sábado, 31 de dezembro de 2011

Aluísio Azevedo - O cortiço

O cortiço - Aluísio Azevedo - São Paulo: Saraiva, 2009 (Clássicos Saraiva)

Encerro o ano com um romance brasileiro, o clássico O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Impressionante narrativa em que o autor expõe abertamente toda a rotina do espaço criado, o cortiço, e sua gente simples, suas lutas diárias e a engrenagem que envolve as relações deste espaço vivo com o exterior onde cada habitante luta por si e pelos demais, chegando a se isolar das demais camadas sociais por instinto de proteção deste espaço.

"- Aguenta! Aguenta!
De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais, estava direito! "Jogassem lá as cristas, que o mais homem ficaria com a mulher!", mas agora tratava-se de defender a estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida.
- Não entra! Não entra!
E berros atroadores respondiam às pranchadas, que lá fora se repetiam ferozes.
A polícia era o grande terror daquela gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropício; à capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de ódio velho."

Muitas histórias são relatadas no percurso da narrativa tendo como ponto central a vida de João Romão, negociante português, proprietário do cortiço, que ambiciona enriquecer e projetar-se socialmente  que custo for, até mesmo da exploração de Bertoleza, escrava a que se une visando atingir seus objetivos. Outros portugueses tem foco na narrativa, como Miranda, proprietário do sobrado visinho ao cortiço, principal inimigo de João Romão por possuir status social e as terras que faltam à sua ambição de domínio do completo espaço físico que compõe aquelas paragens. Rita Baiana, mulata alegre também figura como personagem central, onde transforma com seu jeito contagiante os moradores da comunidade o cortiço, chegando a transformar o sério português Jerônimo, funcionário exemplar da pedreira anexa ao cortiço, seduzido por seus encantos, chegando a corromper-se ao sistema.

" Era João Romão quem fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, qando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco.  sobre este cobre, quase sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava aos que garantiam a dívida com penhores de ouro ou prata.
Não obstnte, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em alugá-las: aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação.
O Miranda rebenava de raiva.
- Um cortiço! - exclamava ele, possesso. - Um cortiço! Maldito seja aquele venderio de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das janelas!... Estragou-me a casa, o malvado!"

O livro O cortiço é um retrato da condição social de um povo. Envolvente do início ao final. Excelente.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Orhan Pamuk - A maleta do meu pai


A maleta do meu pai, de Orhan Pamuk; tradução Sérgio Flaksman. - São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

"Acredito que a literatura seja o tesouro mais valioso que a humanidade acumulou em sua busca de compreender a si mesma."

Orhan Pamuk em A maleta do meu pai escreve um hino de amor à literatura  através da semeadura das palavras deixada em seus textos, dos sete romances escritos ao longo dos mais de trinta anos dedicados às letras.

O livro é composto por três ensaios do autor: a maleta do meu pai, discurso da cerimônia de entrega do prêmio nobel de literatura de 2007; em kars e frankfurt, discurso da cerimônia de entrega do friedenspreis de 2005 e o autor implícito, conferência pyterbaugh  sobre literatura mundial

"Todos os escritores que dedicaram a vida à literatura conhecem essa realidade: qualquer que seja o nosso objetivo inicial, o universo que acabamos criando depois de anos e anos escrevendo cheios de esperança, vai dar, no final, em um lugar muito diferente. Ele nos levará para longe da mesa em que trabalhamos com tristeza ou indignação, para o outro lado dessa tristeza e dessa indignação, para um outro mundo. Será que meu pai não poderia ter chegado ele também a esse outro mundo?"

Orhan Pamuk discorre na construção do texto, de uma linguagem acessível a todo e qualquer indivíduo, com a simpliscidade de quem está em um grande diálogo humanitário. Conta histórias, essencialmente de passagens de sua vida, que estão intimamente ligada à literatura. Começa tendo seu pai  como protagonista quando este lhe entrega uma maleta com seus escritos e pede que seja lido somente após sua morte.

"Já me referi aos dois sentimentos essenciais que me dominaram quando fechei a maleta do meu pai e a pus de lado: a sensação de ser um náufrago perdido na província e o medo de não ser autêntico."

"Mas com se podia intuir pela maleta do meu pai e pelas cores desbotadas da nossa vida em Istambul, o mundo tinha um centro, que ficava muito longe de nós."

Lógico que ele ultrapassa os conflitos internos que é conhecer o texto paterno e descobrir no pai um verdadeiro escritor, alguém que ele não enxergou ao longo de sua caminhada não por culpa própria, mas pelo próprio pai ter negado este lado em sua trajetória, deixando-se levar pela vida comum, não se prendendo à literatura como trilha única do caminhar. Fato extremamente oposto à sua trajetória de vida totalmente ligada à literatura.

"Para mim, ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura."

Sobre o ato de escrever interessante ver o autor utilizar de toda a sinceridade chegando a dizer que escreve porque tem raiva das pessoas, escreve porque não consegue fazer um trabalho normal : "Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever! Escrevo porque sou incapaz de fazer um trabalho normal, como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros como os que eu escrEvo. Escrevo porque sinto raiva de todos vocês, sinto raiva de todo mundo. Escrevo porque adoro passar o dia sentado à mesa escrevendo. Escrevo porque só consigo participar da vida real quando a modifico."

"Todos conhecemos a alegria da leitura de um romance: todos já experimentamos a emoção de enveredar pelo caminho que leva ao mundo de outra pessoa, ingressar naquele mundo de corpo e alma e sentir o desejo de mudá-lo à medida que vamos nos impregnando da cultura do herói, da relação que ele mantém com os objetivos que compõem o seu mundo, das palavras que o autor usa, das decisões que torna e das coisas que resolve assinalar à medida que a história se desenrola."

"É na leitura dos romances que as sociedades modernas, as tribos e nações pensam mais profundamente acerca de si mesmas."

"Na maior parte das vezes, a nossa felicidade ou infelicidade não deriva da vida propriamente dita, mas do significado que lhe damos."

"O segredo é encontrar esperança suficiente para chegar ao fim do dia e, se o livro ou o trecho que está lendo for bom, encontrar nele alguma alegria, e felicidade, ainda que só por um dia."

"Se estou me sentindo pessimista, posso pensar sobre o quanto aquilo tudo me entedia. De qualquer maneira, uma voz dentro de mim vai surgir, dizendo-me para voltar para minha sala e me sentar diante da mesa. Não tenho idéia do que a maioria das pessoas faz nessas circunstâncias, mas é isso que transforma as pessoas em escritores."
  

Um autor transparente como seus escritos. Fantástico!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Ópera dos Mortos - Autran Dourado

Ópera dos Mortos / Autran Dourado. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.


"O tempo seria só a noite e o sol, as duas metades impossíveis de parar."

"Por que Quinquina demorava tanto? Engraçado eu casar Por que engraçado? eu bem que podia casar. Emmanuel bem que quis. Não agora, antes, quando nada ainda tinha acontecido. Papai fazia planos pra mim. Depois me esqueceu, se entregou àquela maluqueira. Pra que precisava daquilo, se tinha tanto? Não, eles não podiam ter feito aquilo com ele. Com ela. Ele não merecia. Tão bom, tão calado, tristinho. Pra sempre tinha de odiar. Não esqueço, ninguém deve esquecer. Agora somos os dois sozinhos no mundo, disse o pai. Quando o enterro da mamãe saiu. Depois é que a gente chorou, a gente não podia guardar por mais tmepo o choro engolido. Pra ninguém ver que a gente tinha chorado. Na frente deles. Ninguém pode saber, esta morte é só da gente, tudo que eles dizem é fingimento. Você não viu? Com aquela cambada só mesmo assim."
(pág. 43, 44)


Em Ópera dos Mortos, Autran Dourado magistralmente disseca a vida interiorana onde sua linguagem desliza na amplidão do tempo, da vida e da condição humana. Sobretudo, do absurdo da existência de todos os homens na vastidão do mundo.

