segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Ópera dos Mortos - Autran Dourado

Ópera dos Mortos / Autran Dourado. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.


"O tempo seria só a noite e o sol, as duas metades impossíveis de parar."

"Por que Quinquina demorava tanto? Engraçado eu casar Por que engraçado? eu bem que podia casar. Emmanuel bem que quis. Não agora, antes, quando nada ainda tinha acontecido. Papai fazia planos pra mim. Depois me esqueceu, se entregou àquela maluqueira. Pra que precisava daquilo, se tinha tanto? Não, eles não podiam ter feito aquilo com ele. Com ela. Ele não merecia. Tão bom, tão calado, tristinho. Pra sempre tinha de odiar. Não esqueço, ninguém deve esquecer. Agora somos os dois sozinhos no mundo, disse o pai. Quando o enterro da mamãe saiu. Depois é que a gente chorou, a gente não podia guardar por mais tmepo o choro engolido. Pra ninguém ver que a gente tinha chorado. Na frente deles. Ninguém pode saber, esta morte é só da gente, tudo que eles dizem é fingimento. Você não viu? Com aquela cambada só mesmo assim."
(pág. 43, 44)


Em Ópera dos Mortos, Autran Dourado magistralmente disseca a vida interiorana onde sua linguagem desliza na amplidão do tempo, da vida e da condição humana. Sobretudo, do absurdo da existência de todos os homens na vastidão do mundo.

"Lucas Procópio Honório Cota chegara àquelas paragens em um tempo já azulado na memória. Quando o ouro ali secou, alguns ficaram, fazendeiros, "incestuosos, demarcadores, ladrilhando com seus filhos e escravos este chão deserto". Naquele lugar vingara Lucas Procópio, homem poderoso, sem limites, que espalhava filhos pelos campos afora. Ergueu ali a casa com linhas retas e pesadas, tal qual sua natureza. João Capriano Honório Cota, único filho legítimo de Lucas Procópio, somou àquela espinha o assobradado de janelas arredondadas, tentando suaviszar sua herança. Pai e filho eram distintos um do outro, o sobrado não deixava mentir. João Capistrano, fazendeiro de café, levava uma vida de aparência tranquila, mas guardava o momento certo para realizar seu projeto. E, então, todos veriam quem ele era. Para aquele novo  tempo que João Capistrano preparava, chegaram ao sobrado ornamentos vários e um relógio-armário de contornos chineses dourados, que fez a cidade parar para admirá-lo. Só não vinham os filhos para encher os quartos construídos no andar de cima. A vida só lhe deu Rosalina. Tantos frutos não vingados, só serviam para alimentar a terra vermelha do cemitério."

O autor trabalha bem a questão da identidade, através da história de uma casta, começada em um tempo-já-lenda, já-história, na vastidão das Minas Gerais, e de seu absurdo destino. Excelente linguagem transcorre a narrativa.

"Se um dia João Capistrano sonhara uma vida diferente para si, fora em vão. Seu sonho, a vida política, durou até que sofresse a primeira traição. Passou a odiar a cidade inteira. Fechou-se em sua fortaleza e fez parar o relógio-armário, a vida, no dia em que sua mulher morreu. O destino de Rosalina estava ali traçado, no silêncio do relógio, nas engrenagens e areias daquele tempo próprio da gente Honório Cota. Quando João Capistrano morreu, Rosalina parou mais uma engenagem do tempo. Agora só as noites e os dias marcariam o passar da vida. "

E segue a história de Rosalina. Perspiscaz a observação do autor quanto a vida interiorana que segue em ritmo lento, onde nem sempre a comunicação é feita unicamente pela fala, por vezes pouco explorada:

"Uma das razões por que Rosalina não o mandou embora foi exatamente o que disse José Feliciano: a gente carece de ouvir voz humana, pra sair das sombras. Um homem não é só, um lago de silêncio, necessita de ouvir a música da fala humana. Se a gente não cuida muito do que dizem as palavras, se não cheira o seu sumo, ouve apenas, a fala humana é rude e bárbara, cheia de ruídos estranhos, de altos e baixos. Atente agora não só com os ouvidos bem abertos, ouça com o corpo, com a barriga se possível, com o coração, e veja, ouça a doce modulação do canto. Só o canto, a música."

"Dona Rosalina era várias, não se fixava em nenhuma das mutas donas Rosalinas que ele todo dia ia descobrindo e juntando para um dia quem sabe poder entnder. Ele queria entender dona Roslaina para melhor viver no sobrado, não estar sempre em sobressalto, pesando as palavras, cauteloso. Dona Rosalina sumia como por encanto entre os seus dedos, visonha. Dissimulada, os olhos líquidos, quando a gente pensava que a tinha presa, ela escapulia. Que nem um guará que ele quisera caçar. Aqueles guarás do sertão, ariscos, matreiros, coriscando por entre as moitas, se confundindo com os matos, parecendo estar em todos os lugares e em lugar nenhum. Seu major Lindolfo era sempre ligeiro na pontaria. Quando ele mirava, dava no pinguelo, o estrondo ecoava, via: tinha se enganado, o guará não estava mais ali não, mas noutro matinho lá longe, como se risse, brincando, da certeza, da aflição da gente. Dona Rsalina era que nem um guará, ele tentava pegar o guará naquele casarão. Sempre escondida num lugar qualquer do sobrado, perdida no tempo. Não a pessoa de dona Rosalina, que esta era até mito parada e silente, naquele serviço quieto e vagaroso de fazer flor. Ele não sabia ainda que buscava nela a outra pessoa: a sombra, a alma de dona Rosalina."

O autor trabalha a personagem Rosalina de forma ilária, chegando horas a comicidade, quando literalmente despe a personagem. É um interior literário desvendado magicamente pelo autor. Excelente livro.

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