sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Marisa Lajolo - Monteiro Lobato - um brasileiro sob medida

Apaixonado, idealista, irônico, rabugento, sonhador, radical, contraditório... Monteiro Lobato é um pouco como todos nós, brasileiros. Ora assumindo posições polêmicas, ora se antecipando a seu tempo, ele é, acima disso tudo, o criador de uma das mais belas utopias brasileiras - o Sítio do Picapau Amarelo, livro que li para os filhos e pretendo que chegue a muitas e muitas outras gerações. Em estilo coloquial, com texto envolvente e bem-homorado, esta biografia é sob medida para o leitor contemporâneo mergulhar na vida e na obra de Monteiro Lobato, um brasileiro sob medida.

Cresci lendo Monteiro Lobato. Muito de minha criatividade e liberdade de pensamentos devo a seus textos que levam a reflexão, ultrapassa limite temporal. Meu primeiro livro de Monteiro Lobato foi a Chave do Tamanho, lido na escola. Lembro que o livro me impressionou muito. Levava temas como paz mundial ao universo infantil.

Para Maria Célia Paulillo, em artigo científico: "Ao longo dos anos, a história da literatura fixou uma imagem multiforme e um tanto contraditória de Monteiro Lobato. De uma lado, afirma-se o escritor inventivo, considerado o criador de nossa literatura infantil; de outro, configura-se o crítico de pintura que tripudiou sobre os quadros inovadores da pintora modernista Anita Mafalti; ora cita-se o fazendeiro que ridicularizou seus agregados na figura do Jeca Tatu, ora exalta-se o cidadão progressista defensor do petróleo nacional. O novo livro de Marisa Lajolo, Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida, vai além dessa imagem, mostrando que a carreira poliédrica do escritor foi fruto de uma visão de mundo arrojada e moderna, sempre em perfeita sintonia com o seu momento histórico."

Segundo ainda a pesquisadora "Sempre atento a sua realidade, Lobato soube incorporar, em uma obra ficcional pautada pela fantasia e pelo humor, informações muitas vezes coincidentes com o currículo escolar. Em contraposição à escola convencional, alvo de freqüentes críticas das personagens lobatianas, o Sítio do Pica-Pau Amarelo surge como uma escola alternativa. Nela, conhecimentos de gramática, matemática, geologia e até rudimentos de uma política nacionalista de petróleo são veiculados e assimilados de forma crítica, independente e freqüentemente questionadora, especialmente quando a relação de ensino-aprendizagem se dá entre Dona Benta e a discípula Emília.



Nos anos 40, quando ainda nem se pensava em Mercosul, o autor acalentou um desdobramento latino-americano de sua obra, por meio de um projeto em que a história da América fosse contada às crianças pelo vulcão andino Aconcágua. O projeto, que não chegou a ser implementado, é inovador e ousado, tanto no plano intelectual como editorial. Primeiro, porque propõe um novo modo de contar a história da América, isto é, a partir de um ponto de vista diferente do colonizador europeu. Segundo, porque procura ampliar o mercado de leitores, atingindo um público além de nossas fronteiras."

Como já dizia Monteiro Lobato: "um país se faz com homens e livros"! Vida longa a literatura Lobatiana!


Sobre a autora: Marisa Lajolo nasceu e vive em São Paulo e cursou Letras na Universidade de São Paulo, onde também concluiu Mestrado e Doutorado. É Professora Titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, onde - com apoio do CNPq e da Fapesp - coordena o projeto Memória de Leitura (http://unicamp.br/iel/memoria) em cujo bojo foi realizada parte da pesquisa da qual resultou este livro. Publicou A formação da leitura no Brasil, Do mundo da leitura para a leitura do mundo, A leitura rarefeita, Literatura infantil brasileira: história e histórias, além de ter organizado inúmeras antologias e publicado artigos em revistas especializadas no Brasil e no exterior.

Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil 2000: Livro altamente recomendável.

Monteiro Lobato : um brasileiro sob medida / Marisa Lajolo. - São Paulo : Moderna, 2000. Projeot Gráfico Moema Cavalcanti.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Da Preguiça como Métodos de Trabalho - Mário Quintana

Para Mário Quintana, o leitor não deve ser desperto, pois eles são, "por natureza, dorminhocos. Gostam de ler dormindo".