"Lucas Procópio Honório Cota chegara àquelas paragens em um tempo já azulado na memória. Quando o ouro ali secou, alguns ficaram, fazendeiros, "incestuosos, demarcadores, ladrilhando com seus filhos e escravos este chão deserto". Naquele lugar vingara Lucas Procópio, homem poderoso, sem limites, que espalhava filhos pelos campos afora. Ergueu ali a casa com linhas retas e pesadas, tal qual sua natureza. João Capriano Honório Cota, único filho legítimo de Lucas Procópio, somou àquela espinha o assobradado de janelas arredondadas, tentando suaviszar sua herança. Pai e filho eram distintos um do outro, o sobrado não deixava mentir. João Capistrano, fazendeiro de café, levava uma vida de aparência tranquila, mas guardava o momento certo para realizar seu projeto. E, então, todos veriam quem ele era. Para aquele novo  tempo que João Capistrano preparava, chegaram ao sobrado ornamentos vários e um relógio-armário de contornos chineses dourados, que fez a cidade parar para admirá-lo. Só não vinham os filhos para encher os quartos construídos no andar de cima. A vida só lhe deu Rosalina. Tantos frutos não vingados, só serviam para alimentar a terra vermelha do cemitério."

O autor trabalha bem a questão da identidade, através da história de uma casta, começada em um tempo-já-lenda, já-história, na vastidão das Minas Gerais, e de seu absurdo destino. Excelente linguagem transcorre a narrativa.

"Se um dia João Capistrano sonhara uma vida diferente para si, fora em vão. Seu sonho, a vida política, durou até que sofresse a primeira traição. Passou a odiar a cidade inteira. Fechou-se em sua fortaleza e fez parar o relógio-armário, a vida, no dia em que sua mulher morreu. O destino de Rosalina estava ali traçado, no silêncio do relógio, nas engrenagens e areias daquele tempo próprio da gente Honório Cota. Quando João Capistrano morreu, Rosalina parou mais uma engenagem do tempo. Agora só as noites e os dias marcariam o passar da vida. "

E segue a história de Rosalina. Perspiscaz a observação do autor quanto a vida interiorana que segue em ritmo lento, onde nem sempre a comunicação é feita unicamente pela fala, por vezes pouco explorada:

"Uma das razões por que Rosalina não o mandou embora foi exatamente o que disse José Feliciano: a gente carece de ouvir voz humana, pra sair das sombras. Um homem não é só, um lago de silêncio, necessita de ouvir a música da fala humana. Se a gente não cuida muito do que dizem as palavras, se não cheira o seu sumo, ouve apenas, a fala humana é rude e bárbara, cheia de ruídos estranhos, de altos e baixos. Atente agora não só com os ouvidos bem abertos, ouça com o corpo, com a barriga se possível, com o coração, e veja, ouça a doce modulação do canto. Só o canto, a música."

"Dona Rosalina era várias, não se fixava em nenhuma das mutas donas Rosalinas que ele todo dia ia descobrindo e juntando para um dia quem sabe poder entnder. Ele queria entender dona Roslaina para melhor viver no sobrado, não estar sempre em sobressalto, pesando as palavras, cauteloso. Dona Rosalina sumia como por encanto entre os seus dedos, visonha. Dissimulada, os olhos líquidos, quando a gente pensava que a tinha presa, ela escapulia. Que nem um guará que ele quisera caçar. Aqueles guarás do sertão, ariscos, matreiros, coriscando por entre as moitas, se confundindo com os matos, parecendo estar em todos os lugares e em lugar nenhum. Seu major Lindolfo era sempre ligeiro na pontaria. Quando ele mirava, dava no pinguelo, o estrondo ecoava, via: tinha se enganado, o guará não estava mais ali não, mas noutro matinho lá longe, como se risse, brincando, da certeza, da aflição da gente. Dona Rsalina era que nem um guará, ele tentava pegar o guará naquele casarão. Sempre escondida num lugar qualquer do sobrado, perdida no tempo. Não a pessoa de dona Rosalina, que esta era até mito parada e silente, naquele serviço quieto e vagaroso de fazer flor. Ele não sabia ainda que buscava nela a outra pessoa: a sombra, a alma de dona Rosalina."

O autor trabalha a personagem Rosalina de forma ilária, chegando horas a comicidade, quando literalmente despe a personagem. É um interior literário desvendado magicamente pelo autor. Excelente livro.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Contos de Aprendiz


"Não, não é conto. Sou apenas um
sujeito que escuta algumas vezes, que
outras não escuta, e vai passando."

(do conto "Flor, telefone, moça")

Carlos Drummond de Andrade pisa em terra estranha das letras poéticas tão consagradas em sua vida ao criar os Contos de aprendiz entretanto é esta ousadia que o faz grande. Um autêntico sempre estará ousando em que terreno for,  pois a confiança em si é o que de melhor pode doar ao mundo e neste quesito ele o faz com simpliscidade e leveza. A começar pela capa que já nos remete à infância, assim segue sua prosa como nos tempos em que nos permitíamos fechar nos adolescentes quartos e desfiar horas de prosa sem chegar a lugar algum, tecendo o fio da vida com alegria.

Contos: A salvação da alma; Sorvete; A doida; Presépio; Câmara e cadeia; Beira rio; Meu companheiro;  Flor, telefone, moça; A baronesa, O gerente, Nossa amiga; Miguel e seu furto; Conversa de velho com criança; Extraordinária conversa com uma senho ra de minhas relações; Um escritor nasce e morre.

Carlos Drummond de Andrade, 1902-1987. Contos de Aprendiz / prefácio, José Castello. - 55a. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle



Sherlock Holmes, edição completa / Sir Arthur Conan Doyle; [tradução de Louisa Ibañez... et al.]. - Rio de Janeiro: Agir, 2007. Agir. Este livro é meu desafio nesta noite que pretendo terminar ao raiar a luz do novo ano se preciso for, mas estarei lá, ao final das 930 páginas. Necessito deste livro mais do que ele necessita de minha presença como leitora mesmo sabendo ser a porcentagem mínima da casa que ainda não o venceu. Não por isto. Olho para o livro e me lembro do autor de O sol se põe em São Paulo  que relata que nossas leituras nos constituem. Tenho refletido sobre a quantas andam nossas lupas familiares. Gostaria de ter lido este livro talvez em minha infância em que tive acesso somente a clube de leitura e com ele Agatha Christie. Lembro de alguns títulos e o quanto ficava fascinada com o suspense, com os detalhes não notados durante o trajeto da leitura e o desfecho perfeito final, tudo tão distante da dura vida real que por vezes não tem desfecho algum. Vivemos em um mundo cada vez mais sem diagnóstico, muita análise, muita pesquisa, pouca conclusão, é um campo vasto que aqui estou querendo adentrar a quantas andam as letras de Holmes, já eternizado, parecendo quem sabe um primo de House, tão exaustivamente investigativos nestes tempos modernos, entretanto, tão amados familiarmente.

Conhecimentos de Sherlock Holmes

1. Literatura: zero.
2. Filosofia: zero.
3. Astronomia: zero.
4. Política: fracos.
5. Botânica: variáveis. Versados nos efeitos de beladona, ópio e venenos em geral. Não sabe nada sobre jardinagem e horticultura.
6. Geologia: práticos, mas limitados. à primeira vista, sabe reconhecer solos diferentes. Quando chega de suas caminhadas, mostra-se manchas e respingos nas calças e, por sua cor e consistência, me diz em que parte de Londres as recebeu.
7. Qímica: profundos.
8. Anatomia: acurados, mas pouco sistemáticos.
9. Literatura sensasionalista: imensos. Ele parece conhecer todos os detalhes de cada horror perpetrado neste século.
10. Toca bem violino.
11. É perito em esgrima e boxe, além de hábil espadachim.
12. Tem um bom conhecimento prático das leis inglesas.

