Quase Memória - Carlos Heitor Cony - Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, 236p.
"De repente, não senti cheiro algum. Nada fizera além de olhar o embrulho imóvel, no centro da minha mesa de trabalho, eu também imóvel, viajando sem pressa e sem itinerário por cheiros antigos, cheiros que sentira (ou julgara sentir), cheiros que pareciam vir do embrulho mas que, de repente, desconfiei que vinham de mim mesmo.
Na saleta de espera, que antecede a minha, o telefone tocou, a secretária atendeu, ela sabe que, quando me fecho, a ordem é dizer que não estou e que nao sabe quando vou chegar. Pode parecer desculpa, ou mentira, mas é uma verdade, talvez a única verdade que conseui produzir: não estou, nem eu sei quando vou chegar.
Desde que coloquei o embrulho na minha frente, estou concentrado em olhá-lo, senti-lo, cheirá-lo.
Já havia reparado no barbante ordinário que corta o envelope em quatro partes, reparara naquele nó, ali no meio, nó perfeito, ajustado ao embrulho, sem deixar folga no barbante - uma técnica que o pai possuía e que atribuía à mania de perfeição que o perseguia sempre que se tratava de fazer um balão, uma pipa, um conserto doméstico."
Explorando o território entre a ficcção e o romance, Quase memória é um livro que trata de um tema fascinante: a relação pai e filho, mais que as reminiscências do autor sobre o pai morto. Trata basicamente da cumplicidade antes que as relações de alegria, tristezas ou outros sentimentos vivenciados por ambos. O autor recebeu os prêmios Jabuti de Melhor Romance e de Livro do Ano, 1996, 1998, 2000 e da Câmara Brasileira do Livro, 1996, 1998, 2000 e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de obra, em 1996.
É um livro para se ter na estante da vida. Lembra tantos personagens por quem passamos na vida e seus relacionamentos afetivos. Belo e raro livro para se ler com uma prosa extremada detalhista entretanto não chega a cansar.
É um livro para se ter na estante da vida. Lembra tantos personagens por quem passamos na vida e seus relacionamentos afetivos. Belo e raro livro para se ler com uma prosa extremada detalhista entretanto não chega a cansar.
Carlos Heitor Cony nasceu no Rio de Janerio, e estudou Humanidades e Filosofia. É um dos nomes consagrados da literatura brasileira contemporânea. Além de romancista, é jornalista, autor de livros de crônicas, ensaios biográficos e adaptações de clássicos universais. Em sua vasta obra literária, destacam-se os romances Quase memória, A casa do poeta trágico, Balé branco, Pilatos e o Adiantamento da hora.


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