Num país como o nosso, ninguém é levado a sério com ideias originais: "O lugar-comum é a base da sociedade, a sua política, a sua filosofia, a segurança das instituições". Ainda na crônica inicial do livro há referência ao leitor "semidesperto" e um ambíguo elogio: "A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro".

Da preguiça como método de trabalho, de Mário Quintana é uma obra com estilos variados, inclassificável. Surpreendente, despretensioso. Chega mansamente e ao final deixa o leitor deslumbrado. Mário Quintana reúne uma miscelânea com contos, aforismos, crônicas, fábulas, trovas, comentários e entrevistas. Cócegas para o cérebro. A ternura, presente na vida e obra do poeta, extensão certa aos amigos como Cecília Meireles, Érico Veríssimo e Manuel Bandeira. É só conferir no obra. Quintana, poeta em tempo integral. Onde a preguiça?

"O verdadeiro poeta, tudo quanto ele toca, se transforma em poesia."

Mário Quintana é um desses raros poetas. Como não quer nada, vai traçando sua poética visão de vida. Com leveza, senso de humor e simplicidade, escreve um livro que é bom ter por perto. Afinidade imediata. Como quem conquistou um amigo, ou quem sabe, foi cativado.

"Um engano em bronze é um engano eterno."
(Mário Quintana)

Coleção Mário Quintana, Organização, plano de edição, cronologia e bibliografia: Tania Franco Carvalhal, Fixação de texto: Lucia Rebello e Suzana Kanter

Quintana, Mário, 1906-1994. Da preguiça como método de trabalho / Mário Quintana; [prefácio Carlos Jorge Appel] - 2. ed. - São Paulo : Globo, 2007. - (Coleção Mário Quintana)
A Rua dos Cataventos / Canções / Sapato Florido / O aprendiz de Feiticeiro / Espelho Mágico / Apontamentos de História Sobrenatural / Esconderijos do tempo / Baú de Espantos / A Cor do Invisível / Caderno H / Porta Giratória / Da Preguiça como Método de Trabalho / A Vaca e o Hipogrifo / O Batalhão das Letras / Preparativos de Viagem / Velório sem Defunto / Nova Antologia Poética / 80 Anos de Poesia

domingo, 24 de outubro de 2010

Contos Brasileiros 2 - para gostar de ler


Os autores de Contos Brasileiros 2 mostram que para criar uma boa história é preciso entender bem sua matéria-prima, o próprio ser humano. Às vezes com humor, outras com pessimismo, com os dois pés no chão ou com a cabeça na lua, esses contadores de histórias retratam sua realidade e abrem espaço para que os leitores tirem suas próprias conclusões.

Através de "Contos Brasileiros 2" fica retratado que a difícil arte de escrita pode ser percebida de diferentes formas por seus autores.

Para Machado de Assis as ideias são como nozes: para saber o que o que está dentro de uma ou de outra, é preciso quebrá-las. Só assim tomam forma, se transformam desde poesias até grandes romances. 

João Antônio vive os fatos antes de escrevê-los; não consegue inventar histórias e personagens que não tenham acontecido ou existido na realidade.

Lygia Fagundes Telles vê o escritor como um lutador de boxe, enfrentando lutas com muita paciencia, humildade e até humor. Nos descaminhos dessas lutas é que se percebe a inspiração e até a vocação verdadeira. Murilo Rubião também pensa de forma parecida: quando cria uma história, o escritor precisa passar por uma tremenda luta com a palavra, rasgando papel e revirando o texto...

Clarice Lispector pensava quando criança pensava que os livros nasciam como árvores ou como pássaros. Ao descobrir que existiam autores, e que eram eles os responsáveis por todas as ideias presentes nos livros, decidiu que seria escritora, e assim transmitiria todos os seus pensamentos na forma de palavra escrita.

Estes e outros escritores como Murilo Rubião, Wander Piroli e Moacyr Scliar revelam modos de transofrmar pensamentos em letra corrida, em contos que trazem ótimos momentos de leitura. De maneira e estilos diferentes eles mostram uma característica - e uma ideia - comum: a maestria e a paixão pelo ato de escrever.

Cem anos de perdão, A armadilha, Trabalhadores do Brasil, Dezembro no bairro, Macacos, Festa, Meninão do Caixote são alguns dos contos apresentados neste simples e não menos importante livro.