Quando cheguei a este ponto da minha lista, joguei-a no fogo, desanimado.
"Se eu só posso descobrir o objetivo desse homem conjugando todas estas habilidades e encontrando uma profissão que as utilize", disse para mim mesmo, "é melhor desistir já da tentativa."

Assim tem início o encontro de dois homens que se conhecem ao acaso e que por interesse comum em economia pós-guerra, passam a morar conjuntamente nos aposentos da famosa Baker Street, 221 B.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bernardo Carvalho - O sol se põe em São Paulo




"Lembro de um jantar especialmente desconcertante em que alguém na mesa gritava que, se não fosse pelo nazismo, o mundo não teria entendido e reconhecido os textos de Kafka, ou de quando alguém citou o exemplo de William Blake - autor do 'Casamento do Céu e do Inferno', que tínhamos estudado naquela mesma tarde, no curso de literatura inglesa -, reconhecido só depois de um século da sua morte, como lema da nossa fantasia de incompreendidos: "O que espanta é a incapacidade de ver, avaliar e fazer justiça no presente". Era uma boa fantasia." (...)

O sol se põe em São Paulo, Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 2007, surpreende, leitura cativante ao leitor desavisado. O livro abre em devaneios (chega a ser engraçado quando o autor sugere fazer um suicídio, ao professor, para provar sua tese literária, o que , lógico, não foi aceito) ao sugerir que toda literatura poderia ser um ensaio futurista da vida do autor entrelaçada à trama escrita.

" É lógico que não falei da minha tese à velha japonesa. Só um louco como o professor, podia me levar a sério. Eu tinha estudado a biografia dos escritores em busca de fatos que dessem sustentação aos meus argumentos, e me servi de um amálgama de todas essas vidas para contar a ela um pouco da minha. Eu me fazia passar pelo sujeito cujos livros de alguma forma anunciariam o meu futuro. Mas o que ela não sabia era que, como eu não tinha escrito livro nenhum, também não podia antecipar o meu destino e que, por isso, sem outra motivação, terminei por abandonar a própria tese."

O protagonista de O sol se põe em São Paulo, cliente, desempregado, separado, morador se São Paulo recebe a pergunta à queima-roupa "Você é escritor?" da idosa dona de um restaurante japonês, a que frequenta desde os tempos da faculdade e que vai mudar sua rotina e rota de vida ao se permitir adentrar nos obscuros caminhos das letras e daquele pacto em se tornar o escritor de uma história de vida.

"No segundo encontro, depois de me perguntar sobre escritores japoneses que eu não conhecia (foi a deixa, porque o pouco que eu sabia era nomes, e mesmo assim os confundia, já não podia dizer quem era quem e quem tinha escrito o quê) e de me deixar com a sensação de que tinha posto tudo a perder, ela me disse que da próxima vez nos veríamos na sua casa. Estava pronta. Eu devia ter desconfiado desde o início que, ao contrário das expectativas mais plausíveis, tudo dependia da minha ignorância e não do meu conhecimento. Ela contava com a minha ignorância. Quanto menos eu soubesse sobre a literatura e os escritores japoneses, melhor para ela, mais à vontade ficaria para me contar a história. Eu era a pessoa que ela procurava, um mentiroso, alguém que só podia ser o que era não sendo. O que me abriu as portas foi provavelmente dizer que não conhecia o escritor de quem ela queria falar, fosse ele quem fosse. E foi preciso que ela desaparecesse, dois meses depois do nosso primeiro encontro, para que eu me visse obrigado a apelar a outras fontes e, passando por acaso pelo nome de um entre os vários escritores japoneses de uma lista de livros que eu nunca lera, acabasse ouvindo de um ex-colega de mestrado, que havia se especializado na obra daquele autor, que a minha história mais parecia um dos seus romances."

Neste cenário que envolve a história do Japão e do Brasil, o triângulo amoroso relatado pela idosa japonesa traz a história de Michiyo, Jokici e Masukichi, que envolve um pária, um primo do imperador e o escritor Junichiro Tanizaki, é igualmente a sua própria história de exílio e humilhação. Seu empenho em narrá-la até o final, em salvá-la do esquecimento a todo custo, é também a única chance de redenção que lhe resta. 

Bernardo Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. É escritor e jornalista. Seus livros foram traduzidos para mais de dez idiomas.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A descoberta do mundo - Clarice Lispector

A descoberta do mundo -
Clarice Lispector
Rocco, 1999

Transbordamento, esta a sensação de quem lê as letras do livro A descoberta do mundo, por parte de Clarice Lispector. Na verdade, toda a trajetória da autora construída em ordem cronológica, no cotidiano, no jornal do Brasil, de agosto de 1967 a dezembro de 1973. Não deixa de ser um extravazamento do que pensa a autora sobre os mais diversos temas simples e complexos da vida com a linguagem que até hoje não encontrei autor à altura de Clarice.

Insubstituível, Clarice Lispector é insubstituível !



A Rosa Branca

Corola alta: que extrema superfície. Catedral de vidro superfície da superfície, inatingível. Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e à nona se unem em coral - crianças sáias abrem bocas de manhã e entoam espírito, leve super´fície de espírito, superfície intocável de uma rosa.
Estendo minha mão esquerda que é mais fraca e delicada, mão escura que logo recolho sorrindo de pudor: não te poso tocar. Meu rude pensamento quisera poder cantar teu entendimento de elo e glória.
Tento liberar-me da memória, entender-te como te vê a aurora, como te vê uma cadeira, como te vê outra flor. (Não temas, não quero possuir-te.)
Alço-me, alço-me em direção de tua superfície que já é perfume. Alço-me até atingir minha própria tona, minha própria aparência  - empalideço nessa região assustada e fina, quase alcanço tua superfície divina... Numa queda ridícula caí.
Não abaixo minha cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dó-me o coração grosseiro como em amor por um homem. E das mãos tão grandes saem as palavras envergonhadas.

(A descoberta do mundo - Clarice Lispector - pág. 424)



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Clarice Lispector - saudade

Clarice Lispector

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que  presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

(Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo - Rio de Janeiro - Rocco: 1999)


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Luiz Ruffato - estive em Lisboa e lembrei de você

Luiz Ruffato -
 estive em Lisboa e lembrei de você
Companhia das Letras, 2009


estive em Lisboa e lembrei de você não foi presente. Comprei depois de uma conversa com um amigo que me relatou a maneira especial com que conheceu o autor Luiz Ruffato - em um voo, ao acaso -, com que trocamos sobre como anda a literatura no Brasil, novos e antigos autores, com que me fez pesquisar na rede o autor, suas entrevistas, e finalmente o livro "estive em Lisboa e lembrei de você". Não, também não estive em Lisboa mas ele esteve recentemente e certamente ainda não leu o livro (e nem contei que o adquiri) mas eu estou aqui, com o caro livro carinhosamente informado, adentrando nesta história que já se fez antes que dele, minha pois se um amigo encontra Luiz Ruffato e alegremente vem contar como foi esta história, sei que a literatura já faz parte de nossa caminhada e isto é compartilhar antes que livro, amizade.

Leitura leve, aprofundada no 'chão da fábrica', ou seria 'da vida'?!

O autor tece uma narrativa subjetiva entrelaçando os ambientes e personagens onde se constrói rapidamente a condição sócio-econômica do ambiente e seus vícios inerentes, oriundos de uma sociedade estagnada, que muitas vezes ama essa condição de estagnação por puro 'deixar-se ficar', assim como o passar de uma tarde de domingo, sem proposta concreta, sem perspectiva, visto a certeza da segunda-feira.

