nada preenchia o grande vazio que sentia na época. Ítalo Mariconi, um de seus amigos mais próximos, nota que, em 1983, o quadro de depressão se agravara: "Nosso jantar, no restaurante Real, na praia do Leme, foi uma choradeira mútua. Não tive presença de espírito para notar que o papo dela de suicídio era à vera." Em fins de setembro, Ana tentou se matar. Foi internada e, uma semana depois de sair da clínica, na casa dos pais, em Copacabana, atirou-se de uma janela do sétimo andar. Caio Fernando Abreu comentou o comportamento de Ana Cristina César poucos dias antes, na festa de aniversário dele: "Lenta, concentrada. Ana não dizia nada, apenas tocava, um por um, todos os objetos do meu quarto. E me olhava. Profunda, atentíssima, remota. Parecia uma despedida."

"Nela o coloquial vinha emmpacotado numa outra economia do verso, numa outra dinâmica das relações de som e sentido entre as frases poe´ticas, deixando transparecer um tipo de foramção literária rara no Brasil."

(Ítalo Moriconi)


Obras da autora
POESIA: Cenas de abril, 1979; Luvas de pelica, 1980; A teus pés, 1982.
OUTRAS: Literatura completa (cartas), 1979; Escritos no Rio (texto; jornalísticos), 1993; Correspondência incompleta (cartas), 1999.

(Estou postagem está em rascunho a meses e não recordo mesmo o motivo de não tê-la liberado - talvez sua incompletude para uma autora tão vasta - uma postagem para retornar e retornar e alimentar o tópico sempre).

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Impressionismo: Paris e a Modernidade


Edouard Manet (1832-1883)
O pífano
1866
Óleo sobre tela
Alt. 160; Larg. 97 cm
Paris, Museu de Orsay
Doação do Conde Isaac de Camondo, 1911
© RMN (Musée d'Orsay) / Hervé Lewandowski

"São Paulo, Rio de Janeiro, Madri


Enquanto a velha Paris se apaga sob a influência do barão Haussmann, os pintores Jongkind e Lépine, Manet e Degas, Monet e Renoir, Pissarro e Gauguin, apaixonam-se pela cidade e pela sua vida frenética. Novos temas surgem para os artistas, com boulevards, ruas e pontes animados por um movimento incessante, jardins públicos, vibrantes mercados cobertos e a céu aberto, retraçados sob o céu cinza, bem como grandes lojas e vitrines, iluminadas a gás ou eletricidade, estações de trem, cafés, teatros e circos, corridas, sem falar dos bailes e noitadas mundanas...

Através destes lugares, os artistas pintam igualmente todas as camadas da sociedade: austeras famílias burguesas na obra de Fantin-Latour, burguesia mais elegante e frequentadora dos lugares da moda, moças da fina sociedade tocando piano em Renoir, prostitutas que rodam a bolsinha e sobre as quais artistas como Degas, Toulouse-Lautrec ou Steinlen lançam um olhar livre de qualquer
julgamento moral e até empático, como em Toulouse-Lautrec.

Entretanto, a atração pela natureza e o desejo de fugir da cidade também se manifestam de modo imperativo... São os mesmos artistas que se voltam para os temas mais “naturais” das cercanias de Paris (Monet, Bazile, Renoir, Sisley para Fontainebleau, Monet para Argenteuil, Pissarro para Pontoise…). A busca por novas aventuras picturais conduz ao refúgio na região do Midi (Van Gogh,
Gauguin e Cézanne) ou na Bretanha (Gauguin, Bernard), ao passo que os artistas do movimento Nabi privilegiam a intimidade de universos interiores."