Boa leitura!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Antônio Alvarez Parada: Meu nome, crianças, é Macaé




Quem não conhece a história da cidade de Macaé (RJ) é uma boa oportunidade através deste raro livro, "Meu nome, crianças, é Macaé", de Antônio Alvarez Parada. História contada com graça, o livro tem uma leveza e alegria de escrita peculiar de seu autor.

"Mas, aqui prá nós, pois ninguém nos ouve. Eu mesma, sinceramnte, não gosto do apelido. De Princesinha do Atlântico talvez quantas outras cidades, daqui ou do estrangeiro, sejam chamadas! Mas Macaé, não. Macaé só eu. Modéstia à parte."
"Mas o que fazer, se até oficialmente, legalmente, eu sou a Princesinha do Atlântico? Nâo podendo fugir do apelido, vá lá! Sou princesa."
"Quero, porém, ao me verem assim promovida a princesa, que me enxerguem como sou. Princesa índia, pois foi dos índios minha origem. Negros e lisos são meus cabelos, como negros são meus olhos. E morena minha pele."

Parece que a leitura agrada a criancinhas e não somente. O livro é estudado por universitários do país e tem artigos científicos que fazem estudo específico ou referência ao mesmo.

Antônio Alvarez Parada com toda a humildade que só um grande homem possui, já inicia esclarecendo que 'na falta de conhecimentos mais profundos, de escrever algo realmente digno do título de História de Macaé', por isso, 'o jeito era contar histórias de Macaé.' Relata ainda que 'é um livro para crianças, na dedicatória, na linguagem, na profundidade. Ou, ao menos, teve essa intenção'. Bom, isto é verdade, pois conseguiu atingir a criança que existe em todo macaense ou aquele que teve ou tem a possibilidade de aqui nesta linda terra estar.

Seja através do incentivo dos amigos, empresarial ou próprio, A A Parada conseguiu transformar uma leitura que poderia ter sido científica em uma leve história para a criança que fomos, somos ou pretendemos ser. 

sábado, 16 de outubro de 2010

José Saramago - Biografia

José Saramago - Biografia

"Olho de cima da ribanceira a coragem que mal se move, a água quase estagnada, e absurdamente imagino que tudo voltaria a ser o que foi se nela pudesse voltar a mergulhar a minha nudez da infância, se pudesse retornar nas mãos que tenho hoje a longa e húmida vara ou os sonoros remos de antanho, impelir, sobre a lisa pele da água, o barco rústico que conduziu até às fronteiras do sonho um certo ser que flui e deixei encalhado algures no tempo." - José Saramago - As pequenas memórias

Um livro de biografia se propõe a revelar a essência do escritor. 
Fascinante conhecer um pouco mais de Saramago, único Nobel de Literatura, tornando-se o primeiro e único escritor de língua portuguesa a obter tal distinção.

Um dos escritores mais importantes da história da literatura, em Saramago - biografia pode ser acompanhado desde seu nascimento na aldeia portuguesa da Azinhaga, Golegã, até a sua mudança para a ilha de Lanzarote, Espanha, com ênfase no contexto social-histórico vivido pelo autor e sua família. Toda a obra de Saramago é revelada, desde as crônicas de A Capital e do Jornal do Fundão, até Caim.

Saramago passou a se dedicar definitivamente à escrita ficcional aos 53 anos e, em 1980 lança Levantado do Chão. Com esse romance, surge o que viria a ser conhecido como o "estilo saramaguiano"; o narrador "oraliza" a escrita como se estivesse de viva voz, como numa roda de amigos, e desrespeita ostensivamente as regras sintáticas e a pontuação. Mas é o romance Memorial do Convento, de 1982, que o consagra definitivamente.

O livro relata ainda em capítulo exclusivo,  "O encontro com Pilar del Río" a origem e evolução da relação com Saramago desde o encontro dela, Pilar em uma livraria com o Memorial del convento, quando ficou impressionada com a obra, passando pela entrevista a Juan Arias destinada ao livro José Saramago, por um agradecimento a leitura de suas obras, pela troca de cartas (as cartinhas sempre são testemunhas), pelo passeio ao túmulo de Pessoa no Cemitério dos Prazeres, leitura de obras, ah, o amor, enfim, chega enfim com Pilar se mudando para Lisboa, onde se casa com o escritor em 29 de outubro de 1988. Ela tinha 37 anos e ele, 66. Dede então viveram juntos, de fins de 1988 a início de 1993, na rua dos Ferreiros. Depois, até sua morte na Ilha Canária de Lanzarote.
Lopes, João Marques, 1960 - Saramago - Biografia / João Marques Lopes.-São Paulo: Leya, 2010. 248 p.