"Acendi um cigarro, ele trouxe uma garrafa de cerveja, dois copos, não podia ver ninguém bebendo sozinho, "Me dá aflição", brindamos, sumiu atrás da mulher, "Vou pedir pra ela fazer um tiragosto especial, 'xa com migo". Deste dia, rcordo borrões, a cheirosa maçã-de-peito acebolada, um esfomeado viralata desavergonhadamente submisso, o entra-e-sai de meninos e meninas magros e esfarrapados, "Seu Pimenta, me dá um litro de água-sanitária", "Seu Pimenta, a mãe mandou perguntar se o senhor pode vender uma garrafa de Coca-ola pra pagar no sábado", "Seu Pimenta, o senhor tem bomba-de-flit?". "Seu Pimenta, o pai pediu pra colocar isso na vaca"!Seu Pimenta, me dá uma caixa-de-fósforo" - seu Pimenta, o Chacon, levantava, entregava a mercadoria, anotava o fiado num bloquinho com papel-carbono, sentava, reavivava o colóquio, "Que nem o Flamengo de oitenta-e-um, nem o Santos de Pelé", nem o Santos!". No final da trde, o pessoal que labutava do outro lado da rua, virando areia e dimento, empurrando carrinho-de-mão lotado de massa pra uma construção no alto do barranco, apreceu, tomaram pinga, comeram jiló cozido e linguiça frita, jogaram conversa fora, e levei um baita susto quando acordei, o sol queimando a minha cara, terça-feira, no meu quarto na Taquara Preta, a cabeça latejando."


O livro relata a história de Serginho, em forma depoimento, nascido em Cataguases (MG), gravado em quatro sessões, sendo uma parte feita no Brasil, quando tinha vida de modesto operário da Seção de Pagadoria da Companhia Industrial Cataguases, quando tenta mudar de vida, parando de fumar. Namora 'amadoristicamente' e por azar do destino, engravida a visinha, Noemi, moça de idéia fraca que foi 'pega pelada em frente à Prefeitura' e que vendo ir para o brejo o casamento com Noemi, a exemplo do emprego, Serginho, de posse de umas raspas de herança deixada pela mãe, contempla o projeto de se bandear para Portugal, onde sacos de dinheiro estão supostamente à espera de quem não foge de trabalho duro.

"Resolvi explorar a experiência do seu Oliveira, que ultimamente, de dois em dois anos, viajava pra lá, encostei no balcão, pedi uma cerveja, um pratinho de azeitona, e desembainhei um questionário, "Como é que um sujeito chega em Portugal?", "De avião, ora pois", "Como é que é um avião por dentro?", "Apertado", "De onde sai o avião?", "Do Rio de Janeiro", "Quanto tempo demora a ida?", "Umas nove horas", "E a volta?", "Mesma coisa, ora pois", "Tem banheiro?", "Evidentemente", "Dá pra dormir?", "Até ronco", "Tem comida?", "A da TAP é boa", "E o país?", "O melhor lugar do mundo", "Onde um sujeito, que quiser ir, compra a passagem?", "Em Juiz de Fora", "Quando custa mais ou menos?", "Uns mil dólares, dependendo da época", "Mil dólares?", "Dependendo da época", "Que mais um sujeito, que quiser ir, precisa saber?", "Tem que tirar passaporte..", "Passaporte?", "Um documento universal", "Hum...", "E tem que trocar o dinheiro", "Onde o sujeito arruma o tal passaporte?", "Na Polícia Fedral, em Juiz de Fora", "E o quê que o senhor falou de dinheiro?", "Tem que trocar, levar euro", "E se o sujeito nem nunca viu um euro de perto?" "Guardo comigo umas notas, posso mostrar", e incentivou, com a minha cultura, a minha desenvoltura, a minha sáude, "Vá, Sérgio, empenhe-se, economize", pra, investindo em imóveis em Cataguases, garantir uma velhice tranquila, de papo-pro-ar, ..."

Que prosa!

Luiz Ruffato é autor do livro Leituras de Escritor (veja aqui postagem anterior).

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. De acordo com ele mesmo, já foi "pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista". Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a série Inferno provisório e o aclamado Eles eram muito cavalos, traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA e Machado de Assis.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Jo Van Gogh-Bonger - Biografia de Vicent van Gogh - por sua cunhada

Jo Van Gogh-Bonger -
Biografia de Vicent van Gogh -
por sua cunhada
"Seria realmente um livro notável se fosse possível ver em quantas coisas ele (Vicent) pensou,
e como ele sempre permaneceu fiel a si mesmo."
(Carta de Théo à sua mãe, 8 de setembro de 1890)

Jo Van Gogh-Bonger - Biografia de Vicent van Gogh - por sua cunhada - Seguido de Cartas de Théo a Vicent e de Cartas a Émile Bernard

Johanna van Gogh-Bonger expõe um retrato íntimo de Vicent van Gogh, reconhecido após a sua morte como um dos mais importantes pintores de todos os tempos, e que teve uma vida sombria, perpassada por crises de loucura e depressão, saga registrada na preciosa biografia escrita por sua cunhada, mulher de Théo, as cartas ao pintor e a correspondência de Vicent com o pintor Émile Bernard prefaciadas pelo filho Vincent Willen van Gogh (morto em 1974).

Compreender o contexto histórico cultural que Johanna vivenciou até a conclusão deste brilhante trabalho só se colocando como protagonista desta história em seu tempo histórico para saber a dimensão da façanha conseguida pela autora tão audaz:

15 de novembro de 1891.
Para dar (ao nenê) ar fresco e saudável, eu fui morar em Bussum - a fim de ganhar dinheiro para manter a nós dois, eu estou recebendo pensionistas -; agora devo tomar cuidado para não me deixar degradar ao nível de uma criada doméstica, com todas esta preocupações e tarefas que tenho de executar em casa; ao contrário, devo manter vivo meu espírito. Théo me ensinou muitas coisas a respeito da arte; não, é melhor que eu diga logo - ele me ensinou muitas coisas sobre a própria vida.
Além de cuidar da criança, ele me deixou outra tarefa a de zelar pela obra de Vincent - torná-la pública e fazer com que seja apreciada tanto quanto me for possível. Todos os tesouros que Théo e Vincent coletaram - a fim de preservá-los inviolados para a criança -, esta também é minha tarefa. Não é como se não tivesse um objetivo na vida, porém me sinto solitária e abandonada.

18 de novembro
Hoje, pela primeira vez, senti-me capaz de trabalhar de novo. Durante o primeiro semestre que passei aqui, tive de fazer um esforço tão grande somente para aprender as tarefas domésticas mais simples que não me sobrava tempo para pensar em nada mais.
De vez em quando, consigo ler alguma coisa - mas somente um romance comum ou um jornal. A "máquina doméstica" está agora em pleno funcionamento e, embora me conserve ocupada o dia inteiro, já não ocupa mais a totalidade de meus pensamentos e, pelo menos à noite, posso trabalhar de novo...

31 de março
Um dia lindo e ensolarado. Um melro está cantando alegremente na árvore que fica em frente a nossa casa. Como tudo isso me parece novo outra vez! - estes pássaros, flores e plantas. Só agora me dou conta que fui educada em uma casa na cidade e que nunca estive no campo quando era criança...

13 de maio
Domingo que vem será inaugurada a exposição de Vicent em Haia. O que nos trará esse dia? Satisfação ou desapontamento? Há quanto tempo eu venho esperando por ela; finalmente se tornará realidade...

"As cartas ocuparam um lugar muito importante em minha vida, desde o começo da doença de Théo. Na primeira noite solitária que eu passei em nossa casa, depois de retornar, eu peguei o maço de cartas. Sabia que nelas eu o encontraria de novo. Noite após noite, foram a minha consolação, depois daqueles dias horríveis."