Comissária

Caroline Mathieu, curadora chefe do Museu de Orsay

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Melhores Contos - Machado de Assis

Melhores Contos - Machado de Assis
Seleção de Domício Proença Filho

Poderia discorrer longo texto sobre a universalidade e atualidade da obra de Machado de Assis que nada estaria acrescentando de novo, do já editado, confirmado, por críticos, literários ou mesmo nobres  tradutores e conhecedores de sua obra, como o Domício Proença Filho, que bem selecionou os Melhores Contos - Machado de Assis.
O que surpreende ao lermos ou relermos Machado de Assis é o profundo conhecimento da psique humana retratado em seus personagens. E Machado faz questão de usar de uma discreta ironia dando extrema graça à narrativa que pode passar desapercebida. Quanta originalidade seus contos transcorrem a trama. 
Machado de Assis, célebre autor de inúmeras narrativas tem em seus contos uma narrativa não menos significativa, fato de que sempre é editado e reeditado (ver postagem anterior aqui - 50 contos de Machado de Assis) seu extenso trabalho.
No livro Melhores Contos - Machado de Assis, ler o conto O Espelho é adentrar em filosofia, psicologia, enfim, adentrar na alma humana. Falando em alma humana, quanto engenho apresenta o conto A Igreja do Diabo e quanta sanidade (ou insanidade) levando a profundas reflexões O Alienista (considero um dos mais belos contos do autor) nos oferece onde o comportamento humano, base onde Machado de Assis transcorre seus textos é destrinchado, estraçalhado, esmiuçado.
Línguas, culturas e tempos são universalizados neste provinciano autor, mestre das falas ou ausência dela, quando necessário em seus textos transbordando de vivacidade quanto à condição humana neste mundo tão conturbado.

Contos nesta edição: Teoria do Medalhão, O Espelho, O Segredo do Bonzo, O Anel de Polícrates, Uma Senhora, D. Benedita, Verba Testamentária, A Sereníssima República, O Alienista, Conto de Escola, O Enfermeiro, Noite de Almirante, A Igreja do Diabo, A Senhora do Galvão, A Catormante, A Causa Secreta, Uns Braços, Missa do Galo, Capítulo dos Chapéus, Cantiga de Esponsais, Um Homem Célebre, Evolução, O Caso da Vara, Pai contra Mãe, Entre Santos, Trio em Lá Menor, Conto Alexandrino, O Cônego ou Metafísica do Estilo, O Dicionário.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Contos de Tchékhov


Anton Tchékhov, Contos - Volume VI - Tradução (do russo): Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio D´ Água Editores, Outubro de 2006.

"Tais pessoas eram capazes de sonhar, mas incapazes de governar. Destruíam as suas vidas e as dos outros. Eram tolas, fracas, fúteis, histéricas; mas. por trás de tudo isto, ouve-se a voz de Tchékhov: abençoado o país que soube gerar este tipo humano. Eles deixavam escapar as ocasiões, evitavam agir, não dormim à noite inventando mundos que não sabiam construir; mas a própria existência destas pessoas, cheias de uma abnegação apaixonada e fervorosa, de pureza espiritual, de elevação moral, o simples facto de estas pessoas terem vivido e talvez ainda viverem hoje, algures, na implacável e reles Rússia actual é uma promessa de futuro melhor, para todos o mundo, porque, de todas as leis da natureza, a mais maravilhosa é talvez a da sobrevivência dos mais fracos."
(Do Prefácio de Vladimir Nabokov no Vol. I)

Depois deste prefácio fica claro que Tchékhov deixa à mostra a faceta social desprivilegiada, tirando um excelente retrato da exclusão, em tom maravilhosamente claro. Seus personagens são os bêbados, as prostitutas, um fugitivo, uma epidemia, enfim, todos aquelas situações em que a história muitas vezes maqueia essa condição humana e social fica totalmente desnudada. Uma linguagem forte, sem perder a sensibilidade, perpassando todos os detalhes da narrativa através da tensão de seus personagens e suas vivência.