João Marques Lopes desenvolve, atualmente, trabalho de doutorado na área de Literatura Brasileira, pela Faculdade de Letras de Lisboa e em colaboração com a Universidade de Utrecht, na Holanda. Do autor já foram publicadas biografias sobre Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Colaborou com vários artigos na coleção Os Anos de Salazar, sempre no âmbito da literatura e cultura portuguesas. É licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ronald de Carvalho - Teoria

Areia Branca - RJ - Brasil

Teoria

Cria o teu ritmo a cada momento.
Ritmo grave ou límpido ou melancólico;
ritmo de flauta desenhando no ar imagens claras
de bosques, de águas múrmuras, de pés ligeiros e de asas;
ritmo de harpas,
ritmo de bronzes,
ritmo de pedras,
ritmo de colunas severas ou risonhas,
ritmo de estátuas,
ritmo de montanhas,
ritmo de ondas,
ritmo de dor ou ritmo de alegria!
Não esgotes jamais a fonte de tua poesia,
enche a bilha de barro ou o cântaro de grantio

com o sangue de tua carne e as vozes de teu espírito!
Cria o tue ritmo livremente,
como a natureza cria as árvores e as ervas rasteiras.

Cria o teu ritmo e criarás o mundo!

Ronald de Carvalho

"Tudo me convence ainda mais que o único e verdadeiro gênero literário que existe é o estilo. Somente com esse dom de exprimir o que pensamos e sentimos, na poesia, no romance, na crítica, é que se criam as obras de arte."

"A literatura é a própria história de cada coletividade; refletem-se nela, como num espelho polido, as imagens tristes ou risonhas da vida humana."

"O Brasil representa, sem dúvida, uma força nova da humanidade, (...) onde prodominam, é certo, as influências, mas onde já se vislumbram vários indícios de uma próxima autonomia intelectual, de que a literatura, já considerável e brilhante, constitui a melhor e mais decisiva prova."

Ronald de Carvalho - 100 Anos de Poesia

Ronald de Carvalho (1893-1935) praticamente não teve contato com o pai, fuzilado junto com seu tio pelos florianistas de Santa Catarina em 1894. Formado em Direito antes dos 20 anos, o poeta, jornalista, diplomata, trdutor e ensaísta surgiu no meio literário em 1910, colaborando para o Diário de Notícias, na época dirigido por Rui Barbosa. Três anos depois, viajou para Paris, onde estudou Filosofia e Sociologia. Quando retornou ao Brasil, iniciou carreira no Ministério das Relações Exteriores e publicou o seu primeiro livro de poemas, Luz gloriosa. Graça aranha escreveu: "Ronald é um dos construores espirituais do Brasil novo. Por ele, se formará uma sensibilidade diferente da que até agora animava a nossa terra. Deixará o Brasil de ser o lírico da tristeza, para ser o criador da perpétua alegria."

Ronald de Carvalho morreu aos 42 anos, quando ocupava os cargos de ministro Plenipotenciário e de chefe da Casa Civil da Presidência da República. Um acidente de carro interrompeu bruscamente a obra de um dos mais cultos literatos brasileiros.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Carlos Drummond de Andrade - No Meio do Caminho

Areia Branca - RJ - Brasil


 
 No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nuncca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade - 100 Anos de Poesia


Quase impossível caminhar em um ensolarado dia  sem recordar Drummond!

"(Drummond) cria uma linguagem poética inconfundível e quase inimitável, seca, precisa, direta, que não disfarça o objetivo ou a coisa. E ao lado das fdormas livres, enriquece as formas tradicionais."
Antonio Candido e José Aderaldo Castello

"Carlos Drummond de Andrade, timidíssimo, é, ao mesmo tempo, inteligentíssimo e sensibilíssimo. Coisas que se contrariam com ferocidade. E desse combate toda a poesia dele é feita."
Mário de Andrade

"Não tenho tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético."
Carlos Drummond de Andrade


Filho de uma família de fazendeiros, Carlos Drummond de Andrade começou cedo sua vida lierária. Aos 13 anos, já participava de reuniões no Grêmio Dramático e Literário Artur Azevedo, onde fazia palestras sobre literatura. Em 1918, foi estudar no colégio interno Anchieta, em Nova Friburgo, de onde foi expulso, um ano depois, por desentendimentos com um professor de português. Na justificativa oficial do colégio constava o seguinte motivo: "insubordinação mental". Drummond frequentou o colégio Arnaldo e terminou os estudos em Belo Horizonte, onde seus primeiros trabalhos foram publicados no Diário de Minas.
Drummond acreditava em relação à poesia: "Não tenho tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético."


