domingo, 4 de dezembro de 2011

A Cara da avó

Desenho: Lis Fraga

Terceiro dia se passara com as fezes agarradas, dura, fedida. A visinha insistia para que o banho fosse dado pois que cuidar do umbigo somente não espantava as moscas que já faziam ajuntamento no olho remelento do rebento mas a avó avisara que aquele ela não encostava a mão e vinha cumprindo o feito. A mãe desaparecera tão logo espelira o esmirado chorão e o embrulho fora trazido pela avó para casa pois que não podia permanecer no hospital pois tinha família saudável apesar de demonstrar os movimentos um pouco retardados, talvez os reflexos mas quem iria conferir esses detalhes naquele canteiro de obras improvisado chamado sala de parto em que até vassouras passando junto a faxineiras não enxergavam as baratas que teimavam em dançar nas pernas das enfermeiras que mais faziam os partos que os médicos.

O cheiro causava ânsia de vômito aos curiosos como a verificar se a criança que não mais chorava já partira para o mundo dos que não deveriam ter vindo.

"A cara da avó" soltara o bêbado subindo a ladeira ao olhar pela janela o pacote enrolado como chegara em cima da cama junto a tantas outras pilhas de roupa e tralhas de uso geral onde brincavam outras crianças como se ali não houvesse nenhuma novidade advinda por aqueles dias.

Até aquele momento, diga-se de passagem, pois que a frase surtiu efeito devastador tão logo se jogaram em cima do rebento puxando-o pela perna quase a cair da cama acudido pela avó que disfarçando disse: "cara da avó", "era só o que faltava aqui", "um com a cara da avó",  "vá logo menino, chamar a visinha para o banho da criança que a mãe tá é demorando!"

(Maria Brasileira)

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