A CORISTA

Um dia, no tempo em que ela tinha mais juventude, beleza e voz, estava na sua casa de campo, na sobreloja, Nikolai Petróvitch Kolpakov, seu admirador. O calor e o ar abafado eram insuportáveis. Kolpakov acabara de almoçar e, como bebera uma garrafa inteira de vinho do Porto horrendo, estava mal-humorado e indisposto. Ambos se aborreciam e esperavam que o calor acalmasse para irem dar um passeio.
De repente tocou a campainha da porta de entrada. Kolpakov, que estava sem sobrecasaca e de pantufas, saltou do lugar e olhou interrogativamente para Pacha.
- Deve ser o carteiro, ou talvez uma amiga - disse a cantora.
Kolpskov não tinha vergonha do carteiro nem das amigas de Pacha, mas, para o que desse e viesse, apanhou toda a sua roupa numa braçada e foi para o quarto contíguo, enquanto Pacha corria a abrir a porta. À entrada, para seu grande espanto, não estava o carteiro nem uma amiga, mas uma desconhecida, jovem, bonita, vestida como uma senhora e, por todos os indícios, das decentes.
A desconhecida estava pálida e respirava com dificuldade, como depois de se subir uma escada alta.
- O que deseja? - perguntou Pacha.
A senhora demorou a responder. Deu um passo em frente, passou um olhar lento pela sala e sentou-se, com o ar de quem já não pode ficar mais tempo de pé por cansaço ou por doença; depois, durante muito tempo, ficou a mexer os lábios exangues, tentando pronunciar qualquer coisa.
- O meu marido está consigo? - conseguiu articular finalmente, levantando para Pacha os seus olhos grandes com as pálpebras inchadas de chorar.
- Que marido? - sussurro Pacha e ficou de súbito tão assustada que sentiu as mãos e os pés a gelarem-lhe. - Que marido? - repetiu, começando a tremer.
- O meu marido... Nikolai Petróvitch Kolpakov.
- Não... não senhora... Eu... eu não conheço marido nenhum.
Um longo momento de silêncio. A desconhecida passou várias vezes o lenço pelos lábios pálidos e, para vencer o tremor, retinha a respiração. Pacha estava em frente dela como petrificada e olhava-a com perplexidade e medo.
- Diz-me então que ele não está cá? - perguntou a senhora com uma voz já firme e sorrindo de forma estranha.
- Eu... não sei de quem está a falar.
- Você é uma  mulher abominável, ignóbil, nojenta... - murmurou a desconhecida, envolvendo Pacha num olhar cheio de ódio e de repugnância. - Sim, sim... é nojenta. Estou satisfeita por poder finalmente dizer-lhe isto na cara!
Pacha sentiu que causava àquela senhora de preto, com os olhos zangados e os dedos finos e brancos, a sensação de qualquer coisa nauseabunda e monstruosa, e sentiu vergonha das suas faces rechonchudas e vermelhas, das marcas de bexigas no nariz e da franja na testa que não havia meio de puxar para cima. E parecia-lhe que se fosse magrinha, sem pó-de-arroz nem franja, poderia esconder que era uma mulher indecente e não teria medo nem vergonha de se ver em frente desta senhora desconhecida e misteriosa.
- Onde está o meu marido? - continuou a senhora. - De resto, tanto me faz que esteja aqui ou não, mas tenho a dizer-lhe, a si, que foi descoberto um desfalque e Nikolai Petróvitch é procurado pela polícia... Querem prendê-lo. Veja bem o que você fez!
A senhora levantou-se e, muito emocionada, pôs-se a passear pela sala. Pacha olhava para ela, e o seu medo era tanto que não percebia.
- Ainda hoje vão encontrá-lo e prendê-lo - soluçou a senhora, e ouvia-se a irritação e o insulto nos seus soluços. - Eu bem sei quem o levou até este horror! Criatura nojenta, repugnante! Abominável, venal! (A senhora franzia o nariz, torcia os lábios de repulsa.) Sinto-me imponente... Oiça você, mulher reles!... Não posso fazer nada, é mais forte do que eu, mas há quem me defenda, a mim e aos meus filhos! Deus vê tudo! Deus é justo! Deus vai castigá-la por cada lágrima minha, por cada noite que passei sem dormir! Há-de chegar a altura em que você se vai lembrar mim!
Caiu de novo o silêncio. A senhora andava pela sala e torcia as mãos, e Pacha olhava para ela com ar lorpa e perplexo, sem compreender, esperando que saísse dali qualquer coisa medonha.
- Minha senhora, eu não sei nada! - disse ela, e desatou a chorar.
- Mentirosa! - gritou a senhora, e os seus olhos brilharam de raiva. - Sei tudo! Há muito que a conheço! Sei que no último mês ele tem estado consigo todos os dias!
- É verdade. E depois? Que importância tem isso? Há muita gente que me visita, mas eu não obrigo ninguém a vir cá. A vontade é deles.
- Acabei de lhe dizer: foi descoberto um desfalque! Ele gastou dinheiro do serviço em proveito próprio! Para uma... como você, para si, ele atreve-se a cometer um crime. Oiça - disse a senhora em voz resoluta, parando em frente de Pacha. - Você pode não ter princípios, já que vive apenas para fazer o mal, é o seu objectivo, mas é impensável que tenha caído tão baixo ao ponto de não ter qualquer vestígio de sentimento humano! Ele tem mulher, filhos... Se for condenado e deportado, eu e os meus filhos morrerremos de fome... Tente compreender! Há uma maneira de o salvar e de nos salvar a nós da miséria e da vergonha. Se eu pagar hoje novecentos rublos, deixam-no em paz. Apenas novecentos rublos!
- Quais novecentos rublos? - perguntou Pacha em voz baixa. - Eu... eu não sei de nada... Não lhe levei...