"Quando me tornei a jovem esposa de Théo e entrei, no mês de abril de 1889, em nosso apartamento na Cité Pigalle, em Paris, encontrei, na parte inferior de uma pequena escrivaninha, uma gaveta chia de cartas escritas por Vicent e semana após semana, vi aumentarem de número os envelopes amarelos, sobreescritados com sua letra caraterística, que logo se tornaram bastante familiares para mim.

Após a morte de Vicent, Théo discutiu comigo o projeto de publicar estas cartas, mas a morte logo o levou também, antes que ele pudesse começar a execução de seu plano.

Passaram-se quase vinte e quatro anos desde a morte de Théo, antes que eu pudesse completar a publicação."


Johanna van Gogh-Bonger reproduziu este importantíssimo livro no começo do século XX e até então inédito no Brasil (cartas de Théo para Vicent e de Vicent para Émile Bernard) que revelam a saga, a vida, a enorme importância e o trágico destino dos irmãos Vicent e Théo van Gogh. São fatos e personagens (Gauguin, Pissarro, Degas, Monet, Lautrec e outros) que contribuíram com a definita revolução que mudou a cara da arte no final do século XX.

As cartas e a biografia de van Gogh foram traduzidas para o inglês pela própria Jo. As notas do tradutor William Guedes, que complementam e enriquecem esta edição, foram incluídas após os textos e são identificadas como "N. do T."; as notas de Vicent Willen van Gogh (o filho de Théo e Jo), que organizou a edição inglesa, foram incluídas como "N. do A.".


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van Gogh - Obra Completa de Pintura
Ingo F. Walther - Rainer Metzger
Taschen









sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Rubem Alves - Variações sobre o Prazer

Variações sobre o Prazer - Rubem Alves
[Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette]

"Morre e transforma-te"
(Goethe)

"A cobra que não consegue livrar-se de sua casca morre. O mesmo acontece com os espíritos que são impedidos de mudar as suas opiniões; eles deixam de ser espírito."

Feliz por  saber que não sou a única que vê a vida como um quebra-cabeça de peças mal encaixadas. Assim inicia o autor a definir um projeto que despretenciosamente tentou fazer na aposentadoria e deixar com carinho aos amigos e leitores: escrever um livro. Explica no primeiro capítulo o 'Por que não consegui terminar o livro', fazendo uma bela referência a insistência que o ser humano tem de por meta para seus anseios como se ao final, ao alcançá-los, houvesse a tão esperada felicidade e a surpresa de que na vida o caminhar é o sentido melhor de que possamos levar da vida pois é o momento do 'estar feliz' quando nos permitimos apreciar a paisagem.

A poesia nos torna mais sábios, retirando-nos do torvelinho agitado com que a confusão da vida nos perturba. Drummond, escrevendo sobre Cecília Meireles, disse: "Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos. Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito "uma certa ausência do mundo"? Do mundo como teatro, em que cada espectador se sente impelido a tomar parte frenética no espetáculo, sim; mas não, porém, do mundo das essências, em que a vida é mais intensa porque se desenvolve em um estado puro, sem atritos, liberta das contradições da existência".

"Pois é isso que a poesia faz: ela nos convida a andar pelos caminhos da nossa própria verdade, os caminhos em que mora o essencial. Se as pessoas soubessem ler poesia é certo que os terapeutas teriam menos trabalho e talvez suas terapias se transformassem em concertos de poesia!"

Lógico que a vida nunca é terminada, assim o autor constrói o livro que entitula interminável, com capítulos que se denominam "Contra o método". O livro fala da necessidade (Eliot bem o relatou) de se desfazer na vida do 'fazer, fazer, fazer': "Uma ostra feliz não produz", seu livro que o diga...

"Sou esse intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim..."
(Fernando Pessoa - [Álvaro de Campos] Obra poética, p. 413)

O autor fala de escolha pois não podemos ter tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de "abrir mão" - a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.

Fala do prazer de vivermos com os 'pequenos' prazeres, como cuidar de um jardim, ouvir uma música, reler um livro pois muitas vezes a novidade não agrega valor a felicidade. Segundo Eliot:

"E ao final de nossas longas explorações chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez..."

Sem prazer não se vive... transforma-se em um morto ambulante. A narrativa de Rubem Alves é exatamente assim, fragmentada, com a percepção de que estamos juntos a construir estas páginas mas buscando a sapiência não confundida com a ciência do conhecimento, tão comum nos dias atuais. Onde se encontra a sabedoria, pergunta o autor? Ausente, responde. Não é saber científico. Não pode ser mensurada. Poucos poetas perceberam que a sabedoria foi enterrada pelos saberes. Manoel de Barros o disse:

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os saibás divinam.
[...]
(Manoel de Barros - Livro sobre nada, pp. 53,68).

Sábio é o que adivinha.

A Áquila paira no topo dos Céus,
O Órion, com seus cães, percorre o seu circuito.
Ó revolução perpétua de estrelas fixas,
Ó eterno retorno das mesmas estações,
Ó mundo de primavera e outono, de nascer e morrer!
O círculo sem fim de ideia e ação,
De invenão sem fim, de experimentação sem fim,
Traz conhecimento do movimento, mas não da tranquilidade;
Conhecimento da língua mas não do silêncio;
Conhecimento de palavras, e ignorância da Palavra.
Todo o nosso conhecimento nos leva mais próximos da
nossa ignorância,
Toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte,
Mas uma proximidade da morte que não é a proximidade
de Deus.
Onde está a vida que perdemos no viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?
O círculos dos Céus em vinte séculos
Levam-nos para mais longe de Deus e para mais perto
do pó.

(The Complete Poems and Plays, p. 96, minha tradução).

Muito bonito o que Rubem Alves diz sobre consciência: uma superfície que reflete como um espelho as nuvens, o céu, as árvores, os pássaros, local onde vive os saberes. Saberes são reflexos do que existe lá fora, no mundo. Mundo... reflexo, tão somente.

Bem, o livro resgata o prazer desde os promordiais tempos em que Deus fez os Jardins do Éden e simplesmente deixou-se contemplar. Falta ao homem viver esta contemplação em vida, este gozo no viver. Simplesmente adorar, por puro prazer.

Sempre que leio Rubem Alves (aqui Do Universo à Jabuticabeira) consigo imaginá-lo debruçado quase perdido sobre uma pilha de livros a escolher a melhor citação, o melhor trecho. Bem autêntico!  Um homem especial, que  bem soube encaixar a literatura à vida, aos amigos, ao mundo, levando leveza, poesia... transformou a literatura em um imenso prazer que bem soube gozar (ou goza) em vida.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A riqueza do mundo - Lya Luft



O que não é banal

O lixo na praia
a mulher parindo na calçada,
as multidões enlouquecidas,
as ilhas dos amantes.
Por um instante
a gente desliga os aparelhos
e vive.

Na luz que se filtra na mata,
poeirinhas, polens, saliva de fada
que ri à toa,
ou caspa de duende armando suas artes.
A ventania chega atropelando tudo:
recolhem-se crianças e coisas
e se olha a tempestade atrás da janela.

Logo ali o grande mundo mói a vida
com suas engrenagens cruéis:
mas aquele momento, naquela redoma
de vidro simples na chuva cotidiana,
ali é o castelo da Bela Adormecida
ou a casa dos sete anões.

(Nada é banal.
A gente é que esquece.)


"escrevo sobre o que nao sei direito", "escrevo para entender melhor e para dividir meus assombramentos com meu leitor" costuma dizer a autora do livro A riqueza do mundo, Lya Luft.