O escritor Manuel Grana Etcheverry, genro do poeta, conta que, quando Maria Julieta ficou doente, Drummond registrou o calvário da filha em pequenas anotações, que acabam com as seguintes palavras: "Assim terminou a vida da pessoa que mais amei neste mundo. Fim." Muito abalado, numaw consulta médica, Drummond pediu à sua cardiologista que lhe receitasse um "enfarte fulminante". Doze dias depois da morte da filha, o poeta faleceu.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

100 Anos de Poesia - um panorama da poesia brasileira no século XX


100 Anos de Poesia -
 Um panorama da poesia brasileira no século XX,
 organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia, uma obra prima!


"Alta noite, quando escreveis um poema qualquer
sem sentirdes que o escreveis,
olhai vossa mão - que vossa mão não vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe."
Jorge de Lima

"Jorge, nunca o vi intranquilo ou nervoso; o mesmo sempre, inalterável, o ar generoso e discreto,  paciente com todos, às vezes dando até a impressão de deslingado ou aéreo. Ao lado da clientela do médico, a clientela do poeta. Enquanto numa sala, às vezes, Jorge tratava dos doentes, na outra ia aceso o debate de temas de cultura. E a impressão que ele dava era a de um mágico, pela maneira como fazia as coisas, pelo jeito de ir e vir, pelas surpresas que causava, como uma espécie de prestidigitador."
Valdemar Cavalcanti

Sempre que se desejar a leveza de uma leitura que somente a poesia pode proporcionar, 100 Anos de Poesia, vol I dará acesso a autores consagrados como Ivan Junqueira, Alexei Bueno, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Da Costa e Silva, Antonio Carlos Secchin, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho, B. Lopes, Francisca Júlia, José Albano, Gilka Machado, Olegário Mariano, Raul de Leoni, Jorge de Lima, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, Ruy Espinheira Filho, Mário de Andrade, Dante Milano, Guilherme de Almeida, Henriqueta Lisboa, Augusto Frederico Schmidt, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Cassiano Ricardo, Menotti de Picchia, Raul Bopp, Ascenso Ferreira, Maria Lucia de Barros Camargo, Abgar Renault, Emílio Moura, Alphonsus de Guimaraens Filho, Bueno de Rivera, Joaquim Cardozo, Cecília Meireles, Vasco Mariz, Catulo da Paixão Cearense, Leandro Gomes de Barros, Zé Limeira da Paraíba, Carlos Pena Filho, Vinicius de Moraes, Gilberto Mendonça Teles, Paulo Mendes Campos, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Domingos  Carvalho da Silva, Lêdo Ivo, Afonso Felix de Souza, Francisco Carvalho, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana.

O Acendedor de Lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

Jorge de Lima

Estou molhado dos limos primitivos
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais

Jorge de Lima

Curiosidade:
Curiosidade: Para desenvolver todas as suas atividades, Jorge de Lima mantinha uma rotina espartana. Maria Teresa de Lima, sua filha, conta que ele acordava às quatro da manhã, e, enquanto fazia a barba, ia pintando seus quadros. Das seis às oito, atendia os pobres. Daí em diante, recebia os clientes e amigos no consultório. Quando chegava em casa, já de noite, escrevia até o início da madrugada. Às quatro, já estava novamente de pé.

O vol. II de 100 Anos de Poesia apresenta um emaranhado de vozes dissonantes, os principais poetas contemporâneos onde cada poeta cria seu próprio universo, desenvolvendo meios, nem sempre convencionais, para exibir e divulgar seu trabalho, através de exposições, recitais, performances, agitos, intervenções. No despertar do terceiro milênio onde a internet é prática da cotidiana vida, a palavra - escrita, dita, musicada, coisificada - está viva como na aurora dos primeiros dias. O amante da poesia poderá sentir falta deste ou aquele autor, mas certamente outras obras surgirão para encantar com a diversidade e a qualidade dos poetas como desta espetacular obra que horam a tradição da melhor poesia brasileira de todos os tempos. E tenham dito os coordenadores editoriais. Quem sou eu para discordar. Apenas apreciar esta magnífica obra.