- Não lhe peço os novecentos rublos... Você não os tem, nem eu quero o seu dinheiro. Peço-lhe outra coisa... Normalmente, os homens oferecem às mulheres da sua condição coisas preciosas. Devolva-me apenas as prendas que o meu marido lhe deu!
- Minha senhora, ele não me ofereceu nada! - guinchou Pacha, começando a compreender.
- Então, onde está o dinheiro? Ele esbanjou o dele, o meu e o alheio... Onde desapareceu tudo isto? Oiç, peço-lhe! Eu estava indignada e disse-lhe muitas coisas desagradáveis, mas peço desculpa. Deve odiar-me, eu sei, mas se tiver compaixão pode pôr-se no meu lugar! Imploro-lhe, devolva-me as jóias!
- Humm... - disse Pacha e encolheu os ombros. - Dava-lhas de boa vontade, mas Deus me fulmine já se ele me deu alguma coisa. Acredite na minha consciencia. Aliás, tem razão - embaraçou-se a conatora -, uma ocasião trouxe-me duas coisinhas. Devolva-lhas, faça o favor...
Pacha tirou de uma das gavetinhas do toucador uma pulseira de ouro oca e um anel barato com rubi.
- Tome! - disse ela, entregando as jóias à visitante.
A senhora corou, tremeu-lhe o rosto. Sentiu-se insultada.
- O que está a dar-me? - disse. - Não lhe peço uma esmola mas aquilo que não lhe pertence... aquilo que você, fazendo uso de sua condição, extorquiu ao meu marido... esse homem fraco, desgraçado... Na quinta-feira, quando a v i com o meu marido no cais, você tinha broches e pulseiras caros. Por isso não vale a pena fingir-se um cordeiro inocente! Pergunto pela última vez: devolve-me as jóias ou não?
- Que mulher estranha é a senhora, credo... - disse Pacha, começando a ofender-se. - Da parte do seu Nilolai Petróvitch, juro-lhe que só vi estas pendas, uma pulseira e um anel. Só me trazia pastéis doces.
- Pastéis doces... - sorriu-se a desconhecida. - Em casa, as crianças não têm nada para comer, mas para aqui vêm pastéis doces. Recusa-se então, definitivamente, a devolver-me as jóias?
A senhora, não recebendo resposta, sentou-se e, com ar pensativo, fixou os olhos num ponto vago.
- O que faço agora? - disse. - Se não arranjar novecentos rublos, é o fim dele e também o meu e dos filhos. Mato esta velhaca ou ponho-me de joelhos diante dela?
A senhora apertou o lenço à cara e desatou a chorar.
- Peço-lhe! - disse por entre os soluços. - Você arruinou o meu marido, levou-o à perdição, agora salve-o... Não é compaixão por ele, mas pelos filhos... os filhos...Que culpa têm os filhos?
Pacha imaginou umas crianças pequenas, na rua, a chorarem de fome, e começou também a chorar.
- O que posso fazer, minha senhora? - disse ela. - A senhora diz que sou velhaca e arruinei Nikolai Petróvitch, mas eu juro-lhe perante Deus que não tirei proveito nenhum dele... No nosso coro, só a Mótia tem um protector rico, mas nós, as outras todas, vivemos de mal a pior. Nikolai Petróvitch é um senhor culto e delicado, por isso é que o recebo. Não podemos deixar de receber...
- Peço-lhe as jóias! As jóias Estou aqui a chorar... a humilhar-me... Está bem, ponho-me de joelhos! Está bem!
Pacha soltou um grito de susto e abanou as mãos. Sentia que a senhora pálida e bonita que se exprimia com tanta nobreza, como no teatro, era realmente capaz de se ajoelhar diante dela, precisamente por orgulho, por nobreza, para se engrandecer e para humilhar a corista.
- Está bem, eu dou-lhe as jóias! - decidiu Pacha, limpando os olhos. - Mas olhe que não são de Nikolai Petróvitch... Recebi-as de outros convidados. Mas como queira...
Pacha abriu a gaveta superior da cómoda, tirou de lá um broche com diamantes, um fio de corais, vários anéis, uma pulseira e deu tudo à senhora.
- Já que as quer, tome, mas não tirei proveito enhum do seu marido. Tome, enriqueça! - continuou Pacha, sentindo-se insultada com a ameaça de ela se pôr de joelhos. - Mas se é nobre... esposa legítima dele, deveria mantê-lo ao pé de si. É isso! Eu não o convidava, ele vinha cá porque queria...
A senhora, por entre as lágrimas, examinou as jóias e disse:
- Não chega... Isto nem quinhentos rublos faz.
Pacha, impulsivamente, atirou-lhe da cómoda ainda um relógio de ouro, uma tabaqueira e botões de punho, e disse, abrindo os braços:
- Não tenho mais nada... Nem que me reviste!
A visitante suspirou, embrulhou tudo num lenço, com as mãos a tremer, e, sem dizer palavra, sem acenar sequer com a cabeça, saiu.
Abriu-se logo a porta do quarto do fundo e entrou Kolpakov. Estava pálido e sacudia nervosamente a cabeça, como se acabasse de tomar qualquer coisa muito amarga; brilhavam-lhe as lágrimas nos olhos.
- Que coisas o senhor me trazia? - investiu logo Pacha. - Quando, se me permite a pergunta?
- Coisas... O que interessam as coisas? - disse Kolpakov e sacudiu a cabeça. - meu Deus! Ela a chorar, a humilhar-se diante de ti...
- Pergunto-lhe: que coisas me trouxe? - gritou Pacha.
- Meu Deus, ela, tão decente, orgulhosa, pura... a querer pôr-se de joelhos à frente... à frente desta... rameira! Ao ponto a eu eu a levei! Fui eu!
Deitou as mãos à cabeça e gemeu:
- Não, nunca hei-de perdoar-me! Nunca! Afasta-te de mim... porca! - gritou com repugnãncia, recuando e repelindo Pacha com as mãos a tremerem. - Ela já queria ajoelhar-se e... diante de quem? Diante de ri! Oh, meu Deus!
Vestiu-se rapidamente e, contornando Pacha com nojo, dirigiu-se para a porta e saiu.
Pacha deitou-se e desatou num alto choro. Já tinha pena das suas coisas que entregara num impulso, estava ressentida. Lembrou-se de que, três anos atrás, um comerciante a espancou sem razão e ela chorou ainda mais alto.