A riqueza do mundo, de Lya Luft é um livro áspero e poético, sempre questionador. Uma coletânea de ensaios breves, crônicas, artigos, não acadêmicos onde são abordados temas como o drama existencial humano, perplexidades, família, autoridade, guerras, miséria, política, entre outros. Como é vista a riqueza do mundo, seja natural, intelectual ou artísitca, afetiva ou econômica é tema indiscutível do livro.

Lya Luft é formada em Letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, foi educadora, atua como tradutora de alemão e inglês desde os 20 anos e já verteu para o português obras de autores consagrados como Virginia Woolf (ver aqui postagem de Entre os Atos), Gunter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 para Lete: Arte e crítica do esquecimento, de Harald Weinrich. É autora de uma infinidade de livros: As pareiras (1980), A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), Mulher no palco (1984), O quarto fechado (1984), Exílio (1987), O lado fatal (1988), A sentinela (1994), O rio do meio (1996 - Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes), Secreta irada (1997), O ponto cego (1999), Histórias do tempo (2000), Mar de dentro (2002), Perdas - Ganhos (2003), Pensar é transgredir (2004), Histórias de Bruxa Boa (2004), A volta da Bruxa Boa (2007), literatura infantil, Para não dizer adeus (2006), poesia, Em outras palavras (2006, crônicas, O silêncio dos amantes (2008), contos, Criança Pensa (2009), literatura infantil, parceria com Eduardo Luft, Múltipla Escolha (2010), Ensaios.

"E quando tudo me aborrecer de
verdade, quando eu ficar cansada
de minhas neuroses e manias,
quando as pessoas estiverem
demais distraídas, a paisagem
perder a graça, a mediocridade
instalar seu reinado e anunciarem
o coroamento da burrice - vou
espiar o letreiro que fala de uma
riqueza disponível para qualquer
um, e que botei como descanso de
tela no meu eternamente ligado
computador:
Escute a canção da vida."

Lyft, Lya,1938 - A riqueza do mundo - Rio de Janeiro: Record, 2011.

