sexta-feira, 27 de maio de 2011

Elo - Carla Guedes


(Imagem Grafite: L Guedes)

Sentir a causa inteligente que me move
vai além do crivo cerrado da razão.
É abrir as comportas da alma, e, num dilúvio,
inundar-se da comoção
de ser pedaço.

[Pedaço do todo, partes que conjuntas
constroem o vitral colorido
das vidraças sagradas
do templo da natureza.]

Sentir a ação primeira
é impelir-se a ser correnteza
E nos fortes elos da corrente, de mãos dadas,
calcar rumo ao tão perto coração desamparado
do próximo.

É descobrir-se candeia e altear-se
perante a estrada sombria e escura,
Ser grato pelo pão singelo à mesa
que nos dá a força propulsora
do passo.

É contemplar sem abismos o crepúsculo avermelhado
e o cosmo salpicado de astros que vagueiam pelo infinito.
buscar a felicidade nas oportunidades oferecidas,
acreditando que a vida não está presa a esmo
do acaso.

É sentir o infinito pulsando dentro de si,
e descobrir que o elo
com a causa primeira das outras coisas todas
é de fato o sentimento motivo da criação:
o amor.

(Carla Guedes - Verso in' verso)

sábado, 21 de maio de 2011

Um Homem de Família

"Um Homem de Família"
Lançamento: 2000 (EUA)
Direção:        Brett_Ratner
Atores:          Nicolas Cage, T Leoni, Josef Sommer, Jeremy Piven.
Duração:       125 min
Gênero:         Comédia

Sinopse

Jack Campbell é um investidor de Wall Street jovem e solteiro vivendo uma vida de rico em Nova Iorque. Ele se surpreende quando sua ex-namorada, Kate, tentou ligar para ele após anos sem se verem.
Após uma conversa com o seu mentor na empresa, Jack resolve não atender no momento. Naquela noite de natal, ele resolve ir a pé até a sua casa, passando por uma loja de conveniências. No caminho acaba convencendo um vencedor da loteria, irritado, chamado Cash a não atirar no vendedor. Ele oferece ajuda à Cash antes de ir dormir em sua cobertura.
Tudo muda num passe de mágica quando na manhã seguinte ele acorda em um quarto no subúrbio de Nova Jersey com Kate, a sua atual esposa, com quem anteriormente ele havia deixado de se casar e ainda com duas crianças que ele se quer conhecia. Jack percebe então que esta é justamente a vida que ele teria se não tivesse se transformado em um investidor financeiro quando jovem. Ao inves disso, ele tem uma vida modesta, onde ele é um vendedor de pneus e kate é uma advogada não-remunerada.

O filme Um Homem de Família faz profundas reflexões acerca da essência da busca da vivência do ser humano: ser feliz. Na história específica, as facetas que compoem esta busca na vida de um homem são expressas por seu relacionamento com o trabalho e a família.

 A divertida história se passa em dois mundos na vida deste homem (Nicolas Cage): no topo do capitalismo (a vida de um alto executivo) e seu relacionamento empresariado como na vida de um trabalhador de nível social mediano, ou seja, um vendedor de pneus e seus relacionamentos sociais e familiar (mulher e dois filhos).

 Ponto alto na sutileza com que é tratado um tema tão importante quanto relacionamento amoroso e familiar x vida profissional, o valor da amizade, entre outros.



Bom filme!

sábado, 14 de maio de 2011

100 Anos de Poesia - Cora Coralina



Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (Cora Coralina) nasceu no dia 20 de agosto, em Goiás, GO 1889 e morreu em 10 de abril, em Goiânia, GO, em 1985.


TODAS AS VIDAS


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo,
Benze quebranto,
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro,
Ogã; pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d´água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.

"Amo a terra em místico amor consagrado, num esponsal sublimado procriador e fecundo."


Cora Coralina começou a escrever aos 14 anos de idade. Desde então, nunca mais abandonou a literatura, paixão que lhe garantiu o repúdio da sociedade local. A poesia não fazia parte das tarefas corriqueiras de uma mulher no interior de Goiás em princípios do século XX.

Resolveu dedicar-se com afinco à literatura depois de uma desilusão amorosa. Tinha 18 anos quando se apaixonou por um rapaz que estudava no Rio de Janeiro e estava passando férias em Goiás. A mãe dele cortou o relacionamento e antecipou o retorno do filho. Como diria Cora anos depois: "as mulheres do passado, não sabenod ser carinhosas - que que aquele tempo de dureza e severidade não ajudava - tornavam-se cruéis".