Anton Tchékhov
1860 - Em 17 de janeiro nasce Anton Pavlovitch Tchekhov, em Tanganrog, na Rússia, filho de Pavel Yegorovich Tchekhov e Yevgenia Morozov.
1875 - O pai de Tchekhov foge da cidade e abandona a família quando sua mercearia vai à falência.
1879 - Tchekhov ingressa na faculdade de Medicina, na Universidade  de Moscou.
1882 - Torna-se colaborador de um periódico humorístico de São Petersburgo, escrevendo contos e vinhetas.
1884 - Começa a praticar a medicina. Apresenta os primeiros sintomas de tuberculose.
1887 - Alcança sucesso literário em São Petersbugo com sua primeira peça, Ivanov.
1890 - Viaja pela Sibéria para entrevistar prisioneiros e exilados.
1895 - Escreve A Gaivota.
1896 - A Gaivota estréia no teatro e é cancelada após a quinta apresentação.
1897 - O estado de saúde de Anton se agrava.
1998 - A Gaivota é produzida com sucesso pelo Teatro de Arte de Moscou.
1899 - Tio Vânia é encenada com sucesso no Teatro de Arte de Moscou.
1901 - Estréia As Três Irmãs, obra considerada sua maior criação. Anton se casa com Olga Knipper.
1904 - É produzida a última peça de Tchekhov, O jardim das Cerejeiras.
Em 2 de julho Anton morre de tuberculose, na Alemanha.