domingo, 27 de novembro de 2011

Alberto Moravia - Contos romanos


Contos romanos - Alberto Moravia
Berlendis & Vertecchia, 2002

O Palhaço

Naquele inverno, só para fazer alguma coisa, comecei a vagar pelos restaurantes tocando violão enquanto meu companheiro cantava. O companheiro chamava-se Milone apelidado "o professor" porque ensinara ginástica sueca. Tratava-se de um homenzarrão de mais ou menos cinquenta anos, não exatamente gordo, mas quadrado, com um rosto denso e ameaçador e um corpaço maciço que fazia com que as cadeiras rangessem quando se sentava. Eu tocava o violão do meu jeito, isto é, quase sem me mexer, com os olhos baixos, porque sou um artista e não um bufão; quem bancava o palhaço, ao contrário, era Milone. Começava meio sem querer, em pé, ereto, apoioado a uma parede, o chapeuzinho em cima dos olhos, os polegares sob a axila, a barriga fora das calças, o cinto embaixo da barriga: parecia um bêbado cantando ao luar. Depois, pouco a pouco, esquentava e, mesmo sem cantar de verdade, porque não tinha voz nem ouvido, acabava dando um espetáculo de si mesmo, ou melhor, como eu já disse, bancava o palhaço. Sua especialidade eram cançõezinhas sentimentais, as masi famosas, as quem normalmente comovem e enternecem, porém na sua boca aquelas canções nao comoviam, mas fazim rir, proque ele sabia torná-las ridículas, de um jeito todo seu, desagradável e triste. Eu não sei o que tinha aquele homem; se na juventude alguma mulher tinha aprontado com ele; ou talvez ele tivesse nascido daquele jeito, com um caráter que se comprazia em tornar ridículas as coisas boas e bonitas; o fato é que ele não era só um ator cômico, não, ele colocava não sei que raiva no que fazia e era necessária toda a obtusidade das pessoas enquanto comem para não perceberem que ele não era ridículo, mas dino de penas. Superava a si mesmo sobretudo quando se tratava de imitar os movimentos, as caretas e as afetações femininas. O que faz uma mulher, sorri maliciosamente? E ele, por baixo da aba do chapéu, esboçava um riso de escárnio, vulgar, de prostituta. Requebrava, como se diz, um pouco os quadris? E ele começava a dança do ventre, jogando para o lado as nádegas quadradas e maciças como um pacote. Tinha uma voz suave? E ele, apertando a boca, emitia uma voz de flauta, melosa, quase estomacal. Nunca tinha medida, ultrapassava sempre o limite, tornava-se obsceno, repugnante. De tal maneira, que eu sempre me envergonhava, porque uma coisa é acompanhar um cantor ao violão, outra coisa é servir de muleta a um palhaço. Eu me lembrava de ter tocado não muito tempo atrás as mesmas músicas cantadas seriamente por um excelente artista; e sentia pena de vê-las reduzidas àquilo, irreconhecíveis e indecnetes. Falei com ele numa ocasião em que estávamos batendo perna de rua em rua, de um restaurante a outro. "Mas o que as mulheres fizeram para você?" Normalmente, depois que bancava o palhaço, ficava distraído e sombrio, sabe-se lá com que pensamentos rodando pela sua cabeça. "As mulheres não me fizeram nada." "Eu estou dizendo isso", expliquei, "porque voê tira sarro delas com gosto." Desta vez ele nao disse nada e a conversa acabou por aí.
Teria abandonado Milone se nao tivesse mais interesse por ele; porque, ainda que possa parecer incrível, ele conseguia mais dinheiro com as suas vulgaridades do que muitos excelentes músicos ambulantes com as suas belas canções. Vagávamos principalmente por aqueles restaurantes não propriamente de luxo, quase cantinas, caseiros, mas caros, onde as pessoas vão para encher a pança e se divertir. logo que entrávamos, eu, muito de leve, dedilhava o violão, das mesas abarrotadas ouvia-se um só grito: "olha o professor... o professor está aí... venha até aqui, professor". Carrancudo, debochado, desvairado, puxa-saco, Milone se apresentava, dizendo: "Podem pedir", e aquele "podem pedir" já era tão ridículo ao seu modo, que todos morriam de rir. nisso chegava o macarrão e, enquanto o dono do restaruante esfalfava-se para servir, Milone, com uma voz idiota, anunciava: "Uma canção muito bonita: Quando Rosina desce do vilarejo... eu vou fazer a Rosina" Imaginem os clientes: quando o viam representando Rosina, com as gagues e as obscenidades de sempre, ficavam com os espaguetes pendurados no garfo, entre a boca e o prato. E não se tratava de grupos de açougueiros ou coisa parecida, eram todos grã-finos: os homens de terno azul escuro, engomados, uma pérola espetada na gravata; as mulheres de casaco de pele, cobertas de jóias, delicadas, preciosas. Falavam entre si, enquanto Milone bancava o palhaço: "É bom... é realmente bom", ou até mesmo alguém, alarmado, gritava: "Atenção, não contem por aí que nos o descobrimos... se não a coisa desanda". Entre as suas vulgaridades, Milone tinha uma canção em que, em uma determinada hora, para tornar o personagem mais ridículo, fazia com a boca um certo barulho que eu nem lhes conto. E você acreditam? Eram exatamente as madames mais afetadas que pediam bis para esta música.
É preciso dizer que, por ser ver tão aplaudido, o sucesso tinha subido à cabeça de Milone. Morava na casa de uma costureira, em um quarto mobiliado, escuro e úmiod, na via Cimarra. Agora, todas as vezes que eu ia pegá-lo alguma nova grosseria, uma nova vulgaridade. Acrescentava um certo escrúpulo mórbido, como se se tratasse de um grande ator preparando-se para a apresentação;  e eu, sentado na cama, olhando-o simular a dança do ventre na frente do espelho da cômoda, perguntava-me se, pro acaso, ele não fosse meio louco. "Mas não seria hora", perguntei-lhe num certo dia, "de inventar alguma coisa graciosa, comovente?" E ele:"´pra ver que você não entende nada... as pessoas quando comem querem rir e não se comover... e eu", acrescentou rancoroso, "faço elas rirem". Algum tempo depois, sempre por causa dessa mania de se aperfeiçoar, inventou de levar em uma maleta algumas roupas femininas pro exemplo, um chapeuzinho, uma echarpe, uma sainha para vestir na hora, para tornar a paródia mais cômica ainda. Esta idéia de travestir-se de mulher, nele, era quase uma mania; não podem imaginar que dureza era vê-lo chacoalhar-se com o chapeuzinho sobre os olhos e a saia amarrada na cintura, por cima das calças. Finalmente, não sabendo mais o que inventar, sugeriu que eu também bancasse o palhaço, mesmo continuando a dedilhar o violão. E aí eu me recusei.
Percorríamos o mairo número de restaurantes que conseguíamos, do meio-dia às rês e das oito às meia-noite. Visitávamos vários, dependendo do dia: um dia os restaurantes dos lados da piazza di Spagna; um dia aqueles ao redor da piazza Venezia; outro dia os restaurantes de Trastevere, outro dia ainda aqueles próximos da estação de trem. Entre um restaurante e outro, sempre correndo pelas ruas, não conversávamos: não havia intimidade entre nós. No fim da noite, íamos a uma cnatina e dividíamos o dinheiro. Depois, em silêncio, eu fumava um cigarro e Milone bebia um quarto de vinho. à tarde, Milone ensaiava os seus números à frente do espeçho; eu, por minha vez, dormia ou ia ao cinema.
Em uma noite de muito frio, depois de ter rodado as trattorias de Tratevere, entramos, mais para nos aquecermos do que para tocar, numa cantina atrás da piazza Mastai. Tratava-se de um espaço comprido, quase um corredor, com as mesas alinhadas ao longo da parede e, nas mesas, quase só gente pobre, bebendo vinho da casa e omendo comida embrulhaa me jornal. Não sei por que, a vaidade, já qeu não podia ser interesse, levou Milone a se exibir também naquela cantina. Escolheu então uma das suas músicas mais bonitas e, com os modos de sempre, reduziu-a, à força dos escárnios e das contorções, a uma porcria. Logo que acabou, recebeu um aplauso bastante frio e depois, de uma daquelas mesas, escutou-se uma voz: "Agora, quem vai cantar esta música sou eu".
Virei e vi que se aproximava um rapaz loiro, com um macacão de mecânico, bonito como um anjo, olhando para Milone com olhar furioso, como se quisesse comê-lo. "Você, comece a tocar", disse-me com autoridade, "do início." Milone, fingindo que estava candsado, deixou-se cair em uma cadeira perto da porta. O rapaz me fez sinal com a mão para começar e então se pôs a contar. Não digo que ele cantasse como um verdadeiro cantor, mas cantava com sentimento, com uma voz bonita, quente e tranquila, enfim, cantava como se deve cantar e como a música pedia para ser cantada. Além disseo, como eu já disse, era bonito, com aqueles seus cachos, especialmente se comparado a Milone, tão maciço e sórdido. Cantava virado para a cantina, olhando para uma mesa onde estava sentada uma moça sozinha, como se estivesse cantando para ela. Quando terminou, fez um gesto para Milone, com a mão estendida, como se dissesse: "è assim que se canta", e voltou para a mesinha onde o esperava a moça, que em seguida colocou os braços em volta do seu pescoço. Na cantina para dizer a verdade, aplaudiram por que ele tinha se incomodado em cantar. Mas eu o entendera; e, desta vez, Molone também tinha entendido.
Enquanto eu tocava, olhara frequantemnte para Milone; tinha visto ele passar muitas vezes a mão no rosto e sob os cabelos que lhe caíma na testa, como quem não está suprotanto ficr acordado e está caindo de sono. Mas não conseguia esconder uma expressão amarga que eu nunca tinha visto; a cada nova estrofe que o moço acertava, parecia que sua amargura crescia. Finalmente se levantou, espreguiçando-se e fingindo que bocejava e disse: "Bem, está na hora de ir dormi... estou com um sono...".
Despedimo-nos na esquina, com o habitual encontro marcado apr ao dia seguinte.  O que aconteceu durante a noite, reconstruí depois, mas são suposições. Eu disse que o sucesso tinha subido à cabeça de Milone, imaginando ser sabe-se lá que grande artista quando na verdade era um pobre coitado que bancava o palhaço para divertir as pessoas enquanto comim; de modo que foi grande o tombo que aquele rapaz doiro de macacão lhe deu com o seu gesto. Acredito qeu, enquanto o rapaz cantava, de repente, deve ter visto a si próprio como era e não como tinha aé então acreditado ser: um homenza~rrão de cinquenta anos que colocaa um babador e recitava a Vispa Teresa. Mas acho também que ele se julgava incapaz de cantar, mesmo tendo feito um pacto com o diabo. Ele, em suma, só conseguia fazer rir ridicularizando certas coisas. E estas certas coisas, por coincidência, eram exatamente aquelas que ele, na sua vida, nunca tinha conseguido ter.
Mas, como eu disse, são suposições. O certo é que a costureira que lhe alugava o quarto no dia seguinte o encontrou enforcado entre a janela e a cortina, no lugr em que geralmente ficavam penduradas as gaiolas doa passarinhos. Foram algunas transeuntes a notá-lo, da via Cimarra, vendo, através dos vidor, as pernas e os pés balançando no vazio. Despeitado como todo suicida, tinha fechado a porta à chave e apoiado na porta a cômoda com o espelho: talvez quisesse se ver, como quando ensaiava, enfiando o pescoço no laço. Em suma, tiveram que arrombar a porta, o espelho caiu e se quebrou. Levaram-no ao cemitério Verano e eu fui o único que o acompanhou, desta vez sem violão. A costureira recolocou o espelho, mas se consolou vendendo, a uma certa quantia o metro, a corda.

(O palhaço - págs, 72-79 - Alberto Moravia - Contos Romanos)

Alberto Moravia (Roma, 1907-1990) desde muito jovem tornou-se um escritor famoso e um jornalista de primeiro plano, um dos mais importantes escritor italiano do século XIX. Muitos de seus romances tornaram-se filmes de sucesso. Contos romanos é semelhante a um tabuleiro de que os personagens são peças, um pouco esquesitas em seus diferenes vícios, feiúras e deformidades, com as quais Moravia desenvolve o seu peculiar jogo literário, não com pouca comicidade derivada do desajuste dos protagonistas e da repetição das situações. O livro apresenta ainda umas da localização do histórico das referências dos contos.
Contos romanos /Alberto Moravia ; apresentação Loredana Caprana ; tradução Alessandra Caramori ; Ilustrações Marco Giannotti ; revisão da tradução Eugenio Vinci de Moraes. - São aulo : Berlendis & Vertecchia, 2002. (Letras Italianas)

Bem, outros palhaços continuam por lá, ou seria por cá... é só conferir por aqui!

sábado, 26 de novembro de 2011

Presente de um Poeta - Pablo Neruda




"Por ti junto aos jardins cheios de flores novas
me doem os perfumes da primavera.
Esqueci o teu rosto, não me lembro de tuas mãos,
como beijam os teus lábios?
Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques,
as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.
Esqueci tua voz, tua voz alegre, me esqueci dos teus olhos.
Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança
imprecisa. Estou perto da dor como uma ferida,
se me tocas me farás um dano irremediável.
Não me lembro mais do teu amor e no entanto te advinho
atrás de todas as janelas.
Por ti me doem os pesados perfumes do estio:
por ti volto a espreitar os signos que precipitam os desejos,
as estrelas em fuga, os objetos que caem."