"Houve grandes momentos. Por exemplo, os assinalados pelos grandes poemas, que vieram desmoralizar a idéia de que a poesia morreu ou que não tem o que oferecer à cultura em tempos de "comunicação de massa". Neste sentido há uns 10 grandes poemas na literatura brasileira realmente notáveis neste século."
Affonso Romano de Sant´Anna

Vamos a eles: Manoel de Barros, Gilberto Mendonça Teles, Max Martins, Sebastião Uchôa Leite,
 Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Iumna Maria Simon, Mário Chamie, Wlademir Dias-Pino, Mário Faustino, Walmir Ayala, Ivo Barroso, Ruy Espinheirta Filho, Alberto da Costa e Silva, Mauro Mota, César Leal, H. Dobal, Nauro Machado, Alberto da Cunha Melo, Reynaldo Valinho Alvarez, Ivo Barroso, Carlos Lima, Thiago de Mello, Moacyr Félix, Ferreira Gullar, Geir Campos, Marly de Oliveira, Affonso Romano de Sant´Anna, Claudio Willer, Roberto Piva, Claudio Willer, Neide Archanjo, Paulo Bonfim, Renata Pallottini, Gerardo Melo Mourão, Armindo Trevisan, Carlos Nejar, Ivan Junqueira, Hilda Hilst, César Leal, Patativa do Assaré, Cora Coralina, José Chagas, José Carlos Capinan, Torquato Neto, Heloísa Buarque de Hollanda, Ana Cristina César, Cacaso, Geraldo Carneiro, Chacal, Paulo Leminski, Waly Salomão, Olga Savary, Anderson Braga Horta, Antônio Fantinato, Astrid Cabral, Antonio Carlos Secchin, Alexei Bueno, Mano Melo, Arnaldo Antunes, Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Adélia Prado.
As obras apresentam ainda Cronologia anual de Arte e Cultura e Ciência e Política de 1901 a 1950 e de 1951 a 2000

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.

"Não conto nada na reta, escrevo sempre nas linhas tortas, como digo aliás num poema. Na minha poesia parece que tem muita coisa de fora, mas é tudo de dentro. Sou muito preparado de conflitos."
Manoel de Barros

"Em poucas épocas teve nossa literatura um grupo homogêneo e poderoso com o que se afirmou desde a implantação do Modernismo. Seria longo e difícil mencionar todos os nomes daqueles que realizaram grandes obras marcantes a partir da segunda década do século XX, na poesia como na ficção."
Alphonsus de Guimarães Filho

domingo, 10 de outubro de 2010

Jane Austen - Razão e Sensibilidade

Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, é um livro que oportunizo iniciar a leitura neste feriado, que a muito almejo não somente pela curiosidade de saber autora do conceituado Orgulho e Preconceito.

Jane Austen nasce em 16 de dezembro de 1775. Segunda e penúltima dos oito filhos do reverendo George Austen e sua esposa Cassandra Leigh Austen. Recebe em casa a maior parte de sua instrução. Tem uma infância feliz em meio aos irmãos e a outros garotos, que se hospedam na casa e dos quais o reverendo é tutor. Amantes do romance e da poesia, para se divertir as crianças escrevem e inventam jogos e charadas, e mesmo sendo uma garotinha, Jane é incentivada a escrever. A leitura das crianças de livros da extensa biblioteca do reverendo George fornece material para que escrevam pequenas peças teatrais, que elas próprias representam.

Em 1970, com quatorze anos de idade, Jane escreve seu primeiro romance, Amor e Amizade, sob a forma epistolar - estilo que nunca seria inteiramente dominado pela escritora. Transforma-se em uma notável cronista da sociedade inglesa da época, que, ao contrário do que se poderia supor, não é uma sociedade rural típica inglesa, estável, conservadora, e sim uma sociedade burguesa, um mundo fluido e arbitrário em que algumas famílias nadam em dinheiro novo, enquanto outras lutam para manter o pouco que possuem. Com percepção aguda dos fatos e estilo pacífico, sereno e equilibrado, Jane consegue construir em seus romances uma descrição minuciosa do ambiente a que pertence com uma sutil ironia. Seus primeiros escritos contem imagens anárquicas e de violência em abundância, isto no século XVIII, revela uma ousadia incomum. A principal diferença entre Jane Austen e suas heroínas sensuais é que, no caso destas, não só suas percepções e critérios são importantes como também em geral têm a oportunidade de escolher o próprio destino.

