sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Conto de um trabalhador


Estava satisfeito com o seu primeiro dia de trabalho após meses de procura. Chegara à fábrica em um dia atípico, pelo menos é o que informara Rafael, novo colega de trabalho responsável por passar minhas novas atribuições, um rapaz moreno, alto, magro. Colocara seus pertences no armário, guardara a chave e se dirigira à seção de confecção de peças de acabamento fino, trabalho delicado, para especialista, conforme informara o supervisor, dera sorte, o rapaz anterior mudara de cidade e a vaga surgira, uma raridade nestas época de final de ano. Rafael apresentara o ambiente informando que eu chegara em uma semana de 'baixa', devido às festividades do Natal como também a maré não estava para peixe naquele dia visto que tinham uma reunião de assembléia geral para 'fechamento' do acordo coletivo e que 'todos' estavam sendo 'convocados' a comparecer. 'Ótimo', exclamei, então participaria de minha primeira assembléia sindical. Rafael me olhou de esguio e disse: 'deixa prá lá', com o tempo você 'pega o jeito'. 'Preciso sair um pouco, poderia ficar atento aos acontecimentos que já volto logo'. Disse que 'sim' sem entender bem o pedido pois que se não tinham atividade o que seria este 'estar atento'. Na dúvida, peguei minha caderneta de notas e uma caneta. Do local onde estava podia observar as demais seções que eram intercaladas por divisórias entretanto não eram compartimentos fechados, lembrando muito pódios de corrida de fórmula um em que podíamos ver os pilotos chegando e saindo. Assim observei um homem bem vestido, camisa e calça social, passando de seção em seção lendo um pequeno papel de aviso até chegar a minha seção: "A gerência informa que hoje tem assembléia para 'fechamento' do acordo e 'espera' todos os trabalhadores lá, dentro de quinze minutos, no pátio geral. Avise aos ausentes. Obrigado". Saiu antes que eu pudesse perguntar algo. Anotei em minha caderneta. Rafael ficaria satisfeito. A questão é que passaram os quinze minutos e nada de Rafael. Vi a maioria sair em caminhada conjunta na hora marcada ficando uns poucos em seus lugares. Outro homem de camisa clara passou nos locais onde havia pessoal até chegar a minha seção. 'Bom dia. Sou o supervisor geral. Vim pessoalmente solicitar a presença dos senhores faltantes à assembléia geral que corre neste momento. Pedido da Presidência. Obrigado." Já ia responder que aguardava meu colega de turno quando o homem me deu as costas. Pensei: aqui tudo é padronizado, até os comportamentos. E Rafael que não chega? Rafael! Falei ele apareceu. Fiquei boquiaberto com a precisão de Rafael: "já sei, primeiro veio o secretário depois o supervisor e aquele que está vindo é o gerente: todos convocando para a assembléia que já corre lá no pátio." Olhei para o homem de terno que vinha apressado em nossa direção. Que precisão e nem caderneta tinha. "Bom dia, atrasados para a assembléia, o Gerente Geral convoca a presença dos senhores." "Bom dia, respondemos". Antes que continuássemos, ele já se dirigia correndo em direção ao pátio geral. "Vamos?" Perguntei a Rafael. "Ainda tenho que acertar uns trabalhinhos atrasados por aqui", respondeu Rafael. Senti como a perder um emprego que acabara de conquistar com aquela fria resposta. Tive vontade de deixar Rafael e me dirigir eu mesmo ao pátio geral mas achei incoveniente visto que estava sob sua supervisão. "Olha, não vejo a Presidência desde o último Natal", disse Rafael e nem precisei virar para ver um homem afeiçoado de terno escuro vindo em nossa direção, acompanhado por mais dois outros, também enternados, um em cada lado todos caminhando no mesmo ritmo. Chegou a nossa seção com um meio sorriso, fez papo firme com a mão, o que Rafael respondeu imediatamente e eu acompanhei o gesto mas não parou nem falou nada, apenas passou direto em direção à assembléia mais apressado do que chegou. Eu, estagnado, perguntei: "Rafael, vamos?" "Não", foi toda a resposta. "Mas você fez que sim com a mão". disse. "Ora ora rapaz, já vi que tem muito, muito a aprender... Os tempos mudaram, não percamos tempo."respondeu Rafael com um sorriso aberto.

(Maria Brasileira)

2 presenças:

  1. E como os tempos mudaram...

    "Melhor do que todos os presentes por baixo da árvore de natal é a presença de uma família feliz."

    Autor desconhecido


    E lhe desejo Um Feliz Natal!!

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  2. Poeta,

    Desejo um novo ano pleno de realizações e infinitas leituras!

    Feliz Natal!

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