De Para nacer he nacido

Presente de um poeta / Pablo Neruda; tradução de Thiago de Mello; pinturas de Dafni Amecke Tzitzivakos.

Edição: Lidia María Riba
Colaboração literária: Emilia de Zuleta
Desenho: Renata Biernat
Direção de arte: Trinidad Vergara
Neruda, Pablo, 1904-1973.
Pinturas de Dafini Amecke Tzitzivakos.
Cotia, SP: Vergara & Riba Editoras, 2004. (Coleção Melhor dos melhores)
Título original: Regalo de um poeta.
1a reimpr. da 3a. ed. de 2003.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vou chamar a polícia - Irvin D. Yalom



Irvin D. Yalom, 1931 - Vou chamar a polícia: e outras histórias de terapia e literatura / Irvin D. Yalom ; [tradução Lucia Ribeiro da Silva, Mauro Pinheiro]. - Rio de Janeiro: Agir, 2009.

O livro aborda temas complexos como a jornada do homem à busca de sua essência mas o faz de maneira farta em palavras que o autor doa em vida através de sua obra existencial que literalmente retira de sua caminhada, experiência e troca com o outro seja um amigo, um livro (para não falar alguns) escrito ou um divã.

Esse sujeito, ser em alta produtividade no mundo atual, que ao falar e identificar suas raizes de seus sintomas, embora silenciado pela ciência (o médico já não é um profeta na era moderna), nunca deixou de viver nas tradições orais, nas narrativas épicas e mitológicas, na poesia e no romance moderno - de Dom Quixote a Harry Potter. O que convencionamos chamar de literatura evidencia a necessidade que tem o homem de dar uma forma a seu sofrimento e de compreender melhor a complexidade dos dramas que o afligem. Médicos que se transformaram em escritores famosos, como Guimarães Rosa, Tchekhov, Conan Doyle, mesclam em seus escritos a vivência originada da medicina, a cuja prática ele foi compelido por circunstâncias familiares, e seu sonho adolescente de um dia se tornar um romancista.  Assim, Yahom investiga a relação entre a ficção e as histórias contadas por seus pacientes. As confissões que fazemos em uma sessão de terapia - a reconstrução de nossas vidas - pertencem ao terreno da verdade ou têm parentesco com a ficção? Nossas lembranças têm uma precisão fotográfica ou são interpretações subjetivas de acontecimentos passados? A realidade tem uma natureza objetiva ou é sempre única, impossível de ser compartilhada, fruto do psiquismo de cada um?

Nesta coletânea o autor resgata sua dívida com os grandes ficcionistas e pensadores, que jamais deixaram de considerar os nosso conflitos e a busca de um sentido para eles como inerentes à condição humana, independentes dos rumos da ciência e do saber acumulado nos laboratórios. Trabalha assim,  entre outros, por Epicuro, Sófocles, Shakespeare, Tólstói, Dostoiévski, Nietzsche, Sartre e Camus, Irvin Yalom transforma, por um lado, a fala de seus pacientes, em narrativas que a sensibilidade de clínico e as qualidades de escritor aproximam dos melhores romances. Um autor incomum.

"Paul e eu éramos muito amigos. Quando soubemos de um levante de judeus contra os nazistas na Eslováquia, resolvemos entrar para a Resistência de lá. Como eu não falava eslovaco, ele achou melhor ir na frente para sondar a situação. Se as perspectivas lhe parecessem boas, encontraria um canal clandestino e voltaria a Budapeste para me buscar. Fui com ele à principal estação ferroviária da capital e, quando o trem partiu, eu tinha certeza de que tornaria a vê-lo dali a umas duas semanas. Só que nunca mais o vi. Procurei notícias de Paul depois da guerra, mas não consegui o menor vestígio. Tenho certeza de que os nazistas o mataram."

"- A gente se acostuma, Irv; é difícil acreditar, mas a gente se acostuma. Hoje em dia, nem eu consigo acreditar que em algum momento aquilo aconteceu, mas, na verdade, houve época em que isso acontecia diariamente. Assisti a vários desses fuzilamentos em massa e sabia que, mesmo que os tiros não fossem fatais, as vítimas não teriam como escapar da morte depois de serem lançadas na água gelada."

(leia um capítulo aqui)

Desenhando o mapa da nossa vida psíquica construído por caminhos tortuosos, que Irvin D. Yalom tenta descortinar com sua narrativa em textos como "Vou chamar a polícia", que dá nome ao título do livro, descortina ainda, a posição do terapeuta, sua sinceridade, a exposição de seus próprios sentimentos, os limites de seu envolvimento com os pacientes e os benefícios de analisar, os resultados de cada sessão de terapia. Irvin oferece ao leitor os caminhos que trilhou ao longo de sua carreira seja como pedagogo, psiquiatra ou célebre romancista, autor do livro Quando Nietzsche Chorou, já resenhado aqui no blog.

Irvin D. Yalom nasceu em 1931, em Washington, D.C. Seus pais eram imigrantes russos que se estabeleceram nos Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Desde criança, Yalom demonstrava profundo interesse pelos livros. Talvez tenha vindo daí sua paixão pela escrita e a vontade de transofrmar em narrativa o precioso material que seu trabalho como psiquiatra lhe daria. Atualmente é professor emérito de Psiquiatria da Universidade de Stanford. No Brasil foram publicados, de sua autoria, Quando Nietzsche chorou, A cura de Schopenhauer, Mentiras no divã, Os desafios da terapia, O carrasco do amor, Mamãe e o sentido da vida e De frente para o sol.

(Volto... fui ali comer uma pizza de banana que hoje é sexta-feira e a semana foi difícil... e lógico, ler o livrinho que como a pizza está quentinho quentinho - acabou de chegar!)

Uau! Maravilhoso o livro! parada somente para um cafezinho de chaleira. Resgatando questões antigas... Muito bom!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Eu tomo conta do mundo - Clarice Lispector

Clarice Lispector

"Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo teraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante à noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho,  se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.
Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapose magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.

Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas."
(A descoberta do mundo - Clarice Lispector).

"Se não for prá te adorar... para que nasci..."




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Antônio Lobo Antunes - 60 crônicas - As coisas da vida



Antônio Lobo Antunes
As coisas da vida
60 crônicas


As pessoas crescidas

"As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcadas na parede pelo lápis da mãe. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu garinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e a autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de cintos.

Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinham o riso desmontável: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir no almoço, com uma escovinha especial. Acontece-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a troçarem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas."


Sessenta crônicas, assim tecidas pela narrativa de Lobo, o Antônio Antunes. Um charme construído como sua trajetória de riquíssima vida. Ser cronista, uma faceta menos conhecida do autor, porém uma seleção de sessenta textos já publicados principalmente no jornal Público e na revista Visão de Portugal, um escritor diferente e genial.

Ele fala de si, de relacionamentos e despedidas, num completo entrelaçamento entre realidade e ficção. Como resultado, cria textos brilhantes, em que pequenas passagens da vida ganham dimensão universal. As crônicas são organizadas em sete grandes temas - infância, literatura, relacionamentos amorosos, humor, cenas do cotidiano, guerra em Angola e memórias.

Antônio Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa. Formado em medicina, com especializaçao em psiquiatria, serviu como médico do Exército português em Angola nos últimos anos da guerra naquele país, entre 1970 e 1973.

Autor de uma obra extensa, de repercussão mundial, Lobo Antunes recebeu diversos prêmios literários, como o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1999, por Exortação aos crocodilos. Em 2007, recebeu o Prêmio Camões de literatura, o maior reconhecimento dado a um autor de língua portuguesa vivo, e, em 2008, o Prêmio Juan Rulfo.

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