A autora de Orgulho e Preconceito em 1817 adoece e vitimada por complicação pulmonar, vê-se obrigada a ir para Winchester para se tratar. Fica paralítica e morre em 18 de julho, aos 41 anos de idade. Uma semana depois é sepultada na catedral da cidade, sem a presença da inseparável irmã Cassandra, já que nessa época mulheres não assitem a funerais.

Biógrafos e críticos têm se perguntado como a tímida e reservada filha de um clérigo protestante do interior da Inglaterra viria a produzir livros tão sofisticados, irônicos e profundamente modernos, que não se enquadram em nenhum dos padrões literários característicos de sua época. Boa leitura, clássico!

sábado, 9 de outubro de 2010

CINE ARTE MACAÉ - 5X FAVELA - agora por nós mesmos

CINE ARTE MACAÉ - 5X FAVELA
Direção: Wagner Novais , Rodrigo Felha , Cacau Amaral , Luciano Vidigal , Cadu Barcellos , Luciana Bezerra , Manaíra Carneiro

Sessões: 15h - 16:50h - 18:50h - 20:40h (exceto quinta)- de 08 a 14/10/2010

Sinopse:

Episódio 1 - Fonte de Renda: Maicon (Sílvio Guindane) consegue realizar o sonho de passar no vestibular, mas logo se encontra apreensivo devido à sua incapacidade de arcar com os gastos com livros, alimentação e transporte. Ele fica então tentado a vender drogas para os colegas de faculdade, como forma de obter o sustento necessário para os estudos.

Episódio 2 - Arroz com Feijão: Para conseguir um quarto para o filho, os pais de Wesley (Juan Paiva) resolvem reduzir o cardápio diário a arroz com feijão. No aniversário do pai o garoto se junta ao amigo Orelha (Pablo Vinícius) para conseguir dinheiro, no intuito de comprar um frango como presente.

Episódio 3 - Concerto para Violino: Quando crianças Márcia (Cíntia Rosa), Jota (Thiago Martins) e Ademir (Samuel de Assis) fizeram um pacto de amizade eterna. Agora, com todos em torno dos 20 anos, Jota entrou para o tráfico de drogas enquanto que Ademir se tornou policial. O confronto entre os dois pode impedir que Márcia, agora violinista, realize o sonho de uma bolsa de estudos na Europa.

Episódio 4 - Deixa Voar: Flávio (Vítor Carvalho), de 17 anos, deixa que a pipa de um amigo voe. Para buscá-la ele precisa ir à favela de uma facção rival. Mesmo com medo, ele decide buscar a pipa.

Episódio 5 - Acende a Luz: É véspera de Natal e o morro está sem luz há três dias. Como os técnicos da companhia de luz não conseguem resolver o problema, um deles é sequestrado pelos moradores locais. Eles decidem fazê-lo de refém até que a luz volte.

Ficha técnica:

Título original: 5x Favela - Agora por Nós Mesmo
Gênero: Drama
Duração: 01 hs 43 min
Ano de lançamento: 2010(Brasil)
Estúdio: Luz Mágica Produções / Globo Filmes / Videofilmes / Quanta / TeleImage distribuidora:Sony Pictures Entertainment / RioFilme
Roteiro: Rafael Dragaud (coordenação), José Antônio Silva, Vilson Almeida de Oliveira, Rodrigo Cardozo, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra
Produção: Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães
Música: Guto Graça Mello
Fotografia: Alexandre Ramos
Direção de arte: Pedro Paulo de Souza e Rafael Cabeça
Figurino: Inês Salgado
Edição: Quito Ribeiro

Vale conferir!

sábado, 2 de outubro de 2010

Filipa Melo - Este é o meu corpo


Este é o meu corpo / Filipa Melo.
 - São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2004. - (Tanto mar;1)

"Este é um monólogo disfarçado de conversa. Um diálogo morto.
Não tenho ilusões. Entendo a minha loucura mascarada pelo delírio da morte nos corpos que corto. A morte é um diabo louco numa dança macabra dentro dos corpos. É com ela que eu falo: numa conversa de loucos.
Segundo dizem, para a morte e para o sol não se olha de frente. Por isso continuo, cego, a olhá-la. A olhar-me nela. A olhar-te. Cego e louco."