domingo, 26 de agosto de 2012

Coleção Mário Quintana



Da sabedoria dos livros
Não penses compreender a vida nos autores,
Nenhum disto é capaz.
Mas, à medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderás.
(Espelho Mágico, p. 39 - Coleção Mário Quintana, Globo, 2005)
A Coleção Mário Quintana está a bastante tempo me observando da prateleira. Simples, convidativa, como um amigo a dar o ombro em um momento necessário. Assim é Mário Quintana, uma prosa boa sem fim que estará de braços abertos como um amigo se faz ouvir. Hoje acordei precisando de poesia, simples, amiga. Ninguém melhor do que Mário Quintana para nos acompanhar.

A coleção é composta pelos livros: Espelho Mágico, Sapato Florido, Baú de Espantos e Canções.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Festival Varilux de Cinema Francês 2012



O Festival Varilux de Cinema Francês de 2012 ocorrerá no período de 15 a 23 de agosto do corrente ano.

Pesquise a programação de tua cidade aqui.

A vida vai melhorar
O barco da esperança
Uma garrafa no mar de Gaza

Boa oportunidade de assistir cinema de qualidade!

sábado, 14 de julho de 2012

Samuel Beckett - Esperando Godot


Samuel Beckett - Esperando Godot - Tradução e prefácio de Fábio de Souza Andrade - Cosacnaify.

Releio Esperando Godot, um livro para a vida que surpreende pela suposta despretensiosa linguagem envolvendo o leitor em todo o percurso do hilariante texto. Havia lido o livro em 2008 entretanto é um texto para ser relido pela filosofia com que o autor expõe as incoerência humanas e a capacidade de falta de persperctivas ou mudanças com que a sociedade por vezes atravessa sua história sem que a perceba.

Assim conta o autor a história de dois vagabundos, talvez em algum lugar da França, maltrapilhos mas pontuais, atendem dia após dia ao chamado de um tal sr. Godot que prima por não comparecer, supondo-se que tenha de fato marcado o encontro. A espera e a angústia de Vladimir e Estragon neste nó dramático, virou peça teatral, escrita em francês pelo dramaturgo, romancista e poeta irlandês agraciado com o prêmio Nobel de Literatura de 1969, durante o admirável decênio do pós-guerra que viu surgir o essencial de criação de Beckett (Esperando Godot, Fim de partida, mais a trilogia romanesca de Mollory, Malone morre e O inominável), a peça estreou em Paris, no ano de 1953, sendo o divisor de águas do teatro do século XX.

VLADIMIR
Estou curioso para saber o que ele vai propor. Sem compromisso.

ESTRAGON
O que era mesmo que queríamos dele?

VLADIMIR
Você não estava junto?

ESTRAGON
Não prestei muita atenção.

VLADIMIR
Ah, nada de muito específico.

ESTRAGON
Um tipo de prece.

VLADIMIR
Isso!

ESTRAGON
Uma vaga súplica.

VLADIMIR
Exatamente!

ESTRAGON
E o que ele respondeu?

VLADIMIR
Que ia ver.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Praia Campista - Macaé - RJ



Praia Campista - Macaé - RJ

O mar hoje não está para peixe, definitivamente.
Um bom dia a todos!

sábado, 23 de junho de 2012

Vik Muniz - Lixo extraordinário


Lixo Extraordinário, Vik Muniz, textos Alexei Bueno e Vik Muniz, G. Ermakoff casa editorial, 2010

Livro fenomenal que não pode ser desacompanhado do dvd documentário de nome similar é um projeto repleto de beleza e de significados. Narra, em numerosas imagens e textos de Alexei Bueno e Vik Muniz, essa epopeia de inesperadas metamorfoses, do soerguimento de vidas que muitos julgariam à margem de qualquer esperança.