Apesar do preconceito, Cora aprendeu métrica, leu grandes poetas da língua portuguesa, como Camões, Bilac, Tomás Antônio Gonzaga, Garret e Gregório de Matos, e passou a colaborar para o Anuário Histórico e para um semanário publicado em sua cidade.

Em junho de 1911, a poetisa conheceu o novo chefe de polícia local, Cantídio, um homem que era 21 anos mais velho do que ela. A mãe de Cora proibiu terminantemente o namoro, de modo que, na madrugada do dia 25 de outubro daquele mesmo ano, o casal fugiu para o interior de São Paulo. Cora estava grávida de dois meses. O casal teve seis filhos - Paraguassu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Maria Isis e Vicência -, 16 netos e 29 bisnetos.

Após a mudança para o interior paulista, Cora colaborou para diversos jornais, entre eles O Democrata, do qual seu marido era um dos redatores. Esporadicamente, também contribuía para o periódico A Informação Goiana, impresso no Rio de Janeiro mas distribuído no estado de Goiás.
Somente aos 75 anos Cora publicou seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Doze anos depois, em 1976, lançou Meu livro de cordel, sem grande repercussão. Em 1979, ao ser "descoberta" por Carlos Drummond de Andrade, a obra de Cora Coralina ganhou projeção nacional: "Se há livros comovedores", escreveu Drummond a respeito da estréia da autora, "este é um deles. (...) Cora Coralina: gosto muito desse nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira."

"Escrever é uma recriação da vida, e, recriando a vida, eu me comunico. Não invento, não sou uma criadora, sou uma recriadora da vida. Esta é a marca mais viva do meu espírito junto à minha capacidade de dizer uma mentira."
(Cora Coralina)

"Seu Vintém de cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida!"
(Trecho de carta de Carlos Drummon de Andrade)



Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.

sábado, 7 de maio de 2011

Clarice Fotobiografia - Nádia Battella Gotlib


Clarice Fotobiografia / Nádia Battella Gotlig. 2a. edição - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.


"Pegar o vivo e tirar o seu imóvel retrato e olhar-se no retrato e pensar que o flagrante deixou uma prova, a desse retrato já morto."
(Um Sopro de Vida - Clarice Lispector)

Clarice Lispector (1920-1977), nascida em Tchetchélnik, na Ucrânia (Rússia), e naturalizada brasileira, é escritora já reconhecida pela crítica, tanto no Brasil quanto no exterior, por sua obra ficcional e por sua atividade na imprensa carioca, desenvolvida ao longo de 37 anos de produção. Nascida durante a viagem dos pais, judeus imigrantes que vieram com as três filhas para o Brasil, morou em Maceió e Recife, depois, no Rio de Janeiro, em seguida, em países europeus (Itália, Suiça, Inglaterra) e nos Estados Unidos e, novamente, no Rio de Janeiro. Este livro registra, numa narrativa visual criada a partir de imagens acompanhadas de legendas e, de no final, textos explicativos mais detalhados, os momentos mais marcantes desse percurso de vida e obra pautado na busca, sempre renovada, de exprimir o inexprimível da natureza humana, em linguagem criativa, experimentada como selvagem "matéria viva pulsando".

A autora de Clarice Fotobiografia  já avisa de antemão: a prova e o enigma envolverá o leitor / espectador desta Fotobiografia. Os encontros mágicos podem ocorrer a partir de algumas transcrições de textos seus, ou de modo mais sutil, em cada detalhe gráfico: certas paisagens, pedaços de cidades, pessoas sós ou em grupo, na caligrafia de certas cartas e dedicatórias, em espaços interiores, em papéis ora desgastados pelo tempo, ora em sépia, ora voluntariamente rasgados, sinais gráficos do que existiu, como são também sinais os registros de passeios, posturas de corpo, olhares, gestos.

O livro é um deleite não somente aos olhos pois é uma construção histórica a partir da vida de Clarice e seus familiares através de imagens e textos que foi assim distribuída:

1. Da Ucrânia ao Brasil: em exílio.
2. Em Maceió: a infância nordestina
3. Em Recife: À beira do capibaribe
4. Rio de Janeiro: a mocidade carioca
5. Em Belém do Pará: a vida a dois
6. Em Nápoles: "O Mediterrâneo é azul, azul"
7. Em Berna: "Cemitério de sensações"
8. Em Trquay: o gosto pelo cinzento
9. Em Washington: quase sete anos
10. No Rio de Janeiro: a volta definitiva
11. Ainda no Rio de Janeiro: Horas de estrela
12. Para sempre: a obra viva
13. Do Brasil à Ucrânia: em Tchetchélnik

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