Numa cidade de província, noite escura, enquanto a água fustiga as pedras nas margens do rio, é encontrado um corpo virado do avesso, irreconhecível, sem formas e sem rosto, ao mesmo tempo belo e repugnante.

"Quando o homem se aproximou da ponte, já o cão rodeava o cropo. Cheirava-o, roçando o focinho nas carnes, veias e ossos que pareciam triturados. Conservavam os contornos intactos. Estendiam-se em duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça de borco entre o passeio e o alcatrão. Não havia nem olhos, nem cara, nem roupas. No meio da carne rosácea, os tendões desenhavam linhas brancas, cruzadas por músculos finos, tensos e escuros. A pele parecia ter sido sugada por um violento remoinho que a puxara para dentro, retorcida como um trapo velho, seca como um pergaminho."

"Hesito. Confesso que tento manter no discurso a pose distante de quem te observa de fora. Comporto-me como um apaixonado e apercebo-me novamente disso. Tento cativar-te. A ti, imagina, estendida, esventradada à minha frente, rodeada da luz crua das lâmpadas fluorescentes e dos reflexos baços dos azulejos. O cenário é tudo menos romântico e eu ficciono-o para te poupar à crueza dos meus gestos.
Mas é verdade. Abro-te para te extrair os segredos e te deixar partir.
O meu corpo responde também. Sinto as mãos húmidas dentro das luvas, a testa quente, a boca áspera, depois inundada pela saliva, que engulo em pequenos goles. Quero deixar as formalidades e gritar-te que preciso que me ajudes.
Ajuda-me.
Regresso à técnica e acalmo-me.

"Este é o meu corpo" é um livro para ser relido. Estranho se considerado o tema, um livro de suspense, portanto avesso a releituras mas especialmente na delicada forma de abordagem do tema se torna um livro surpreendente. Revela os mistérios de um assassinato de forma poética, através do olhar de um médico legista. Com a solenidade exigida a um ato religioso, com a ternura de uma carícia, esse corpo será desvelado através dos cortes profundos do bisturi de um médico-legista obcecado com os segredos que lhe contam os mortos. "Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam", diz ele. E é também dos reflexos desta morte na vida dos que ficam que trata este romance, puzzle de muitos corpos e das marcas da vida e da morte dentro deles. Porque o corpo humano encerra os mais intangíveis mistérios. Este é o meu corpo arrasta-nos para uma viagem apaixonante ao fundo de nós mesmos, transportados pelo estilo claro, profundo e cirúrgico de uma autora que promete deixar marcas na nova literatura portuguesa.

"Mas as palavras não querem dizer nada. As palavras não chegam. Eu só tenho as palavras.
São elas que, neste momento, te transformam em apenas mais um corpo. Que te reduzem ao mistério.
Eu não sei nada. Nem de ti, nem da morte que te estancou as feridas e se prepara para as reduzir a pó. Nem da vida que deixaste para trás.
Alguém ficou de ti. Confirmo-o agora.
Alguém que antes não era e que, quando morrer, nunca mais voltará a existir.
Alguém que, como eu, te procurará por entre os despojos de ti, e que saberá encontrar-te, e desvendar os teus sinais."

"Ninguém nasce duas vezes. Conheço a nossa individualidade composta de carne e sangue. Manobro a sua evidência na mesa de autópsias. Nascemos de uma só maneira, morremos segundo fórmulas infinitas. É a direcção que seguimos entre as duas etapas o que as estreita ou separa. O que nos destina a sobrevivermos na memória dos outros como um exemplar vivo ou um espécime morto. E a encerrarmos as nossas contas com eles.
Não existem f´romulas para a vida. Em vão desejamos herdá-las. Em vão ansiamos fazer delas um legado. Em vão."

Filipa Melo nasceu em 1972, em Angola, na cidade de Silva Porto (atual Cuito) e vive em Portugal desde os dois anos de idade. Desde 1992, desenvolve suas atividades como jornalista. Este é o meu corpo é seu primeiro romance, já publicado na França, na Espanha e na Itália.

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