Brava narrativa o forte documentário mostra o dia a dia no maior aterro sanitário do mundo (extinto em 2012), apresentando personagens inesquecíveis, que transformam um ambiente hostil em um meio digno de ganhar a vida.

O documentário mostra toda a tansformação que a arte de Vik Muniz ocasiona quando se propõe a ir além onde o humano faz parte desta arte recriada gerando forte emoção em quem tem a oportunidade de conhecer o desfecho dado a matéria prima inicial que teoricamente, como bem pontuou Sebastião Carlos dos antos (Tião), representante dos trabalhadores de reciclagem: lixo não porque lixo é tudo o que não tem aproveitamento, material reciclável sim.







Imperdível!


No momento Vik Muniz está expondo na Galeria Coleção de Arte, no Flamengo, Rio de Janeiro: Aterro no flamengo, o resto é arte.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Poemário


Drumundiana


E agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu nome foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixa de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se encontrasse...

(Alice Ruiz - Poemário)

Nota: Paródia do poema "José", 
de Carlos Drummond de Andrade

A PONTA DO ICEBERG: vitalidade e expansão, assim define Antônio Miranda, um amante das boas letras, em especial poesia, quando se refere as expectativas da poesia tendo em vista a atual proliferação dos Blogs gerando a multiplicação dos estilos, no livro Poemário, compêndio de poesia da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, edição 2008, gentilmente presenteado.

Alice Ruiz (Brasil) entre outros autores compõem este maravilhoso livro onde os homenageados são Affonso Romano de Sant´anna, Reynaldo Jardim, Thiago de Mello e Wladimir Diaz-Pino:

Alice Spíndola (Brasil)
Amparo Osório (Colômbia)
Antônio Carlos Secchin (Brasil)
Antônio Cisneros (Peru)
Antônio Vicente Petroforte (Brasil)
Aricy Curvello (Brasil)
Aristóteles Espanã (Chile)
Betty Chiz (Uruguai)
Carlos Ortega Guerreiro (México)
Daniel Chirom (Argentina)
Diego Mendes Sousa (Brasil)
Eduardo García (Espanha)
Eduardo Mora-Anda (Equador)
Elena Medel (Espanha)
Emilia Currás (Espanha)
Enrique Hernández d´Jesús (Venezuela)
Fábio Morabito (México)
Fabrício Carpinejar (Brasil)
Fernando Pinto do Amaral (Portugal)
Frederico Barbosa (Brasil)
Gilberto Mendonça Teles (Brasil)
Hector Collado (Panamá)
Henryk Siewierski (Polônia)
Jorge Tufic (Brasil)
José Carlos Capinan (Brasil)
José Carlos Irigoyen (Peru)
José Geraldo Neres (Brasil)
Juan Carlos Pajares (Espanha)
Juan Carlos Reche (Espanha)
Katia Chiari (Panamá)
Lourdes Sarmento (Brasil)
Luiz Otavio Oliani (Brasil)
Manoel Orestes Nieto (Panamá)
Manuel Pantigoso (Peru)
Márcia Theóphilo (Itália)
Márcio Almeida (Brasil)
Marcos Caiado (Brasil)
Margot Ayala de Michelagnoli (Paraguai)
Maria Romeu (México)
Mathias Lockart (Argentina)
Miguel Ángel Zapata (EUA)
Miguel Márquez (Venezuela)
Moacir Amâncio (Brasil)
Ricardo Corona (Brasil)
Roberto Bianchi (Uruguai)
Ronaldo Werneck (Brasil)
Rubenio Marcelo (Brasil)
Rui Mascarenhas (Brasil)
Susana Cabuchi (Argentina)
Susy Morales (Peru)
Silvio Beck (Brasil)
Testa Garibaldo (Panamá)
Trina Quiñomes (Venezuela)
Vadinho Velhinho (Cabo Verde)
Veronica Volkow (México)
Viviane Mosé (Brasil)
Wilfredo Machado (Venezuela)
William Ospina (Colômbia)
Zélia Bora (Brasil)

I Bienal Internacional de Poesia : Poemário / Biblioteca Nacional de Brasília, 2008


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